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chirimia , que  avocava



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chirimia

, que 


avocava

: que era 

um constado de enormes diversidades desta vida, que 

podiam doer na gente, sem 



jurisprudência

 de motivo 

nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois.

Sorôco.


Tomara aquilo se acabasse. O trem chegando, 

a máquina manobrando sozinha para vir pegar o 

carro. O trem apitou, e passou, se foi, o de sempre.

Sorôco não esperou tudo se sumir. Nem olhou. Só 

ficou de chapéu na mão, mais de barba quadrada, sur-

do — o que nele mais espantava. O triste do homem, lá, 



decretado



embargando-se

 de poder falar algumas 

suas palavras. Ao sofrer o assim das 

coisas, ele, no oco sem beiras, debai-

xo do peso, sem queixa, exemploso. E 

lhe falaram: — “O mundo está dessa 

forma...” Todos, no arregalado respei-

to, tinham as vistas neblinadas. De 

repente, todos gostavam demais de 

Sorôco.

Ele se sacudiu, de um jeito arre-

bentado, desacontecido, e virou, para 

ir-s’embora. Estava voltando para 

casa, como se estivesse indo para longe, fora de conta.

Mas, parou. Em tanto que se esquisitou, parecia 

que ia perder o de si, parar de ser. Assim num excesso 

de espírito, fora de sentido. E foi o que não se podia 

prevenir: quem ia fazer siso naquilo? Num rompido 

— ele começou a cantar, 



alteado

, forte, mas sozinho 

para si — e era a cantiga, mesma, de desatino, que as 

duas tanto tinham cantado. Cantava continuando.

A gente se esfriou, se afundou — um instantâneo. 

A gente... E foi sem combinação, nem ninguém en-

tendia o que se fizesse: todos, de uma vez, de dó de 

Sorôco, principiaram também a acompanhar aquele 

canto sem razão. E com as vozes tão altas! Todos 

caminhando com ele, Sorôco, e canta que cantando, 

atrás dele, os mais de detrás quase que corriam, 

ninguém deixasse de cantar. Foi o de não sair mais 

da memória. Foi um caso sem comparação.

A gente estava levando agora o Sorôco para a casa 

dele, de verdade. A gente, com ele, ia até aonde que 

ia aquela cantiga.

ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias

Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. p. 61-64.

Jo‹o Guimar‹es Rosa

 (1908-1967) nasceu em Cordisburgo (MG). Formado em 

Medicina, exerceu a profissão até 1934, quando ingressou na carreira diplomática, 

durante a qual serviu na Alemanha, na Colômbia e na França. Estreou 

como ficcionista em 1946 com um livro de contos que se tornaria 

um marco em nossa literatura: Sagarana. Mas sua consagração defi-

nitiva viria dez anos depois, com o romance Grande sertão: veredas 

(1956). Contos: Sagarana (1946), Corpo de baile (1956), Primeiras es-



tórias (1962), Tutameia: terceiras estórias (1967), Estas estórias (1969), 

Ave, palavra (1970). Suas obras foram traduzidas para diversos idiomas. 

Corpo de baile foi estruturado, a partir da terceira edição, em três volumes: 

Manuelzão e MiguilimNo Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do sertão.

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