Pela fama do que Abraham Lincoln



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L

&PM POCKET



Allen C. Guelzo

Lincoln


Tradução de

 A

LEXANDRE



 B

OIDE



7

I

NTRODUÇÃO

Homem  nenhum  no  mundo  poderia  ter  mais  apreço 

pela  fama  do  que  Abraham  Lincoln.  “Ah,  [como  é]  duro 

morrer  e  não  conseguir  deixar  um  mundo  melhor  para  as 

pessoas”, ele se queixou certa vez, e uma das recompensas 

que esperava por ter assinado a Proclamação da Emancipa-

ção, em 1

o

 de janeiro de 1863, era a de que “o nome relacio-



nado a esse ato jamais será esquecido”. E fama, sem dúvida 

nenhuma,  foi  o  que  Lincoln  conquistou,  não  apenas  nos 

Estados Unidos como em todo o planeta. Ele é um dos cinco 

norte-americanos sobre os quais podemos afirmar sem medo 

de  errar  que  são  conhecidos  no  mundo  inteiro,  ao  lado  de 

George   Washington,   Thomas  Jefferson,   Benjamin  Franklin 

e Martin Luther King.

Porém, os elementos que explicam essa fama variam 

de lugar para lugar, e até mesmo de época para época. Para 

os norte-americanos que viveram nos anos posteriores a seu 

assassinato, em 1865, ele era famoso exatamente pela razão 

por que esperava ser lembrado – ser o grande libertador dos 

quatro milhões de escravos dos Estados Unidos. Entretanto, 

para a geração de norte-americanos que vieram depois dele, 

os louros da Emancipação representavam um peso sobre a 

cabeça  de  Lincoln.  Os  escravos  que  ele  libertou  em  1863 

eram  negros,  e  a  predominância  da  ideia  da  superioridade 

da  raça  branca  na  mente  da  numerosa  população  do  país 

no  fim  provocou  uma  tensão  insuportável  entre  as  políti-

cas públicas, o que acabou relegando os escravos libertos e 

seus descendentes a um apartheid legalizado – ainda que se 

cobrisse de glórias o homem que, ao libertá-los, acabou por 

criar essa tensão. Assim, os louros da Emancipação foram 

sendo substituídos por outros, uma enorme variedade deles, 

através dos quais os norte-americanos podiam escolher qual 

Lincoln se adaptava melhor ao jogo político e às predileções 

pessoais  das  gerações  subsequentes  –  Lincoln  o  Salvador 

da União, Lincoln o Homem do Povo, Lincoln o Mártir, e 

assim por diante.



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Dessa  forma,  tornou-se  quase  impossível,  em  meio 

a  dezenas  de  honrarias  desconexas,  descobrir  quem  era  o 

homem por trás de tudo isso. E o próprio Lincoln não ajudou 

nem um pouco nesse sentido. Em uma época em que todos 

escreviam  sobre  si  mesmos  de  forma  compulsiva,  ele  não 

deixou nem ao menos um simples diário com suas reflexões 

cotidianas. Além  disso,  não  viveu  o  bastante  para  escrever 

um  livro  de  memórias,  como  fizeram  seus  generais  Grant, 

 Sherman, Sheridan e  McClellan – os dois esboços autobio-

gráficos que ele escreveu em 1859 e 1860 para fins eleitorais 

lhe foram arrancados graças à pressão de editores de jornais. 

Suas raras referências ao próprio passado nunca foram muito 

reveladoras e, às vezes, vinham acompanhadas de certa irri-

tação, como se ele desconfiasse das intenções daqueles que 

queriam  desenterrar  detalhes  de  seu  passado  de  agricultor. 

A  um  entrevistador  mais  insistente,  ele  respondeu  apenas: 

“Conheço  boa  parte  do  que  se  poderia  chamar  de  fim  do 

mundo”, e não se deu ao trabalho de dizer mais nada. Os oito 

volumes de suas Obras completas, compiladas a duras penas 

por Roy P.  Basler e sua equipe e publicadas em oito volumes 

em 1953 como um dos maiores feitos editoriais em termos 

de documentação da história da intelectualidade norte-ame-

ricana,  contêm  em  sua  maioria  efemérides  cotidianas  que 

pouco contribuem para estabelecer como foram moldados o 

pensamento e os valores de Lincoln. É claro que o tédio das 

cartas sem importância e dos memorandos corriqueiros pre-

sentes nas Obras completas é permeado por seus poderosos 

discursos e seus notáveis arquivos. Mas mesmo estes dizem 

muito pouco sobre as origens de suas ideias, já que apenas 

em raríssimas ocasiões ele se deu ao trabalho de informar as 

fontes de que se valia.

Lincoln era, como disse certa vez seu amigo e admi-

rador   David  Davis,  “o  homem  mais  reticente  e  misterioso 

que  eu  já  conheci  –  ou  poderia  conhecer”.   William  Henry 

Herndon, seu colega de advocacia durante catorze anos, con-

cordava:  “Era  um  homem  complicado,  difícil  de  entender, 

mesmo para seu círculo de amigos e para os vizinhos mais 

próximos e íntimos com quem ele se relacionava”.



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1. Lincoln em agosto de 1863, no estúdio de Alexander Gardner

em  Washington.



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Mas  havia,  sim,  um  homem  de  ideias  por  trás  dessa 

firme  barreira  de  privacidade,  e  tais  ideias  podem  ser  vis-

lumbradas.  Henry Clay  Whitney, que o conheceu em 1854, 

achava que a primeira impressão que Lincoln passava para 

as  pessoas  era  a  de  “um  fazendeiro  rústico  e  inteligente”. 

Mas  seu  colega  e  amigo  de  longa  data  Leonard   Swett  o 

conhecia  bem  melhor.  “Aqueles  que  achavam  que  Lincoln 

era um sujeito simplório logo caíam do cavalo.” O ex-presi-

dente começou a trabalhar como advogado em 1837, mesmo 

não  tendo  se  formado  em  uma  faculdade  de  Direito  (e  em 

nenhuma outra, aliás), contando unicamente com o domínio 

que tinha de alguns livros de Direito elementar e com a orien-

tação de John Todd  Stuart, um influente advogado que tinha 

simpatizado com Lincoln, então com 28 anos. Ainda assim 

ele se tornou um profissional de sucesso, com um escritório 

responsável  por  mais  de  5.600  casos  na  justiça  estadual  e 

federal de  Illinois, e  Whitney ficava perplexo ao ver como 

Lincoln equivalia a “uma multidão carregando cartazes” na 

hora de desqualificar uma testemunha. “Ele era um profundo 

conhecedor da natureza humana, muito eficiente e incisivo 

em seu exame das testemunhas”, ele escreveu. “Se a teste-

munha dizia a verdade sem evasivas, Lincoln era respeitoso 

e condescendente, porém, na hora de identificar um falso tes-

temunho, era impiedoso. Não anotava nada, mas se lembrava 

de tudo como se tivesse anotado.”

A  curiosidade  intelectual  de  Lincoln  muitas  vezes  ia 

além dos pré-requisitos necessários para o exercício da advo-

cacia. John Todd  Stuart revelou a um biógrafo eleitoral em 

1860  que  Lincoln  tinha  uma  “mente  de  caráter  metafísico 

e filosófico – seu conhecimento das linguagens é limitado, 

mas  em  outros  aspectos  eu  o  considero  um  homem  com 

um  conhecimento  bastante  amplo  e  variado”. Ao  contrário 

de  muitos  de  seus  colegas,  Lincoln  “estudou  com  afinco  a 

geologia e outras ciências” e “está sempre estudando a natu-

reza das coisas”.  George Borrett, um advogado britânico que 

entrevistou o já presidente Lincoln em 1864, ficou impres-

sionado quando ele “começou a fazer comentários precisos 

sobre o sistema legal dos dois países, depois falou sobre o 

esquema de propriedades na Inglaterra” e então amenizou a 




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conversa com algumas ponderações “sobre poesia inglesa; o 

presidente disse que, quando nós o interrompemos, ele estava 

imerso na leitura de [Alexander] Pope”.  John Hay, um dos 

primeiros membros de sua equipe presidencial, ficava admi-

rado  sempre  que  tinha  com  Lincoln  “uma  conversa  sobre 

filologia”,  pela  qual  o  presidente  “se  permitia  uma  certa 

inclinação”. Mesmo em suas últimas semanas de vida, o pre-

sidente, que era mais conhecido por ler em voz alta livros de 

humor, fez questão de dizer a  Noah Brooks, jornalista de San 

Francisco, que “também gostava de muitos livros de filoso-

fia”, e então listou algumas das mais influentes obras desse 

ramo  do  conhecimento  nos  Estados  Unidos  e  na  Inglaterra 

– Analogia da religião, o clássico de  Joseph Butler sobre as 

leis  naturais,  Sobre  a  liberdade,  de   John   Stuart  Mill,  e  até 

mesmo a obra do grande calvinista do século XVIII  Jonathan 

Edwards sobre o livre-arbítrio e o determinismo.

Mas  o  “paraíso”  de  Lincoln  era  a  política,  e  ele  “era 

ótimo  em  economia  política”.  Segundo  escreveu  Herndon, 

ele “gostava de economia política, de estudá-la”. E se dedi-

cava a isso, já que Herndon se lembra de que entre suas prin-

cipais  leituras  estavam  os  livros  mais  “importantes  sobre 

economia política” do século XIX: Princípios de economia 




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