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embevecido  com os vapores  capitosos



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embevecido

 com os vapores 



capitosos

— Aonde é que vai? 



O filho abriu a torneira do banheiro: 

— Fazer a barba. 

— Hora da janta. Vem comer. 

Demorava-se o rapaz, torneira fe-

chada. Com a toalha no pescoço, não 

olhou o pai. 



capitoso:

 inebriante. 



embevecido:

 extasiado.

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— Não quero jantar. Sem fome. 

O homem suspendeu a colher: 

— Não quer jantar, mas vem para a mesa. 

Todas as noites, esfomeado. Enchia a colher, 

aspirava o caldo de feijão e, fazendo bico nos 

lábios grossos, tragava-o com delícia. O filho 

desenhava com o garfo na toalha de flores es-

tampadas. A mulher, essa, contemplava o fogo

mão no queixo. 

— Dar uma volta. 

O homem sugava ruidosamente e, a cada chupão, 

o filho revolvia a ponta do garfo no coração das 

margaridas. 

— Saiu agora do quarto, filho de barão! Mas eu... 

Quando me deitar de dia na cama é para morrer! 

A mão do filho abandonou o garfo e não se mexeu. 

— Volta cedo, não é? 

A voz cansada da mãe, ainda de cos-

tas para a mesa. Não sabia ela que, ao 

defendê-lo, perdia a causa do filho? O 

Fabio Guinalz/F

otoarena/F

olhapress

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CAPÍTULO 8  DISSERTAÇÃO EM PROSA

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homem esvaziou o prato e, des-

cansando a colher, examinou as 

mãos enrugadas. 

— Estas mãos... 

Sacudidas de ligeiro tremor. 

— ... de um velho! 

A mulher apanhou o prato, 

encheu-o até a beirada. O ma-

rido retorceu as pontas úmidas 

do bigode: 

— Você não come? 

O filho contornava com o gar-

fo as pétalas na toalha. 

— Não estou com vontade. 

— Depois o senhor vai para o 

quarto. 


Cheirava a colher e sorvia a sopa, estalando a 

língua. O filho ergueu-se da mesa. 

— O senhor fica sentado. Não tem pão nesta 

casa? 


A mulher trouxe o pão. Ele não o cortava: agar-

rava-o inteiro na mão e mordia várias vezes; em 

seguida partia-o em pedaços, alinhados diante do 

prato, atacando um por um, entre as colheradas. 

— Volta cedo, não é, meu filho? 

De novo a mãe, nunca aprenderia. 

— Agora não vou mais. 

O pai dizia a última palavra: 

— Uma vergonha! O chefe tem de jantar sozinho. 

O filho preguiçoso... até para comer. A mulher... 

Com seus brados retiniam os talheres. 

— ... tem o estômago delicado. 

Não se mexeu, curvada sobre o fogão. 

— Olhe para mim quando falo com a senhora! 

Ela se virou, a enxugar as mãos na saia. 

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Depois de velha, melindro-

sa. Não pode comer com o rei da 

casa, que lhe sustenta o filho e 

lhe dá o dinheiro? 

— Sabe por que não sento. 

Os dois a olharam com es-

panto, nunca discutiu as ordens 

do marido. 

— Sei não, dona princesa. 

Pois me conte. 

Ele pedia, a colher no ar: 

— Perdeu a coragem, que não 

fala? 


Outra vez a mulher deu-lhe 

as costas. 

— Só nojo de você. 

Ele começou a soprar, manchava de borrifos a 

toalha. 

— O quê? O quê? Repita, mulher. 

A dona abriu o fogão, espertou as brasas, encheu-

-o de lenha: 

— Nada espero da vida. Mas não posso te ver 

comer. Sei que é triste para a mulher ter nojo do ma-

rido. Você chupa a colher como se fosse tua última 

sopa. Come o pão como se eu fosse te roubar. Não 

sei o que fiz a Deus para esse castigo mais desgraça-

do. Fui boa mulher, ainda que tenha nojo. Lavo tua 

roupa, deito na tua cama, cozinho tua sopa. Faço 

isso até morrer. Me peça o que quiser. Não que me 

sente a essa mesa com você e tua sopa mais negra. 

O filho abandonou a cozinha e desceu a escada. 

Os dois ouviram bater a porta da rua. O marido 

encarou pela primeira vez a mulher. Baixou os 

olhos, cabelos de gordura boiavam no caldo frio. 

Erguendo um lado do prato, acabou o resto de sopa 

e lambeu a colher. 

TREVISAN, Dalton. Quem tem medo de vampiro?.  

São Paulo: Ática, 2007. p. 65-68. 

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Nani Gois/Arqui

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o do fot—grafo



O contista e romancista Dalton Trevisan (1925), em 2012. Por 

não encontrar editor interessado em publicar sua obra, lançou 

seus contos em cadernos de papel-jornal, feito cordel, e os 

enviou a amigos e críticos entre os anos de 1950 e 1958. São 

desse período publicações como Guia histórico de Curitiba e 

Crônicas da província de Curitiba. Sua estreia em uma editora 

de alcance nacional ocorreu em 1959, ao publicar pela José 

Olympio a obra Novelas nada exemplares. Em 1985, publicou 

seu único romance, A polaquinha.

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UNIDADE 4  MUNDO DO TRABALHO (II)

belos, “ela não tem o direito de me fazer isso!” Com a 

débil voz da razão, tentei dizer-lhe que ela bem que 

tinha esse direito de amar ou não amar, vê se entende 

essa coisa tão simples! Mas ele era só ilogici-

dade e desordem: “Vou lá, dou-lhe um tiro 

no peito e me mato em seguida!” jurou. Mas 

a tantos repetiu esse juramento que fiquei 

mais tranquilizada, com a esperança de que 

a energia canalizada para o ato acabaria se 

exaurindo nas palavras. 

O que aconteceu. Uma noite me procurou todo 

penteado, todo contido, com um sorrisinho no canto 

da boca, sorriso meio sinistro, mas lúcido: “Vou ficar 

quieto, que se case com esse tipo, ótimo que se casem 

depressa porque é nesse casamento que está minha 

vingança. No casamento e no tempo. Se nenhum ca-

samento dá certo, por que o deles vai dar? Vai ser in-

feliz à beça!”. Pobre, com um filho debiloide, já andei 

investigando tudo, ele tem retardados na família, ih! 

o quanto ela vai se arrepender, por que não me casei 

com outro? Vai ficar gorda, tem propensão para engor-

dar e eu estarei jovem e lépido porque sou esportista e 

rico, vou me conservar mas ela, velha, obesa, ô delícia. 

Há ainda uma terceira porta, saída de emergência 

para os desiludidos do amor, não, 

nada de matar o objeto da paixão 

ou esperar com o pensamento ne-

gro de ódio que ela vire uma megera 

jogando moscas na sopa do marido 


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