Pink Floyd lança o álbum The Wall. Michael Jackson começa a carreira solo



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Encontro14.06.2020
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#9361

1979!

Pink Floyd lança o álbum The Wall.

Michael Jackson começa a carreira solo.

A revolução islâmica sacode o Irã.

Saddam Hussein chega ao poder no Iraque.

Margaret Thatcher torna-se a primeira mulher a governar o Reino Unido.

João Figueiredo assina a lei da anistia.

Mas, neste momento, nenhum acontecimento da história da humanidade é mais importante do que a formatura no primeiro grau do Colégio Centenário.

Ouçamos!

Com os ouvidos dos anos 70.

Dois sons metálicos embaralham o tempo.

Lá embaixo, a sinetinha de dona Orfila já está zunindo.

E no alto, junto da escada que dá para o pátio, o sino grita.

É dona Lucy quem puxa a cordinha do badalo abrindo a porta do passado.

Fechemos os olhos.

Então veremos o enxame da gurizada saindo das salas, escoando pelos corredores e ganhando um luminoso dia de inverno.

É hora do recreio. Somos meninos de kichute, calça de tergal marrom e blusão verde.

Somos meninas de conga, saia xadrez plissada e jaqueta de náilon com o brasão do colégio às costas.

No bar, alguém pede um prensado, um farroupilha com cyrillinha.

Os guris se engalfinham no futebol de tampinha na superfície lisa da área defronte ao bar.

Ou jogam bolita no canteiro de terra mais abaixo, junto à escada que dá para o jardim de infância.

Ou catam sementes de timbaúva fazendo guerra de “orelhas de macaco” na quadra.

As gurias passeiam em bandos de braços dados, pulam amarelinha, brincam de queimada.

Os cães do colégio lagarteiam ao sol. O dia tem cheiro de bergamota. O ar tem a atmosfera púbere da paquera.

Estamos descobrindo a vida. Já temos paixões secretas. Os primeiros olhares são lançados.

Alguns correspondidos, outros no limbo das frustrações. Uns corações partidos, outros inaugurando a alegria das paixões.

Na hora do recreio, abre-se o oráculo das confidências.

Ficamos sabendo que fulana gosta de sicrano que, na verdade, está encantado com beltrana que, por sua vez, só pensa naquele outro fulano que já está no segundo grau.

O sino badala novamente. Então deixamos o cochicho nos bancos em frente à capela, os joguinhos na sala das internas, a pelada de handebol no pavilhão de madeira, as rodinhas de gente espalhadas pela quadra. Voltamos às aulas.

A memória, enlouquecida pelo afeto, mistura os oito anos do primeiro grau. Cada um com sua professora predileta, com seu melhor amigo ou amiga, com seu recanto preferido de uma escola que talvez já seja outra, mas que permanece a mesma na comunhão de um momento mágico a transformar cinquentões nas crianças que ainda somos.

Por isso, mais uma vez, ouvimos o sino nos chamando para a assembleia.

De cima deste palco, voltamos 40 anos.

Começamos a entrar nessa máquina do tempo com uma troca de mensagens, que virou um grupo de whatsapp, que virou um jorro de reminiscências, camaradagem e amor, que virou um atalho para o melhor da vida. Porque não há nada melhor do que viver com alegria dos afetos. E foi assim que se deu o milagre te transformar mulheres e homens maduros, com todas as cicatrizes das desilusões e delícias da vida, em meninas e meninos novamente. Talvez alguns segredos sejam revelados com 40 anos de atraso, talvez lembranças perdidas no desvão da memória se refaçam como por encanto, talvez nos reconheçamos como as crianças do Centenário que este momento nos permite recuperar.

Já perdemos a conta de quantas vezes já ouvimos, neste auditório, a melodia da canção napolitana que serve da base para a letra que sabemos decor.

E é dela que virá a grande verdade deste dia, revelada já na simplicidade do primeiro verso, tradução perfeita do que estamos vivendo aqui:

Querido Centenário, nós te amamos.



**Texto do Centenarista Marcelo Canellas, apresentado no encontro da sua comemorativo aos 40 anos de conclusão do Primeiro Grau, realizado em 16 de novembro de 2019.
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