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pinchava

 a pedra no quintal da casa dela.

Se a namorada respondesse pela mesma pedra

Era uma glória!

Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira

E então era agonia. 

No tempo do onça era assim.

BARROS, Manoel de. Tratado geral das grandezas do ’nfimo

Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 17.

TEXTO 11

pinchar:

 

arremessar.



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UNIDADE 4  MUNDO DO TRABALHO (II)

Prosa

Da prosa do período, destacamos a obra do contista, romancista e roteirista 



Rubem Fonseca (1925), que iniciou carreira na polícia, como comissário, no fim 

de 1952. Em 1963, Fonseca lançou seu primeiro livro de contos

Os prisioneiros. 

Desse livro consta o texto reproduzido a seguir. Leia-o.

TEXTO 13

O agente


Rubem Fonseca

A placa dizia “Imobiliária Ajax”, e o agente subiu 

ao segundo andar. Na sala só havia uma mesa, uma 

cadeira e um homem sentado nela, imóvel, olhando 

para o teto.

O agente olhou para ele e disse:

“Sou do Instituto de Estatística e venho fazer o 

seu questionário.”

“Que questionário?”, perguntou o homem que 

estava na mesa.

“Nome, nacionalidade, estado civil — esses dados 

todos.”


“Para quê?”

“Para o recenseamento, para sabermos quantos 

somos, o que somos.”

“O que somos? Isso não”, disse o homem da mesa, 

com certo pessimismo.

“O recenseamento nos dará a resposta de tudo”, 

disse o agente.

“Mas eu não quero saber de mais nada”, disse o 

homem. “O senhor não está vendo”, acrescentou, 

subitamente aborrecido, “que eu estou ocupado?”

“O senhor me desculpe”, disse o agente, “mas 

sou obrigado a preencher a sua ficha, o senhor 

também é, de certa forma, obrigado a colaborar. 

O senhor não leu a proclamação do presidente da 

República?”

“Não.”


“Foi publicada em todos os jornais. O presidente 

disse.”


“Isso não interessa”, disse o homem levantando 

da cadeira abrindo os braços, “por favor.” 

Mas o agente, lápis em uma das mãos e formulá-

rio na outra, não tomou conhecimento do pedido. 

“Seu nome?”, inquiriu.

O escritor mineiro Rubem Fonseca (1925), em 2015. Durante as 

décadas de 1960 e 1970, ele dedicou-se quase exclusivamente 

ao gênero conto, sobretudo ao conto policial, tendo publicado 

apenas um romance em 1973, intitulado O caso Morel. Na 

década de 1980, retomou o romance, recebendo o Prêmio 

Jabuti com a publicação, em 1983, de A grande arte

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“José Figueiredo. Mas isso não vai lhe adiantar 



de coisa alguma”, disse o homem, sentando nova-

mente. O agente, que já tinha escrito “José” no for-

mulário, parou e perguntou:

“Por quê? O senhor não está me dando um nome 

falso, está?”

“Não, oh! não. Meu nome é José Figueiredo. Sem-

pre foi. Mas se eu morrer amanhã, isso não falsifi-

cará o resultado?”

“Esse risco nós temos que correr”, respondeu o 

agente.


“Morrer?”

“Sempre morre alguém durante o processo de 

recenseamento, porém está tudo previsto. Outros 

nascem, porém está tudo previsto. Está tudo pre-

visto”, disse o agente.

“Quer dizer que eu posso morrer amanhã sem 

atrapalhar a vida de ninguém?”, perguntou José.

Ricardo Borges/F

olhapress

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CAPÍTULO 8  DISSERTAÇÃO EM PROSA

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“Pode — ora, o senhor não está com cara de quem 

vai morrer amanhã; está meio pálido e abatido, de 

fato, mas o senhor toma umas injeções, que isso 

passa. Estado civil?”

“O senhor pode guardar um segredo?”, disse José.

“Viúvo?”, disse o agente.

“Um segredo que vai durar pouco?”, continuou 

José.


“Eu só quero saber o seu estado civil, a sua — ”, 

começou o agente.

“Eu vou me matar amanhã”, cortou José.

“Como? Isso é um absurdo! O senhor está brin-

cando comigo?”

“Olhe bem para mim”, disse José, “estou com cara 

de quem está brincando com o senhor?”

“Não”, disse o agente.

“Não escrevi nenhuma carta de despedida; ou 

melhor, escrevi, escrevi várias, mas nenhuma me 

agradou. Além do mais, não sabia a quem endereçá-

-las, ao delegado de polícia? — impossível; A Quem 

Interessar Possa? — muito vago.”

“Que coisa”, murmurou o agente. “O senhor vai 

se matar mesmo?”

“Vou. Mas o senhor não precisa ficar tão choca-

do”, desculpou-se José.

“Mas isso é um absurdo”, disse o agente, pela 

segunda vez naquele dia. “O senhor não gosta de 

viver?”


“Bem”, disse José botando a mão na face e olhando 

para o teto “há certas coisas que eu ainda gostaria 

Ao lado das formas tradicionais, a prosa contemporânea apresenta gêneros 


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