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almargem:  prado, pântano. arredado



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almargem:

 prado, pântano.



arredado:

 distante.



   toleima:

 tolice, estupidez.



   torar:

 seguir caminho.

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CAPêTULO 7  CORRESPONDÊNCIA FORMAL ARGUMENTATIVA

Clarice Lispector

Na literatura de caráter psicológico, ou literatura introspectiva, outra obra, 

tão radical quanto a de Guimarães Rosa, surgiu da pena de Clarice Lispector. Leia 

um texto dela a seguir.

 Este assunto pode ser desenvolvido de forma interdisciplinar. Veja nas Orientações Específicas do Manual do 

Professor as relações interdisciplinares sugeridas.

TEXTO 6

Medo da eternidade

Clarice Lispector

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático con-

tato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha 

provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco 

deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou 

bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha 

não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu 

lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao 

sairmos de casa para a escola me explicou:

— Tome cuidado para não perder, porque esta 

bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.

— Como não acaba? — Parei um instante na rua, 

perplexa.

— Não acaba nunca, e pronto.

Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada 

para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei 

a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o 

elixir 

do longo prazer. Examinei-a, quase não podia 

acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, 

às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para 

chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis- 

-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão 

inocente, tornando possível o mundo impossível do 

qual já começara a me dar conta.

Com delicadeza, terminei afinal pondo 

o chicle na boca.

— E agora que é que eu faço? — Per-

guntei para não errar no 



ritual

 que cer-

tamente deveria haver.

— Agora chupe o chicle para ir gos-

tando do docinho dele, e só depois que 

passar o gosto você começa a mastigar. 

E aí mastiga a vida inteira. A menos que 

você perca, eu já perdi vários.

Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia 

dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhá-

vamo-nos para a escola.

— Acabou-se o docinho. E agora?

— Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei 

a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa- 

-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de 

nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contra-

feita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. 

E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma 

espécie de medo, como se tem diante da ideia de 

eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da 

eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, 

eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atravessando o por-

tão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair 

no chão de areia.

— Olha só o que me aconteceu! — Disse eu em 

fingidos espanto e tristeza. Agora não posso mas-

tigar mais! A bala acabou!

— Já lhe disse — repetiu minha irmã — que ela 

não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até 

de noite a gente pode ir mastigando, mas para não 

engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não 

fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não 

perderá.

Eu estava envergonhada diante da bon-

dade de minha irmã, envergonhada da 

mentira que pregara dizendo que o chicle 

caíra da boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade 

sobre mim.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: 

Rocco, 2008. p. 309-310.

elixir:

 tipo de 

xarope para fins 

medicamentosos; 

aquilo que tem 

efeito mágico ou 

miraculoso.

ritual:

 conjunto 

de regras que se 

deve observar 

numa cerimônia 

religiosa.

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UNIDADE 4

  MUNDO DO TRABALHO (II)

14

  Releia este trecho do texto 6:



[...] parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de prínci-

pes e fadas.

 (linhas 16-17)

a) 


Em seu caderno, explique o raciocínio do narrador.

b) 


Que palavra e/ou expressão do sétimo parágrafo resume a mesma ideia? 

Copie-a em seu caderno.

15

 “Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo 



prazer” (linhas 17-19). Copie em seu caderno outra expressão do texto que 

tenha como referente o chiclete, mas que, ao contrário dessa primeira metá-

fora, passe uma ideia negativa a respeito dele.

16

 Por que a narradora supõe a existência de um ritual para o simples ato de 



mascar chiclete?

17

  Como age a irmã diante da atitude reflexiva da narradora?



18

  A narrativa é feita em primeira pessoa, por uma narradora adulta, que recorda 

um fato da infância. A que ela parece dar mais peso: ao fato em si ou à refle-

xão despertada pela lembrança do fato? Justifique sua resposta.

19

 Empregando apenas substantivos abstratos, resuma em seu caderno o estado 



psicológico que parece envolvido nas reações da narradora em cada fragmento:

a) 


“[...] Parei um instante na rua, perplexa.” 

(texto 6, linhas 13-14)

b) 

“[...] quase não podia acreditar no milagre.” 



(texto 6, linhas 19-20)

c) 


“Perder a eternidade? Nunca.” 

(texto 6, linha 36)

20

  “E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente [...]” (linhas 



22-24). Inocente significa ‘simples’, ‘inofensivo’. Por que a aparência da bala 

causou espanto na narradora?

Somente no reino da fantasia 

poderiam existir coisas eternas.

milagre; mundo impossível

“[...] puxa-puxa cinzento de borracha [...]” (linhas 43-44)

Porque, para ela, algo que nunca acaba não poderia ser uma coisa simples.

A atitude de reflexão da narradora contrapõe-se à atitude prática da irmã.



18. À reflexão despertada pela 

lembrança. No texto, o ato de 

mascar chiclete é questiona-

do, assim como as consequên-

cias dele.

 Aceite todas as respostas coerentes.

perplexidade

descrença

decisão; determinação

20. Por causa da suposta qua-

lidade de eternidade: uma coi-

sa eterna não poderia ser tão 

simples, inofensiva.

Clarice Lispector

 (1925-1977) nasceu na Ucrânia. Sua família emigrou 

para o Brasil poucos meses depois do seu nascimento, e ela nunca 

mais voltou ao seu país de origem. Fixaram-se em Recife, onde a es-

critora passou a infância. Clarice Lispector tinha 12 anos e já era órfã 

de mãe quando a família se mudou para o Rio de Janeiro. Em 1944, 

publicou sua primeira obra: Perto do coração selvagem. Quando 

morreu, em plena atividade literária, Clarice era considerada uma 

das mais importantes prosadoras de nossa literatura.

Romances:  Perto do coração selvagem (1944), 




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