Pela fama do que Abraham Lincoln



Baixar 97.83 Kb.
Pdf preview
Página2/3
Encontro17.03.2020
Tamanho97.83 Kb.
1   2   3
política (1848), de  John  Stuart Mill, Harmonia de interesses 

(1851) e Princípios de economia política (1837), de  Henry 

Carey,  Estática  social  (1851),  de  Sir  Herbert   Spencer,  e 

Elementos  da  economia  política,  de   Francis  Wayland.  Em 

especial,  “Lincoln  devorou,  digeriu  e  assimilou  a  obra  de 

Wayland”. Essa lista de títulos e autores pode não ser muito 

fácil de reconhecer hoje em dia, mas na época eles estavam 

alinhados com o que havia de melhor na produção literária e 

intelectual das democracias liberais anglófonas. E é em meio 

a essa produção que, enfim, encontramos a chave para com-

preender Lincoln da mesma forma como ele compreendia a 

si mesmo.

Nos nossos dias, a palavra  liberalismo passou a signi-

ficar  uma  nada  popular  mistura  de  sentimentalismo,  hedo-

nismo  e  uma  convicção  seletiva  de  que  os  problemas  são 

culpa dos sistemas sociais e de que todas as soluções devem 

ser providas pelo governo. Porém, na Europa e nas Américas 




12

do século XIX (e na filosofia política da Europa continental 

de hoje), o  liberalismo era a faceta política do  Iluminismo. 

Seu principal argumento era que o governo não é algo mis-

terioso  que  cai  dos  céus  nas  mãos  de  alguns  poucos  aben-

çoados  (como  reis,  duques  ou  príncipes)  ou  uma  corrente 

incontrolável de experiências que não pode ser alterada ou 

represada, e que as pessoas não nascem, como os campone-

ses medievais, com um status inalterável que deveriam car-

regar por toda a vida (nobre ou plebeusalvo ou condenado



servo  ou  livre). As  pessoas  nascem  com  direitos  –  “certos 

direitos  inalienáveis”,  como  escreveu   Thomas  Jefferson 

na   Declaração  de  Independência  –,  direitos  esses  que  elas 

devem ser livres para exercer como uma aspiração natural de 

sua humanidade. Os liberais, portanto, eram firmes defenso-

res da liberdade, em especial a liberdade de tornar-se algo, 

proporcionada pela capacidade individual de cada um e pelo 

livre exercício de seus direitos.

A  paixão  pelo  tornar-se  foi  aos  poucos  tomando  a 

forma de repúblicas em vez de monarquias, e de capitalismo 

de classe média no lugar da economia agrária conservadora. 

Os  liberais  ingleses   Richard  Cobden  e   John  Bright  acredi-

tavam  que  sua  luta  contra  o  símbolo  da  aristocracia  rural 

britânica, as chamadas Leis do Milho, era na verdade “uma 

luta  pela  influência  política  e  pela  igualdade  social  entre  a 

aristocracia proprietária de terras e os grandes industriais”. O 

alemão  Johann Jacoby descreveu o  liberalismo em 1832 em 

termos igualmente dualísticos: “Dois partidos se enfrentam: 

de um lado, os governantes e a aristocracia, com sua incli-

nação pelos caprichos pessoais e seu comprometimento com 

instituições  arcaicas  e  irracionais,  e  do  outro  lado  o  povo, 

com sua recém-despertada noção de poder e seu esforço vital 

pelo livre desenvolvimento”. E era uma luta que não se resu-

mia  apenas  a  vantagens  econômicas,  mas  incluía  também 

o  desejo  de  um  mundo  melhor  do  que  as  sociedades  infle-

xíveis  comandadas  por  duques  e  baronetes.  “Um  governo 

republicano”, defendia o grande panfletista Tom  Paine, “por 

ser  fundado  sobre  princípios  mais  naturais  […]  é  infinita-

mente mais racional e seguro […] por assegurar a liberdade 



13

e a propriedade a todos os homens e, acima de tudo, o livre 

exercício da religião”.

O  livre  exercício  da  religião,  e  não  uma  autoridade 

proveniente dela. Os liberais não eram necessariamente ini-

migos dos religiosos, porém estavam mais dispostos a bus-

car  orientação  na  filosofia  clássica  do  que  nas  revelações 

divinas.  Cobden,  que  personificava  tanto  a  hostilidade  do 

 liberalismo em relação à aristocracia quanto sua tendência a 

medir o talento e o mérito pelo sucesso financeiro nos mol-

des da classe média, dava “poucas mostras de alguma espiri-

tualidade em sua natureza; não se sentia nem oprimido nem 

elevado  pelos  mistérios,  pelas  aspirações,  pelos  arrependi-

mentos e pela esperança que constituem a religião”. A reve-

rência dos liberais pela razão, como não podia deixar de ser, 

enfraqueceu  sua  inclinação  a  se  submeter  a  manifestações 

públicas  de  religiosidade,  como  pertencer  a  uma  igreja,  o 

batismo, o ritual do culto e a ética pessoal. Isso, por sua vez, 

muitas vezes levou à indiferença ou até mesmo à hostilidade 

em  relação  aos  privilégios  públicos  ainda  desfrutados  pelo 

cristianismo  na  Europa,  e  à  tolerância  a  religiões  dissiden-

tes – e não porque os liberais tivessem algum apreço pelas 

minorias religiosas, mas sim porque para eles nenhum tipo 

de discussão religiosa valia a pena.

Uma  vez  desfrutando  plenamente  dos  benefícios  da 

liberdade, os liberais estavam convictos de que não haveria 

limites para o progresso e para os feitos de uma humanidade 

impulsionada pela mente benevolente e racional. Por verem a 

si mesmos como a encarnação da razão, da benevolência e da 

liberdade, os liberais estavam convictos de que seu sucesso 

era inevitável, e essa confiança excessiva de que aquilo que 

representava o progresso representava também o triunfo da 

liberdade  era  a  coisa  mais  próxima  de  uma  profecia  aceita 

pelo  liberalismo. Alexis de  Tocqueville, oriundo da pequena 

nobreza francesa, teve seu momento de epifania liberal em 

1829,  ao  ouvir  as  palestras  do  historiador  François   Guizot 

na Sorbonne e se dar conta de que a história era um registro 

da evolução do progresso, e de que o objetivo do progresso 

era a igualdade. “Eu acredito”, acrescentou  John  Stuart Mill, 

“que  a  tendência  geral  é,  e  continuará  a  ser,  salvo  raras  e 




14

esparsas  exceções,  de  aprimoramento  –  uma  tendência  em 

direção a uma condição melhor e de mais felicidade.”

Seria  mesmo?  A  Revolução  Francesa,  que  começou 

como um movimento liberal em 1789 e se degradou em uma 

tirania popular para depois culminar no despotismo imperial 

de  Napoleão Bonaparte, fez com que a reputação do  libera-

lismo caísse em desgraça, assim como as repúblicas natimor-

tas forjadas a partir da fragmentação das colônias espanholas 

na América do Sul. Joseph de  Maistre, um aristocrata fran-

cês  que  sobreviveu  à  Revolução  e  a  Bonaparte,  vociferou 

em  seu  Estudo  sobre  a  soberania:  “Um  dos  maiores  equí-

vocos de nossa época é acreditar que a constituição política 

das nações é obra do homem, e que uma constituição pode 

ser  fabricada  da  mesma  forma  como  um  relojoeiro  fabrica 

um relógio”. O estado natural da humanidade, argumentava 

ele, era a monarquia: “É possível afirmar que em geral todos 

os  homens  nasceram  para  a  monarquia”  e  “mesmo  os  paí-

ses destinados a serem repúblicas foram fundados por reis”. 

Com a derrota de Bonaparte em Waterloo, em 1815, o antigo 

poder político europeu voltou a dominar o mapa da Europa, 

reentronando reis, redesenhando fronteiras e criando ligas e 

alianças que reagiriam de forma coordenada a fim de sufocar 

todo e qualquer novo surto de revolta liberal.

De todas as otimistas experiências liberais, apenas um 

exemplar em larga escala sobreviveu: os Estados Unidos da 

América.  E,  por  volta  dos  anos  1850,  ia  ficando  cada  vez 

mais claro que até mesmo os Estados Unidos continham den-

tro  de  si  a  semente  da  autodestruição  antiliberal,  na  forma 

de  um  agressivo  e  arrogante  “ poder  escravista”,  cujo  obje-

tivo era assegurar a legalização da escravidão humana a fim 

acelerar  a  expansão  da  república  norte-americana  em  dire-

ção ao oeste. Foi nessa década de indefinições que Abraham 

Lincoln fez sua primeira aparição – com seu jeito modesto, 

direto, natural e sagaz – no cenário nacional, para defender o 

ideal da democracia liberal norte-americana de seus detrato-

res dentro do próprio país. Nenhum outro indivíduo no uni-

verso da língua inglesa teve tantas biografias escritas como 

Abraham Lincoln. Esta será uma biografia de suas ideias.


1   2   3


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal