Por uma outra globalizaçÃO (do pensamento único à consciência universal)



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POR  UMA  OUTRA  GLOBALIZAÇÃO

 (do pensamento único à consciência universal)

Milton Santos

Neste  livro,   Milton  Santos  propõe uma  interpretação  multidisciplinar  do 

mundo contemporâneo, em que realça o papel atual da ideologia na produção da 

história e mostra os limites do seu discurso frente à realidade vivida pela maioria das 

nações.

A tirania da informação e a do dinheiro são apresentadas como os pilares 

de uma situação em que o progresso técnico é aproveitado por um pequeno número 

de atores globais em seu benefício exclusivo. O resultado é o aprofundamento da 

competitividade, a produção de novos totalitarismos, a confusão dos espíritos e o 

empobrecimento crescente das massas, enquanto os Estados se tornam incapazes 

de regular a vida coletiva. É uma situação insustentável.

O autor enxerga nas reações agora perceptíveis na Ásia, mas também na 

África   e   na   América   Latina   e   nos   movimentos   populares   protagonizados   pelas 

camadas   mais   pobres   da   população,   a   semente   de   uma   evolução   positiva,   que 

deverá conduzir ao estabelecimento de uma outra globalização. A tônica desta hora 

é a mensagem de esperança na construção de um novo universalismo, bom para 

todos os povos e pessoas.

Este novo livro de Milton Santos trata da globalização como fábula, como 

perversidade   e   como   possibilidade   aberta   ao   futuro   de   uma   nova   civilização 

planetária.

Os atores mais poderosos desta nova etapa da globalização reservam-se 

os melhores pedaços do Território Global e deixam restos para os outros. Mas a 

grande   perversidade   na   produção   da   globalização   atual   não   reside   apenas   na 

polarização   da   riqueza   e   da   pobreza,   na   segmentação   dos   mercados   e   das 

populações   submetidas,   nem   mesmo   na   destruição   da   Natureza.   A   novidade 

aterradora   reside   na   tentativa   empírica   e   simbólica   de   construção   de   um   único 

espaço unipolar de dominação. A tirania do Dinheiro e da Informação, produzida pela 

concentração   do   capital   e   do   poder,   tem   hoje   uma   unidade   técnica   e   uma 

convergência de normas sem precedentes na história do capitalismo.

O seu caráter globalmente destrutivo acaba porém sendo contraditório, 

levando à resistência parcelas crescentes da humanidade a partir de seus distintos 

“lugares”. O velho otimismo do grande geógrafo brasileiro reaparece em relação às 

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cidades, como espaço de liberdade para a cultura popular em oposição à cultura 

midiática de massas, como espaço de solidariedade na luta dos “de baixo” contra a 

escassez produzida pelos “de cima”. A visão de uma nova horizontalidade na luta 

dos oprimidos contra a verticalidade dos opressores é comovedora e estimulante, já 

que conduz a uma nova utopia.

Produz-se assim, diz ele, uma nova centralidade do social que constitui a 

base   para   uma   nova   política.   Não   podendo   a   esmagadora   maioria   “consumir   o 

Ocidente   globalizado”   em   suas   formas   puras   (financeira,   econômica   e   cultural), 

aumentará a resistência à dominação ultraliberal e consumista propagandeada pelas 

grandes organizações dos meios de comunicação de massas. A alienação tende a 

ser substituída por uma nova consciência, uma nova filosofia moral, que não será a 

dos valores mercantis mas sim a da solidariedade e da cidadania.

A unificação da técnica e das normas instrumentais poderá servir então, 

dialeticamente,   de   trampolim   para   uma   nova   humanidade,   para   novos   valores 

simbólicos que em sua interfecundação e espalhamento abra caminhos a uma nova 

civilização   planetária.   A   História   Universal   seria   então   a   da   nossa   humanidade 

comum e não mais a dos dominadores.

Maria da Conceição Tavares

___________________________________________________________________

Milton   Santos   é   geógrafo,   professor   emérito   da   Universidade   de   São 

Paulo, ganhador do Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud em 1994 e autor 

de mais de 30 livros e 400 artigos científicos, publicados em diversos idiomas.

3



Sumário

Prefácio  06

I. Introdução Geral   08

1. O mundo como fábula, como perversidade e como possibilidade

08

O mundo tal como nos fazem crer: a globalização como fábula



08

O mundo como é: a globalização como perversidade

09

O mundo como pode ser: uma outra globalização



09 

II. A Produção da Globalização   11

Introdução   11

2. A unidade técnica

11

3. A convergência dos momentos



13

4. O motor único

13

5. A cognoscibilidade do planeta



15

6. Um período que e uma crise

15

III. Uma Globalização Perversa   18



Introdução   18

7. A tirania da informação e do dinheiro e o atual sistema ideológico

18

A violência da informação



18

Fábulas


19

A violência do dinheiro

21

As percepções fragmentadas e o discurso único do “mundo”



21

8. Competitividade, consumo, confusão dos espíritos, globalitarismo 22

A competitividade, a ausência de compaixão

22

O consumo e o seu despotismo



23

A informação totalitária e a confusão dos espíritos

24

Do imperialismo ao mundo de hoje



24

Globalitarismo e totalitarismos

25

9. A violência estrutural e a perversidade sistêmica



26

O dinheiro em estado puro

27

A competitividade em estado puro



27

A potência em estado puro

27

A perversidade sistêmica



28

10. Da política dos Estados à política das empresas

29

Sistemas técnicos, sistemas filosóficos



30

Tecnociência, globalização e história sem sentido

31

As empresas globais e a morte da política



32

11. Em meio século, três definições da pobreza

33

A pobreza “incluída”



33

A marginalidade

34

A pobreza estrutural globalizada



34

O papel dos intelectuais

35

12. O que fazer com a soberania



36

4



IV. O Território do Dinheiro e da Fragmentação   38

Introdução   38

13. O espaço geográfico: compartimento e fragmentação

38

A compartimentação: passado e presente



39

Rapidez, fluidez, fragmentação

40

Competitividade 



versus solidariedade

41

14. A agricultura científica globalizada e a alienação do território



42

A demanda externa de racionalidade

42

A cidade do campo



43

15. Compartimentação e fragmentação do espaço: o caso do Brasil

44

O papel das lógicas exógenas



44

As dialéticas endógenas

45

16. O território do dinheiro



46

Definições

46

O dinheiro e o território: situações históricas



46

Metamorfoses das duas categorias ao longo do tempo

47

O dinheiro da globalização



47

Situações regionais

48

Efeitos do dinheiro global



49

Epílogo


50

17. Verticalidades e horizontalidades

50

As verticalidades



50

As horizontalidades

52

A busca de um sentido



53

18. A esquizofrenia do espaço

54

Ser cidadão num lugar



54

O cotidiano e o território

54

Uma pedagogia da existência



55

V. Limites à Globalização Perversa    57

Introdução    57

19. A variável ascendente

57

20. Os limites da racionalidade dominante



58

21. O imaginário da velocidade

59

Velocidade: técnica e poder



59

Do relógio despótico às temporalidades divergentes

60

22. Just-in-time versus o cotidiano



61

23. Um emaranhado de técnicas: o reino do artifício e da escassez

61

Do artifício à escassez



62

Da escassez ao entendimento

63

24. Papel dos pobres na produção do presente e do futuro



63

25. A metamorfose das classes médias

65

A idade de ouro



65

A escassez chega às classes médias

66

Um dado novo na política



67

5



VI. A Transição em Marcha    68

Introdução    68

26. Cultura popular, período popular

68

Cultura de massas, cultura popular



69

As condições empíricas da mutação

70

A precedência do homem e o período popular



70

27. A centralidade da periferia

71

Limites à cooperação



72

O desafio ao Sul

72

28. A nação ativa, a nação passiva



74

Ocaso do projeto nacional?

74

Alienação da nação ativa



74

Conscientização e riqueza da nação passiva

75

29. A globalização atual não é irreversível



76

A dissolução das ideologias

76

A pertinência da utopia



77

Outros usos possíveis para as técnicas atuais

79

Geografia e aceleração da história



79

Um novo mundo possível

80

30. A história apenas começa



82

A humanidade como um bloco revolucionário

82

A nova consciência de ser mundo



83

A grande mutação contemporânea

83

6



Prefácio

Este livro quer ser uma reflexão independente sobre o nosso tempo, um pensamento 

sobre os seus fundamentos materiais e políticos, uma vontade de explicar os problemas e dores do 

mundo   atual.   Mas,   apesar   das   dificuldades   da   era   presente,   quer   também   ser   uma   mensagem 

portadora de razões objetivas para prosseguir vivendo e lutando.

O trabalho intelectual no qual ele assenta é fruto de nossa dedicação ao entendimento do 

que   hoje   é   o   espaço   geográfico,   mas   é   também   tributário   de   outras   realidades   e   disciplinas 

acadêmicas.

Diferentemente de outros livros nossos, o leitor não encontrará aqui listagens copiosas 

de citações. Tais livros enfocavam questões da sociedade, verdadeiras teses, isto é, demonstrações 

sustentadas e ambiciosas, dirigidas sobretudo à seara acadêmica, levando, por isso, o autor a fazer, 

ao pequeno mundo dos colegas, a concessão das bibliografias copiosas. Todo mundo sabe que esta 

se tornou quase uma obrigação de 

scholarship, já que a academia gosta muito de citações, quantas 

vezes ociosas e até mesmo ridículas. Sem dúvida, este livro também se dirige a estudiosos, mas 

sobretudo deseja alcançar o vasto mundo, o que dispensa a obrigação cerimonial das referências. 

Não quer isso dizer que o autor imagine haver sozinho redescoberto a roda; sua experiência em 

diferentes momentos do século e em diversos países e continentes é também a experiência dos 

outros a quem leu ou escutou. Mas a originalidade é a interpretação ou a ênfase própria, a forma 

individual de combinar o que existe e o que é vislumbrado: a própria definição do que constitui uma 

idéia.

Este livro resulta de um longo trabalho, árduo e agradável. A maioria grande dos seus 



capítulos é inédita  em sua  forma  atual. E é também, de algum modo, uma reescritura  de  aulas, 

conferências, artigos de jornais e revistas, entrevistas à mídia, cada qual oferecendo um nível de 

discurso e a respectiva dificuldade. Somos muitíssimo gratos a todos os que colaboraram para esse 

diálogo   e   até   mesmo   àqueles   que   desconheciam   estar   participando   de   uma   troca.   Dentre   os 

primeiros, quero destacar os atuais companheiros do projeto acadêmico ambicioso que, desde 1983, 

venho conduzindo no Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo: minha incansável 

colaboradora, doutora María Laura Silveira, que leu o conjunto do manuscrito, e a professora doutora 

Maria Ângela Faggin Pereira Leite, assim como as doutorandas Adriana Bernardes, Cilene Gomes e 

Mônica  Arroyo  e   os  mestrandos  Eliza  Almeida,   Fábio  Contel,   Flávia   Grimm,  Lídia  Antongiovanni, 

Marcos   Xavier,   Paula   Borin   e   Soraia   Ramos.   Ao   Departamento   de   Geografia   da   Faculdade   de 

Filosofia, Letras e Ciências Humanas que me acolhe e estimula e particularmente ao Laboratório de 

Geografia   Política   e   Planejamento   Territorial   e   Ambiental   (Lapoban),   coordenado   por   meu   velho 

amigo Armen Mamigonian, vão, também, meus agradecimentos. Estes também incluem os colegas 

Maria Adélia A. de Souza, Rosa Ester Rossini e Ana Clara Torres Ribeiro, com quem colaboro há 

cerca de 20 anos.

Aos   colaboradores   gratuitos,   encontrados   em   inúmeras   viagens   pelo   país   ou 

participantes de conferências, debates e congressos, sou também devedor pelas suas intervenções e 

sugestões. Sou grato à 

Folha de S. Paulo e ao Correio Braziliense pela autorização para republicação 

de artigos meus na sua forma original ou modificada. Ainda no capítulo dos agradecimentos, uma 

palavra especial vai à geógrafa Flávia Grimm, que teve a paciência de acolher os cansativos ditados 

de manuscrito de que resulta este livro. A assistência da geógrafa Paula Borin outra vez mostrou-se 

valiosa. Sou, também, muito sensível ao apoio recebido do Conselho Nacional de Desenvolvimento 

Científico   e   Tecnológico   (CNPq),   da   Fundação   de   Amparo   à   Pesquisa   do   Estado   de   São   Paulo 

(FAPESP).   Essas   agências   não   contribuíram   diretamente   para   este   trabalho,   mas   a   produção 

intelectual   é   sempre   unitária,   uma   oba   ou   pesquisa   sendo   sempre   um   subproduto   das   demais. 

Também, como sempre, o estímulo recebido de minha mulher, Marie Hélène, foi muito precioso.

Ao   contrário   de   um   autor   francês   Joël   de   Rosnay,   que,   no   prefácio   ao   seu   livro   Le 

Macroscope, sugeriu aos seus leitores começar a leitura por onde quiserem, devo fazer uma outra 

advertência. Se alguém ler inicialmente ou separadamente os primeiros capítulos, pode considerar o 

autor pessimista; e quem preferir os últimos, poderá imaginá-lo um otimista. Na realidade, o que 

buscamos foi, de um lado, tratar da realidade tal como ela é, ainda que se mostre pungente; e, de 

outro lado, sugerir a realidade tal como ela pode vir a ser, ainda que para os céticos nosso vaticínio 

atual apareça risonho.

A   ênfase   central   do   livro   vem   da   convicção   do   papel   da   ideologia   na   produção, 

disseminação, reprodução e manutenção da globalização atual. Esse papel é também, uma novidade 

do nosso tempo. Daí a necessidade de analisar seus princípios fundamentais, apontando suas linhas 

de fraqueza e de força. Nossa insistência sobre o papel da ideologia deriva da nossa convicção de 

que, diante dos mesmos materiais atualmente existentes, tanto é possível continuar a fazer do planeta 

um inferno, conforme no Brasil estamos assistindo, como também é viável realizar o seu contrário. Daí 

a relevância da política, isto é, da arte de pensar mudanças e de criar as condições para torná-las 

7



efetivas. Aliás, as transformações que a história ultimamente vem mostrando permitem entrever a 

emergência de situações mais promissoras. Podem objetar-nos que a nossa crença na mudança do 

homem é injustificada. E se o que estiver mudando for o mundo?

Estamos   convencidos   de   que   a   mudança   histórica   em   perspectiva   provirá   de   um 

movimento de baixo para cima, tendo como atores principais os países subdesenvolvidos e não os 

países ricos; os deserdados e os pobres e não os opulentos e outras classes obesas; o indivíduo 

liberado   participe   das   novas   massas   e   não   o   homem   acorrentado;   o   pensamento   livre   e   não   o 

discurso único.

Como acreditamos na força das idéias – para o bem e para o mal – nesta fase da história, 

em filigrana  aparecerá  como  constante  o papel  intelectual no mundo  de hoje,  isto é, o  papel do 

pensamento livre. Por isso, nos primeiros projetos de redação havia o intuito de dedicar um capítulo 

exclusivo  à atividade  intelectual genuína. Todavia  achei melhor discutir esse papel em diferentes 

momentos da redação, sempre que a ocasião se levantava.

O livro é formado de seis partes, das quais a primeira é a introdução. A segunda inclui 

cinco capítulos e busca mostrar como se deu o processo de produção da globalização. Este tema já 

havia sido tratado de alguma forma em outras publicações e livros meus. A terceira parte, formada por 

seis   capítulos,   busca   explicar   por   que   a   globalização   atual   é   perversa,   fundada   na   tirania   da 

informação e do dinheiro, na competitividade, na confusão dos espíritos e na violência estrutural, 

acarretando o desfalecimento da política feita pelo Estado e a imposição de uma política comandada 

pelas   empresas.   A   quarta   parte   mostra   as   relações   mantidas   entre   a   economia   contemporânea, 

sobretudo as finanças, e o território. Esta parte é constituída de seis capítulos, dos quais o último 

poderia também se incluir na parte seguinte, pois, por meio da noção de esquizofrenia do território, 

mostramos como o espaço geográfico constitui um dos limites a essa globalização perversa. É essa 

idéia de limite à história atual que se impõe na quinta parte, em que são mostrados ao mesmo tempo 

os descaminhos da racionalidade dominante, a emergência de novas variáveis centrais e o papel dos 

pobres na produção do presente e do futuro. A sexta parte, uma espécie de conclusão, é dedicada ao 

que imaginamos ser, nesta passagem de século, a transição em marcha. Aqui, os temas versados 

realçam as manifestações pouco estudadas do país de baixo, desde a cultura até a política, raciocínio 

que   se   aplica   também   à   própria   periferia   do   sistema   capitalista   mundial,   cuja   centralidade 

apresentamos como um novo fator dinâmico da história. É, exatamente, porque esses atores, eficazes 

mas ainda pouco estudados, são largamente presentes, que acreditamos não ser a globalização atual 

irreversível e estamos convencidos de que a história universal apenas começa.

8



I   -   INTRODUÇÃO  GERAL

1.  


O mundo como fábula, como perversidade e como possibilidade

Vivemos num mundo confuso e confusamente percebido.  Haveria nisto um paradoxo 

pedindo uma explicação? De um lado, é abusivamente mencionado o extraordinário progresso das 

ciências e das técnicas, das quais um dos frutos são os novos materiais artificiais que autorizam a 

precisão   e   a   intencionalidade.   De   outro   lado,   há,   também,   referência   obrigatória   à   aceleração 

contemporânea   e   todas   as   vertigens   que   cria,   a   começar   pela   própria   velocidade.   Todos   esses, 

porém, são dados de um mundo físico fabricado pelo homem, cuja utilização, aliás, permite que o 

mundo   se   torne   esse   mundo   confuso   e   confusamente   percebido.   Explicações   mecanicistas   são, 

todavia, insuficientes. É a maneira como, sobre essa base material, se produz a história humana que 

é a verdadeira responsável pela criação da torre de babel em que vive a nossa era globalizada. 

Quando tudo permite imaginar que se tornou possível a criação de um mundo veraz, o que é imposto 

aos espíritos é um mundo de fabulações, que se aproveita do alargamento de todos os contextos (M. 

Santos,  

A natureza do espaço, 1996) para consagrar um discurso único. Seus fundamentos são a 

informação e o seu império, que encontram alicerce na produção de imagens e do imaginário, e se 

põem ao serviço do império do dinheiro, fundado este na economização e na monetarização da vida 

social e da vida pessoal.

De   fato,   se   desejamos   escapar   à   crença   de   que   esse   mundo   assim   apresentado   é 

verdadeiro, e não queremos admitir a permanência de sua percepção enganosa, devemos considerar 

a existência de pelo menos três mundos num só. O primeiro seria o mundo tal como nos fazem vê-lo: 

a   globalização   como   fábula;   o   segundo   seria   o   mundo   tal   como   ele   é:   a   globalização   como 

perversidade; e o terceiro o mundo como ele pode ser: uma outra globalização.

O mundo tal como nos fazem crer:  a globalização como fábula

Este mundo globalizado, visto como fábula, erige como verdade um certo número de 

fantasias, cuja repetição, entretanto, acaba por se tornar uma base aparentemente sólida de sua 

interpretação (Maria da Conceição Tavares,

 Destruição não criadora, 1999).

A máquina ideológica que sustenta as ações preponderantes da atualidade é feita de 

peças que se alimentam mutuamente e põem em movimento os elementos essenciais à continuidade 

do sistema. Damos aqui alguns exemplos. Fala-se, por exemplo, em aldeia global para fazer crer que 

a   difusão   instantânea   de   notícias   realmente   informa   as   pessoas.   A   partir   desse   mito   e   do 

encurtamento das distâncias – para aqueles que realmente podem viajar – também se difunde a noção 

de tempo e espaço contraídos. É como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance da 

mão. Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta 

quando, na verdade, as diferenças  locais  são  aprofundadas. Há  uma  busca  de  uniformidade,  ao 

serviço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido, tornando mais distante o sonho 

de uma cidadania verdadeiramente universal. Enquanto isso, o culto ao consumo é estimulado.

Fala-se, igualmente, com insistência, na morte do Estado, mas o que estamos vendo é 

9



seu   fortalecimento   para   atender   aos   reclamos   da   finança   e   de   outros   grandes   interesses 

internacionais, em detrimento dos cuidados com as populações cuja vida se torna mais difícil.

Esses poucos  exemplos,  recolhidos  numa  lista  interminável,  permitem indagar-se,  no 

lugar do fima da ideologia proclamado pelos que sustentam a bondade dos presentes processos de 

globalização, não estaríamos, de fato, diante da presença de uma ideologização maciça, segundo a 

qual a realização do mundo atual exige como condição essencial o exercício de fabulações.

O mundo como é:  a globalização como perversidade

De fato, para a grande maior parte da humanidade a globalização está se impondo como 

uma fábrica de perversidades. O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as 

classes médias perdem em qualidade de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e o desabrigo 

se generalizam em todos os continentes. Novas enfermidades como a SIDA se instalam e velhas 

doenças, supostamente extirpadas, fazem seu retorno triunfal. A mortalidade infantil permanece, a 

despeito   dos   progressos   médicos   e   da   informação.   A   educação   de   qualidade   é   cada   vez   mais 

inacessível. Alastram-se e aprofundam-se males espirituais e morais, como os egoísmos, os cinismos, 

a corrupção.

A perversidade sistêmica que está na raiz dessa evolução negativa da humanidade tem 

relação com a adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que atualmente caracterizam 

as ações hegemônicas. Todas essas mazelas são direta ou indiretamente imputáveis ao presente 

processo de globalização.

O mundo como pode ser:  uma outra globalização

Todavia,   podemos   pensar   na   construção   de   um   outro   mundo,   mediante   uma 

globalização mais humana. As bases materiais do período atual são, entre outras, a unicidade da 

técnica, a convergência dos momentos e o conhecimento do planeta. É nessas bases técnicas que o 

grande capital se apóia para construir a globalização perversa de que falamos acima. Mas, essas 

mesmas bases  técnicas poderão   servir   a  outros objetivos,  se  forem  postas  ao  serviço  de  outros 

fundamentos sociais e políticos. Parece que as condições históricas do fim do século XX apontavam 

para esta última possibilidade. Tais novas condições tanto se dão no plano empírico quanto no plano 

teórico.


Considerando o que atualmente se verifica no plano empírico, podemos, em primeiro 

lugar, reconhecer um certo número de fatos novos indicativos da emergência de uma nova história. O 

primeiro   desses   fenômenos   é   a   enorme   mistura   de   povos,   raças,   culturas,   gostos,   em   todos   os 

continentes. A isso se acrescente, graças aos progressos da informação, a “mistura” de filosofias, em 

detrimento do racionalismo europeu. Um  outro dado de nossa era, indicativo da possibilidade de 

mudanças, é a produção de uma população aglomerada em áreas cada vez menores, o que permite 

ainda maior dinamismo àquela mistura entre pessoas e filosofias. As massas de que falava Ortega y 

Gasset na primeira metade do século (

La rebelión de las masas, 1937), ganham uma nova qualidade 

em virtude da sua aglomeração exponencial e de sua diversificação. Trata-se da existência de uma 

verdadeira   sociodiversidade,   historicamente   muito   mais  significativa   que   a   própria   biodiversidade. 

10



Junte-se a esses fatos a emergência de uma cultura popular que se serve dos meios técnicos antes 

exclusivos da cultura de massas, permitindo-lhe exercer sobre esta última uma verdadeira revanche 

ou vingança.

É sobre tais alicerces que se edifica o discurso da escassez, afinal descoberta pelas 

massas. A população aglomerada em poucos pontos da superfície da Terra constitui uma das bases 

de reconstrução e de sobrevivência das relações locais, abrindo a possibilidade de utilização, ao 

serviço dos homens, do sistema técnico atual.

No plano teórico, o que verificamos é a possibilidade de produção de um novo discurso, 

de uma nova metanarrativa, um novo grande relato. Esse novo discurso ganha relevância pelo fato de 

que, pela primeira vez na história do homem, se pode constatar a existência de uma universalidade 

empírica. A universalidade deixa de ser apenas uma elaboração abstrata na mente dos filósofos para 

resultar da experiência ordinária de cada homem. De tal modo, em um mundo datado como o nosso, 

a explicação do acontecer pode ser feita a partir de categorias de uma história concreta. É isso, 

também, que permite conhecer as possibilidades existentes e escrever uma nova história.

11



II   -   A  PRODUÇÃO  DA  GLOBALIZAÇÃO

Introdução

A globalização é, de certa foma, o ápice do processo de internacionalização do mundo 

capitalista.   Para   entendê-la,   como,   de   resto,   a   qualquer   fase   da   história,   há   dois   elementos 

fundamentais a levar em conta: o estado das técnicas e o estado da política.

Há uma tendência a separar uma coisa da outra. Daí muitas interpretações da história a 

partir das técnicas. E, por outro lado, interpretações da história a partir da política. Na realidade, 

nunca houve na história humana separação entre as duas coisas. As técnicas são oferecidas como 

um   sistema   e   realizadas   combinadamente   através   do   trabalho   e   das   formas   de   escolha   dos 

momentos e dos lugares de seu uso. É isso que fez a história.

No   fim   do   século   XX   e   graças   aos   avanços   da   ciência,   produziu-se   um   sistema   de 

técnicas presidido pelas técnicas da informação, que passaram a exercer um papel de elo entre as 

demais, unindo-as e assegurando ao novo sistema técnico uma presença planetária.

Só que a globalização não é apenas a existência desse novo sistema de técnicas. Ela é 

também o resultado das ações que asseguram a emergência de um mercado dito global, responsável 

pelo essencial dos processos políticos atualmente eficazes. Os fatores que contribuem para explicar a 

arquitetura   da   globalização   atual   são:   a   unicidade   da   técnica,   a   convergência   dos   momentos,   a 

cognoscibilidade do planeta e a existência de um motor único na história, representado pela mais-

valia globalizada. Um mercado global utilizando esse sistema de técnicas avançadas resulta nessa 

globalização perversa. Isso poderia ser diferente se seu uso político fosse outro. Esse é o debate 

central, o único que nos permite ter a esperança de utilizar o sistema técnico contemporâneo a partir 

de outras formas de ação. Pretendemos, aqui, enfrentar essa discussão, analisando  rapidamente 

alguns dos seus aspectos constitucionais mais relevantes.

2.  


A  unidade  técnica

O desenvolvimento da história vai de par com o desenvolvimento das técnicas. Kant dizia 

que a história é um progresso sem fim; acrescentemos que é também um progresso sem fim das 

técnicas. A cada evolução técnica, uma nova etapa histórica se torna possível.

As técnicas se dão como famílias. Nunca, na história do homem, aparece uma técnica 

isolada; o que se instala são grupos de técnicas, verdadeiros sistemas. Um exemplo banal pode ser 

dado com a foice, a enxada, o ancinho, que constituem, num dado momento, uma família de técnicas.

Essas famílias de técnicas transportam uma história, cada sistema técnico representa 

uma época. Em nossa época, o que é representativo do sistema de técnicas atual é a chegada da 

técnica da informação, por meio da cibernética, da informática, da eletrônica. Ela vai permitir duas 

grandes coisas: a primeira é que as diversas  técnicas existentes passam a se comunicar entre elas. 

A  técnica da informação assegura esse comércio, que antes não era possível. Por outro lado, ela tem 

um papel determinante sobre o uso do tempo, permitindo, em todos os lugares, a convergência dos 

momentos,   assegurando   a   simultaneidade   das  ações   e,   por   conseguinte,  acelerando   o   processo 

12



histórico.

Ao   surgir   uma   nova   família   de   técnicas,   as   outras   não   desaparecem.   Continuam 

existindo, mas o novo conjunto de instrumentos passa a ser usado pelos novos atores hegemônicos, 

enquanto os não hegemônicos  continuam utilizando conjuntos menos atuais e  menos poderosos. 

Quando um determinado ator não tem as condições para mobilizar as técnicas consideradas mais 

avançadas, torna-se, por isso mesmo, um ator de menor importância no período atual.

Na   história   da   humanidade   é   a   primeira   vez   que   tal   conjunto   de   técnicas   envolve   o 

planeta como um todo e faz sentir, instantaneamente, sua presença. Isso, aliás, contamina a forma de 

existência   das   outras     técnicas,   mais   atrasadas.   As   técnicas   características   do   nosso   tempo, 

presentes que sejam em um só ponto do território, têm uma influência marcante sobre o resto do país, 

o que é bem diferente das situações anteriores. Por exemplo, a estrada de ferro instalada em regiões 

selecionadas,   escolhidas   estrategicamente,   alcançava   uma   parte   do   país,   mas   não   tinha   uma 

influência direta determinante sobre o resto do território. Agora não. A técnica da informação alcança 

a totalidade de cada país, direta ou indiretamente. Cada lugar tem acesso ao acontecer dos outros. O 

princípio de seletividade se dá também como princípio de hierarquia, porque todos os outros lugares 

são avaliados e devem se referir àqueles dotados das técnicas hegemônicas. Esse é um fenômeno 

novo na história das  técnicas e na história dos territórios. Antes havia  técnica hegemônicas e não 

hegemônicas; hoje, as  técnicas não hegemônicas são hegemonizadas. Na verdade, porém, a técnica 

não pode ser vista como um dado absoluto, mas como técnica já relativizada, isto é, tal como usada 

pelo homem. As técnicas apenas se realizam, tornando-se história, com a intermediação da política, 

isto é, da política das empresas e da política dos Estados, conjunta ou separadamente.

Por   outro   lado,   o   sistema   técnico   dominante   no   mundo   de   hoje   tem   uma   outra 

característica, isto é, a de ser invasor. Ele não se contenta em ficar ali onde primeiro se instala e 

busca espalhar-se, na produção e no território. Pode não o conseguir, mas é essa sua vocação, que é 

também fundamento da ação dos atores hegemônicos, como, por exemplo, as empresas globais. 

Estas funcionam a partir de uma fragmentação, já que um pedaço da produção pode ser feita na 

Tunísia, outro na Malásia, outro ainda no Paraguai, mas isto apenas é possível porque a técnica 

hegemônica de que falamos é presente ou passível de presença em toda a parte. Tudo se junta e 

articula depois mediante a “inteligência” da firma. Senão não poderia haver empresa transnacional. 

Há, pois, uma relação estreita entre esse aspecto da economia da globalização e a natureza do 

fenômeno técnico correspondente a este período histórico. Se a produção se fragmenta tecnicamente, 

há, do outro lado, uma unidade política de comando. Essa unidade política do comando funciona no 

interior das firmas, mas não há propriamente uma unidade de comando do mercado global. Cada 

empresa comanda as respectivas operações dentro da sua respectiva topologia, isto é, do conjunto 

de lugares da sua ação, enquanto a ação dos Estados e das instituições supranacionais não basta 

para impor uma ordem global. Levando ao extremo esse raciocínio, poder-se-ia dizer que o mercado 

global não existe como tal.

Há uma relação de causa e efeito entre o progresso técnico atual e as demais condições 

de implantação do atual período histórico. É a partir da unicidade das técnicas, da qual o computador 

é uma peça central, que surge a possibilidade de existir uma finança universal, principal responsável 

pela imposição a todo o globo de uma mais-valia mundial. Sem ela, seria também impossível a atual 

unicidade do tempo, o acontecer local sendo percebido como um elo do acontecer mundial. Por outro 

lado, sem a mais-valia globalizada e sem essa unicidade do tempo, a unicidade da técnica não teria 

13



eficácia.

3.  


A  convergência  dos  momentos

A unicidade do tempo não é apenas o resultado de que, nos mais diversos lugares, a 

hora do relógio é a mesma. Não é somente isso. Se a hora é a mesma, convergem, também, os 

momentos vividos. Há uma confluência dos momentos como resposta àquilo que, do ponto de vista 

da física, chama-se de tempo real e, do ponto de vista histórico, será chamado de interdependência e 

solidariedade do acontecer. Tomada como fenômeno físico, a percepção do tempo real não só quer 

dizer que a hora dos relógios é a mesma, mas que podemos usar esses relógios múltiplos de maneira 

uniforme. Resultado do progresso científico e técnico, cuja busca se acelerou com a Segunda Guerra, 

a   operação   planetária   das   grandes   empresas   globais   vai   revolucionar   o   mundo   das   finanças, 

permitindo ao respectivo mercado que funcione em diversos lugares durante o dia inteiro. O tempo 

real também autoriza usar o mesmo momento a partir de múltiplos lugares; e todos os lugares a partir 

de um só deles.  E, em ambos os casos, de forma concatenada e eficaz.

Com   essa   grande   mudança   na   história,   tornamo-nos   capazes,   seja   onde   for,   de   ter 

conhecimento do que é o acontecer do outro. Nunca houve antes essa possibilidade oferecida pela 

técnica à nossa geração de ter em mãos o conhecimento instantâneo do acontecer do outro. Essa é a 

grande novidade, o que estamos chamando de unicidade do tempo ou convergência dos momentos. 

A aceleração da história, que o fim do século XX testemunha, vem em grande parte disto. Mas a 

informação instantânea e globalizada por enquanto não é generalizada e veraz porque atualmente 

intermediada pelas grandes empresas de informação.

E quem são os atores do tempo real? Somos todos nós? Esta pergunta é um imperativo 

para que possamos melhor compreender nossa época. A ideologia de um mundo só e da aldeia 

global considera o tempo real como um patrimônio coletivo da humanidade. Mas ainda estamos longe 

desse ideal, todavia alcançável.

A história é comandada pelos grandes atores desse tempo real, que são, ao mesmo 

tempo, os donos da velocidade e os autores do discurso ideológico. Os homens não são igualmente 

atores   desse   tempo   real.   Fisicamente,   isto   é,   potencialmente,   ele   existe   para   todos.   Mas 

efetivamente,   isto   é,   socialmente,   ele   é   excelente   e   assegura   exclusividades,   ou,   pelo   menos, 

privilégios de uso. Como ele é utilizado por um número reduzido de atores, devemos distinguir entre a 

noção de fluidez efetiva. Se a técnica cria aparentemente para todos a possibilidade da fluidez, quem, 

todavia, é fluido realmente? Que empresas são realmente fluidas? Que pessoas? Quem, de fato, 

utiliza em seu favor esse tempo real? A quem, realmente, cabe a mais-valia criada a partir dessa nova 

possibilidade de utilização do tempo? Quem pode e quem não pode? Essa discussão leva-nos a uma 

outra,   na   fase   atual   do   capitalismo,   ao   tomarmos   em   conta   a   emergência   de   um   novo   fator 

determinante da história, representado pelo que aqui estamos denominando de 

motor único.

4.  


O  motor  único

Este período dispõe de um sistema unificado de técnicas, instalado sobre um planeta 

informado e permitindo ações igualmente globais. Até que ponto podemos falar de uma mais-valia à 

14



escala mundial, atuando como um motor único de tais ações?

Havia,   com   o   imperialismo,   diversos   motores,   cada   qual   com   sua   força   e   alcance 

próprios: o motor francês, o motor inglês, o motor alemão, o motor português, o belga, o espanhol 

etc., que eram todos motores do capitalismo, mas empurravam as máquinas e os homens segundo 

ritmos diferentes, modalidades diferentes, combinações diferentes. Hoje haveria um motor único que 

é, exatamente, a mencionada mais-valia universal.

Esta tornou-se possível porque a partir de agora a produção se dá à escala mundial, por 

intermédio de empresas mundiais, que competem entre si segundo uma concorrência extremamente 

feroz, como jamais existiu. As que resistem e sobrevivem são aquelas que obtêm a mais-valia maior, 

permitindo-se, assim, continuar a proceder e a competir.

Esse motor único se tornou possível porque nos encontramos em um novo patamar da 

internacionalização, com uma verdadeira mundialização do produto, do dinheiro, do crédito, da dívida, 

do   consumo,   da   informação.   Esse   conjunto   de   mundializações,   uma   sustentando   e   arrastando   a 

outra, impondo-se mutuamente, é também um fato novo.

Um elemento da internacionalização atrai outro, impõe outro, contém e é contido pelo 

outro. Esse sistema de forças pode levar a pensar que o mundo se encaminha para algo como uma 

homogeneização, uma vocação a um padrão único, o que seria devido, de um lado, à mundialização 

da técnica, de outro, à mundialização da mais-valia.

Tudo isso é realidade, mas também e sobretudo tendência, porque em nenhum lugar, em 

nenhum país, houve completa internacionalização. O que há em toda parte é uma vocação às mais 

diversas combinações de vetores e formas de mundialização.

Pretendemos que a história, agora, seja  movida por esse motor único. Cabe, assim, 

indagar qual seria a sua natureza. Será ele abstrato? Que é essa mais-valia considerada ao nível 

global? Ela é fugidia e nos escapa, mas não é abstrata. Ela existe e se impõe como coisa real, 

embora não seja propriamente mensurável, já que está sempre evoluindo, isto é, mudando. Ela é 

“mundial” porque entretida pelas empresas globais que se valem dos progressos científicos e técnicos 

disponíveis no mundo e pedem, todos os dias, mais progresso científico e técnico.

A atual competitividade entre as empresas é uma forma de exercício dessa mais-valia 

universal, que se torna fugidia exatamente porque deixamos o mundo da competição e entramos no 

mundo   da   competitividade.   O   exercício   da   competitividade   torna   exponencial   a   briga   entre   as 

empresas e as conduz a alimentar uma demanda diuturna de mais ciência, de mais tecnologia, de 

melhor organização, para manter-se à frente da corrida.

Quando, na universidade, somos solicitados todos os dias a trabalhar para melhorar a 

produtividade como se fosse algo abstrato e individual, estamos impelidos a oferecer às grandes 

empresas   possibilidades   ainda   maiores   de   aumentar   sua   mais-valia.   Novos   laboratórios   são 

chamados a encontrar as novas técnicas, os novos materiais, as novas soluções organizacionais e 

políticas que permitam às empresas fazer crescer a sua produtividade e o seu lucro. A cada avanço 

de uma empresa, outra do mesmo ramo solicita inovações que lhe permitam passar à frente da que 

antes era a campeã. Por isso, tal mais-valia está sempre correndo, quer dizer, fugindo para a frente. 

Um corte no tempo é idealmente possível, mas está longe de expressar a realidade atual cruelmente 

instável. Por isso não se pode, desse modo, medi-la, mas ela existe. Se ela pode parecer abstrata, a 

mais-valia agora universal na verdade se impõe como um dado empírico, objetivo, quando utilizada no 

processo da produção e como resultado da competitividade.

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5.  

A  cognoscibilidade  do  planeta

O período histórico atual vai permitir o que nenhum outro período ofereceu ao homem, 

isto é, a possibilidade de conhecer o planeta extensiva e aprofundadamente. Isto nunca existiu antes, 

e deve-se, exatamente, aos progressos da ciência e da técnica (melhor ainda, aos progressos da 

técnica devidos aos progressos da ciência).

Esse período técnico-científico da história permite ao homem não apenas utilizar o que 

encontra na natureza: novos materiais são criados nos laboratórios como um produto da inteligência 

do homem, e precedem a produção dos objetos. Até a nossa geração, utilizávamos os materiais que 

estavam à nossa disposição. Mas a partir de agora podemos conceber os objetos que desejamos 

utilizar e então produzimos a matéria-prima indispensável à sua fabricação. Sem isso não teria sido 

possível fazer os satélites que fotografam o planeta a intervalos regulares, permitindo uma visão mais 

completa e detalhada da Terra. Por meio dos satélites, passamos a conhecer todos os lugares e a 

observar outros astros. O funcionamento do sistema solar torna-se mais perceptível, enquanto a Terra 

é vista em detalhe; pelo fato de que os satélites repetem suas órbitas, podemos captar momentos 

sucessivos, isto é, não mais apenas retratos momentâneos e fotografias isoladas do planeta. Isso não 

quer dizer que tenhamos, assim, os processos históricos que movem o mundo, mas ficamos mais 

perto   de   identificar   momentos   dessa   evolução.   Os   objetos   retratados   nos   dão   geometrias,   não 

propriamente geografias, porque nos chegam como objetos em si, sem a sociedade vivendo dentro 

deles.   O   sentido   que   têm   as   coisas,   isto   é,   seu   verdadeiro   valor,   é   o   fundamento   da   correta 

interpretação de tudo o que existe. Sem isso, corremos o risco de não ultrapassar uma interpretação 

coisicista de algo que é muito mais que uma simples coisa, como os objetos da história. Estes estão 

sempre   mudando   de   significado,   com   o   movimento   das   sociedades   e   por   intermédio   das   ações 

humanas sempre renovadas.

Com a globalização e por meio da empiricização da universalidade que ela possibilitou, 

estamos mais perto de construir uma filosofia das técnicas e das ações correlatas, que seja também 

uma forma de conhecimento concreto do mundo tomado como um todo e das particularidades dos 

lugares, que incluem condições físicas, naturais ou artificiais e condições políticas. As empresas, na 

busca da mais-valia desejada, valorizam diferentemente as localizações. Não é qualquer lugar que 

interessa a tal ou qual firma. A cognoscibilidade do planeta constitui um dado essencial à operação 

das empresas e à produção do sistema histórico atual.

6.  


Um  período  que  é  uma  outra  crise

A história do capitalismo pode ser dividida em períodos, pedaços de tempo marcados por 

certa coerência entre as suas variáveis significativas, que evoluem diferentemente, mas dentro de um 

sistema. Um período sucede ao outro, mas não podemos esquecer que os períodos são, também, 

antecedidos   e   sucedidos   por   crises,   isto   é,   momentos   em   que   a   ordem   estabelecida   entre   as 

variáveis, mediante uma organização, é comprometida. Torna-se impossível harmonizá-las quando 

uma dessas variáveis ganha expressão maior e introduz um princípio de desordem.

Essa foi a evolução comum a toda a história do capitalismo, até recentemente. O período 

atual escapa a essa característica porque ele é, ao mesmo tempo, um período e uma crise, isto é, a 

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superposição entre período e crise, revelando características de ambas essas situações.

Como período e como crise, a época atual mostra-se, aliás, como coisa nova. Como 

período, as suas variáveis características instalam-se em toda parte e a tudo influenciam, direta ou 

indiretamente. Daí a denominação de globalização. Como crise, as mesmas variáveis construtoras do 

sistema estão continuamente chocando-se e exigindo novas definições e novos arranjos. Trata-se, 

porém, de uma crise persistente dentro de um período com características duradouras, mesmo se 

novos contornos aparecem.

Este período e esta crise são diferentes daqueles do passado, porque os dados motores 

e os respectivos suportes, que constituem fatores de mudança, não se instalam gradativamente como 

antes, nem tampouco são o privilégio de alguns continentes e países, como outrora. Tais fatores dão-

se concomitantemente e se realizam com muita força em toda a parte.

Defrontamo-nos,   agora,   como   uma   subdivisão   extrema   do   tempo   empírico,   cuja 

documentação   tornou-se   possível   por   meio   das   técnicas   contemporâneas.   O   computador   é   o 

instrumento de medida e, ao mesmo tempo, o controlador do uso do tempo. Essa multiplicação do 

tempo é, na verdade, potencial, porque, de fato, cada ator – pessoa, empresa, instituição, lugar – utiliza 

diferentemente tais possibilidades e realiza diferentemente a velocidade do mundo. Por outro lado, e 

graças sobretudo aos progressos das técnicas da informática, os fatores hegemônicos de mudança 

contagiam os demais, ainda que a presteza e o alcance desse contágio sejam diferentes segundo as 

empresas, os grupos sociais, as pessoas, os lugares. Por intermédio do dinheiro, o contágio das 

lógicas   redutoras,   típicas   do   processo   de   globalização,   leva   a   toda   parte   um   nexo   contábil,   que 

avassala tudo. Os fatores de mudança acima enumerados são, pela mão dos atores hegemônicos, 

incontroláveis, cegos, egoisticamente contraditórios.

O processo da crise é permanente, o que temos são crises sucessivas. Na verdade, 

trata-se de uma crise global, cuja evidência tanto se faz por meio de fenômenos globais como de 

manifestações particulares, neste ou naque país, neste ou naquele momento, mas para produzir o 

novo estágio de crise. Nada é duradouro.

Então, neste período histórico, a crise é estrutural. Por isso, quando se buscam soluções 

não   estruturais,   o   resultado   é   a   geração   de   mais   crise.   O   que   é   considerado   solução   parte   do 

exclusivo interesse dos atores hegemônicos, tendendo a participar de sua própria natureza e de suas 

próprias características.

Tirania do dinheiro e tirania da informação são os pilares da produção da história atual do 

capitalismo globalizado. Sem o controle dos espíritos seria impossível a regulação pelas finanças. Daí 

o   papel   avassalador   do   sistema   financeiro   e   a   permissividade   do   comportamento   dos   atores 

hegemônicos, que agem sem contrapartida, levando ao aprofundamento da situação, isto é, da crise.

A associação entre a tirania do dinheiro e a tirania da informação conduz, desse modo, à 

aceleração dos processos hegemônicos, legitimados pelo “pensamento único”, enquanto os demais 

processos   acabam   por   ser   deglutidos   ou   se   adaptam   passiva   ou   ativamente,   tornando-se 

hegemonizados. Em outras palavras, os processos não hegemônicos tendem seja a desaparecer 

fisicamente, seja a permanecer, mas de forma subordinada, exceto em algumas áreas da vida social 

e em certas frações do território onde podem manter-se relativamente autônomos, isto é, capazes de 

uma reprodução própria. Mas tal situação é sempre precária, seja porque os resultados localmente 

obtidos são menores, seja porque os respectivos agentes são permanentemente ameaçados pela 

concorrência das atividades mais poderosas.

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No período histórico atual, o estrutural (dito dinâmico) é, também, crítico. Isso se deve, 

entre outras razões, ao fato de que a era presente se caracteriza pelo uso extremado de técnicas e de 

normas.   O   uso   extremado   das   técnicas   e   a   proeminência   do   pensamento   técnico   conduzem   à 

necessidade obsessiva de normas. Essa pletora normativa é indispensável à eficácia da ação. Como, 

porém,   as   atividades   hegemônicas   tendem   a   uma   centralização,   consecutiva   à   concentração   da 

economia, aumenta a inflexibilidade dos comportamentos, acarretando um mal-estar no corpo social.

A isso se acrescente o fato de que, graças ao casamento entre as técnicas normativas e 

a normalização técnica e política da ação correspondente, a própria política acaba por instalar-se em 

todos os interstícios do corpo social, seja como necessidade para o exercício das ações dominantes, 

seja como reação a essas mesmas ações. Mas não é propriamente de política que se trata, mas de 

simples acúmulo de normatizações particularistas, conduzidas por atores privados que ignoram o 

interesse social ou que o tratam de modo residual. É uma outra razão pela qual a situação normal é 

de crise, ainda que os famosos equilíbrios macroeconômicos se instalem.

O   mesmo   sistema   ideológico   que   justifica   o   processo   de   globalização,   ajudando   a 

considerá-lo   o   único   caminho   histórico,   acaba,   também,   por   impor   uma   certa   visão   da   crise   e 

aceitação dos remédios sugeridos. Em virtude disso, todos os países, lugares e pessoas passam a se 

comportar, isto é, a organizar sua ação, como se tal “crise” fosse a mesma para todos e como se a 

receita para afastá-la devesse ser geralmente a mesma. Na verdade, porém, a única crise que os 

responsáveis desejam afastar é a crise financeira e não qualquer outra. Aí está, na verdade, uma 

causa para mais aprofundamento da crise real – econômica, social, política, moral – que caracteriza o 

nosso tempo.

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III   -   UMA  GLOBALIZAÇÃO  PERVERSA

Introdução

Os últimos anos do século XX testemunharam grandes mudanças em toda a face da 

Terra. O mundo torna-se unificado – em virtude das novas condições técnicas, bases sólidas para uma 

ação humana mundializada. Esta, entretanto, impões-se à maior parte da humanidade como uma 

globalização perversa.

Consideramos, em primeiro lugar, a emergência de uma dupla tirania, a do dinheiro e a 

da informação, intimamente relacionadas. Ambas, juntas, fornecem as bases do sistema ideológico 

que legitima as ações mais características da época e, ao mesmo tempo, buscam conformar segundo 

um   novo  

ethos  as   relações   sociais   e   interpessoais,   influenciando   o   caráter   das   pessoas.   A 

competitividade, sugerida pela produção e pelo consumo, é a fonte de novos totalitarismos, mais 

facilmente   aceitos   graças   à   confusão   dos   espíritos   que   se   instala.   Tem   as   mesmas   origens   a 

produção, na base mesma da vida social, de uma violência estrutural, facilmente visível nas formas de 

agir dos Estados, das empresas e dos indivíduos. A perversidade sistêmica é um dos seus corolários.

Dentro desse  quadro, as  pessoas sentem-se  desamparadas, o  que também constitui 

uma incitação a que adotem, em seus comportamentos ordinários, práticas que alguns decênios atrás 

eram moralmente condenadas. Há um verdadeiro retrocesso quanto à noção de bem público e de 

solidariedade, do qual é emblemático o encolhimento das funções sociais e políticas do Estado com a 

ampliação da pobreza e os crescentes agravos à soberania, enquanto se amplia o papel político das 

empresas na regulação da vida social.

7.    


A     tirania     da     informação     e     do     dinheiro     e     o     atual     sistema  

ideológico

Entre os fatores constitutivos da globalização, em seu caráter perverso atual, encontram-

se a forma como a informação é oferecida à humanidade e a emergência do dinheiro em estado puro 

como motor da vida econômica e social. São duas violências centrais, alicerces do sistema ideológico 

que justifica as ações hegemônicas e leva ao império das fabulações, a percepções fragmentadas e 

ao   discurso   único  do  mundo,   base  dos  novos totalitarismos  –  isto  é,  dos  globalitarismos  –  a  que 

estamos assistindo.

A  violência  da  informação

Um dos traços marcantes do atual período histórico é, pois, o papel verdadeiramente 

despótico   da   informação.   Conforme   já   vimos,   as   novas   condições   técnicas   deveriam   permitir   a 

ampliação do conhecimento do planeta, dos objetos que o formam, das sociedades que o habitam e 

dos homens em sua realidade intrínseca. Todavia, nas condições atuais, as técnicas da informação 

são principalmente utilizadas por um punhado de atores em função de seus objetivos particulares. 

Essas técnicas da informação (por enquanto) são apropriadas por alguns Estados e por algumas 

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empresas, aprofundando assim os processos de criação de desigualdades. É desse modo que a 

periferia   do  sistema   capitalista   acaba   se   tornando   ainda   mais  periférica,   seja   porque   não  dispõe 

totalmente dos novos meios de produção, seja porque lhe escapa a possibilidade de controle.

O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada 

que, em lugar de esclarecer, confunde. Isso tanto é mais grave porque, nas condições atuais da vida 

econômica e social, a informação constitui um dado essencial e imprescindível. Mas na medida em 

que o que chega às pessoas, como também às empresas e instituições hegemonizadas, é, já, o 

resultado de uma manipulação, tal informação se apresenta como ideologia. O fato de que, no mundo 

de hoje, o discurso antecede quase obrigatoriamente uma parte substancial das ações humanas – 

sejam elas a técnica, a produção, o consumo, o poder – explica o porquê da presença generalizada do 

ideológico em todos esses pontos. Não é de estranhar, pois, que realidade e ideologia se confundam 

na apreciação do homem comum, sobretudo porque a ideologia se insere nos objetos e apresenta-se 

como coisa.

Estamos diante de um novo “encantamento do mundo”, no qual do discurso e a retórica 

são o princípio e o fim. Esse imperativo e essa onipresença da informação são insidiosos, já que a 

informação atual tem dois rostos, um pelo qual ela busca instruir, e um outro, pelo qual ela busca 

convencer. Este é o trabalho da publicidade. Se a informação tem, hoje, essas duas caras, a cara do 

convencer se torna muito mais presente, na medida em que a publicidade se transformou em algo 

que antecipa a produção. Brigando pela sobrevivência e hegemonia, em função da competitividade, 

as empresas não podem existir sem publicidade, que se tornou o nervo do comércio.

Há uma relação carnal entre o mundo da produção da notícia e o mundo da produção 

das   coisas   e   das   normas.   A   publicidade   tem,   hoje,   uma   penetração   muito   grande   em   todas   as 

atividades. Antes, havia uma incompatibilidade ética entre anunciar e exercer certas atividades, como 

na profissão médica, ou na educação. Hoje, propaga-se tudo, e a própria política é, em grande parte, 

subordinada às suas regra.

As mídias nacionais se globalizam, não apenas pela chatice e mesmice das fotografias e 

dos   títulos,   mas   pelos   protagonistas   mais   presentes.   Falsificam-se   os   eventos,   já   que   não   é 

propriamente o fato o que a mídia nos dá, mas uma interpretação, isto é, a notícia. Pierre Nora, em um 

bonito texto, cujo título é “O retorno de fato” (

in História: Novos problemas, 1974), lembra que, na 

aldeia,   o   testemunho   das   pessoas   que   veiculam   o   que   aconteceu   pode   ser   cotejado   com   o 

testemunho do vizinho. Numa sociedade complexa como a nossa, somente vamos saber o que houve 

na   rua   ao   lado   dois   dias   depois,   mediante   uma   interpretação   marcada   pelos   humores,   visões, 

preconceitos e interesses das agências. O evento já é entregue maquiado ao leitor, ao ouvinte, ao 

telespectador, e é também por isso que se produzem no mundo de hoje, simultaneamente, fábulas e 

mitos.


Fábulas

Uma dessas fabulações é a tão repetida idéia de aldeia global (

Octávio Ianni, Teorias da 

globalização, 1996). O fato de que a comunicação se tornou possível à escala do planeta, deixando 

saber   instantaneamente   o   que   se   passa   em   qualquer   lugar,   permitiu   que   fosse   cunhada   essa 

expressão, quando, na verdade, ao contrário do que se dá nas verdadeiras aldeias, é freqüentemente 

mais fácil comunicar com quem está longe do que com o vizinho. Quando essa comunicação se faz, 

20



na realidade, ela se dá com a intermediação de objetos. A informação sobre o que acontece não vem 

da interação entre pessoas, mas do que é veiculado pela mídia, uma interpretação interessada, senão 

interesseira, dos fatos.

Um outro mito é o do espaço e do tempo contraídos, graças, outra vez, aos prodígios da 

velocidade. Só que a velocidade apenas está ao alcance de um número limitado de pessoas, de tal 

forma que, segundo as possibilidades de cada um, as distâncias têm significações e efeitos diversos e 

o uso do mesmo relógio não permite igual economia do tempo.

Aldeia global tanto quanto espaço-tempo contraído permitiriam imaginar a realização do 

sonho de um mundo só, já que, pelas mãos do mercado global, coisas, relações, dinheiros, gostos 

largamente se difundem por sobre continentes, raças, línguas, religiões, como se as particularidades 

tecidas ao longo de séculos houvessem sido todas esgarçadas. Tudo seria conduzido e, ao mesmo 

tempo, homogeneizado pelo mercado global regulador. Será, todavia, esse mercado regulador? Será 

ele global? O fato é que apenas três praças, Nova Iorque, Londres e Tóquio, concentram mais de 

metade de todas as transações e ações; as empresas transnacionais são responsáveis pela maior 

parte do comércio dito mundial; os 47 países menos avançados representam juntos apenas 0,3% do 

comércio mundial, em lugar dos 2,3% em 1960 (Y. Berthelot, “Globalisation et régionalisation: une 

mise en perspective”, in  

L'integration régionale dans le monde, GEMDEV, 1994), enquanto 40% do 

comércio dos Estados Unidos ocorrem no interior das empresas (N. Chomsky, 

Folha de São Paulo, 

25 de abril de 1993).

Fala-se, também, de uma humanidade desterritorializada, uma de suas características 

sendo o desfalecimento das fronteiras como imperativo da globalização, e a essa idéia dever-se-ia 

uma outra: a da existência, já agora, de uma cidadania universal. De fato, as fronteiras mudaram de 

significação, mas nunca estiveram tão vivas, na medida em que o próprio exercício das atividades 

globalizadas   não   prescinde   de   uma   ação   governamental   capaz   de   torná-las   efetivas   dentro   do 

território.   A   humanidade   desterritorializada   é   apenas   um   mito.   Por   outro   lado,   o   exercício   da 

cidadania, mesmo se avança a noção de moralidade internacional, é, ainda, um fato que depende da 

presença e da ação dos Estados nacionais.

Em mundo como fábula é alimentado por outros ingredientes, entre os quais a politização 

das estatísticas, a começar pela forma pela qual é feita a comparação da riqueza entre as nações. No 

fundo, nas condições atuais, o chamado Produto Nacional Bruto é apenas um nome fantasia do que 

poderíamos chamar de produto global, já que as quantidades que entram nessa contabilidade são 

aquelas que se referem às operações que caracterizam a própria globalização.

Afirma-se, também, que a “morte do Estado” melhoraria a vida dos homens e a saúde 

das empresas, na medida em que permitiria a ampliação da liberdade de produzir, de consumir e de 

viver. Tal neoliberalismo seria o fundamento da democracia. Observando o funcionamento concreto 

da sociedade econômica e da sociedade civil, não é difícil constatar que são cada vez em menor 

número as empresas que se beneficiam desse desmaio do Estado, enquanto a desigualdade entre os 

indivíduos aumenta.

Sem essas fábulas e mitos, este período histórico não existiria como é: Também não 

seria  possível  a violência  do  dinheiro.  Este  só  se  torna  violento  e  tirânico  porque  é  servido  pela 

violência da informação. Esta se prevalece do fato de que, no fim do século XX, a linguagem ganha 

autonomia, constituindo sua própria lei. Isso facilita a entronização de um subsistema ideológico, sem 

o qual a globalização, em sua forma atual, não se explicaria.

21



A  violência  do  dinheiro

A internacionalização do capital financeiro amplia-se, recentemente, por várias razões. 

Na fase histórica atual, as megafirmas devem, obrigatoriamente, preocupar-se com o uso financeiro 

do   dinheiro   que   obtêm.   As   grandes   empresas   são,   quase   que   compulsoriamente,   ladeadas   por 

grandes empresas financeiras.

Essas empresas financeiras das multinacionais utilizam em grande parte a poupança dos 

países em que se encontram. Quando uma firma de qualquer outro país se instala num país C ou D, 

as   poupanças   internas   passam   a   participar   da   lógica   financeira   e   do   trabalho   financeiro   dessa 

multinacional.   Quando   expatriado,   esse   dinheiro   pode   regressar   ao   país   de   origem   na   forma   de 

crédito e de dívida, quer dizer, por intermédio das grandes empresas globais. O que seria poupança 

interna transforma-se em poupança externa, pela qual os países recipiendários devem pagar juros 

extorsivos.   O   que   sai   do   país   como  

royalties,   inteligência   comprada,   pagamento   de   serviços   ou 

remessa de lucros volta como crédito e dívida. Essa é a lógica atual da internacionalização do crédito 

e da dívida. A aceitação de um modelo econômico em que o pagamento da dívida é prioritário implica 

a aceitação da lógica desse dinheiro.

Nas condições atuais de economia internacional, o financeiro ganha uma espécie de 

autonomia. Por isso, a relação entre a finança e a produção, entre o que agora se chama economia 

real e o mundo da finança, dá lugar àquilo que Marx chamava de loucura especulativa, fundada no 

papel   do   dinheiro   em   estado   puro.   Este   se   torna   o   centro   do   mundo.   É   o   dinheiro   como, 

simplesmente,   dinheiro,   recriando   seu   fetichismo   pela   ideologia.   O   sistema   financeiro   descobre 

fórmulas imaginosas, inventa sempre novos instrumentos, multiplica o que chama de derivativos, que 

são formas sempre renovadas de oferta dessa mercadoria aos especuladores. O resultado é que a 

escalação   exponencial   assim   redefinida   vai   se   tornar   algo   indispensável,   intrínseco,   ao   sistema, 

graças   aos   processos   técnicos   da   nossa   época.   É   o   tempo   real   que   vai   permitir   a   rapidez   das 

operações e a volatilidade dos  

assets. E a finança move a economia e a deforma, levando seus 

tentáculos a todos os aspectos da vida. Por isso, é lícito falar de tirania do dinheiro.

Se o dinheiro em estado puro se tornou despótico, isso também se deve ao fato de que 

tudo se torna valor de troca. A monetarização da vida cotidiana ganhou, no mundo inteiro, um enorme 

terreno nos últimos 25 anos. Essa presença do dinheiro em toda parte acaba por constituir um dado 

ameaçador da nossa existência cotidiana.

As  percepções  fragmentadas  e  o  discurso  único  do  “mundo”

É a partir dessa generalização e dessa coisificação da ideologia que, de um lado, se 

multiplicam   as   percepções   fragmentadas   e,   de   outro,   pode   estabelecer-se   um   discurso   único   do 

“mundo”,   com   implicações   na   produção   econômica   e   nas   visões   da   história   contemporânea,   na 

cultura de massa e no mercado global.

As bases materiais históricas dessa mitificação estão na realidade da técnica atual. A 

técnica apresenta-se ao homem comum como um mistério e uma banalidade. De fato, a técnica é 

mais aceita do que compreendida. Como tudo parece dela depender, ela se apresenta como uma 

necessidade   universal,   uma   presença   indiscutível,   dotada   de   uma   força   quase   divina   à   qual   os 

22



homens acabam se rendendo sem buscar entendê-la. É um fato comum no cotidiano de todos, por 

conseguinte, uma banalidade, mas seus fundamentos e seu alcance escapam à percepção imediata, 

daí seu mistério. Tais características alimentam seu imaginário, alicerçado nas suas relações com a 

ciência,   na   sua   exigência   de   racionalidade,   no   absolutismo   com   que,   ao   serviço   do   mercado, 

conforma os comportamento; tudo isso fazendo crer na sua inevitabilidade.

Quando o sistema político formado pelos governos e pelas empresas utiliza os sistemas 

técnicos   contemporâneos   e   seu   imaginário   para   produzir   a   atual   globalização,   aponta-nos   para 

formas   de   relações   econômicas   implacáveis,   que   não   aceitam   discussão   e   exigem   obediência 

imediata,   sem   a   qual   os   atores   são   expulsos   da   cena   ou   permanecem   escravos   de   uma   lógica 

indispensável ao funcionamento do sistema como um todo.

É uma forma de totalitarismo muito forte e insidiosa, porque se baseia em noções que 

parecem centrais à própria idéia da democracia – liberdade de opinião, de imprensa, tolerância -, 

utilizadas exatamente para suprimir a possibilidade de conhecimento do que é o mundo, e do que são 

os países e os lugares.

8.  

 

Competitividade,     consumo,     confusão     dos     espíritos,  



globaritarismo

Neste   mundo   globalizado,   a   competitividade,   o   consumo,   a   confusão   dos   espíritos 

constituem baluartes do presente estado de coisas. A competitividade comanda nossas formas de 

ação. O consumo comanda nossas formas de inação. E a confusão dos espíritos impede o nosso 

entendimento do mundo, do país, do lugar, da sociedade e de cada um de nós mesmos.

A  competitividade,  a  ausência  de  compaixão

Nos últimos cinco séculos de desenvolvimento e expansão geográfica do capitalismo, a 

concorrência se estabelece como regra. Agora, a competitividade toma o lugar da competição. A 

concorrência atual não é mais a velha concorrência, sobretudo porque chega eliminando toda forma 

de compaixão. A competitividade tem a guerra como norma. Há, a todo custo, que vencer o outro, 

esmagando-o, para tomar seu lugar. Os últimos anos do século XX foram emblemáticos, porque neles 

se realizaram grandes concentrações, grandes fusões, tanto na órbita da produção como na das 

finanças e da informação. Esse movimento marca um ápice do sistema capitalista, mas é também 

indicador do seu paroxismo, já que a identidade dos atores, até então mais ou menos visível, agora 

finalmente aparece aos olhos de todos.

Essa guerra como norma justifica toda forma de apelo à força, a que assistimos em 

diversos países, um apelo não dissimulado, utilizado para dirimir os conflitos e conseqüência dessa 

ética   da   competitividade   que   caracteriza   nosso   tempo.   Ora,   é   isso   também   que   justifica   os 

individualismos arrebatadores e possessivos: individualismos na vida econômica (a maneira como as 

empresas batalham umas com as outras); individualismos na ordem da política (a maneira como os 

partidos freqüentemente abandonam a idéia de política para se tornarem simplesmente eleitoreiros); 

individualismos   na   ordem   do   território   (as   cidades   brigando   umas   com   as   outras,   as   regiões 

reclamando   soluções   particularistas).   Também   na   ordem   social   e   individual   são   individualismos 

23



arrebatadores e possessivos, que acabam por constituir o outro como coisa. Comportamentos que 

justificam todo desrespeito às pessoas são, afinal, uma das bases da sociabilidade atual. Aliás, a 

maneira como as classes médias, no Brasil, se constituíram entroniza a lógica dos instrumentos, em 

lugar da lógica das finalidades, e convoca os pragmatismos a que se tornem triunfantes.

Para tudo isso, também contribuiu a perda de influência da filosofia na formulação das 

ciências   sociais,   cuja   interdisciplinaridade   acaba   por   buscar   inspiração   na   economia.   Daí   o 

empobrecimento das ciências humanas e a  conseqüente dificuldade para interpretar o que vai pelo 

mundo, já que a ciência econômica se torna, cada vez mais, uma disciplina da administração das 

coisas ao serviço de um sistema ideológico. É assim que se implantam novas concepções sobre o 

valor a atribuir a cada objeto, a cada  indivíduo, a cada relação, a cada lugar, legitimando novas 

modalidades   e   novas   regras   da   produção   e   do   consumo.   E   novas   formas   financeiras     e   da 

contabilidade   nacional.   Esta,   aliás,   se   reduz   a   ser,   apenas,   um   nome   fantasia   de   uma   suposta 

contabilidade global, algo que inexiste de fato, mas é tomado como parâmetro. Está é uma das bases 

do subsistema ideológico que comanda outros subsistemas da vida social, formando uma constelação 

que tanto orienta e dirige a produção da economia como também a produção da vida. Essa nova lei 

do valor – que é uma lei ideológica do valor – é uma filha dileta da competitividade e acaba por ser 

responsável  também  pelo  abandono  da noção  e  do  fato   da  solidariedade. Daí  as  fragmentações 

resultantes. Daí a ampliação do desemprego. Daí o abandono da educação. Daí o desapreço à saúde 

como um bem individual e social inalienável. Daí todas as novas formas perversas de sociabilidade 

que   já   existem   ou   se   estão   preparando   neste   país,   para   fazer   dele   –   ainda   mais   –   uma   país 

fragmentado,   cujas   diversas   parcelas,   de   modo   a   assegurar   sua   sobrevivência   imediata,   serão 

jogadas umas contra as outras e convidadas a uma batalha sem quartel.

O  consumo  e  o  seu  despotismo

Também o consumo muda de figura ao longo do tempo. Falava-se, antes, de autonomia 

da   produção,   para   significar   que   uma   empresa,   ao   assegurar   uma   produção,   buscava   também 

manipular a opinião pela via da publicidade. Nesse caso, o fato gerador do consumo seria a produção. 

Mas, atualmente, as empresas hegemônicas produzem o consumidor antes mesmo de produzir os 

produtos. Um dado essencial do entendimento do consumo é  que a produção do consumidor, hoje, 

precede à produção dos bens e dos serviços. Então, na cadeia casual, a chamada autonomia da 

produção cede lugar ao despotismo do consumo. Daí, o império da informação e da publicidade. Tal 

remédio teria 1% de medicina e 99% de publicidade, mas todas as coisas no comércio acabam por ter 

essa   composição:publicidade   +  materialidade;  publicidade   +  serviços,   e  esse   é  o  caso   de  tantas 

mercadorias cuja circulação é fundada numa propaganda insistente e freqüentemente enganosa. Há 

toda essa maneira de organizar o consumo para permitir, em seguida, a organização da produção.

Tais operações podem tornar-se simultâneas diante do tempo do relógio, mas, do ponto 

de vista da lógica, é a produção da informação e da publicidade que precede. Desse modo, vivemos 

cercados,   por   todos   os   lados,   por   esse   sistema   ideológico   tecido   ao   redor   do   consumo   e   da 

informação ideologizados. Esse consumo ideologizado e essa informação ideologizada acabam por 

ser o motor de ações públicas e privadas. Esse par é, ao mesmo tempo, fortíssimo e fragilíssimo. De 

um lado é muito forte, pela sua eficácia atual sobre a produção e o consumo. Mas, de outro lado, ele é 

muito fraco, muito débil, desde que encontremos a maneira de defini-lo como um dado de um sistema 

24



mais   amplo.   O   consumo   é   o   grande   emoliente,   produtor   ou   encorajador   de   imobilismos.   Ele   é, 

também,   um   veículo   de   narcisismos,   por   meio   dos   seus   estímulos   estéticos,   morais,   sociais;   e 

aparece como o grande fundamentalismo do nosso tempo, porque alcança e envolve toda gente. Por 

isso, o entendimento do que é o mundo passa pelo consumo e pela competitividade, ambos fundados 

no mesmo sistema da ideologia.

Consumismo e competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pessoa, 

à  redução   da   personalidade  e   da  visão   do   mundo,   convidando,   também, a   esquecer  a   oposição 

fundamental entre a figura do consumidor e a figura do cidadão. É certo que no Brasil tal oposição é 

menos   sentida,   porque   em   nosso   país   jamais   houve   a   figura   do   cidadão.   As   classes   chamadas 

superiores, incluindo as classes médias, jamais quiseram ser cidadãs; os pobres jamais puderam ser 

cidadãos. As classes médias foram condicionadas a apenas querer privilégios e não direitos. E isso é 

um dado essencial do entendimento do Brasil: de como os partidos se organizam e funcionam; de 

como a política se dá, de como a sociedade se move. E aí também as camadas intelectuais têm 

responsabilidade, porque trasladaram, sem maior imaginação e originalidade, à condição da classe 

média européia, lutando pela ampliação dos direitos políticos, econômicos e sociais, para o caso 

brasileiro e atribuindo, assim, por equívoco, à classe média brasileira um papel de modernização e de 

progresso que, pela sua própria constituição, ela não poderia ter.

A  informação  totalitária  e  a  confusão  dos  espíritos

Tudo isso se deve, em grande parte, ao fato de que o fim do século XX erigiu como um 

dado central do seu funcionamento o despotismo da informação, relacionando, em certa medida, com 

o próprio nível alcançado pelo desenvolvimento da técnica atual, tão necessitada de um discurso. 

Como as atividades hegemônicas são, hoje, todas elas, fundadas nessa técnica, o discurso aparece 

como algo capital na produção da existência de todos. Essa imprescindibilidade de um discurso que 

antecede a tudo – a começar pela própria técnica, a produção, o consumo e o poder – abre a porta à 

ideologia.

Antes, era corrente discutir-se a respeito da oposição entre o que era real e o que não 

era; entre o erro e o acerto; o erro e a verdade; a essência e a aparência. Hoje, essa discussão talvez 

não   tenha   sequer   cabimento,   porque   a   ideologia   se   torna   real   e   está   presente   como   realidade, 

sobretudo por meio dos objetos. Os objetos são coisas, são reais. Eles se apresentam diante de nós 

não apenas como um discurso, mas como um discurso ideológico, que nos convoca, malgrado nós, a 

uma forma de comportamento. E esse império dos objetos tem um papel relevante na produção desse 

novo homem apequenado que estamos todos ameaçados de ser. Até a Segunda Guerra Mundial, 

tínhamos em torno de nós alguns objetos, os quais comandávamos. Hoje, meio século depois, o que 

há em torno é uma multidão de objetos, todos ou quase todos querendo nos comandar. Uma das 

grandes   diferenças   entre   o   mundo   de   há   cinqüenta   anos  e   o   mundo   de   agora   é   esse   papel   de 

comando atribuído aos objetos. E são objetos carregando uma ideologia que lhes é entregue pelos 

homens do 

marketing e do design ao serviço do mercado.

Do  imperialismo  ao  mundo  de  hoje

O capitalismo concorrencial buscou a unificação do planeta, mas apenas obteve uma 

25



unificação   relativa,   aprofundada   sob   o   capitalismo   monopolista   graças   aos   progressos   técnicos 

alcançados   nos   últimos   dois   séculos   e   possibilitando   uma   transição   para   a   situação   atual   de 

neoliberalismo.   Agora   se   pode,   de   alguma   forma,   falar   numa   vontade   de   unificação   absoluta 

alicerçada na tirania do dinheiro e da informação produzindo em toda parte situações nas quais tudo, 

isto é, coisas, homens, idéias, comportamentos, relações, lugares, é atingido.

Em   cada   um   desses   momentos,   são   diferentes   as   relações   entre   o   indivíduo   e   a 

sociedade, entre o mercado e a solidariedade. Até recentemente, havia a busca de um relativo reforço 

mútuo das idéias e da realidade de autonomia individual (com a vontade de produção de indivíduos 

fortes   e   de   cidadãos)   e   da   idéia   e   da   realidade   de   uma   sociedade   solidária   (com   o   Estado 

crescentemente empenhado em exercer uma regulação redistributiva). As situações eram diferentes 

segundo   os   continentes   e   países   e,   se   o   quadro   acima   referido   não   constituía   uma   realidade 

completa, essa era uma aspiração generalizada.

Ao longo da história passada do capitalismo, paralelamente à evolução das técnicas, 

idéias morais e filosóficas se difundem, assim como a sua realização política e jurídica, de modo que 

os   costumes,   as  leis,  os   regulamentos,  as   instituições  jurídicas   e   estatais   buscavam  realizar,   ao 

mesmo tempo, mais controle social e, também, mais controle sobre as ações individuais, limitando a 

ação daqueles vetores que, deixados sozinhos, levariam à eclosão de egoísmos, ao exercício da força 

bruta e a desníveis sociais cada vez mais agudos.

Na fase atual de globalização, o uso das técnicas conhece uma importante mudança 

qualitativa e quantitativa. Passamos de um uso “imperialista”, que era, também, um uso desigual e 

combinado, segundo os continentes e lugares, a uma presença obrigatória em todos os países dos 

sistemas técnicos hegemônicos, graças ao papel unificador das técnicas de informação.

O uso imperialista das técnicas permitia, pela via da política, uma certa convivência de 

níveis diferentes de formas técnicas e de formas organizacionais nos diversos impérios. Tal situação 

permanece praticamente por um século, sem que as diferenças de poder entre os impérios fosse 

causa de conflitos duráveis entre eles e dentro deles. O próprio imperialismo era “diferencial”, tal 

característica   sendo   conseqüência   da   subordinação   do   mercado   à   política,   seja   a   política 

internacional, seja a política interior a cada país ou a cada conjunto imperial. Com a globalização, as 

técnicas se tornam mais eficazes, sua presença se confunde com o ecúmeno, seu encadeamento 

praticamente espontâneo se reforça e, ao mesmo tempo, o seu uso escapa, sob muitos aspectos, ao 

domínio da política e se torna subordinado ao mercado.

Globalitarismos  e  totalitarismos

Como as técnicas hegemônicas atuais são, todas elas, filhas da ciência, e como sua 

utilização se dá ao serviço do mercado, esse amálgama produz um ideário da técnica e do mercado 

que é santificado pela ciência, considerada, ela própria, infalível. Essa, aliás, é uma das fontes do 

poder do pensamento único. Tudo o que é feito pela mão dos vetores fundamentais da globalização 

parte de idéias científicas, indispensáveis a produção, aliás acelerada, de novas realidades, de tal 

modo que as ações assim criadas se impõem como soluções únicas.

Nas condições atuais, a ideologia é reforçada de uma forma que seria impossível ainda 

há um quarto de século, já que, primeiro as idéias e, sobretudo, as ideologias se transformam em 

situações,   enquanto   as   situações   se   tornam   entre   si   mesmas   “idéias”,   “idéias   do   que   fazer”, 

26



“ideologia”, e impregnam, de volta, a ciência cada vez mais redutora e reduzida, mais distante da 

busca   da   “verdade”.   Desse   conjunto   de   variáveis   decorrem,   também,   outras   condições   da   vida 

contemporânea,   fundadas   na   matematização   da   existência,   carregando   consigo   uma   crescente 

sedução pelos números, um uso mágico das estatísticas.

É também a partir desse quadro que se pode interpretar a serialização de que falava J.-

P.   Satre   em  

Questions  de méthode, Critique de la Raison  dialectique,  1960. Em  tais  condições, 

instalam-se   a   competitividade,   o   salve-se-quem-puder,   a   volta   ao   canibalismo,   a   supressão   da 

solidariedade,   acumulando   dificuldades   para   um   convívio   social   saudável   e   para   o   exercício   da 

democracia.   Enquanto   esta   é   reduzida   a   uma   democracia   de   mercado   e   amesquinhada   como 

eleitoralismo, isto é, consumo de eleições, as “pesquisas” perfilam-se como um aferidor quantitativo 

da opinião, da qual acaba por ser uma das formadoras, levando tudo isso ao empobrecimento do 

debate de idéias e a própria morte da política. Na esfera da sociabilidade, levantam-se utilitarismos 

como   regra   de   vida   mediante   a   exacerbação   do   consumo,   dos   narcisismos,   do   imediatismo,   do 

egoísmo, do abandono da solidariedade, com a implantação, galopante, de uma ética pragmática 

individualista. É dessa forma que a sociedade e os indivíduos aceitam dar adeus à generosidade, à 

solidariedade e a emoção com a entronização do reino do cálculo (a partir do cálculo econômico) e da 

competitividade.

São,   todas   essas,   condições   para   a   difusão   de   um   pensamento   e   de   uma   prática 

totalitárias. Esses totalitarismos se dão na esfera do trabalho como, por exemplo, num mundo agrícola 

modernizado   onde   os   atores   subalternizados   convivem,   como   num   exército,   submetidos   a   uma 

disciplina militar. O totalitarismo não é, porém, limitado à esfera do trabalho, escorrendo para a esfera 

política   e   das   relações   interpessoais   e   invadindo   o   próprio   mundo   da   pesquisa   e   do   ensino 

universitários, mediante um cerco às idéias cada vez menos dissimulado. Cabe-nos, mesmo, indagar 

diante   dessas   novas   realidades   sobre   a   pertinência   da   presente   utilização   de   concepções   já 

ultrapassadas de democracia, opinião pública, cidadania, conceitos que necessitam urgente revisão, 

sobretudo   nos   lugares   onde   essas   categorias   nunca   foram   claramente   definidas   nem   totalmente 

exercitadas.

Nossa grande tarefa, hoje, é a elaboração de um novo discurso, capaz de desmitificar a 

competitividade e o consumo e de atenuar, senão desmanchar, a confusão dos espíritos.

9.  

A  violência  estrutural  e  a  perversidade  sistêmica



Fala-se, hoje, muito em violência e é geralmente admitido que é quase um estado, uma 

situação característica do nosso tempo. Todavia, dentre as violências de que se fala, a maior parte é 

sobretudo formada de violências funcionais derivadas, enquanto a atenção é menos voltada para o 

que preferimos chamar de violência estrutural, que está na base da produção das outras e constitui a 

violência   central   original.   Por   isso,   acabamos   por   apenas   condenar   as   violências   periféricas 

particulares.

Ao nosso ver, a violência estrutural resulta da presença e das manifestações conjuntas, 

nessa era da globalização, do dinheiro em estado puro, da competitividade em estado puro e da 

potência em estado puro, cuja associação conduz à emergência de novos totalitarismos e permite 

pensar que vivemos numa época de globalitarismo muito mais que de globalização. Paralelamente, 

evoluímos de situações em que a perversidade se manifestava de forma isolada para uma situação na 

27



qual   se   instala   um   sistema   da   perversidade,   que,   ao   mesmo   tempo,   é   resultado   e   causa   da 

legitimação do dinheiro em estado puro, da competitividade em estado puro e da potência em estado 

puro, consagrando, afinal, o fim da ética e o fim da política.

O  dinheiro  em  estado  puro

Com   a   globalização   impõe-se   uma   nova   noção   de   riqueza,   de   prosperidade   e   de 

equilíbrio macroeconômico, conceitos fundados no dinheiro em estado puro e aos quais todas as 

economias nacionais são chamadas a se  adaptar. A noção  e a realidade da dívida internacional 

também derivam dessa mesma ideologia. O consumo, tornado um denominador comum para todos 

os   indivíduos,   atribui   um   papel   central   ao   dinheiro   nas   suas   diferentes   manifestações;   juntos,   o 

dinheiro   e   o   consumo   aparecem   como   reguladores   da   vida   individual.   O   novo   dinheiro   torna-se 

onipresente. Fundado numa ideologia, esse dinheiro sem medida se torna a medida geral, reforçando 

a vocação para considerar a acumulação como uma meta em si mesma. Na realidade, o resultado 

dessa busca tanto pode levar à acumulação (para alguns) como o endividamento (para a maioria). 

Nessas   condições,   firma-se   um   círculo   vicioso   dentro   do   qual   o   medo   e   o   desamparo   se   criam 

mutuamente  e a busca  desenfreada  do dinheiro tanto é uma causa  como  uma  conseqüência  do 

desamparo e do medo.

O resultado objetivo é a necessidade, real ou imaginada, de buscar mais dinheiro, e, 

como este, em seu estado puro, é indispensável à existência das pessoas, das empresas e das 

nações, as formas pelas quais ele é obtido, sejam quais forem, já se encontram antecipadamente 

justificadas.

A  competitividade  em  estado  puro

A necessidade de capitalização conduz a adotar como regra a necessidade de competir 

em   todos   os   planos.   Diz-se   que   as   nações   necessitam   competir   entre   elas   –o   que,   todavia,   é 

duvidoso- e as empresas certamente competem por um quinhão sempre maior no mercado. Mas a 

estabilidade de uma empresa pode depender de uma pequena ação desse mercado. A sobrevivência 

está sempre por um fio. Num mundo globalizado, regiões e cidades são chamadas a competir e, 

diante das regras atuais da produção e dos imperativos atuais do consumo, a competitividade se 

torna   também   uma   regra   da   convivência   entre   as   pessoas.   A   necessidade   de   competir   é,   aliás, 

legitimada por uma ideologia largamente aceita e difundida, na medida em que a desobediência às 

suas regras implica perder posições e, até mesmo, desaparecer do cenário econômico. Criam-se, 

deste modo, novos “valores” em todos os planos, uma nova “ética” pervasiva e operacional face aos 

mecanismos da globalização.

Concorrer e competir não são a mesma coisa. A concorrência pode até ser saudável 

sempre que a batalha entre agentes, para melhor empreender uma tarefa e obter melhores resultados 

finais, exige o respeito a certas regras de convivência preestabelecidas ou não. Já a competitividade 

se funda na invenção de novas armas de luta, num exercício em que a única regra é a conquista da 

melhor posição. A competitividade é uma espécie de guerra em que tudo vale e, desse modo, sua 

prática provoca um afrouxamento dos valores morais e um convite ao exercício da violência.

A  potência  em  estado  puro

28



Para exercer a competitividade em estado puro e obter o dinheiro em estado puro, o 

poder (a potência) deve ser também exercido em estado puro. O uso da força acaba se tornando uma 

necessidade.   Não   há   outro  

telos,   outra   finalidade   que   o   próprio   uso   da   força,   já   que   ela   é 

indispensável para competir e fazer mais dinheiro; isso vem acompanhado pela desnecessidade de 

responsabilidade perante o outro, a coletividade próxima e a humanidade em geral.

Por exemplo, a idéia de que o desemprego é o resultado de um jogo simplório entre 

formas técnicas e decisões microeconômicas das empresas é uma simplificação, originada dessa 

confusão, como se a nação não devesse solidariedade a cada um dos seus membros. O abandono da 

idéia de solidariedade está por trás desse entendimento da economia e conduz ao desamparo em que 

vivemos   hoje.   Jamais   houve   na   história   um   período   em   que   o   medo   fosse   tão   generalizado   e 

alcançasse todas as áreas da nossa vida: medo do desemprego, medo da fome, medo da violência, 

medo do outro. Tal medo se espalha e se aprofunda a partir de uma violência difusa, mas estrutural, 

típica   do   nosso   tempo,   cujo   entendimento   é   indispensável   para   compreender,   de   maneira   mais 

adequada, questões como a dívida social e a violência funcional, hoje tão presentes no cotidiano de 

todos.


A  perversidade  sistêmica

Seja qual for o ângulo pelo qual se examinem as situações características do período 

atual, a realidade pode ser vista como uma fábrica de perversidade. A fome deixa de ser um fato 

isolado ou ocasional e passa a ser um dado generalizado e permanente. Ela atinge 800 milhões de 

pessoas espalhadas por todos os continentes, sem exceção. Quando os progressos da medicina e da 

informação deviam autorizar uma redução substancial dos problemas de saúde, sabemos que 14 

milhões de pessoas morrem todos os dias, antes do quinto ano de vida.

Dois bilhões de pessoas sobrevivem sem água potável. Nunca na história  houve um tão 

grande   número   de   deslocados   e   refugiados.   O   fenômeno   dos   sem-teto,   curiosidade   na   primeira 

metade do século XX, hoje é um fato banal, presente em todas as grandes cidades do mundo. O 

desemprego   é   algo   tornado   comum.   Ao   mesmo   tempo,   ficou   mais   difícil   do   que   antes   atribuir 

educação de qualidade e, mesmo, acabar com o analfabetismo. A pobreza também aumenta. No fim 

do século XX havia mais 600 milhões de pobres do que em 1960; e 1,4 bilhão de pessoas ganham 

menos de um dólar por dia. Tais números podem ser, na verdade, ampliados porque, ainda aqui, os 

métodos quantitativos da estatística enganam: ser pobre não é apenas ganhar menos do que uma 

soma arbitrariamente fixada; ser pobre é participar de uma situação estrutural, com uma posição 

relativa inferior dentro da sociedade como um todo. E essa condição se amplia para um número cada 

vez   maior   de   pessoas.   O   fato,   porém,   é   que   a   pobreza   tanto   quanto   o   desemprego   agora   são 

considerados     como   algo   “natural”,   inerente   ao   seu   próprio   processo.  Junto   ao   desemprego   e   à 

pobreza absoluta, registre-se o empobrecimento relativo de camadas cada vez  maiores graças à 

deterioração do valor do trabalho. No México, a parte de trabalho na renda nacional cai de 36% na 

década de 1970 para 23% em 1992. Vivemos num mundo de exclusões, agravadas pela desproteção 

social, apanágio do modelo neoliberal, que é também, criador de insegurança.

Na   verdade,   a   perversidade   deixa   de   se   manisfestar   por  fatos  isolados,   atribuídos   a 

distorções da personalidade, para se estabelecer como um sistema. Ao nosso ver, a causa essencial 

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da perversidade sistêmica é a instituição, por lei geral da vida social, da competitividade como regra 

absoluta, uma competitividade que escorre sobre todo o edifício social. O  

outro, seja ele empresa, 

instituição ou indivíduo, aparece como um obstáculo à realização dos fins de cada um e deve ser 

removido,   por   isso   sendo   considerado   uma   coisa.   Decorrem   daí   a   celebração   dos   egoísmos,   o 

alastramento dos narcisismos, a banalização da guerra de todos contra todos, com a utilização de 

qualquer que seja o meio para obter o fim colimado, isto é, competir e, se possível, vencer. Daí a 

difusão, também generalizada, de outro subproduto da competitividade, isto é, a corrupção.

Esse sistema da perversidade inclui a morte da Política (com um P maiúsculo), já que a 

condução do processo político passa a ser atributo das grandes empresas. Junte-se a isso o processo 

de conformação da opinião pelas mídias, um dado importante no movimento de alienação trazido com 

a   substituição   do   debate   civilizatório   pelo   discurso   único   do   mercado.   Daí   o   ensinamento   e   o 

aprendizado de comportamentos dos quais estão ausentes objetivos finalísticos e éticos.

Assim   elaborado,   o   sistema   da   perversidade   legitima   a   preeminência   de   uma   ação 

hegemônica mas sem responsabilidade, e a instalação sem contrapartida de uma ordem entrópica, 

com a produção “natural” da desordem.

Para tudo isso, também contribui o estabelecimento do império do consumo, dentro do 

qual se instalam consumidores mais que perfeitos (M. Santos, 

O espaço do cidadão, 1988), levados à 

negligência em relação à cidadania e seu corolário, isto é, o menosprezo quanto à liberdade, cujo 

culto   é   substituído   pela   preocupação   com   a   incolumidade.  Esta   reacende   egoísmos   e   é   um   dos 

fermentos da quebra da solidariedade entre pessoas, classes e regiões. Incluam-se também, nessa 

lista   dos   processos   característicos   da   instalação   do   sistema   da   perversidade,   a   ampliação   das 

desigualdades   de   todo   gênero:   interpessoais,   de   classes,   regionais,   internacionais.   Às   antigas 

desigualdades, somam-se novas.

Os papéis dominantes, legitimados pela ideologia e pela prática da competitividade, são 

a mentira, com o nome de segredo da marca; o engodo, com o nome de marketing; a dissimulação e 

o cinismo, com os nomes de tática e estratégia. É uma situação na qual se produz a glorificação da 

esperteza,   negando   a   sinceridade,   e   a   glorificação   da   avareza,   negando   a   generosidade.   Desse 

modo, o caminho fica aberto ao abandono das solidariedades e ao fim da ética, mas, também, da 

política. Para o triunfo das novas virtudes pragmáticas, o ideal de democracia plena é substituído pela 

construção de uma democracia de mercado, na qual a distribuição do poder é tributária da realização 

dos fins últimos do próprio sistema globalitário. Estas são as razões pelas quais a vida normal de 

todos os dias está sujeita a uma violência estrutural que, aliás, é a mãe de todas as outras violências.

10.  

Da  política  dos  Estados  à  política  das  empresas



Façamos um regresso, muito breve, ao começo da história humana, quando o homem 

em sociedade, relacionando-se diretamente com a natureza, constrói a história. Nesse começo dos 

tempos, os laços entre território, política, economia, cultura e linguagem eram transparentes. Nas 

sociedades   que   os   antropólogos   europeus   e   norte-americanos   orgulhosamente   chamaram   de 

primitivas,   a   relação   entre   setores   da   vida   social   também   se   dava   diretamente.   Não   havia 

praticamente intermediações.

Poder-se-ia considerar que existia uma territorialidade genuína. A economia e a cultura 

dependiam do território, a linguagem era uma emanação do uso do território pela economia e pela 

30



cultura, e a política também estava com ele intimamente relacionada.

Havia,   por   conseguinte,   uma   territorialidade   absoluta,   no   sentido   que,   em   todas   as 

manifestações essenciais de sua existência, os moradores pertenciam àquilo que lhes pertencia, isto 

é, o território. Isso criava um sentido de identidade entre as pessoas e o seu espaço geográfico, que 

lhes atribuía, em função da produção necessária à sobrevivência do grupo, uma noção particular de 

limites, acarretando, paralelamente, uma compartimentação do espaço, o que também produzia uma 

idéia de domínio. Para manter a identidade e os limites, era preciso ter clara essa idéia de domínio, de 

poder. A política  do território  tinha  as mesmas bases que a política  da  economia, da  cultura, da 

linguagem, formando um conjunto indissociável. Criava-se, paralelamente, a idéia de comunidade, um 

contexto limitado no espaço.

Sistema  técnicos,  sistemas  filosóficos

Toda relação do homem com a natureza é portadora e produtora de técnicas que se 

foram   enriquecendo,   diversificando   e   avolumando   ao   longo   do   tempo.   Nos   últimos   séculos, 

conhecemos um avanço dos sistemas técnicos, até que, no século XVIII, surgem as técnicas das 

máquinas, que mais tarde vão se incorporar ao solo como próteses, proporcionando ao homem um 

menor esforço na produção, no transporte e nas comunicações, mudando a face da Terra, alterando 

as relações entre países e entre sociedades e indivíduos. As técnicas oferecem respostas à vontade 

de evolução dos homens e, definidas pelas possibilidades que criam, são a marca de cada período da 

história.

A vida assim realizada por meio dessas técnicas é, pois, cada vez menos subordinada ao 

aleatório e cada vez mais exige dos homens comportamentos previsíveis. Essa previsibilidade de 

comportamento assegura, de alguma maneira, uma visão mais racional do mundo e também dos 

lugares que conduz a uma organização sociotécnica do trabalho, do território e do fenômeno do 

poder. Daí o desencantamento progressivo do mundo.

No   século   XVIII,   aconteceram   dois   fenômenos   extremamente   importantes.   Um   é   a 

produção   das   técnicas   das   máquinas,   que   revalorizam   o   trabalho   e   o   capital,   requalificam   os 

territórios, permitem a conquista de novos espaços e abrem horizontes para a humanidade. Esse 

século marca o reforço do capitalismo e também a entrada em cena do homem como um valor a ser 

considerado. O nascimento da técnica das máquinas, o reforço da condição técnica na vida social e 

individual e as novas concepções sobre o homem se corporificam com as idéias filosóficas que se 

iriam tornar forças da política. Este é um outro dado importante.

O   século   XVIII   produziu   os   enciclopedistas   e   a   revolução   americana   e   a   Revolução 

Francesa, respostas políticas às idéias filosóficas. Num momento em que o capitalismo também se 

reforçava, se as técnicas houvessem sido entregues inteiramente às mãos capitalistas sem que, pelo 

outro   lado,   surgissem   as   idéias   filosóficas   (que   também   eram   idéias   morais),   o   mundo   teria   se 

organizado de forma diferente.

Se ao lado desses progressos da técnica a serviço da produção e do capitalismo não 

houvesse a progressão das idéias, teríamos tido uma eclosão muito maior do utilitarismo, com uma 

prática mais avassaladora do lucro e da concorrência. Ao contrário, foi estabelecida a possibilidade de 

enriquecer moralmente o indivíduo. A mesma ética glorificava o indivíduo responsável e a coletividade 

responsável. Ambos eram responsáveis. Indivíduo e coletividade eram chamados a criar juntos um 

31



enriquecimento recíproco que iria apontar para a busca da democracia, por intermédio do Estado 

Nacional,   do   Estado   de   Direito   e   do   Estado   Social,   e   para   a   produção   da   cidadania   plena, 

reivindicação que se foi afirmando ao longo desses séculos. Certamente a cidadania nunca chegou a 

ser plena, mas quase alcançou esse estágio em certos países, durante os chamados trinta anos 

gloriosos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. E essa quase plenitude era paralela à quase 

plenitude da democracia. A cidadania plena é um dique contra o capital pleno.

Tecnociência,  globalização  e  história  sem  sentido

A  globalização  marca   um momento  de  ruptura   nesse   processo  de  evolução  social  e 

moral que se vinha fazendo nos séculos precedentes. É irônico recordar que o progresso técnico 

aparecia, desde os séculos anteriores, como uma condição para realizar essa sonhada globalização 

com a mais completa humanização da vida no planeta. Finalmente, quando esse progresso técnico 

alcança um nível superior, a globalização se realiza, mas não a serviço da humanidade.

A globalização mata a noção de solidariedade, devolve o homem à condição primitiva do 

cada um por si e, como se voltássemos a ser animais da selva, reduz as noções de moralidade 

pública e particular a um quase nada.

O período atual tem como uma das bases esse casamento entre ciência e técnica, essa 

tecnociência, cujo uso é condicionado pelo mercado. Por conseguinte, trata-se de uma técnica e de 

uma ciência seletivas. Como, freqüentemente, a ciência passa a produzir aquilo que interessa ao 

mercado, e não à humanidade em geral, o progresso técnico e científico não é sempre um progresso 

moral. Pior, talvez, do que isso: a ausência desse progresso moral e tudo o que é feito a partir dessa 

ausência vai pesar fortemente sobre o modelo de construção histórica dominante no último quartel do 

século XX.

Essa globalização tem de ser encarada a partir de dois processos paralelos. De um lado, 

dá-se a produção de uma materialidade, ou seja, das condições materiais que nos cercam e que são 

a base da produção econômica, dos transportes e das comunicações. De outro há a produção de 

novas relações sociais entre países, classes e pessoas. A nova situação, conforme já acentuamos, 

vai se alicerçar em duas colunas centrais. Uma tem como base o dinheiro e a outra se funda na 

informação.   Dentro   de   cada   país,   sobretudo   entre   os   mais   pobres,   informação   e   dinheiro 

mundializados acabam por se impor como algo autônomo face à sociedade e, mesmo, à economia, 

tornando-se um elemento fundamental da produção, e ao mesmo tempo da geopolítica, isto é, das 

relações entre países e dentro de cada nação.

A informação é centralizada nas mãos de um número extremamente limitado de firmas. 

Hoje, o essencial do que no mundo se lê, tanto em jornais como em livros, é produzido a partir de 

meia   dúzia   de   empresas   que,   na   realidade,   não   transmitem   novidades,   mas   as   reescrevem   de 

maneira   específica.   Apesar   de   as   condições   técnicas   da   informação   permitirem   que   toda   a 

humanidade conheça tudo que o mundo é, acabamos na realidade por não sabê-lo, por causa dessa 

intermediação deformante.

O   mundo   se   torna   fluido,   graças   à   informação,   mas   também   ao   dinheiro.   Todos   os 

contextos se intrometem e superpõem, corporificando um contexto global, no qual as fronteiras se 

tornam porosas para o dinheiro e para a informação. Além disso, o território deixa de ter fronteiras 

rígidas, o que leva ao enfraquecimento e à mudança de natureza dos Estados nacionais.

32



O   discurso   que   ouvimos   todos   os   dias,   para   nos   fazer   crer   que   deve   haver   menos 

Estado,   vale-se   dessa   mencionada   porosidade,   mas   sua   base   essencial   é   o   fato   de   que   os 

condutores da globalização necessitam de um Estado flexível a seus interesses. As privatizações são 

a mostra de que o capital se tornou devorante, guloso ao extremo, exigindo sempre mais, querendo 

tudo. Além disso, a instalação desses capitais globalizados supõe que o território se adapte às suas 

necessidades de fluidez, investindo pesadamente para alterar a geografia das regiões escolhidas. De 

tal forma, o Estado acaba por ter menos recursos para tudo o que é social, sobretudo no caso das 

privatizações caricatas, como no modelo brasileiro, que financia as empresas estrangeiras candidatas 

à compra do capital social nacional. Não é que o Estado se ausente ou se torne menor. Ele apenas se 

omite quanto ao interesse das populações e se torna mais forte, mais ágil, mais presente, ao serviço 

da economia dominante.

As  empresas  globais  e  a morte  da  política

A política agora é feita no mercado. Só que esse mercado global não existe como ator, 

mas   como   uma   ideologia,   um   símbolo.   Os   atores   são   as   empresas   globais,   que   não   têm 

preocupações éticas, nem finalísticas. Dir-se-á que, no mundo da competitividade, ou se é cada vez 

mais individualista, ou se desaparece. Então, a própria lógica de sobrevivência da empresa global 

sugere que funcione sem nenhum altruísmo. Mas, se o Estado não pode ser solidário e a empresa 

não pode ser altruísta, a sociedade como um todo não tem quem a valha. Agora se fala muito num 

terceiro setor, em que as empresas privadas assumiriam um trabalho de assistência social antes 

deferido ao poder público. Caber-lhes-ia, desse modo, escolher quais os beneficiários, privilegiando 

uma   parcela   da   sociedade   e   deixando   a   maior   parte   de   fora.   Haveria   frações   do   território   e   da 

sociedade   a   serem   deixadas   por   conta,  desde   que   não   convenham  ao   cálculo   das   firmas.  Essa 

“política” das empresas eqüivale à decretação de morte da Política.

A política, por definição, é sempre ampla e supõe uma visão de conjunto. Ela apenas se 

realiza quando existe a consideração de todos e de tudo. Quem não tem visão de conjunto não chega 

a   ser   político.   E   não   há   política   apenas   para   os   pobres,   como   não   há   apenas   para   os   ricos.   A 

eliminação da pobreza é um problema estrutural. Fora daí o que se pretende é encontrar formas de 

proteção  a  certos  pobres  e certos  ricos, escolhidos  segundo  os interesses dos  doadores.  Mas a 

política tem de cuidar do conjunto de realidades e do conjunto de relações.

Nas condições atuais, e de um modo geral, estamos assistindo à não-política, isto é, à 

política feita pelas empresas, sobretudo as maiores. Quando uma grande empresa se instala, chega 

com suas normas, quase todas extremamente rígidas. Como essas normas rígidas são associadas ao 

uso considerado adequado das técnicas correspondentes, o mundo das normas se adensa porque as 

técnicas em si mesmas também são normas. Pelo fato de que as técnicas atuais são solidárias, 

quando uma se impõe cria-se a necessidade de trazer outras, sem as quais aquela não funciona bem. 

Cada   técnica   propõe   uma   maneira   particular   de   comportamento,   envolve   suas   próprias 

regulamentações e, por conseguinte, traz para os lugares novas formas de relacionamento. O mesmo 

se   dá   com   as   empresas.   É   assim   que   também   se   alteram   as   relações   sociais   dentro   de   cada 

comunidade. Muda a estrutura do emprego, assim como as outras relações econômicas, sociais, 

culturais e morais dentro de cada lugar, afetando igualmente o orçamento público, tanto na rubrica da 

receita  como no capítulo da despesa. Um pequeno número de grandes empresas que se instala 

33



acarreta para a sociedade como um todo um pesado processo de desequilíbrio.

Todavia, mediante o discurso oficial, tais empresas são apresentadas como salvadoras 

dos lugares e são apontadas como credoras de reconhecimento pelos seus aportes de emprego e 

modernidade. Daí a crença de sua indispensabilidade, fator da presente guerra entre lugares e, em 

muitos casos, de sua atitude de chantagem frente ao poder público, ameaçando ir embora quando 

não   atendidas   em   seus   reclamos.   Assim,   o   poder   público   passa   a   ser   subordinado,   compelido, 

arrastado.   À   medida   que   se   impõe   esse   nexo   das   grandes   empresas,   instala-se   a   semente   da 

ingovernabilidade,   já   fortemente   implantada   no   Brasil,   ainda   que   sua   dimensão   não   tenha   sido 

adequadamente avaliada. À medida que os institutos encarregados de cuidar do interesse geral são 

enfraquecidos, com o abandono da noção e da prática da solidariedade, estamos, pelo menos a 

médio prazo, produzindo as precondições da fragmentação da desordem, claramente visíveis no país, 

por meio do comportamento dos territórios, isto é, da crise praticamente geral dos estados e dos 

municípios.

11.  


Em  meio  século,  três  definições  da  pobreza

Os   países   subdesenvolvidos   conheceram   pelo   menos   três   formas   de   pobreza   e, 

paralelamente,   três   formas   de   dívida   social,   no   último   meio   século.   A   primeira   seria   o   que 

ousadamente chamaremos de 

pobreza incluída, uma pobreza acidental, às vezes residual ou sazonal, 

produzida   em   certos   momentos   do   ano,   uma   pobreza   intersticial   e,   sobretudo,   sem   vasos 

comunicantes

Depois   chega   uma   outra,   reconhecida   e   estudada   como   uma   doença   da   civilização. 

Então chamada de 

marginalidade, tal pobreza era produzida pelo processo econômico da divisão do 

trabalho, internacional ou interna. Admitia-se que poderia ser corrigida, o que era buscado pelas mãos 

dos governos.

E agora chegamos ao terceiro tipo, a pobreza estrutural, que de um ponto de vista moral 

e político eqüivale a uma dívida social. Ela é estrutural e não mais local, nem mesmo nacional; torna-

se globalizada, presente em toda a parte do mundo. Há uma disseminação planetária e uma produção 

globalizada da pobreza, ainda que esteja mais presente nos países já pobres. Mas é também uma 

produção científica, portanto voluntária da dívida social, para a qual, na maior parte do planeta, não se 

buscam remédios.

A  pobreza  “incluída”

Antes, as situações de pobreza podiam ser definidas como reveladoras de uma pobreza 

acidental, residual, estacional, intersticial, vista como desadaptação local aos processos mais gerais 

de mudança, ou como inadaptação entre condições naturais e condições sociais. Era uma pobreza 

que se produzia num lugar e não se comunicava a outro lugar.

Então,   nem   a   cidade,   nem   o   território,   nem   a   própria   sociedade   eram   exclusiva   ou 

majoritariamente   movidos   por  

driving   forces  compreendidas   pelo   processo   de   racionalização.   A 

presença   das   técnicas,   coladas   ao   território   ou   inerentes   à   vida   social,   era   relativamente   pouco 

expressiva, reduzindo, assim, a eficácia dos processos racionalizadores porventura vigentes na vida 

econômica, cultural, social, e política. Desse modo, a racionalidade da existência não constituía um 

34



dado essencial do processo histórico, limitando-se a alguns aspectos isolados da sociabilidade. A 

produção da pobreza iria buscar suas causas em outros fatores.

Na   situação   que   estamos   descrevendo,   as   soluções   ao   problema   eram   privadas, 

assistencialistas, locais, e a pobreza era freqüentemente apresentada como um acidente natural ou 

social. Em um mundo onde o consumo ainda não constituía um nexo social obrigatório, a pobreza era 

menos discriminatória. Daí poder-se falar de pobres incluídos.

A  marginalidade

Num segundo momento, a pobreza é identificada como uma doença da civilização, cuja 

produção acompanha o próprio processo econômico. Agora, o consumo se impõe como um dado 

importante, pois constitui o centro da explicação das diferenças e da percepção das situações. Dois 

fatores jogam um papel fundamental. Ampliam-se, de um lado, as possibilidades de circulação, e de 

outro,   graças   às   formas   modernas   de   difusão   das   inovações,   a   informação   constitui   um   dado 

revolucionário nas relações sociais. O radiotransistor era o grande símbolo. A ampliação do consumo 

ganha, assim, as condições materiais e psicológicas necessárias, dando à pobreza novos conteúdos 

e novas definições. Além da pobreza  absoluta, cria-se e recria-se incessantemente uma pobreza 

relativa, que leva a classificar os indivíduos pela sua capacidade de consumir, e pela forma como o 

fazem. O estabelecimento de “índices” de pobreza e miséria utiliza esses componentes.

Ainda nesse segundo momento, que coincide com a generalização e o sucesso da idéia 

de   subdesenvolvimento   e   das   teorias   destinadas   a   combatê-lo,   os   pobres   eram   chamados   de 

marginais.   Para   superar   tal   situação,   considerada   indesejável,   torna-se,   também,   generalizada   a 

preocupação   dos   governos   e   das   sociedades   nacionais,   por   meio   de   suas   elites   intelectuais   e 

políticas, com o fenômeno da pobreza, o que leva a uma busca de soluções de Estado para esse 

problema, considerado grave mas não insolúvel. O êxito do estado do bem-estar em tantos países da 

Europa ocidental e a notícia das preocupações dos países socialistas para com a população em geral 

funcionavam com inspiração aos países pobres, todos comprometidos, ao menos ideologicamente, 

com a luta contra a pobreza e suas manifestações, ainda que não lhes fosse possível alcançar a 

realização do estado de bem-estar. Mesmo em países como o nosso, o poder público é forçado a 

encontrar fórmulas, saídas, arremedos de solução. Havia uma certa vergonha de não enfrentar a 

questão.

A  pobreza  estrutural  globalizada

O  último   período,   no   qual   nos  encontramos,   revela   uma   pobreza   de   novo   tipo,   uma 

pobreza estrutural globalizada, resultante de um sistema de ação deliberada. Examinando o processo 

pelo qual o desemprego é gerado e a remuneração do emprego se torna cada vez pior, ao mesmo 

tempo em que o poder público se retira das tarefas de proteção social, é lícito considerar que a atual 

divisão   “administrativa”   do   trabalho   e   a   ausência   deliberada   do   Estado   de   sua   missão   social   de 

regulação estejam contribuindo para uma produção científica, globalizada e voluntária da pobreza. 

Agora,  ao   contrário   das  duas  fases anteriores,  trata-se  de  uma  pobreza   pervasiva,   generalizada, 

permanente, global. Pode-se, de algum modo, admitir a existência de algo como um planejamento 

centralizado   da  pobreza  atual:   ainda   que  seus  autores  sejam  muitos,  o  seu   motor  essencial  é  o 

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mesmo dos outros processos definidores de nossa época.

A   pobreza   atual   resulta   da   convergência   de   causas  que   se   dão   em  diversos  níveis, 

existindo   como   vasos   comunicantes   e   como   algo   racional,   um   resultado   necessário   do   presente 

processo, um fenômeno inevitável, considerado até mesmo um fato natural.

Alcançamos, assim, uma espécie de naturalização da pobreza, que seria politicamente 

produzida   pelos   atores   globais   com   a   colaboração   consciente   dos   governos   nacionais   e, 

contrariamente às situações precedentes, com a convivência de intelectuais contratados – ou apenas 

contratados – para legitimar essa naturalização.

Nessa última fase, os pobres não são incluídos nem marginais, eles são excluídos. A 

divisão do trabalho era, até recentemente, algo mais ou menos espontâneo. Agora não. Hoje, ela 

obedece a cânones científicos – por isso a consideramos uma divisão do trabalho administrada – e é 

movida por um mecanismos que traz consigo a produção das dívidas sociais e a disseminação da 

pobreza numa escala global. Saímos de uma pobreza para entrar em outra. Deixa-se de ser pobre em 

um lugar para ser pobre em outro. Nas condições atuais, é uma pobreza quase sem remédio, trazida 

não apenas pela expansão do desemprego, como, também, pela redução do valor do trabalho. É o 

caso,  por  exemplo,  dos   Estados   Unidos,   apresentado   como   o   país   que   tem   resolvido   um   pouco 

menos mal a questão do desemprego, mas onde o valor médio do salário caiu. E essa queda do 

desemprego não atinge igualmente toda a população, porque os negros continuam sem emprego, em 

proporção talvez pior do que antes, e as populações de origem latina se encontram na base da escala 

salarial.

Essa produção maciça da pobreza aparece como um fenômeno banal. Uma das grande 

diferenças do ponto de vista ético é que a pobreza de agora surge, impõe-se e explica-se como algo 

natural   e   inevitável.   Mas   é   uma   pobreza   produzida   politicamente   pelas   empresas   e   instituições 

globais. Estas, de um lado, pagam para criar soluções localizadas, parcializadas, segmentadas, como 

é o caso do Banco Mundial, que, em diferentes partes do mundo, financia programas de atenção aos 

pobres, querendo passar a impressão de se interessar pelos desvalidos, quando, estruturalmente, é o 

grande   produtor   da   pobreza.   Acatam-se,   funcionalmente,   manifestações   da   pobreza,   enquanto 

estruturalmente se cria a pobreza ao nível do mundo. E isso se dá com a colaboração passiva ou ativa 

dos governos nacionais.

Vejam, então, a diferença entre o uso da palavra pobreza e da expressão dívida social 

nesses   cinqüenta   anos.   Os   pobres,   isto   é,   aqueles   que   são   o   objeto   da   dívida   social,   foram   já 

incluídos e, depois, marginalizados, e acabam por ser o que hoje são, isto é, excluídos. Esta exclusão 

atual, com a produção de dívidas sociais, obedece a um processo racional, uma racionalidade sem 

razão, mas que comanda as ações hegemônicas e arrasta as demais ações. Os excluídos são o fruto 

dessa racionalidade. Por aí se vê que a questão capital é o entendimento do nosso tempo, sem o qual 

será impossível construir o discurso da liberação. Este, desde que seja simples e veraz, poderá ser a 

base intelectual da política. E isso é central no mundo de hoje, um mundo no qual nada de importante 

se faz sem discurso.

O  papel  dos  intelectuais

O terrível é que, nesse mundo de hoje, aumenta o número de letrados e diminui o de 

intelectuais.   Não   é   este   um   dos   dramas   atuais   da   sociedade   brasileira?   Tais   letrados, 

36



equivocadamente   assimilados   aos   intelectuais,   ou   não   pensam   para   encontrar   a   verdade,   ou, 

encontrando a verdade, não a dizem. Nesse caso, não se podem encontrar com o futuro, renegando a 

função principal da intelectualidade, isto é, o casamento permanente com o porvir, por meio da busca 

incansada da verdade.

Assim   como   o   território   é   hoje   um   território   nacional   da   economia   internacional   (M. 

Santos, 


A natureza do espaço, 1996), a pobreza, hoje, é a pobreza nacional da ordem internacional. 

Essa   realidade   obriga   a   discutir   algumas   das   soluções   propostas   para   o   problema,   como,   por 

exemplo,   quando   se   imagina   poder   compensar   uma   política   neoliberal   no   plano   nacional   com   a 

possibilidade   de   uma   política   social   no   plano   subnacional.   No   caso   brasileiro,   é   lamentável   que 

políticos e partidos ditos de esquerda se entreguem a uma política de direita, jogando para um lado a 

busca   de   soluções   estruturais   e   limitando-se   a   propor   paliativos,   que   não   são   verdadeiramente 

transformadores da sociedade, porque serão inócuos, no médio e no longo prazos. As chamadas 

políticas públicas, quando existentes, não podem substituir a política social, considerada um elenco 

coerente com as demais políticas (econômica, territorial etc.).

Não se trata, pois, de deixar aos níveis inferiores de governo – municípios, estados – a 

busca   de   políticas  compensatórias  para   aliviar   as  conseqüências  da   pobreza,  enquanto,   ao   nível 

federal, as ações mais dinâmicas estão orientadas cada vez mais para a produção de pobreza. O 

desejável seria que, a partir de uma visão de conjunto, houvesse redistribuição dos poderes e de 

recursos entre diversas esferas político-administrativas do poder, assim como uma redistribuição das 

prerrogativas   e   tarefas   entre   as   diversas   escalas   territoriais,   até   mesmo   com   a   reformulação   da 

federação.   Mas,   para   isso,   é   necessário   haver   um   projeto   nacional,   e   este   não   pode   ser   uma 

formulação automaticamente derivada do projeto hegemônico e limitativo da globalização atual. Ao 

contrário, partindo das realidades e das necessidades de cada nação, deve não só entendê-las, como 

também constituir uma promessa de reformulação da própria ordem mundial.

Nas  condições  atuais,  um  grande   complicador  vem  do   fato   de   que  a   globalização   é 

freqüentemente considerada uma fatalidade, baseada num exagerado encantamento pelas técnicas 

de   ponta   e   com   negligência   quanto   ao   fator   nacional,   deixando-se   de   lado   o   papel   do   território 

utilizado pela sociedade como um seu retrato dinâmico. Tal visão do mundo, uma espécie de volta à 

velha noção de 

technological fix (uma única tecnologia eficaz), acaba por consagrar a adoção de um 

ponto de partida fechado e por aceitar como indiscutível e inelutável o reino da necessidade, com a 

morte da esperança e da generosidade. Exclusão e dívida social aparecem como se fossem algo fixo, 

imutável, indeclinável, quando, como qualquer outra ordem, pode ser substituída por uma ordem mais 

humana.

12.  


O  que  fazer  com  a  soberania

De que maneira a globalização afeta a soberania das nações, as fronteiras dos países e 

a governabilidade plena é uma questão que, volta e meia, ocupa os espíritos, seja teoricamente, seja 

em função de fatos concretos. Nesse terreno, como em muitos outros, a produção de meias-verdades 

é   infinita   e   somos   freqüentemente   convocados   a   repeti-las   sem   maior   análise   do   problema.   Há, 

mesmo, quem se arrisque a falar de desterritorialidade, fim das fronteiras, morte do Estado. Há os 

otimistas e pessimistas, os defensores e os acusadores.

Tomemos o caso particular do Brasil para discutir mais de perto essa questão, ainda que 

37



nossa realidade se aparente à de muitos outros países do planeta. Com a globalização, o que temos é 

um território nacional da economia internacional, isto é, o território continua existindo, as normas 

públicas que o regem são da alçada nacional, ainda que as forças mais ativas do seu dinamismo atual 

tenham origem externa. Em outras palavras, a contradição entre o externo e o interno aumentou. 

Todavia, é o Estado nacional, em última análise, que detém o monopólio das normas, sem as quais 

os   poderosos   fatores   externos   perdem   eficácia.   Sem   dúvida,   a   noção   de   soberania   teve   de   ser 

revista,  face   aos  sistemas  transgressores  de   âmbito   planetário,  cujo   exercício   violento   acentua   a 

porosidade das fronteiras. Estes, são, sobretudo, a informação e a finança, cuja a fluidez se multiplica 

graças às maravilhas da técnica contemporânea. Mas é um equívoco pensar que a informação e a 

finança   exercem   sempre   sua   força   sem   encontrar   contrapartida   interna.   Esta   depende   de   uma 

vontade política interior, capaz de evitar que a influência dos ditos fatores seja absoluta.

Ao contrário do que se repete impunemente, o Estado continua forte e a prova disso é 

que nem as empresas transnacionais, nem as instituições supranacionais dispõem de força normativa 

para impor, sozinhas, dentro de cada território, sua vontade política ou econômica. Por intermédio de 

suas normas de produção, de trabalho, de financiamento e de cooperação com outras firmas, as 

empresas   transnacionais   arrastam   outras   empresas   e   instituições   dos   lugares   onde   se   instalam, 

impondo-lhes comportamentos compatíveis com seus interesses. Mas a vida de uma empresa vai 

além   do   mero   processo   técnico   de   produção   e   alcança   todo   o   entorno,   a   começar   pelo   próprio 

mercado e incluindo também as infra-estruturas geográficas de apoio, sem o que ela não pode ter 

êxito. É o Estado nacional que, afinal, regula o mundo financeiro e constrói infra-estruturas, atribuindo, 

assim, a grandes empresas escolhidas a condição de sua viabilidade. O mesmo pode ser dito das 

instituições supranacionais (FMI, Banco Mundial, Nações Unidas, Organização Mundial do Comércio), 

cujos   editos   ou   recomendações   necessitam   de   decisões   internas   a   cada   país   para   que   tenham 

eficácia.   O   Banco   Central   é,   freqüentemente,   essa   correia   de   transmissão   (situada   acima   do 

Parlamento) entre uma vontade política externa e uma ausência de vontade interior. Por isso, tornou-

se corriqueiro entregar a direção desses bancos centrais a personagens mais comprometidas com os 

postulados ideológicos da finança internacional do que com os interesses concretos das sociedades 

nacionais.

Mas a cessão de soberania não é algo natural, inelutável, automático, pois depende da 

forma como o governo de cada país decide fazer sua inserção no mundo da chamada globalização.

O Estado altera suas regras e feições num jogo combinado de influências externas e 

realidades internas. Mas não há apenas um caminho e este não é obrigatoriamente o da passividade. 

Por conseguinte, não é verdade que a globalização impeça a constituição de um projeto nacional. 

Sem isso, os governos ficam à mercê de exigências externas, por mais descabidas que sejam. Este 

parece   ser   o   caso   do   Brasil   atual.   Cremos,   todavia,   que   sempre   é   tempo   de   corrigir   os   rumos 

equivocados e, mesmo num mundo globalizado, fazer triunfar os interesses da nação.

38



IV       -       O     TERRITÓRIO     DO     DINHEIRO     E     DA  

FRAGMENTAÇÃO

Introdução

No   mundo   da   globalização,   o   espaço   geográfico   ganha   novos   contornos,   novas 

características, novas definições. E, também, uma nova importância, porque a eficácia das ações está 

estreitamente relacionada com a sua localização. Os atores mais poderosos se reservam os melhores 

pedaços do território e deixam o resto para os outros.

Numa   situação   de   extrema   competitividade   como   esta   em   que   vivemos,   os   lugares 

repercutem os embates entre os diversos atores e o território como um todo revela os movimentos de 

fundo da sociedade. A globalização, com a proeminência dos sistemas técnicos e da informação, 

subverte o antigo jogo da evolução territorial e impõe novas lógicas.

Os territórios tendem a uma compartimentação generalizada, onde se associam e se 

chocam o movimento geral da sociedade planetária e o movimento particular de cada fração, regional 

ou local, da sociedade nacional. Esses movimentos são paralelos a um processo de fragmentação 

que   rouba   às   coletividades   o   comando   do   seu   destino,   enquanto   os   novos   atores   também   não 

dispõem de instrumentos de regulação que interessem à sociedade em seu conjunto. A agricultura 

moderna, cientifizada e mundializada, tal como a assistimos se  desenvolver em países como o Brasil, 

constitui   um   exemplo   dessa   tendência   e   um   dado   essencial   ao   entendimento   do   que   no   país 

constituem a compartimentação e a fragmentação atuais do território.

Outro fenômeno a levar em conta é o papel das finanças na reestruturação do espaço 

geográfico.   O   dinheiro   usurpa   em   seu   favor   as   perspectivas   de   fluidez   do   território,   buscando 

conformar sob seu comando as outras atividades.

Mas o território não é um dado neutro nem um ator passivo. Produz-se uma verdadeira 

esquizofrenia,   já   que   os   lugares   escolhidos     acolhem   e   beneficiam   os   vetores   da   racionalidade 

dominante mas também permitem a emergência de outras formas de vida. Essa esquizofrenia do 

território e do lugar tem um papel ativo na formação da consciência. O espaço geográfico não apenas 

revela   o   transcurso   da   história   como   indica   a   seus   atores   o   modo   de   nela   intervir   de   maneira 

consciente.

13.  

O  espaço  geográfico:  compartimentação  e  fragmentação



Ao longo da história humana, olhado o planeta como um todo ou observado através dos 

continentes e países, o espaço geográfico sempre foi objeto de uma compartimentação. No começo 

havia   ilhas   de   ocupação   devidas   à   presença   de   grupos,   tribos,   nações,   cujos   espaços   de   vida 

formariam verdadeiros arquipélagos. Ao longo do tempo e à medida do aumento das populações e do 

intercâmbio, essa trama foi se tornando cada vez mais densa. Hoje, com a globalização, pode-se 

39



dizer que a totalidade da superfície da Terra é compartimentada, não apenas pela ação direta do 

homem,   mas   também   pela   sua   presença   política.   Nenhuma   fração   do   planeta   escapa   a   essa 

influência. Desse modo, a velha noção de ecúmeno perde a antiga definição e ganha uma nova 

dimensão; tanto se pode dizer que toda a superfície da Terra se tornou ecúmeno quanto se pode 

afirmar   que   essa   palavra   já   não   se   aplica   apenas   ao   planeta   efetivamente   habitado.   Com   a 

globalização, todo e qualquer pedaço da superfície da Terra se torna funcional às necessidades, usos 

e apetites de Estados e empresas nesta fase da história.

Desse   modo,   a   superfície   da   Terra   é   inteiramente   compartimentada   e   o   respectivo 

caleidoscópio se apresenta sem solução de continuidade. Redefinida em função dos característicos 

de uma época, a compartimentação atual distingue-se daquela do passado e freqüentemente se dá 

como fragmentação. Seu conteúdo e definição variam através dos tempos, mas sempre revelam um 

cotidiano   compartido   e   complementar   ainda   que   também   conflitivo   e   hierárquico,   um   acontecer 

solidário identificado com o meio, ainda que sem excluir relações distantes. Tal solidariedade e tal 

identificação constituem a garantia de uma possível regulação interna. Já a fragmentação revela um 

cotidiano em que há parâmetros exógenos, sem referência ao meio. A assimetria na evolução das 

diversas   partes   e   a   dificuldade   ou   mesmo   a   impossibilidade   de   regulação,   tanto   interna   quanto 

externa, constituem uma característica marcante.

A  compartimentação:  passado  e  presente

Até   recentemente,   a   humanidade   vivia   o   mundo   da   lentidão,   no   qual   a   prática   de 

velocidades   diferentes   não   separava   os   respectivos   agentes.   Eram   ritmos   diversos,   mas   não 

incompatíveis. Dentro de cada área, os compartimentos eram soldados por regras, ainda que não 

houvesse contigüidade entre eles. O mesmo pode ser dito em relação ao que se passava na escala 

internacional.   O   melhor   exemplo,   desde   o   último   quartel  do   século   XIX,  é   o   da   constituição   dos 

impérios, fundado cada qual numa base técnica diferente, o que não impedia a sua coexistência, nem 

a   possibilidade   de   cooperação   na   diferença.   Durante   um   século   conviveram   impérios   como   o 

britânico,   portador   das   técnicas   mais   avançadas   da   produção   material,   dos   transportes,   das 

comunicações e do dinheiro, com impérios desse ponto de vista menos avançados, por exemplo o 

império português ou o império espanhol. Pode-se dizer que a política compensava a diversidade e a 

diferenciação do poder técnico ou do poder econômico, assegurando, ao mesmo tempo, a ordem 

interna a cada um desses impérios e a ordem internacional. Por intermédio da política, cada país 

imperial regulava  a produção  própria  e a das suas colônias, o comércio entre  estas e os outros 

países, o fluxo de produtos, mercadorias e pessoas, o valor do dinheiro e as formas de governo. O 

famoso   pacto   colonial   acabava   por   compreender   todas   as   manifestações   da   vida   histórica   e   os 

equilíbrios   no   interior   de   cada   império   se   davam   paralelamente   ao   equilíbrio   entre   as   nações 

imperiais. De algum modo, a ordem internacional era produzida por meio da política dos Estados. 

Dentro   de   cada   país,   a   compartimentação   e   a   solidariedade   presumiam   a   presença   de   certas 

condições, todas praticamente relacionadas com o território: uma economia territorial, uma cultura 

territorial, regidas por regras, igualmente territorializadas, na forma de leis e de tratados, mas também 

de costumes.

Por   meio   da   regulação,   a   compartimentação   dos   territórios,   na   escala   nacional   e 

internacional, permite que sejam neutralizadas diferenças e mesmo as oposições sejam pacificadas, 

40



mediante um processo político que se renova, adaptando-se às realidades emergentes para também 

renovar, desse modo, a solidariedade.

No plano internacional, esse processo cumulativo de adaptações leva às modificações 

do estatuto colonial, aceleradas com o fim da Segunda Guerra Mundial. No plano interno, a busca de 

solidariedade   conduz   ao   enriquecimento   dos   direitos   sociais   com   a   instalação   de   diferentes 

modalidades de democracia social.

Rapidez,  fluidez,  fragmentação

Hoje,   vivemos   um   mundo   da   rapidez   e   da   fluidez.   Trata-se   de   uma   fluidez   virtual, 

possível pela presença dos novos sistemas técnicos, sobretudo os sistemas da informação, e de uma 

fluidez   efetiva,   realizada   quando   essa   fluidez   potencial   é   utilizada   no   exercício   da   ação,   pelas 

empresas e instituições hegemônicas. A fluidez potencial aparece no imaginário e na ideologia como 

se fosse um bem comum, uma fluidez para todos, quando, na verdade, apenas alguns agentes têm a 

possibilidade de utiliza-la, tornando-se, desse modo, os detentores efetivos da velocidade. O exercício 

desta é, pois, o resultado da disponibilidades materiais e técnicas existentes e das possibilidades de 

ação. Assim, o mundo da rapidez e da fluidez somente se entende a partir de um processo conjunto 

no qual participam de um lado as técnicas atuais e, de outro, a política atual, sendo que esta é 

empreendida tanto pelas instituições públicas, nacionais, intranacionais e internacionais, como pelas 

empresas privadas.

As atuais compartimentações dos territórios ganham esse novo ingrediente. Criam-se, 

paralelamente,   incompatibilidades   entre   velocidades   diversas;   e   os   portadores   das   velocidades 

extremas   buscam   induzir   os   demais   atores   a   acompanhá-los,   procurando   disseminar   as   infra-

estruturas   necessárias   à   desejada   fluidez   nos   lugares   que   consideram   necessários   para   a   sua 

atividade. Há, todavia, sempre, uma seletividade nessa difusão, separando os espaços da pressa 

daqueles outros propícios à lentidão, e dessa forma acrescentando ao processo de compartimentação 

nexos verticais que se superpõem à compartimentação horizontal, característica da história humana 

até data recente. O fenômeno é geral, já que, conforme vimos antes, tudo hoje está compartimentado; 

incluindo toda a superfície do planeta.

É por meio dessas linhas de menor resistência e, por conseguinte, de maior fluidez, que 

o mercado globalizado procura instalar a sua vocação de expansão, mediante processos que levam à 

busca da unificação e não propriamente à busca da união. O chamado mercado global se impõe 

como razão principal da constituição desses espaços da fluidez e, logo, da sua utilização, impondo, 

por meio de tais lugares, um funcionamento que reproduz as suas próprias bases (John Gray, 

Falso 

amanhecer,   os   equívocos   do   capitalismo,   1999),   a   começar   pela   competitividade.   A   literatura 



apologética   da   globalização   fala   de   competitividade   entre   Estados,  mas,   na   verdade,  trata-se   de 

competitividade entre empresas, que, às vezes, arrastam o Estado e sua força normativa na produção 

de   condições   favoráveis   àquelas   dotadas   de   mais   poder.   É   dessa   forma   que   se   potencializa   a 

vocação   de   rapidez   e   de   urgência   de   algumas   empresas   em   detrimento   de   outras,   uma 

competitividade que agrava as diferenças de força e as disparidades, enquanto o território, pela sua 

organização, constitui-se num instrumento do exercício dessas diferenças de poder.

Cada   empresa,   porém,   utiliza   o   território   em   função   dos   seus   fins   próprios   e 

exclusivamente   em   função   desses   fins.   As   empresas   apenas   têm   olhos   para   os   seus   próprios 

41



objetivos e são cegas para tudo o mais. Desse modo, quanto mais racionais forem as regras de sua 

ação  individual  tanto   menos tais regras serão   respeitosas do  entorno   econômico,   social, político, 

cultural, moral ou geográfico, funcionando, as mais das vezes, como um elemento de pertubação e 

mesmo   de   desordem.   Nesse   movimento,   tudo   que   existia   anteriormente   à   instalação   dessas 

empresas  hegemônicas e  convidado  a  adaptar-se  às  suas  formas  de  ser  e de  agir,  mesmo  que 

provoque, no entorno preexistente, grandes distorções, inclusive a quebra da solidariedade social.

Competitividade  

versus  solidariedade

Pode-se dizer então que, em última análise, a competitividade acaba por destroçar as 

antigas   solidariedades,   freqüentemente   horizontais,   e   por   impor   uma   solidariedade   vertical,   cujo 

epicentro é a empresa hegemônica, localmente obediente a interesses globais mais poderosos e, 

desse   modo,   indiferente   ao   entorno.   As   solidariedades   horizontais   preexistentes   refaziam-se 

historicamente a partir de um debate interno, levando a ajustes inspirados na vontade de reconstruir, 

em novos termos, a própria solidariedade horizontal. Já agora, a solidariedade vertical que se impõe 

exclui qualquer debate local eficaz, já que as empresas hegemônicas têm apenas dois caminhos: 

permanecer para exercer plenamente seus objetivos individualistas ou retirar-se.

Como cada empresa hegemônica no objetivo de se manter como tal deve realçar tais 

interesses individuais, sua ação é raramente coordenada com a de outras, ou com o poder público, e 

tal descoordenação agrava a desorganização, isto é, reduz as possibilidades do exercício de uma 

busca de sentido para a vida local.

Cada empresa hegemônica age sobre uma parcela do território. O território como um 

todo é objeto da ação de várias empresas, cada qual, conforme já vimos, preocupada com suas 

próprias  metas   e   arrastando,  a   partir   dessas   metas,  o   comportamento   do   resto   das  empresas   e 

instituições. Que resta então da nação diante dessa nova realidade? Como a nação se exerce diante 

da verdadeira fragmentação do território, função das formas contemporâneas de ação das empresas 

hegemônicas?

A   palavra   fragmentação   impõe-se   com   toda   força   porque,   nas   condições   acima 

descristas,  não  há regulação  possível  ou  esta  apenas  consagra  alguns atores e  estes,  enquanto 

produzem uma ordem em causa própria, criam, paralelamente, desordem para tudo o mais. Como 

essa 


ordem desordeira é global, inerente ao próprio processo produtivo da globalização atual, ela não 

tem   limites;   mas   não   tem   limites   porque   também   não   tem   finalidade   e,   desse   modo,   nenhuma 

regulação é possível, porque não desejada. Esse novo poder das grandes empresas, cegamente 

exercido, é, por natureza, desagregador, excludente, fragmentador, seqüestrando autonomia ao resto 

dos atores.

Os fragmentos resultantes desse processo articulam-se externamente segundo lógicas 

duplamente   estranhas:   por   sua   sede   distante,   longínqua   quanto   ao   espaço   da   ação,   e   pela   sua 

inconformidade com o sentido preexistente da vida na área em que se instala. Desse modo, produz-

se uma verdadeira alienação territorial à qual correspondem outras formas de alienação.

Dentro de um mesmo país se criam formas e ritmos diferentes de evolução, governados 

pelas metas e destinos específicos de cada empresa hegemônica, que arrastam com sua presença 

outros   atores   sociais,   mediante   a   aceitação   ou   mesmo   a   elaboração   de   discursos   “nacionais-

regionais” alienígenas ou alienados.

42



Outra reação conduz à elaboração paralela de discursos reativos dotados de conteúdo 

específico e destinados a mostrar inconformidade com as formas vigentes de inserção no “mundo”. 

Criam-se,   em   certos   casos,   novas   soberanias,   como,   por   exemplo,   na   antiga   Iugoslávia,   ou 

autonomias   ampliadas,   entronizando   o   que   se   poderiam   chamar  

regiões-países,   cujo   exemplo 

emblemático nos vem da Espanha. Como resolver questão de dentro de um mesmo país, quando o 

passado   não   ofereceu   como   herança   conjunta   a   existência   de   culturas   particulares   solidamente 

estabelecidas, junto a uma vontade política regional já exercida como poder?

Esse problema se torna mais agudo na medida em que as compartimentações atuais do 

território não são enxergadas como fragmentação. Isso se dá, geralmente, quando a interpretação do 

fato nacional é entregue a visões aparentemente totalizantes, mas na realidade particularistas, como 

certos enfoques da economia  e, mesmo,  da  ciência  política,  que não  se  apropriam da noção  do 

território   considerado   como  

território   usado  e   visto,   desse   modo,   como   estrutura   dotada   de   um 

movimento próprio. É melhor fazer a nação por intermédio do seu território, porque nele tudo o que é 

vida está representado.

14.  

A  agricultura  científica  globalizada  e  a  alienação  do  território



Desde o princípio dos tempos, a agricultura comparece como uma atividade reveladora 

das relações profundas entre as sociedades humanas e o seu entorno. No começo da história tais 

relações eram, a bem dizer, entre os grupos humanos e a natureza. O avanço da civilização atribui ao 

homem, por meio do aprofundamento das técnicas e de sua difusão, uma capacidade cada vez mais 

crescente de  alterar os dados naturais quando possível, reduzir a importância do seu impacto e, 

também, por meio da organização social, de modificar a importância dos seus resultados. Os últimos 

séculos   marcam,   para   a   atividade   agrícola,   com   a   humanização   e   a   mecanização   do   espaço 

geográfico, uma considerável mudança de qualidade, chegando-se, recentemente, à constituição de 

um meio geográfico a que podemos chamar de meio técnico-científico-informacional, característico 

não apenas da vida urbana mas também do mundo rural, tanto nos países avançados como nas 

regiões   mais   desenvolvidas   dos   países   pobres.   É   desse   modo   que   se   instala   uma   agricultura 

propriamente científica, responsável por mudanças profundas quanto à produção agrícola e quanto à 

vida de relações.

Podemos   agora   falar   de   uma   agricultura   científica   globalizada.   Quando   a   produção 

agrícola tem uma referência planetária, ela recebe influência daquelas mesmas leis que regem os 

outros aspectos da produção econômica. Assim, a competitividade, característica das atividades de 

caráter planetário, leva a um aprofundamento da tendência à instalação de uma agricultura científica. 

Esta, como vimos, é exigente de ciência, técnica e informação, levando ao aumento exponencial das 

quantidades produzidas em relação às superfícies plantadas. Por sua natureza global, conduz a uma 

demanda extrema de comércio. O dinheiro passa a ser uma “informação” indispensável.

A  demanda  externa  de  racionalidade

Nas   áreas   onde   essa   agricultura   científica   globalizada   se   instala,   verifica-se   uma 

importante demanda de bens científicos (sementes, inseticidas, fertilizantes, corretivos) e, também, de 

assistência técnica. Os produtos são escolhidos segundo uma base mercantil, o que também implica 

43



uma estrita obediência aos mandamentos científicos e técnicos. São essas condições que regem os 

processos de plantação, colheita, armazenamento, empacotamento, transportes e comercialização, 

levando à introdução, aprofundamento e difusão de processos de racionalização que se contagiam 

mutuamente,   propondo   a   instalação   de   sistemismos,   que   atravessam   o   território   e   a   sociedade, 

levando, com a racionalização das práticas, a uma certa homogeneização.

Da-se, na realidade, também, uma certa militarização do trabalho, já que o critério do 

sucesso é a obediência às regras sugeridas pelas atividades hegemônicas, sem cuja utilização os 

agentes recalcitrantes acabam por ser deslocados. Se entendermos o território como um conjunto de 

equipamentos, de instituições, práticas e normas, que conjuntamente movem e são movidas pela 

sociedade,   a   agricultura   científica,   moderna   e   globalizada   acaba   por   atribuir   aos   agricultores 

modernos a velha condição de servos da gleba. É atender a tais imperativos ou sair.

Nas   áreas   onde   tal   fenômeno   se   verifica,   registra-se   uma   tendência   a   um   duplo 

desemprego: o dos agricultores e outros empregados e o dos proprietários; por isso, forma-se no 

mundo rural em processo de modernização uma nova massa de emigrantes, que tanto se podem 

dirigir às cidades quanto participar da produção de novas frentes pioneiras, dentro do próprio país ou 

no estrangeiro, como é o caso dos brasiguaios.

As   situações   assim   criadas   são   variadas   e   múltiplas,   produzindo   uma   tipologia   de 

atividades cujos subtipos dependem das condições fundiárias, técnicas e operacionais preexistentes. 

Numa mesma área, ainda que as produções predominantes se assemelhem, a heterogeneidade é de 

regra.   Há,   na   verdade,   heterogeneidade   e   complementaridade.   Desse   modo,   pode-se   falar   na 

existência simultânea de continuidades e descontinuidades. É dessa maneira que se enriquece o 

papel da vizinhança e, a despeito das diferenças existentes entre os diversos agentes, eles vivem em 

comum certas experiências, como, por exemplo, a subordinação ao mercado distante.

Tal experiência  é  tanto  mais  sensível porque  decorre  de  uma   demanda  “externa”  de 

“racionalidade” e das respectivas dificuldades de oferecer uma resposta. Resta, como conseqüência, 

a tomada de consciência da importância de fatores “externos”: um mercado longínquo, até certo ponto 

abstrato; uma concorrência de certo modo “invisível”; preços internacionais e nacionais sobre os quais 

não   há   controle   local,   improvável,   também,   para   outros   componentes   do   cotidiano,   igualmente 

elaborados de fora, como o valor externo da moeda (câmbio), de que depende o valor interno da 

produção, o custo do dinheiro e o peso sobre o produtor dos lucros auferidos por todos os tipos de 

intermediação.

A  cidade  do  campo

A   agricultura   moderna   se   realiza   por   meio   dos   seus   belts,   spots,   áreas,   mas   a   sua 

relação com o mundo e com as áreas dinâmicas do país se dá por meio de pontos. É o que explica, 

por exemplo, o importante relacionamento existente entre cidades regionais e São Paulo. Nessas 

localidades   dá-se   uma   oferta   de   informação,   imediata   e   próxima,   ligada   à   atividade   agrícola   e 

produzindo uma atividade urbana de fabricação e de  serviços que,  fruto da produção regional,  é 

largamente “especializada” e, paralelamente, um outro tipo de atividade urbana ligada ao consumo 

das famílias e da administração. A cidade é um pólo indispensável ao comando técnico da produção, 

a cuja natureza se adapta, e é um lugar de residência de funcionários da administração pública e das 

empresas, mas também de pessoas que trabalham no campo e que, sendo agrícolas, são também 

44



urbanas,   isso   é,   urbano-residentes.   Às   atividades   e   profissões   tradicionais   juntam-se   novas 

ocupações e às burguesias e classes médias tradicionais juntam-se as modernas, formando uma 

mescla de formas de vida, atitudes e valores. Tal cidade, cujo papel de comando técnico da produção 

é bastante amplo, tem também um papel político frente a essa mesma produção. Mas, na medida em 

que a produção agrícola tem uma vocação global, esse papel político é limitado, incompleto e indireto. 

O mundo, confusamente enxergado a partir desses lugares, é visto como um parceiro inconstante. 

Sem   dúvida,   os   diversos   atores   têm   interesses   diferentes,   às   vezes   convergentes,   certamente 

complementares. Trata-se de uma produção local mista, matizada, contraditória de idéias. São visões 

do mundo, do país e do lugar elaboradas na cooperação e no conflito. Tal processo é criador de 

ambigüidades e de perplexidades, mas também de uma certeza dada pela emergência da cidade 

como um lugar político, cujo papel é duplo: ela é um regulador do trabalho agrícola, sequioso de uma 

interpretação do movimento do mundo, e é a sede de uma sociedade local compósita e complexa, 

cuja diversidade constitui um permanente convite ao debate.

15.    


Compartimentação     e     fragmentação     do     espaço:     o     caso     do  

Brasil


O   exame   do   caso   brasileiro   quanto   à   modernização   agrícola   revela   a   grande 

vulnerabilidade das regiões agrícolas modernas face à “modernização globalizadora”. Examinando o 

que significa na maior parte dos estados do Sul e do Sudeste e nos estados de Mato Grosso e Mato 

Grosso   do   Sul,   bem   como   em   manchas   isoladas   de   outros   estados,   verifica-se   que   o   campo 

modernizado se tornou praticamente mais aberto à expansão das formas atuais do capitalismo que as 

cidades. Desse modo, enquanto o urbano surge, sob muitos aspectos e com diferentes matizes, como 

o lugar da resistência, as áreas agrícolas se transformam agora no lugar da vulnerabilidade.

O  papel  das  lógicas  exógenas

De   tais   áreas   pode-se   dizer   que   atualmente   funcionam   sob   um   regime   obediente   a 

preocupações subordinadas a lógicas distantes, externas em relação à área da ação; mas essas 

lógicas são internas aos setores e às empresas globais que as mobilizam. Daí se criarem situações 

de alienação que escapam a regulações locais ou nacionais, embora arrastando comportamentos 

locais, regionais, nacionais em todos os domínios da vida, influenciando o comportamento da moeda, 

do crédito, do gasto público e do emprego, incidindo sobre o funcionamento da economia regional e 

urbana, por intermédio de suas relações determinantes sobre o comércio, a indústria, os transportes e 

os serviços. Paralelamente, alteram-se os comportamentos políticos e administrativos e o conteúdo 

da informação.

Esse processo de adaptação das regiões agrícolas modernas se dá com grande rapidez, 

impondo-lhes, num pequeno espaço de tempo, sistemas de vida cuja relação com o meio é reflexa, 

enquanto as determinações fundamentais vêm de fora.

Num mundo globalizado, idêntico movimento pode ser também rapidamente implantado 

em   outras   áreas,   num   mesmo   país   ou   em   outro   continente.   Assim,   a   noção   de   competitividade 

mostra-se aqui com toda força, politicamente ajudada pelas manipulações do comércio exterior ou 

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das barreiras alfandegárias. Cabe perguntar, nessas circunstâncias, o que pode acontecer a uma 

área agrícola que, mediante um desses processos, seja esvaziada do seu conteúdo econômico. Que 

acontecerá, por exemplo, às novas áreas de agricultura globalizada do estado de São Paulo no caso 

da mudança internacional da conjuntura da economia da laranja, do açúcar ou o álcool? E como, 

diante de tal mudança, poderão reagir a região, o estado de São Paulo e a nação?

A apreciação das perspectivas abertas a essas áreas modernizadas, com tendência a 

particularizações extremas, deve levar em conta o fato de que o sentido que é impresso à vida, em 

todas as suas dimensões, baseia-se, em maior ou menor grau, em fatores exógenos. De um ponto de 

vista nacional, redefine-se uma diversidade regional que agora não é controlada nem controlável, seja 

pela sociedade local, seja pela sociedade nacional. É uma diversidade regional de novo tipo, em que 

se agravam as disparidades territoriais (em equipamento, recursos, informação, força econômica e 

política, características da população, níveis de vida etc.).

Ao menos em um primeiro momento e sob o impulso da competitividade globalizadora, 

produzem-se egoísmos locais ou regionais exacerbados, justificados pela necessidade de defesa das 

condições de sobrevivência regional, mesmo que isso tenha de se dar à custa da idéia de integridade 

nacional. Esse caldo de cultura pode levar à quebra da solidariedade nacional e conduzir a uma 

fragmentação do território e da sociedade.

As  dialéticas  endógenas

Há, todavia, uma dialética interna a cada um dos fragmentos resultantes. O produto (ou 

produtos) com a responsabilidade de comando da economia regional inclui atores com diferentes 

perfis e interesses, cujo índice de satisfação também é diferente. Dentro de cada região, as alianças e 

acordos e os contratos sociais implícitos ou explícitos estão sempre se refazendo e a hegemonia deve 

ser sempre revista.

O processo produtivo reúne aspectos técnicos e aspectos políticos. Os primeiros têm 

mais a ver com a produção propriamente dita e sua área de incidência se verifica mormente dentro da 

própria região. A parcela política do processo produtivo, ao contrário, relacionada com o comércio, os 

preços,   os   subsídios,   o   custo   do   dinheiro   etc.,   tem   sua   sede   fora   da   região   e   seus   processos 

freqüentemente escapam ao controle (e até mesmo ao entendimento) dos principais interessados. É 

isso que leva à tomada gradativa de consciência pela sociedade local de que lhe escapa a palavra 

final quanto à produção local do valor.

Nessas circunstâncias, a cidade ganha uma nova dimensão e um novo papel, mediante 

uma   vida   de   relações   também   renovada,   cuja   densidade   inclui   as   tarefas   ligadas   à   produção 

globalizada. Por isso, a cidade se torna o lugar onde melhor se esclarecem as relações das pessoas, 

das empresas, das atividades e dos “fragmentos” do território com o país e com o “mundo”. Esse 

papel de encruzilhada agora atribuído aos centros regionais da produção agrícola modernizada faz 

deles o lugar da produção ativa de um discurso (com pretensões a ser unitário) e de uma política com 

pretensão a ser mais que um conjunto de regras particulares. Todavia, tais políticas acabam, no longo 

prazo e mesmo no médio prazo, por revelar sua debilidade, sua relatividade, sua ineficácia, sua não-

operacionalidade. O que reclamar do poder local vistos os limites da sua competência; que reivindicar 

aos estados federados; que solicitar eficazmente aos agentes econômicos globais, quando se sabe 

que estes podem encontrar satisfação aos seus apetites de ganho simplesmente mudando o lugar de 

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sua operação? Para encontrar um começo de resposta, o primeiro passo é regressar às noções de 

nação, solidariedade nacional, Estado nacional. De um ponto de vista prático, voltaríamos à idéia, já 

expressa por nós em outra ocasião, da constituição de uma federação de lugares, com a reconstrução 

da federação brasileira a partir da célula local, feita de forma a que o território nacional venha a 

conhecer uma compartimentação que não seja também uma fragmentação. Desse modo, a federação 

seria refeita de baixo para cima, ao contrário da tendência a que agora está sendo arrastada pela 

subordinação aos processos de globalização.

16.  


O  território  do  dinheiro

A queda-de-braço entre governos municipais e estaduais e o governo federal é mais que 

uma discussão técnica para saber quem deve arcar com o ônus das dificuldades financeiras dos 27 

estados e dos mais de 5.500 municípios. A questão é a federação e sua inadequação aos tempos da 

nova história com a emergência da globalização. O que está em jogo é o próprio sistema de relações 

constituído,   de   um   lado,   pelos   novos   conteúdos   demográfico,   econômico,   social   de   estados   e 

municípios e a manutenção do conteúdo normativo do território, agora que face à globalização se 

produz um embate entre um dinheiro globalizado e as instâncias político-administrativas do Estado 

brasileiro.

Definições

O   território   não   é   apenas   o   resultado   da   superposição   de   um   conjunto   de   sistemas 

naturais e um conjunto de sistemas de coisas criadas pelo homem. O território é o chão e mais a 

população, isto é, uma identidade, o fato e o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O 

território é a base do trabalho, da residência, das trocas materiais e espirituais e da vida, sobre os 

quais ele influi. Quando se fala em território deve-se, pois, de logo, entender que se está falando em 

território usado, utilizado por uma dada população. Um faz o outro, à maneira da célebre frase de 

Churchill: primeiro fazemos nossas casas, depois elas nos fazem... A idéia de tribo, povo, nação e, 

depois, de Estado nacional decorre dessa relação tornada profunda.

O dinheiro é uma invenção da vida de relações e aparece como decorrência de uma 

atividade econômica para cujo intercâmbio o simples escambo já não basta. Quando a complexidade 

é um fruto de especializações produtivas e a vida econômica se torna complexa, o dinheiro acaba 

sendo indispensável e termina se impondo como um equivalente geral de todas as coisas que são 

objeto de comércio. Na verdade, o dinheiro constitui, também, um dado do processo, facilitando seu 

aprofundamento, já que ele se torna representativo do valor atribuído à produção e ao trabalho e aos 

respectivos resultados.

O  dinheiro  e  o  território:  situações  históricas

Num primeiro momento trata-se do dinheiro local, expressivo de um horizonte comercial 

elementar, abrangente de contextos geográficos limitados ou para atender às necessidades de um 

comércio e de uma circulação longínquos, nas mãos de comerciantes itinerantes, avalistas do valor 

das   mercadorias.   Tal   mundo   é   caracterizado   por   compartimentações   muito   numerosas,   mas   um 

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mundo sem movimento, lento, estável e cujos fragmentos quase seriam autocontidos. Tais mônadas, 

numerosas, existiriam paralelamente, mas sem o princípio geral sugerido por Leibniz.

Nesse   primeiro   momento,   o   funcionamento   do   território   deve   muito   às   suas   feições 

naturais, às quais os homens se adaptam, com pequena intermediação técnica. As relações sociais 

presentes são pouco numerosas, simples e pouco densas. O entorno dos homens acaba por lhe ser 

conhecido e os seus mistérios são apenas devidos às forças naturais desconhecidas. Tais condições 

materiais terminam por se impor sobre o resto da vida social, numa situação na qual o valor de cada 

pedaço de chão lhe é atribuído pelo seu uso. Assim, a existência pode ser interpretada a partir de 

relações observadas diretamente entre os homens e entre os homens e o meio. O território usado 

pela sociedade local rege as manifestações da vida social, inclusive o dinheiro.

Metamorfoses  das  duas  categorias  ao  longo  do  tempo

Com   a   ampliação   do   comércio   produz-se   uma   interdependência   crescente   entre 

sociedades   até   então   relativamente   isoladas,  cresce   o   número   de   objetos  e   valores   a   trocar,   as 

próprias trocas estimulam a diversificação e o aumento de volume de uma produção destinada a um 

consumo longínquo. O dinheiro se instala como condição, tanto desse escambo quanto da produção 

de cada grupo, tornando-se instrumental à regulação da vida econômica e assegurando, assim, o 

alargamento do seu âmbito e a freqüência do seu uso.

Na realidade, o que cresce, se expande e se torna mais complexo e denso, não é apenas 

o comércio internacional, mas, também, o interno. Assim, cada vez mais coisas tendem a tornar-se 

objeto   de   intercâmbio,   valorizado   cada   vez   mais   pela   troca   do   que   pelo   uso   e,   desse   modo, 

reclamando   uma   medida   homogênea   e   permanente.   Assim,   o   dinheiro   aumenta   sua 

indispensabilidade e invade mais numerosos aspectos da vida econômica e social.

Paralelamente, o território se apresenta como uma arena de movimentos cada vez mais 

numerosos, fundados sobre uma lei do valor que tanto deve ao caráter da produção presente em cada 

lugar  como  às  possibilidades  e  realidades  da   circulação. O  dinheiro   é,  cada  vez mais,   um  dado 

essencial para o uso do território.

Mas a lei do valor também se estende aos próprios lugares, cada qual representando, em 

dada circunstância e em função do comércio de que participam, um certo índice de valor que é, 

também, a base dos movimentos que deles partem ou que a eles chegam.

Quanto   mais   movimento,   maior   se   torna   a   complexidade   das   relações   internas   e 

externas   e   aprofunda-se   a   necessidade   de   uma   regulação,   da   qual   o   dinheiro   constitui   um   dos 

elementos, ainda que o seu papel não seja o papel central. Este é atribuído à categoria estado, cuja 

necessidade   se   levanta   como   um   imperativo,   atribuindo-se   limites   externos   (as   fronteiras 

estabelecidas),   limites   internos   (as   subdivisões   político-administrativas   em   diversos   níveis)   e 

conteúdos normativos (as leis e costumes), em matéria de competências e recursos. É assim que se 

instalam na história, categorias interdependentes: o Estado territorial, o território nacional, o Estado 

nacional. São eles que, em conjunto, regem o dinheiro.

Há,   por   conseguinte,   um   dinheiro   nacional   que,   apesar   de   um   comércio   externo 

crescente, tem a cara do país e é regulado pelo país. Dir-se-ia que esse dinheiro é relativamente 

comandado de dentro.

48



O  dinheiro  da  globalização

Com a globalização, o uso das técnicas disponíveis permite a instalação de um dinheiro 

fluido, relativamente invisível, praticamente abstrato.

Como   equivalente   geral,   o   dinheiro   se   torna   um   equivalente   realmente   universal,   ao 

mesmo   tempo   em   que   ganha   uma   existência   praticamente   autônoma   em   relação   ao   resto   da 

economia.   Assim   autonomizado,   pode-se   até   dizer   que   esse   dinheiro,   em   estado   puro,   é   um 

equivalente geral dele próprio. Talvez por isso sua existência concreta e sua eficácia sejam resultado 

das normas com as quais se impõe aos outros dinheiros e a todos os países, permitindo-se, desse 

modo, a elaboração de um discurso, sem o qual sua eficácia seria infinitamente menor e a sua força 

menos evidente. É, aliás, a partir deste caráter ideológico, equivalente a uma verdadeira falsificação 

do critério, que o dinheiro global é também despótico.

Nas condições atuais, as lógicas do dinheiro impõem-se àquelas da vida socioeconômica 

e política, foçando mimetismos, adaptações, rendições. Tais lógicas se dão segundo duas vertentes: 

uma   é   a   do   dinheiro   das  empresas  que,  responsáveis  por  um  setor  da   produção,  são,   também, 

agentes   financeiros,   mobilizados   em   função   da   sobrevivência   e   da   expansão   de   cada   firma   em 

particular;   mas,   há,   também,   a   lógica   dos   governos   financeiros   globais,   Fundo   Monetário 

Internacional, Banco Mundial, bancos travestidos em regionais como o BID. É por intermédio deles 

que as finanças se dão como inteligência geral.

Essa inteligência global é exercida pelo que se chamaria de contabilidade global, cuja 

base é um conjunto de parâmetros segundo os quais aqueles governos globais medem, avaliam e 

classificam as economias nacionais, por meio de uma escolha arbitrária de variáveis que apenas 

contempla certa parcela da produção, deixando praticamente de lado o resto da economia. Por isso, 

pode-se dizer que, adotado esse critério de avaliação, o Produto Nacional Bruto apenas constitui um 

nome-fantasia para essa famosa contabilidade global.

É por meio desse mecanismo que o dinheiro global autonomizado, e não mais o capital 

como um todo, se torna, hoje, o principal regedor do território, tanto o território nacional como suas 

frações.

Antes,   o   território   continha   o   dinheiro,   em   uma   dupla   acepção:   o   dinheiro   sendo 

representativo do território que o abrigava e sendo, em parte, regulado pelo território, considerado 

como território usado. Hoje, sob influência do dinheiro global, o conteúdo do território escapa a toda 

regulação interna, objeto que ele é de uma permanente instabilidade, da qual os diversos agentes 

apenas constituem testemunhas passivas.

A   ação   territorial   do   dinheiro   global   em   estado   puro   acaba   por  ser   uma   ação   cega, 

gerando ingovernabilidades, em virtude dos seus efeitos sobre a vida econômica, mas também, sobre 

a vida administrativa.

No território, a finança global instala-se como a regra das regras, um conjunto de normas 

que escorre, imperioso, sobre a totalidade do edifício social, ignorando as estruturas vigentes, para 

melhor  poder  contrariá-las,   impondo   outras  estruturas.  No   lugar,  a   finança   global  se   exerce   pela 

existência   das   pessoas,   das   empresas,   das   instituições,   criando   perplexidades   e   sugerindo 

interpretações, que podem conduzir à ampliação da consciência.

Situações  regionais

49



A vontade de homogeneização do dinheiro global é contrariada pelas resistências locais 

à   sua   expansão.   Desse   modo,   seu   processo   tende   a   ser   diferente,   segundo   os   espaços 

socioeconômicos e políticos.

Há, também, uma vontade de adaptação às novas condições do dinheiro, já que a fluidez 

financeira é considerada uma necessidade para ser competitivo e, conseqüentemente, exitoso no 

mundo globalizado.

A   constituição   do   Mercado   Comum   Europeu,   isto   é,   da   Comunidade   Econômica 

Européia, a instituição da ASEAN e o pretendido estabelecimento da ALCA obedecem a esse mesmo 

princípio, de modo a permitir às respectivas economias, mas sobretudo aos Estados líderes e às 

empresas   neles   situadas,   que   possam   participar   de   modo   mais   agressivo   do   comércio   mundial, 

buscando – o que lhes parece necessário – a cobiçada hegemonia.

A Europa é o subcontinente mais avançado no que toca a essa questão. É verdade que o 

processo de unificação européia se inicia após a Segunda Guerra Mundial e vem realizando etapas 

sucessivas, sendo a última, em data, a constituição do mercado comum financeiro, do qual a moeda 

única, o euro, constitui o símbolo. As etapas precedentes constituíram uma espécie de preparação 

para unificação financeira e incluíram medidas objetivando a fluidez das mercadorias, dos homens, da 

mão-de-obra e do próprio território, inclusive nos países menos desenvolvidos, de modo a que a 

Europa como um todo se pudesse tornar um continente igualmente fluido. Sem isso e sem o reforço 

da   idéia   de   cidadania   –   uma   cidadania   agora   multinacional   para   os   signatários   do   Tratado   de 

Schengen -, seria impossível pensar numa moeda única sem aumentar as diferenças e desequilíbrios 

já existentes.

Completando   esse   pano   de   fundo,   a   unificação   monetária   é   considerada   um   fator 

indispensável ao estabelecimento de uma economia européia competitiva ao nível global, mediante 

uma divisão de trabalho renovada, segundo a qual alguns países vêem reforçadas algumas de suas 

atividades   e   devem   renunciar   a   outras,   após   uma   concertação,   às   vezes   longa   e   penosa,   em 

Bruxelas. Na verdade, porém, essa unificação e equalização intra-européia acaba por ser mais um 

episódio   de   uma   guerra,   porque   destinadas   a   fortalecer   a   Europa   para   competir   com   os   outros 

membros da Tríade e tirar proveito de suas relações assimétricas com o resto do mundo.

O   caso   latino-americano   e   brasileiro   é   diferente.   O   próprio   Mercosul   mantém,   por 

enquanto, uma prática limitada ao comércio, e seu próprio projeto é menos abrangente quanto às 

relações sociais, culturais e políticas. Não há uma clara preocupação de buscar um desenvolvimento 

homogêneo e as iniciativas de investimento têm muito mais a ver com o crescimento do produto, isto 

é, com o florescimento de certo número de empresas voltadas para o comércio regional, das quais, 

aliás, algumas são igualmente inseridas no comércio mundial. Por outro lado, diferentemente do caso 

europeu, as moedas nacionais não são propriamente conversíveis, nem comunicáveis diretamente 

entre elas. Sua relação com o mundo é pobre, tanto quantitativa como qualitativamente, já que são 

moedas dependentes, cujo desvalimento aumenta face à globalização, constituindo um elemento a 

mais de agravamento de sua própria dependência.

Efeitos  do  dinheiro  global

Esta é uma das razões pelas quais a decisão de participar passivamente da globalização 

50



acaba por ser danosa. Quanto melhor é o exercício do modelo, pior é para o país. Essa situação é 

ainda mais grave nos países complexos e grandes, na medida em que a vocação homogeneizadora 

do capital global vai ser exercida sobre uma base formada por parcelas muito diferentes umas das 

outras e cujas diferenças e desigualdades são ampliadas sob tal ação unitária.

O   dinheiro   regulador   e   homogeneizador   agrava   heterogeneidades   e   aprofunda   as 

dependências.   É   assim   que   ele   contribui   para   quebrar   a   solidariedade   nacional,   criando   ou 

aumentando as fraturas sociais e territoriais e ameaçando a unidade nacional.

O conteúdo do território como um todo e de cada um dos seus compartimentos muda de 

forma brusca e, também, rapidamente perde uma parcela maior ou menor de sua identidade, em favor 

de formas de regulação estranhas ao sentido local da vida.

É por esse prisma que deveria ser vista a questão da federação e da governabilidade da 

nação: na medida em que o governo da nação se solidariza com os desígnios das forças externas, 

levantam-se problemas cruciais para estados e municípios.

A questão é estrutural e, desse modo, o problema de estados e municípios é, no fundo, 

um só; esse problema é constituído pelas formas atuais de compartimentação do território e o seu 

novo conteúdo, que inclui as formas de ação do dinheiro internacional.

Epílogo

A questão que se põe como uma espada de Dâmocles sobre as nossas cabeças é a 

seguinte: vamos reconstruir a federação para servir melhor ao dinheiro ou para atender à população? 

Agora, tudo está sendo feito para refazer a federação de modo a que seja instrumental às forças 

financeiras. São o Banco Central e o Ministério da Fazenda, em combinação com as instituições 

financeiras internacionais, que orientam as grandes reformas ora em curso. Devemos, então, nos 

preparar  para  a  nova  etapa  que, aliás,  já  se  anuncia  – a  da  reconstrução  do arcabouço  político-

territorial do país ao serviço da sociedade, isto é, da população.

17.  

Verticalidades  e  horizontalidades



O tema das verticalidades e das horizontalidades já havia sido tratado por mim no livro 

natureza do espaço. Técnica e tempo. Razão e emoção  (1996), sobretudo no capítulo 12. Vamos 



agora abordá-lo segundo novos ângulos e ambicionando uma visão prospectiva, a partir desses dois 

recortes superpostos e complementares do espaço geográfico atual.

As  verticalidades

As   verticalidades   podem   ser   definidas,   num   território,   como   um   conjunto   de   pontos 

formando um espaço de fluxos. A idéia, de certo modo, remonta aos escritos de François Perroux 

(

L'économie   du   XX   siède,   1961),   quando   ele   descreveu   o   espaço   econômico.   Tal   noção   foi 



recentemente reapropriada por Manuel Castells. (

A sociedade em rede, 1999). Esse espaço de fluxos 

seria,   na   realidade,   um   subsistema   dentro   da   totalidade-espaço,   já   que   para   os   efeitos   dos 

respectivos   atores   o   que   conta   é,   sobretudo,   esse   conjunto   de   pontos   adequados   às   tarefas 

produtivas   hegemônicas,   características   das   atividades   econômicas   que   comandam   este   período 

51



histórico.

O sistema de produção que se serve desse espaço de fluxos é constituído por redes – um 

sistema reticular -, exigente de fluidez e sequioso de velocidade. São os atores do tempo rápido, que 

plenamente participam do processo, enquanto os demais raramente tiram todo proveito da fluidez. 

Tais   espaços   de   fluxos   vivem   uma   solidariedade   do   tipo   organizacional,   isto   é,  as   relações   que 

mantêm a agregação e a cooperação entre agentes resultam em um processo de organização, no 

qual  predominam  fatores  externos  às áreas  de   incidência   dos mencionados agentes. Chamemos 

macroatores àqueles que de fora da área determinam as modalidades internas de ação. É a esses 

macroatores que, em última análise, cabe direta ou indiretamente a tarefa de organizar o trabalho de 

todos os outros, os quais de uma forma ou de outra dependem da sua regulação. O fato de que cada 

um deva adaptar comportamentos locais aos interesses globais, que estão sempre mudando, leva o 

processo organizacional a se dar com descontinuidades, cujo ritmo depende do número e do poder 

correspondente  a cada macroagente.

Por   intermédio   dos   mencionados   pontos   do   espaço   de   fluxos,   as   macroempresas 

acabam por ganhar um papel de regulação do conjunto do espaço. Junte-se a esse controle a ação 

explícita ou dissimulada do Estado, em todos os seus níveis territoriais. Trata-se de uma regulação 

freqüentemente subordinada porque, em grande número de casos, destinada a favorecer os atores 

hegemônicos.   Tomada   em   consideração   determinada   área,   o   espaço   de   fluxos   tem   o   papel   de 

integração com níveis econômicos e espaciais mais abrangentes. Tal integração, todavia, é vertical, 

dependente   e   alienadora,   já   que   as   decisões   essenciais   concernentes   aos   processos   locais   são 

estranhas ao lugar e obedecem a motivações distantes.

Nessas condições,  a tendência  é a prevalência dos interesses corporativos sobre os 

interesses públicos, quanto à evolução do território, da economia e das sociedades locais. Dentro 

desse   quadro,   a   política   das   empresas   –   isto   é,   sua  

policy  –   aspira   e   consegue,   mediante   uma 

governance, tornar-se política; na verdade, uma política cega, pois deixa a construção do destino de 

uma área entregue aos interesses privatísticos de uma empresa que não tem compromissos com a 

sociedade local.

Na  situação  acima  descrita,  instalam-se  forças centrífugas certamente  determinantes, 

com maior ou menor força, do conjunto de comportamentos. E, em certos casos, quando conseguem 

contagiar  o todo  ou  a  maioria  do corpo  produtivo, tais forças  centrífugas são, ao  mesmo   tempo, 

determinantes e dominantes. Tal dominância é também portadora da racionalidade hegemônica e 

cujo poder de contágio facilita a busca de uma unificação e de uma homogeneização.

As  frações do território que  constituem esse espaço de  fluxos constituem o reino do 

tempo   real,   subordinando-se   a   um   relógio   universal,   aferido   pela   temporalidade   globalizada   das 

empresas hegemônicas presentes. Desse modo ordenado, o espaço de fluxos tem vocação a ser 

ordenador do espaço total, tarefa que lhe é facilitada pelo fato de a ele ser superposto.

O modelo econômico assim estabelecido tende a reproduzir-se, ainda que mostrando 

topologias   específicas,   ligadas   à   natureza   dos   produtos,   à   força   das   empresas   implicadas   e   à 

resistência   do   espaço   preexistente.   O   modelo   hegemônico   é   planejado   para   ser,   em   sua   ação 

individual, indiferente a seu entorno. Mas este de algum modo se opõe à plenitude dessa hegemonia. 

Esta, porém, é exercida em sua forma limite, pois a empresa se esforça por esgotar as virtualidades e 

perspectivas de sua ação “racional”. O nível desse limite define a operação respectiva do ponto de 

vista de sua rentabilidade, comparada à de outras empresas e de outros lugares. Se considerada 

52



insatisfatória, leva à sua migração.

As   verticalidades   são,   pois,   portadoras   de   uma   ordem   implacável,   cuja   convocação 

incessante a segui-la representa um convite ao estranhamento. Assim, quanto mais “modernizados” e 

penetrados   por   essa   lógica,   mais   os   espaços   respectivos   se   tornam   alienados.   O   elenco   das 

condições   de   realização   das   verticalidades   mostra   que,   para   sua   efetivação,   ter   um   sentido   é 

desnecessário,   enquanto   a   grande   força   motora   seria   aquele   instinto   animal   das   empresas 

mencionado,   há   decênios,   por   Stephan   Hymer   e   agora   multiplicado   e   potencializado   a   partir   da 

globalização.

As verticalidades realizam de modo indiscutível aquela idéia de Jean Gottmann (“The 

evolution of the concept of territory”, 

Information sur les Sciences Sociales, 1975) segundo a qual o 

território pode ser visto como um recurso, justamente a partir do uso pragmático que o equipamento 

modernizado de pontos escolhidos assegura.

As  horizontalidades

As   horizontalidades   são   zonas   da   contigüidade   que   formam   extensões   contínuas. 

Valemo-nos, outra vez, do vocabulário de François Perroux quando se referiu a existência de um 

“espaço   banal”   em   oposição   ao   espaço   econômico.   O   espaço   banal   seria   o   espaço   de   todos: 

empresas, instituições, pessoas; o espaço das vivências.

  Esse espaço banal, essa extensão continuada, em que os atores são considerados na 

sua contigüidade, são espaços que sustentam e explicam um conjunto de produções localizadas, 

interdependentes,   dentro   de   uma   área   cujas   características   constituem,   também,   um   fator   de 

produção. Todos os agentes são, de uma forma ou de outra, implicados, e os respectivos tempos, 

mais rápidos ou mais vagarosos, são imbricados. Em tais circunstâncias pode-se dizer que a partir do 

espaço  geográfico  cria-se  uma  solidariedade  orgânica,  o conjunto  sendo  formado  pela  existência 

comum dos agentes exercendo-se sobre um território comum. Tais atividades, não importa o nível, 

devem  sua  criação  e  alimentação  às  ofertas  do  meio  geográfico  local. Tal  conjunto   indissociável 

evolui e muda, mas tal movimento pode ser visto como uma continuidade, exatamente em virtude do 

papel central que é jogado pelo mencionado meio geográfico local.

Nesse espaço banal, a ação atual do Estado, além de suas funções igualmente banais, é 

limitada. Na verdade, mudadas as condições políticas, é nesse espaço banal que o poder público 

encontraria   as   melhores   condições   para   sua   intervenção.   O   fato   de   que   o   Estado   se   preocupe 

sobretudo com o desempenho das macroempresas, às quais oferece regras de natureza geral que 

desconhecem   particularidades   criadas   a   partir   do   meio   geográfico,   leva   à   ampliação   das 

verticalidades e, paralelamente, permite o aprofundamento da personalidade das horizontalidades. 

Nestas, ainda que estejam presentes empresas com diferentes níveis de técnicas, de capital e de 

organização, o princípio que permite a sobrevivência de cada uma é o da busca de certa integração 

no processo da ação.

Trata-se,   aqui,   da   produção   local   de   uma   integração   solidária,   obtida   mediante 

solidariedades   horizontais   internas,   cuja   natureza   é   tanto   econômica,   social   e   cultural   como 

propriamente geográfica. A sobrevivência do conjunto, não importa que os diversos agentes tenham 

interesses diferentes, depende desse exercício da solidariedade, indispensável ao trabalho e que gera 

a visibilidade do interesse comum. Tal ação comum não é obrigatoriamente o resultado de pactos 

53



explícitos nem de políticas claramente estabelecidas. A própria existência, adaptando-se a situações 

cujo  comando  freqüentemente  escapa  aos respectivos atores,  acaba   por exigir de  cada  qual um 

permanente   estado   de   alerta,   no   sentido   de   apreender   as   mudanças   e   descobrir   as   soluções 

indispensáveis.

Pode-se dizer que tal situação assegura a permanência de forças centrípetas. Estas, 

ainda que não sejam determinantes (já que as horizontalidades recebem influxos das verticalidades) 

são dominantes. Tais forças centrípetas garantem sua sobrevivência pelo fato de que o âmbito de 

realização dos atores é limitado, confundindo-se todos num espaço geográfico restrito, que é, ao 

mesmo tempo, a base de sua atuação.

As   horizontalidades,   pois,   além   das   racionalidades   típicas   da   verticalidades   que   as 

admitem a presença de  outras racionalidades (chamadas de irracionalidades pelos que desejariam 

ver como única a racionalidade hegemônica). Na verdade, são contra-racionalidades, isto é, formas 

de convivência e de regulação criadas a partir do próprio território e que se mantêm nesse território a 

despeito  da vontade de unificação e homogeneização, características da racionalidade hegemônica 

típica das verticalidades. A presença dessas verticalidades produz tendências à fragmentação, com a 

constituição   de   alvéolos   representativos   de   formas   específicas   de   ser   horizontal   a   partir   das 

respectivas particularidades.

A  busca  de  um  sentido

Ao   contrário   das   verticalidades,   regidas   por   um   relógio   único,   implacável,   nas 

horizontalidades assim particularizadas funcionam , ao mesmo tempo, vários relógios, realizando-se, 

paralelamente, diversas temporalidades.

Trata-se de um espaço à vocação solidária, sustento de uma organização em segundo 

nível, enquanto sobre ele se exerce uma vontade permanente de desorganização, ao serviço dos 

atores hegemônicos. Esse processo dialético impede que o poder, sempre crescente e cada vez mais 

invasor, dos atores hegemônicos, fundados nos espaços de fluxos, seja capaz de eliminar o espaço 

banal, que é permanentemente reconstituído segundo uma nova definição.

Pode-se dizer que, ao contrário da ordem imposta, nos espaços de fluxos, pelos atores 

hegemônico   e   da   obediência   alienada   dos   atores   subalternizados,   hegemonizados,   nos   espaços 

banais se recria a idéia e o fato da Política, cujo exercício se torna indispensável, para providenciar os 

ajustamentos necessários ao funcionamento do conjunto, dentro de uma área específica. Por meio de 

encontros e desencontros e do exercício do debate e dos acordos, busca-se explícita ou tacitamente a 

readaptação às novas formas de existência.

O processo acima descrito é também aquele pelo qual uma sociedade e um território 

estão sempre à busca de um sentido e exercem, por isso, uma vida reflexiva. Neste caso, o território 

não é apenas o lugar de uma ação pragmática e seu exercício comporta, também, um aporte da vida, 

uma parcela de emoção, que permite aos valores representar um papel. O território se metamorfoseia 

em algo mais do que um simples recurso e, para utilizar uma expressão, que é também de Jean 

Gottmann, constitui   um abrigo.

Na realidade, a mesma fração do território pode ser recurso e abrigo, pode condicionar 

as ações mais pragmáticas e, ao mesmo tempo, permitir vocações generosas. Os dois movimentos 

são  concomitantes. Nas condições atuais, o movimento determinante, com tendência a uma difusão 

54



avassaladora, é o da criação da ordem da racionalidade pragmática, enquanto a produção do espaço 

banal é residual. Pode-se, todavia, imaginar outro cenário, no qual o comportamento do espaço de 

fluxos seja subordinado não como agora à realização do dinheiro e encontre um freio a essa forma de 

manifestação, tornando-se subordinado à realização plena da vida, de modo que os espaços banais 

aumentem sua capacidade de servir à plenitude do homem.

18.  


A  esquizofrenia  do  espaço

Como sabemos, o mundo, como um conjunto de essências e de possibilidades, não 

existe para ele próprio, e apenas o faz para os outros. É o espaço, isto é, os lugares, que realizam e 

revelam o mundo, tornando-o historicizado e geografizado, isto é, empiricizado.

Os lugares são, pois, o mundo, que eles reproduzem de modos específicos, individuais, 

diversos. Eles são singulares, mas são também globais, manifestações da totalidade-mundo, da qual 

são formas particulares.

Ser  cidadão  num  lugar

Nas condições atuais, o cidadão do lugar pretende instalar-se também como cidadão do 

mundo. A verdade, porém, é que o “mundo” não tem como regular os lugares. Em conseqüência, a 

expressão cidadão do mundo torna-se um voto, uma promessa, uma possibilidade distante. Como os 

atores   globais   eficazes   são,   em   última   análise,   anti-homem   e   anticidadão,   a   possibilidade   de 

existência   de   um   cidadão   do   mundo   é   condicionada   pelas   realidades   nacionais.   Na   verdade,   o 

cidadão só o é (ou não o é) como cidadão de um país.

Ser “cidadão de um país”, sobretudo quando o território é extenso e a sociedade muito 

desigual, pode constituir; apenas, uma perspectiva de cidadania integral, a ser alcançada nas escalas 

sub-nacionais, a começar pelo nível local. Esse é o caso brasileiro, em que a realização da cidadania 

reclama, nas condições atuais, uma revalorização dos lugares e uma adequação de seu estatuto 

político.

A multiplicidade de situações regionais e municipais, trazida com a globalização, instala 

uma enorme variedade de quadros de vida, cuja realidade preside o cotidiano das pessoas e deve ser 

a base para uma vida civilizada em comum. Assim, a possibilidade de cidadania plena das pessoas 

depende de soluções a serem buscadas localmente, desde que, dentro da nação, seja instituída uma 

federação de lugares, uma nova estruturação político-territorial, com a indispensável redistribuição de 

recursos, prerrogativas e obrigações. A partir do país como federação de lugares será possível, num 

segundo momento, construir um mundo como federação de países.

Trata-se, em ambas as etapas, de uma construção de baixo para cima cujo ponto central 

é a existência de individualidades fortes e das garantias jurídicas correspondentes. A base geográfica 

dessa construção será o lugar, considerado como espaço de exercício da existência plena. Estamos, 

porém, muito longe da realização desse ideal. Como, então, poderemos alcançá-lo?

O  cotidiano  e  o  território

O território tanto quanto o lugar são esquizofrênicos, porque de um lado acolhem os 

55



vetores da globalização, que neles se instalam para impor sua nova ordem, e, de outro lado, neles se 

produz uma contra-ordem, porque há uma produção acelerada de pobres, excluídos, marginalizados. 

Crescentemente   reunidas  em  cidades  cada  vez mais  numerosas  e  maiores,   e  experimentando   a 

situação de vizinhança (que, segundo Sartre, é reveladora), essas pessoas não se subordinam de 

forma  permanente  à racionalidade hegemônica e, por isso,  com freqüência podem se  entregar a 

manifestações que são a contraface do pragmatismo. Assim, junto à busca da sobrevivência, vemos 

produzir-se, na base da sociedade, um pragmatismo mesclado com a emoção, a partir dos lugares e 

das pessoas juntos. Esse é, também, um modo de insurreição em relação à globalização, com a 

descoberta de que, a despeito de sermos o que somos, podemos também desejar ser outra coisa.

Nisso o papel do lugar é determinante. Ele não é apenas um quadro de vida, mas um 

espaço   vivido,   isto   é,   de   experiência   sempre   renovada,   o   que   permite,   ao   mesmo   tempo,   a 

reavaliação das heranças e a indagação sobre o presente e o futuro. A existência  

naquele  espaço 

exerce um papel revelador sobre o mundo.

Globais,   os   lugares   ganham   um   quinhão   (maior   ou   menor)   da   “racionalidade”   do 

“mundo”.   Mas   esta   se   propaga   de   modo   heterogêneo,   isto   é,   deixando   coexistirem   outras 

racionalidades,   isto   é,   contra-racionalidades,   a   que,   equivocadamente   e   do   ponto   de   vista   da 

racionalidade   dominante,   se   chamam   “irracionalidades”.   Mas   a   conformidade   com   a   Razão 

Hegemônica é limitada, enquanto a produção plural de “irracionalidades” é ilimitada. É somente a 

partir de tais irracionalidades que é possível ampliação da consciência.

Se   este   é   um   dado   geral,   ele   se   dá   com   variações   segundo   as   coletividades   e   os 

subespaços.   Vejam-se,   por   exemplo,   as   diferenças,   hoje,   entre   campo   e   cidade.   No   campo,   as 

racionalidades da globalização se difundem mais extensivamente e mais rapidamente. Na cidade as 

irracionalidades   se   criam   mais   numerosa   e   incessantemente   que   as   racionalidades,   sobretudo 

quando há, paralelamente, produção de pobreza.

É este o fundamento da esquizofrenia do lugar. Tal esquizofrenia se resolve a partir do 

fato de que cada pessoa, grupo, firma, instituição realiza o mundo à sua maneira. A pessoa, o grupo, 

a firma, a instituição constituem  

o de dentro do lugar, com o qual se comunicam sobretudo pela 

mediação da técnica e da produção propriamente dita, enquanto o mundo se dá para a pessoa, grupo, 

firma, instituição como  

o de fora do lugar  e por intermédio de uma mediação política. A mediação 

técnica e produção correspondente, local e diretamente experimentadas, podem não ser inteiramente 

compreendidas,   mas   são   vividas   como   um   dado   imediato,   enquanto   a   mediação   política, 

frequentemente   exercida   de   longe   e   cujos   objetivos   nem   sempre   são   evidentes,   exige   uma 

interpretação mais filosófica.

Uma filosofia banal começa por ser instalar no espírito das pessoas com a descoberta, 

autorizada   pelo   cotidiano,   da   não-autonomia   das   ações   e   dos   seus   resultados.   Este   é   um   dado 

comum a todas as pessoas, não importa a diferença de suas situações. Mas outra coisa é ultrapassar 

a descoberta da diferença e chegar à sua consciência.

Uma  pedagogia  da  existência

Isso, todavia, não é tudo. A consciência da diferença  pode  conduzir simplesmente à 

defesa individualista do próprio interesse, sem alcançar a defesa de um sistema alternativo de idéias 

e de vida. De um ponto de vista das idéias, a questão central reside no encontro do caminho que vai 

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do imediatismo às visões finalísticas; e de um ponto de vista da ação, o problema é ultrapassar as 

soluções imediatistas (por exemplo, eleitoralismos interesseiros e apenas provisoriamente eficazes) e 

alcançar a busca política genuína e constitucional de remédios estruturais e duradouros.

Nesse processo, afirma-se, também, segundo novos moldes, a antiga oposição entre o 

mundo e o lugar. A informação mundializada permite a visão, mesmo em  

flashes, de ocorrências 

distantes. O conhecimento de outros lugares, mesmo superficial e incompleto, aguça a curiosidade. 

Ele é certamente um subproduto de uma informação geral enviesada, mas, se for ajudado por um 

conhecimento sistêmico do acontecer global, autoriza a visão da história como uma situação e um 

processo, ambos críticos. Depois, o problema crucial é: como passar de uma situação crítica a uma 

visão crítica – e, em seguida, alcançar uma tomada de consciência. Para isso, é fundamental viver a 

própria existência como algo de unitário e verdadeiro, mas também como um paradoxo: obedecer 

para subsistir e resistir para poder pensar o futuro. Então a existência é produtora de sua própria 

pedagogia.

57



V   -   LIMITES  À  GLOBALIZAÇÃO  PERVERSA

Introdução

A análise do fenômeno da globalização ficaria incompleta se, após reconhecer os fatores 

que   possibilitaram   sua   emergência,   apenas   nos   detivéssemos   na   apreciação   dos   seus   aspectos 

atualmente dominantes, de que resultam tantos inconvenientes para a maior parte da humanidade.

Cabe, agora, verificar os limites dessa evolução e reconhecer a emergência de certo 

número de sinais indicativos de que outros processos paralelamente se levantam, autorizado pensar 

que vivemos uma verdadeira fase de transição para um novo período.

Em   primeiro   lugar,   o   denso   sistema   ideológico   que   envolve   e   sustenta   as   ações 

determinantes parece não resistir à evidência dos fatos. A velocidade não é um bem que permita uma 

distribuição generalizada, e as disparidades no seu uso garantem a exacerbação das desigualdades. 

A vida cotidiana também revela a impossibilidade de fruição das vantagens do chamado tempo real 

para a maioria da humanidade. A promessa de que as técnicas contemporâneas pudessem melhorar 

a   existência   de   todos   caem   por   terra   e   o   que   se   observa   é   a   expansão   acelerada   do   reino   da 

escassez, atingindo as classes médias e criando mais pobres.

As   populações   envolvidas   no   processo   de   exclusão   assim   fortalecido   acabam   por 

relacionar suas carências e vicissitudes ao conjunto de novidades que as atingem. Uma tomada de 

consciência torna-se possível ali mesmo onde o fenômeno da escassez é mais sensível. Por isso, a 

compreensão do que se está passando chega com clareza crescente aos pobres e aos países pobres, 

cada vez mais numerosos e carentes. Daí o repúdio às idéias e às práticas políticas que fundamentam 

o processo socioeconômico atual e a demanda, cada vez mais pressurosa, de novas soluções. Estas 

não mais seriam centradas no dinheiro, como na atual fase da globalização, para encontrar no próprio 

homem a base e o motor da construção de um novo mundo.

19.  


A  variável  ascendente

Os  fenômenos   a   que   muitos  chamam   de   globalização   e   outros  de   pós-modernidade 

(Renato   Ortiz,  

Mundialização   e   cultura,   1994)   na   verdade   constituem,   juntos,   um   momento   bem 

demarcado   do   processo   histórico.   Preferimos   considera-lo   um   período.   Como   em   qualquer   outro 

período   histórico,   funcionam   de   forma   concertada   diversas   variáveis   cuja   visão   sistêmica   é 

indispensável para entender o que se está realizando. Também como em todo período, a partir de 

certo momento há variáveis que perdem vigor, verdadeiras variáveis descendentes, e outras que 

passam a se impor. São as variáveis ascendentes que revelam a produção de um novo período, isto 

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é, apontam para o futuro.

O momento atual da história do mundo parece ainda indicar a emergência de numerosas 

variáveis ascendentes cuja existência é sistêmica. Isso, exatamente, permite pensar que se estão 

produzindo as condições de realização de uma nova história.

Por enquanto, renunciamos , aqui, a fornecer uma lista exaustiva dos fenômenos, mas 

não a apontar alguns fatos que nos parecem bem característicos das mudanças em curso. Um deles é 

o  crescente   desencanto   com   as  técnicas,  acompanhado   por  uma   gradativa   recuperação   do  bom 

senso, em oposição ao senso comum, isto é, em oposição à pretensa racionalidade sugerida tanto 

pelas técnicas em si mesma como pela política do seu uso. Outro dado significativo se levanta com a 

impossibilidade   relativamente   crescente   de   acesso   a   essas   técnicas,   em   virtude   do   aumento   da 

pobreza em todos os continentes. Junte-se a esse dado o fato de que, apesar da capacidade invasora 

das técnicas hegemônicas, sobrevivem e criam-se novas técnicas não hegemônicas. Pode-se arriscar 

um   vaticínio   e   reconhecer,   no   conjunto   do   processo,   o   anúncio   de   um   novo   período   histórico, 

substituto do atual período. Estaríamos na aurora de uma nova era, em que a população, isto é, as 

pessoas   constituiriam   sua   principal   preocupação,   um   verdadeiro   período   popular   da   história,   já 

entremostrado pelas fragmentações e particularizações sensíveis em toda parte devidas à cultura e o 

território.

20.  


Os  limites  da  racionalidade  dominante

O Projeto Racional começa a mostrar suas limitações talvez porque estejamos atingindo 

aquele   paroxismo   previsto   por   Weber   (

Economía   y   sociedad,   1922)   para   realizar-se   quando   o 

processo de expansão da racionalidade capitalista se tornasse   ilimitado. Tudo indica que estamos 

atingindo essa fronteira, agora que, nos diversos níveis da vida econômica, social, individual, vivemos 

uma racionalidade totalitária que vem acompanhada de uma perda da razão. O deboche de carência 

e de escassez que atinge uma parcela cada vez maior da sociedade humana permite reconhecer a 

realidade dessa perdição.

Uma boa parcela da humanidade, por desinteresse ou incapacidade, não é mais capaz 

de   obedecer   a   leis,   normas,   regras,   mandamentos,   costumes   derivados   dessa   racionalidade 

hegemônica. Daí a proliferação de “ilegais”, “irregulares”, “informais”.

Essa   incapacidade   mistura,   num   processo   de   vida,   práticas   e   teorias   herdadas   e 

inovadas, religiões tradicionais e novas convicções. É nesse caldo de cultura que numerosas frações 

da sociedade passam da situação anterior de conformidade associada ao conformismo a uma etapa 

superior da produção da consciência, isto é, a conformidade sem o conformismo. Produz-se dessa 

maneira a redescoberta pelos homens da verdadeira razão e não é espantoso que tal descobrimento 

se   dê   exatamente   nos   espaços   sociais,   econômicos   e   geográficos   também   “não   conformes”   à 

racionalidade dominante.

Na esfera da racionalidade hegemônica, pequena margem é deixada para a variedade, a 

criatividade, a espontaneidade. Enquanto isso, surgem, nas outras esferas, contra-racionalidades e 

racionalidades   paralelas   corriqueiramente   chamadas   de   irracionalidades,   mas   que   na   realidade 

constituem   outras   formas   de   racionalidade.   Estas   são   produzidas   e   mantidas   pelos   que   estão 

“embaixo”,   sobretudo   os   pobres,   que   desse   modo   conseguem   escapar   ao   totalitarismo   da 

racionalidade dominante. Recordemos o ensinamento de Sartre, para quem a escassez é que torna a 

59



história possível, graças à “unidade negativa da multiplicidade concreta dos homens”.

Tal   situação   é   objetivamente   esperançosa   porque   agora   assistimos   ao   fim   das 

espectativas nutridas no após-guerra  e, ao  contrário, testemunhamos a ampliação  do  número de 

pobres,   assim   como   o   estreitamento   das   possibilidades   e   das   certezas   que   as   classes   médias 

acalentavam até a década de 1980. Outro dado objetivo é o fato de que a realização cada vez mais 

densa   do   processo   de   globalização   enseja   o   caldeamento,   ainda   que   elementar,   das   filosofias 

produzidas nos diversos continentes, em detrimento do racionalismo europeu, que é o bisavô das 

idéias de racionalismo tecnocrático hoje dominantes.

21.  

O  imaginário  da  velocidade



Na família dos imaginários da globalização e das técnicas, encontra-se a idéia, difundida 

com   exuberância,   de   que   a   velocidade   constitui   um   dado   irreversível   na   produção   da   história, 

sobretudo   ao   alcançar   os   paroxismos   dos   tempos   atuais.   Na   verdade,   porém,   somente   algumas 

pessoas, firmas e instituições são altamente velozes, e são ainda em menor número as que utilizam 

todas as virtualidades técnicas das máquinas. Na verdade, o resto da humanidade produz, circula e 

vive de outra maneira. Graças à impostura ideológica o fato da minoria acaba sendo representativo da 

totalidade, graças exatamente à força do imaginário.

Essa   transformação   de   uma   fluidez   potencial   numa   fluidez   efetiva,   por   meio   da 

velocidade exacerbada, todavia não tem e nem busca um sentido. Sem dúvida, ela serve ao exercício 

de uma competitividade desabrida, mas esta é uma coisa que ninguém sabe para o que realmente 

serve.

Velocidade:  técnica  e  poder



Pode-se dizer que a velocidade assim utilizada é duplamente um dado da política e não 

da técnica. De um lado, trata-se de uma escolha relacionada com o poder dos agentes e, de outro, da 

legitimação dessa escolha, por meio da justificação de um modelo de civilização. É nesse sentido que 

estamos afirmando tratar-se mais de um dado da política que, propriamente, da técnica, já que esta 

poderia ser usada diferentemente em função do conjunto de escolhas sociais. De fato, o uso extremo 

da velocidade acaba por ser o imperativo das empresas hegemônicas e não das demais, para as 

quais o sentido de urgência não é uma constante. Mas é a partir desse e de outros comportamentos 

que a política das empresas arrasta a política dos Estados e das instituições supranacionais.

No   passado,   a   ordem   mundial   se   construía   mediante   uma   combinação   política   que 

conduzia à não-obediência aos ditames da técnica mais moderna. Pensemos, por exemplo, no século 

do imperialismo, nos cem anos que vão do quarto quartel do século XIX ao terceiro do século XX. Os 

impérios, em sua qualidade de grandes conjuntos políticos e territoriais, viviam e evoluíam segundo 

idades  técnicas  diversas,  utilizando,  cada   qual,   dentro   dos  seus  domínios,  conjuntos  de  avanços 

técnicos disparatados e que mostravam níveis diferentes. O império britânico estava à frente dos 

demais quanto à posse de recursos técnicos avançados. Mas isso não imedia sua convivência com 

outros impérios. Dentro de cada um, o uso do conjunto dos recursos técnicos era comandado por um 

conjunto de normas relacionadas ao comércio, à produção e ao consumo, o que permitia a cada bloco 

uma evolução própria, não perturbada pela existência em outros impérios de avanços técnicos mais 

60



significativos. No fundo, a politica comercial aplicada dentro de cada império assegurava a política do 

conjunto do mundo ocidental (M. Santos, 

A natureza do espaço, 1996, pp. 36-37 e pp. 152-153). O 

exemplo mostra não ser certo que haja um imperativo técnico. O imperativo é político. Desse modo, 

não há uma inelutabilidade face aos sistemas técnicos, nem muito menos um determinismo. Aliás, a 

técnica   somente   é   um   absoluto   enquanto   irrealizada.   Assim,   existindo   apenas   na   vitrine,   mas 

historicamente inexistente, equivaleria a uma abstração. Quando nos referimos à historicização e à 

geografização das técnicas, estamos cuidando de entender o seu uso pelo homem, sua qualidade de 

intermediário da ação, isto é, sua relativização.

No período da globalização, o mercado externo, com suas exigências de competitividade, 

obriga a aumentar a velocidade. Mas a população em seus diferentes níveis, os pobres e os que 

vivem longe dos grandes mercados obrigam a combinações de formas e níveis de capitalismo. É o 

mercado interno que freia a vontade de velocidade de que já falava M. Sorre (

Annales de géographie, 

1948),   porque   todos   os   atores   dele   participam.   Todavia,   os   dois   mercados   são   intercorrentes, 

interdependentes.  Invadindo   a  economia   e  o   território   com  grande   velocidade,  o   circuito   superior 

busca destruir as formas preexistentes. Mas o território resiste, sobretudo na grande cidade, graças, 

entre outras coisas, à menor fricção da distância. As pequenas e médias empresas locais têm mais 

acesso potencial que, por exemplo, uma grande empresa de Manaus, pois podem alcançar uma parte 

significativa da cidade  (por exemplo, os supermercados menores). Contribuirá também para  esse 

maior acesso potencial o fato de estarem num meio que é um tecido e um emaranhado de normas 

concernentes, o que torna essas empresas menos dependentes de uma única norma para subsistir. 

Mas, com a globalização e seu imaginário comum ao da técnica hegemônica, uma e outra são dadas 

como indispensáveis à participação plena no processo histórico.

Do  relógio  despótico  às  temporalidades  divergentes

É fato, também, que, com a interdependência globalizada dos lugares e a planetarização 

dos   sistemas   técnicos   dominantes,   estes   parecem   se   impor   como   invasores,   servindo   como 

parâmetro na avaliação da eficácia de outros lugares e de outros sistemas técnico. É nesse sentido 

que os sistema técnico hegemônico aparece como algo absolutamente indispensável e a velocidade 

resultante   como   um   dado   desejável   a   todos   que   pretendem   participar   de   pleno   direito,   da 

modernidade atual. Todavia, a velocidade atual e tudo que vem com ela, e que dela decorre, não é 

inelutável nem imprescindível. Na verdade, ela não beneficia nem interessa à maioria da humanidade. 

Para quê, de fato, serve esse relógio despótico do mundo atual? As crises atuais são, em última 

análise, uma resultante da aceleração contemporânea, mediante o uso privilegiado, por alguns atores 

econômicos, das possibilidades atuais de fluidez. Como tal exercício não responde a um objetivo 

moral e, desse modo, é desprovido de sentido, o resultado é a instalação de situações em que o 

movimento encontra justificativa em si mesmo – como é o caso do mercado de capitais especulativos – 

tal autonomia sendo uma das razões da desordem característica do período atual.

Quando aceitamos pensar a técnica em conjunto com a política e admitimos atribuir-lhe 

outro uso, ficamos convencidos de que é possível acreditar em uma outra globalização e em um outro 

mundo. O problema central é o de retomar o curso da história, isto é, recolocar o homem no seu lugar 

central.


Tal preocupação de mudança inclui uma revisão do significado das palavras-chave do 

61



nosso período, todas contaminadas pelo respectivo sistema ideológico. Fiquemos com a questão da 

velocidade,   que   pode   ser   vista   como   um   paradigma   da   época,   mas   também   como   o   que   ela 

representa   de   emblemático.   Na   verdade,   seja   qual   for   o   corpo   social,   a   velocidade   hegemônica 

constitui   uma   das   suas   características,   mas   a   definição   da   realidade   somente   pode   ser   obtida 

considerando-se as diversas velocidades em presença. E, seja como for, a eficácia da velocidade não 

provém da técnica subjacente. A eficácia da velocidade hegemônica é de natureza política e depende 

do   sistema   socioeconômico   político   em   ação.   Pode-se   dizer   que,   em   uma   dada   situação,   tal 

velocidade hegemônica é uma velocidade imposta ideologicamente.

Como em tudo mais, a interpretação da história não pode ser deixada ao entendimento 

imediato do fenômeno técnico, exigindo entender como, nessa  mesma situação, se relacionam a 

técnica e a política, atribuindo a esta o papel central no entendimento das ações que conformam o 

presente atual e que podem tornar possível um outro futuro.

22.  

Just-in-time  versus  o  cotidiano



O   tema   das   verticalidades   e   das   horizontalidades   pode   comportar   numerosas 

reinterpretações. Uma delas, refletindo o jogo contraditório entre essas categorias, é a verdadeira 

oposição   existente   entre   a   natureza   das   atividades  

just-in-time,   que   trabalham   com   um   relógio 

universal, e a realidade das atividades que, juntas, constituem a vida cotidiana.

No primeiro caso trata-se da vocação para uma racionalidade única, reitora de todas as 

outras, desejosa de homogeneização e de unificação, pretendendo sempre tomar o lugar das demais, 

uma racionalidade única, mas racionalidade sem razão, que transforma a existência daqueles a quem 

subordina numa perspectiva de alienação. Já no cotidiano, a razão, isto é, a razão de viver, é buscada 

por   meio   do   que,   face   a   essa   racionalidade   hegemônica,   é   considerada   como   “irracionalidade”, 

quando na realidade o que se dá são outras formas de ser racional.

O  mundo  do  tempo   real,  do  just-in-time,   é aquele  subsistema  da  realidade  total  que 

busca em sua lógica nessa mencionada racionalidade única, cuja criação é, todavia, limitada, atributo 

de um pequeno número de agentes. O mundo do cotidiano é também o da produção ilimitada de 

outras racionalidades, que são, aliás, tão diversas quanto as áreas consideradas, já que abrigam 

todas as modalidades de existência.

O   funcionamento   dos   espaços   hegemônicos   supõe   uma   demanda   desesperada   de 

regras; quando as circunstâncias mudam e, por isso, as normas reguladoras têm de mudar, nem por 

isso sua demanda deixa de ser desesperada. Tal regulação obedece à consideração de interesses 

privatísticos. Já o cotidiano supõe uma demanda desesperada de Política, resultado da consideração 

conjunta de múltiplos interesses.

No caso das atividades 

just-in-time, uma só temporalidade é considerada: é a fórmula de 

sobrevivência   no   mundo   da   competitividade   à   escala   planetária.   Como   dado   motor,   uma   só 

existência, a dos agentes hegemônicos, é, ao mesmo tempo, origem e finalidade das ações. A vida 

cotidiana   abrange   várias   temporalidades   simultaneamente   presentes,   o   que   permite   considerar, 

paralela e solidariamente, a existência de cada um e de todos, como, ao mesmo tempo, sua origem e 

finalidade.

O conjunto das condições acima enunciadas permite dizer que o mundo do tempo real 

busca uma homogeneização empobrecedora e limitada, enquanto o universo do cotidiano é o mundo 

62



da heterogeneidade criadora.

23.    


Um     emaranhado     de     técnicas:     o     reino     do     artifício     e     da  

escassez


Sabemos já que as técnicas presentes em uma dada situação não são homogêneas. 

Enquanto as técnicas hegemônicas se dão em redes, além delas outras técnicas se impõem. Mas, em 

uma dada situação, todas as técnicas presentes acabam por ser inextricáveis. Tal solidariedade não 

é, propriamente, entre as técnicas, mas o fruto da vida solidária da sociedade.

Do  artifício  à  escassez

Hoje, tanto os objetivos quanto as ações derivam da técnica. As técnicas estão, pois, em 

toda parte: na produção, na circulação, no território, na política, na cultura. Elas estão também – e 

permanente – no corpo e no espírito do homem. Vivemos todos num emaranhado de técnicas, o que 

em outras palavras significa que estamos todos mergulhados no reino do artifício. Na medida em que 

as técnicas hegemônicas, fundadas na ciência e obedientes aos imperativos do mercado, são hoje 

extremamente dotadas de intencionalidade, há igualmente tendência à hegemonia de uma produção 

“racional”   de   coisas   e   de   necessidades;   e   desse   modo   uma   produção   excludente   de   outras 

produções, com a multiplicação de objetos técnicos estritamente programados que abrem espaço 

para   essa   orgia   de   coisas   e   necessidades   que   impõem   relações   e   nos   governam.   Cria-se   um 

verdadeiro   totalitarismo   tendencial   da   racionalidade   –   isto   é,   dessa   racionalidade   hegemônica, 

dominante - , produzindo-se a partir do respectivo sistema certas coisas, serviços, relações e idéias. 

Esta,   aliás,   é   a   base   primeira   da   produção   de   carências   e   de   escassez,   já   que   uma   parcela 

considerável   da   sociedade   não   pode   ter   acesso   às   coisas,   serviços,   relações,   idéias   que   se 

multiplicam na base da racionalidade hegemônica.

A situação contemporânea revela, entre outras coisas, três tendências: 1. uma produção 

acelerada e artificial de necessidades; 2. uma incorporação limitada de modos de vida ditos racionais; 

3. uma produção limitada de carência e escassez.

Nessa   situação,   as   técnicas   a   velocidade,   a   potência   criam   desigualdades   e, 

paralelamente, necessidades, porque não há satisfação para todos. Não é que a produção necessária 

seja   globalmente   impossível.   Mas   o   que   é   produzido   –   necessária   ou   desnecessariamente   –   é 

desigualmente distribuído. Daí a sensação e, depois, a consciência de escassez: aquilo que falta a 

mim, mas que o outro mais bem situado na sociedade possui. A idéia vem de Sartre, quando registra 

que “não há bastante para todo o mundo”. Por isso o outro consome e não eu. O homem, cada 

homem, é afinal definido pela soma dos possíveis que  lhe cabem, mas também pela soma dos seus 

impossíveis.

O reino da necessidade existe para todos, mas segundo formas diferentes, as  quais 

simplificamos mediante duas situações – tipo: para os “possuidores”, para os “não possuidores”.

Quanto   aos  “possuidores”,   torna-se   viável,  mediante   possibilidades  reais   ou   artifícios 

renovados, a fuga à escassez e a superação ainda que provisória da escassez. Como o processo da 

criação de necessidades é infinito, impõe-se uma readaptação permanente. Cria-se um círculo vicioso 

63



com a rotina da falta e da satisfação. Na realidade, para essa parcela da sociedade a falta já é criada 

como   a   expectativa   e   a   perspectiva   de   satisfação.   As   negociações   para   regressar   ao  

status  de 

consumidor satisfeito conduzem à repetição de experiências exitosas. Desse modo, a parcela de 

consumidores contumazes obtém uma convivência relativamente pacífica com a escassez. Mas a 

busca permanente de bens finitos e por isso condenados ao esgotamento (e à substituição por outros 

bens finitos) condena os aparentemente vitoriosos à aceitação da contrafinalidade contida nas coisas 

e em conseqüência ao enfraquecimento da individualidade. 

Quanto aos “não-possuidores” sua convivência com a escassez é conflituosa e até pode 

ser guerreira. Para eles, viver na esfera do consumo é como querer subir uma escada rolante no 

sentido da descida. Cada dia acaba oferecendo uma nova experiência da escassez. Por isso não há 

lugar para o repouso e a própria vida acaba por ser um verdadeiro campo  de batalha. Na briga 

cotidiana pela sobrevivência, não há negociação possível para eles, e, individualmente, não há força 

de   negociação.   A   sobrevivência   só   é   assegurada   porque   as   experiências   imperativamente   se 

renovam. E como a surpresa se dá como rotina, a riqueza dos “não-possuidores” é a prontidão dos 

sentidos. É com essa força que eles se eximem da contrafinalidade e ao lado da busca de bens 

materiais finitos cultivam a procura de bens infinitos como a solidariedade e a liberdade: estes, quanto 

mais se distribuem, mais aumentam.

Da  escassez  ao  entendimento

A   experiência   da   escassez   é   a   ponte   entre   o   cotidiano   vivido   e   o   mundo.   Por   isso, 

constitui um instrumento primordial na percepção da situação de cada um e uma possibilidade de 

conhecimento e de tomada de consciência. 

O  nosso   tempo   consagra   a   multiplicação   das  fontes  de   escassez,   seja   pelo   número 

avassalador dos objetos presentes no mercado, seja pelo chamado incessante ao consumo. Cada 

dia, nessa época de globalização, apresenta-se um objeto novo, que nos é mostrado para provocar o 

apetite. A noção de escassez se materializa, se aguça e se reaprende cotidianamente, assim como, já 

agora, a certeza de que cada dia é dia de uma nova escassez. A sociedade atual vai dessa maneira, 

mediante   o   mercado   e   a   publicidade,   criando   desejos   insatisfeitos,   mais   também   reclamando 

explicações. Dir-se-ia que tal movimento se repete, enriquecendo o movimento intelectual.

A escassez de um pode se parecer à escassez do outro e a escassez de hoje à escassez de ontem, 

mas quando não é satisfeita ela acaba por se impor como diferente da de ontem e da do outro. 

Alteridade e individualidade se reforçam com a renovação da novidade. Quanto mais diferentes são 

os   que   convivem   num   espaço   limitado,   mais   idéias   do   mundo   aí   estarão   para   ser   levantadas, 

cotejadas e, desse modo, tanto mais rico será o debate silencioso ou ruidoso que entre as pessoas se 

estabelece. Nesse sentido, pode-se dizer que a cidade é um lugar privilegiado para essa revelação e 

que, nessa fase da globalização, a aceleração contemporânea é também aceleração na produção da 

escassez e na descoberta da sua realidade, já que, multiplicando e apressando os contatos, exibe a 

multiplicidade de formas de escassez contemporânea, as quais vão mudando mais rapidamente para 

se tornarem mais numerosas e mais diversas. Para os pobres, a escassez é um dado permanente da 

existência, mas como sua presença na vida de todos os dias é o resultado de uma metamorfose 

também permanente, o trabalho acaba por ser, para eles, o lugar de uma descoberta cotidiana e de 

um combate cotidiano, mas também uma ponte entre a necessidade e o entendimento (M. Santos, 

64



Jornal do Brasil, 06.04.1997). 

24.  


Papel dos pobres na produção do presente e do futuro

O exame do papel atual dos pobres na produção do presente e do futuro exige, em 

primeiro lugar, distinguir entre pobreza e miséria. A miséria acaba por ser a privação total, com o 

aniquilamento, ou quase, da pessoa. A pobreza é uma situação de carência, mas também de luta, um 

estado vivo, de vida ativa, em que a tomada de consciência é possível.

Miseráveis são os que se confessam derrotados. Mas os pobres não se entregam. Eles 

descobrem cada dia formas inéditas de trabalho e de luta. Assim, eles enfrentam e buscam remédio 

para   suas   dificuldades.   Nessa   condição   de   alerta   permanente,   não   têm   repouso   intelectual.   A 

memória seria sua inimiga. A herança do passado é temperada pelo sentimento de urgência, essa 

consciência do novo que é, também, um motor do conhecimento. 

A socialidade urbana pode escapar ao seus intérpretes, nas faculdades; ou aos seus 

vigias,   nas  delegacias  de   polícia.   Mas   não   aos   atores   ativos   do   drama,   sobretudo   quando,   para 

prosseguir vivendo, são obrigados a lutar todos os dias. Haverá quem descreva o quadro material 

dessa batalha como se fosse um teatro, quando, por exemplo, se fala em estratégia de sobrevivência, 

mas na realidade esse palco, junto com seus atores, constitui a própria vida concreta da maioria das 

populações. A cidade, pronta a enfrentar seu tempo a partir do seu espaço, cria e recria uma cultura 

com a cara do seu tempo e do seu espaço e de acordo ou em oposição aos “donos do tempo”, que 

são também os donos do espaço.

É dessa forma que, na convivência com a necessidade e com o outro, se elabora uma 

política, a política dos 

de baixo, constituída a partir das suas visões do mundo e dos lugares. Trata-se 

de uma política de novo tipo, que nada tem a ver com a política institucional. Esta última se funda na 

ideologia   do   crescimento,   da   globalização   etc.     e   é   conduzida   pelo   cálculo   dos   partidos   e   das 

empresas. A política dos pobres é baseada no cotidiano vivido por todos, pobres e não pobres, e é 

alimentada pela simples necessidade de continuar existindo. Nos lugares, uma e outra se encontram 

e   confundem,   daí   a   presença   simultânea   de   comportamentos   contraditórios,   alimentados   pela 

ideologia   do   consumo.   Este,   ao   serviço   das   forças   socioeconômicas   hegemônicas,   também   se 

entranha na vida os pobres, suscitando neles expectativas e desejos que não podem contentar.

Num   mundo   tão   complexo,   pode   escapar   aos   pobres   o   entendimento   sistêmico   do 

sistema  do  mundo.  Este  lhes  aparece  nebuloso, constituído   por causas  próximas e  remotas,  por 

motivações concretas e abstratas, pela confusão entre os discursos e as situações, entre a explicação 

das coisas e a sua propaganda.

Mas há também a desilusão das demandas não satisfeitas, o exemplo do vizinho que 

prospera, o cotidiano contraditório. Talvez por aí chegue o despertar. Num primeiro momento, este é, 

apenas,   o   encontro   de   uns   poucos   fragmentos,   de   algumas   peças   do  

puzzle,   mas   também   a 

dificuldade para entrar no labirinto: falta-lhes o próprio sistema do mundo, do país e do lugar. Mas a 

semente do entendimento já está plantada e o passo seguinte é o seu florescimento em atitudes de 

inconformidade e, talvez, rebeldia.

Sem dúvida, os brotes individuais de insatisfação podem não formar uma corrente. Mas 

os movimentos de massa  nem sempre resultam de discursos claros e bem articulados, nem sempre 

se   dão  por meio  de  organizações  conseqüentes  e  estruturadas.  O  entendimento  sistemático  das 

65



situações e a correspondente sistematicidade das manifestações de inconformidade constituem, via 

de regra, um processo lento. Mas isso não impede que, no âmago da sociedade, já se estejam, aqui e 

ali, levantando vulcões, mesmo que ainda pareçam silenciosos e dormentes.

Na realidade, uma coisa são as organizações e os movimentos estruturados e outra 

coisa é o próprio cotidiano como um tecido flexível de relações, adaptável às novas circunstâncias, 

sempre   em   movimento.   A   organização   é   importante,   como   o   instrumento   de   agregação   e 

multiplicação  de forças afins, mas separadas. Ela  também pode constituir o meio de negociação 

necessário a vencer etapas e encontrar um ovo patamar de resistência e de luta. Mas a obtenção de 

resultados, por mais compensadores que pareçam, não deve estimular a cristalização do movimento, 

nem   encorajar   a   repetição   de   estratégias   e   táticas.   Os   movimentos   organizados   devem   imitar   o 

cotidiano das pessoas, cuja flexibilidade e adaptabilidade lhe asseguram um autêntico pragmatismo 

existencial e constituem a sua riqueza e fonte principal de veracidade.

25. 

 A metamorfose das classes médias



Cada época cria novos atores e atribui papéis novos aos já existentes. Este é também o 

caso das classes médias brasileiras, desafiadas agora para o desempenho de uma importante tarefa 

histórica, na reconstituição do quadro político nacional.

A  idade  de  ouro

O chamado milagre econômico brasileiro permite a difusão, à escala do país, do fato da 

classe   média.   Na   realidade,   entre   as   muitas   “explosões”   características   do   período,   está   esse 

crescimento   contínuo   das   classes   médias,   primeiro   nas   grandes   cidades   e   depois   nas   cidades 

menores   e   no   campo   modernizado.   Essa   explosão   das   classes   médias   acompanha,   neste   meio 

século,   a   explosão   demográfica,   a   explosão   urbana   e   a   explosão   do   consumo   e   do   crédito.  Tal 

conjunto de fenômenos tem relação estrutural com o aumento da produção industrial e agrícola, como 

também   do   comércio,   dos   transportes,   das   trocas   de   todos   os   tipos,   das   obras   públicas,   da 

administração e da necessidade de informação. Há, paralelamente, uma expansão e diversificação do 

emprego, com a difusão dos novos terciários e a consolidação, em muitas áreas do país, de uma 

pequena burguesia operária. Como a modernização capitalista tende ao esvaziamento do campo e é 

sempre seletiva, uma parcela importante dos que se dirigiram às cidades não pôde participar do 

circuito superior da economia, deixando de incluir-se entre os assalariados formais e só encontrando 

trabalho no circuito inferior da economia, impropriamente chamado de setor “informal”.

Vale realçar que no Brasil do milagre, e até durante boa parte da década de 1980, a 

classe média se expande   e se desenvolve sem que houvesse verdadeira competição dentro dela 

quanto ao uso dos recursos que o mercado ou o Estado lhe ofereciam para a melhoria do seu poder 

aquisitivo e do seu bem-estar material. Todos iam subindo juntos, embora para andares diferentes. 

Mas   todos   das   classes   médias   estavam   cônscios   de   sua   ascensão   social   e   esperançosos   de 

conseguir ainda mais. Daí sua relativa coesão e o sentimento de se haver tornado um poderoso 

estamento. A competição foi, na realidade, com os pobres, cujo o acesso aos bens e serviços se torna 

cada vez mais difícil, à medida que estes se multiplicam. Vale a pena lembrar as facilidades para a 

aquisição   da   casa   própria,   mediante   programas   governamentais   com   que   foram   privilegiados, 

66



enquanto os brasileiros mais pobres apenas foram incompletamente atendidos nos últimos anos do 

regime autoritário. A classe média é a grande beneficiária do crescimento econômico, do modelo 

político e dos projetos urbanísticos adotados.

Tal classe média, ao mesmo tempo em que se diversifica profissionalmente, aumenta 

seu poder aquisitivo e melhora qualitativamente por meio das oportunidades de educação que lhe são 

abertas, tudo isso levantado à ampliação do seu bem-estar (o que hoje se chama de qualidade de 

vida),  conduzindo-a   a   acreditar   que   a   preservação   das   suas   vantagens  e   perspectivas   estivesse 

assegurada. Conforme mostraram Amélia Rosa S. Barreto e Ana Clara T. Ribeiro (“A dúvida da dívida 

e a classe média”, 

Lastro, IPPUR, ano 3, nº 6, abril de 1999) “o acesso ao crédito transforma-se em 

instrumento para alcançar a estabilidade social”. Tudo o que alimenta a classe média dá-lhe, também 

um   sentimento   de   inclusão   no   sistema   político   e   econômico   e   um   sentimento   de   segurança, 

estimulado pela constantes medidas do poder público em seu favor. Tratava-se, na realidade, de uma 

moeda de troca, já que a classe média constituía uma base de apoio às ações do governo.

Forma-se,   dessa   maneira,   uma   classe   média   sequiosa   de   bens   materiais,   a   começar   pela 

propriedade, e mais apegada ao consumo que à se cidadania, sócia despreocupada do crescimento e 

do poder com os quais se confundia. Daí a tolerância, senão a cumplicidade com o regime autoritário. 

O modelo econômico importava mais que o modelo cívico. Eram essas, aliás, condições objetivas 

necessárias a um crescimento econômico sem democracia. Quando o regime militar esgota o seu 

ciclo, a democracia se instala incompletamente na década de 1980, guardando todos esses vícios de 

origem   e   sustentando   um   regime   representativo   falsificado   pela   ausência   de   partidos   políticos 

conseqüentes.   Seguindo   essa   lógica,   as   próprias   esquerdas   são   levadas   a   dar   mais   espaço   às 

preocupações   eleitoras   e   menos   à   pedagogia   propriamente   política.   A   gênese   e   as   formas   de 

expansão   das   classes   médias   brasileiras   têm   relação   direta   com   a   maneira   como   hoje   se 

desempenham os partidos.  

A  escassez  chega  às  classes  médias

 

Tal situação tende a mudar, quando a classe média começa a conhecer a experiência da 



escassez, o que poderá levá-la a uma reinterpretação de sua situação. Nos anos recentes, primeiro 

de forma lenta ou esporádica e já agora de modo mais sistemático e continuado, a classe média 

conhece   dificuldades   que   lhe   apontam   para   uma   situação   existencial  bem   diferente   daquela   que 

conhecera há poucos anos. Tais dificuldades chegam em em um tropel: a educação dos filhos, o 

cuidado com a saúde, a aquisição ou aluguel da moradia, a possibilidade de pagar pelo lazer, a falta 

de   garantia   no   emprego,   a   deteorização   dos   salários,   a   poupança   negativa   e   o   crescente 

endividamento estão levando ao desconforto quanto ao presente e à insegurança quanto ao futuro, 

tanto o futuro remoto quanto o imediato. Tais incertezas são agravadas pelas novas perspectiva da 

previdência social e do regime de aposentadorias, da prometida reforma dos seguros privados e da 

legislação do trabalho. A tudo isso se acrescentam, dentro do próprio lar, a apreensão dos filhos em 

relação ao futuro profissional e as manifestações cotidianas desse desassossego.

Já que não mais encontram os remédios que lhe eram oferecidos pelo mercado ou pelo 

Estado   como   solução   aos  seus  problemas  individuais  emergentes,   as  classes  médias  ganham  a 

percepção de que já não mandam, ou de que já não participam da partilha do poder. Acostumadas a 

atribuir   aos   políticos   a   solução   dos   seus   problemas,   proclamam,   agora,   seu   descontentamento, 

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distanciando-se   deles.   Elas   já   não   vêem   espelhadas   nos   partidos   e   por   isso   se   instalam   num 

desencanto mais abrangente quanto à política propriamente dita. Isso é justificado, em parte, pela 

visão de consumidor desabusado que alimentou durante décadas, agravada com a fragmentação pela 

mídia, sobretudo televisiva, da informação e da interpretação do processo social. A certeza de não 

mais   influir   politicamente   é   fortalecida   nas   classes   médias,   levando-as,   não   raro,   a   reagir 

negativamente,   isto   é,   a   desejar   menos   política   e   menos   participação,   quando   a   reação   correta 

poderia e deveria ser exatamente a oposta.

A atual experiência de escassez pode não conduzir imediatamente à desejável expansão 

da   consciência.   E   quando   esta   se   impõe,   não   o   faz   igualmente,   segundo   as   pessoas.   Visto 

esquematicamente,   tal   processo   pode   ter,   como   primeiro   degrau,   a   preocupação   de   defender 

situações individuais ameaçadas e que se deseja reconstituir, retomando o consumo e o conforto 

material como o principal motor de uma luta, que, desse modo, pode se limitar a novas manifestações 

de individualismo. É num segundo momento que tais reivindicações, fruto de reflexão mais profunda, 

podem alcançar um nível qualitativo superior, a partir de um entendimento mais amplo do processo 

social e de uma visão sistêmica de situações aparentemente isoladas. O passo seguinte pode levar à 

decisão de participar de uma luta pela sua transformação, quando o consumidor assume o papel de 

cidadão. Não importa que esse movimento de tomada de consciência não seja geral, nem igual para 

todas as pessoas. O importante é que se instale.

Um  dado  novo  na  política

Seja como for, as classes médias brasileiras, já não mais aduladas, e feridas de morte 

nos seus interesses materiais e espirituais, constituem, em sua condição atual, um dado novo da vida 

social e política. Mas seu papel não estará completo enquanto não se identificar com os clamores dos 

pobres, contribuindo, juntos, para o rearranjo e a regeneração dos partidos, inclusive os partidos do 

progresso. Dentro destes, são muito os que ainda aceitam as tentações do triunfalismo oposicionista – 

sempre que as ocasiões se apresentam – e se rendem ao oportunismo eleitoreiro, limitando-se às 

respectivas mobilizações ocasionais, desgarrando-se, assim, do seu papel de formadores não apenas 

da opinião mas da consciência cívica sem a qual não pode haver neste país política verdadeira.

As   classes   média   brasileira,   agora   mais   ilustradas   e,   também,   mais   despojadas 

materialmente,   têm,   agora,   a   tarefa   histórica   de   forçar   os   partidos   a   complementar,   no   Brasil,   o 

trabalho, apenas começado, de implantação de uma democracia que não seja apenas eleitoral, mas, 

também,   econômica,   política   e   social.   A   experiência   da   escassez,   um   revelador   cotidiano   da 

verdadeira situação de cada pessoa é, desse modo, um dado fundamental na aceleração da tomada 

de consciência. Nas condições brasileiras atuais, as novas circunstâncias podem levar as classes 

médias a forçar uma mudança substancial do ideário e das práticas políticas, que incluam uma maior 

responsabilidade ideológica e a correspondente representatividade político-eleitoral dos partidos.

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VI   -   A  TRANSIÇÃO  EM  MARCHA

Introdução

A gestação do novo, na história, dá-se, freqüentemente, de modo quase imperceptível 

para   os   contemporâneos,   já   que   suas   sementes   começam   a   se   impor   quando   ainda   o   velho   é 

quantitativamente   dominante.   É   exatamente   por   isso   que   a   “qualidade”   do   novo   pode   passar 

despercebida. Mas a história se caracteriza como uma sucessão ininterrupta de épocas. Essa idéia de 

movimento   e   mudança   é   inerente   à   evolução   da   humanidade.   É   dessa   forma   que   os   períodos 

nascem, amadurecem e morrem.

No caso do mundo atual, temos a consciência de viver um novo período, mas o novo que 

mais facilmente apreendemos é a utilização de formidáveis recursos da técnica e da ciência pelas 

novas formas do grande capital, apoiado por formas institucionais igualmente novas. Não se pode 

dizer que a globalização seja semelhante às ondas anteriores, nem mesmo uma continuação do que 

havia antes, exatamente porque as condições de sua realização mudaram radicalmente. É somente 

agora que a humanidade está podendo contar com essa nova qualidade da técnica, providenciada 

pelo que se está chamando de técnica informacional. Chegamos a um outro século e o homem, por 

meio dos avanços da ciência, produz um sistema de técnicas presidido pelas técnicas da informação. 

Estas passam a exercer um papel de elo entre as demais, unindo-as e assegurando a presença 

planetária desse novo sistema técnico.

Todavia, para entender o processo que conduziu à globalização atual, é necessário levar 

em   conta   dois   elementos   fundamentais:   o   estado   das   técnicas   e   o   estado   da   política.   Há, 

freqüentemente, tendência a separar uma coisa da outra. Daí nascem as muitas interpretações da 

história a partir das técnicas ou da política, exclusivamente. Na verdade, nunca houve, na história 

humana, separação entre as duas coisas. A história fornece o quadro material e a política molda as 

condições   que   permitem   a   ação.   Na   prática   social,   sistemas   técnicos   e   sistemas   de   ação   se 

confundem e é por meio das combinações então possíveis e da escolha dos momentos e lugares de 

seu uso que a história e a geografia se fazem e se refazem continuadamente.

26. 

 Cultura  popular,  período  popular



Para a maior parte da humanidade, o processo de globalização acaba tendo, direta ou 

indiretamente, influência sobre todos os aspectos da existência: a vida econômica, a vida cultural, as 

relações interpessoais e a própria subjetividade. Ele não se verifica de modo homogêneo, tanto em 

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extensão quanto em profundidade, e o próprio fato de que seja criador de escassez é um dos motivos 

da   impossibilidade   da   homogeneização.   Os   individuos   não   são   igualmente   atingidos   por   esse 

fenômeno,   cuja   difusão   encontra   obstáculos   na   diversidade   das   pessoas   e   na   diversidade   dos 

lugares. Na realidade, a globalização a heterogeneidade, dando-lhe mesmo um caráter ainda mais 

estrutural.

Uma   das   conseqüências   de   tal   evolução   é   a   nova   significação   da   cultura   popular, 

tornada capaz de rivalizar com a cultura de massas. Outra é a produção das condições necessárias à 

reemergência das próprias massas, apontando para o surgimento de um novo período histórico, a que 

chamamos de período demográfico ou popular (M. Santos, 

Espaço e sociedade, 1979).

Cultura  de  massas,  cultura  popular

Um exemplo é a cultura. Um esquema grosseiro, a partir de uma classificação arbitrária, 

mostraria,   em   toda   a   parte,   a   presença   e   a   influência   de   uma   cultura   de   massas   buscando 

homogeneizar e impor-se sobre a cultura popular; mas também, e paralelamente, as reações desta 

cultura popular. Um primeiro movimento é resultado do empenho vertical unificador, homogeneizador, 

conduzido por um mercado cego, indiferente às heranças e às realidades atuais dos lugares e das 

sociedades. Sem dúvida, o mercado vai impondo, com maior ou menor força, aqui e ali, elementos 

mais ou menos maciços da cultura de massa, indispensável, como ela é, ao reino do mercado, e a 

expansão   paralela   das   formas   de   globalização   econômica,   financeira,   técnica   e   cultural.   Essa 

conquista,   mais   ou   menos   eficaz   segundo   os   lugares   e   as   sociedades,   jamais   é   completa,   pois 

encontra   a   resistência   da   cultura   preexistente.   Constituem-se,   assim,   formas   mistas   sincréticas, 

dentre as quais, oferecida como espetáculo, uma cultura popular domesticada associando um fundo 

genuíno a formas exóticas que incluem novas técnicas.

Mas   há   também   –   e   felizmente   –   a   possibilidade,   cada   vez   mais   freqüente,   de   uma 

revanche da cultura popular sobre a cultura de massa, quando, por exemplo, ela se difunde mediante 

o uso dos instrumentos que na origem são próprios da cultura de massas. Nesse caso, a cultura 

popular exerce sua qualidade de discurso dos “de baixo”, pondo em relevo o cotidiano dos pobres, 

das minorias, dos excluídos, por meio da exaltação da vida de todos os dias. Se aqui os instrumentos 

da cultura de massa são reutilizados, o conteúdo não é, todavia, “global”, nem a incitação primeira é o 

chamado mercado global, já que sua base se encontra no território e na cultura local e herdada. Tais 

expressões da cultura popular são tanto mais fortes e capazes de difusão quanto reveladoras daquilo 

que   poderíamos   chamar   de   regionalismos   universalistas,   forma   de   expressão   que   associa   a 

espontaneidade própria à ingenuidade popular à busca de um discurso universal, que acaba por ser 

um alimento da política.

No fundo, a questão da escassez aparece outra vez como central. Os “de baixo” não 

dispõem de meios (materiais e outros) para participar plenamente da cultura moderna de massas. 

Mas sua cultura, por ser baseada no território, no trabalho e no cotidiano, ganha a força necessária 

para deformar, ali mesmo o impacto da cultura de massas. Gente junta cria cultura e, paralelamente, 

cria   uma   economia   territorializada,   uma   cultura   territorializada,   um   discurso   territorializado,   uma 

política   territorializada.   Essa   cultura   da   vizinhança   valoriza,   ao   mesmo   tempo,   a   experiência   da 

escassez e a experiência da convivência e da solidariedade. É desse modo que, gerada de dentro, 

essa   cultura   endógena   impõe-se   como   um   alimento   da   política   dos   pobres,   que   se   dá 

70



independentemente e acima dos partidos e das organizações. Tal cultura realiza-se segundo níveis 

mais baixos de técnicas, de capital e de organização, daí suas formas típicas de criação. Isto seria, 

aparentemente, uma fraqueza, mas na realidade é uma força, já que se realiza, desse modo, uma 

integração orgânica com o território dos pobres e o seu conteúdo humano. Daí a expressividade dos 

seus símbolos, manifestados na fala, na música e na riqueza das formas de intercurso e solidariedade 

entre   as   pessoas.   E   tudo   isso   evolui   de   modo   inseparável,   o   que   assegura   a   permanência   do 

movimento.

A cultura de massas produz certamente símbolos. Mas estes, direta ou indiretamente ao 

serviço do poder ou do mercado, são, a cada vez, fixos. Frente ao movimento social e no objetivo de 

não parecerem envelhecidos, são substituídos, mas por uma outra simbologia também fixa: o que 

vem de cima está sempre morrendo e pode, por antecipação, já ser visto como cadáver desde o seu 

nascimento. É essa a simbologia ideológica da cultura de massas.

Já os símbolos “de baixo”, produtos da cultura popular, são portadores da verdade da 

existência e reveladores do próprio movimento da sociedade.

As  condições  empíricas  da  mutação

É a partir de premissas como essas que se pode pensar uma reemergência das massas. 

Para isso devem contribuir, a partir das migrações políticas ou econômicas, a ampliação da vocação 

atual   para   a   mistura   intercontinental   e   intranacional   de   povos,   religiões,   gostos,   assim   como   a 

tendência crescente à aglomeração da população em alguns lugares, essa urbanização concentrada 

já revelada nos últimos vinte anos.

Da combinação dessas duas tendências pode-se supor que o processo iniciado há meio 

século levará a uma verdadeira colorização do Norte, à “infomalização” de parte de sua economia e 

de   suas   relações   sociais   e   à   generalização   de   certo   esquema   dual   presente   nos   países 

subdesenvolvidos do Sul e agora ainda mais evidente.

Tal sociedade e tal economia urbana dual (mas não dualista) conduzirão a duas formas 

imbricadas de acumulação, duas formas de divisão do trabalho e duas lógicas urbanas distintas e 

associadas,   tendo   como   base   de   operação   um   mesmo   lugar.   O   fenômeno   já   entrevisto   de   uma 

divisão do trabalho por cima e de uma outra por baixo tenderá a ser reforçar. A primeira prende-se ao 

uso   obediente   das   técnicas   da   racionalidade   hegemônica,   enquanto   a   segunda   é   fundada   na 

redescoberta cotidiana das combinações que permitem a vida e, segundo os lugares, operam em 

diferentes graus de qualidade e de quantidade.

Da divisão do trabalho por cima cria-se uma solidariedade gerada de fora e dependente 

de vetores verticais e de relações pragmáticas freqüentemente longínquas. A racionalidade é mantida 

à custa de normas férreas, exclusivas, implacáveis, radicais. Sem obediência cega não há eficácia. 

Na divisão do trabalho por baixo, o que se produz é uma solidariedade criada de dentro e dependente 

de   vetores   horizontais   cimentados   no   território   e   na   cultura   locais.   Aqui   são   as   relações   de 

proximidade que avultam, este é o domínio da flexibilidade tropical com a adaptabilidade extrema dos 

atores, uma adaptabilidade endógena. A cada movimento novo, há um novo reequilíbrio em favor da 

sociedade local e regulado por ela.

A divisão do trabalho por cima é uma campo de maior velocidade. Nela, a rigidez das 

normas econômicas (privadas e públicas) impede a política. Por baixo há maior dinamismo intrínseco, 

71



maior movimento espontâneo, mais encontros gratuitos, maoir complexidade, mais riqueza (a riqueza 

e o movimento dos homens lentos), mais combinações. Produz-se uma nova centralidade do social, 

segundo a fórmula sugerida por Ana Clara Torres Ribeiro, o que constitui, também, uma nova base 

para a afirmação do reino da política.  

A  precedência  do  homem  e  o  período  popular

Uma outra globalização supõe uma mudança radical das condições atuais, de modo que 

a centralidade de todas as ações seja localizada no homem. Sem dúvida, essa desejada mudança 

apenas ocorrerá no fim do processo, durante o qual reajustamentos sucessivos se imporão.

Nas   presentes   circunstâncias,   conforme   já   vimos,   a   centralidade   é   ocupada   pelo 

dinheiro,   em   suas   formas   mais   agressivas,   um   dinheiro   em   estado   puro   sustentado   por   uma 

informação ideológica, com a qual se encontra em simbiose. Daí a brutal distorção do sentido da vida 

em todas as suas dimenções, incluindo o trabalho e o lazer, e alcançando a valoração íntima de cada 

pessoa e a própria constituição do espaço geográfico. Com a prevalência do dinheiro em estado puro 

como motor primeiro e último das ações, o homem acaba por ser considerado m elemento residual. 

Dessa forma, o território, o Estado-nação e a solidariedade social também se tornam residuais.

A primazia do homem supõe que ele estará colocado no centro das preocupações do 

mundo,   como   um   dado   filosófico   e   como   uma   inspiração   para   as   ações.   Dessa   forma,   estarão 

assegurados o império da compaixão nas relações interpessoais e o estímulo à solidariedade social, a 

ser exercida entre indivíduos, entre o indivíduo e a sociedade e a vice-versa e entre a sociedade e o 

Estado,reduzindo as fraturas sociais, impondo uma nova ética, e, destarte, assentando bases sólidas 

para uma nova sociedade, uma nova economia, um novo espaço geográfico. O ponto de partida para 

pensar alternativas seria, então, a prática da vida e a existência de todos.

A nova paisagem social resultaria do abandono e da superação do modelo atual e sua 

substituição por um outro, capaz de garantir para o maior número a satisfação das necessidades 

essenciais a uma vida humana digna, relegando a uma posição secundária necessidades fabricadas, 

impostas por meio da publicidade e do consumo conspícuo. Assim o interresse social suplantaria a 

atual precedência do interesse econômico e tanto levaria a uma nova agenda de investimentos como 

a   uma   nova   hierarquia   nos   gastos   público,   empresarais   e   privados.   Tal   esquema   conduziria, 

paralelamente,   ao   estabelecimento   de   novas   relações   internacionas.   Num   mundo   em   que   fosse 

abolida   a   regra   da   competitividadecomo   padrão   essencial   de   relacionamento,   a   vontade   de   ser 

potência não seria mais um norte para o comportamento dos estados, e a idéia de mercado interno 

será uma preocupação central.

Agora, o que está sendo privilegiado são as relações pontuais entre grandes atores, mas 

falta sentido ao que eles fazem. Assim, a busca de um futuro diferente tem de passar pelo abandono 

das lógicas infernais que, dentro dessa racionalidade viciada, fundamentam e presidem as atuais 

práticas econômicas e políticas hegemônicas.

A atual subordinação ao modo econômico único tem conduzido a que se dê prioridade às 

exportações e importações, uma das formas com as quais se materializa o chamado mercado global. 

Isso, todavia, tem trazido como conseqüência par todos os países uma baixa de qualidade de vida 

para a maioria da população e a ampliação do número de pobres em todos os continentes, pois, com 

a globalização atual, deixaram-se de lado políticas sociais que amparavam, em passado recente os 

72



menos  favorecidos,  sob   o  argumento   de   que   os  recursos  sociais  e  os  dinheiros  públicos  devem 

primeiramente ser utilizados para facilitar a incorporação dos países na onda globalitária. Mas, se a 

preocupação central é o homem, tal modelo não terá mais razão de ser.

27. 


 A  centralidade  da  periferia

A idéia da irreversibilidade da globalização atual é aparentemente reforçada cada vez 

que constatamos a inter-relção atual entre cada país e o que chamamos de “mundo”, assim como a 

interdependência, hoje indiscutível, entre a hitória geral e as histórias particulares. Na verdade, isso 

também tem haver com a idéia, também estabelicida, de que a história seria sempre feita a partir dos 

países centrais, isto é, da Europa e dos Estados Unidos, aos quais, de modo geral, o presente estado 

de coisas interessa.

Limites  à  cooperação

Quando,   porém,   observamos   de   perto   aspectos   mais   estruturais   da   situação   atual, 

verificamos que o centro do sistema busca impor uma globalização de cima para baixo aos demais 

países, enquando no seu âmago reina uma disputa entre Europa, Japão e Estados Unidos, que lutam 

para guardar e ampliar sua parte do mercado global e afirmar a hegemonia econômica, política e 

militar sobre as nações que lhes são mais diretamente tributárias sem, todavia, abandonar a idéia de 

ampliar sua própria área de influência. Então, qualquer fração de mercado, não importa onde esteja, 

se torna fundamental à competitividade exitosa das empresas. Estas põem em ação suas forças e 

incitam   os   governos   respectivos   a   apoiá-las.   O   limite   da   cooperação   dentro   da   Tríade   (Estados 

Unidos, Europa, Japão) é essa mesma competição, de modo que cada um não perca terreno frente 

ao outro.

Entretanto,   já   que   nesses   países   a   idéia   de   cidadania   ainda   é   forte,   é   impossível 

descuidar do interesse das populações ou suprimir inteiramente direitos adquiridos mediante lutas 

seculares.   O   que   permanece   como   lembrança   do   Estado   de   bem-estar   basta   para   contrariar   as 

pretensões   de   completa   autonomia   das   empresas   transnacionais   e   contribui   para   a   emergência, 

dentro de cada nação, de novas contradições. Como as empresas tendem a exercer sua vontade de 

poder no plano global, a luta entre elas se agrava, arrastando os países nessa competição. Trata-se, 

na verdade, de uma guerra, protagonizada tanto pelos Estados como pelas respectivas empressas 

globai, da qual participam como parceiros mais frágeis os países subdesenvolvidos.

Agora   mesmo,   a   experiência   dos   mercados   comuns   regionais   já   mostra   aos   países 

chamados   “emergentes”   que   a   cooperação   da   tríade,   em   conjunto   ou   separadamente,   é   mais 

representativa   do   interesse   próprio   das   grandes   potências   que   de   uma   vontade   de   efetiva 

colaboração. Nessa guerra, os organismos internacionais capitaneados pelo Fundo Monetário, pelo 

Banco Mundial, pelo BID etc., exercem um papel determinante, em sua qualidade de intérpretesdos 

interesses comuns aos Estados Unidos, à Europa e ao Japão. Tais realidades levam a duvidar da 

vontade   de   cada   um   e   do   conjunto   desses   atores   hegemônicos   de   construir   um   verdadeiro 

universalismo e permite pensar que, nas condições atuais, essa dupla competição perdurará.

O  desafio  ao  Sul

73



Os   países   subdesenvolvidos,   parceiros   cada   vez   mais   fragilizados   nesse   jogo   tão 

desigual, mas cedo ou mais tarde compreenderão que nessa situação a cooperação lhes aumenta a 

dependência. Daí a inutilidade dos esforços de associação dependente face aos países centrais, no 

quadro da globalização atual. Esse mundo globalizado produaz uma racionalidade determinante, mas 

que vai, pouco a pouco, deixando de ser dominante. É uma racionalidade que comanda os grandes 

negócios cada vez mais abrangentes e mais concentrados em poucas mãos. Esse grandes negócios 

são de interesse direto de um número cada vez menor de pessoas e empressas. Como a maior parte 

da   humanidade   é   direta   ou   indiretamente   do   interesse   deles,   pouco   a   pouco   essa   realidade   é 

desvendada pelas pessoas e pelos países mais pobres.

Há,   em   tudo   isso,   uma   grande   contradição.   Abandonamos   as   teorias   do 

subdesenvolvimento,   o   terceiro-mundismo,   que   eram   nossa   bandeira   nas   décadas   de   1950-60. 

Todavia,   graças   à   globalização,   está   ressurgindo   algo   muito   forte:   a   história   da   maioria   da 

humanidade conduz à consciência da sobrevivência dessa 

tercermundização  (que, de alguma forma 

inclui, também, uma parte da população dos países ricos) (Samuel Pinheiro Guimarães, 

Quinhentos 

anos de periferia, 1999).

É   certo   que   a   tomada   de   consciência   dessa   situação   estrutural  de   inferioridade   não 

chegará   ao   mesmo   tempo   para   todos   os   países   subdesenvolvidos   e,   muito   menos   será,   neles, 

sincrônica a vontade de mudança frente a esse tipo de relação. Pode-se, no entanto, admitir que, 

mais cedo ou mais tarde as condições internas a cada país, provocadas em boa parte pelas suas 

relações  externas,   levarão   a  uma   revisão  dos pactos que   atualmente  conformam  a  globalização. 

Haverá,   então,   uma   vontade   de   distanciamento   e   posteriormente   de   desengajamento,   conforme 

sugerido por Samir Amin, rompendo-se, desse modo, a unidade de obediência hoje predominante. 

Jungidos   sob   o   peso   de   uma   dívida   externa   que   não   podem   pagar,   os   píses   subdesenvolvidos 

assistem à criação incessante de carências e de pobres e começam a reconhecer usa atual situação 

de ingovernabilidade, forçados que estão a transferir para o setor econômico recursos que deveriam 

ser destinados à área social.

Na   verdade,   já   são   muito   numerosas   as   manifestações   de   desconforto   com   as 

conseqüências da nova dependência e do novo imperialismo (Reinaldo Gonçalves,  

Globalização e 

desnacionalização, 1999). tornam-se evidentes os limites da aceitaão de tal situação. Por diferentes 

razões e meios diversos, as manifestações de irredentismo já são claramente evidentes em países 

como o Irã, o Iraque, o Afeganistão, mas, também, a Malásia, o Paquistão, sem contar com as formas 

particulares   de   inclusão   da   Índia   e   da   China   na   globalização   atual,   que   nada   têm   de   simples 

obediência ou conformidade, como a propagando ocidental quer fazer crer. Países como a China e 

Índia,   com   um   terço   da   população   mundial   e   uma   presença   internacional   cada   vez   mais   ativa, 

dificilmente aceitarão, uma ou outra, assim como a Rússia, jogar o papel passivo de nação-mercado 

para   os   blocos   economicamente   hegemônicos.   Uma   reação   em   cadeia   poderá   ensejar   o 

renascimento   de   algo   como   o   antigo  

élan    terceiromundista   tal   como   o   presidente   Nyerere,   da 

Tanzânia, havia sugerido em seu livro 

O desafio ao Sul.

Além dessa tendência verossímil, considerem-se as formas de desordem da vida social 

que já se multiplicam em numerosos países e que tendem a aumentar. O Brasil é emblemático como 

exemplo, não se sabendo, porém, até quando será possível manter o modelo econômico globalitário e 

ao mesmo tempo acalmar as populações crescentemente insatisfeitas.

74



As potências centrais (Estados Unidos, Europa, Japão), apesar das divergências pela 

competição quanto ao mercado global têm interesses comuns que as incitarão a buscar adaptar suas 

regras de convivência à pretensão de manter a hegemonia. Como, todavia, a globalização atual é um 

período   de   crise   permanente,   a   renovação   do   papel   hegemônico   da   Tríade   levará   a   maiores 

sacrifícios para o resto da comunidade das nações, incentivando, assim, nestas, a busca de outras 

soluções.

A  combinação   hegemônica   de   que   resultam   as  formas  econômicas  modernas  atinge 

diferentemente os diversos países, as diversas culturas, as diferentes áreas dentro de um mesmo 

país.   A   diversidade   sociogeográfica   atual   o   exemplifica.   Sua   realidade   revela   um   movimento 

globalizador seletivo, com a maior parte da popuação do planeta sendo menos diretamente atingida - 

e em certos casos pouco atingida – pela globalização econômica vigente. Na Ásia, na África e mesmo 

na América Latina, a vida local se manifesta ou mesmo tempo como uma resposta e uma reação a 

essa globalização. Não podendo essas populações majoritárias consumir o Ocidente globalizado em 

suas formas puras (financeira, econômica e cultural), as respectivas áreas acabam por ser os lugares 

onde a globalização é relativizada ou recusada.

Uma coisa parece certa: as mudanças a serem introduzidas, no sentido de alcançarmos 

uma outra globalização, não viram do centro do sistema, como em outras fses de ruptura na margem 

de capitalismo. As mudanças sairão dos países subdesenvolvidos.

É previsível que o sistemismo sobre o qual trabalha a globalização atual erga-se como 

um obstáculo e torne difícil a manifestação da vontade de desengajamento. Mas não impedira que 

cada país elabore, a partir de características próprias, modelos alternativos, nem tão pouco proibirá 

que   associações   de   tipo   horizontal   se   dêem   entre   países   vizinhos   igualmente   hegemonizados, 

atribuindo uma nova feição aos blocos regionais e ultrapassando a etapa das relações meramente 

comerciais   para   alcançar   um   estágio   mais   elevado   de   cooperação.   Então,   uma   globalização 

constituída de baixo para cima, em que a busca de classificação entre potências deixe de ser uma 

meta, poderá permitir que preocupações de ordem social, cultural e moral possam prevalecer.

28. 

 A  nação  ativa,  a  nação  passiva



A   globalização   atual   e   as   formas   brutas   que   adotou   para   impor   mudanças   levam   à 

urgente necessidade de rever o que  fazer com as  coisas, as idéias  e também com as palavras. 

Qualquer que seja o debate, hoje, reclama a explicitação clara e coerente dos seus termos, sem o 

que se pode facilmente cair no vazio ou na abigüidade. É o caso do próprio debate nacional, exigente 

de novas definições e vocabulário renovado. Como sempre, o país deve ser visto como uma situação 

estrutural em movimento, na qual cada elemento está intimamente relacionado com os demais.

Ocaso  do  projeto  nacional ?

Agora, porém, no mundo da globalização, o reconhecimento dessa estrutura é difícil, do 

mesmo modo que a vizualização de um projeto nacional pode tornar-se obscura. Talvez por isso, os 

projetos   das   grandes   empresas,   impostos   pela   tirania   das   finanças   e   trombeteados   pela   mídia, 

acabam, de um jeito ou de outro, guiando a evolução dos países, em acordo ou não com as instâncias 

públicas freqüentemente dóceis e subservientes, deixando de lado o desenho de uma geopolítica 

75



propria a cada nação e que leve em conta suas características e interesses.

Assim, as noções de destino nacional e de projeto nacional cedem freqüentemente a 

frente da cena a preocupações menores, pragmáticas, imediatistas, inclusive porque, pelas razões já 

expostas, os partidos políticos nacionais raramente apresentam plataformas conduzidas por objetivos 

políticos e sociais claros e que exprimam visões de conjunto (cesar Benjamin e outros,  

A opção 


brasileira, 1998). A idéia de história, sentido, destino é amesquinhada em nome da obtenção de 

metas estatísticas, cuja única preocupação é o conformismo frente às determinações do processo 

atual de globalização. Daí a produção sem contrapartida de desequilíbrios e distorções estruturais, 

acarretando mais fragmentação e desigualdade, tanto mais graves quanto mais abertos e obedientes 

se mostrem os países.

Alienação  da  nação  ativa

Tomemos o caso do  Brasil. É mais que uma simples metáfora pensar que uma das 

formas de abordagem da questão seria considerar, dentro da nação, a existência, na realidade, de 

duas   nações.   Uma   nação   passiva   e   uma   ativa.   Do   fato   de   serem   as   contabilidades   nacionais 

globalizadas – e globalizantes! - , a grande ironia é que passa a considerar como nação ativa aquela 

que obeece cegamente ao desígnio globalitário, enquanto o resto acaba por costituir, desse ponto de 

vista, a nação passiva. A fazer valer tais postulados, a nação ativa seria a daqueles que aceitam, 

pregam e conduzem uma modernização que dá preeminência aos ajustes que interessam ao dinheiro, 

enquanto a nação passiva seria formada por tudo ou mais.

Serão mesmo adequadas essas expressões? Ou aquilo a que, desse modo, se está 

chamado de nação ativa seria, na realidade, a nação passiva, enquanto a nação chamada passiva 

seria, de fato, a nação ativa?

A  chamada   nação   ativa,   isto   é,  aquela   que  comparece  eficazmente   na  contabilidade 

nacional e na contablilidade internacional, tem seu modelo conduzido pelas burguesias internacionais 

e pelas burguesias nacionais associadas. É verdade, também, que o seu discurso globalizado, para 

ter eficácia local, necessita de um sotaque doméstico e por isso estimula um pensamento nacional 

associado produzido por mentes cativas, subvencionadas ou não. A nação chamada ativa alimenta 

sua ação com a prevalência de um sistema ideológico que define as idéias de prosperidade e de 

riqueza e, paralelamente, a produção da conformidade. A “nação ativa” aparece como fluida, veloz, 

externamente   articulada,   internamente   desarticuladora,   entrópica.  Será   ela   dinâmica?   Como   essa 

idéia é muito difundida, cabe lembra que velocidade não é dinamismo. Esse movimento não é próprio, 

mas atribuído, tomado emprestado a um motor externo; ele não é genuíno, não tem finalidade, é 

desprovido de tecnologia. Trata-se de uma agitação cega, um projeto equivocado, um dinamismo do 

diabo.

Conscientização  e  riqueza  da  nação  passiva



A  nação   chamada   passiva   é  constituída   pela   grossa   maior  parte  da  população   e  da 

economia, aqueles que apenas participam de modo residual do mercado global ou cujas atividades 

conseguem sobreviver à sua margem, sem, todavia, entrar cabalmente na contabilidade pública ou 

nas estatísticas oficiais. O pensamento que define e compreende os seus atores é o do intelectual 

76



público engajado na defesa dos interesses da maioria.

As atividades dessa nação passiva são freqüentemente marcadas pela contradição entre 

a exigência prática da conformidade, isto é, a necessidade de participar direta ou indiretamente da 

racionalidade dominante, e a insatisfação e inconformismo dos atores diante de resultados sempre 

limitados, daí o encontro cotidiano de uma situação de inferiorização, tornada permanente, o que 

reforça em seus participantes a noção de escassez e convoca a reinterpretação da própria situação 

individual diante do lugar, do país e do mundo.

A “nação passiva” é estaticamente lenta, coloda às rugosidades do seu meio geográfico, 

localmente   enraizada   e   orgânica.   É   também   a   nação   que   mantém   relações   de   simbiose   com   o 

entorno imediato, relações cotidianas que criam, espontaneamente e à contracorrente, uma cultura 

própria, endógena, resistente, que também constitui um alicerce, uma base sólida para a produção de 

uma  política. Essa  nação  passiva  

mora, ali onde vive e evolui, enquanto a outra apenas circula, 

utilizando os lugares como mais um recurso a seu serviço, mas sem outro compromisso.

Num primeiro momento, desarticulada pela “nação ativa”, a “nação passiva” não pode 

alcançar   um   projeto   conjunto.   Aliás,   o   império   dos   interesses   imediatos   que   se   manifestam   no 

exercício  praguimático  da  vida  contribui,  sem  dúvida,  para  tal  desarticulação.  Mas, num  segundo 

momento, a tomada de coinsciência trazida pelo seu enraizamento no meio e, sobretudo pela sua 

experiência de escassez, torna possível a produção de um projeto, cuja a viabilidade provém do fato 

de que a nação chamada passiva é formada pela maior parte da população, além de ser dotada de 

um dinamismo próprio, autêntico, fundado em sua própria existência. Daí, sua veracidade e riqueza.

Podemos   desse   modo   admitir   que   aquilo   que,   mediante   o   jogo   de   espelhos   da 

globalização, ainda se chama de nação ativa é, na verdade, a nação passiva, enquanto o que, pelo 

mesmo parâmetros, é considerado a nação passiva, contitui, já no presente, mas sobretudo na ótica 

do futuro, a verdadeira nação ativa. Sua emergência será tanto mais viável, rápida e eficaz se se 

reconhecem e revelam a confluência dos modos de existência e de trabalho dos respectivos atores e 

aprofunda unidade do seu destino. 

Aqui, o  papel dos intelectuais será,  talvez,  muito   mais do  que promover  um  simples 

combate   às   formas   de   ser   da   “nação   ativa”   -   tarefa   importante   mas   insuficiente,   nas   atuais 

circunstâncias - , devendo empenhar-se por mostrar analiticamente, dentro do todo nacional, a vida 

sistêmica da nação passiva e suas manifestações de resitências a uma conquista indiscriminada e 

totalitária do espaço social pela chamada nação ativa. Tal visão renovada da realidade contraditória 

de cada fração do território deve ser oferecida à reflexão da sociedade em geral, tanto à sociedade 

organizada   nas   associações,   sindicatos,   igrejas,   partidos   como   à   sociedade   desorganizada,   que 

encontrarão nessa nova interpretação os elementos necessários para a postulação e o exercício de 

uma outra política, mas condizente com a busca do interesse social.

29. 

 A  globalização  atual  não  é  irreversível



A globalização atual é muito menos um produto das idéias atualmente possíveis e, muito 

mais, o resultado de uma ideologia restritiva adrede estabelecida. Já vimos que todas as realizações 

atuais, oriundas de ações hegemônicas, têm como base contruções intelectuais frabricadas antes 

mesmo   da   fabricação   das   coisas   e   das   decisões   de   agir.   A   intelectualização   da   vida   social, 

recentemente alcançada, vem acompanhada de uma forte ideologização.

77



A  dissolução  das  ideologia

Todavia, o que agora estamos assistindo em toda a parte é uma tendência à dissolução 

dessas ideologias no confronto com a experiência vivida dos povos e dos indivíduos. O próprio credo 

financeiro, visto pelas lentes do sistema econômico a que deu origem, ou examinado isoladamente, 

em cada país, aparece menos aceitável e, a partir de sua contestação, outros elementos da ideologia 

do pensamento único perdem força.

Além   das   múltiplas   formas   com   que,   no   período   histórico   atual,   o   discurso   da 

globalização serve de alicerce às ações hegemônicas dos Estados, das empressas e das instituições 

internacionais, o papel da ideologia na produção das coisas e o papel ideológico dos objetos que nos 

rodeiam contribuem, juntos, para agravar essa sensação de que agora não há outro  

futuro  senão 

aquele que nos virá como um  

presente ampliado   e não como outra coisa. Daí a pesada onda de 

conformismo e inação que  caracteriza nosso tempo, contaminando os jovens e, até mesmo uma 

densa camada de intelectuais.

É muito difundida a idéia segundo a qual o processo e a forma atuais da globalização 

seriam irreverssíveis. Isso também tem a ver com a força com a qual o fenômeno se revela e instala 

em todos os lugares e em todas as esferas da vida, levando a pensar que não há alternativas para o 

presente estado de coisas.

No   entanto,   essa   visão   repetitiva   do  mundo   confunde   o  que   já  foi  realizado   com   as 

perspectivas de realização. Para exorcizar esse risco, devemos considerar que o mundo é formado 

não apenas pelo que já existe (aqui, ali, em toda parte), mas pelo que pode efetivamente existir (aqui, 

ali, em toda parte). O mundo datado de hoje deve ser enxergado como o que na verdade ele nos traz, 

isto   é,   somente,   o   conjunto   presente   de   possibilidades   reais,   concretas,   todas   factíveis   sob 

determinadas condições.

O mundo definido pela literatura oficial do pensamento único é, somente, o conjunto de 

formas particulares de realização de apenas certo número dessas possibilidades. No entanto, um 

mundo verdadeiro se definirá a partir da lista completa de possibilidades presentes em certa data e 

que incluem não só o que já existe sobre a face da terra, como também o que ainda não existe, mas é 

empiricamente factível. Tais possibilidades, ainda não realizadas, já estão presentes como tendência 

ou   como   promessa   de   realização.   Por   isso,   situações   como   a   que   agora   defrontamos   parecem 

definitivas, mas não são verdades eternas.

A  pertinência  da  utopia

É somente a partir dessa constatação, fundada na história real do nosso tempo, que se 

torna possivél retornar, de maneira concreta, a idéia de utopia e de projeto. Este será o resultado da 

conjugação   de   dois   tipos   de   valores.   De   um   lado,   estão   os   valores   fundamentais,   essenciais, 

fundadores do homem, válidos em qualquer tempo e lugar, como a liberdade, a dignidade, a felicida; 

de outro lado, surgem os valores contingentes, devidos à história do presente, isto é, à historia atual. 

A densidade e a factibilidade histórica do projeto, hoje, dependem da maneira como empreendamos 

sua combinação.

Por   isso,   é   lícito   dizer   que   o   futuro   são   muitos;   e   resultarão   de   arranjos   diferentes, 

78



segundo nosso grau de coinsciência, entre o reino das possibilidades e da vontade. É assim que 

iniciativas   serão   articuladas   e   obstáculos   serão   superados,   permitindo   contrariar   a   força   das 

estruturas   dominantes,   sejam   elas   presentes   ou   herdadas.   A   identificação   das   etapas   e   os 

ajustamentos a empreender durante o caminho dependerão da necessária clareza do projeto. 

Conforme   já   mencionamos,   alguns   dados   do   presente   nos   abrem,   desde   já,   a 

perspectiva de um futuro diferente, entre outros: a tendência à mistura generalizada entre povos; a 

vocação para uma urbanização concentrada; o peso da ideologia nas contruções históricas atuais; o 

empobrecimento relativo e absoluto das populações e a perda de qualidade de vida das classes 

médias; o grau de relativa “docilidade” das técnicas contemporâneas; a “politização generalizada” 

permitida  pelo  exesso  de  normas  (  María  Laura  Silveira,  

Um país, uma região. Fim de século e 

modernidades na Argentina, 1999); e a realização possivél do homem com a grande mutação que 

desponta. 

Lembramos,   também,   que   um   dos   elementos,   ao   mesmo   tempo   ideológico   e 

empiricamente existencial, da presente forma de globalização é a centralidade do consumo, com a 

qual muito têm a ver a vida de todos os dias e suas repercussões a produção, as formas presentes de 

existência e as perspectivas das pessoas. Mas as atuais relações instáveis de trabalho, a expansão 

de desemprego e a baixa do salário médio constituem um contraste em relação à multiplicação dos 

objetos e serviços, cuja a acessibilidade se torna, desse modo, improvável, ao mesmo tempo que até 

os  consumos  tradicionais  acabam  sendo   difíceis  ou   impossíveis  para   uma   parcela   importante   da 

população. É como se o feitiço virasse contra o feiticeiro.

Essa recriação da necessidade, dentro de um mundo de coisas e serviços abundantes, 

atinge   cada   vez   mais   as   classes   médias,   cuja   definição,   agora,   se   renova,   à   media   que,   como 

também já vimos, passam a conhecer a experiência da escassez. Esse é um dado relevante para 

compreender a mudança na visibilidade da história que está processando. De tal modo, às visões 

oferecidas pela propaganda ostensiva ou pela ideologia contida nos objetos e nos discursos opõem-

se   as   visões   propociadas   pela   existência.   É   por   meio   desse   conjunto   de   movimentos,   que   se 

reconhece uma saturação dos símbolos pré-construídos e que os limites da tolerância às ideologias 

são ultrapassados, o que permite a ampliação do campo da consciência.

Nas   condições   atuais,   essa   evolução   pode   parecer   impossível,   em   vista   de   que   as 

soluções até a qual o único dinamismo possível é o da grande economia, com base nos reclamos do 

sistema financeiro. Por exemplo, os esforços para restabelecer o emprego dirigem-se, sobretudo, 

quando não exclusivamente, ao circuito superior da economia. Mas esse não é o único caminho e 

outros remédios podem ser buscados, segundo a orientação político-ideológica dos responsáveis, 

levando   em   conta   uma   divisão   do   trabalho   vinda   “de   baixo”,   fenômeno   típico   dos   países 

subdesenvolvidos (M. Santos, 

O espaço dividido, 1978), mas que agora também se verifica no mundo 

chamado desenvolvido.

Por outro lado, na medida em que as técnicas cada vez mais se dão como normas e a 

vida   se   desenrola   no   interior   de   um   oceano   de   técnicas,   acabamos   por   viver   uma   politização 

generalizada. A rapidez dos processos conduz a uma rapidez nas mudanças e, por conseguinte, 

aprofunda a necessidade de produção de novos entes organizadores. Isso se dá nos diversos níves 

da vida social. Nada de relevante é feito sem normas. Neste fim do século XX, tudo é política. E, 

graças   às   técnicas   ultilizadas   no   período   contemporâneo   e   ao   papel   centralizador   dos   agentes 

hegemônicos, que são planetários, torna-se ubíqua a presença de processos distorcidos e exigentes 

79



de   reordenamento.   Por   isso   a   política   aparece   como   um   dado   indispensável   e   onipresente, 

abrangendo praticamente a totalidade das ações.

Assistimos, assim, ao império das normas, mas também ao conflito entre elas, incluindo 

o papel cada vez mais dominante das normas privadas na produção da esfera pública. Não é raro que 

as regras estabelecidas pelas empresas afetem mais que as regras criadas pelo Estado. Tudo isso 

atinge e desnorteia os indivíduos, produzindo uma atmosfera de insegurança e até mesmo de medo, 

mas levando os que não sucumbem inteiramente ao seu império à busca da consciência quanto ao 

destino do Planeta e, logo, do Homem.

Outros  usos  possíveis  para  as  técnicas  atuais

Os   sistemas   técnicos   de   que   se   valem   os   atuais   atores   hegemônicos   estão   sendo 

ultilizados  para  reduzir  o  escopo  da  vida   humana   sobre  o  planeta.  No   entanto,  jamais houve   na 

história   sistemas   tão   propícios   a   facilitar   a   vida   e   a   proporcionar   a   felicidade   dos   homens.   A 

materialidade que o mundo da globalização está recriando permite um uso radicalmente diferente 

daquele que era o da base material da industrialização e do imperialismo.

A técnica das máquinas exigia investimentos maciços, seguindo-se a massividade e a 

concentração   dos   capitais   e   do   próprio   sistema   técnico.   Daí   a   inflexibilidade   física   e   moral   das 

operações, levando a um uso limitado, direcionado, da inteligência e da criatividade. Já o computador, 

símbolo dasd técnicas da informação, reclama capitais fixos relativamente pequenos, enquanto seu 

uso é mais  exigente de inteligência. O investimento necessário pode ser fragmentado e torna-se 

possível sua adptação aos mais diversos meios. Pode-se até falar da emergência de um artesanato 

de novo tipo, servido por velozes instrumentos de produção e de distribuição.

Dir-se-á, então, que o computador reduz – tendencialmente – o efeito da pretensa lei 

segundo a qual a inovação técnica conduz paralelamente a uma concentração econômica. Os novos 

instrumentos, pela sua própria natureza, abrem possibilidades para sua disseminação no corpo social, 

superando as clivagens socioeconômicas preexistentes.

Sob   condições   políticas   favoráveis,   a   materialidade   simbolizada   pelo   computador   é 

capaz não só de assegurar a liberação da inventividade como torná-la efetiva. As denecessidade, nas 

sociedades complexas e socioeconomicamente desiguais, de adotar universalmente computadores 

de última geração afastará, também, o risco de que distorções e desequilíbrios sejam agravados. E a 

idéia de distância cultural, subjacente à teora e à prática do imperialismo, atinge, também, seu limite. 

As técnicas conteporâneas são mais fáceis de inventar, imitar ou reproduzir que os modos de fazer 

que as precederam.

As famílias de técnicas emegentes com o fim do século XX – combinando informática e 

eletrônica,   sobretudo   –   oferecem   a   possibilidade   de   superação   do   imperativo   da   tecnologia 

hegemônica e paralelamente admitem a proliferação novos arranjos, com a retomada da criatividade. 

Isso, aliás, já está se dando nas áreas da sociedade em que a divisão do trabalho se produz de baixo 

para cima. Aqui, a produção do novo e o uso e a difusão do novo deixam de ser monopolizados por 

um capital cada vez mais concentrado para pertencer ao domínio do maior número, possibilitando 

afinal a emergência de um verdadeiro mundo da inteligência. Desse modo, a técnica pode voltar a ser 

o resultado do encontro do engenho humano com um pedaço determinado da natureza – cada vez 

mais modificada - , permitindo que essa relação seja fundada nas virtualidades do entorno geográfico 

e social, de modo a assegurar a restauração do homem em sua essência.

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Geografia  e  aceleração  da  história

A   própria   geografia   parece   contribuir   para   que   a   história   se   acelere.   Na   cidade   – 

sobretudo na grande cidade -, os efeitos de vizinhaça parecem impor uma posibilidade maior de 

identificação   das   situações,   graças,   também,   à   melhoria   da   informação   disponível   e   ao 

aprofundamento   das   possibilidades   de   comunicação.   Dessa   maneira,   torna-se   possível   a 

identificação, na vida material como na ordem intelectual, do desamparo a que as populações são 

relegadas, levando, paralelamente, a um maior reconhecimento da condição de escassez e a novas 

possibilidades de ampliação da consciência.

A   partir   desses   efeitos   de   vizinhaça,   o   indivíduo   refortificado   pode,   num   segundo 

momento, ultrapassar sua busca pelo consumo e entregar-se à busca da cidadania. A primeira supõe 

uma visão limitada e unidirecionada, enquanto a segunda inclui a elaboração de visões abrangentesl 

e sistêmicas. No  primeiro  caso, o que  é perseguido  é a reconstrução das condições  materiais e 

jurídicas   que   permitem   fortalecer   o   bem-estar   individual   (ou   familiar)   sem,   todavia,   mostrar 

preocupação com o fortalecimento da individualidade, enquanto a busca da cidadania apontará para a 

reforma das práticas e das instituições políticas.

Frente a essa nova realidade, as aglomerações populacionais serão valorizadas como o 

lugar da densidade humana e, por isso, o lugar de uma coabitação dinâmica. Será também aí, visto 

pela mesma ótica, que se observarão a renascença e o peso da cultura popular. Por outro lado, a 

precariedade   e   a   pobreza,   isto   é,   a   impossibilidade,   pela   carência   de   recursos,   de   participar 

plenamente   da   ofertas   materiais   da   modernidade,   poderão,   igualmente,   inspirar   soluções   que 

conduzam   ao   desejado   e   hoje   possível   renascimento   da   técnica,   isto   é,   o   uso   consciente   e 

imaginativo, em cada lugar, de todo tipo de oferta tecnológica e de toda modalidade de trabalho. Para 

isso contribuirá o fato histórico concreto que é, ao contrário do período histórico anterior , o grau de 

“docilidade” das técnicas contemporâneas, que se apresentam mais propícias à liberação do esforço, 

ao exercício da individualidade e à floração e multiplicação das demandas sociais e individuais.

Se   a   realização   da   história,   a   partir   dos   vetores   “de   cima”,   é   ainda   dominante,   a 

realização  de  uma  outra   história   a  partir  dos  vetores  “de   baixo”  é  tornada  possiivel.  E  para   isso 

contribuirão,   em   todos   os   países,   a   mistura   de   povos,   raças,   culturas,   religiões,   gostos   etc.   A 

aglomeração da pessoas em espaços reduzidos, com o fenômeno de urbanização concentrada, típico 

do   último   quartel   do   século   XX,   e   as   próprias   mutações   nas   relações   de   trabalho,   junto   ao 

desemprego   crescente   e   à   depressão   dos   salários,   mostram   aspectos   que   poderão   se   mostrar 

positivos em futuro próximo, quando as metamorfoses do trabalho informal serão vividas também 

como   expansão   do   trabalho   livre,   assegurando   a   seus   portadores   novas   possibilidades   de 

interpretação do mundo, do lugar e da respectiva posição de cada um, no mundo e no lugar.

As   condições   atuais   permitem   igualmente   antever   uma   reconversão   da   mídia   sob   a 

pressão das situações locais (produção, consumo, cultura). A mídia trabalha com que ela própria 

transforma em objeto de mercado, isto é, as pessoas. Como em nenhum lugar as comunidades são 

formadas   por   pessoas   homogêneas,   a   mídia   deve   levar   isso   em   conta.   Nesse   caso,   deixará   de 

representar o senso comum imposto pelo pensamento único. Desde que os processos econômicos, 

sociais   e   políticos   produzidos   de   baixo   para   cima   possam   desenvolver-se   eficazmente,   uma 

informação veraz poderá dar-se dentro da maioria da população e ao serviço de uma comunicação 

81



imaginosa e emocionada, atribuindo-se, assim, um papel diametralmente oposto ao que lhe é hoje 

conferido no sistema da mídia.

Um  novo  mundo  possível

A partir dessas metamorfoses, pode-se pensar na produção local de um entendimento 

progressivo do mundo e do lugar, com a produção indígena de imagens, discursos, filosofias, junto à 

elaboração   de   um   novo   ethos   e   de   novas   ideologias   e   novas   crenças   políticas,   amparadas   na 

ressurreição da idéia e da prática da solidariedade.

O   mundo   de   hoje   também   autoriza   uma   outra   percepção   da   história   por   meio   da 

contemplação   da   universalidade   empírica   constituída   com   a   emergência   das   novas   técnicas 

planetarizadas e as possibilidades aberta a seu uso. A dialética entre essa universalidade empírica e 

as   particularidades   encorajará   a   superação   das   práxis   invertidas,   até   agora   comandadas   pela 

ideologia dominante, e a possibilidade de ultrapassar o reino da necessidade, abrindo lugar para a 

utopia e para a esperança. Nas condições históricas do presente, essa nova maneira de enxergar a 

globalização   permitirá   distinguir,   na   totalidade,   aquilo   que   já   é   dado   e   existe   como   um   fato 

consumado, e aquilo que é possível, mas ainda não realizado, vistos um e outro de forma unitária. 

Lembremo-nos da lição de A. Schmidt (

The concept of nature in Marx, 1971) quando dizia que “a 

realidade é, além disso, tudo aquilo em que ainda não nos tornamos, ou seja, tudo aquilo que a nós 

mesmos nos projetamos como seres humanos, por intermédio dos mitos, das escolhas, das decisões 

e das lutas”.

A crise por que passa hoje o sistema, em diferentes países e continentes, põe à mostra 

não apenas a perversidade, mas também a fraqueza da respectiva construção. Isso, conforme vimos, 

já está levando ao descrédito dos discursos dominantes, mesmo que outro discurso, de crítica e de 

proposição, ainda não haja sido elaborado de modo sistêmico.

O processo de tomada de consciência – já o vimos – não é homogêneo, nem segundo os 

lugares, nem segundo as classes sociais ou situações profissionais, nem quanto aos indivíduos. A 

velocidade com que cada pessoa se apropria da verdade contida na história é diferente, tanto quanto 

a profundidade e coerência dessa apropriação. A descoberta individual é, já, um considerável passo à 

frente, ainda que possa parecer ao seu portador um caminho penoso, à medida das resistências 

circundantes a esse novo modo de pensar. O passo seguinte é a obtenção de uma visão sistêmica, 

isto é, a possibilidade de enxergar as situações e as causas atuantes como conjuntos e de localizá-los 

como um todo, mostrando sua interdependência. A partir daí, a discussão silenciosa consigo mesmo e 

o debate mais ou menos público com os demais ganham uma nova clareza e densidade, permitindo 

enxergar as relações de causa e efeito como uma corrente contínua, em que cada situação se inclui 

numa rede dinâmica, estruturada, à escala do mundo e à escala dos lugares.

É   a   partir   dessa   visão   sistêmica   que   se   encontram,   interpenetram   e   completam   as 

noções de mundo e de lugar, permitindo entender como cada lugar, mas também cada coisa, cada 

pessoa, cada relação dependem do mundo.

Tais raciocínios autorizam uma visão crítica da história na qual vivemos, o que inclui uma 

apreciação filosófica da nossa própria situação frente à comunidade, à nação, ao planeta, juntamente 

com uma nova apreciação de nosso próprio papel como pessoa. É desse modo que, até mesmo a 

partir da noção do que é ser um consumidor, poderemos alcançar a idéia de homem integral e de 

82



cidadão. Essa valorização radical do indivíduo contribuirá para a renovação qualitativa da espécie 

humana, servindo de alicerce a uma nova civilização.

A   reconstrução   vertical   do   mundo,   tal   como   a   atual   globalização   perversa   está 

realizando, pretende impor a todos os países normas comuns de existência e, se possível, ao mesmo 

tempo   e   rapidamente.   Mas   isto   não   é   definitivo.   A   evolução   que   estamos   entrevendo   terá   sua 

aceleração em momentos diferentes e em países diferentes, e será permitida pelo amadurecimento 

da crise.

Esse mundo novo anunciado não será uma construção de cima para baixo, como a que 

estamos hoje assistindo e deplorando, mas uma edificação cuja trajetória vai se dar de baixo para 

cima.


As condições acima enumeradas deverão permitir a implantação de um novo modelo 

econômico, social e político, que, a partir de uma nova distribuição dos bens e serviços, conduza à 

realização   de   uma   vida   coletiva   solidária   e,   passando   da   escala   do   lugar   à   escala   do   planeta, 

assegure uma reforma do mundo, por intermédio de outra maneira de realizar a globalização.

30. 

 A  história  apenas  começa



Ao contrário do que tanto se disse, a história não acabou; ela apenas começa. Antes o 

que   havia   era   uma   história   de   lugares,   regiões,   países.   As   histórias   podiam   ser,   no   máximo, 

continentais, em função dos impérios que se estabeleceram a uma escala mais ampla. O que até 

então se chamava de história universal era a visão pretensiosa de um país ou continente sobre os 

outros, considerados bárbaros ou irrelevantes. Chegava-se a dizer de tal ou tal povo que ele era sem 

história ...

A  humanidade  como  um  bloco  revolucionário

O   ecúmeno   era   formado   de   frações   separadas   ou   escassamente   relacionadas   do 

planeta. Somente agora a humanidade pode identificar-se como um todo e reconhecer sua unidade, 

quando faz sua entrada na cena histórica como um bloco. É uma entrada revolucionária, graças à 

interdependências das economias, dos governos, dos lugares. O movimento do mundo revela uma só 

pulsação, ainda que as condições sejam diversas segundo continentes, países, lugares, valorizados 

pela sua forma de participação na produção dessa nova história.

Vivemos   em   um   mundo   complexo,   marcado   na   ordem   material   pela   multiplicação 

incessante do número de objetos e na ordem imaterial pela infinidade de relações que aos objetos 

nos unem. Nos últimos cinqüenta anos criaram-se mais coisas do que nos cinqüenta mil precedentes. 

Nosso mundo é complexo e confuso ao mesmo tempo, graças à força com a qual a ideologia penetra 

objetos e ações. Por isso mesmo, a era da globalização, mais do que qualquer outra antes dela, é 

exigente de uma interpretação sistêmica cuidadosa, de modo a permitir que cada coisa, natural ou 

artificial, seja redefinida em relação com o todo planetário. Essa totalidade-mundo se manifesta pela 

unidade das técnicas e das ações.

A grande sorte dos que desejam pensar a nossa época é a existência de uma técnica 

globalizada, direta ou indiretamente presente em todos os lugares, e de uma política planetariamente 

exercida, que une e norteia os objetos técnicos. Juntas, elas autorizam uma leitura, ao mesmo tempo 

83



geral e específica, filosófica e prática, de cada ponto da Terra.

Nesse   emaranhado   de   técnicas  dentro   do   qual  estamos  vivendo,  o  homem   pouco   a 

pouco descobre suas novas forças. Já que o meio ambiente é cada vez menos natural, o uso do 

entorno imediato pode ser menos aleatório. As coisas valem pela sua constituição, isto é, pelo que 

podem   oferecer.   Os   gestos   valem   pela   adequação   às   coisas   a   que   se   dirigem.   Ampliam-se   e 

diversificam-se   as   escolhas,   desde   que   se   possam   combinar   adequadamente   técnica   e   política. 

Aumentam a previsibilidade e a eficácia das ações.

Um dado importante de nossa época é a coincidência entre a produção dessa história 

universal   e   a   relativa   liberação   do   homem   em   relação   à   natureza.   A   denominação   de   era   da 

inteligência   poderia   ter   fundamento   neste   fato   concreto:   os   materiais   hoje   responsáveis   pelas 

realizações preponderantes são cada vez mais objetos materiais manufaturados e não mais matérias-

primas naturais. Pensamos ousadamente as soluções mais fantasiosas e em seguida buscamos os 

instrumentos adequados à sua realização. Na era da ecologia triunfante, é o homem quem fabrica a 

natureza, ou lhe atribui valor e sentido, por meio de suas ações já realizadas, em curso ou meramente 

imaginadas. Por isso, tudo o que existe constitui uma perspectiva de valor. Todos os lugares fazem 

parte da história. As pretensões e a cobiça povoam e valorizam territórios desertos.

A  nova  consciência  de  ser  mundo

Graças aos progressos fulminantes da informação, o mundo fica mais perto de cada um, 

não importa onde esteja. O outro, isto é, o resto da humanidade, parece estar próximo. Criam-se, para 

todos, a certeza e, logo depois, a consciência de ser mundo e de estar no mundo, mesmo se ainda 

não  o alcançamos em plenitude  material ou  intelectual. O próprio  mundo  se   instala  nos  lugares, 

sobretudo as grandes cidades, pela presença maciça de uma humanidade misturada, vinda de todos 

os quadrantes e trazendo consigo interpretações variadas e múltiplas, que ao mesmo se chocam e 

colaboram na produção renovada do entendimento e da crítica da existência. Assim, o cotidiano de 

cada um se enriquece, pela experiência própria e pela do vizinho, tanto pelas realizações atuais como 

pelas   perspectivas   de   futuro.   As   dialéticas   da   vida   nos   lugares,   agora   mais   enriquecidas,   são 

paralelamente o caldo de cultura necessário à proposição e ao exercício de uma nova política.

Funda-se, de fato, um novo mundo. Para sermos ainda mais precisos, o que, afinal, se 

cria é 

o mundo como realidade histórica unitária, ainda que ele seja extremamente diversificado. Ele é 

datado com uma data substantivamente única, graças aos traços comuns de sua constituição técnica 

e à existência de um único motor para as ações hegemônicas, representado pelo lucro à escala 

global. É isso, aliás, que, junto a informação generalizada, assegurará a cada lugar a comunhão 

universal com todos os outros.

Ousamos, desse modo, pensar que a história do homem sobre a Terra dispõe afinal das 

condições objetivas, materiais e intelectuais, para superar o endeusamento do dinheiro e dos objetos 

técnicos e enfrentar o começo de uma nova trajetória. Aqui, não se trata de estabelecer datas, nem de 

fixar momentos da folhinha, marcos num calendário. Como o relógio, a folhinha e o calendário são 

convencionais, repetitivos e historicamente vazios. O que conta mesmo é o tempo das possibilidades 

efetivamente criadas, o que, à sua época, cada geração encontra disponível, isso a que chamamos 

tempo empírico, cujas mudanças são marcadas pela irrupção de novos objetos, de novas ações e 

relações e de novas idéias.

84



A  grande  mutação  contemporânea

Diante do que é o mundo atual, como disponibilidade e como possibilidade, acreditamos 

que as condições materiais já estão dadas para que se imponha a desejada grande mutação, mas 

seu destino vai depender de como disponibilidades e possibilidades serão aproveitadas pela política. 

Na sua forma material, unicamente corpórea, as técnicas talvez sejam irreversíveis, porque aderem 

ao território e ao cotidiano. De um ponto de vista existencial, elas podem obter um outro uso e uma 

outra significação. A globalização atual não é irreversível.

Agora que estamos descobrindo o sentido de nossa presença no planeta, pode-se dizer 

que   uma   história   universal   verdadeiramente   humana   está,   finalmente,   começando.   A   mesma 

materialidade, atualmente utilizada para construir um mundo confuso e perverso, pode vir a ser uma 

condição  da  construção  de  um mundo  mais  humano.  Basta   que se  completem  as duas grandes 

mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a mutação filosófica da espécie humana.

A grande mutação tecnológica é dada com a emergência das técnicas da informação, as 

quais – ao contrário das técnicas das máquinas – são constitucionalmente divisíveis, flexíveis e dóceis, 

adaptáveis a todos os meios e culturas, ainda que  seu uso perverso atual  seja subordinado  aos 

interesses dos grandes capitais. Mas, quando sua utilização for democratizada, essas técnicas doces 

estarão ao serviço do homem.

Muito   falamos   hoje   nos   progressos   e   nas   promessas   da   engenharia   genética,   que 

conduziriam a uma mutação do homem biológico, algo que ainda é do domínio da história da ciência e 

da técnica. Pouco, no entanto, se fala das condições, também hoje presentes, que podem assegurar 

uma mutação filosófica do homem, capaz de atribuir um novo sentido à existência de cada pessoa e, 

também, do planeta.



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