Por Lugares Incríveis



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Jennifer Niven - Por Lugares Incríveis




Para minha mãe, Penelope Niven, meu lugar mais incrível


[...] o mundo quebra a cada um deles
e eles ficam mais fortes nos lugares quebrados.
Ernest Hemingway



ESTOU DESPERTO MAIS UMA VEZ. DIA 6.
Será que hoje é um bom dia para morrer?
Eu me pergunto isso todas as manhãs quando acordo. E durante a terceira aula, quando tento manter
os olhos abertos enquanto o sr. Schroeder fala sem parar. À mesa de jantar, ao passar a salada. E à
noite, na cama, sem sono porque meu cérebro não desliga.
Hoje é o dia?
E, se não hoje, quando?
Estou me perguntando agora, em pé sobre um murinho estreito a seis andares de altura. É tão alto
que praticamente me sinto no céu. Olho para a calçada lá embaixo e o mundo se inclina. Fecho os
olhos e sinto tudo girar. Talvez desta vez eu vá em frente, deixe o ar me levar para longe. Será como
flutuar em uma piscina, adormecendo até que não exista nada.
Não me lembro de ter subido até aqui. Na verdade, não me lembro de quase nada antes de
domingo, pelo menos nada do que aconteceu neste inverno. Acontece comigo direto — apagar,
acordar. Sou como aquele velho barbudo, Rip van Winkle. Num instante você me vê, no outro não.
Talvez eu já devesse ter me acostumado, mas essa última vez foi a pior de todas, porque não fiquei
adormecido por dois ou três dias nem uma ou duas semanas… Apaguei durante as festas de fim de
ano inteiras, ou seja, Ação de Graças, Natal e Ano-Novo. Não sei dizer o que houve de diferente,
mas, quando acordei, me sentia mais morto que o habitual. Acordado, sim; mas completamente vazio,
como se alguém tivesse drenado meu sangue. Hoje é o sexto dia desde que despertei, e esta é a minha
primeira semana no colégio desde 14 de novembro.
Abro os olhos e o chão ainda está lá, duro e estático. Estou na torre do sino do colégio, em pé
sobre a borda que tem mais ou menos dez centímetros de largura. A torre é bem pequena, talvez não
tenha nem um metro de piso ao redor do sino, e há esse parapeito baixo, de pedra, que escalei para
chegar aqui. De vez em quando bato a perna contra o parapeito só pra lembrar que ele está ali.
Estendo os braços como se estivesse dando um sermão e toda esta cidadezinha chatíssima fosse
minha congregação.
— Senhoras e senhores — grito —, gostaria de apresentar-lhes a minha morte!
Talvez o esperado fosse dizer “vida”, já que acabei de despertar, mas é exatamente quando estou
desperto que penso em morrer.
Grito como um velho pregador, sacudindo a cabeça e enrolando o final das palavras, e quase perco
o equilíbrio. Me seguro no parapeito atrás de mim, feliz porque ninguém parece notar; verdade seja
dita, é difícil parecer destemido quando se está agarrado a um parapeito como um frangote.
— Eu, Theodore Finch, por não estar em pleno gozo das minhas faculdades mentais, por meio
desta lego meus bens a Charlie Donahue, Brenda Shank-Kravitz e minhas irmãs. Todas as outras
pessoas podem se f… — Lá em casa, desde cedo minha mãe nos ensinou a usar esse palavrão
(quando for de fato necessário), mas sempre só a primeira letra. Infelizmente, o costume pegou.
Apesar de o sinal já ter tocado, alguns alunos permanecem no pátio. Estamos na primeira semana


do segundo semestre do último ano e a maioria age como se já estivesse se formando. Um garoto olha
na minha direção, como se tivesse me ouvido, mas os outros não, porque não me viram ou porque
sabem que estou aqui e Ah, é só o Theodore Aberração.
Então ele olha para o outro lado e aponta para o céu. De início, acho que está apontando para mim,
mas então a vejo. A garota está a alguns metros de distância, do outro lado da torre, também na
beirada, cabelo loiro escuro balançando ao vento, a barra da saia inflando como um paraquedas.
Apesar de ser inverno em Indiana, ela está descalça, de meia-calça, segurando as botas e olhando
fixo para os pés ou para o chão… não sei dizer. Parece paralisada.
Com minha voz normal, não a de pregador, digo, o mais calmamente possível:
— Vai por mim, o pior que você pode fazer é olhar pra baixo.
Bem devagar, ela vira a cabeça na minha direção, e eu percebo que a conheço, que já a vi pelos
corredores. Não resisto e pergunto:
— Vem sempre aqui? Porque esse lugar é como se fosse a minha casa, e não me lembro de ter
visto você aqui.
Ela nem pisca, só olha pra mim por trás daqueles óculos grossos que quase cobrem o rosto inteiro.
Tenta dar um passo para trás, mas seu pé bate no parapeito. Ela se desequilibra um pouco e, antes
que entre em pânico, eu digo:
— Não sei por que veio, mas pra mim a cidade fica mais bonita vista daqui, e as pessoas parecem
melhores… mesmo as piores parecem quase gentis. Tirando o Gabe Romero e a Amanda Monk e
toda aquela galera com quem você anda.
O nome dela é Violet Alguma Coisa. Ela é superpopular — uma dessas garotas que a gente jamais
imaginaria encontrar em um parapeito a seis andares do chão. Atrás dos óculos ridículos, ela é
bonita, quase uma boneca de porcelana. Olhos grandes, rosto delicado em formato de coração, boca
esboçando um sorriso perfeito. Ela é do tipo que sai com caras como Ryan Cross, destaque do time
de beisebol, e senta com Amanda Monk e outras meninas populares no almoço.
— Mas não estamos aqui por causa da vista. Você é a Violet, não é?
Ela pisca uma vez, e eu encaro como “sim”.
— Theodore Finch. Acho que estávamos na mesma turma de matemática no ano passado.
Ela pisca de novo.
— Odeio matemática, mas não foi por isso que subi aqui. Sem ofensa, se for esse seu motivo. Você
deve ser melhor em exatas que eu, porque quase todo mundo é, mas tudo bem, não tenho problemas
com isso. Sabe, eu me destaco em coisas mais importantes… guitarra, sexo e decepcionar meu pai
constantemente, por exemplo. Aliás, parece que é verdade que não serve pra nada na vida. A
matemática, quero dizer.
Continuo falando, sem perceber que minhas forças estão se esvaindo. Primeiro, preciso fazer xixi,
então minhas palavras não são a única coisa querendo sair. (Nota mental: Antes de tentar se matar,

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