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argumentar ou a conquistar a adesão 

do leitor para o que é (e como é) dito.

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  Selecione alguns textos escritos e identifique neles comentários que o enun-



ciador faz sobre o próprio ato de escrever, tentando explicar a função desses 

comentários. Exponha seus resultados para a turma.



Cartas a Helo’sa 

apresenta cartas escritas 

por Graciliano Ramos a 

Heloísa, mulher com quem 

o escritor se casaria. 

Trata-se de correspondência 

pessoal, que acabou 

sendo publicada por sua 

beleza e por servir de 

material aos estudiosos da 

obra de Graciliano.

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eprodução/S



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CAPêTULO 6  CARTA PESSOAL

Diálogo com a literatura

Segunda fase do Modernismo brasileiro 

(1930-1945) – prosa (II) 

Érico Veríssimo

Nas obras literárias, o destinatário de uma carta pode ser o próprio leitor, que, 

com esse recurso, terá eventualmente a sensação de participar de segredos das 

personagens, ou pode ser uma das personagens da narrativa. Esse é o caso da carta 

extraída do romance O senhor embaixador, de Érico Veríssimo, que você lerá a seguir. 

Numa fictícia República de Sacramento, situada no Caribe, o ditador Juventino 

Carrera começa a preparar terreno para permanecer no poder. Planejando isso, 

prevê a necessidade de uma emenda na lei a fim de ser possível se candidatar à ree-

leição. Caso contrário, terá de recorrer a um golpe de Estado. Eis o assunto da carta 

que ele envia a seu embaixador em Washington, Don Gabriel Heliodoro Alvarado, 

homem de sua mais absoluta confiança. Nela são feitas referências ainda a outras 

personagens da obra: Don Pánfilo, arcebispo primaz de Sacramento; Leonardo Gris, 

humanista, exilado político, que conspirava para a derrubada do tirano; e o general 

Ugarte, adido militar da embaixada, chefe de polícia corrupto e cruel.

Ao ler o texto, observe: a carta é o artifício escolhido pelo escritor do romance 

para construir aos olhos do leitor determinada face de Juventino Carrera, pois ela 

lhe permite revelar, pela voz do próprio ditador, os sentimentos mais profundos 

dessa personagem. Mais do que relatar acontecimentos e pedir providências ao 

amigo, a carta de Juventino Carrera mostra seu estado de espírito e seu caráter 

da forma mais livre possível — já que seu interlocutor é um grande amigo —, não 

lhe importando revelar a desonestidade política, a vaidade, a falta de escrúpulos. 

Por isso ele pede que a carta seja mostrada apenas a um terceiro elemento, pare-

cidíssimo com ele e com seu conselheiro, o receptor da carta. 

TEXTO 2

O senhor embaixador

Érico Veríssimo

[...]


Por aqueles dias, Gabriel Heliodoro recebeu uma 

carta confidencial do Presidente Carrera, dentro 

dum envelope lacrado.

Meu querido compadre: A situação aqui não anda 

boa. Como sabes, conforme determina a Constituição, 

temos de fazer eleições presidenciais em novembro 

deste ano. Pensei que estava preparado para entregar 

o Governo ao meu sucessor legal e retirar-me defini-

tivamente para a minha granja de Los Plátanos, pois 

ando meio doente e muito cansado. Infelizmente mi-

nha missão não está ainda cumprida, quero deixar 

pelo menos começadas as grandes obras da estrada 

transacramentenha, e terminados muitos outros em-

preendimentos que já iniciei. Por outro lado não acho 

que nosso país esteja preparado para resistir às como-

ções dum pleito presidencial. Dizem que o diabo sabe 

muito mais por ser velho do que por ser diabo. Pois este 

teu compadre, raposa velha, anda farejando algo no ar. 

Sinto uma certa inquietação não só na Universidade, 

entre professores e estudantes, como também nas ruas 

e até nas camadas mais altas da nossa sociedade.

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UNIDADE 3  MUNDO DO TRABALHO (I)

Reuni anteontem o Ministério para indagar em 

que pé se encontrava a sugestão que fiz há tempos 

de encaminhar ao Congresso um projeto de emen-

da à Constituição que permita minha segunda ree-

leição. Tinham-me garantido que a emenda seria 

aprovada até princípios de março último, o mais 

tardar. Estamos quase em maio e até agora, nada! 

O Ministro do Interior me disse que, na sua opinião, 

e na da maioria de seus companheiros de minis-

tério, a discussão dessa emenda seria uma coisa 

perigosa, pois iria acirrar os ânimos e oferecer às 

esquerdas um pretexto para começar a agitação. 

Perdi as estribeiras e gritei um par de desaforos ao 

Allende, que ficou vermelho, baixou a cabeça mas 

não disse palavra. Quando lhe perguntei, por pura 

ironia, se os ilustres ministros já tinham escolhido 

um candidato à minha sucessão, respondeu que 

sim. Imagina tu quem! O Dr. Ramón Tejera, Presi-

dente do Supremo Tribunal! O Allende entrou numa 

lenga-lenga, disse que se trata dum cidadão culto 

e íntegro, figura respeitável de magistrado, homem 

apartidário, capaz de conquistar a confiança da 

maioria do eleitorado. Perdi de novo a paciência e 

berrei: “O Dr. Tejera pode ser mais é candidato a um 

asilo de velhos! Tem quase oitenta anos. Vocês estão 

doidos!” Ninguém reagiu. O que eles querem é um 

presidente-títere que esses fazendeiros, banqueiros e 

industriais possam manejar a seu bel-prazer. Sabem 

que comigo não podem fazer isso. Agora vejo que 

tinhas razão quando me dizias que estou cercado 

de gente desleal. É o cúmulo! Haviam já articulado 

uma candidatura sem me consultarem, e viviam me 

engambelando com a promessa de conseguirem a 

aprovação da emenda.

Que providências tomar, então, para evitar que 

este país caia nas mãos dos comunistas ou dessa 

plutocracia sacramentenha que no fundo nunca 

me aceitou, nunca se conformou de ser governada 

por um homem de origem humilde como eu? O re-

médio, me parece, é um novo golpe de Estado. Con-

ferenciei ontem sigilosamente com o Ministro da 

Guerra, que pensa como eu e me garante o apoio 

total e incondicional do Exército. Temos de agir 

antes de novembro, mas precisamos, como bem 

sabes, dum bom pretexto para fechar o Congresso e 

decretar o estado de sítio. Afinal temos de levar em 

conta a opinião mundial e principalmente a dos 

Estados Unidos e a da O.E.A. Almocei ontem aqui 

no Palácio com o embaixador americano e com o 

arcebispo, e tu bem podes imaginar por que con-

videi essas duas figuras. Sondei o gringo, que tem 

ar e riso de bobo, mas é matreiro, e cheguei à con-

clusão que ele também quer me ver pelas costas. 

Perguntei a Don Pánfilo, sem mais rodeios, qual 

era a sua opinião sobre a emenda. O homem fez 

um discurso muito bonito, com aquela habilidade e 

aquela elegância que conheces, mas desconversou. 

É natural que o arcebispo queira ver no Governo 

um papa-hóstias como o Dr. Tejera, que vai todos 

os domingos à missa.

Assim sendo, compadre, o remédio é esperar que 

os agitadores botem a cabeça de fora para agirmos. 

Se não botarem, antes de novembro, seremos obriga-

dos a inventar um novo plano subversivo e assustar 

mais uma vez com o fantasma do comunismo tanto 

o Departamento de Estado como essa classe que teu 

“amigo” Gris, esse crápula apátrida, chama de “oli-

garquia rural”.

O diabo é que qualquer comoção político-social 

nesta hora poderá prejudicar esse neg



cio do emprés-

timo. Não preciso repetir que o sonho da minha vida 

é deixar pelo menos começado a transacramentenha, 

e que eu seria o homem mais feliz do mundo se essa 

rodovia viesse a ter o meu nome.

Manda-me com a possível brevidade tua opi-

nião sobre todos estes problemas. Às vezes me 

arrependo de ter-te mandado para a nossa em-

baixada em Washington. És dos poucos homens de 

cuja lealdade e amizade não duvido nem nunca 

duvidei. Mas vai ficando por aí, por enquanto, e 

trata de desencavar esse empréstimo, que é vital 

para nossa terra. Quanto ao mais, vamos deixar 

o barco correr. Confio na minha boa estrela. Antes 

de novembro, encontraremos um bom pretexto 

para o golpe.

Autorizo-te a mostrar esta carta ao Ugarte e a mais 

ninguém. O melhor será depois queimar estas pági-

nas. Sempre tive horror a coisas escritas. Recebe um 

abraço afetuoso do velho amigo e compadre

Juventino.

[...]


VERÍSSIMO, Érico. O senhor embaixador.  20. ed.  

São Paulo: Globo, 1997. p. 165-167.

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CAPÍTULO 6  CARTA PESSOAL

A utilização de cartas como estra-

tégia narrativa foi muito comum no 

século XVIII. Um dos mais famosos 

romances da literatura francesa — As 




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