Pedro adams filho: empreendedorismo



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parte de um

 silêncio local

, ou seja, o jornal não dá voz aos trabalhadores, eles não 

falam, eles  “são falados”, mas esse silêncio é significativo, pois, segundo Orlandi, 

nele  há  um  sentido.  Os  empresários  representados  pelo  jornal,  não  tinham 

interesse  em  dar  voz  aos  trabalhadores,  pois  essas  vozes  poderiam  destoar  do 

discurso hegemônico da harmonia entre patrões e empregados. 

Uma  das  poucas  notícias  que  encontramos  no  jornal  foi  sobre  um  festival 

operário  organizado  no  mês  de  fevereiro  de  1933  no  cinema  Guarany,  em  Novo 

Hamburgo, em função da criação dos dois sindicatos. Na programação do evento 

351 

ORLANDI, Eni Pulcinelli.



 Terra à vista

 – Discurso do confronto: velho e novo mundo. São Paulo: 

Editora da Unicamp,1990. p. 49,50.



constava  a  projeção  de  um  filme  e,  logo  depois,  discursos  de  alguns  líderes 

sindicais sobre a “causa do operariado nacional”. 

352 

O jornal que  noticia tal evento  faz  uma crítica  muito  significativa a respeito 



da  fala  de  um  dos  oradores que, segundo  ele,  diminuiu o brilho  com  que  vinham 

decorrendo  os  trabalhos,  pois  se  utilizou  de  uma  linguagem  “pouco  cortez”  e 

atacou os patrões de uma forma a que a cidade não estava acostumada. 

[...]  Simpatizando  com  a  causa  do  nosso  operariado,  não  aprovamos, 

todavia, a maneira violenta com que querem fazer valer os seus direitos. 

[...] o último orador [...] visava rebelar o operariado contra os seus 

patrões. 

Ora,  haverá  motivos  para  tanto?  Só  mesmo  espíritos  mal  formados 

poderão admitir isso. 

Não  está  ainda  esquecida  a  violenta  crise,  por  que  todas  as  indústrias 

passaram e que ainda hoje se faz sentir, se bem que já em marcha bem 

acentuada para a melhora. Não compreenderão os operários que durante 

esta época  toda deram  mais prejuízos  do que lucros  aos  seus  patrões? 

Muitas  casas  trabalhavam  para  não  deixar  os  seus  operários  sem 

ganhos, ou a viver da “brisa”. Os balanços bem o demonstram. 

353 


O  artigo  afirma  que  os  patrões  fizeram  sacrifícios  financeiros  para 

cumprirem  com  as  suas  obrigações  e  que,  naquele  momento,  eram  os  operários 

que deveriam colaborar. Continua dizendo: 

Veio  a  lei  em  favor  do  operariado,  e  querem  agora  os  favorecidos  a 

“revanche”  do  que  lhes  foi  beneficiado  em  tempos  que  ainda  não  vão 

longe...A  lei  está  aí  e  será  cumprida,  por  que,  então,  o  sr.  Castilhos 

procura rebelar o operariado? [...] 

Que  quer  o  sr.  Castilhos?  Implantar  o  comunismo?  Suas  palavras 

pareciam mais uma propaganda comunista do que uma defesa da causa 

operária. [...] 

Não  vemos  futuro  muito  risonho  para  o  operariado,  com  representantes 

deste  gênero,  e  seria  pena,  pois,  aqueles  braços  que  trabalham  e  dos 

quais  tanto  o  Brasil  precisa  e  espera,  merecem  uma  proteção.  São 

homens como todos os demais. 

352 

Jornal


 O 5 de Abril

, 10/02/1933 

353 

Ibidem



Mas se seguirem as insinuações do último orador que ouviram terça­feira 

última,  não  serão  dignos  de  compaixão  e  benefícios,  porque  acabarão 

deixando de ser Brasileiros, cerrando fileiras ao lado do comunismo. 

354 


Este  artigo  deixa  explícita  a  política  sindical  varguista  vigente  nesse 

período, pois a lei de sindicalização de 1931 redirecionou a função dos sindicatos, 

que passaram a ser órgãos consultivos e de colaboração com o poder público, ou 

seja,  as  associações  operárias  passaram  para  a  órbita  do  Estado,  e  qualquer 

sindicato  combativo  que  propagasse  ideologias  políticas  diferentes  daquelas 

apoiadas pelo governo teria seu funcionamento proibido. 

Segundo Elizabeth Pedroso, essa lei definiu a estrutura sindical baseada na 

unicidade  e  verticalidade,  submeteu  os  sindicatos  ao  estatuto  padrão  elaborado 

pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, que determinava as relações e 

ações  sindicais,  proibiu  atividades  políticas,  greves,  filiação  a  entidades 

internacionais  e  a  sindicalização  dos  funcionários  públicos;  limitou  a  participação 

de operários estrangeiros na liderança dos sindicatos; passou a fiscalizar recursos 

financeiros,  o  processo  eleitoral  e  as  assembléias,  e  assegurou  o  direito  de  o 

governo intervir nos sindicatos. 

355 

A  indignação  mostrada  pelo  jornal  ao  líder  de  um  grupo  de  trabalhadores 



que visava “rebelar o operariado” e “implantar o comunismo”, deixa explícito a que 

tipo de política sindical o operariado da cidade deveria se filiar. 

354 

Ibidem 


355 

Segundo  PEDROSO,  Elizabet  M.K.

  Movimento  Sindical  Urbano  no  Brasil

.  Porto  Alegre: 

Evangraf, 1998.



É  claro  que  grande  número  de  trabalhadores  não  se  submeteu  a  essas 

interferências,  mas  todos  tiveram  que  arcar  com  as  conseqüências  da 

insubordinação. 

Nas palavras de Ângela de Castro Gomes, 

O período que vai de 1931 a 1933 foi de franca disputa física e ideológica 

pela liderança do movimento operário organizado, caracterizando­se pela 

existência  paralela  de  um  sindicalismo  oficial  e  de  um  sindicalismo 

independente,  não  importando aí  qual  o  tipo  de corrente  de esquerda o 

dominava. 

356 


Essa disputa entre o sindicalismo oficial, que era contrário a qualquer forma 

mais combativa de atuação e que acreditava que o operariado deveria esperar as 

leis recém­criadas serem postas em prática, sem contestar, aparecia na cidade de 

Novo Hamburgo, como fica exemplificado no artigo de jornal citado. 

Vemos,  também,  um  líder  sindical  com  formação  acadêmica,  criticando 

essa mesma política  trabalhista.  A crítica não  fica  clara, pois o  jornal negou­se a 

reproduzir  o  discurso,  mas  podemos  pensar  que  foram  colocados  os  problemas 

por  que  estavam  passando  os  trabalhadores  da cidade  ou  as  leis  que  ainda  não 

haviam  saído  do  papel,  por  exemplo.  O  “sr.  Castilhos”  (líder  sindical)  foi 

considerado  um  incitador,  um  “comunista”  que  queria  rebelar  os  operários contra 

os  patrões,  que  eram  pessoas  que  deveriam  ser  reconhecidas  por  terem  sofrido 

com  crises  econômicas  recentes  e  mantido  suas  obrigações  para  com  seus 

funcionários, mesmo tendo prejuízos. 

356 


GOMES, op.cit.p.177


Ainda  segundo  palavras  do  jornal,  o  mesmo  orador  teve  a  “petulância”  de 

falar  mal  dos  industriais  estrangeiros,  provavelmente  alemães,  o  que  era 

considerado uma crítica grave, já que o trabalhador alemão, como já foi colocado, 

era o  modelo de trabalhador. Falou  mal, ainda, do representante do Ministério do 

Trabalho, o que foi considerado uma ofensa sem igual. 

O  artigo  termina  de  certa  forma  ameaçando  os  trabalhadores  que  se 

deixam  liderar  por  esse  tipo  de  sindicalista,  afirmando  que  não  terão  um  “futuro 

risonho” e não serão dignos de “compaixão e benefícios”. 

Essa  idéia  da  compaixão  mais  uma  vez  mostra  o  olhar  das  classes 

dirigentes  sobre  a  legislação  trabalhista:  era  um  favor  do  governo  e  dos 

empresários para os trabalhadores, não um direito conquistado por eles. 

Em  outro  momento,  o  jornal  local  fala  sobre  a  “união  dos  trabalhadores  e 

suas  verdadeiras  finalidades  políticas”,  onde  é  condenada  a  questão  da 

interferência política no sindicato. 

[...] Constitui um erro grave, gravíssimo e, aliás, condenável, injetar­se no 

espírito,  ainda  em  formatura  das  massas  proletárias  a  ideologia  política 

desta  ou  daquela  facção  partidária.  Qual  a  melhor?  Qual  a  verdadeira? 

Qual a política que mais convém ao homem das mãos calosas? [...]. 

Procuramos cumprir fiel e precisamente, à sombra da Bandeira Proletária 

que neste campo de ação empunhamos, sem deslize e sem vacilações o 

espírito da Lei. 

As  massas  proletárias  do  Rio  Grande  do  Sul,  não  necessitam,  até  este 

instante  de  outra  ideologia  política,  a  não  ser  sua  própria,  calcada  da 

própria  Lei,  consubstanciada  na  mais  sã  e  mais  perfeita  equidade 

econômica  social.  Desviá­las deste  ponto,  ao  que nos  parece digno dos 

melhores  aplausos,  é  desrespeitar  a  sábia  e  justa  Legislação  Social 

Brasileira. 

357 


357 

Jornal


 O 5 de Abril

, 17/02/1933




O cumprimento da lei era o argumento utilizado para evitar que houvesse a 

cooptação  dos  operários  a  “ideologias  políticas”  e  “facções  partidárias

.    A 


disciplina era considerada fundamental para as organizações sociais e ela só seria 

alcançada através do cumprimento das leis. 

Os oportunistas políticos, pescadores de águas turvas, fantasiados 

de  proletários,  procuram  por  todos  os  meios  ao  seu  alcance,  lançar 

grande  parte  da  massa,  ainda  inconsciente,  neste  labirinto  sem  ideal  e 

sem  vida,  porem,  com  o  despertar  da  consciência  verdadeiramente 

social, eles tombarão fulminados e ficarão aonde sempre estiveram... 

[...]  Amparados  na  Lei  protetora  das  organizações  sociais,  havemos  de 

marchar  para  o  futuro,  congregando  o  homem  trabalhador  e 

disciplinando­o, para a grandeza das pátrias e felicidade geral dos povos. 

Se  errarmos,  erramos  dentro  da  lei  e  se  acertamos,  cumprimos com  os 

nossos deveres. 

E  nesta  marcha  diária,  que  conscientemente  encetamos,  seguiremos 

para  a  frente,  sem  política  aristocrática  e  sem  mentiras  convencionais, 

socializando  e  civilizando,  ouvindo  e  harmonizando  capital  e  trabalho, 

pelo  progresso,  pela  justiça,  pela  verdade  e  pela  razão.  (Reynésio 

Barbosa, Representante geral da União de Trabalhadores em Construção 

Civil de Porto Alegre) 

358 

A pretensa harmonia entre capital e trabalho fica mais uma vez clara nessa 



passagem  que  mostra,  também,  que  o  trabalhador  deveria  ser  disciplinado, 

protegido e guiado pela razão, nunca por paixões ideológicas. 

As  questões  trabalhistas  durante  a  era  Vargas  sempre  foram  amplamente 

discutidas e muito importantes para os empresários de Novo Hamburgo, pois elas 

iriam definir, na lei, os direitos e os deveres dos trabalhadores. 

Em outubro de 1932, o jornal

 O 5 de Abril

  transcreve  um  artigo  da

 Revista 

do  Commercio e Industria do Rio  Grande  do  Sul

  de  1918  que  trata  das  relações 

entre  patrão  e  empregado.  Diz  o  artigo  que  entre  o  capital  e  o  trabalho  há  um 

358 

Ibidem



profundo  antagonismo  e  que  entre os  “detentores do capital” e os “detentores  do 

trabalho”  existe  uma  disputa  porque  ambos  querem  tirar  o  maior  proveito  da 

produção. Segundo ele, 

[...] durante séculos e por motivos eminentemente complicados, dentre os 

quais se destaca a desigualdade jurídica e política das duas espécies em 

conflito, os patrões levaram a melhor; sobrepunham­se simplesmente aos 

operários [...] Tinham por si o dinheiro, a nobreza, as leis e os governos. 

À  medida,  porém,  que  foram  ruindo  os  privilégios  á  medida  que  a 

instrução  penetrava  nas  camadas  inferiores  da  sociedade,    começou  a 

produzir­se  um  movimento  nivelador:  o  pedestal  dos  patrões  foi  se 

esboroando  ao  contacto  das  idéias  novas,  a  instrução  e  a  educação 

técnica elevaram gradualmente o operário. 

A  luta  está  neste  pé.  Na  impossibilidade  de  agirem  isoladamente,  os 

operários  se congregaram, organizaram  a resistência às imposições dos 

patrões, estes á sua vez se preparam para resistir. [...] 

359 


O  artigo  segue  analisando  a  Constituição  vigente  na  época  (1891), 

asseverando  que  ela  impossibilitava  qualquer  regulamentação  do  trabalho,  pois 

garantia  o  livre  exercício  das  profissões  e,  conseqüentemente,  o  Congresso  não 

tinha competência para regulamentar esse exercício. O dispositivo que garantia a 

igualdade de todos perante a lei era outro empecilho a uma regulamentação, pois 

já estava garantindo os direitos de todos. O artigo é concluído dessa forma: 

[...]  Decretado  ou  estabelecido    tal  código  podem  se  nos  oferecer  três 

hipóteses: 

1º.  Os  dispositivos  dele  garantem  os  operários  contra  os  patrões  – 

privilegiando­os, pois, contra aqueles; 

2º. Ou aparelham melhor  os patrões contra os operários  –  privilégio dos 

primeiros contra os segundos; 

3º. Ou seria absurdo imaginá­lo  ­ deixariam as cousas no mesmo pé em 

que estão, nada adiantando  nem a uns nem a outros. 

Esta última hipótese fica desde logo fora de discussão; mas a realização 

de  qualquer  das  primeiras  representaria  a  criação  de  um  privilegio  em 

favor  de  um  grupo  de  habitantes,  fossem  estes  quais  fossem  e  isto  é, 

precisamente, o aspecto inconstitucional do assunto, é o que repugna ao 

texto ora transcrito. 

360 


359 

Jornal


 O 5 de Abril

, 28/10/1932 

360 

Ibidem



É  importante  observarmos  como  essas  questões  trabalhistas  já  vinham 

sendo discutidas há mais de dez anos, e como os argumentos utilizados em 1918 

ainda  eram  considerados  válidos  para  os  anos  1930,  como  demonstra  a 

transcrição do artigo pelo jornal. 

Como  afirmamos,  o  jornal

  O  5  de  Abril

  era  veículo  de  informação  dos 

empresários  locais  e,  como  tal,  representava  e  explicitava  seus  interesses.  Ou 

seja,  a  discussão  a  respeito  de  um  código  do  trabalho  era,  no  mínimo, 

“inconstitucional”, para não falar da “luta de classes” incutida nele. 

Em  1934,  quando  da  visita  do  Ministro  do  Trabalho,  Salgado  Filho,  à 

cidade, os empresários locais reuniram­se na sede do Sindicato dos Industriais do 

Couro e, em discurso proferido pelo secretário do sindicato, Ervino João Schmidt, 

pediram  ao  ministro  maior  empenho  do  governo  no  setor,  em  função  da crise  de 

superprodução  pela  qual  estava  passando  e  da  facilidade  de  importação  de 

máquinas,  o  que  aumentava  seus  problemas.  O  orador  salientou  ao  ministro  o 

compromisso das classes patronais com a legislação social do governo: 

[...] Pode v.ex. ter a certeza de que a nossa classe patronal reconhece a 

humanidade  e  a  justiça  de  nossas  leis  sociais,  mesmo  porque  elas 

emanam dos próprios preceitos divinos e por que são necessárias. 

Por isso, embora as responsabilidades delas decorrentes para as classes 

patronais sejam pesadíssimas e onerem excessivamente na época atual, 

em  que  nossos  estabelecimentos  lutam  tenazmente  para  a  sua  própria 

estabilidade  e  sua  própria  subsistência,  as  nossas  leis  sociais  terão 

inteiro cumprimento de nossa parte, para a satisfação dos que conosco e 

por nós mourejam em seu labor quotidiano e para a tranqüilidade de nós 

próprios. 

361 


361 

Jornal


 O 5 de Abril

, 09/03/1934




Os  empresários,  portanto,  sugeriam  uma  espécie  de  troca:  de  um  lado  o 

governo  limitava  as  importações  de  máquinas  que  estavam  prejudicando  os 

negócios  locais  e,  de  outro,  eles  comprometiam­se  a  praticar  a  leis  trabalhistas. 

Mesmo  porque,  segundo  eles,  essas  leis  emanavam  dos  “preceitos  divinos”, 

provavelmente eles referiam­se à  justiça,  à igualdade  e  a melhores condições  de 

vida. 


O ministro  Salgado  Filho,  em  seu  discurso, também  reforça a  questão  das 

relações  de  trabalho,  salientando  que  a  revolução  que  colocou  Vargas  no  poder 

tinha como uma das  finalidades a conquista da  igualdade de direitos  de  todas  as 

classes, pois só assim haveria ordem e tranqüilidade no país. 

[...]  Daí,  surgiu  a  legislação  de  que  o  Governo  Provisório, 

espontaneamente,  sem  exigências  de  qualquer  natureza,  dotou  o  país, 

não  só  com  o  objetivo  de  amparar  a  classe  operária  mas,  também,  de 

manter  a  tranqüilidade  no  país,  pois  está  convencido  de  que  só  na 

existência  de  direitos  e  obrigações  recíprocas  pode  ser  assegurada  a 

ordem  de  que  todos  nós  almejamos.  [...]  porque  inexistindo  leis, 

inexistindo garantias em favor do trabalhador, este só tinha um meio hábil 

para a reivindicação dos seus interesses, e que era a violência, violência 

essa perturbadora da paz, da ordem e da tranqüilidade. [...] 

362 


Mais  uma  vez,  as  manifestações  operárias  em  favor  de  seus  direitos  são 

confundidas com ações violentas e perturbadoras da ordem e da paz. O discurso 

do  ministro  mostra  o  controle  que  o  governo passou a ter do movimento sindical, 

principalmente com a lei de sindicalização de 1931. 

Se analisássemos somente esse jornal, seríamos levados a concluir que os 

trabalhadores  serviam  apenas  para  comparecer  às  comemorações,  e  eram 

362 

Ibidem



facilmente  cooptados,  já  que  em  nenhum  momento  houve  referências  à  classe 

trabalhadora  como  possuidora  de  identidade e  interesses próprios.  Essa idéia  de 

harmonia  nas  relações  de  trabalho  foi  corroborada  em  outras  instâncias,  por 

exemplo,  por  Getulio  Vargas  quando  de  sua  visita  à  cidade,  por  ocasião  da 

exposição em sua homenagem quando disse ele em seu discurso: 

Nota­se ordem por toda parte, o que denuncia a harmonia existente entre 

patrões e operários. 

O  que  venho  de  verificar,  se  não  a  união  completa,  pelo  menos  um 

entendimento  recíproco,  e  a  prova  da  tolerância  dos  industrialistas  para 

com os operários. 

E  que  aqueles  bem  compreendem  a  sua  posição  de  patrões,  tanto  é 

assim,  que os  operários  deles não  se queixam.  Aqui,  pois,  não existe  a 

chamada  questão  social,  e  disso  é  prova  exuberante  a  inexistência  de 

greves.  Bem  se  pode  dizer  que  o  proletariado  está  aqui  integrado  na 

sociedade, como elemento de ordem e progresso. 

363 


Há  evidências  de  que  as  palavras  de  Vargas  antecipam  de  forma clara  as 

idéias  que  seriam  implantas  por  seu  governo  nos  próximos  15  anos.  Esse 

trabalhador  dócil,  ordeiro,  alegre,  disciplinado  que  teria  sido  forjado  pelo 

varguismo  ficou no imaginário político e popular durante muitos anos. 

A ideologia varguista enfatizava a busca da harmonia social e a eliminação 

dos  conflitos  entre  as  classes.  O  seu  objetivo  consistia  na  construção  de  uma 

sociedade  fraterna,  via  Estado,  devendo  este  atuar  como  defensor  das  classes 

trabalhadoras.  Com  base  nessas  idéias  de  harmonia  e  fraternidade,  criou­se  a 

imagem  do  trabalhador  feliz,  através  da  qual  se  tenta  constituir  uma  imagem  da 

sociedade coesa e unida em torno do líder. 

363 

VARGAS, apud PETRY, op.cit.p.108




A  idéia  do  povo  ordeiro  e  trabalhador  foi  corroborada,  também,  por 

Leopoldo Petry: 

O  fato encerra [discurso de Vargas], demais, um sintoma excelente  para 

a  situação  atual  do  Rio  Grande.  Ele  é  um  complemento  lógico  das 

aspirações,  do  espírito  construtor,  de  ordem,  progressista  do  povo  rio­ 

grandense.  Nesta  altura  da  campanha  liberal  em  que  estamos 

empenhados,  aquela  solenidade  tem  uma  significação  toda  especial,  ali 

estava o Rio Grande do Sul que trabalha, que produz, revelando como se 

desdobra  a  fortuna  particular,  base  de  fortuna  pública,  digno  das 

atenções  de  toda  a  Nação,  que  tem no  nosso  Estado  um  dos melhores 

esteios da sua força e da sua economia. 

364 


A  idéia  de  que  o  trabalhador  local  era  um  trabalhador  satisfeito,  era  uma 

constante  nos  escritos  da  época.  As  condições  de  vida  do  operário  de  Novo 

Hamburgo  eram  consideradas  satisfatórias,  pois  em  nenhum  momento  foi 

divulgada alguma reivindicação ou insatisfação com relação a ela. 

Uma  matéria  publicada  no  jornal

  O  5  de  Abril

,  em  1930,  chama­nos  a 

atenção  a  sua  mensagem  implícita.  O  jornal  transcreve  um  artigo  escrito  em 

Berlim, por um alemão que contava como vivia um operário na Alemanha. O artigo 

procurava comprovar, por meio de dados estatísticos, que o operário alemão vivia 

muito  mal,  levava  uma  “vida  duríssima,  reduzida  exclusivamente  à  luta  pela 

existência”, ou seja, se até um operário de um país industrializado e rico vivia mal 

e assombrado pelo desemprego, por que o operário brasileiro deveria reclamar? 

Essas  idéias  de  Vargas,  apoiadas  por  Leopoldo  Petry,  já  eram  difundidas 

desde  o  início  dos  anos  1930  na  sua  propaganda  eleitoral,  quando  candidato  à 

364 


PETRY, op.cit. p.108


presidência  da  República  pela  Aliança  Liberal.  Sua  plataforma  foi  amplamente 

divulgada pelo jornal local que, ao longo de sete edições, procurou esmiuçá­la. 

Com  relação,  especificamente,  à  questão  social,  a  Aliança  Liberal 

explicitava sua posição da seguinte forma: 

[...]  se  o  nosso  protecionismo  favorece  os  industriais  em  proveito  da 

fortuna privada, corre­nos, também, o dever de acudir ao proletário, com 

medidas que lhe assegurem relativo conforto e estabilidade e o amparem 

nas  doenças  como  na  velhice.  [...]  A  atividade  das  mulheres  e  dos 

menores,  nas  fábricas  e  estabelecimentos  comerciais  está  em  todas  as 

nações  cultas  subordinada  a  condições  especiais,  que,  entre  nós  até 

agora, infelizmente, se desconhecem.[...] 

365 


Embora  houvesse  todo  um  discurso  oficial  que  se  referia  à  relação 

harmônica entre patrão e empregado, isso nem sempre correspondeu à realidade, 

pois  as  greves  existiram  na  cidade  como  uma  forma  de  protesto,  embora  muito 

pouco se tenha documentado sobre isso. 

A  primeira  greve  ocorrida  em  Novo  Hamburgo  aconteceu  na  primeira 

empresa aqui criada: a de Pedro Adams Filho. Entretanto, a manifestação iniciada 

em  4  de  abril  de  1930,  embora  legítima,  foi  tratada  como  um  “caso  de  polícia”, 

conforme prática da época. 

366 

Essa greve teria sido motivada pelo desconto de 10% nos salários proposto 



pela empresa de Adams por conta da crise econômica pela qual estava passando 

a economia nacional. 

365 

Jornal


 O 5 de Abril

,  17/01/1930 

366 

SAUL, Marco V.A.



 Classe Operária e Sindicalismo no Rio Grande do Sul

 (Novo Hamburgo: 

1945­1964).Santo Ângelo:FUNDAMES, 1988.p.27.



Assim  que  foi  deflagrada  a  greve,  o  Departamento  de  Polícia  de  Porto 

Alegre  foi  avisado  e  enviou  para  Novo  Hamburgo  um  contingente  da  Brigada 

Militar,  comandado  pelo  delegado  especial  Dario  Barbosa  para  controlar  a 

situação, e o movimento acabou quatro dias depois sem maiores problemas. 

A  presença  de  força  militar  numa  vila  que  em  quase  sua  totalidade  é 

constituída de operários, se torna estranhável, porquanto até hoje não se 

registrou ali caso algum de violência coletiva [...] 

Nas  outras  fábricas,  que  continuam  a  pagar  seus  operários  sem 

abatimento,  não  se  registrou  tentativa  de  greve,  prosseguindo  ali  o 

trabalho normalmente [...] 

O  pequeno  município  de  Novo  Hamburgo,  que  é  exclusivamente 

industrial, sofre mais que qualquer outro a crise econômica porque passa 

todo  o  estado,  havendo  fabricas  que  só  trabalham  três  vezes  por 

semana, e havendo as que só não deixam de funcionar para não ficarem 

sem seus operários, já tendo uma grande parte abandonado o município 

em busca de afazeres em outros pontos [...] 

O  Sr.  Pedro  Adams  Filho  é  um  dos  chefes  políticos  situacionistas  de 

Novo  Hamburgo,  parecendo  que  a  requisição  de  força  militar  partiu  do 

intendente do Município. 

367 


Por  essa  notícia,  constatamos  que  o  desconto  salarial  foi  uma  atitude 

isolada  da  empresa  de  Adams,  porque, embora  a  crise  seja  generalizada,  outros 

empresários resolveram de outra maneira o problema. 

Essa  greve  é  importante  para  compreendermos  que,  se  de  um  lado  havia 

uma relação harmoniosa entre o empresário Pedro Adams Filho e seus operários 

como  aponta  o

  5  de  Abril

,  de  outro,  havia  insatisfeitos  que  não  se  deixavam 

cooptar por ele. 

Se houve uma greve é, muito provavelmente, porque algo não estava bem 

e  poderia,  segundo  os  grevistas,  ter  sido  modificado.  A  falta  de  documentação 

sobre  esse importante  fato  dificulta  uma  análise mais  apurada do  acontecimento, 

367 

Jornal


 Correio do Povo

, 08/04/1930




mas  nos  dá  pistas sobre as discrepâncias  existentes entre  o discurso oficial e  os 

fatos acontecidos. O jornal local,

 O 5 de Abril

, publicou apenas uma pequena nota 

falando  da  greve  e  dizendo  que  ela  havia  durado,  praticamente,  um  dia,  e  tinha 

sido desnecessária a interferência da Brigada Militar da capital. 

368 

A atitude tomada pela empresa de Adams em relação à greve ocorrida não 



contrasta  com  a  política  adotada  pelo  Estado,  que  previa  o  uso  da  força  pública 

sempre que a ordem fosse ameaçada. 

Sérgio  Schneider 

369 


analisa  a  formação  do  mercado  de  trabalho  do  setor 

calçadista,  e  afirma  que,  antes  de  a  indústria  estruturar­se  de  modo  assalariado, 

as relações entre empresários e trabalhadores eram fortemente perpassadas pelo 

parentesco e pela origem étnica germânica em comum. Segundo o autor, a origem 

artesanal  de  muitas  fábricas  teve  um  papel  importante  nessa  relação,  já  que 

empregavam  muitos  parentes  próximos  e  as  relações  de  solidariedade  e 

reciprocidade que se formavam eram muito fortes. 

Imagens de relações de solidariedade e de reciprocidade entre empresários 

e funcionários eram produzidas por Adams nas quais ele aparecia na condição de 

amigo  e  protetor.  A  foto  a  seguir,  mostra  o  empresário  em  um  evento  recreativo 

oferecido aos seus empregados. 

368 


Jornal

 O 5 de Abril

, 11/04/1930 

369 


SCHNEIDER, op.cit. p.38


Figura 61 ­ “Pin­Nic” oferecido por Pedro Adams Filho aos seus funcionários (década de 30) (AFA) 

Corroborando  essa  idéia,  seu  amigo  Leopoldo  Petry,  por  ocasião  de  sua 

morte,  fez  o  seguinte  discurso  laudatório,  que  era  representativo  da  imagem  que 

as pessoas tinham de Adams : 

[...]  Grande  era  o  interesse  que  tomava  pela  sorte  de  seus 

operários  –  sem  falar  nos  auxílios  que  particularmente  ele  e  sua 

virtuosa consorte dispensavam ás famílias necessitadas, procurava 

sempre melhorar  a  vida daqueles que considerava  seus auxiliares 

no  trabalho  e  mais  de  uma  vez  queixava­se  a  mim,  de  não 

existirem  instituições  beneficentes,  onde  o  empregado  fosse 

atendido, guiado, auxiliado e instruído convenientemente. [...] 

370 


370 

Jornal


 O 5 de Abril

, 13/09/1935




De fato, as relações de  trabalho  eram muito  mais complexas do que  deixa 

transparecer  a  historiografia  local,  e  a  greve  em  uma  empresa  de  Pedro  Adams 

Filho é um indício disso. 

Lembramos  que,  se  de  um  lado  Adams  estava  inserido  em  um  contexto 

histórico  que  provocou  e  justificou  a  decisão  por  ele  tomada  em  relação  à  greve 

dos funcionários, de outro, acreditamos que os indivíduos não possuem uma vida 

coerente  e  orientada  para  um  determinado  fim  único  e  objetivo,  mas  uma  vida 

multifacetada,  muitas  vezes  sem  unidade  e  coerência,  fato  que  revela  as 

contradições que pautavam a vida do empresário. 

371 


O atendimento às necessidades dos trabalhadores, longe de um dever, era 

visto  como  um  gesto  de  extrema  bondade,  da  mesma  forma  que  as  ações  das 

entidades beneficentes, que muitas vezes serviam mais para aliviar a consciência 

dos empregadores do que prestar um serviço aos trabalhadores. 

O  trabalhador  era  considerado  pelo  jornal  como  pertencente  a  uma 

categoria  que  necessitava  do  apoio  do  patrão  e  era  tratado  quase  como  uma 

criança  desamparada,  como  mostra  um  título  de  uma  nota  sobre  a  reclamação 

371


 

Produzir uma história de vida, tratar a vida como uma história, isto é, como o relato coerente de 

uma seqüência de acontecimentos com significado e direção,  talvez seja conformar­se com  uma 

ilusão retórica, uma representação comum da existência que toda uma tradição literária não deixou 

e  não  deixa  de  reforçar.  [...]  o  advento  do  romance  moderno  está  ligado  precisamente  a  esta 

descoberta: o real é descontínuo, formado de elementos justapostos sem razão, todos eles únicos 

e tanto mais difíceis de serem apreendidos porque surgem de modo incessantemente imprevisto, 

fora  de  propósito,  aleatório.

  BORDIEU,  Pierre.    A  ilusão  biográfica.  In:  FERREIRA,  Marieta  de 

Moraes  &  AMADO,  Janaína.  Usos  e  abusos  da  história  oral.  2.ed.  Rio  de  Janeiro:  FGV,  1998. 

p.185



dos  preços  das  pensões  utilizados  pelos  operários  na  cidade:  “Lamentações 

fundamentais de um pobre operário” 

372 

O grande envolvimento de Adams em relação a seus empregados pode ser 



exemplificado  com  a  criação  de  uma  vila  operária  para  os  trabalhadores  de  sua 

empresa  em  que,  num  primeiro  momento,  o  funcionário  alugava  a  casa,  para 

adquiri­la mais tarde quando tivesse condições financeiras para isso. 

373 


A  vila  foi  construída  próxima  ao  centro  da  cidade.  O  fato  era  visto  com 

simpatia  pelos  operários,  pois  um  dos  problemas  sociais  mais  graves  era  a  falta 

de moradia. Para o empresário, deveria ser uma maneira muito cômoda de manter 

seus empregados sob controle. 

374 

O  fato  de  a  mão­de­obra  especializada  ser  escassa  era  um  fator 



determinante  para  que  o  empresário  criasse  essas  moradias  e  garantisse  a 

manutenção da força de trabalho. A criação da vila operária assegurava a fixação 

e o controle desse trabalhador, o que, em contrapartida, gerava sua permanência 

na empresa, garantindo assim a qualidade de produção. 

375 

Essas  vilas  eram  comuns  no  Brasil  desde  o  início  do  século  XX,  e 



constituíam uma forma de higienizar e disciplinar a sociedade. Segundo Margareth 

372 


Jornal

 O 5 de Abril

, 30/01/1931 

373 


Segundo depoimento de Pedro Adams Neto concedido em abril de 2006. 

374 


Ibidem 

375 


HERÉDIA, Vania B.M. A Construção de Vilas Operárias no Sul do Brasil: O Caso de Galópolis.

 

Scripta Nova



, Barcelona, v.VII, n.146(080), ago. 2003. p.3


Rago, “[...] muito mais que uma maneira de morar, as vilas representam a vontade 

de impor sutilmente um estilo de vida.” 

376 

Mesmo  que  Adams  não  tenha  exercido  um  controle  tão  intenso  como  se 



observou  nas  vilas  instaladas  nas  capitais  (São  Paulo  e  Porto  Alegre,  por 

exemplo),  ele,  certamente,  viabilizou  nessas  vilas  condições  de  melhorar  o 

rendimento de seus funcionários  o que, em  última  instância,  trar­lhe­ia  benefícios 

diretos. 

Por  fim,  com  base  nas  fontes  utilizadas  e  considerando  que  a  cidade  já 

vinha  se  industrializando  desde  o  final  do  século  XIX  e,  nesse  período  (início 

século  XX),  as  idéias  socialistas  e  anarquistas  vinham  penetrando  no  país, 

acreditamos  que o  movimento  operário  local,  além  de  pouco combativo,  foi  muito 

silenciado.  É importante  lembrar  que  em  nível estadual, esse movimento já  vinha 

se dando de forma mais ágil, com a organização de ligas, associações, sindicatos 

e  greves.  Em  1906,  eclodiu  a  primeira  greve  geral  de  trabalhadores  em  Porto 

Alegre,  e,  durante  os  anos  da  guerra,  várias  greves  aconteceram  no  Estado. 

Houve até uma paralisação geral em 1917, organizada, também, pelos socialistas 

e anarquistas. 

377 

Não  podemos  esquecer  que  a  ideologia  positivista  adotada  pelo  governo 



local  tinha  uma  posição  clara  em  relação  a  essas  questões  reivindicatórias,  pois 

376 


RAGO, Margareth.

 Do Cabaré ao Lar

 – A utopia da cidade disciplinar (Brasil 1890­1930). 2.ed. 

São Paulo: Paz e Terra,1987. p. 177 

377 

Essas questões são tratadas por SCHMIDT, Benito B. & PETERSEN, Silvia R.F. O movimento 



operário no Rio Grande do Sul: militantes, instituições e lutas (das origens a 1920). In: GRIJÓ, Luiz 

Alberto et all.

 Capítulos de História do Rio Grande do Sul

. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004.




achava  que  o  governo  só  deveria  interferir  quando  patrões  e  empregados  não 

entrassem em consenso ou quando a ordem estava ameaçada. 

O  positivismo  estadual  estava  comprometido  com  o  desenvolvimento  do 

capitalismo  e,  segundo  Bakos,  na  sua  “versão  castilhista”  depois  seguida  por 

Borges  de  Medeiros,  apresentava  um  projeto  de  certa  forma  progressista,  se 

comparado ao reacionarismo europeu. A autora diz, ainda, que 

A  ideologia,  tipicamente  burguesa,  continha  em  si  os  ingredientes 

necessários  para  seduzir  desde  uma  fração  de  pecuaristas  gaúchos, 

descontentes  com  a  política  econômica  nacional,  até  os  novos  grupos 

emergentes  (comerciantes,  industriais  e  financistas),  detentores  de 

capital, setores médios urbanos e com o colonato. 

378 


Os  operários  em  Novo  Hamburgo  demoraram  a  organizar­se,  segundo 

Saul. Os  sindicatos estavam  atrelados  a  uma  estrutura  paternalista  caracterizada 

pela idéia da harmonia entre capital e trabalho. A ordem legal não deixava espaço 

para  contestações,  tanto  que  no  período  que  compreende  esta  pesquisa,  os 

movimentos  reivindicatórios  praticamente  não  ocorreram,  ou,  pelo  menos,  não 

foram  registrados  pela  historiografia, pois apenas a greve da empresa  de Adams 

aparece nos jornais. 

379 


Um  motivo  que  pode  ter  contribuído  para  a  formação  de  uma  aparente 

harmonia nas relações de trabalho foi a origem rural de muitos trabalhadores, que 

viam no trabalho assalariado da cidade a grande oportunidade de suas vidas. 

380 


378 

BAKOS, op. cit. p. 38 

379 

SAUL, op. cit. p. 105­107 



380 

Ibidem, p.89­91




Apoiados  nos  jornais  utilizados  para  esta  pesquisa  e  no  trabalho  de  Saul, 

acreditamos  que a  idéia  de  que  o  operário,  com  seu esforço e labor, conseguiria 

tornar­se  patrão  foi  difundida  pelos  discursos  das  lideranças  empresariais  e 

sindicais  da  cidade.  Para  isso,  a  criação  do  mito  da  ascensão  social  foi 

fundamental para conciliar os interesses de dois grupos sociais tão distintos. Esse 

mito estava apoiado também na herança migratória e na cultura do trabalho muito 

difundida  em  comunidades  coloniais  como  Novo  Hamburgo  em  que,  com  o 

trabalho, o indivíduo vai progredindo em sua vida. 

2.5 – Energia para a cidade e empresa 

A  energia  utilizada  pelos curtumes  era  a  térmica,  mas  ela  não se  mostrou 

suficiente para atender a toda a demanda das empresas que foram se criando na 

cidade de Novo Hamburgo, logo, um de seus problemas mais graves e que trazia 

maiores conseqüências à indústria era o fornecimento de energia elétrica. 

Pedro  Adams  Filho,  como  um  dos  maiores  industriais  da  região,  tinha  na 

questão  do abastecimento  de  energia  o  ponto  básico  para  o  desenvolvimento  de 

seus  negócios,  daí  sua  preocupação  e  seu  envolvimento  com  a  criação  de  uma 

empresa geradora de energia elétrica para a cidade. 

381 


Segundo  Carneiro,  a  primeira  preocupação  de  uma  indústria  quando  se 

estabelecia  em  alguma  cidade  era  com  o  tipo  de  energia  que  iria  utilizar,  pois  a 

381 

PETRY, op. cit. p.93




energia elétrica gerada pela própria fábrica representava maiores gastos para ela, 

mesmo que seus custos operacionais fossem menores. Já a energia térmica tinha 

um custo de instalação menor, mas seus custos operacionais eram maiores. 

382 


A falta de energia e a  irregularidade no seu fornecimento  eram  constantes 

na cidade desde a época em que ela era ainda um distrito de São Leopoldo. 

383 

São Leopoldo  foi  a  primeira cidade do Estado a instalar  uma usina  elétrica 



pública  na  Picada  48,  em  Ivoti.  Essa  usina  tinha  a  potência  de  200  HP  e  foi 

construída  em  1912.  Funcionou durante quinze  anos de forma ininterrupta,  o  que 

ocasionou  o  desgaste  de  suas  máquinas e instalações,  além do  mau estado  das 

linhas  de  distribuição  que  faziam  parar  seguidamente  as  indústrias  a  ela 

ligadas. 

384 


Essa usina foi a responsável pelo abastecimento de energia nas cidades de 

Novo  Hamburgo,  ainda  não  emancipada,  e  São  Leopoldo,  tanto  dos  pequenos 

estabelecimentos artesanais quanto das indústrias de maior porte. 

385 


Em  1923,  iniciou­se  um  movimento  liderado  por  industriais  de  Novo 

Hamburgo  e  São  Leopoldo  pela  solução  do  problema  da  falta  de  energia,  já  que 

essa  situação  obrigaria  inúmeros  empresários  a  investirem  altas  somas  em 

geradores  a  motor  para  evitar  que  suas  empresas  parassem.  Essa  usina  foi 

382 

CARNEIRO, op.cit. p.77 



383 

PETRY, op. cit. p.93 

384 

Ibidem, p.92 



385 

AXT,  Gunther.  A  indústria  de  energia  elétrica  em  São  Leopoldo  (1913­1946).

  Estudos 

Leopoldenses

, São Leopoldo, Unisinos, vol.2, no.2, 1998.



construída  em  1927,  depois de enfrentar  uma série de problemas, principalmente 

de ordem econômica. 

386 

Pedro  Adams  Filho,  diante  dessa  situação  problemática  e  que  trazia 



dificuldades  para  sua  empresa  e  para  outras  da  cidade,  decidiu  instalar  outro 

motor  de  200  HP  em  sua  empresa  em  Novo  Hamburgo,  cedendo  a  energia  que 

não  precisava  a  outros  consumidores,  o  que  solucionou,  temporariamente,  o 

problema do fornecimento ineficiente. Entretanto, mesmo assim, esse serviço não 

foi satisfatório e as reclamações não cessaram. 

387 


Com  a  emancipação  política  da  cidade  em  1927,  o  dever  de  assegurar  o 

fornecimento  de  energia  passou  a  ser  da  competência  do  município  que, 

inicialmente, fez contatos com São Leopoldo para tentar solucionar o problema. 

A  cidade  vizinha  tentou  impor  um  preço  que  foi  considerado  alto  demais 

(500  réis  por  quilowatt),  mas  acabou  baixando  para  350  réis,  o  que  permitiu  a 

assinatura  de  um  contrato  entre  os  intendentes.  Entretanto,  esse  acordo  não  foi 

considerado  satisfatório,  e  as  discussões  a  respeito  dele  apareceram  nos  jornais 

das duas cidades em várias ocasiões. 

Segundo

 O 5 de Abril

386 


René Gertz em sua obra

 O Aviador e o Carroceiro

 – Política, Etnia e Religião no Rio Grande do 

Sul dos anos 20. Porto Alegre: Edipucrs, 2002, faz uma análise bastante complexa dessa questão 

da energia utilizando, para isso, os jornais

 Deutsche Post

 que relatam todas as dificuldades pelas 

quais  passaram  três  intendentes  do  município  até  a  conclusão  da  usina.  Os  problemas  de 

financiamento,  o  acordo  com  a  cidade  de  Taquara  para  a  construção,  o medo  do  município  não 

conseguir  honrar  com  as  dívidas  contraídas  dos  empréstimos  com  o  governo  do  Estado  já  que 

Novo Hamburgo estava em vias de se emancipar, são alguns dos problemas abordados. 

387 


PETRY, op. cit. p. 93,94


Já  nos  habituamos  de  certo  tempo  a  esta  parte  com  as  continuas 

interrupções de nossa luz elétrica. Esse fato, como todos sabem, verifica­ 

se  significativamente  sempre  que  neste  município  realiza­se  qualquer 

festa.  Isso,  no  entanto,  não  é  para  admirar.  A  direção  desse  serviço, 

todos  disso  têm  conhecimento,  está  afeta  à  administração  de  São 

Leopoldo, por enquanto. 

388 

Os  próprios  festejos  de  emancipação  de  Novo  Hamburgo  sofreram  com 



esse  problema,  já  que  a  praça  principal  da  cidade  teve  que  ser  iluminada  pelos 

faróis dos carros para que a festa pudesse continuar noite adentro. 

389 

Como  a  questão  da  energia  elétrica  era  fundamental  para  o 



desenvolvimento econômico da cidade, e o abastecimento estava deixando muito 

a  desejar,  em  agosto  deste  mesmo  ano,  1927,  foi  publicado  um  edital  de 

concorrência pública para o fornecimento de luz e força elétrica ao município. 

A importância dada à energia elétrica pelo poder público fica explicitada em 

um editorial do jornal

 O 5 de Abril,

 em que expõe seus benefícios à população. Diz 

o  artigo  que  a  eletricidade  é  uma  das  maiores  descobertas  do  homem  e, 

indubitavelmente,  é  a  mola  propulsora  do  desenvolvimento  “vertiginoso”  que  se 

observava  na  época.  Além  disso,  é  a  ela  que  devemos  a  “rapidíssima 

communicação  radiophonica  que,  a  qualquer  hora,  nos  põe  em  contato  com  os 

maiores  e  mais  civilizados  centros”.  A  energia  elétrica,  portanto,  não  estava 

apenas  ligada  ao  progresso  da  indústria,  mas  às  benesses  e  confortos  que 

poderiam trazer ao trabalhador comum e às pequenas empresas: 

[...] A distribuição de energia, sem dificuldades, pelo poder público, soube 

favorecer  enormemente  os  pequenos  industrialistas,  pela  sua  fácil  e 

388 

Jornal


 O 5 de Abril

, 24/06/1927 

389 

Ibidem, 06/05/1927




pouco onerosa aquisição, tem ainda a vantagem de poder disseminar­se 

por  todo  o  território  de  um  município,  concorrendo  assim  para  o 

desenvolvimento  de  uma  circunscrição  inteira  e  proporcionando,  ao 

mesmo  tempo,  ao  homem,  a  felicidade  de  trabalhar  em  seu  próprio  lar, 

ao lado de sua família e, quando for possível, com o auxílio desta. 

Aqui mesmo em Novo Hamburgo, muitos operários já trabalham em suas 

casas, em artefatos de couro e mesmo em calçados, para várias fábricas, 

com máquinas próprias movidas por aquela força. 

Dessa  maneira,  pois,  o  homem  não  só  trabalha  mais  a  sua  vontade,  e 

com  maior  proveito,  por  estar  ao  lado  de  sua  família,  que,  em  muitos 

casos,  o  pôde  substituir,  como,  também,  aufere  maiores  lucros  e 

aproveita melhor o tempo. 

Feliz  o  Estado  ou  Município  que  puder  proporcionar  a  todos  os  seus 

habitantes meios de força motriz assim tão fáceis e econômicos. [...] 

390 

O artigo termina dizendo que o município reconhece as múltiplas vantagens 



e  melhorias  decorrentes  de  uma  boa  fonte  de  energia  elétrica  e  está  se 

empenhando  ao  máximo  para  resolver  o  mais  brevemente  possível  esse 

importante  problema  que,  “sem  dúvida  nenhuma,  envolve  um  dos  principais 

interesses do laborioso povo novo­hamburguez!” 

Uma  questão  que  chamou  nossa  atenção  foi  uma  matéria  d’O  5  de  Abril 

que  afirma  que,  além  de  promover  o  desenvolvimento  urbano,  a  energia  elétrica 

influenciaria  “a  formação  do  nosso  caráter,  dos  nossos  costumes  e  da  nossa 

mentalidade em geral.” 

391 

Uma  cidade  mais  iluminada  traria,  teoricamente,  mais  segurança  à 



população,  as  pessoas  poderiam  sair  mais  tranquilamente  à  noite,  poderiam 

realizar tarefas domésticas e profissionais até mais tarde, por exemplo, mas o que 

poderia significar uma mudança de caráter? Ou de mentalidade? Provavelmente o 

exagero  nessas  colocações  deve­se  ao  objetivo  de  mexer  com  o  imaginário  das 

390 

Jornal


 O 5 de Abril

, 02/09/1927 

391 

Ibidem, 09/09/1927




lideranças intelectuais da cidade, a ponto de acreditarem que o caráter de alguém 

poderia ser modificado com o acesso a mais tempo de iluminação artificial. 

Segundo o mesmo jornal, a Intendência Municipal abriu as propostas para o 

fornecimento de energia, e foram apresentadas nove, duas assinadas por Rudolfo 

Motz e Júlio Aichinger, e sete delas pela empresa Pedro Adams Filho e Cia. 

O  jornal  mostrava,  de  maneira  explícita,  que  havia  um  interesse  dos 

industriais  nessa  questão,  pois  o  progresso  de  seus  negócios  dependia  disso. 

Além  disso,  dizia  que  o  cidadão  poderia  também  participar  da  empresa  de 

fornecimento de energia comprando ações. 

[...] Efetivamente, o plano desses industrialistas, que se baseia no grande 

ideal pelo qual há muito nos vimos batendo – a união dos industrialistas 

de  Novo  Hamburgo  –  nos  vem  proporcionando  nova  oportunidade  para 

formarmos  um  bloco  industrial,  que  poderá  ter  uma  influencia  no  nosso 

desenvolvimento  econômico,  que  nem  de  longe,  se  pode,  de  momento, 

prever.  Realmente é  por demais  conhecido  o  velho  adágio  “União  faz  a 

força”  para que ainda  percamos tempo  em  discutir  esse assunto.  O que 

ainda  falta a alguns, é a boa  vontade de envidar  todos  os esforços para 

se conseguir esse invejável Estado que tão grandes vantagens irá trazer­ 

nos.  Quanto á companhia  a fundar­se, será  ela em ações de  200$ cada 

uma,  de  maneira  que  quase  todo  o  morador  pode  tornar­se  acionista, 

tendo  assim  oportunidade  de  participar  dos  lucros  da  nova  empresa  e, 

tendo  lucro,  naturalmente  também  se  interessará  pelo  seu  progresso  e 

desenvolvimento. [...] 

392 


Depois de vários pareceres técnicos favoráveis, Pedro Adams Filho venceu 

a  concorrência  firmando  contrato  em  dezembro  do  mesmo  ano.  Formava­se, 

então, a

 Energia Elétrica Hamburguêsa Ltda

., que  adquiriu  a concessão da firma 

citada  e  comprou  todas  as  instalações  e  acessórios  ainda  pertencentes  à 

Intendência  Municipal.  A  nova  empresa  comprometeu­se  a  colocar  um  motor  de 

392 


Jornal

 O 5 de Abril

, 30/09/1927



“600  cavallos”,  além  de  um  de  200  que  já  existia,  o  que  resolvia  o  problema 

naquele  momento.  A  nova  empresa  comprometia­se  a  não  alterar  os  preços  da 

luz. 

Segundo  Gertz, 



393 

os  acontecimentos  nos  bastidores  continuaram  mesmo 

tendo  o  problema  sido  resolvido.  Alguns  meses  depois  de  terminada  a 

concorrência  pública,  pessoas  ligadas  a  Motz  e  Aichinger,  que  haviam  perdido  a 

concorrência  para  Adams,  iniciaram  uma  divulgação  sobre  o  preço  de 

fornecimento de energia que São Leopoldo poderia oferecer e que era  inferior ao 

que cobrava a nova empresa de Adams. 

Dessa  forma,  alguns  industrialistas  da  oposição  de  Novo  Hamburgo 

iniciaram  conversações  com  João  Corrêa  para  a  assinatura  de  um  contrato  de 

abastecimento  de  energia  para  esses  industriais  e  outras  pessoas  interessadas. 

Esse contrato acabou sendo assinado em dezembro de 1927. 

Foi  elaborado  um  contrato  entre  Corrêa,  por  um  lado,  e  Guilherme 

Ludwig,  Rodolfo  Motz,  Albino  Momberger,  Emílio  Strassburger  e 

D’Angello/Sperb e Cia., representado por Nicolau Angello, de outro, para 

quebrar o monopólio de  Pedro Adams,  que  se teria  instituído  a  partir  de 

um edital de concorrência quase “despercebido”. 

394 

Esse  fato  nos  mostra,  mais  uma  vez,  que  os  sujeitos  não  são  entidades 



dotadas de um único sentido, ou seja, não podemos buscar coerências na história 

de uma vida. Adams foi considerado por uma parcela da sociedade, um “salvador” 

em função de suas abnegação aos problemas de Novo Hamburgo, mas, por outro 

393 


GERTZ, op. cit. p.233 

394 


Ibidem, p. 233


lado,  foi  considerado  pouco  ético  por  aproveitar­se  de  uma  dificuldade  para 

assumir uma empresa que lhe traria vantagens econômicas óbvias. 

Mesmo  com  todas  essas  discussões  decorrentes  das  rivalidades  e 

descontentamento  de  São  Leopoldo  com  os  rumos  tomados  pelo  seu  antigo 

distrito, 

395 


durante  alguns  anos  o  fornecimento  foi  normalizado,  pois  as  linhas 

distribuidoras  existentes  foram  melhoradas  e  outras  construídas,  além  da 

instalação de motores mais novos e com maior capacidade. 

Entretanto,  alguns  setores  da  comunidade  não  concordaram  com  a 

concorrência  pública  e  com  o  contrato  firmado  com  a  empresa  de  Pedro  Adams 

Filho.  Foi  publicado  um  artigo  no

  Correio  do  Povo

  criticando  as  negociações 

relacionadas  à  questão  do  fornecimento  de  energia  e,  segundo  o  jornal

  O  5  de 

Abril

,  houve  uma  “tenaz  campanha  difamatória”  contra  o  contrato  firmado  cujo 



único objetivo era “crear difficuldades a organização da companhia”. 

[...] Depois de tudo aprovado pelo conselho municipal o Intendente Major 

Leopoldo  Petry,  por  um  dever  disciplinar  e  de  justificado  escrúpulo, 

submeteu o dito contrato á opinião das autoridades superiores do Estado, 

que julgaram­no perfeitamente de acordo com as formalidades legais. [...] 

Tal  atitude  (campanha  difamatória),  não  produziu  os  desejados  efeitos, 

pois,  ao  ser  aberta  ontem  a  lista  de  subscritores  de  cotas  para  a 

organização  da  companhia,  atingiu  esta,  em  poucas  horas  a  importante 

cifra de  seiscentos e vinte e dois  contos,  o que prova cabalmente que a 

propaganda  contraria  não  encontrou  guarida  no  seio  da  honrada  e 

laboriosa classe comercial de Novo Hamburgo. [...] 

A  firma  concessionária  tem  o  intuito  de  abdicar  do  privilégio que  possui, 

afim de  que, a Companhia  de Luz e  Força  de Novo Hamburgo  torne­se 

uma  empresa  pertencente  á  indústria  e  ao  comércio  locais,  para  que 

possamos  ter  energia  e  iluminação  sob  a  fiscalização  de  todos,  e ainda 

com a grande vantagem de ser nossa, inteiramente nossa. 

396 

395


 

A direção do PRR de Novo Hamburgo foi  queixar­se a Borges: “[...] contando com a estranha 

interferência do cel. João Corrêa, intendente de São Leopoldo, procura a oposição [...] a fim de que 

a  intendência  de  São  Leopoldo  forneça  energia  elétrica  por  preço  ínfimo”  o  que  mostraria  a 

“evidente  má  vontade  da  administração  de  São  Leopoldo,  que  chaga  a  conluiar­se  com  o 

adversário.”

 Ibidem, p.233 

396 


Jornal

 O 5 de Abril

, 20/01/1928



Não  foram  divulgados  os  reais  motivos  da  “campanha  difamatória”,  mas 

parece  que  havia  grupos  interessados  que  não  conseguiram  a  concessão,  daí 

suas críticas  à  concorrência  dirigida  pelas  autoridades  municipais.  Não  podemos 

esquecer,  também,  que  Novo  Hamburgo  tinha  conquistado  sua  emancipação  há 

oito meses, o que causou descontentamento por parte de grupos do município de 

São Leopoldo. 

Essa  rixa  entre  as  duas  cidades  está  no  bojo  dos  inícios  do  processo  de 

emancipação  de  Novo  Hamburgo,  o  qual  vai  perdurar  por  muitos  anos,  Não 

podemos  afirmar  as  razões  que  levaram  à  campanha  contra  a  concessão  para 

Pedro Adams Filho. Para exemplificar o tom  desse enfrentamento iniciado, temos 

a nota publicada pelo jornal

 Deutsche Post

, de São Leopoldo: 

Desde o início do mês a Companhia Energia Elétrica Hamburguesa 

assumiu o fornecimento de luz e energia. Mas, ó pena! Já no dia 7 faltou 

energia. Por quê? A um pedido de informação veio a resposta de que por 

causa  do  feriado católico a  usina  não  trabalhava.  A  famosa  ‘Manchester 

do  Brasil’  encontrava­se,  portanto,  sem  energia.  Se  a  coisa  começa 

desse jeito, pode ficar engraçada! 

397


 

O  5  de  Abril

  responde  de  forma  irônica:  “São  essas  as  palavras  que  o 

Deutsche Post emprega e que novamente vêm demonstrar o alto grau de simpatia 

para conosco que o anima. Continue assim que vai bem!” 

398 


Diante  desse  estado  de  ânimo,  em  março  de  1928  foi  realizada  uma 

assembléia  dos  cotistas  para  a  constituição  da

  Sociedade  Energia  Electrica

 

397



 

Deustche Post

 apud, GERTZ op.cit. p.234 

398 


Jornal

 O 5 de Abril

, 26/06/1928



Hamburgueza Ltda

., em que compareceram 29 pessoas físicas ou jurídicas 

399 

que 


representavam  83%  do  capital  subscrito.  Nessa  assembléia  foi  eleito,  por 

unanimidade, Pedro Adams Filho como diretor­gerente, José J. Martins como seu 

suplente  e  o  conselho  fiscal  foi  composto  por  João  Wendelino  Hennemann  e 

Adams, Becker & Cia. 

Figura 62 ­ Jornal

 O 5 de Abril

, 16/03/28 (APVS) 

399 


Os  cotistas  eram  os  seguintes:  Pedro  Adams  Filho,  Pedro  Adams  Filho  e  Cia.,  Sociedade 

Terrestre  e  Agrícola  Adams  &  Englert,  José  J.  Martins,  A.  Jaeger  &  Cia.,Oscar  R.  Jung,  Nedel, 

Jung, Herrmann & Cia., Emilio Leyser, João Lackman, Vva. Fr. Hammer e Fos., Adams, Becker & 

Cia.,  A.  Hugo Lipp,  Alonso  Bernd,  Manoel  da  Silva Quintas,  Egon  Leyser,  Martin  Pilger,  Fridolino 

Hack, Pedro Alles & Cia., Breidenbach, Mosmann & Cia., Dr. René Ledoux, Oscar Lackmann, Hans 

Nauer  &  Cia., Erich Gaeversen, Eduardo  Schall,  João  F.  Schneider,  Alberto  Muller, Zeno  Adams, 

Telmo José Alles e André Kilpp. Jornal

 O 5 de Abril

, 16/03/1928



O jornal

 O 5 de Abril

, em sua edição de 13 de abril de 1928, transcreve um 

artigo  publicado  no  jornal

  Diário  de  Notícias

,  de  Porto  Alegre,  no  qual  há  uma 

crítica  às  cláusulas  de  exclusividade  na  exploração  dos  serviços  de  bondes, 

energia  e  luz  elétrica  previstos  para  Novo  Hamburgo.  Segundo  o

  Diário  de 

Notícias


,  a  exclusividade  é  um  privilégio  proporcionado  ao  concessionário  que  o 

protege  de  quaisquer  problemas  que  possam  surgir,  e  sinaliza  no  sentido  das 

vantagens da livre concorrência.

 O 5 de Abril

 não se posiciona, apenas reproduz o 

artigo, mas se pode imaginar que considere importante não perder de vista essas 

questões, entretanto, não quer se expor manifestando uma opinião que possa ferir 

os interesses das lideranças políticas e econômicas da cidade. 

Nessa  mesma  edição,  publica  um  anúncio,  reproduzido  a seguir,  assinado 

por  Pedro  Adams  Filho,  informando  que  todos  os  bens  móveis  e  imóveis, 

máquinas e acessórios da usina elétrica pertencentes à empresa de Adams agora 

passariam para a

 Sociedade Energia Elétrica Hamburgueza Ltda.

 

Figura 63 ­ Jornal



 O 5 de Abril

, 13/04/1928 (APVS)




Após oito meses da instalação da Sociedade, Adams publica outro anúncio 

onde torna público à população que a nova distribuidora de energia tem condições 

de  atender  a  qualquer  pedido  de  ligação  de  luz  ou  força.  Ao  mesmo  tempo, 

demonstrando  uma  preocupação  com  o  bem­estar  da  comunidade,  afirma  que  a 

Sociedade  seria  muito  grata  se  “cada  assignante  participasse  por  escripto  ao 

Diretor  desta  Empreza,  snr.  Pedro  Adams  Filho,  qualquer  anormalidade  que 

succeder na rede elétrica.” 

400 


Figura 64 ­ Jornal

 O 5 de Abril

, 30/11/1928 (APVS) 

As  indústrias  locais  tiveram  um  crescimento  considerável,  decorrente  da 

melhora no abastecimento, o que acabou demandando mais energia. Isso obrigou 

a

  Energia  Elétrica  Hamburguesa  Ltda.



  a  adquirir  a  cascata  do  Herval,  no  rio 

Cadeia,  para  iniciar  a  construção  de  uma  usina  hidrelétrica  com  capacidade  de 

400 

Jornal


 O 5 de Abril

, 30/11/1928




2.000  HP,  e  que  solucionaria  por  um  bom  tempo  o  problema  das  indústrias,  das 

residências e da iluminação pública. 

401 

Um  fato  importante  a  salientar  é  que  a  energia  em  Novo  Hamburgo  era 



mais barata por ser proveniente de empresa nacional, enquanto a de Porto Alegre, 

de  origem norte­americana, era mais  cara. Em  1929, parte  da  iluminação  pública 

de  Novo  Hamburgo  era  gratuita  e  o  quilowatt  por  força  era  de  quatrocentos  réis, 

no máximo. Já em Porto Alegre, a iluminação pública era toda paga e o quilowatt 

não custava menos de mil réis. 

402 


Já em 1928, o jornal

 O 5 de Abril

 sinalizava essa questão de preço dizendo 

que  com  as  novas  instalações  da  usina  “teremos  luz  e  força  excellente,  em 

abundancia e a mais barata do Estado.” 

403 


Nesse  mesmo  ano,  quando  foi  anunciada  a  implantação  de  uma  usina 

elétrica  com  capital  norte­americano  em  Montenegro,  a  imprensa  criticou  essa 

“invasão  do  capital  americano  que  conquistava  o  apoio  dos  homens  de 

consciência  ofuscada”  e  ressaltava  que  em  Novo  Hamburgo  “o  dinheiro  sai  do 

bolso do contribuinte brasileiro e entra para o bolso do industrial brasileiro” 

404 


; ou 

seja,  pagar  imposto  para  uma  empresa  nacional  era  aceitável,  mas  para  uma 

empresa estrangeira, não. 

401 


PETRY, op. cit. p.94,95 

402 


Jornal O 5 de Abril, 09/05/1930 

403 


Jornal

 O 5 de Abril

, 26/10/1928 

404 


Jornal

 O 5 de Abril

, 21/06/1929



O apoio dado  à  empresa local  era explícito,  ainda  mais  se  tratando de um 

dos  empresários  mais  envolvidos  com  as  questões  comunitárias  e  dos  mais 

engajados politicamente. 

Um  dado  importante  a  salientar  é  que  Adams,  além  de  ser  presidente  da 

companhia  de  energia, era  um  dos principais  plantadores de  eucalipto  da cidade, 

juntamente com seus amigos Jacob Kroeff Neto e Guilherme Ludwig. 

Segundo  Petry,  esse  problema  da  falta  de  lenha  era  antigo,  tendo  sido 

inclusive  alvo  de  um  movimento  reivindicatório  pelas  donas  de  casa  que  exigia 

uma  atenção  do  poder  público  em  relação  a  essa  questão,  pois  a  lenha  era 

fornecida por cidades vizinhas e estava cada vez mais escassa. 

405 

Como  possibilidade  de  solucionar  o  problema  e  como  uma  boa 



oportunidade  de  negócio,  Adams  aponta  para  o  cultivo  de  eucalipto,  pois  sabia 

que  a  cidade  teria  que  comprar  de  alguém  esse  combustível  para  a  companhia 

elétrica. Por que, então, ele não poderia fornecê­lo? 

Embora o investimento em energia elétrica tenha sido uma das prioridades 

do município, essa questão continuaria sendo um problema para o crescimento da 

cidade por muito tempo ainda, porque depois de todo esse investimento em usina 

hidrelétrica, em 1933 o jornal local assim se refere à questão: 

Efetivamente,  não  é  das melhores  a  impressão  que  se  tem,  a  noite,  da 

iluminação  nas  ruas  e  pior  da  nossa  pracinha.  Já  não  queremos  exigir 

que  as  lâmpadas  nas  ruas  sejam  aumentadas  ou  substituídas  por  mais 

fortes,  mas  torna­se  necessário  uma  substituição  na  praça  14  de  julho, 

que  a  noite  parece  um  doente,  de  olhar  tristíssimo,  esperando  a  hora 

405 

PETRY op. cit. 1.ed. p.96,97.




fatal. É ela o ponto

 chic


 da nossa vila e cremos que, se mesmo aumentar 

as  despesas,  uma  substituição  de  lâmpadas,  estas  serão  melhor 

compensadas, com o aspecto que então apresentará, do que a economia 

com essa carinha triste e melancólica. 

406 

Essa  questão  da  energia  elétrica  mostra­nos  e  exemplifica  o  caráter 



empreendedor de Adams, pois, já que era uma pessoa politicamente influente, ele 

poderia  ter  pressionado  o  poder  público  para  resolver  um  problema  que  era 

fundamental  para  o  progresso  econômico  da  cidade  e  que  não  poderia  ser 

negligenciado.  Porém,  preferiu  ele  mesmo  assumir  o  risco  do  negócio  que  lhe 

rendeu muitas críticas das lideranças de São Leopoldo que não queriam perder o 

fornecimento de energia para Novo Hamburgo. 

Dentre  os  conceitos  de  empreendedorismo  utilizados  para  este  trabalho, 

podemos  dizer  que  Adams  possuía  características  de  vários  deles,  pois  ele 

assumiu  a  empresa  prestadora  de  serviço,  apostando  que  poderia  mudar  o 

ambiente  em  que  estava  inserido.  A  seguir,  ele  detectou  oportunidade  para  criar 

ou  gerenciar  um  negócio  e  capitalizar  sobre  ele,  mesmo  havendo  alguns  riscos. 

Ele  transformou  esse  problema  em  uma  oportunidade  de  negócio  viável  e, 

finalmente,  tomou  para  si  a  responsabilidade  de  controlar  o  destino  de  sua 

empresa. 

Por outro lado, como já fizemos menção anteriormente, o fato de Adams ter 

assumido  para  si  a  responsabilidade  pelo  fornecimento  da  energia,  não  significa 

que  ele  era  um  cidadão  desprendido  e  interessado  apenas  no  bem  comum. 

406 


Ibidem, 07/04/1933


Obviamente,  seus  interesses  pessoais  influenciaram  enormemente  no  seu 

envolvimento nessa questão. 

O  comprometimento  de  Adams  com  a  comunidade  é  o  tema  do  próximo 

capítulo, em que trataremos, também, de suas atividades políticas.




CAPÍTULO 3 – ATIVIDADES POLÍTICAS E VIDA COMUNITÁRIA 

3.1 – As atividades políticas e a emancipação da cidade 

A  atuação  política  de  Pedro  Adams  Filho  na  cidade  de  Novo  Hamburgo 

iniciou em 1917, dez anos antes de sua emancipação e, ao lado de sua empresa, 

teve  importância  central  na  sua  vida.  Com  a  idade  de  47  anos,  ele  foi  escolhido 

para  representar  o  Partido  Republicano  Rio­Grandense  na  cidade  de  Novo 

Hamburgo 

407 


. Foi durante dez anos conselheiro municipal representando o distrito 

de  Hamburger  Berg  na  Câmara  de  São  Leopoldo  e  um  dos  líderes  da 

emancipação do município. 

407 


Com a proclamação da República, o Estado do  Rio Grande do  Sul elegeu de forma indireta o 

republicano  Júlio  de  Castilhos,  político  de  inspiração  positivista,  que  acreditava  num  governo 

autoritário  e  centralizador,  que  promoveria  o  progresso  econômico  dentro  da  ordem  social. 

Castilhos  foi  um  dos  principais  responsáveis  pela primeira  constituição  republicana do  Estado  de 

cunho altamente autoritário e centralizador. Entretanto, havia grupos descontentes com o rumo que 

a  política  gaúcha  vinha  tomando  e,  assim,  foi  formado  o  Partido  Republicano  Federal  que  se 

opunha  ao  governo  e  que  chegou  a  depor  Júlio  de  Castilhos  e  anular  a  Constituição  de  1891. 

Porém,  já  no  ano  seguinte,  o  Partido  Republicano  Rio­Grandense,  criado  em  1882,  aliado  ao 

Exército, reconduziu Castilhos ao poder e nas eleições de 1893 o mesmo político sai vitorioso das 

eleições.  Em 1898 Castilhos  é substituído por Borges de  Medeiros que dá continuidade à política 

positivista  autoritária  e  centralizadora de  seu  antecessor, portanto,  até  o  final da  Primeira  Guerra 

Mundial,  o  PRR  se  manteve  no poder  sem maiores  problemas,  conciliando  interesses  de  grupos 

dominantes  ligados  ao  comércio,  indústria,  agricultura  e  camadas  médias  urbanas,  além  da 

coerção levada a efeito pelo Exército e Brigada Militar. PESAVENTO, 1979. op. cit.




Vimos que Adams, primeiramente, dedicou­se aos seus negócios e não se 

envolveu  diretamente  nas  questões  políticas  e,  em  segundo  lugar,  à  liderança 

comunitária, que o levou a participar mais efetivamente da política. 

Assim, em 1917, ele tornou­se representante do distrito de Hamburger Berg 

na Câmara Municipal da cidade de São Leopoldo, à qual Novo Hamburgo estava 

ligada, representando o PRR. Adams, há algum tempo, já exercia o papel de chefe 

local desse partido. 

Adams  participava  da  vida  pública,  provavelmente,  porque  sabia  que  o 

desenvolvimento econômico da cidade somente dar­se­ia se viesse acompanhado 

de decisões políticas favoráveis aos negócios da comunidade, e, na sua atuação, 

sempre  buscou  defender  os  interesses  locais  que,  muitas  vezes,  eram 

minimizados pelos representantes de São Leopoldo. 

408 

408 


É  importante  lembrar  que  durante  os  anos  20,  o  Estado  gaúcho  se  achava  numa  situação 

periférica  em  relação  ao  centro  do  país  e  as  suas  decisões.  Entretanto,  sempre  foi  um  Estado 

importante no Congresso Nacional, já que sua bancada era numerosa e isso garantia um poder de 

barganha considerável. 

A  situação  econômica  do  Estado  também  era  peculiar,  pois  como  seus  principais  produtos 

econômicos  tinham  no  mercado  interno  sua  colocação,  os  interesses  dos  grandes  exportadores 

não  tinham  grande  relevância  local.  Essa  situação  foi  modificada  no  pós­guerra,  já  a  situação 

européia  também  se  transforma  repercutindo  na  economia  local  e  sendo  uma  das  responsáveis 

pela crise que assolou o Rio Grande do Sul nos anos 20, principalmente na pecuária e na lavoura 

colonial. Aliado à crise econômica, a política federal de proteção ao café descontentou a oposição 

gaúcha,  descontentamento  agravado  pela  vitória  de  Artur  Bernardes,  que  representava  a 

continuidade da política econômica federal. 

No  Estado gaúcho,  Borges de  Medeiros passou  a ser cobrado pelos pecuaristas  por uma política 

de apoio maior, o que não aconteceu, gerando, assim, uma nova revolta das elites econômicas no 

Estado: a revolução de 1923 sob a liderança de Assis Brasil. 

Nessa  revolução  se  formaram  3  grupos:  os  federalistas,  os  democratas  e  os  republicanos 

dissidentes que, mais tarde, deram origem à Aliança Libertadora. Os revoltosos pretendiam que o 

governo federal interviesse no Estado, o que não aconteceu. 

Essa revolta terminou com um acordo chamado Pacto de Pedras Altas, que determinou a revisão 

da  Constituição e a não  reeleição de Borges  de  Medeiros  que  já estava  em  seu  quinto mandato. 

PESAVENTO, 1979. op. cit.



A rivalidade entre São Leopoldo e a vila de Hamburger Berg, o 2º. distrito, é 

muito  antiga.  Não  se  pode  precisar  exatamente  quando  iniciou,  mas  podemos 

deduzir  que  o  desenvolvimento  econômico  da  segunda  incitou  os  ânimos  de 

grupos  políticos  e  empresários  locais  que,  desde  logo,  viram  a  possibilidade  de 

administrarem a cidade e seus recursos de forma autônoma. 

René  Gertz 

409 

,  analisando  o  jornal



  Deutsche  Post

 

410 



,  diz  que  essa 

rivalidade  fica  clara  quando,  em  1924,  iniciaram­se  as  discussões  a  respeito  da 

construção  de  um  monumento  comemorativo  ao  centenário  da  imigração  alemã 

que,  tanto  São  Leopoldo  quanto  Novo  Hamburgo,  queriam  em  sua  localidade. 

Para  iniciar  a  coleta  de  verbas  para  a  construção  do  monumento,  foram  criadas 

duas comissões paralelas  que  mais  tarde se unificariam,  quando  foi decidido  que 

seriam  construídos  dois  monumentos  para  contemplar  as  duas  cidades.  São 

Leopoldo  ficava  com  o  monumento  do  desembarque  dos  colonos,  e  Hamburger 

Berg com o da colonização. 

411 


409 

GERTZ,  René.

 O  Aviador e o  Carroceiro

  –  Política,  etnia  e  religião no RS dos  anos 20.  Porto 

Alegre: Edipucrs, 2002. p. 206 

410 


Jornal evangélico, de conteúdo político­confessional, criado pelo pastor Wilhelm Rotermund em 

1880 e que circulou até 1928. 

411

 

[...] O suntuoso edifício foi erguido no terreno que fazia parte do lote número 1 da “colônia da 



Costa  da  Serra”,  pertencente  a  Libório  Mentz,  imigrante  chegado  na  segunda  leva  em  6  de 

novembro  de  1824.  Sua  estrutura  em  tijolo  e  cimento  armado  media  23  metros  de  altura  e  era 

guarnecido por 8 colunas redondas. Em seu interior havia escadas que davam acesso às sacadas. 

Nas quatro faces viam­se placas de mármore com os seguintes dizeres: “100 anos da colonização 

–  em  comemoração  ao  centenário  da  colonização  alemã  no  Rio  Grande  do  Sul  1824­1924. 

Honrando  os  pais,  ensinando  os  filhos”.  Com  o  marco  inicial  da  obra  posto  no  ano  de  1924,  o 

“sumptuoso monumento, erigido numa das mais pitorescas colinas de Hamburgo Velho”, levou três 

anos  para  ser  concluído.  [...]

  SELBACH,  Jeferson.

  Pegadas  Urbanas

  –  Novo  Hamburgo  como 

palco do flâneur. Cachoeira do Sul: Ed. do Autor, 2006. p.121




A  comissão  de  Novo  Hamburgo  tinha  como  um  dos  representantes  Júlio 

Adams,  filho  de  Pedro  Adams  Filho,  que  procurava  envolver  seus  filhos  nas 

atividades políticas que considerava importantes. 

412 


Essa comissão percorreu  diversos  municípios  com  o  objetivo  de arrecadar 

fundos para  os monumentos,  e levar  o

 “livro­ouro”

, no qual as pessoas  poderiam 

opinar  a  respeito  da  colonização  alemã  no  Estado.  Segundo  Weber,  “essa 

integração permite afirmarmos que a preparação dos festejos foi um momento em 

que algumas rivalidades internas de ordem diversa foram suspensas em favor de 

interesses da coletividade.” 

413 

Figura 65 ­ Monumento ao Imigrante 



Pedro  Adams  Filho,  como  conselheiro  representante  do  2º.  distrito,  teve 

uma  importante  atuação  em  muitas  dessas  discussões  que  colocavam  as  duas 

localidades  em  confronto,  conforme  podemos  observar  nas  atas  do  Conselho 

Municipal. A principal delas, entretanto, foi a questão da emancipação, que requer 

412 

Segundo depoimento de Pedro Adams Neto, concedido em abril de 2006. 



413 

WEBER, op. cit. p.39




uma  análise  mais  detalhada,  pois  foi  um  movimento  fundamental  para  a  história 

política  do  município,  o  que  implica  examinar  a  posição  de  um  empreendedor 

local, no sentido que damos a essa condição de Pedro Adams. 

O  movimento  emancipacionista  já  vinha  sendo  pensado  desde  o  início  da 

República,  pois,  em  1897,  foi  encaminhado  um  memorial  ao  Conselho  Municipal 

de  São  Leopoldo,  pedindo  a  desanexação  do  distrito,  e  a  formação  de  um  novo 

município, que se limitaria ao sul com o Rio dos Sinos.  O Conselho do município 

vizinho  indeferiu  a  solicitação,  mas  esse  fato  já  mostrava  o  desejo  da 

emancipação política. 

Entretanto, o fator que desencadeou a luta do distrito pela sua emancipação 

foi  a  negativa  da  intendência  de  São  Leopoldo  em  pagar  parte  da  construção  da 

primeira  ponte  sobre  o  arroio  Luiz  Rau  no  ano  de  1920.  Essa  ponte  era 

importante, pois representava um avanço para a circulação de pessoas e para os 

negócios da cidade. 

414 

Leopoldo  Petry,  em  um  artigo  no  jornal



  O  5  de  Abril

  intitulado  “A 

emancipação de Novo Hamburgo”, lembra que 

[...]  O  plano  de  criação  de  um município  com  sede  em  Novo  Hamburgo 

[...] já  era muito  velho. Nasceu logo depois  de terminada a  revolução  de 

1893.  Foi,  porém,  abandonado,  [...]  mas  não  chegou  a  morrer.  Sempre 

vivia no íntimo de muita gente boa. 

Foi  em  maio  de  1924.  Numa  roda  de  chimarrão,  no  escritório  do  Sr. 

Pedro  Alles,  conversei  com  aquele  cidadão,  sobre  a  idéia  que  tinha,  de 

dar alguns passos para ver  si  seria possível separar Novo Hamburgo de 

S. Leopoldo, pois, como simples distrito, não havia possibilidade para um 

desenvolvimento  dos  recursos  de  sua  potencia  industrial,  aliada  a  sua 

posição  privilegiada,  como  centro  para  onde  naturalmente  converge  o 

414 


PETRY, op. cit. p.39


comércio  de  uma  grande  e  próspera  zona  agrícola,  que  forma  o  seu

 

hinterland



O  sr.  Alles  abraçou  com  entusiasmo  o  meu  pensamento  e  já  dois  dias 

depois fomos procurar o dr. Jacob Kroeff Netto, então deputado estadual, 

a  quem  expomos  o  nosso  projeto.  Após  alguma  hesitação,  este 

concordou  conosco.  Fomos  em  seguida  expor  o  nosso  plano  ao 

conselheiro  municipal  sr.  Pedro  Adams  Filho,  o  qual  imediatamente  se 

prontificou a acompanhar­nos nos passos que íamos dar. [...] 

415 


Pedro  Adams  Filho  e  Jacob  Kroeff  Neto 

416 


,  deputado  estadual  e 

industrialista,  uniram­se  na  indignação  e  perceberam  que  não  poderiam  contar 

com  São  Leopoldo  para  os  melhoramentos  da  cidade  e,  principalmente,  à 

expansão  de  seus  negócios.  Para  isso  teriam  que  continuar  investindo  recursos 

próprios.

Kroeff, juntamente com Adams, era  uma  das principais  lideranças políticas 

de  São  Leopoldo  e  ambos  vinham  atuando  juntos  há  bastante  tempo.    Segundo 

Gertz, 


[...]  Carta  de  6  de  junho  de  1919  a  Borges  de  Medeiros,  assinada  por  Jacob 

Kroeff  Neto,  Pedro  Adams  Filho  e  José  Martins  informou  que  cerca  de  dois 

meses  antes  os  signatários  tinham  estado  com  o  “Dr.  Intendente”  [Gabriel 

Azambuja  Fortuna]  e  obtido  dele  a  promessa  de  que  não  seriam  mudados  os 

nomes de Novo Hamburgo e Hamburger Berg (Hamburgo Velho). Mas em 28 de 

fevereiro o intendente mudara o primeiro desses nomes para Borges de Medeiros, 

e em 11 de junho rebatizara o segundo para Cel. Genuíno Sampaio. Questionado, 

Azambuja  Fortuna  teria  dito  que  agira  assim,  porque  não  fora  desafiado,  e  não 

poderia parecer germanófilo nem medroso. 

417 


415 

Jornal


 O 5 de Abril

, 08/04/1932 

416 

Neto do imigrante alemão Jacob Kroeff que se estabeleceu como hoteleiro em Hamburgo Velho 



por  volta  da  metade  do  século  XIX  e  filho  de  Jacob  Kroeff  Filho,  açougueiro,  que  se  tornou 

proprietário  de um dos maiores matadouros da  região (Matadouro  Kroeff, onde também  fabricava 

conservas de carne) e era proprietário de fazendas e estâncias no Alto da Serra. A partir de 1887 

tornou­se  conselheiro  municipal  de  São  Leopoldo  e  de  1892  a  1905  foi  deputado  estadual  pelo 

partido republicano. Jacob Kroeff Neto era advogado formado pela primeira turma da Faculdade de 

Direito de Porto Alegre e elegeu­se deputado estadual em 1904 permanecendo no cargo até 1929, 

além de cuidar dos empreendimentos da família, em especial do Matadouro Kroeff. GERTZ, op. cit. 

p.177,178 

417 

Ibidem, p.182




Entretanto,  Borges  não  aceitou  a  homenagem,  e  os  antigos  nomes  foram 

mantidos. 

Daí  para  a  organização  de  um  grupo  de  comerciantes  e  industriais 

favoráveis  à  separação  foi  um  passo,  pois  o  distrito  já  vinha  demonstrando 

pujança e força econômica muito grande, não precisando mais da tutela da cidade 

vizinha. 

Aliada  a  esse  interesse  coletivo  pela  emancipação,  foi  organizada,  como 

mencionado,  a  1.ª  Exposição  Industrial  de  Novo  Hamburgo,  em  1924.  A  festa 

comemorou  o  centenário  da  imigração  alemã  na  região,  e  demonstrou,  pela 

pujança,  que  Hamburger  Berg  tinha  condições  econômicas  suficientes  para  sua 

independência  política.  O  fato  de  a  exposição  não  ter  acontecido  em  São 

Leopoldo,  sede  do  distrito,  constituiu­se  em  um  indicativo  da  importância 

econômica do 2º. distrito. 

O  grupo  responsável  pela  campanha  emancipacionista  foi  formado 

exatamente  pelos  organizadores  dessa  exposição:  Jacob  Kroeff  Neto,  Pedro 

Adams Filho, Leopoldo Petry 

418 

, André Kilpp 



419 

, Júlio Kunz 

420 

, José João Martins 



421 

e Carlos Dienstbach 

422 



418 



Leopoldo  Petry  assumiu  em  1917  o  cargo  de  secretário  da  Intendência  Municipal  de  São 

Leopoldo,  permanecendo até 1923.  Mais  tarde  foi  coletor estadual  de  Novo  Hamburgo  até  1927, 

quando  iniciou  sua  carreira política  ao  ser  eleito  intendente da  cidade  de Novo Hamburgo, cargo 

que manteve  até  1930,  quando  foi  preso por  alguns  dias  por não  aderir  à  Frente  Única,  que  era 

muito forte na região. Em 1931 foi nomeado ajudante do Cartório de Notas e Registro de Imóveis 

de  Novo Hamburgo e aposentou­se na função de titular.Foi presidente  da comissão  executiva  do 

Partido Republicano, ao qual era filiado. Era, também, escritor e jornalista. Jornal

 NH,


 05/04/2002 

419 


André Kilpp era major do Exército, coletor federal e membro do Partido Republicano. Passou a 

residir em Novo Hamburgo após seu casamento. Jornal

 NH,

 05/04/2002




Figura 66 ­ Sentados (esquerda para direita): Pedro Adams Filho, Jacob Kroeff Netto, Júlio Kunz e 

André  Kilpp.  Em  pé  (esquerda  para  direita):  Leopoldo  Petry,  José  João  Martins  e  Carlos 

Dienstbach. Jornal

 NH


, 05/04/2002 (APNH) 

A  primeira  tentativa  efetiva  pela  emancipação  ocorreu  em  17  de  maio  de 

1924, quando alguns membros do movimento, representado pelo deputado Jacob 

Kroeff  Neto,  Pedro  Adams  Filho  e  Leopoldo  Petry,  procuraram  Borges  de 

Medeiros,  presidente  do  Estado,  e  João  Corrêa  da  Silva,  chefe  do  partido 

republicano  e  candidato  a  intendente  do  município  de  São  Leopoldo,  a  fim  de 

consultá­los sobre o assunto. 

420 


Empresário  que  instalou  a  primeira  empresa  de  formas  na  cidade,  destacou­se  nas  artes, 

principalmente  na  música.  Foi  membro  do  Partido  Republicano  e  por  mais  de  20  anos 

subintendente  de  Hamburgo  Velho.  De  1920  a  1924  foi  membro  do  Conselho  Municipal  de  São 

Leopoldo. Jornal

 NH,

 05/04/2002 



421 

Filho  de  um  marinheiro  alemão  emigrado,  foi  um  dos  principais  líderes  dos  libertadores  da 

cidade,  até  tornar­se  republicano  em  1924  e  ser  escolhido  como  presidente  da  Comissão  Pró­ 

Vilamento  de  Novo  Hamburgo.  Trabalhou  em  diversas  fábricas  de  calçados,  dentre  elas  a  de 

Pedro  Adams  Filho.  Em  1906  abriu  a  sua  empresa;  também  foi  diretor  da  Energia  Elétrica 

Hamburguesa. Jornal

 NH,

 05/04/2002 



422 

Professor  e  subintendente  de  Novo  Hamburgo  por  duas  gestões,  quando  a  cidade  ainda  era 

localidade de São Leopoldo, também foi subintendente de Sapiranga. Foi nomeado escrivão do 1º 

Cartório Civil de Novo Hamburgo. Jornal

 NH,

 05/04/2002




Segundo  Petry, 

423 


Borges  achou  a  questão  muito  justa  e  passível  de  ser 

resolvida  dentro  dos  trâmites  legais.  Porém,  João  Corrêa  da  Silva,  mesmo 

reconhecendo  a  justiça  do  empreendimento,  achou  que seria  melhor  esperar  até 

ele  assumir  o  cargo  para  o  qual  seria  eleito.  Em  vista  disso,  foi  adiado  o 

prosseguimento dos trabalhos, e as comissões organizaram abaixo­assinados em 

que os moradores de Hamburger Berg pediam a desanexação de seu território do 

território vizinho para formar um município autônomo. 

Por  outro  lado,  nesse  mesmo  ano,  no  mês  de  outubro,  um  dos 

representantes do Conselho Municipal colocou na pauta de discussões a questão 

da  emancipação.  Segundo  o  conselheiro  José  Antônio  de  Oliveira  Neto,  esse 

projeto  envolveria,  além  do  2º.  distrito,  o  3º.  ,  4º.,  5º.  e  8º.  distritos, 

respectivamente,  Ivoti,  Dois  Irmãos,  Sapiranga  e  Boa  Vista  do  Herval.  Os 

membros  do  Conselho  que  estavam  pressentes  julgaram  inoportuno  o  projeto  e, 

além de votarem contra ele, encaminharam um telegrama a Borges de Medeiros e 

ao intendente João Corrêa protestando. 

424 


423 

PETRY, op. cit.p.40 

424 

Segundo ata do Conselho Municipal, 20/10/1924




Figura 67 ­ Mapa com divisão dos distritos. 

425 


425 

GERTZ, op. cit.p.215




Várias  notícias  eram  veiculadas  nos  jornais,  principalmente  no

  Deutsche 

Post

,  a  respeito  dessa  questão,  e  João  Corrêa  tentava  acalmar  os  ânimos, 



prometendo  um  olhar  mais  atento  aos  problemas  do  distrito  descontente.  Teria, 

inclusive,  “proclamado  sua  disposição  de  colocar  no  2º  distrito  uma  instância 

coletora  dos  impostos  municipais  locais  e  garantiria  que  50%  deles  seriam 

investidos no próprio distrito.” 

426 

A partir de 1925, entretanto, a participação de outros distritos no movimento 



já  deixou  de  ser  referida,  mas  as  discussões  continuaram  na  pauta  do

  Deutsche 

Post

, espaço em que os leitores poderiam dar suas opiniões a respeito. Esse tema 



despertava  interesses  tão  apaixonados  que  o  jornal  abriu  durante  um  mês  uma 

coluna especial para debatê­lo. 

427 

Os jornais apontavam a pujança econômica do distrito e o descaso com ele, 



reclamando das condições vergonhosas em que se encontrava. Faltavam serviços 

de  coleta  de  lixo,  de  resíduos  fecais,  as  estradas  estavam  em  péssimo  estado e 

não havia carteiros. Os argumentos dos que se opunham eram de duas ordens: a 

primeira  dizia  respeito  a  pequena  área  rural  que  teria  o  novo  município,  fato  que 

poderia  gerar  problemas  futuros;  a  segunda  era  o  fato  de  que  a  emancipação 

serviria  apenas  de  motivo  para  a  criação  de  mais  cargos  públicos,  e  não  traria 

reais  benefícios  aos  cidadãos;  a  terceira,  seria  a  maior  disputa  entre  os  dois 

distritos, quando foi dito que o “pessoal de Novo Hamburgo sempre foi do contra” 

426 

Ibidem, p. 208 



427 

Ibidem, p.208




(referindo­se  aos  festejos  do  centenário  da  imigração  alemã  e  à  construção  do 

monumento). 

A  participação  de  Pedro  Adams  Filho  também  foi  questionada  pelo

 

Deutsche Post



 em 11 edições sucessivas, entre os dias três e 27 de fevereiro de 

1925. Segundo  um  dos leitores,  esse  assunto poderia  ser decidido  por plebiscito, 

mas,  como  a  pretensão  emancipacionista  poderia  ser  derrotada,  ao  Conselho 

Municipal  foi  dado  o  poder  decisório  que  seria  pressionado  por  Borges  de 

Medeiros  para  manifestar­se  a  favor  do  novo  município.  Ora,  se  no  Conselho 

havia um representante de Novo Hamburgo, por que ele não lutou pelas melhorias 

reivindicadas? E se não tivesse conseguido nada, por que não renunciou? 

428 


Em  contrapartida  à  discussão  defendida  pelo

  Deutsche  Post

,  o  jornal

 

Deutsches  Volksblatt



 

429 


defendeu  a  emancipação  dizendo  que  o  jornal 

concorrente  incentivava  a  oposição,  esquecendo  que  muitas  das  promessas  de 

melhorias  de  infra­estrutura  que  teriam  sido  prometidas  para  o  distrito  nunca 

saíram do papel. 

É  importante  lembrar  ainda  que  Pedro  Adams  Filho,  Jacob  Kroeff  Neto  e 

outros  líderes  do  movimento  eram  católicos.  O  fato  sugere  a  existência  de  uma 

disputa  religiosa  entre  eles  e  os  protestantes  de  São  Leopoldo.  Acreditamos  que 

428 


Ibidem, p. 208, 209, 210 apud

 Deutsche Post

 de 03, 04, 05, 07,12, 16, 17, 19, 21, 25 e 

27/02/1925. 

429 

Jornal  católico  dirigido  por  Hugo  Metzler  que  atuou  na  defesa  da  germanidade.  Exemplar  de 



23/02/1925.


essa  disputa  tenha  sido  sutil,  pois  não  encontramos  elementos  que  a  explicitem. 

Por esses motivos não analisaremos essa questão pela via religiosa. 

430 

Ainda no início de 1925, o grupo líder do movimento teve uma reunião com 



Borges  de  Medeiros  que  decidiu  valer­se  da  Constituição  Estadual  de  1891,  que 

estabelecia  que  não  se  poderiam  alterar  os  limites  dos  municípios  sem  a 

aprovação  dos  Conselhos  Municipais.  A  questão,  então,  deveria  ser  resolvida 

nesse âmbito, cabendo ao Presidente do Estado tomar a decisão final apoiado na 

decisão do Conselho. 

O grupo pró­emancipação colheu a assinatura de 872 moradores do distrito 

a  favor  da  emancipação,  e  enviou  para  o  Conselho  Municipal  de  São  Leopoldo 

que, em 26 de setembro de 1925, negou o pedido, pois, ao mesmo tempo em que 

esse  abaixo­assinado  circulava,  os  conselheiros  de  São  Leopoldo  recém  eleitos 

aprovaram  uma  moção  contrária  a  qualquer  desmembramento  do  território  do 

município.  Obviamente  que  Pedro  Adams  Filho  votou  contra  essa  moção.  Esse 

mesmo documento foi enviado mais duas vezes e obteve a mesma resposta. 

O  memorial  enviado  ao  Conselho  Municipal  de  São  Leopoldo  dizia  o 

seguinte: 

Os  abaixo  assinados,  moradores  do  segundo  distrito,  vêm  perante  esse 

Conselho pedir  licença para a desanexação do mesmo,  para,  [...]  formar 

um município autônomo, com sede em Novo Hamburgo. 

Baseiam o seu pedido na aspiração unânime do povo sensato, aspiração 

justa  e  natural.  Justa  porque  a  renda  da  zona  em  questão  é  suficiente 

para cobrir as despesas da administração e o grau de educação cívica é 

bastante  adiantado,  para  poderem  os  habitantes  escolher  seus 

430 


Acreditamos ser este um tema importante para futuras investigações.


administradores.  Natural  é  a  aspiração,  pois  todos  os  seres,  mesmo  os 

irracionais, procuram emancipar­se. 

431 

Os nove motivos apresentados pelo memorial foram os seguintes: 



1º. Os municípios de área menor são mais fáceis de administrar; 

2º. Os governos estadual e federal já instalaram coletorias na cidade; 

3º. Novo Hamburgo tem renda suficiente para se sustentar; 

4º.  Os  outros  municípios  não  serão  prejudicados,  pois  a  renda  que  lhes 

ficará será suficiente para custear os trabalhos públicos; 

5º.  Novo  Hamburgo  e  Hamburgo  Velho,  pelo  seu  desenvolvimento  dos 

últimos anos, não têm mais como adiar obras de infra­estrutura e saneamento; 

6º.  Não  há  inconveniente  no  fato de as sedes dos  dois  municípios  ficarem 

próximas, pois outros municípios também se encontram nessa situação (Lajeado e 

Estrela; Montenegro e São Sebastião do Caí) e podem ajudar­se mutuamente com 

mais rapidez; 

7º.  A  criação  de  novos  municípios  ajudaria  a  manter  a  estabilidade  e  a 

tranqüilidade do povo por este poder ser controlado mais de perto; 

8º.  Com  a  emancipação  da  cidade  algumas  das  principais  estradas  se 

tornar­se­iam intermunicipais e sua conservação passaria para a órbita do Estado; 

431 


Jornal

 NH


, 05/04/2002


9º. As sedes dos municípios formariam centros que irradiariam o progresso 

para as áreas rurais, sendo um dever de patriotismo facilitar sua formação. 

O documento termina da seguinte maneira: 

Por  isso,  certo  de  que  nosso  conspícuo  Conselho,  inspirado  pelo  mais 

puro patriotismo e tendo em vista unicamente o bem do povo, não criará 

dificuldades  a  aspiração  justa  e  natural  que  acima  vem  exposta,  antes 

pelo  contrário,  tendo  como  o  mais  elevado  amor  ao  nosso  querido  Rio 

Grande do Sul e a nossa amada Pátria Brasileira, procurará facilitar uma 

medida de que tão grandes vantagens advirão ao público. Nestes termos, 

P. deferimento, Novo Hamburgo, 13 de setembro de 1925. 

432 

Segundo  o  jornal



  Diário  de  Notícias

,  a  reunião  do  Conselho,  onde  foi 

analisado  esse  memorial,  teve  a  participação  de  Alberto  Bins,  vice­intendente  de 

Porto  Alegre  e  representante  de  Borges  de  Medeiros,  Frederico  Wolffenbüttel, 

vice­intendente  de  São  Leopoldo,  Alberto  Chaves,  juiz  da  comarca,  Jacob  Kroeff 

Neto, deputado estadual e Júlio Casado, secretário da intendência local. 

433 

René Gertz, sobre o evento, diz literalmente: 



A  reunião  foi  tensa.  Kroeff  afirmou  que  João  Corrêa  se  comprometera 

formalmente  perante  ele  [...]  com  a  emancipação  do  2º.  distrito.  Como 

entre  os  presentes  fossem  levantadas  dúvidas  sobre  essa  afirmação, 

Kroeff  apresentou  documentos,  enfatizando  que,  se  Corrêa  pudesse 

provar o contrário, ele [...] entregaria seu diploma de deputado estadual e 

se  retiraria  da  vida  pública.  Alberto  Bins  informou  que  Borges 

considerava  justa  a  pretendida  emancipação.  Mas  que  estava  ali  para 

ouvir  também  o  outro  lado.  Nesse  contexto,  foi  sugerido  que  a  reunião 

passasse  a  ser  restrita,  ao  que  o  juiz,  Alberto  Chaves,  reagiu  com 

energia, declarando que só se retiraria do recinto se fosse à força, porque 

não poderia concordar que altos interesses municipais fossem discutidos 

de portas fechadas. [...] 

434 

432 


Ibidem. 

433 


Jornal

 Diário de Notícias

, 15/09/1925. 

434 


GERTZ, op.cit. p.212


Os  jornalistas  do  jornal

  Última  Hora

  e  de  outros  jornais  não  puderam 

participar  da  sessão  por  determinação  dos  participantes  de  São  Leopoldo,  e 

mostraram  sua  indignação  apoiando  o  movimento  dos  novo­hamburguenses, 

justificando que esse distrito possuía todas as condições para a sua separação e 

que  o  fato  de  nada  ter  sido  decidido  nessa  reunião  mostrava  o  descaso  dos 

conselheiros municipais para com a questão. 

[...]  Ainda  não  sabemos  o  motivo  que  levou  nobre  câmara  municipal  a 

assim  proceder,  pois  se  tratando  de um assunto  de alta  transcendência 

política  e  até  mesmo  financeira,  que  interessa,  sobremodo,  toda  a 

população  do  município,  não  se  pode  admitir,  por  nenhum  modo,  esse 

processo de discussão a portas fechadas, a revelia da coletividade, tanto 

mais que estamos num Estado em que “viver às claras”, é um dogma que 

muita gente se ufana. [...] 

435 


Depois  dessa  reunião,  na  qual  nada  foi  decidido,  foram  realizados  outros 

encontros  envolvendo  a  Comissão  de  Petições  e  Reclamações  do  Conselho 

Municipal,  composta  por  Vicente  Hennemann,  de  Dois  Irmãos,  e  Gustavo  Vetter, 

de  Campo  Bom,  que  disseram  que  precisariam  de  alguns  dias  para  redigir  um 

parecer. 

Ainda segundo René Gertz, 

Pedro  Adams Filho protestou contra esta  proposta,  argumentando que o 

conteúdo da petição era de conhecimento de  todos há um bom  tempo e 

que,  por  conseqüência,  não  havia  necessidade  de  longos  estudos  e 

elaborações. 

436 

435 


Jornal

 Última Hora

, 13/09/1925. 

436 


GERTZ, op. cit. p.213


Foi apenas em 25 de setembro de 1925  que o  Conselho se  manifestou  de 

forma contrária à emancipação. 

437 

Antes dessa importante reunião, o jornal



 Última Hora

, mais uma vez fez um 

apelo  aos  conselheiros  para  que  não  esquecessem  da  autonomia  que  gozava  o 

município; portanto, para não se deixarem influenciar pelos interesses do governo 

do Estado; e, ao mesmo tempo, serem justos com os interesses dos separatistas. 

Dizia o jornal que “[...] o município não é só a “escola primária da democracia”, isto 

é, a retorta onde se fundem a altivez, o brio e a independência cívicas; é, também, 

o  fogo  potente  onde  se  temperam  a  fibra  varonil  e  o  caráter  rijo  dos  homens 

políticos.[...]” 

438 


Segundo  Bakos,  o  município  funciona,  na  ótica  do  positivismo  castilhista, 

“[...]  como a  escola  primária  da  democracia,  onde  nascem  e  vivem  os  elementos 

geradores  dos  movimentos  sociais  e  políticos,  matriz  de  homens  e  líderes  que 

deverão futuramente agir na observância de tais valores.” 

439 

O  longo  parecer  da  comissão  apresentou  razões  de  ordem  geográfica, 



administrativa,  financeira,  etnológica  e  política  para  desaprovar  as  pretensões  do 

distrito vizinho: 

1º.  Razões  geográficas:  São  Leopoldo  tinha  uma  área  pequena  e,  com  a 

divisão,  ficaria  menor  ainda  e  com  grandes  dificuldades  de  sobrevivência,  a 

exemplo  do  que  havia  ocorrido  com  São  Jerônimo  e  Triunfo;  as  sedes  dos  dois 

437 


Ibidem 

438 


Jornal

 Última Hora

, 25/09/1925 

439 


BAKOS, op. cit. p. 40


distritos  ficariam  muito  próximas  e  que  outros  distritos  (Ivoti,  Dois  Irmãos, 

Sapiranga, Boa Vista do Herval e Picada Joaneta) iriam acabar querendo anexar­ 

se a ele, o que deixaria São Leopoldo apenas com os distritos de Lomba Grande e 

Sapucaia do Sul; a divisão fiscal justa era impossível do ponto de vista geográfico, 

pois  transformaria a cidade num corredor entre  Novo Hamburgo e São Sebastião 

do Caí. 


2º. Razões administrativas: aumento do número de funcionários que seriam 

necessários para administrar o novo município. 

440 

3º.  Razões  financeiras:  o  município  de  São  Leopoldo  sempre  teve  bom 



crédito e, conseqüentemente, conseguiu  empréstimos  para  obras  de saneamento 

e  energia  elétrica  que  acabaram  beneficiando,  também,  Novo  Hamburgo  e  a 

inadimplência  que  poderia  ocorrer  com  a  separação  seria  desastrosa.  O  parecer 

cita  números  envolvendo  a  arrecadação  dos  dois  distritos,  e  mostra  como  o 

segundo foi mais beneficiado que o primeiro, em investimentos. 

4º.  Razões  etnológicas:  o  distrito  de  Novo  Hamburgo  ainda  não  estava 

totalmente  nacionalizado,  necessitando  manter  o  vínculo  com  São Leopoldo,  que 

já havia perdido seu caráter alemão. 

5º. Razões políticas: foram as mais destacadas, pois tentaram mostrar que 

o movimento não era legítimo, pois Jacob Kroeff Neto não representava a maioria 

da  população,  e  o  abaixo­assinado  apresentado  era  apoiado  apenas  por  1/3  dos 

440 


Ata da reunião do Conselho Municipal de São Leopoldo de 19/09/1925.


eleitores 

441 


.  A  desqualificação  de  Kroeff  não  parou  por  aí.  Ele  foi  considerado 

como  um


 “eterno descontente”,

  que  fazia oposição a qualquer candidato que  não 

era  de  seu  grupo,  conseguindo  bons  resultados  por  causa  de  sua  proximidade 

com Borges de Medeiros. 

6º.  Questão da segmentação  do Partido  Republicano  em  Novo Hamburgo, 

onde grande parte dos membros não aceitaria a liderança de Kroeff e de Adams. 

7º.  Possibilidade  de  ter  havido  falsificação  de  algumas  assinaturas  do 

documento,  pois  um  dos  cidadãos  que  assinou  seria  deficiente  auditivo  e 

juridicamente incapaz. 

A  possibilidade  de  realização  de  um  plebiscito  para  resolver  a  questão 

também foi descartada,  pois  foi considerada inadequada  em  função das disputas 

que  abalariam  o  partido  e  a  ordem  pública,  além  de  abrir  um  precedente  para 

resolver todos os problemas que não fossem resolvidos pelas vias legais. 

Depois de todas essas argumentações, o parecer foi aprovado por todos os 

membros do conselho, menos por Pedro Adams Filho, que foi o primeiro a votar e 

assim  se  manifestou:  “Voto  pela  separação  que,  de  acordo  com  nosso  preclaro 

chefe, é justa e oportuna.” 

442 


441

 

[…] Destacou­se que o memorial estava assinado por 799 cidadãos, dos quais, porém,apenas 



473 constariam das listas eleitorais oficiais, os restantes 326 não seriam eleitores ou não residiriam 

no  2º distrito. Na última eleição,  teria havido 1.322 eleitores  nesse distrito, o que significava que 

849  eleitores  deixaram  de  assinar  o  memorial,  de  forma  que  os  signatários  não  representariam 

mais do que um terço dos eleitores do distrito. [...]

  GERTZ, op. cit. p.216 

442 


Jornal

 Última Hora

, 26/09/1925.



Nessa  mesma  ocasião,  o  conselheiro  Adolfo  Moog  sugeriu  que  constasse 

na  ata  da  reunião  um  voto  de  solidariedade  ao  intendente  João  Corrêa,  que  foi 

aprovado  com  restrições  por  Adams,  que  estava  muito  contrariado  com  o 

resultado da reunião. 

Segundo a

 Última Hora

[...]  Do  exposto  resulta  claro  e  indisfarçável  um  caso  jamais  registrado 



nos anais  políticos do Rio  Grande do  Sul – a independência e altivez do 

Conselho Municipal de S. Leopoldo, opondo­se formalmente a imposição 

do chefe do P. R. riograndense dr. Borges de Medeiros, derrotando­o, por 

fim, fragorosamente, por 8 votos contra 1. 

443 

Os  jornais  da  época  noticiaram  amplamente  essa  decisão  tomada  pelo 



conselho.  Disseram,  nas  entrelinhas,  que  nem  o  presidente  do  Estado  nem  o 

intendente  de  São  Leopoldo  eram  contra  a separação,  mas  que Kroeff colocava­ 

se  de  forma  tão  acintosa  (com  ameaças  à  intervenção  de  Borges)  que  todo  o 

processo acabava sendo dificultado. 

O grupo pró­emancipação decidiu enfrentar o intendente leopoldense, João 

Corrêa  da  Silva,  e  tratar  do  assunto  diretamente  com  o  governo  estadual  de 

Borges  de  Medeiros,  já  que  o  parecer  foi  considerado  uma  afronta  aos  justos 

interesses da comunidade hamburguense. 

A  questão  do  nacionalismo,  ou  etnológica,  que  o  parecer  aponta,  foi 

repudiada  fortemente,  conforme  podemos  ler  no  protesto  enviado  ao  conselho  e 

assinado por mais de uma centena de industriais e comerciantes: 

443 


Ibidem, 26/09/1925.


[...]  O  povo  de  Novo  Hamburgo,  pelo  abaixo­assinado  protesta 

veementemente  contra  o  insolente  procedimento  de  VV.SS.,  atirando  à 

face  do  povo  honesto  e  laborioso  deste  distrito,  a  pecha  de  incapazes 

civis e negando­lhe  sua  nacionalidade brasileira, afronta esta contida no 

parecer da respectiva Comissão e por VV.SS. aprovado em sessão de 25 

de  setembro  desse  Conselho,  que  teve  por  objeto  o  pedido  de 

emancipação administrativa desta localidade. 

Esse  parecer  atesta  patentemente  a  crassa  ignorância  da  Comissão 

referida, que no caso serviu de simples instrumento de uma política vil e 

odiosa,  e  o  Conselho  Municipal,  por  oito  de  seus  membros,  aprovou

 

intotum


  o  mesmo  parecer,  sedento  da  conquista  de  um  Estado  de 

incapacidade,  de  inépcia  para  desempenhar  o  honroso  mandato,  que  o 

povo do município de São Leopoldo lhe confiou. 

444 


O protesto é enfático e deixa muito claro o descontentamento com a decisão 

tomada  pelo  Conselho  que  “menosprezou”  e  “afrontou”  a  população  de  Novo 

Hamburgo,  deixando  nas  entrelinhas  a  idéia  de  que  o  movimento  não  vai  parar 

com essa decisão, pelo contrário, ficará cada vez mais forte. 

O  povo  de Novo Hamburgo  repele  energicamente a afronta que  VV.SS, 

querem assacar­lhe e que é apenas digna de seus autores. 

Representando  o  reprovável  gesto  desse  Conselho  um  menosprezo  ao 

povo  local,  é  do  dever  de  honra  de  VV.SS,  tomarem  a  atitude  que  a 

dignidade lhes impõe. 

Rematando,  cumpre  acentuar  bem,  que  o  povo  de  Novo  Hamburgo 

saberá, como sempre, manter­se num terreno elevado e digno,  pelo que 

não se nivela com os membros desse Conselho, que cometeram a vilania 

apontada  hábil  e  mui  industriosa  urdida  por  seus  mentores  cujos 

ensinamentos cívicos o povo  de Novo Hamburgo jamais requereu e não 

necessita. Saudações. 

Novo Hamburgo, 27 de setembro de 1925 

445 

Essa  carta  ao  Conselho  Municipal  da  cidade  vizinha  mostra  o  estado  de 



ânimo  da  comunidade  novo­hamburguense  quando  fala  no  “insolente 

procedimento”  do  Conselho,  na  “ignorância”  da  Comissão,  na  “política  vil  e 

444

 

Diário de Notícias



, 03/10/1925 

445 


Ibidem


odiosa”,  dentre  outros  adjetivos  pouco  amigáveis.  As  relações  entre  as  duas 

comunidades foi se deteriorando cada vez mais. 

O  descontentamento  com  o  parecer  também  foi  explicitado  por  Leopoldo 

Petry, um dos líderes do movimento emancipacionista do município, que escreveu 

um parecer sobre ele contestando, um a um, os argumentos apresentados. 

446 


Quanto às questões geográficas, Petry, segundo Gertz, diz que o pedido de 

emancipação se referia apenas ao 2º. Distrito, e não aos demais,

 e

 “apontou como 



contraditória  a  afirmação  de  que  distritos  próximos  de  Novo  Hamburgo  não 

quisessem  a  emancipação,  e  depois  afirmar  que,  uma  vez  separado  Novo 

Hamburgo,  estes pleitearão  [...] seu  desmembramento de São  Leopoldo.” 

447 


Diz, 

também,  que,  se  São  Leopoldo  tinha  uma  receita  de  286  contos,  não  deveria 

temer pela sua sobrevivência financeira, uma vez que essa receita era superior a 

de  muitos grandes  municípios do Estado. Desmente o fato  de  Novo  Hamburgo e 

São Leopoldo estarem muito mais próximas que outros municípios de suas sedes, 

exemplificando com o caso de Triunfo e São Jerônimo, além de Lajeado e Estrela. 

Com relação às questões  administrativas,  o parecer  questiona  a afirmação 

de  os  subintendentes  gozarem  de  autonomia  e  de  as  arrecadações  serem  feitas 

nos distritos, e ajudarem seus cidadãos dizendo que isso não era verdade. 

As  razões  de  ordem  financeira  são  as  mais  rebatidas,  pois,  segundo  o 

mesmo  autor,  não  se  poderia  vincular  o  crédito  de  um  município  ao  tamanho  do 

446 


PETRY, Leopoldo.

 A emancipação de Novo Hamburgo: análise do “parecer” aprovado pelo 

Conselho Municipal e outras notas

. Novo Hamburgo: Typographia Hans Behrend, 1925. 

447 

GERTZ, op. cit. p.220, 221.




seu  território;  os  investimentos  feitos  em  Novo  Hamburgo  também  não 

correspondiam com a realidade, pois o município não tinha calçamento, praças ou 

qualquer  tipo  de  higiene  pública.  Além  disso,  os  investimentos  feitos  na  cidade 

foram  menores  que  os  realizados  em  São  Leopoldo.  Por  fim,  diz  que,  se  os 

indicadores  econômicos  fossem  medidos  pela  produção,  Novo  Hamburgo  teria 

receita superior a  de São Leopoldo. 

O  parecer  não  questionou  a  importância  política  de  Adams  e  Kroeff,  mas 

criticou  o  encorajamento  feito  à  oposição  de  Novo  Hamburgo  que  era  contra  a 

emancipação. 

As razões etnológicas, entretanto, foram as mais discutidas por ele. 

Segundo ele,  nesse ponto não se  trataria  de uma questão material, mas 

da dignidade dos cidadãos de Novo Hamburgo. ‘Que tivessem negado o 

pedido  de  separação  é  admissível,  mas  que  tivessem  aproveitado  o 

ensejo  para  insultar,  em  documento  público,  uma  população  honesta  e 

laboriosa,  isso  excede  tudo  quanto  até  agora,  em  matéria  política  e 

administrativa,  no  Estado  do  Rio  Grande  do  Sul  se  tem  observado.’  [...] 

fez  uma  defesa  veemente  do  patriotismo  dos  novo­hamburguenses, 

patriotismo que estaria configurado na sua imensa dedicação ao trabalho 

em benefício do Brasil. 

448 


René  Gertz  enfatiza  a  posição  radical  de  Petry  que  insinuou  que  São 

Leopoldo  era  muito  menos  “patriótica”  que  Novo  Hamburgo,  pois  durante  a 

Primeira  Guerra  Mundial,  quando  o  idioma  alemão  teve sua  utilização  restringida 

na  cidade,  a  Sociedade  Ginástica  (de  São  Leopoldo)  teria  preferido  fechar  suas 

portas a sacrificar o idioma. 

449 


448 

PETRY, apud GERTZ, op. cit. p.222 

449 

Ibidem.



Por fim, Petry teria considerado um absurdo o conselho não ter permitido a 

criação  de  um  plebiscito,  resume  Gertz,  dizendo  que  essa  atitude  beirava  o 

“absolutismo”,  além  disso, colocou  que  não  foram  respeitadas  as  leis  que  regem 

essas questões e que dão respaldo ao Presidente do Estado para resolvê­las. 

450 

O fato de o Conselho ter acusado os cidadãos de Novo Hamburgo de falta 



de patriotismo, acarretou uma indignação de grande parte da comunidade, que se 

expressou das mais variadas formas contra isso, e considerou uma afronta a uma 

cidade 

constituída 

de 

trabalhadores 



honestos, 

que 



lutavam 

pelo 


engrandecimento do país. 

Essa  indignação  repercutiu  em  vários  periódicos.  O  semanário

  Asóga,

 

publicado na capital,  fez  uma referência ao fato de forma  irônica:  “Consta  que os 



capilés 

451 


estão com  uma sede terrível  de  nós alemães, porque  já não queremos 

mais bancar a vaca leiteira [...]” 

452 

Ou seja, o distrito de Novo Hamburgo já estava 



sustentando a sua sede e, mesmo assim, era tratado de forma pouco respeitosa. 

450


 

[…]  no que se refere ao parágrafo 16º do Art. 20 da  Constituição estadual,  não se  trataria de 

mudar  os  limites  de  dois  municípios  já  existentes,  mas  da  criação  de  um  município  novo,  [...] 

Reivindicou  que  a  criação  de  novos  municípios  caberia  ao  Presidente  do  Estado,  já  que  o 

parágrafo 15º  do mesmo Art. 20 estabelece como uma de suas atribuições a “divisão judiciária e 

civil”,  e  o  parágrafo  2º  do  Art.  62  atribui  ao  presidente  a  extinção  de  municípios  inviáveis.  A 

dedução lógica seria a de que, se o Presidente tem competência para suprimir municípios, a teria 

muito mais para criá­los.

 Ibidem, p.223 

451 


Forma pejorativa com que eram conhecidos os moradores de São Leopoldo.

 Capilé


 era o nome 

de  um  xarope  de  framboesa  produzido  pela  Indústria  Weinmann,  que  era  servido  com  água  e 

tomado como refrigerante. Em contrapartida a esse apelido, os leopoldenses chamavam os novo­ 

hamburguenses de

 spritzbier

, bebida caseira feita à base de gengibre e espumante. Assim,

 capilé

 

seria  uma crítica ao comodismo de comprar  tudo pronto e



 spritzbier

  soaria como atraso de quem 

tinha que produzir o seu refrigerante em casa. No entanto, todos tinham orgulho de seus apelidos, 

São  Leopoldo  pelo  status  social  que  sempre  teve,  e  Novo  Hamburgo  pela  tradição  do  trabalho. 

Jornal

 NH


, 05/04/2002 p.7 

452 


Semanário

 Asóga


, 09/10/1925


Mas  a publicação  mais curiosa sobre  o tema  foi de um  pasquim em  forma 

de  versos  distribuído  pelas  ruas  de  Novo  Hamburgo  e  que  criticava  os 

conselheiros  Gustavo  Vetter  (de  Campo  Bom)  e  Vicente  Hennemann  (de  Dois 

Irmãos) que representavam o distrito de Novo Hamburgo: 

DOUS GUASCA QUEIMADO EM PROTESTO 

Diz os grandes Brazileiros 



Que este povo é allamão 

Vou defender esta causa 

Vou defender esta causa 

Sem sentir uma afrição 

Nós somos todos Gaúcho 

Filhos de uma só nação. 

II 

O povo deste Districto 



Todo ele é Brazileiro 

E faz progresso ao luga’ 

Nem que lhe custe dinheiro 

Não são destes meia cara 

Que se troca por boeiro. 

III 


O tal de Gustavo We We Vetter 

Morador de Campo Bom 

Se abalou de madrugada 

Em protesto, a Separação 

Com certeza necessita 

De mais algum Pontilhão. 

IV

Se He He Ennemann é Brazileiro 



Eu então o que serei 

Por ser muito pobrerão 

Protesto não assinei 

Toda massa é Brazileira




Agora vos provarei. 

Se abalou dos Dois Irmãos 



O Vicente batateiro 

O foi por grande enteresse 

O foi por muito dinheiro 

Pra dizer que era Alemanha 

Em reunir dos conselheiro. 

VI

Eu agora me arepende 



Se me alembrasse primeiro 

Eu não dava o meu voto 

Pra voseis ser conselheiro 

Agora estão nos ensultando 

Eses grande traisoeiro. 

VII 


Ou Fete ou Eneman 

Persiza estudá primeiro 

Só andam pello cabresto 

Como burro de cargueiro 

Vão lá no home de dia 

Vão lá se benzer primeiro. 

VIII 

O povo de Novo Hamburgo 



É um povo são e puro 

Não offende a umanidade 

Nem que sejão: um pouco escuro 

Nem ando pello bucal 

Como andam estes dois burro. 

IX

Não ameaço a ninguém 



Brazileiro ou allamão 

Eu só faço este protesto 

Em louvor de um povo são 

Defenda­se na mesma forma 

Que lhes dou repetição.



Pelo povo, brazileiro, 

É que eu me manifesto 

Este é, um povo são 

Não são, allamão, nem resto. 

(Pois, mais lamão são voseis) 

Nós, ser allemão – PROTESTO! 

PROTESTANTES:  Nostasinho  Perdigão  da  Nata  Magra  e  Juca  Chimarrão 

do Pinhão Secco 

453 


Esse  protesto  irônico  mostra­nos  como  a  comunidade  via  alguns  de  seus 

representantes  que  se  colocaram  contra  a  emancipação.  Julgavam  que,  mesmo 

não  sendo  moradores  de  Novo  Hamburgo,  Vetter  e  Hennemann,  deveriam 

representar  os  interesses  locais,  já  que  Campo  Bom  pertencia  ao  2º  distrito,  e 

Dois  Irmãos  passaria  a  pertencer  também.    As  ofensas  rudes  acusam  os 

conselheiros  de  se  submeterem  à  vontade  de  seus  superiores  e  de  estarem 

tirando  vantagens  da  situação;  os  autores  salientam  a  brasilidade  e  a 

miscigenação  do  povo  expressa  pela  sentença 

“um  pouco  escuro”  como 

positiva. 

454 

Mais uma vez, depois do parecer do conselho de 1925, os jornais



 Deutsche 

Post


  e

  Deutsches  Volksblatt

  divulgaram  as  opiniões  de  seus  leitores.  Dentre  os 

assuntos discutidos, estava a questão das dívidas que o 2º. distrito teria para com 

São  Leopoldo,  já  que  a  usina  da  Toca,  em  São  Francisco  de  Paula,  também  o 

teria beneficiado o distrito, assim, caberia a ele pagar parte da dívida. 

453 

Pasquim de outubro de 1925. 



454 

Esse  poema  remete­nos  ao  poema

  Antonio  Chimango

,  sátira  política  publicada  em  1915,  no 

qual Ramiro Barcelos ridicularizava Borges de Medeiros. Nesse poema, Antonio Chimango (Borges 

de  Medeiros)  é  um  jovem  desajeitado  e  incapaz  escolhido  por  seu  padrinho  (Júlio  de  Castilhos) 

para ser capataz de sua estância (Rio Grande do Sul), mas acaba levando­a à bancarrota.



Ao  mesmo  tempo,  a  administração  leopoldense  procurava  atender  a 

algumas  das  reivindicações  do  distrito  vizinho  e,  para  isso,  comprou  um  terreno 

para  o  depósito  de  resíduos  fecais,  cujo  funcionamento  iniciou  no  ano  seguinte 

(1926). 


455 

Algumas cidades vizinhas também se posicionavam a respeito do assunto. 

O  jornal

 Correio  da  Serra

,  de  Santa  Maria,  escreveu  um  artigo  intitulado  “Dae  a 

César  o  que  é  de  César  –  Novo  Hamburgo  quer  sua  emancipação”,  demonstra 

claramente  sua  simpatia  à  causa  emancipacionista,  dizendo  que  a  cidade  tinha 

todas as condições de se manter sozinha, pois há muito tempo vinha sustentando 

São  Leopoldo. Dizia  que a cidade  não  recebia a  atenção  merecida  e “em  vez  de 

enaltecerem  as  qualidades  de  trabalho  e  iniciativa  daquele  povo,  têm,  muito  ao 

contrário,  por todos os meios possíveis procurado  achincalha­lo  atirando­lhes até 

a pecha de impatriotas.” 

Percebemos que a indignação causada pela chamada “questão etnológica” 

ultrapassou  os  limites  do  município.  O  artigo  foi  finalizado  de  forma  bastante 

dramática, deixando claro o posicionamento do jornal: 

[...]  Continue  o  povo  hamburguês  unido  como  até  aqui,  em  defesa  de 

seus ideais, dentro da ordem, e veremos então como mais uma vez sairá 

vitorioso  e  altivo  da  contenda,  vilando  a  sua  terra  como  merece  e  os 

algozes  que  de  consciência  negam  os  seus  direitos  comparecerão  ao 

banquete publico da instalação do novo município com o mesmo cinismo 

de JUDAS vendendo a CHRISTO. 

456 


455 

GERTZ, op.cit. p.219 

456 

Jornal


 Correio da Serra

, 31/07/1926




Um fato  importante  que  veio  agravar  as  desavenças entre  os  dois distritos 

foi  a  negação  de  um  pedido  de  verba  (5  contos  de  réis)  para  a  construção  do 

monumento  comemorativo  à  imigração  em  Novo  Hamburgo.  Esse  fato  foi 

determinante para que Pedro Adams Filho renunciasse a seu mandato em outubro 

de  1925,  pois  não  havia  mais  clima  para  mantê­lo.  Provavelmente,  Adams 

acreditou  que  seria  mais  útil  agindo  diretamente  pelo  futuro  município  do  que 

utilizando as vias legais. 

457 


Em  Novo  Hamburgo,  os  republicanos  e  a  oposição  federalista  decidiram 

unir­se,  como  informa  René  Gertz,  para  agilizar  o  processo  que,  ao  final  das 

contas,  viria  beneficiar  a  todos.  Para  que  esse  acordo  surtisse  efeito  foi  definida 

qual  a  parcela  de  poder  que  um  dos  grupos  teria  com  a  nova  configuração  de 

município. Ficou acordado que o republicano Jacob Kroeff Neto indicaria um nome 

para  o  intendente,  e  o  federalista  Guilherme  Ludwig,  o  vice.  O candidato  deveria 

ser cidadão novo­hamburguense ou, no mínimo, residir na cidade há três anos e, 

para  o  Conselho  Municipal,  cada  um  indicaria  quatro  membros,  e  o  nono  seria 

consenso. 

458 


A  comissão  local  percebeu  que  dependeria  de  outras  instâncias  para 

solucionar seu problema, então, depois de algumas tratativas, foi criada a Liga Pró 

Villamento  (ou  Pró­Emancipação),  destinada  a  assumir  a  questão  da 

emancipação.  Essa  liga  foi  recebida  em  14  de  agosto  de  1926  pelo  governo 

estadual,  que  demonstrou  interesse  em  estudar  a  situação,  mas,  para  isso, 

457 


Segundo atas do Conselho Municipal de 12, 20 e 27/10/1925 

458 


GERTZ, op. cit. p. 223


solicitou ao grupo um memorial com assinaturas da maioria dos eleitores. O grupo 

sofreu  algumas  alterações  e,  naquele  momento,  estava  formado  por  José  João 

Martins,  Guilherme  Ludwig  (industrial),  Ernesto  Moeller  (funcionário  público)  e 

João Wendelino Hennemann (comerciante e diretor de banco). 

459 

Ao mesmo tempo em que esse grupo representante da Liga Pró Villamento 



fazia  os  contatos  políticos,  a  população  foi  incentivada  pela  liderança  do 

movimento pró­emancipação a organizar manifestações a favor do movimento. 

Em  20  de  agosto  de  1926  foi  organizada  uma  concentração  popular,  por 

iniciativa  do  movimento  pró­emancipação,  no  Cine  Teatro  Carlos  Gomes.  Nas 

suas dependências lotadas, a população clamou o governo estadual por agilidade 

no  processo  de  emancipação.    Essa  concentração  mostrou  que  o  desejo  da 

separação representava um número significativo de cidadãos. 

Nessa  ocasião,  Leopoldo  Petry  fez  um  discurso,  dizendo  que,  em  pouco 

tempo, o distrito de Hamburger Berg seria um município autônomo e, por meio do 

trabalho de seus cidadãos e  dirigentes, transformar­se­ia  em uma cidade  modelo 

“a  Manchester  riograndense”  ,  acrescentou  ainda:  “o  patriotismo  de  ação,  de 

trabalho  profícuo  e  de  uma  atividade  incansável  mostrará  ao  Brasil  o  que  este 

povo  laborioso  de  Novo  Hamburgo  pode  fazer”,  disse,  também,  que  Borges  de 

Medeiros prometeu para breve uma solução. 

460 

459 


Ibidem, p.224 

460 


Jornal

 NH


, 05/04/2005


Nessa  reunião,  foi  decidida  a  criação  de  outra  comissão  responsável  pela 

qualificação  dos  eleitores  para  um  plebiscito.  Pedro  Adams  Filho,  a  exemplo  da 

sua  atuação  em  outras  reuniões,  nos  anos  1924  e  1925,  toma  liderança  na 

execução  dessa  comissão,  juntamente  com  seus  dois  filhos  Oscar  e  Albano  e 

mais outros 23 cidadãos hamburguenses. 

461 


Uma das primeiras iniciativas dessa comissão foi a organização de um jogo 

de futebol amistoso entre dois times organizados por políticos e empresários, a fim 

de angariarem fundos para o movimento, e colherem assinaturas no memorial que 

seria encaminhado ao presidente do Estado. Um dos organizadores do evento era 

Albano  Adams,  pois  seu  pai,  Pedro  Adams  Filho,  estava  afastado 

temporariamente do movimento. 

O  silêncio  sobre  esse  afastamento  foi  rompido  por  Carlos  Dienstbach  que 

escreveu  um  artigo  no  jornal  dizendo  que  “[...]  O  sr.  Pedro  Adams  Filho  se  acha 

ausente atualmente.  Consideremo­lo  por  enquanto  voluntariamente  afastado.  Por 

tudo que já fez, ele como seus amigos Dr. Kroeff Netto e Leopoldo Petry,  sempre 

terão um direito à nossa gratidão.[...]” 

462 


A comissão distribuiu panfletos conclamando os cidadãos a comparecerem 

ao jogo de futebol: 

Grande Meeting no Campo do Sport­Club Novo Hamburgo 

461 


Albino  Kieling,  Norberto  Lichter,  Carlos  Glaser,    Hans  Nauer,  Fernando  Korndörfer,  Marcos 

Moog,  Valdemar  Cremer,  Eduíno  Brodbeck,  Carlos  Feltes,  Luís  Ritzel,  José  Scherer,  Henrique 

Schneider, I. Allgayer Filho, Albino Schröer, Ervino I. Schmidt, I.W. Hennemann Filho, Djalmo Fett, 

Marculino dos  Santos  Pacheco,  Carlos  E.  Vogt,  Norberto  Michel,  Pedro  Mentz  Sobrinho,  Samuel 

Dietschi. 

462


 

Deutsche Post

, 25/09/1926



Pede­se  o  comparecimento  de  todos  os  eleitores  deste  distrito  munidos 

de seus títulos federais para assinarem um memorial que será dirigido ao 

Exmo. Sr. Presidente do Estado. 

Deverão comparecer também  os cidadãos que  não  são  eleitores ou que 

tenham extraviados seus títulos, para a comissão requerer segundas vias 

e dar andamento aos documentos para a qualificação. 

No  mesmo  local  realizar­se­á  um  MATCH  AMISTOSO  em  benefício  da 

Caixa Pró­Emacipação do 2º. Distrito, entre os seguintes quadros: 

1º times – Bloco Nicolas D’Ajello versus Bloco Albano Adams 

2º times – Bloco José J, Martins versus Bloco Guilherme Ludwig 

Entrada Geral 1$000 Senhoras Grátis 

463 


463 

Panfleto distribuído pela comissão. (APNH)




Figura 68 ­ Panfleto distribuído pela comissão. (APNH) 

O  panfleto  mostra  o  esforço  desprendido  pela  comissão  no  sentido  de 

organizar o eleitorado para o plebiscito; não só organizar a documentação, mas a 

assinatura  de  um  memorial  que  seria  encaminhado  ao  governo  do  Estado.  A 

partida era uma forma de fazer um apelo popular que poderia atingir àqueles que 

gostavam  de  futebol,  mas  não  se  interessavam  muito  pelas  questões  políticas 

municipais. 

Enquanto a comissão  fazia  sua  parte  em  relação  à  divulgação  da  idéia  na 

cidade,  João  Corrêa  decidiu,  em  9  de  agosto  de  1926,  desmembrar  parte  do 

território do 2.º distrito, e criar o 10.º distrito, Campo Bom, argumentando que esse 

era o  desejo  dos  moradores daquele  local  e que  a cidade tinha  uma  renda  muito



boa  decorrente  do  comércio  e,  portanto,  não  apresentaria  problemas  de  ordem 

administrativa e fiscal. 

464 

Em dezembro de 1926, foi enviada a Borges de Medeiros mais uma petição 



assinada por 827 eleitores, solicitando uma solução para a questão. E em janeiro 

de  1927,  a  comissão  teve  mais  uma  audiência  com  Borges  e  entregou­lhe  um 

documento,  agora  com  900  assinaturas,  que,  segundo  René  Gertz,  dizia  o 

seguinte: 

[...] 1)  o  desejo  de emancipação vem desde o início da República; 2)  os 

governos  estadual  e  federal  reconheceram  a  importância  do  distrito  e 

abriram coletorias; 3) a criação do novo município garantirá  a ordem e o 

bem­estar; 4)  sedes municipais  sempre constituem centros  de irradiação 

de  desenvolvimento  para  as  áreas  circunvizinhas;  5)  o  distrito  possui 

receitas  suficientes  para  uma  boa  administração;  6)  o  restante  do 

município de São Leopoldo não sofrerá prejuízos com a desanexação; 7) 

Novo  Hamburgo  e  Hamburgo  Velho  não  podem  mais  esperar  para  que 

sejam tomadas medidas no campo do saneamento e das comunicações; 

8) uma administração só não consegue administrar adequadamente dois 

centros urbanos como São Leopoldo e Novo Hamburgo. [...] 

465 


Ao mesmo tempo, o apoio dado à causa apareceria em outros jornais como 

o

 Consultor Commercial



, de Porto  Alegre,  que colocou  alguns  dados importantes 

sobre a situação econômica do futuro município. 

Segundo  o  jornal,  a  importância  comercial  e  industrial  poderia  ser 

comprovada pelo rendimento das coletorias federal e estadual da cidade, que lhe 

deu o direito de ficar em 5.º lugar no Estado em arrecadação. Diz, também, que a 

estação  telegráfica  arrecadou  5:966$471  réis  (1482  telegramas  emitidos  e  1912 

recebidos),  a  agência  do  correio  também  tinha  intensa  movimentação:  recebeu 

464 


Relatório de 1927, apresentado ao Conselho Municipal de São Leopoldo, apud GERTZ, op. cit. 

p. 224 


465 

GERTZ, op. cit. p.225




556 malas com objetos e expediu 597 malas. Com relação ao registro civil, no ano 

de  1925,  houve  281  nascimentos,  63 casamentos  e  179  óbitos.  Havia  na  cidade 

108 carros entre particulares e “de praça”, 85 “carros e carrinhos”, 250 carretas e 

35  carroças;  6  escolas  públicas  e  3  particulares,  mais  uma  “aula  particular  “;  7 

agências bancárias (Bancos Pelotense, da Provícia, Nacional do Comércio, Porto 

Alegrense, Brasileiro­Alemão, do Brasil e Casa Bancária Jorge Pfeiffer). 

466 

A situação  da  indústria  também  foi  destacada:  havia  24  fábricas  e  oficinas 



de  calçado,  17  curtumes,  duas  fundições  de  ferro,  duas  de  artigos  de  metal 

branco, uma  de  molduras  e uma de mosaico.  Sobre  a indústria  moveleira  não  foi 

possível encontrar dados precisos, mas era uma das mais importantes e “perfeitas 

do  Estado”.  Por  fim,  o  jornal  observa  que  havia  duas  igrejas  de  culto  católico  e 

duas de culto evangélico. 

467 


Segundo Gertz, no mês de março, os jornais noticiaram vários movimentos 

dos 


políticos 

de 


São 

Leopoldo 

com 



objetivo 



de 

abortarem 

emancipação.Fizeram  reuniões,  encontros  e  promessas  de  que  parte  da 



arrecadação  seria  destinada  às  melhorias  do  distrito.  Surgiram  boatos  de  que  o 

novo  intendente  seria  um  político  de  fora  da  cidade  nomeado  por  Borges,  mas 

nenhum desses movimentos surtiu o efeito desejado, e o Conselho, “pela primeira 

vez na história republicana” ousou enfrentar seu Presidente do Estado. 

468 

Finalmente, no início de abril, o secretário do presidente estadual telegrafou 



dizendo

:

  “Estarei aí primeiro trem  segunda­feira 4 do corrente  a fim de entender­ 



466 

Jornal


 Consultor Commercial

, 15/01/1927 

467 

Ibidem 


468 

GERTZ, op.cit. p. 225,226,227




me  convosco  de  ordem  presidente  escolha  intendente  provisório  esse  futuro 

município convidando­me espereis já reunidos.” 

Segundo Leopoldo Petry, 

Unida a população, foi dirigido um memorial ao Exmo. Sr. Dr. A.A. Borges 

de  Medeiros,  Presidente  do  Estado,  solicitando  a  sua  intervenção,  para 

ser  criado  este  município.  O  Sr.  Presidente  do  Estado,  reconhecendo  a 

justiça  do  pedido,  atendeu­o,  e  enviou  à  nossa  cidade,  no  dia  29  de 

março de 1927, o Exmo. Sr. Dr. Alceu Barbedo, naquela época secretário 

da Presidência do  Estado, hoje,  Procurador  Geral da República, afim de 

entender­se  com  os  líderes  do  movimento  em  prol  da  emancipação  a 

respeito  da  constituição  da  nova  comuna  e  da  organização  do  seu 

primeiro governo. 

A  vinda do emissário  da Presidência do Estado encheu  de júbilo  o povo 

desta  terra,  pois,  viam  nisso  um  indício  seguro  da  breve  realização  de 

seus sonhos

469 



No dia 5 de abril de 1927, um novo telegrama é enviado pelo secretário de 

Borges a Martins informando: 

Sr.  José João  Martins,  presidente,  e  demais membros  –  Comissão  Pró­ 

Villamento  –  Novo  Hamburgo.  Foi  assignado  hoje  o  decreto  no.  3818 

criando o município Novo Hamburgo pt Por outro decreto foi nomeado dr. 

Jacob  Kroeff Netto  seu  primeiro  intendente  provisório  pt  Congratulações 

bons amigos afectuosas saudações. 

470 


O decreto 3818 de 5 de abril de 1927 dizia o seguinte: 

471 


Cria o município de Novo Hamburgo com o território do 2º. Distrito de São 

Leopoldo. O Presidente do Estado do Rio Grande do Sul, no exercício da 

faculdade  que  lhe  confere  a  Constituição,  art.  20,  no.  15,  considerando 

que  900  eleitores  do  2º.  distrito  do  município  de  São  Leopoldo,  por  ser 

uma  antiga  aspiração  coletiva;  considerando  que  o  distrito  com  a 

469 


PETRY, 1944 op.cit. p.40,41 

470 


Jornal

 NH


, 05/04/2005 

471 


Segundo  GERTZ,  op.  cit.  p.  228,

  A  parte  hilariante  do  decreto  ficou  por  conta  do  preceito 

constitucional  invocado  como  base  para  o  ato.  Esperava­se  que  a  emancipação  se  desse  com 

base no parágrafo 16 do Art. 20 da Constituição Estadual de 1891, que estabelecia a concordância 

dos Conselhos para a alteração de limites municipais. No entanto, o decreto invocou o parágrafo 

23  do  mesmo artigo,  o  qual  estabelecia  a  competência  do  Presidente  do  estado  para  “conceder 

aposentadorias, jubilações e reformas, somente nos casos de invalidez em serviços do Estado.”



população  recenseada  de  8.500  habitantes,  ocupando  uma  área 

superficial  de  62  km2,  aproximadamente,  tem  por  sede  a  povoação  de 

Novo  Hamburgo  com  1.438  prédios  e  agricultura,  comércio  e  indústria 

bastante desenvolvidos,  que  já  em  1925  contribuíram  para  os cofres  do 

município  com  uma  renda  superior  a  300:000$000,  considerando  que  o 

desmembramento  do  distrito  será  pouco  sensível  ao  município  de  São 

Leopoldo,  que  ficará,  assim  mesmo,  com  uma  população  de  41.820 

almas, no mínimo, com uma superfície de 1.198 km2, e com rendas mais 

que  suficiente  para  prover  às  exigências  da  sua  vida  autônoma; 

considerando, finalmente, que o novo município, constituído inteiramente 

no interior de São Leopoldo não altera os limites deste com os municípios 

circunvizinhos de Gravataí, Taquara e São Sebastião do Caí: 

DECRETA: 

Art.  1º. –  Fica elevado à categoria de município, com a denominação de 

Novo Hamburgo e sede na  vila do mesmo nome, o  território  do atual 2º. 

Distrito do município de São Leopoldo. 

Art.  2º.  –  Enquanto  o  primeiro  conselho  municipal  de  Novo  Hamburgo, 

que  se  comporá  de  sete  conselheiros,  não  decretar  a  lei  orgânica  do 

município e não votar o seu orçamento anual, serão nele observadas a lei 

orgânica do de São Leopoldo e bem assim a sua lei de orçamento para o 

corrente  exercício,  na  parte  que  se  referir  ao  distrito,  que  passa  a 

constituir o novo município. 

Art. 3º. – O município de São Leopoldo transferirá ao de Novo Hamburgo 

a  sua  dívida  ativa  correspondente aos  contribuintes  do  anterior    distrito, 

bem como os próprios municipais nele existentes. 

Art.  4º.  –  O  município  de  Novo  Hamburgo  pagará  ao  de  São  Leopoldo, 

pela  forma que  entre  si  convencionarem,  a  quota  que  lhe corresponder, 

proporcionalmente  a  seus  habitantes,  na  dívida  passiva  que  houver 

contraído o segundo até esta data. 

Art. 5º. – Os limites do município de Novo Hamburgo são os do atual 2º. 

Distrito de São Leopoldo. 

Palácio do Governo, em Porto Alegre, 5 de 

abril de 1927. 

(Ass.) A.A.Borges de Medeiros 

Protásio Alves 

472 


A  emancipação  foi  recebida  com  festa  na  cidade,  pois  toda  a  comunidade 

viu­se  envolvida  de  uma  forma  ou  de  outra  nesse  longo  processo.  A  notícia  da 

publicação  do  decreto  chegou  à  cidade  por  telefone  e,  segundo  Leopoldo  Petry, 

imediatamente  alguns  amigos  da  causa  do  novo  município  vieram  de  carro  até 

Novo Hamburgo e Hamburgo Velho para espalhar a notícia e distribuir boletins, já 

472 


PETRY, 1944 op.cit. p. 41,42


impressos  anteriormente,  convidando  o  povo  para  os  festejos  de  comemoração 

que deveriam ocorrer à noite. 

473 

Os  panfletos  redigidos  que  conclamavam  a  população  a  participar  dos 



festejos diziam o seguinte : 

VIVA O MUNICÍPIO DE NOVO HAMBURGO 

Festejos no dia da decretação do vilamento 

O  povo  de Novo Hamburgo  reúne­se  às 20 horas na Praça da  Estação, 

donde, formando um préstito, se dirige para a Praça 20 de Setembro. 

O  povo  de  Hamburgo  Velho  se  reúne  às  mesmas  horas  na  Sociedade 

Frohsin, donde, formando um préstito, se dirige igualmente para a Praça 

20 de Setembro. 

Nessa Praça, às 21 horas, haverá saudações ao povo do novo município, 

e  às  22  horas,  em  ponto,  todas  as  bandas  de  música  presentes 

executarão o Hino Nacional, após o que, ao estrugir de foguetes, tocarão 

os sinos de todas as igrejas, todas as fábricas apitarão durante um quarto 

de hora, e far­se­ão ouvir as buzinas de todos os autos. 

NOTA!  –  Pede­se  a  todos  os  proprietários  de  autos  e  caminhões  a 

comparecerem  com  seus  veículos  e  a  colocarem­nos  de  modo  a 

projetarem a luz para o interior da Praça. 

Pede­se embandeirar as casas durante 3 dias. 

A Comissão. 

474 

Ainda  segundo  Petry,  a  programação  dos  festejos  foi  cumprida  com 



entusiasmo.  Mais  de  cem  automóveis  colocaram­se  ao  redor  da  praça, 

iluminando­a,  e  a  “grande  massa  popular”  que  compareceu  acompanhou  o  hino 

nacional  “com  as  mais  vibrantes  expressões  de  civismo”.  Quando  os  festejos 

473 


Ibidem, p.43 

474 


Ibidem, p.43


públicos  encerraram,  as  pessoas  se  dirigiram  aos  clubes  e  residências  e 

continuaram festejando até “altas horas do dia seguinte”. 

475 

Figura 69 ­ Desfile da emancipação de Novo Hamburgo, 05/04/1927. 



476 

Figura 70 ­ Festa da emancipação nas ruas da cidade, 05/04/1927. 

477 

475 


Ibidem, p.43 

476 


SCHEMES & PRODANOV, op. cit.


A  comissão  pró­emancipação  assumiu  as  principais  despesas  com 

churrasco, música e foguetes, e as demais foram divididas por empresas, bancos 

e  moradores  da  cidade,  que  fizeram  mais  de  150  doações.  Dentre  as  maiores, 

consta a da empresa Pedro Adams Filho e Cia. com 200$000. Apenas Guilherme 

Ludwig contribuiu com um valor maior, 300$000. O jornal

 O 5 de Abril

 divulga uma 

lista com todos os nomes e valores que foram arrecadados e diz: 

[...]  Se  na  parte  moral  da  luta  colaborou  quase  toda  a  população, 

encorajando  e  animando  aqueles  que  combatiam  na  vanguarda,  com  o 

seu  decidido  apoio  moral,  dando­lhes  força  e  coragem,  não  devemos 

esquecer  também  aqueles  que  com  seu  auxilio  financeiro,  colaboraram 

para o feliz êxito, fornecendo ainda os meios para os festejos com que foi 

celebrada a vitória final. [...] 

478 

Se  a animação do novo  município foi  grande,  o mesmo não  se  pode dizer 



em relação ao município sede. O intendente e o vice licenciaram­se, assumindo o 

governo  o  subintendente.  O  Conselho  reuniu­se  para  tomar  conhecimento  do 

decreto  de  criação  da  nova  cidade,  e  resolveu  instituir  uma  comissão  para  a 

elaboração de um parecer sobre ele. Esse parecer levantou, segundo René Gertz, 

três  questões:  “o  ato  de  Borges  foi  legal?”,  “a  criação  do  novo  município  trará 

vantagens e é oportuna?”, “qual a atitude a ser tomada pelo Conselho?” 

479 

Os  três  juristas  consultados,  Arthur  Ebling,  advogado  da  firma  Rotermund 



de  São  Leopoldo,  Fausto  de  Freitas  e  Castro  e  o  desembargador  Francisco  de 

Souza  Ribeiro  Dantas,  divergiram  na  questão  sobre  a  alteração  dos  limites  do 

município  de  São  Leopoldo.  Ebling  e  Castro  defenderam  que  a  aprovação  cabia 

477 


Ibidem. 

478 


Jornal

 O 5 de Abril

, 16/09/1927 

479 


GERTZ, op. cit. p.229


ao  Conselho  da  cidade;  o  desembargador  Dantas  concordou  com  a 

constitucionalidade  da  decisão  de Borges.  Com relação às vantagens  que tal ato 

traria,  os  juristas  afirmaram  que  não  haveria  nenhuma  vantagem  administrativa 

para  São  Leopoldo,  mas  eles  acabaram  concluindo  que  o  Conselho  não  deveria 

tomar nenhuma medida e que, mesmo sendo justo o desejo de emancipação, ele 

vinha em momento inoportuno, pois São Leopoldo havia assumido compromissos 

financeiros com algumas obras importantes. 

480 


O

  Deutsche  Post

  comentou  alguns  dias  depois  que  o  Conselho  havia 

decidido  simplesmente  não  fazer  nada:  não  mandou  correspondência  a 

Borges  sobre  o  assunto,  não  renunciou,  como  não  renunciaram  o 

intendente  e  o  vice,  pois,  nesse  caso,  Borges  interviria  no  município, 

como  indicariam  os  antecedentes  da  história  recente.  O  jornal  elogiou, 

portanto, a atitude dos políticos locais. 

481 

Por  outro  lado,  o  jornal



  Correio  da  Serra

  deixou  clara  sua  posição  em 

relação  à  atitude  tomada  pelo  Conselho  de  São  Leopoldo.  As  expressões 

grosseiras  no  artigo  intitulado  “A  atitude  do  Conselho  Municipal  no  caso  da 

emancipação  de  Novo  Hamburgo”,  que  tinha  como  subtítulo  “Aqueles  pobres 

diabos  avacalharam­se  completamente”  e  “Um  ridículo  imenso  caiu  como  última 

pá  de  cal  sobre  o cadáver  moral  da  política  de  São  Leopoldo”,  deixavam  claro  o 

verdadeiro desprezo pelos membros do Conselho, que beirava o desrespeito. 

O  artigo  relata  o  momento  em  que  os  conselheiros  tiveram  que  se 

manifestar a respeito da emancipação e diz: 

[...] Decorridos cerca de trinta minutos os pseudo representantes do povo 

apresentaram­se no  recinto da sessão,  onde,  tímidos,  implorando  quase 

480 

Ibidem, p.229 



481

 

Deutsche Post



 apud GERTZ, op. cit. p.230


piedade, leram com voz trêmula e sumida o esperado parecer, que nada 

disse,  mas  que,  entretanto,  deixou  transparecer  nas  entrelinhas  a  triste 

situação da fase que atravessamos e a ausência completa de caráter dos 

homens que constituem o Conselho do município de São Leopoldo, como 

um  atestado  de  inépcia  e  ignorância  da  administração.  [...]  O  que  mais 

surpreendeu no parecer foi o emprego de termos grosseiros ao referirem­ 

se aos seus correligionários de Novo Hamburgo. [...] 

482 


Depois  de  decretada  a  emancipação,  foi  nomeado,  provisoriamente,  o 

primeiro intendente do município, Jacob Kroeff Neto, um dos líderes do movimento 

emancipacionista. 

Uma  de suas primeiras  decisões  foi  dividir  o  município  em  dois  distritos:  o 

primeiro  era  Novo  Hamburgo,  com  a  nomeação  de  Marcolino  Santos  Pacheco 

para  a  sua  administração,  e  o  segundo,  Hamburgo  Velho,  cuja  administração 

coube a Júlio Kunz. 

As  conversações  políticas  logo  se  fizeram  presentes  no  novo  município, 

pois  havia  dois grupos que  tinham  interesse em assumir  o  poder. Os líderes  dos 

partidos  libertador  e  do  republicano  convocaram  seus  correligionários  para 

discutirem a questão, conforme vemos a seguir: 

Convido  os  meus  correligionários  para  uma  reunião  no  edifício  da 

Intendência  Municipal,  na  próxima  quarta­feira,  dia  20  do  corr.,  as  16 

horas,  para  tratar da indicação dos candidatos ao cargo de  Intendente e 

Conselheiros  Municipais  a  serem  eleitos  para  o  primeiro  quatriênio 

administrativo. 

Antecipo­me grato pelo comparecimento. 

Novo Hamburgo, aos 18 de Abril de 1927. 

Dr. Jacob Kroeff Netto 

483 


482 

Jornal


 Correio da Serra

, 18/05/1927 

483 

Panfleto do Partido Republicano. (APNH)




Figura 71 ­ Panfleto do Partido Republicano. (APNH) 

Aproximadamente  um  mês  depois,  a  Aliança  Libertadora  chama  seus 

correligionários  para  uma  reunião.  O  convite  sobressaía­se  pela  ênfase  dada  à 

multiplicidade  de  grupos  que  compunham  o  partido:  operários,  industriais, 

comerciantes  e  agricultores.  Os  operários  foram  especialmente  convocados: 

“Operários, vós que sois livres, e que com vosso amor e trabalho fazeis com que 

Novo Hamburgo e Hamburgo Velho sejam grandes, deveis estar presente porque 

também vós tendes o direito de dar a vossa opinião.” Ou seja, fica nas entrelinhas 

a  idéia  de  que,  naquele  partido,  o  operário  era  importante  e  que  a  sua  opinião 

tinha o mesmo peso que a do seu patrão.




Entretanto, menos de um mês depois, em 29 de maio de 1927, realizou­se 

a  primeira  eleição  municipal  na  qual  concorreu  uma  chapa  única,  formada  por 

pessoas de vários grupos políticos, conforme o acordo feito anteriormente. Os 574 

eleitores  que  votaram  elegeram,  então:  Leopoldo  Petry  (republicano)  para 

intendente,  Guilherme  Ludwig  (libertador),  para  vice­intendente  e  para 

conselheiros  os  republicanos  J. Eduino  Brodbeck,  Alberto  Adams  (filho  de  Pedro 

Adams  Filho),  H.  Alberto  Steigleder,  Bertholdo  Rech  e  os  libertadores  Balduino 

Michels, Albino Schröer e Guilherme L. Vielitz, como vemos no jornal a seguir:




Figura 72 – Primeiro governo municipal: Leopoldo Petry, intendente; Guilherme Ludwig, vice­ 

intendente; Guilherme Vielitz, J.Eduino Brodbeck, Alberto Adams, Bertholdo Rech, Balduíno 

Michels, H.Alberto Steigleder e Albino Schroer, conselheiros minucipais. Jornal

 O 5 de Abril

03/06/27



Pedro Adams Filho cedeu seu posto de conselheiro para seu filho, e passou 

a  fazer  parte  da  comissão  executiva  do  Partido  Republicano  Rio­Grandense 

juntamente com José J. Martins e André Kilpp. 

484 


O articulista do artigo publicado 

no jornal

 O 5 de Abril

 de 3 de junho de 1927, lamentou a ausência de significativo 

número  de  eleitores  no  momento  mais  fundamental  da  história  política  do 

município. 

485 

É  interessante  observarmos  como  as  relações  familiares  mesclavam­se 



com  os  relacionamentos  políticos  e  econômicos.  A  filha  mais  velha  de  Pedro 

Adams  Filho casou­se com Pedro Alles, amigo de Adams e companheiro na  luta 

pela  emancipação  da  cidade;  seu  filho  Júlio  casou­se  com  a  filha  de  José  J. 

Martins, outro líder da emancipação e amigo de Adams; o próprio Pedro casa pela 

segunda  vez  com  Olga  Kroeff,  filha  de  Jacob  Kroeff  Filho,  também  amigo  e 

companheiro na luta pela emancipação; sua filha mais nova, Carla, casou­se com 

Telmo Bins, filho de Alberto Bins. 

A emancipação da cidade representou uma vitória para toda a comunidade, 

e o seu enaltecimento fez­se sentir em vários momentos, como mostra o seguinte 

artigo de jornal: 

[...] Eis, pois, alguns ideais que não teriam sido conquistados se não fora 

a cultura, a atividade e a compreensão, por parte do povo, do verdadeiro 

papel que ao homem cabe desempenhar na existência das sociedades. 

Por  isso  é  que  também  o  povo  de  Novo  Hamburgo,  cioso  de  seus 

direitos,  com  uma  compreensão  verdadeira  do  papel  que  lhe  cabia 

desempenhar  na  comunhão  social  e  política;  conhecendo  seu  valor 

intelectual,  industrial  e  comercial  e  até  mesmo  artístico,  procurou 

conquistar a liberdade com que já há tanto sonhava; com essa liberdade, 

que no dizer de um sociólogo brasileiro, é o primeiro bem do homem. 

485 


Jornal

 O 5 de Abril

, 03/06/1927



Assim,  pois,  ainda  aqueles  que  não  viam  com  bons  olhos  a  nossa 

emancipação,  pensando  bem,  não  dirão  que  lutando  por  ela  o  fizemos 

por  egoísmo;  não! Dirão certamente  que  o  fizemos  por  puro  sentimento 

de patriotismo e obedecendo o evoluir natural dos homens que vivem em 

sociedade,  como  se  tem  observado  em  todos  os  tempos  e  com  quase 

todos os povos!... 

486 

A emancipação era colocada como uma evolução natural das sociedades e 



dos  homens,  e  um  direito  do  povo  hamburguense  que,  além  disso,  vivia  numa 

comunidade que tinha autonomia econômica. 

Muitas cidades vizinhas continuaram apoiando e prestando homenagem ao 

novo município, como podemos ver nesse exemplo do jornal

 Correio da Serra

, de 


Santa Maria. 

Figura 73 ­ Correio da Serra, 26/04/1927. (APNH) 

O  número  de  eleitores  da  cidade  apresentou  um  crescimento  bastante 

significativo no decorrer do ano de 1927. Se, em maio daquele ano, 574 eleitores 

participaram da eleição, em dezembro, o número de eleitores subiu para 1245, ou 

486 


Jornal

 O 5 de Abril

, 01/07/1927



seja, mais que dobrou. Este dado foi divulgado por uma estatística eleitoral de um 

anuário  estadual. 

487 

Dos  42  municípios  apresentados  pela  estatística,  Novo 



Hamburgo apresentava­se como o município com o maior percentual de eleitores, 

12,4% em 1927, e, em 1929 esse percentual já passava dos 13,7%. 

Tais números eram  motivos de orgulho para o município, pois significavam 

um  alto  grau  de  engajamento  político  de  sua  população  e,  conseqüentemente, 

mostravam que o nível educacional era elevado. 

[...]  Que  Novo  Hamburgo  também  ocupa  o  primeiro  lugar  nessa 

estatística, não é de admirar, pois, isso é a conseqüência natural e lógica 

do  grau  de  adiantamento  intelectual de  nosso município,  cumprindo­nos 

apenas  o  dever  de  conservar  essa  posição  de  destaque  e  consolidá­la 

para que não nos possa ser arrebatada. [...] 

488 

Entretanto, os problemas com São Leopoldo ainda apareceriam em artigos 



do  jornal

  O  5  de  Abril

  quando,  logo  depois  da  emancipação,  noticiou  sobre  as 

tentativas  do  novo  distrito  em  restabelecer  a  paz  e  a  harmonia  e  o  desinteresse 

dos cidadãos da cidade  vizinha.  Diz,  ainda,  que a  oposição  só havia crescido  na 

cidade  por  causa  das  péssimas  condições  em  que  se  encontrava,  e  a  partir 

daquele  momento  não  teria  motivos  para  continuar  crescendo.  Outra  questão 

freqüentemente  levantada  pelos  jornais  era  a  dívida  decorrente  do  processo  de 

emancipação e que deveria ser paga pelo novo município. 

487 


Jornal

 O 5 de Abril,

 27/09/1929 

488 


Jornal

 O 5 de Abril

, 27/09/1927



Essas desavenças continuaram por mais de um ano, através dos jornais de 

São Leopoldo (jornal

 União

) e Novo Hamburgo (



O 5 de Abril

), conforme vemos no 

exemplo a seguir.

 

União



  havia  feito  uma  observação  jocosa  sobre  a  passagem  de  uma 

caravana  federalista  em  São  Leopoldo  e  observado  que  em  Novo 

Hamburgo ela  fora muito  bem  recebida,  tendo o jornal  republicano  local 

inclusive noticiado a fundação do Partido Libertador novo­hamburguense. 

A  reação  dos  redatores  de

  O  5  de  Abril

  foi  a  seguinte,  numa  matéria 

intitulada  “A  nossa  vizinhança”:  “

União

,  órgão  republicano  da  vizinha 



cidade de São Leopoldo parece querer amolar­nos a paciência”. 

489 


Novo Hamburgo, após a emancipação, passou a ser o menor município do 

Estado do Rio Grande do Sul, com 65 quilômetros quadrados de área. O fato de o 

território  ser  pequeno  fez  com  que  seus  habitantes  buscassem  nas  forças 

industriais e comerciais o suporte para o desenvolvimento autônomo da cidade. 

Em  artigo  do  jornal

  O  5  de  Abril

,  argumentava­se  que  a  cidade  não 

dependia  nem  da  agricultura,  nem  da  pecuária  para  subsistir  e  que  a  pequena 

extensão territorial do município não era problema, porque 

[...]  Mal  grado  o  nosso  município  seja  o  menor  do  Estado  em  área 

superficial,  não  o  é,  porém,  nas  suas  forças  econômicas,  fator  principal 

da vida dos Estados e dos municípios. 

Fomos, por muitos anos, os maiores contribuintes da fazenda publica do 

município a que pertencemos. 

As nossas indústrias que,  sem favor nenhum, figuram  em primeiro plano 

em  o  nosso  Estado  e  que,  por  longo  tempo,  honraram  S.  Leopoldo, 

elevando­o  ás  culminância,  formarão  a  base  indestrutível,  onde  se 

assentará o futuro e a grandeza do nosso município. [...] 

Para comprovar o que vimos de dizer é bastante que se note os inúmeros 

estabelecimentos  industriais  e  comerciais  que  possuímos;  a  nossa  vida 

social; enfim, com referencia á nossa vila, o seu grau de adiantamento, o 

seu  florescimento  arquitetônico,  dia  a  dia  enriquecido  com  a  construção 

de  edifícios que honrariam qualquer cidade civilizada. [...] 

490 


489 

GERTZ, op.cit. p.234 

490 

Jornal


 O 5 de Abril

, 27/05/1927




O  artigo  continua  falando  dos  clubes  que  a  cidade  possuía,  dos 

estabecimentos  de  ensino,  dos  cine­teatros,  dos  curtumes  e  das  fábricas  de 

calçados e artefatos de couro, das serrarias e carpintarias, dos hotéis, etc. Mas o 

que  fica  claro  é  que  Novo  Hamburgo  sempre  foi  a  força  econômica  da  região  e 

que tinha tudo para se transformar numa força econômica ainda maior. 

A  gratidão  ao  governo  de  Borges  de  Medeiros  pelo  “vilamento”  de  Novo 

Hamburgo  será  manifesta  nas  eleições  ao  governo  estadual  de  novembro  de 

1927,  pois  as  principais  lideranças  do  novo  município  engajaram­se  na  sua 

campanha. 

Pedro  Adams  Filho,  juntamente  com  José  J.  Martins  e  André  Klipp,  que 

faziam  parte  da  comissão  executiva  do  Partido  Republicano,  estavam 

encarregados  de  angariar  votos  para  o  partido  situacionista  nas  eleições.  A 

eleição  de  Getulio  Vargas  era considerada  uma  importante  meta  a  cumprir  como 

forma  de  agradecimento,  conforme  podemos  ver  no  seguinte  boletim  que  havia 

sido distribuído: 

Ao Eleitorado Republicano! 

[...]  Realizando­se  amanhã  (25)  a  primeira  eleição  depois  da 

municipalização  de  Novo  Hamburgo,  reiteramos  aos  eleitores  o  convite 

de votarem todos, sem exceção, na chapa Getúlio Dornelles Vargas, para 

presidente  e  João  Neves  da  Fontoura  para  vice­presidente  do  Estado, 

sendo  esta  a  maneira  mais  simples  de  manifestarmos  parte  de  nossa 

imensa  gratidão  ao  eminente  chefe  do  Partido  Republicano  Dr.  A.  A. 

Borges  de  Medeiros  pelo  vilamento  deste  ex­segundo  distrito  de  São 

Leopoldo. 

491 

491 


Jornal

 O 5 de Abril

, 25/11/1927



Figura 74 ­ Panfleto distribuído na cidade. (APNH) 

É interessante  observar  essa  relação  de  gratidão com o governo  estadual, 

pois,  ao  mesmo  tempo  em  que  era  reiterada  a  participação  fundamental  da 

população  da  cidade,  dos  seus  empresários,  dos  políticos,  entre  outros,  eram 

creditadas as glórias ao governo de Borges de Medeiros. 

Bakos diz que o PRR tinha uma prática política em que buscava manter sua 

hegemonia recrutando correligionários coniventes com o seu ideário na sociedade 

civil. Os intendentes foram elementos chave para a consecução desse projeto. 

492 

A relação entre os políticos envolvidos com a emancipação de Novo Hamburgo e 



o governo estadual, corrobora essa idéia. 

492 


BAKOS, op. cit. p. 39


Em  1928,  Getúlio  Vargas,  do  PRR,  foi  eleito  para  o  governo  estadual.  Ele 

redirecionou  a  política  econômica  gaúcha  aos  interesses  dos  produtores  locais, 

especialmente,  dos  pecuaristas.  Para  isso,  criou  o  Banco  do  Estado  do  Rio 

Grande do Sul, que concedeu créditos a juros baixos a esses produtores, diminuiu 

as  tarifas  ferroviárias, controlou o  contrabando do charque  uruguaio,  entre outras 

medidas. 

A  cidade  de  Novo  Hamburgo,  no  ano  de  1928,  um  ano  depois  da 

emancipação,  já  era  considerada  uma  cidade  muito  mais  desenvolvida  que  no 

período anterior a sua emancipação. 

Até  1927,  a cidade, segundo  a  imprensa  que  era  porta­voz  dos  interesses 

dominantes  locais,  estava  com  seu  desenvolvimento  econômico  comprometido 

devido  ao  pouco  interesse  dado  pela  antiga  sede  do  município  aos  seus 

problemas,  principalmente  os  de  infra­estrutura  e  de  energia.  Depois  da 

emancipação,  as coisas  mudaram  para o bem,  pois  houve  uma sensível melhora 

em  todos  os  serviços  públicos  e  um  incremento  na  indústria  e  comércio.  Além 

disso,  foram  calçadas  as  estradas  que  ligavam  o  município  a  outros,  construída 

uma  ponte  e  uma  praça;  e  foi  feito  um  projeto  de  melhoramento  no  serviço  de 

águas e esgotos, entre outras melhorias. O jornal

 O 5 de Abril,

 na sua edição de 4 

de abril de 1927, apresentou uma comparação das mais diversas atividades entre 

os  anos  de  1927  e  1928.  Com  ela,  procurou  comprovar  o  desenvolvimento  em 

todas as áreas na cidade.



Depois  da  emancipação,  Pedro  Adams  Filho  continuou  à  frente  da 

comissão  executiva  do  Partido  Republicano,  conforme  podemos  observar  no 

seguinte convite: 

Convite 


A  Comissão  Executiva  do  Partido  Republicano  deste  município  tem  o 

prazer de  convidar  a  todos  os  seus  correligionários  para  mais  uma  vez, 

unidos,  numa  demonstração  da  sua  força,  acorrerem  e  votarem  nos 

candidatos GENERAL CYPRIANO DA COSTA FERREIRA, FREDERICO 

CARLOS  GOMES  E  JOAQUIM  MAURICIO  CARDOZO,  escolhidos  pelo 

partido para deputados estaduais na eleição a se realizar no próximo dia 

29. 

Na  sede  do  Club  Borges  de  Medeiros  encontrarão  os  nossos 



correligionários, diariamente, pessoa apta para informações. 

José J. Martins 

Pedro Adams Filho 

André Kilpp 

493 

Figura 75 ­ Jornal



 O 5 de Abril,

 20/04/1927 (APNH) 

O apoio de Pedro Adams Filho a Getúlio Vargas fica explicitado quando da 

vinda deste a Novo Hamburgo, para inaugurar a exposição industrial da cidade em 

493 

Jornal


 O 5 de Abril,

 20/04/1927




outubro  de  1929.  Vargas  era  candidato  à  presidência  da  República,  e  foi 

organizada  uma  grande  festa  para  homenageá­lo.  Pedro  Adams  fazia  parte  da 

comissão  de  recepção  ao  então  governador  do  Estado,  recepção  esta  que 

contava com a presença maciça das escolas, dos clubes e das bandas de música. 

Além  da  comissão  de  recepção,  havia,  também,  uma  comissão  de  ordem  e 

policiamento  e  ornamentação,  que  pedia  aos  moradores  das  ruas  por  onde 

passasse  a  comitiva  presidencial  que  tivessem  a  “fineza  de  enfeitarem  suas 

casas”. 


494 

Pedro  Adams  Filho,  segundo  o  jornal

  O  5  de  Abril

,  também  apoiava 

publicamente o  primeiro  intendente  municipal,  Leopoldo Petry,  que,  apesar  de ter 

sido  coberto  de  glórias  pela  imprensa,  viveu  momentos  de  críticas  duras 

realizadas  pela  população.  Críticas,  estas,  muito  pouco  esclarecidas  pelos 

periódicos consultados, mas devidamente reportados pelo jornal da cidade. 

Veja­se, por exemplo, em 29 de agosto de 1930, em um editorial  intitulado 

“Solidariedade  e  Protesto”,  o  jornal

  O  5  de  Abril

  apresenta  uma  declaração  de 

desagravo ao intendente municipal em virtude de um incidente ocorrido entre ele, 

Petry, e um advogado da cidade, do Partido Libertador, que o denunciou Petry por 

abuso  de  autoridade.  Esse  desagravo  é  encabeçado  por  Pedro  Adams  Filho,  e 

tem  assinatura  de  aproximadamente  180  pessoas  que  eram  representantes  de 

494 

A  nível  estadual os  políticos  vinham  se  articulando  numa  Frente  Única  Gaúcha,  que  reunia  o 



PRR  e  o  Partido  Libertador.  Essa  união  política  levou  à  Aliança  Liberal  que  reuniu  as  elites  dos 

Estados  do  Rio  Grande  do  Sul,  Minas  Gerais  e  Paraíba  contra  a  eleição  de  Washington  Luís  à 

presidência da República e foi uma das responsáveis pela Revolução de 1930, que colocou Getúlio 

Vargas na presidência do Brasil.




vários setores  da sociedade local:  industriais,  comerciantes,  profissionais liberais, 

entre outros. 

495 

O cunho político do episódio pode ser percebido em função de o reclamante 



ser  do  partido  de  oposição,  e  ter  de  utilizar­se  de  um  meio  de  comunicação  da 

capital  para  publicar  seu  protesto.  O  jornal  da  cidade  só  fez  menção  ao  ocorrido 

em função da moção de apoio. 

Segundo o jornal, 

[...] Sem pretenderem entrar na apreciação do protesto, nem dos  termos 

em  que  foi  redigido,  abstendo­se  mesmo  de  dar  maior  importância  ao 

caso  que  outro  fito  não  tem  do  que  a  exploração  política,  promovida 

muito  de  indústria  por  um  grupo  de  descontentes,  vêm  os  abaixo­ 

firmados, a bem da verdade, declarar de publico , que desaprovam esse 

protesto e que lamentam tenha o diretório sido vítima do pouco escrúpulo 

de informante apaixonado. [...] 

496 


O  jornal  segue  relatando  o  ocorrido  com  o  reclamante,  dizendo  que  o 

intendente  se  encontrava  na  rua  com  outra  pessoa,  e  o  advogado  o  “injuriou 

violentamente”, atirando­lhe no rosto “uma série de impropérios, onde não faltaram 

palavras  do  mais  baixo  calão”.  Afirma,  ainda,  que  o  intendente  pode  ter  seus 

defeitos e pode ter agido com excesso de autoridade “ao repelir as injurias que lhe 

eram imprevistamente assacadas”, mas que não poderia ter sido ofendido na rua, 

mas deveria ter sido respeitado. Finalizando, diz: 

[...] Os signatários desta, comerciantes, industriais, amigos e admiradores 

em  quem  descansa  boa  parcela  de  responsabilidades  e  que  com o  seu 

trabalho souberem fazer o pequeno município conhecido, não só em todo 

Brasil, como no estrangeiro, desaprovam o contexto do protesto, por não 

corresponder  á  verdade.  Longe  de  pretenderem  envolver­se  em 

495 

Jornal


 O 5 de Abril

, 29/08/1930 

496 

Ibidem



questiúnculas  políticas,  na  firme  resolução  de  não  tornarem  mais  a 

público  sobre  o  desagradável  incidente,  declaram  a  sua  admiração  pela 

atividade,  honestidade  e  tino  administrativo  do  major  Leopoldo  Petry. 

Quem  conheceu  Novo  Hamburgo  há  anos  e  hoje  lhe  observa  o 

desenvolvimento  em  todos  os  ramos  administrativos,  deve  confessar  e 

reconhecer  que  tudo  é  obra  do  major  Leopoldo  Petry,  que,  dentro  dos 

limites  do  reduzido  erário,  fez  verdadeiramente  milagres.  A  sua 

operosidade,  demonstrada  nas  obras  de  transformação  do  município, 

está acima dos ataques dos descontentes. 

Como  cidadão,  tanto  na  vida  pública  como  privada,  pode  ele  servir  de 

exemplo  e  como  tal  o  honramos  com  esta  nossa  declaração  de 

solidariedade,  na  hora  amarga  em  que,  por  sua  ponderação  ,  soube 

colocar­se,  ainda,  acima  das  ofensas  e  evitar  um  conflito  que,  talvez, 

poderia ter redundado em lamentável desgraça. [...] 

497 

Esse fato é um claro indício de que a administração de Leopoldo Petry tinha 



opositores,  entretanto,  a  imprensa  municipal  encobria  tais  conflitos  abertos,  e 

inexistiram referências a eles. 

O movimento emancipacionista de Novo Hamburgo pode ser considerado a 

primeira iniciativa da formação de uma identidade para a cidade, pois foi a série de 

acontecimentos  relacionados  à  emancipação  que  fez  com  que  a  comunidade 

sentisse  a  necessidade  de  afirmar­se  em  contraposição  ao  município  sede,  São 

Leopoldo. 

Os novo­hamburguenses consideravam­se os representantes do trabalho e 

do progresso no Vale do Sinos; já os leopoldenses eram os exploradores que, por 

sua vez, consideravam os vizinhos impatriotas e mais alemães que brasileiros. 

Os  novo­hamburguenses  representavam  o  novo  e  os  leopoldenses,    a 

tradição. 

Segundo Prodanov, 

497 


Jornal

 O 5 de Abril

, 29/08/1930



O mundo do trabalho e a ética protestante são amplamente assumidos e 

valorizados  pelos  agentes  da  emancipação  política  do  município.  Eles 

enaltecem  as  potenciais  virtudes  da  sua  localidade  questionando  a 

existência  das  mesmas  em  São  Leopoldo  e  marcando,  assim, 

discursivamente  e  na  memória da comunidade,  as  diferenças  existentes 

que  por  si  só  justificariam  uma  separação.  Essa  ruptura  tem  raízes 

econômicas, políticas e até religiosas, encontra campo fértil nas posições 

conceituais  do  trabalho,  da  ética  e  do  comportamento  diferenciado  dos 

alemães.  Marcadamente  inicia­se  o  processo  de  ver  e  olhar  o 

hamburguense  como  um  herdeiro  dos  valores  e  princípios  teutos,  em 

oposição a São Leopoldo, mais miscigenado. 

498 


Essa identidade inicial, forjada a partir da busca de marcos diferenciais em 

relação  a  São  Leopoldo,  vai  perdurar  e  ajudar  a  construir  o  mito  do  sentimento 

municipal  de  pujança  e  empreendedorismo  em  Novo  Hamburgo.  Nesse  sentido, 

Pedro  Adams  Filho,  pioneiro  da  indústria  calçadista  e  um  dos  líderes  da 

emancipação,  acaba  se  tornando  o  líder  das  novas  gerações  de  novo­ 

hamburguenses. 

3.1.1 – A cidade e seu cotidiano nos anos 20 e 30 

Acreditamos  que  seja  importante  tratarmos  de  algumas  questões 

relacionadas  ao cotidiano  da  cidade para compreendermos algumas  atitudes  que 

caracterizaram  o  empreendedorismo  de  Pedro  Adams  Filho,  pois  no  contexto  de 

suas vivências diárias, Adams definiu suas ações, pois, ali, segundo Agnes Heller, 

o homem se revela por inteiro. 

499 

498 


PRODANOV, Cleber C. O processo de construção da identidade urbana: Novo Hamburgo e seu 

contexto histórico. 2006.  Ex. mimeo., p.7 

499 

HELLER, Agnes.



 O Cotidiano e a História

. 3.ed. São Paulo: Paz e Terra., 1989. p. 17




As  mudanças  revolucionárias  que  aconteceram  na  ciência  no  início  do 

século  XX  fortaleceram  a  idéia  de  que  a  história  da  humanidade  caminhava  em 

direção ao progresso. Se, no Brasil, o início da industrialização veio acompanhado 

dessa ilusão da modernidade, no Rio Grande do Sul o cenário é o mesmo. 

Depois  da  emancipação,  a  cidade  de  Novo  Hamburgo  ansiava  pela  sua 

modernização,  conforme  observamos  no  jornal  local  por  meio  de  inúmeras 

matérias  que  criticavam  uma  infra­estrutura  em  desalinho  com  o  progresso 

industrial, e com o novo

 status

 político da cidade. 

Pedro  Adams  vivia  nessa  cidade  e  era  um  homem  arrojado  no  sentido  de 

sempre  ter  investido  em  novas  tecnologias  para  suas  empresas.  Além  disso, 

podemos  identificar  seu  interesse  nos  artefatos  da  modernidade  com  o  caso  de 

ele ter sido um dos primeiros habitantes da cidade a comprar um automóvel, que 

era um dos símbolos da modernidade da época. 

Novo Hamburgo, na época de sua emancipação e nos anos 30, apresentou 

algumas  mudanças  significativas  na  sua  infra­estrutura  (tratamento  e 

abastecimento  de  água,  calçamento,  esgoto,  organização  de  praças), 

principalmente  em  relação  a  seu  planejamento  urbano,  visto  que  somente  dessa 

forma alcançaria o progresso. 

Para  a  modernidade  ser  alcançada  o  passado  tinha  de  ser  superado,  e  o 

espaço  urbano  totalmente  remodelado,  pois  não  havia  sequer  ruas  calçadas  na 

cidade.



Figura  76  ­  Uma  das  ruas  centrais  da  cidade  onde  se  encontrava  grande  número  de 

empresas, sem calçamento, quatro anos antes da emancipação da cidade. 

500 

Segundo Selbach, 



[...]  A  fisionomia  hamburguense  recebeu  seus  devidos  cuidados  após  a 

emancipação.  Por  um  lado,  a  municipalidade  arborizou  praças,  arrumou 

vias públicas e construiu um palácio municipal moderno. Por outro, a elite 

enriqueceu  dia a  dia a cidade com  novas  e modernas  construções  que, 

acreditavam,  honrava  qualquer  cidade  civilizada.  Surgiram  sólidos 

500 


SCHEMES,  Claudia  &  PRODANOV,  Cleber  C.

  Memórias  do  setor  coureiro­calçadista

  –  Um 

acervo fotográfico. CD­ROM, 2005.




prédios ali e elegantes palacetes acolá. Modernos bangalôs foram sendo 

construídos. A vila se renovou paulatinamente. [...] 

501 

Entretanto, os costumes e hábitos cotidianos pouco se modificaram, como o 



comportamento e as formas de lazer. 

A  modificação  do  espaço  urbano  e  a  transformação  estética  da  cidade 

aconteciam,  mas  o  comportamento  segregacionista  continuava  existindo  nos 

grupos sociais  dominantes  em  relação  a  todo  habitante  da  cidade  que  não  fosse 

de  origem  alemã.  A  procedência  familiar  era  de  suma  importância,  o  sobrenome 

classificava os novo­hamburguenses, situação que  perdura na cidade até os  dias 

atuais. 

Pedro  Adams  Filho  fazia  parte  desse  grupo  dominante,  composto  pelos 

industriais, comerciantes, políticos e outros profissionais liberais bem sucedidos da 

cidade, entretanto, segundo relatos de seus familiares, ele não fazia qualquer tipo 

de  discriminação,  inclusive  levava  para  morar  e  trabalhar  em  sua  casa  pessoas 

com condições precárias de vida. 

502 

Essa  questão  da  modernização  como  objetivo  máximo  a  ser  conquistado 



pela nova cidade, e o conceito de progresso humano como sinônimo de progresso 

material, foi muito bem trabalhada por Selbach: 

[...] A cidade viveu seus dias de glória quando buscava incansavelmente 

o  progresso,  confundindo­o  com  conquistas  materiais.  Renovou  sua 

501 

SELBACH, Jeferson.



 Pegadas urbanas

 – Novo Hamburgo como palco do flâneur. Cachoeira do 

Sul: Ed. do Autor, 2006. p. 69 

502 


Segundo depoimentos de suas filhas Theresa e Carla e neto Pedro Adams Neto, concedidos 

em maio de 2006.




arquitetura,  construiu  belas  residências  e  edifícios  suntuosos,  alinhou  e 

calçou suas ruas, ordenou o desenvolvimento, enfim, procurou crescer e 

ganhar  feições  de  pequena  metrópole.  Para  tanto,  precisou  derrubar  as 

pontes que a ligavam ao passado, uma vez que não queria volta. Negou 

suas origens coloniais para mergulhar no sonho urbano. [...] 

503 


Nesses  anos,  um  espaço  muito  freqüentado  na  cidade  era  a  praça  14  de 

Julho, que se localizava na região central. Era palco de muitos acontecimentos e o 

local onde jovens e velhos, ricos e pobres conviviam harmonicamente. 

504 


Segundo Da Matta, a praça é a sala de visitas urbana, é ela que representa 

os aspectos estéticos da cidade, nela estão os jardins e os prédios básicos da vida 

social da comunidade: a igreja e a prefeitura. 

505 


Entretanto,  a  construção  dessa  praça  seguiu  um  caminho  particular,  pois 

Novo  Hamburgo  foi  uma  cidade  que  cresceu  de  forma  atípica,  cujo 

desenvolvimento  urbano  não  se  deu  a  partir  da  igreja,  como  era  costume  na 

maioria das cidades, mas a partir da construção da estação de trem. 

[...] Até a chegada do trem, em 1876, o que existia era somente a vila de 

Hamburgo  Velho.  Esta  desenvolvera­se  a  partir  do  entroncamento  de 

duas  estradas  onde  se  situavam  as  duas  igrejas.  A  católica  [...]  ficava 

numa parte mais alta do morro. A evangélica um pouco abaixo. A malha 

urbana da  vila  imbricava­se  entre  si,  formando  um  labirinto  por  entre  as 

construções. Como os trilhos ferroviários não alcançaram a vila, uma vez 

que  as  obras  foram  paralisadas  dois  quilômetros  antes,  em  torno  da 

estação batizada de New Hamburg foram sendo feitas novas construções 

que  passaram  a  abrigar  os  depósitos,  hotéis,  casas  comerciais  e 

residências.[...] Assim como na vila de Hamburgo Velho, a igreja não fora 

foco  principal  para  o  desenvolvimento  urbano.  Em  Novo  Hamburgo  o 

epicentro foi a estação do trem. [...] 

506 

503 


SELBACH, op. cit. p.115 

504 


Jornal

 O 5 de Abril

, 20/05/1927, 12/08/1927 

505 


DA  MATTA,  Roberto.

  Carnavais,  malandros  e  heróis

.  4.ed.  Rio  de  Janeiro:  Zahar,  1983. 

p.72,73. 

506 

Ibidem, p.24




Figura 77 ­ Estação nos anos 20.


Figura 78 ­ Estação nos anos 20. 

507 


Figura 79 ­Trem passando pela cidade. 

508 


507 

SCHEMES & PRODANOV, op. cit. 

508 

Ibidem



Figura 80 ­ Aspecto da estação em 1919, ano em que o nome da cidade foi mudado para Borges 

de Medeiros, mudança que durou apenas alguns meses. 

509 

A praça surgiu,  portanto, como  um apêndice da estação férrea e  passou a 



ser  o  cartão  de  visitas  da  cidade.  Logo  após  a  emancipação,  todos  os  esforços 

foram  conjugados  para  embelezá­la  da  melhor  maneira  possível  com  postes  de 

iluminação,  bancos  de  cimento,  canteiros  de  flores,  relógio,  etc.  Ali  passaram  a 

acontecer  comícios,  passeatas,  manifestações,  cordões  carnavalescos  e  atos 

cívicos. 

Figura 81 ­ Praça 14 de Julho 

510 

A preocupação com seu embelezamento era matéria constante no jornal da 



cidade: 

Inaugura­se,  dentro em  breve, o jardim  da praça  14 de  julho,  desta  vila. 

Não  só  por  constituir  um  requisito  de  estética  essencial  a  todo 

embelezamento  urbano  o  aludido  jardim,  que,  brevemente,  deliciará  a 

vista  e  mesmo  o  olfato  de  nossa  gente  e  dos  viajantes  que  por  aqui 

509 


Ibidem 

510 


Ibidem


passarem, dando  um  atestado do  bom  gosto  da administração  que  vem 

logrando  proporcional  a  esta  vila  um  embelezamento  digno  de  qualquer 

centro  adiantado  [...]  dupla  utilidade,  unindo  o  útil  ao  agradável  [...]  o 

viajante,  por  exemplo,  que  tiver  de  esperar  o  trem,  principalmente  no 

verão, não precisará fazê­lo dentro do velho casarão da viação,  que nos 

dias caniculares é como que um forno em brasas, fará, então, na praça, à 

sombra,  num  ambiente  de  ar  agradável,  tendo  á  vista  a  perspectiva 

belíssima[...]  assim  o  forasteiro  levará  da  nossa  terra  uma  grata 

lembrança,  uma  agradável  impressão  [...]  da  influência  que  os  jardins 

públicos  exercem  na  vida  das  grandes  cidades  e  dos  povos  inteligentes 

[...] é evidente o valor higiênico mental dos jardins. 

511 


Figura 82 ­ Praça 14 de Julho após ajardinamento em 1929. 

512 


Várias  outras  matérias  foram  feitas,  chamando  a  atenção  da  população 

para  as  questões  da  “modernização”  e  “embelezamento”  da  praça,  desde  a 

solicitação  aos  moradores  para  que  não  arrancassem  flores,  até  o  pedido  aos 

proprietários  de  cavalos  e  outros  tipos  de  animais  para  que  não  os  deixassem 

soltos, estragando a praça. 

511 


Jornal

 O 5 de Abril

, 12/08/1927 

512 


SCHEMES & PRODANOV, op. cit.


[...]  Novo  Hamburgo  não  fica  atrás  em  matéria  de  cachorrada,  com  a 

pequena  diferença  de  que  aqui  os  cachorros  não  se  limitam  a  dormir 

pelos  passeios,  vão  agredindo  as  dentadas  os  transeuntes  incautos  e 

atordoando  as  ruas  com  o  seu  ladrar  insuportável.  [...]  Nada  mais 

desagradável  que  essa  falta  de  garantias  para  as  nossas  pernas 

proveniente da excessiva liberdade dada a sociedade canina. [...] 

513 

Figura 83 ­ Bebedouro para animais localizado na Praça 20 de Setembro, no centro de 



Novo Hamburgo em 1914. 

514 


513 

Ibidem, 14/02/1930 

514 

SCHEMES & PRODANOV, op. cit.




Outro  problema  atacado  pela  municipalidade  após  1927  foi  a  limpeza 

urbana, que era considerada um dos principais sinais de civilidade. 

[...]  as  ruas  são,  por  assim  dizer,  as  salas  de  visitas  de  uma  localidade 

[...]  e  si  acontece  chegar  um  visitante  qualquer  e  esbarrar  em  todos  os 

lugares públicos com montes de cisco, cascas de frutas espalhadas pelos 

passeios, sarjetas entupidas por detritos e exalando mau cheiro, não será 

muito  lisonjeira  a  impressão  que daqui  levará;  Enquanto  as nossas  vias 

de  transito  não  passavam  de  simples  estradas  rurais,  completamente 

abandonadas, pouco se notavam essas irregularidades, mas agora que a 

municipalidade  manda  nivelar,  alinhar  e  sargentá­las,  derrubados  os 

velhos  plátanos,  plantados  sem  ordem  nem  simetria,  verifica­se  uma 

completa  modificação  em  seus  aspecto  geral  e  qualquer  trapinho  ou 

detrito, que em tempo não vão longe, não passaria despercebido nos fere 

desagradavelmente  a  vista;  Sabemos  perfeitamente  que  não  é  a  má 

vontade, a causa que leva muitos moradores da nossa vila atirarem para 

a rua o lixo das casas, mas unicamente um velho hábito , um antigo uso, 

e certo estamos que basta a publicação do edital para acabar de vez com 

esse abuso. 

515 

Figura 84 ­ Hamburgo Velho, 1922. 



516 

515 


Jornal

 O 5 de Abril

, 14/06/1929 

516 


SCHEMES & PRODANOV, op. cit.


Seis anos depois desse apelo, o jornal dizia que a falta de limpeza nas ruas 

continuava  e  não  condizia  com

  “os  nossos  foros  de  progresso  e  civilização”

Ressaltava que essa questão vinha sendo discutida há muitos anos e a prefeitura 



vinha fazendo a sua parte no conserto e conservação das ruas, e que a população 

deveria ter boa vontade, e contribuir para o embelezamento de sua cidade. 

Se, por um lado, havia uma grande preocupação com a aparência do centro 

da  cidade  e  do  bairro  de  Hamburgo  Velho,  por  outro  via­se  um  grande  descaso 

com  os  bairros  considerados  pouco  nobres.  Fora  do  centro,  onde  ficava  o 

comércio  principal,  e  de  Hamburgo  Velho,  bairro  tradicional  e  habitado  pelas 

famílias  mais  influentes,  a  realidade  era  bem  diferente,  o  abandono  era  quase 

total. 


Outro  fato importante para abordarmos é a discriminação  do elemento  não 

alemão  que  é  muito  pouco  registrada  pela  historiografia  oficial  do  município.  O 

aparente  congraçamento  inter­racial  é  tido  como  regra.  Entretanto,  existia  em 

Novo  Hamburgo,  nesse  período  por  nós  analisado,  alguns  bairros  que  tinham 

características  muito  peculiares  e  que  evidenciam  a  forma  em  que  se  dava  a 

discriminação. 

Segundo  Carlos  Mosmann,  a opressão  racial  sempre  existiu  na  sociedade 

novo­hamburguense, desde a chegada dos primeiros imigrantes alemães. 

517 

517 


Entrevista  concedida  pelo  jornalista  Carlos  Mosmann  que  ocupou  a  Secretaria  Municipal  de 

Indústria, Comércio e Turismo em Novo Hamburgo e que participou de projetos de preservação do 

patrimônio cultural negro da cidade. In: SOUZA, Leira Salete Teixeira.

 Preconceitos na História de 

Novo Hamburgo

: Uma visão crítica da bibliografia existente. Novo Hamburgo, 2003. ex. mimeo.




[...]  Até  a  década  de  40,  o  racismo  era  tão  intenso  que  o  nome  de 

algumas localidades era determinado pela etnia dos seus habitantes. Um 

destes lugares era o  bairro  hoje conhecido  como  Guarani.  Habitado  por 

negros,  era  conhecido  como  “África”.  O  bairro  Rio  Branco  era  chamado 

de “Mistura”, por abrigar tanto famílias brancas como negras.  [...]  ambas 

as  localidades  eram  separadas  do  núcleo  central  de  Novo  Hamburgo 

pelos  arroios  [...]  até  a  década  de  1930,  pelo  menos,  as  crianças 

descendentes  de  alemães  eram  proibidas  de  cruzar  estes  arroios, 

explicitamente  para  evitar  que  tivessem  contato  com  pessoas  de  outras 

etnias. [...] 

518 

Outro  bairro  citado  é  o  atual  Primavera,  que  era  chamado  de  “Limpeza”, 



pois  “antes de adotar o  sistema  de  fossas sépticas na cidade, as  fezes  e  a urina 

das famílias  residentes na área urbana  eram recolhidas em espécies de urnas  e, 

semanalmente, tinham seu conteúdo jogado naquela área.” 

519 


Era próximo a esse 

local que se estabeleceram numerosos grupos de negros que viviam com grandes 

dificuldades financeiras. 

520 


Segundo  Carlos  Mosmann, 

521 


os  bairros  habitados  pelos  “não–alemães



África,  Mistura,  Limpeza,  sofriam  de  todos  os  problemas  que  antes  acometiam  a 

cidade em  geral e que foram  sendo sanados  nas áreas consideradas prioritárias, 

como  o  Centro  e  Hamburgo  Velho.  Nesses  locais  marginalizados  pela 

municipalidade  instalavam­se,  também,  aqueles  trabalhadores  da  indústria  do 

couro e do calçado que vinham de outras cidades para trabalharem aqui. 

Novo  Hamburgo  dividia­se  entre  o  centro,  onde  se  concentravam  as 

fábricas  e  o  comércio  e  Hamburgo  Velho,  que  era  a  zona  nobre  e  recomendada 

como estação de veraneio e repouso. Segundo Petry, 

518 

Ibidem, p.16 



519 

Ibidem, p.16 

520 

SCHÜTZ, Liene M. Martins.



 Os Bairros de Novo Hamburgo

. São Leopoldo: Sinodal, 2001. 

521 

Entrevista de Carlos Mosmann. In: SOUZA, op. cit.




[...]  Hamburgo  Velho  está  situado  no  alto  de  uma  colina,  onde 

diariamente  se faz sentir a viração do oceano e donde se goza um lindo 

panorama: ao leste, o vale do rio dos Sinos e além  os morros de Lomba 

Grande,  com  suas  igrejas  e  suas  casinhas  brancas,  quase  escondidas 

entre  o  verdor  das  árvores  e  dos  matos;  ao  norte,  a  serra  dos  Dois 

Irmãos, com seus picos, separados por um extenso vale e tão parecidos 

um com o outro, que deram o nome àquela zona; ao oeste e sul, a cidade 

de  Novo  Hamburgo,  com  suas  belas  residências,  as  suas  chaminés  e 

fábricas,  donde  ressoa  todo  o  dia,  em  ritmo  animador,  a  música  do 

trabalho, a melodia das máquinas e o hino do progresso. [...] 

522 

Da mesma forma, a harmonia indica que a cidade não tinha problemas com 



a  segurança  pública.  A  polícia  não  tinha  sequer  plantão  na  delegacia,  pois  os 

casos  de  violência  praticamente  inexistiam.  As  ocorrências  policiais  relatam 

pequenos furtos, ciclistas  utilizando  calçadas,  portões  de  residências arrancados, 

brigas  por  jogo;  os  casos  mais  graves  eram  agressões  físicas,  assaltos  com 

facões, invasões de residências para roubo, etc. 

523 


Um  fato  que  chama  a  atenção  nos  jornais  é  a  quantidade  de  objetos 

encontrados  e  que  são  devolvidos  na  redação  para  que  seus  proprietários  os 

recebam.  Entre  eles:  sombrinhas,  carteiras,  jóias,  chaves.  Os  jornais  noticiavam 

essas ocorrências policiais, como podemos ver nesses dois exemplos: 

Roubo  na  Igreja  São  Luiz.  Na  noite  de  domingo  para  segunda­feira 

última,  audacioso  gatuno,  penetrou  no  templo católico local, onde furtou 

uma pequena taça de ouro, o suporte da hóstia sagrada. Nem as igrejas 

respeitam. 

524 

Monstruosidade:  chegando  próximo  a  ponte  de  acesso  ao  bairro  Rio 



Branco,  Adão  apressou  o  passo  para  encontrar­se  com  Maria  neste 

trajeto, que é menos habitado. Munido de  um cacetete,  Adão, sem mais 

nem menos, entrou a  espancar barbaramente a infeliz moça.  Revelando 

toda monstruosidade  que  vinha  dominando,  com  um  forte golpe prestou 

522 

PETRY, op. cit. p.147 



523 

Segundo jornal

 O 5 de Abril

 

524 



Ibidem, 16/01/1931


Maria  ao  solo.  Faustino,  vendo  a  atitude  facínora  de  Adão,  em  vez  de 

socorrer sua cunhada, deita a correr. 

525 

Segundo  o  jornal,  em  1935,  os  poucos  problemas  de  segurança  pública 



podem  ser  medidos  pela  presença  de,  apenas,  16  homens  da Brigada  Militar  na 

cidade. 


526 

Outro  fato  peculiar,  informa  o  mesmo  periódico,  é  que  não  havia 

menores abandonados nas ruas, quando eles eram encontrados, eram recolhidos 

e encaminhados aos pais. 

A cidade, como um todo, também carecia de infra­estrutura nas áreas mais 

básicas, como abastecimento de água e luz (como já vimos em capítulo anterior). 

Somente  nos  anos  50  é  que  a  água  abastecida  pela  hidráulica  pode  ser  servida 

em  estabelecimentos  comerciais  e  residências.  Antes  disso,  o  fornecimento  era 

realizado por meio de poços artesianos. 

Em relação ao transporte, de 1912 a 1915, a cidade contou com uma linha 

de  bonde  que  ligava  o  centro  a  Hamburgo  Velho, 

527 


com  “carros  de  praça”, 

quando  o  serviço  de  bonde  foi  suspenso,  com  alguns  automóveis,  a  partir  de 

1918,  e  com  uma  linha  de  ônibus  entre  Hamburgo  Velho  e  Novo  Hamburgo,  e 

entre  a  cidade  e Porto Alegre.  Em  1920,  foi  inaugurada  a  linha  Novo  Hamburgo­ 

525 

Ibidem, 19/06/1931 



526 

Segundo PETRY, op. cit. p.89, no ano de 1928 havia apenas um “filho de Novo Hamburgo” na 

Casa  de  Correção  de  Porto  Alegre  e,  entre  os  488  homicídios  praticados,  apenas  um  aconteceu 

em Novo Hamburgo; ferimentos graves foram dois e atentados à propriedade apenas um. 

527

 

Os bondes partiam do largo fronteiro à estação da estrada de ferro, subiam a rua General Neto 



até  a  Bento  Gonçalves,  seguiam  por  esta  rumo  à  Praça  20  de  Setembro  até  a  rua  Júlio  de 

Castilhos,  continuando  por  esta  acima  a  Hamburgo  Velho  até  seu  ponto  terminal,  o  Hotel 

Esplêndido.  [...]  Porém,  o empreendimento não  dava lucros.  Um  dos  motivos  dos  prejuízos  foi  o 

desgaste  dos  animais  de  tração.  A  subida  de  Novo  Hamburgo  até  Hamburgo  Velho,  devido  ao 

terreno  acidentado,  exigia  grandes  esforços  desses  animais  que,  ao cabo  de  poucas  semanas  , 

estava  inutilizado.  Para  sanar  este  mal,  o  jovem  mecânico,  Aloísio  Einsfeld,  concebeu  a  genial 

idéia de adaptar aos bondes um motor de automóvel. Constituiu essa idéia uma novidade, mas foi 

aceita pela administração dos bondes. O motor foi colocado e Novo Hamburgo teve a primazia, no 

Rio Grande do Sul, de dispor de um tráfego de bondes motorizados

. Ibidem, p.63




Tramandaí, o que facilitou a ida ao litoral nas férias de verão, hábito difundido até 

hoje. 


528 

As  atividades  comerciais,  embora  não  tenham  sido  o  carro  chefe  da 

economia  da  cidade,  sempre  foram  muito  importantes.  Lembramos  que  essa 

atividade foi a responsável pela criação de vila de Hamburger Berg no século XIX. 

529 

O comércio era bastante variado na cidade, existindo representantes dos mais 



diversos  tipos  de  estabelecimentos  como  armazéns,  magazines,  hospedagens, 

postos de combustível, etc. 

Figura 85 ­ Loja e depósito de couros em Hamburgo Velho, anos 20. 

530


 

528 


[...]  naquela  época  não  existia  [...]  o  que  se  poderia  chamar  de  estrada.  O  viajante  via­se 

obrigado  a procurar passagem, contornando  cômoros,  desviando banhados  e  lagoas,  através de 

um  terreno  coberto de  escassa vegetação  e  cheio  de  obstáculos,  que  exigiam  muita perícia dos 

motoristas, para serem vencidos. Carros semi­interrados, ora na areia movediça, ora em banhados 

imperceptíveis  a  quem  não conhecia o  terreno, constituíam  aventuras  tão  comuns,  que  até  nem 

conseguiam  alterar  a  boa  disposição  dos  passageiros  e,  quando  ocorria  o  caso  de  atolar­se  o 

veículo,  apeavam  todos a  ajudarem  o  motorista  sair  da  situação em  que  se encontrava.

  Ibidem, 

p.63 

529 


Esta vila foi criada no entroncamento da estrada das tropas, que ligava o noroeste da província 

a  São Francisco  de Cima da  Serra,    e  da  estrada  geral,  que  vinha do  passo do  Rio  dos  Sinos  e 

seguia em direção ao morro de Dois Irmãos. SELBACH, op. cit. p. 236 

530 


SCHEMES & PRODANOV, op. cit.


Esse  comércio  regulamentado  e  a  fama  de  boa  pagadora  da  cidade,  era 

motivo  de  orgulho  da  comunidade,  entretanto,  deixava­a  suscetível  ao  comércio 

informal,  formado  pelos  vendedores  ambulantes  que  vinham  de  outras  cidades. 

Eles  vendiam  diretamente  ao  consumidor  a  preços  mais  baixos,  o  que  era  uma 

preocupação  das  autoridades,  pois  prejudicava  os  negócios  dos  pagadores  de 

impostos. 

531 

Em relação ao lazer, a cidade pouco tinha a oferecer ao cidadão comum, ou 



seja,  aquele  que  não  participasse  de  algum  clube  (tema  que  será  abordado  a 

seguir). 

Havia os cine­teatros, que traziam alguns espetáculos teatrais ou filmes, os 

circos  que  se  instalavam  na  Praça  20  de  Setembro  e  que  sempre  estavam  com 

suas  lotações  esgotadas,  as  corridas  de  cavalo,  os  clubes  de  ciclistas  que 

organizavam passeios aos domingos e, no ano novo, os grupos que, munidos de 

gaita, iam de casa em casa cantando e dando votos de felicidades. 

532 


531 

Jornal


 O 5 de Abril

, 13/09/1929 

532 

Segundo notas informativas do jornal



 O 5 de Abril

.



Figura 86 ­ Prédio do primeiro cinema da cidade com ônibus passando em frente, 1916. 

533 


Além  desses  eventos  recreativo­culturais,  os  cidadãos  da  cidade  tinham 

como  hábito  passear  na  praça  e  pela  rua  central  da  cidade,  fazer  piquenique  na 

533 

SCHEMES & PRODANOV, op. cit.




beira do arroio Luiz Rau, que era  o  balneário  da  cidade,  e caçar passarinho com 

funda, sentar com a família na calçada em frente a casa para olhar o movimento e 

as crianças brincarem (hábito que perdura até hoje na cidade). 

Figura 87 ­ Avenida Pedro Adams Filho, década de 40. 

534 

Os desfiles cívicos, ao mesmo tempo evento oficial e festa popular, também 



eram  momentos  de  lazer.  A  Semana  da  Pátria  era  especialmente  festejada  para 

evidenciar  o  espírito  patriótico  da  cidade  que  foi,  muitas  vezes,  acusada  de 

impatriótica 

535 


, como vimos anteriormente. Os desfiles, acompanhados pelo povo 

534 


Ibidem 

535 


Na ocasião da luta pela emancipação o Conselho Municipal de São Leopoldo sugeriu que Novo 

Hamburgo  ainda  não  estava  totalmente  nacionalizada  em  função  do  grande  número  de 

descendentes de imigrantes alemães.



entusiasmado, eram compostos por crianças das escolas e por atletas dos clubes, 

que desfilavam pela avenida principal da cidade. 

536 

O  15  de  novembro  também  era  comemorado  por  estudantes,  clubes  e 



políticos  que  se  reuniam  para  cantar  o  hino,  e  iam  até  o  monumento  da 

emancipação em Hamburgo Velho, puxados pela Banda Municipal Carlos Gomes. 

Figura 88 ­ Carro decorado para desfile carnavalesco nos anos 20. 

537 


A  tranqüilidade  da  cidade  é  lembrada  pelo  jornal

 O 5  de  Abril

,  quando  ele 

faz referência à passagem de aviões por ela. 

536 

SELBACH, op. cit. p.141,142 



537 

SCHEMES & PRODANOV, op. cit.




Passou,  terça­feira  última,  sobre  esta  vila,  um  aeroplano.  Vinha  ele  de 

nordeste  e  tomou  a  direção  sudoeste.  Para muitas  outras  localidades  é 

um  fato  comum,  sendo,  entretanto,  para  Novo  Hamburgo  um 

acontecimento digno de registro. 

538 

“Uma  elegante  aeronave  da  Varig”  ou  “espetáculos  inéditos  de  hábeis 



pilotos”  da  Base  de  Aviação  Naval  eram  também  noticiados  pelo  jornal. 

539 


passagem  do  dirigível  Zeppelin  pela  cidade  foi  um  acontecimento  que  ficou 

registrado no jornal. 

Passavam  cerca  de  15  minutos  das  13  horas,  quando,  finalmente, 

divisava­se  a  longo  o  gigantesco  ‘pássaro  prateado’,  prorrompendo  a 

multidão  em  grande  manifestação  de  entusiasmo.  Lentamente,  o  ‘Graf 

Zeppelin’  ia  vencendo  a  grande  distância  e,  pelas  13,30  horas  rumava 

para  esta  vila.  Nesta  altura,  um  dos  aviões  que  o  foram  encontrar, 

despistou a grande aeronave, que, por isso, voltou, sem mesmo cruzar a 

parte  central  desta  vila.  Foi  muito  sentido  que  o  imponente  dirigível, 

quando já ia em território hamburguês, não cruzou a zona principal deste 

município, onde teve início a colonização alemã do Estado, há 110 anos, 

e onde, em Hamburgo Velho, ergue­se, majestoso o belo monumento em 

homenagem aos pioneiros dessa grande obra de colonização. 

540 

A respeito desse acontecimento, ímpar na cidade, há um depoimento muito 



emocionado de uma operária da indústria calçadista que rememorou esse fato: 

Vocês  não  lembram,  mas  o  Zeppelin  passou  por  aqui!  [...]  nós  vimos 

nitidamente.  O  patrão  parou  a  firma  e  botou  nós  todos  para  a  rua  para 

nós  vermos  o  Zeppelin.  Nossa!  O  pessoal  abanava  pra  nós  e  nós 

abanávamos para eles. Foi muito bonito. Eu vi o Zeppelin! [...] 

541 


As  atividades  religiosas  também  faziam  parte  do  dia­a­dia  da  cidade  de 

forma  bastante  intensa  desde  a  vinda  dos  primeiros  imigrantes  alemães.  Esses 

538 

Jornal


 O 5 de Abril

, 05/09/1930. 

539 

É bom lembrar que  em 07/05/1927 nascia a S.A.  Empresa de Viação Aérea Rio­Grandense, a 



VARIG, um dos símbolos do progresso dos gaúchos e motivo de orgulho. 

540 


Jornal

 O 5 de Abril

, 09/11/1934 

541 


Entrevista de Irena Koch concedida para a autora em abril de 2002.


imigrantes  trouxeram  a religião  evangélica  luterana para um  país  que tinha  como 

culto  oficial  a  religião  católica.  Isso  representou  mudanças  significativas  na 

organização das comunidades, especialmente em relação à educação. 

A maioria dos imigrantes que chegou a Novo Hamburgo era evangélico e, já 

em  1832,  construíram  a  primeira  igreja  em  Hamburgo  Velho  que  também  servia 

como  escola.  Somente  em  1898  foi  inaugurada  a  igreja  evangélica  de  Novo 

Hamburgo, no centro da cidade. 

Os  católicos,  como  eram  em  menor  número,  construíram  sua  igreja  em 

Hamburgo Velho apenas em 1850 e, no centro de Novo Hamburgo, em 1924. 

A construção dessa igreja contou com ampla participação de Pedro Adams 

Filho que, segundo relato de seus familiares, era uma pessoa de fortes convicções 

religiosas  e  fez  parte  da comissão  que  dirigiu  a  sua  construção,  juntamente com 

Pedro  Alles  (casado  com  a  filha  mais  velha  de  Adams),  Leo  J.  Campani  e 

Leopoldo Petry. 

A  igreja  católica  também  foi  a  responsável  por  grandes  procissões  que 

eram consideradas verdadeiros eventos sociais pelos cidadãos. 

Segundo Selbach, 

[...]  na  procissão  de  Corpus  Christi,  que  iniciava  na  Igreja  São  Luiz  e 

seguia  por  algumas  ruas  centrais,  viam­se  as  fachadas  dos  edifícios 

festivamente  engalanadas  e  ornamentadas  com  imagens,  estátuas  e 

flores.  Em  algumas  pontos  por  onde  o  féretro  passava,  armavam­se 

artísticos  altares  onde  o  sacerdote  e  o  sumo­sacerdote  celebravam  a 

bênção, seguidos pelos diversos coros que faziam a melodia. Se grande 

número  de  católicos  acompanhavam  tais  atos  religiosos  com 

demonstrações  de  devoção,  os  não­católicos  acompanhavam­se  tais



atos  religiosos  com  demonstrações  de  devoção,  os  não­católicos 

assistiam com respeito à solenidade. [...] 

542 

Figura 89 ­ Primeiro prédio da Igreja Católica de centro da cidade. 



543 

Nos  anos  1980,  a  historiadora  Liene  Schütz 

544 

fez  uma  pesquisa  com  as 



pessoas que viveram na cidade nos anos 1920 e 1930, com o objetivo de apontar 

o tipo de vida dos imigrantes alemães e seus descendentes.  Achamos importante 

542 

SELBACH, op. cit. p.141 



543 

SCHEMES & PRODANOV, op. cit. 

544 

SCHÜTZ, Liene Martins, 4º Simpósio de História da Imigração e Colonização Alemã no Rio 



Grande do Sul.


apresentar  algumas  de  suas  conclusões,  pois  elas  refletem  o  dia­a­dia  das 

pessoas que conviviam com Adams. 

Segundo  a  autora,  a  alimentação era constituída  principalmente  de  batata­ 

inglesa,  sopa  de  legumes, salsichões, chucrute, cucas,  pão  de  batata­doce, pão­ 

de­trigo  e  de  aipim,

  schmier

,  nata,  coalhadas  e  requeijão,  salames,  lingüiças, 

carne de porco, charque, arroz, cevada, pão­de­ló, tortas de frutas e peixe. 

As formas de lazer mais praticadas eram as visitas aos amigos, serenatas, 

rodas  de  anedotas,  bailes,

  kerb

,  corridas  de  cavalo,  jogos  de  carta,  vísporas, 



futebol,  rodas  de  bordado  (

stick­kränzchen

),  caça  a  tatus,  tamanduás,  veados  e 

gatos do mato, audição de música, assistência às operetas, participação em festas 

de igreja, leitura de romances, passeios na praça, espera do trem junto à estação 

ferroviária. 

545 

Quando analisamos o cotidiano da cidade nos anos em que Adams esteve 



no  auge  de  suas  atividades  políticas,  podemos  perceber  que  muitas  eram  as 

necessidades, não só de infra­estrutura, mas também de lazer e cultura. O fato de 

ele ter participado da comissão responsável pela  construção  da  igreja  católica  no 

centro  da  cidade,  é  exemplo  de  como  sua  atuação  tinha  de  transcender  as 

questões econômicas e político­partidárias. 

Acreditamos  que a  rotina e  as  atribuições  da vida diária podem  determinar 

os múltiplos papéis que cada indivíduo assume ao longo da sua vida. Como afirma 

Agnes  Heller,  não  é  possível  separarmos  o  comportamento  cotidiano  do  não 

545 

Ibidem



cotidiano  por  limites  rígidos  e  que  “toda  obra  significativa  volta  à  cotidianidade  e 

seu efeito sobrevive na cotidianidade dos outros.” 

546 

Pedro  Adams  Filho  estava  inserido  em  uma  comunidade  que  tinha 



necessidades  e  interesses  específicos,  mas  influenciavam,  em  seu  dia  a  dia,  as 

suas decisões e atitudes. Nesse sentido, lembramos mais uma vez Heller que diz 

que  uma  das  características  da  vida  cotidiana  é  a  “entonação”,  ou  seja,  “o 

aparecimento  de  um  indivíduo  em  dado  meio  ‘dá  o  tom’  do  sujeito  em  questão, 

produz uma atmosfera tonal específica em torno dele e continua depois a envolvê­ 

lo.” 


547 

O  cotidiano  é,  portanto,  um  espaço  de  construção  e  produção  da  história, 

não  apenas  de  reprodução  e  manutenção  de  normas  e  condutas.  Como  diz  Del 

Priore,  “os  problemas  colocados  pelo  cotidiano  não  são  menores,  pois  a  história 

se constrói nesse dia­a­dia [...] e temos que analisar de que maneira se operam as 

relações entre ambos.” 

548 

3.2 ­ As atividades comunitárias 



546 

HELLER, op. cit. p.27 

547 

Ibidem, p. 36 



548 

DEL PRIORE, Mary. História do Cotidiano e da Vida Privada.  In: CARDOSO, Ciro Flamarion & 

VAINFAS,  Ronaldo.

  Domínios  da  História:  Ensaios  de  Teoria  e  Metodologia.

  Rio  de  Janeiro: 

Campus, 1997. p.266




Pedro  Adams  Filho  não  teve  apenas  uma  atuação  fundamental  na 

economia e política do município. Seu envolvimento comunitário também deve ser 

ressaltado  em  função  das  várias  atividades  que  exerceu  durante  sua  vida  em 

Novo Hamburgo. 

Podemos considerá­lo um empreendedor social, ou “um agente que propõe 

a  criação  de  idéias  úteis  para  resolver  problemas sociais,  combinando  práticas e 

conhecimentos  de  inovação,  criando  assim  novos  procedimentos  e  serviços  [...] 

cuja motivação é a melhoria da vida das pessoas.” 

549 

As atividades de cunho sócio­culturais realizadas por Adams foram: 



549 

OLIVEIRA,  Edson  Marques.  Empreendedorismo  social  no  Brasil:  atual  configuração, 

perspectivas  e  desafios  –  notas  introdutórias.

  Revista  da  FAE

,Curitiba,  v.7,  n.2,  p.9­18,  jul/dez 

2004. p.11




Qua dr o 2 ­ Atividades sócio­cultur ais de Pedro Ada ms Filho em Novo Ha mbur go 

(1888­1929) 

Nome 

Ano 


Tipo de participação 

Sociedade Frohsin 

1888 

Sócio/administração 



Sociedade Ginástica de 

Novo Hamburgo 

1910/11 

Presidente 

Sport 

Club 


Novo 

Hamburgo 

1911 

Ajudou a fundação 



Jockey Club 

1912/13 


Fundação 

Sociedade 

do 

carro 


fúnebre 

1913 


Fundação/administração 

Colégio São Jacob 

1914 

Fundação/administração 



Associação Comercial 

1920 


Fundação/administração 

Igreja  Católica  de  Novo 

Hamburgo 

1924 


Comissão de obras 

Caixa 


Rural 

União 


Popular 

1929 


Fundação/administração 

(presidente) 

Fonte: PETRY, op. cit. 

Ele  incentivou  ou  participou  ativamente  de  várias  associações  de  cunho 

recreativo  ou  esportivo.  Essas  associações  surgiram  em  profusão  no  interior  do 

Estado e, na maioria das vezes, eram formadas pelos descendentes de alemães, 

que as utilizavam para auxiliarem­se mutuamente. 

550 


550 

Por  ocasião  do  centenário  da  imigração,  em  1924,  foi  feito  um  levantamento  do  número  de 

sociedades existentes e chegou­se  ao  total de  327 assim distribuídas:  97  em Santa  Cruz do Sul, 

48  em  Venâncio  Aires,  41  em  Porto  Alegre,  24  em  Taquara,  22  em  Rio  Pardo,  19  em  São 

Lourenço do Sul, 15 em São Leopoldo, 11 em Cruz Alta e Santa Maria, 10 em Cerro Largo, 8 em 

Montenegro, 7 em Lajeado e Santo Ângelo, 4 em Sobradinho e 3 em Ijuí.  FLORES, op. cit. p.120.




Inicialmente,  essas sociedades eram bastante fechadas em função  de  seu 

objetivo  principal,  a  manutenção  da  germanidade,  o  que  tornava  obrigatório  a 

utilização da língua e dos valores alemães. 

Entretanto,  essas  associações  já  vinham  se  formando  há  muitos  anos  na 

cidade, conforme vemos na tabela a seguir:



Quadro 3 – Sociedades de Novo Hamburgo (1888­1927) 

Nome 


Ano de fundação 

Sociedade Frohsin 

1888 

Sociedade de Atiradores 



1892 

Sociedade Gymnastica 

1894 

Sociedade Gymnastica de Hamburgo Velho 



1896 

Sociedade de Atiradores de Hamburgo Velho 

1896 

Sport­Club Novo Hamburgo 



1911 

Football­Club Esperança 

1914 

Tiro de Guerra no. 251 



1916 

Sport­Club Olympio 

1919 

Sociedade de Canto, Música e Teatro Palestrina 



1919 

Sport­Club Progresso 

1921 

Grêmio da Mocidade Bailante 



1921 

Sport­Club Guarany 

1925 

Sport­Club Canudense 



1925 

Sociedade Recreativa Rio Branco 

1926 

Club União Juvenil 



1916 

Sociedade de Canto Bruderbund 

1917 

Sociedade Recreativa Maenner­Club São João 



1921 

Sport­Club Victoria 

1923 

Sociedade de Canto Frisch Auf 



1924 

Sport­Club Palmeira 

1924 

Grêmio S. Hamburguez de Football a Atletismo 



1927 

Sport­Club Municipal 

1927 

Sport­Club Ypiranga 



1927 

Fonte: PETRY, Leopoldo, op. cit., p.89­92 

A  quantidade  de  sociedades  recreativas  e  esportivas  existentes  na  cidade 

na  década  de  1920,  mostrava  a  importância  dada  ao  esporte  e  ao  lazer  no 

município. Também  lembramos que o associativismo,  comum  na  Europa,  tornou­ 

se  uma  característica  do  imigrante  alemão,  que  “contrabalançou  o  trabalho  na 

solidão do lote rural, ao longo da semana, com recreação em grupo aos domingos,



e  era  também  uma  forma  de  viabilizar  problemas  comuns  referentes  à  vida 

comunitária, como religião, escola, recreação, saúde.” 

551 

O jornal


 O 5 de Abril

 reforçava a importância da vida comunitária: 

Na formação do caráter do povo da nossa vila, de seus usos e costumes, 

as  diversas  sociedades  tiveram  uma  influência  muito  pronunciada  e, 

mister de dizê­lo, sumamente benéfica. 

Com  efeito,  sendo  o  fim  de  quase  todas  as  associações  a  dedicação  a 

um  ideal  elevado  –  cultura  do  canto,  desenvolvimento  do  esporte  –  ali 

compareciam  a  princípio  principalmente  aqueles  cujo  idealismo  é 

bastante  forte  para  desistir  aos  primeiros  obstáculos,  geralmente  não 

pequenos, que se opõe ao seu progresso. 

Vencidas  estas,  agregam­se  em  torno  dos  vencedores,  todos  aqueles 

que a  principio se mantinham afastados –  seja por comodismo,  seja  por 

temerem  as  dificuldades,  seja  por  não  acreditaram  num  desfecho 

favorável das lutas. 

Consolidada  assim  a  sociedade,  comparecem  também  as  famílias,  cuja 

presença  por  si  só obriga  a  todos  os  sócios a um procedimento correto, 

compensado, por  sua  vez, pela afabilidade  em  que logo se  transformam 

o  ambiente,  a  ponto  de  se  encontrar  em  muitas  sociedades  uma 

cordialidade  igual  á  que  nos  atrai  nas  famílias  de  esmerada  educação. 

[...] 


552 

As  sociedades,  como  vimos,  eram  consideradas  fundamentais  para  a 

harmonia social e

 “formação do caráter

” do cidadão novo­hamburguense. 

Esse  espírito  associativo  é  considerado,  por  Hilda  Flores,  uma 

característica  do  imigrante  alemão,  o  que  podemos  considerar  válido,  visto  o 

número  elevado  de  associações  culturais,  recreativas  e  esportivas  que  foram 

sendo  criadas  desde  o  século  XIX  na  cidade,  e  que  sempre  tiveram  um  número 

significativo de integrantes. 

551 

FLORES, op. cit.p.119 



552 

Jornal


 O 5 de Abril

, 20/09/1927




Segundo  Telmo  Lauro  Muller, 

553 


historiador  especialista  em  colonização 

alemã,  esse  perfil  do  imigrante  estava  ligado  aos  invernos  rigorosos  da  Europa, 

que  impediam  as  pessoas  de  se  encontrarem  ao  ar  livre  durante  muitos  meses, 

daí a criação de sociedades e clubes criados para esses encontros onde se podia 

dançar, cantar ou jogar, ou seja, conviver com os outros. 

Era  bastante  comum  nas  colônias  alemãs  a  existência  das  sociedades  de 

canto 

(“gesangverein”), 



de 

ginástica 

(“turnvereine”) 

de 



atiradores 

(“schützenvereine”).  Já  na  metade  do  século  XIX,  em  1858,  foi  fundada  a

 

Sociedade  Orpheu



  em  São  Leopoldo,  em  1867,  a

  Sociedade  Ginástica

  de  Porto 

Alegre e, em 1885, a

 Sociedade Ginástica

 de São Leopoldo. 

Pedro Adams Filho participava ativamente desses clubes, não apenas para 

se  divertir,  jogar  e  encontrar  amigos,  mas,  também,  auxiliando  nas  questões 

administrativas sempre que julgava necessário. 

554 


Ele  foi  presidente  da

  Sociedade  Ginástica  de  Novo  Hamburgo

  durante  os 

anos  de  1910  e  1911,  e  fundador  do

 Jockey  Club

  de  São  Leopoldo,  que  iniciou 

suas atividades entre 1912 e 1913 e existiu, provavelmente, até os anos 40. 

O

  Jockey



  era  um  importante  local  de  encontro  da  comunidade  aos 

domingos.  Era onde seus sócios podiam  discutir  questões  relacionadas à  política 

ou  apenas  praticar  algum  esporte.  Infelizmente,  em  relação  a  esse  clube  não 

553 


MÜLLER, Telmo Lauro.

 História da Imigração Alemã para Crianças

. Porto Alegre: EST Edições, 

1996. p.44 

554 

Segundo depoimento de familiares já citados e jornal



 NH

 de 05/04/2002




existem  registros  em  arquivos,  portanto,  não  há  maiores  informações  sobre  seu 

funcionamento. 

555 

Com  relação  à



  Sociedade  Ginástica

  de  Novo  Hamburgo,  embora  também 

não se tenha preservado a sua história, há algumas informações complementares. 

Esse clube  foi  criado  em 11 de junho  de  1894, com  o  nome  de

 Turnverein 

New Hamburg

, por 18 jovens filhos e netos de imigrantes alemães que desejavam 

um  lugar  para  praticar  esportes e  dançar.  Durante  18  anos  o  clube  funcionou  na 

casa de seus fundadores. Somente em 1912 é que foi inaugurada a primeira sede 

no  centro  da  cidade. 

556 

Acredita­se  que  Adams  teve  um  papel  significativo  na 



construção  da  sede,  pois  ela  foi  construída  apenas  um  ano  depois  de  seu 

mandato na presidência. Seu poder econômico e influência política podem ter sido 

fundamentais para isso. 

Nesses  anos  iniciais,  eram  famosos seus  bailes  de

 kerb

,  que  chegavam  a 



durar três dias. 

Essas  sociedades  tinham  uma  participação  importante  na  comunidade 

através  dos  bailes  e  dos  eventos  esportivos.  Nesses  últimos,  a  freqüência 

masculina era alta e, apesar de as sociedades oferecerem várias opções (dentre a 

mais conhecida, o futebol), era o bolão o esporte que se destacava. Esse jogo foi 

trazido para  o  Brasil  pelos alemães, que  fundaram  um grande  número  de  grupos 

que se dedicaram a ele. 

555 


Segundo Telmo L. Muller diretor do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo. 

556 


A  primeira  diretoria  do  clube  (1894/1895)  era  composta  pelas  seguintes  pessoas:  Frederico 

Eckert (presidente), Carlos Waltermann (vice­presidente), Pedro Wolff Filho (mestre de ginástica) e 

Edmund Wolff (guarda­sport)



Outra  atividade  esportiva  bastante  popular  era  o  tiro  ao  rei,  praticada  nas 

sociedades  de  atiradores.  Ao  menos  uma  vez  por  ano  os  clubes  promoviam  um 

torneio muito disputado entre os sócios e que era acompanhado com entusiasmo 

pela comunidade. 

[...]  O  evento  ocupava  todo  o  domingo.  Espectadores  mais  fervorosos 

almoçavam na sociedade para não perder um tiro sequer do torneio, que 

sempre  prometia  lances  espetaculares  na  parte  da  tarde.  O  rei  era 

proclamado  ao  anoitecer  e  começava  uma  semana  de  preparativos.  No 

domingo  seguinte,  sempre  ocorria  o

  “Königsball

”,  o  Baile  do  Rei.  Pela 

tradição,  a  banda  e  a  diretoria  da  sociedade  buscavam  o  Rei  para 

conduzi­lo  com  honras  pelo  salão.  A  diretoria  formava  uma  linha  de 

frente, enquanto todos os vencedores do torneio alinhavam­se em forma 

de U, com lanternas apontadas para o chão. Proclamava­se os vitoriosos 

e  seguia­se  a  entrega  das  medalhas.  Sobre  o  peito  do  rei  colocava­se 

uma espécie de faixa cruzada, onde eram afixadas as medalhas de cada 

ano.  Também  cabia  ao  rei  abrir  o  baile  da  noite,  dançando  a  polonese. 

Iniciada a festa, os alvos, expostos pelo salão, podiam ser apreciados.[...] 

557 


Leopoldo Petry também fez referência a essa questão enaltecendo o povo 

“trabalhador” da cidade,  e relacionando o trabalho  às  associações,  o que  é  parte 

da  constituição do mito  referente à comunidade de Novo  Hamburgo,  como  pode­ 

se ler a seguir: 

Onde  há  intenso  trabalho,  não  existe  somente  prosperidade,  mas,  se 

forma  também,  em  todas  as  camadas  sociais,  não  apenas  o  desejo, 

senão  a  necessidade  de  distrair  o  espírito,  cansado  pela  intensa 

concentração  das  idéias,  bem  como  de  movimentar  o  corpo,  durante 

horas a fio obrigado ao repouso ou a posições forçadas. 

Daí  o  grande  interesse  pelos  desportes  em  nossa  cidade.  Novo 

Hamburgo é,  talvez, entre  todas as cidades  do  interior do  Estado, a que 

mais tem desenvolvido esse ramo de atividade e diversão. 

Sociedades  de  ginástica,  tiro  ao  alvo,  futebol,  tênis,  de  canto  e  outras, 

foram fundadas, em grande número, há muitos anos e têm prosperado de 

maneira notável. [...] 

Acresce,  ainda,  que  as  diretorias  das  sociedades  ginásticas procuravam 

sempre  elevar  o  nível  cultural  de  seus  associados;  para  esse  fim 

construíram suas sedes, onde são oferecidas aos sócios diversões várias 

557 

Jornal


 ABC Domingo

, 24/07/1997




em  forma  de  bailes,  teatros,  bom  como  oportunidade  de  reuniões  para 

pequenas festas íntimas, jogos, etc. 

Petry  finalizou  dizendo  que  a  Sociedade  Ginástica  de  Novo  Hamburgo  foi 

uma das mais se destacou na cidade: 

Entre essas sociedades de ginástica sempre se destacou, graças às suas 

esforçadas diretorias, a de Novo Hamburgo, que além de sua imponente 

sede  social,  com  salões  de  baile,  canchas  de  bolão,  biblioteca  com 

grande  coleção  de  livros,  ainda  possui  excelente  e  bem  cuidado  e  bem 

cuidado  campo  de  desporto,  com  canchas  de  tênis  e  outros 

melhoramentos peculiares a tais empreendimentos. 

558 

O  autor  ainda  diz  que,  em  1944,  havia  18  sociedades  desportivas  na 



cidade,  contando  com  3531  associados,  e  9  recreativas com  3116  sócios,  o  que 

mostra o aumento do número dessas associações. Sendo a população da cidade 

composta  por  11.321  pessoas,  havia  58%  de  cidadãos  novo­hamburguenses 

ligados a alguma sociedade, o que é um índice bastante elevado, se compararmos 

com  a  porcentagem  atual  de  associados  a  clubes  esportivos  e  recreativos  na 

cidade. 


559 

Pedro  Adams  Filho  também  participou  da

  Sociedade  Frohsinn

,  depois 

conhecida  por  Sociedade  de  Cantores  de  Hamburgo  Velho,  principalmente 

jogando bolão nos finais de semana e auxiliando na sua administração. A

 Frohsinn

 

surgiu  da  fusão  das  duas  primeiras  sociedades  de  Novo  Hamburgo:  a



  Arion

  e  a


 

Eintracht

  que  tinham  como  finalidade  ensaiar  cantos  para  as  festas  da  igreja 

evangélica  e  para os enterros,  e que surgiram em  meados  do século  XIX. Dessa 

fusão,  surgiu,  em  4  de  maio  de  1888,  a

  Gesangverein  Frohsinn

  (Sociedade  de 

558 


Petry, op.cit.p.89­91 

559 


Ibidem


Canto  Espírito  Alegre)  que,  como  o  próprio  nome  diz,  cultivava  o  canto  coral  e  a 

música, mais tarde também o teatro e o bolão. 

560 

Em 1923, essa sociedade contava com 260 sócios, e funcionava em prédio 



próprio, com palco, em Hamburgo Velho. 

[...]  Pedro  Adams,  que  tanto  amou  o  trabalho,  tinha  também  momentos 

de  diversão.  Assim,  duas  a  três  vezes por  semana,  ia  praticar  bolão  do 

“Frohs”  [...] E  nessa  ocasiões  tinha a  oportunidade de saborear o chopp 

de que  tanto gostava.  Era,  também, ardoroso  jogador  de  “skat”,  jogo  de 

cartas em voga na época e semelhante ao escovão de hoje. 

561 

Essa  matéria  de  jornal  é  significativa,  pois  identifica  uma  das  formas  de 



lazer  de  Pedro  Adams  Filho,  mas,  ao  mesmo  tempo,  salienta  que  ele

  “amava  o 

trabalho”

,  ou  seja,  justifica  o  fato  de  que um  dos  maiores  empresários  da  cidade 

também  se  divertia,  o  que  parecia,  de  certa  forma,  atípico  para  um  descendente 

de alemães que deveria ter o trabalho como meta de vida. 

560 

Segundo  FLORES



,  havia,  em  1924,  58  Sociedades  de  Canto,  além  das  de  Coral,  Música  e 

Orquestra,  totalizando 72 associações  nas  quais  o elementos  feminino  tomava parte ativa.  [...]  s 

Sociedades de Canto atuaram como fator de identidade étnica e de controle moral, feito através da 

seleção  das  letras  das  canções.  Aprendidas  no  lar,  retomadas  na  escola  e  ensaiadas  na 

sociedade,  as  canções  auxiliaram  a  perpetuar  o  legado  cultural  imigratório.  A  participação  da 

mulher alemã na vida social está expressa também nas 18 Sociedades de Damas ou de conotação 

feminina

. Op. cit. p.121 

561 

Jornal


 NH

, 05/04/1977




Figura 90 ­ Comunidade e associados na “festa de cantores” em frente à Sociedade Frohsin em 

1905. (FEFS) 

Pedro  Adams  Filho  também  era  figura  constante  nas  listas  de  apoio  a 

instituições  de  caridade,  como  o  Instituto  para  Cegos  Dr.  Getulio  Vargas,  que 

organizou  uma  comissão  para  angariar  fundos  no  Estado,  e  que  teve  como  um 

dos  primeiros  doadores  a  sua  empresa.  Em  outro  momento,  foi  realizada  uma 

campanha para angariar donativos para uma família carente e ele, mais uma vez, 

foi um dos que mais auxiliou. 

562 

Pedro Adams Filho era, também, um dos organizadores de algumas festas 



populares. A matéria intitulada “O alegre Pedro” dizia o seguinte: 

562 


Segundo a notícia

 “Obra de caridade”

 publicada no jornal

 O 5 de Abril

 de 30/09/1932.



A  festa  de  São  Crispim,  o  padroeiro  do  sapateiro,  tornou­se  um  grande 

acontecimento  na  época.  No  campo  fronteiro  ao  local  onde  hoje  está  a 

Escola Industrial Senador Alberto Pasqualini, realizavam­se no dia 29 de 

junho grandes festas populares, comandadas por Pedro Adams. Além de 

seus empregados,  faziam­se  presentes  convidados  até  de  Porto  Alegre, 

somando  mais de  500 pessoas.  E  entre danças,  comida  e  balões  todos 

comemoravam a data. O ponto alto residia no espetáculo dos balões, um 

dos  quais  continha  um  vale  que  dava  direito  a  um  calçado  da  marca 

Adams. 

563 


Os  eventos  ligados  a  sua  empresa  também  eram  motivo  de  divulgação, 

como os churrascos com seus empregados, que iniciavam pela manhã e iam tarde 

adentro. 

Sábado, 31 de dezembro último, a firma P. Adams Fo. & Cia. reuniu, em 

sua sede, seus auxiliares e grande número de amigos e, em regozijo pelo 

bom  encerramento  do  balanço,  ofereceu­lhes,  magnífico  churrasco, 

regado a chopp. 

Estava  ali  reunido  o  que  Novo  Hamburgo  tem  de  mais  representativo; 

autoridades municipais, federais e Estaduais; representantes das classes 

comercial, industrial e bancaria, além de muitas outras pessoas gradas. 

Num  dos  intervalos  do  churrasco,  o  sr.  Ewaldo  Koch,  em  nome  dos 

convidados,  agradecem  á  firma  P.  Adams Fo.  &  Cia., pela  gentileza  em 

proporcionar­lhes tão bela festa; continuando, teceu hinos ao sócio sênior 

sr.  Pedro  Adams  Filho  que,  durante  3  decênios,  disse,  foi  o  incansável 

batalhador pelo progresso de Novo Hamburgo. 

Seguiu­lhe com a palavra o  sr.  Arnaldo Coelho,  que,  em nome da firma, 

agradeceu  aos  termos  carinhosos  do  orador  que  o  precedeu  e  afirmou 

que,  como  já  há  30  anos,  a  firma  P.  Adams  Fo.  &  Cia.  continuaria  a 

quebrar lanças por Novo Hamburgo. 

Ambos os oradores foram, ao terminar, muito aplaudidos. 

Os sócios da firma, com o cavalheirismo que lhes é peculiar, cobriram de 

gentilezas os convidados que, ao retirar­se ás 4 horas da tarde, levaram, 

da encantadora festa, a melhor das impressões. 

564 


O interesse de Pedro Adams pela comunidade manifestou­se, também, em 

questões de perdas e de tristezas, como por ocasião da criação da “sociedade do 

carro fúnebre”, administrada por sua empresa. 

563 


Jornal

 NH


, 05/04/1977 

564 


Jornal

 O 5 de Abril

, 06/01/1928



Essa  sociedade  foi  criada  em  1913,  com  o  objetivo  de  adquirir  um  carro 

fúnebre  para  a  ainda  vila  de  São  Leopoldo,  pois  o  carro  existente  era  de  tração 

animal.  Os  outros  bens  da  sociedade  eram  uma  casa  e  um  terreno  bem 

localizados na cidade. 

565 

Durante  quinze  anos,  Pedro  Adams  exerceu  uma  administração  “solícita, 



dedicada  e  desinteressada” 

566 


,  e,  somente  em  1928,  foi  convocada  uma  sessão 

dos  sócios  para  tratar  de  assuntos  da  sociedade,  dentre  eles,  a  solicitação  dos 

administradores  daquela  época  para  transferir  sua  presidência  à  intendência 

municipal. 

[...]  Estava  na  ordem  do  dia  a  discussão  duma  proposta,  apresentada 

dias antes pelo sócio sr. Pedro Adams F., de ser transferido à intendência 

municipal o ativo e o passivo da sociedade, seus bens móveis e imóveis, 

obrigando­se  a  intendência  municipal  de  substituir  o  carro  fúnebre,  até 

agora  usado,  de  tração  animal,  por  um  caminhão  automóvel,  mais 

adequado  às  necessidades  da  época.  Por  unanimidade,  foi  aceita  a 

proposta  do  sr.  Pedro  Adams  F.,  assumindo  a  intendência  municipal  o 

ativo e o passivo da sociedade [...] 

Por  proposta  do  sr.  Intendente  municipal,  unanimemente  aceita,  ficou 

assentado lavrar­se em ata um voto de louvor ao sr. Pedro Adams F. pela 

solicitude, dedicação e desinteresse com que, durante quinze anos, zelou 

pela marcha e bens da sociedade. [...] 

A  proposta  do  sr.  intendente  de  ser  lavrado  um  voto  de  louvor  ao  sr. 

Pedro  Adams  F.  é  tanto  mais  justa  e  merecida,  em  vista  do  que  está 

exposto,  isto  é,  da  invulgar  dedicação  e  abnegação  ,  e  zelo  pouco 

comum  com  que  administrou  a  sociedade  durante  15  anos  de  sua 

existência. 

567 


A  substituição  do  carro  aconteceu  dois  anos  depois,  em  1930,  com  o 

aproveitamento  de  um  chassi

  Chevrolet

,  a  construção  de  uma  cabine  por  uma 

empresa da cidade e a utilização de algumas peças do antigo carro. 

565 


Ibidem 

566 


Jornal

 O 5 de Abril

 ,17/02/1928. 

567 


Ibidem


Outro  momento  importante  na  atuação  comunitária  de  Pedro  Adams 

ocorreu  em  1918  com  a  epidemia  da  gripe  espanhola  que  assolou  o  país  e, 

também, a cidade. 

Foram  instalados  na  cidade  três  hospitais  de  emergência:  dois  na 

Sociedade  Atiradores  de  Novo  Hamburgo  e  Hamburgo  Velho,  e  um  no  Colégio 

São  Jacó;  o  serviço  de  enfermagem  foi  prestado  pelas  irmãs  do  Colégio  Santa 

Catarina  e  pelos  irmãos  maristas.  A cidade  teve  aproximadamente  300  casos  da 

gripe  e  20  mortes  decorrentes  dela.  A  cidade  toda se  envolveu  durante  e  depois 

de  debelada  a  epidemia,  com  contribuições  ao  governo  municipal  para  o  auxílio 

das despesas. 

Adams,  assim  como  seu  irmão  Alberto,  utilizou  seu  próprio  carro  para 

transportar  os  doentes  aos  hospitais.  Enviou  donativos  em  dinheiro,  roupas, 

alimentos aos acometidos pela doença e organizou uma campanha para arrecadar 

fundos ao município, que teve suas despesas aumentadas com a epidemia. 

No  obituário  de  Pedro  Adams,  Leopoldo  Petry  assim  se  refere  a  esse 

episódio: 

[...] Onde mais se patenteou seu coração magnânimo e seu nobre caráter 

foi por ocasião da gripe, denominada  “espanhola”, que,  em fins  de 1918 

assolou o país inteiro  e se fez sentir  intensamente em nosso meio.  Sem 

pensar  em  si,  desde  o  primeiro  momento  auxiliou  as  pessoas 

encarregadas  para  zelar  dos  atacados  da  moléstia,  pondo  a  disposição 

seu  auto  particular,  exemplo  que  também  foi  seguido  por  seu  irmão 

Alberto, com

 chauffeur

 e gasolina, para atender os doentes e conduzi­los 

aos  hospitais  de emergência,  localizados  em  diversos pontos  desta  vila, 

então  2º.  distrito  de  São  Leopoldo,  ainda  enviava  dinheiro,  viveres  e 

roupas  ás  famílias  mais  pobres  e  quando  o  mal  já  estava  debelado, 

vemo­lo  com  uma  lista  angariar  donativos  para  serem  entregues  à



Intendência do Município, afim de poder fazer face às vultosas despesas 

ocasionadas pela epidemia. [...] 

568 

A cidade, nessa época, tinha um sistema de saúde bastante precário, como 



se deduz da informação de que o primeiro hospital foi criado apenas em 1930. O 

Sanatório Regina foi construído pela Associação Congregação de Santa Catarina 

e, apenas em 1939, é que foi construído o

 Posto de Higiene

 do município. 

Figura 91 ­ Hospital Regina, anos 30. 

569 

No ano  de  1939,  entretanto, um  grupo  de  novo­hamburguenses  mobilizou­ 



se  para  a  construção  de  um  hospital  destinado  à  classe  operária,  e  criou  a 

Associação  Maurício  Cardoso.  Dessa  associação  fizeram  parte  dois  filhos  de 

568 

Ibidem, 13/09/1935 



569 

SCHEMES & PRODANOV, op. cit.




Pedro Adams Filho: Albano Adams e Oscar Adams. Este último exerceu a função 

de presidente da Associação. 

570 

Essa  associação,  depois  de  enfrentar  muitos  problemas,  conseguiu 



inaugurar o Hospital Darci Vargas no ano de 1947. 

Acreditamos que esse envolvimento comunitário dos filhos de Adams tenha 

se gerado a partir da influência do pai, pelo exemplo dado no envolvimento nessas 

questões comunitárias. 

Pedro  Adams  Filho  também  criou,  em  1929,  a

  Caixa  Rural  União  Popular

 

de Novo Hamburgo, entidade com o objetivo de prestar serviços à economia local, 



que tinha como sede a sua empresa. 

571 


Essas  instituições  financeiras  surgiram  no  início  do  século  em  vários 

núcleos de colonização teuto­brasileira e eram, praticamente, as únicas formas de 

amparo ao trabalhador rural. 

572 


Adams  foi  o  fundador  e  primeiro  diretor  da

  Caixa


,  tendo  como  auxiliares 

Oscar  Adams,  seu  filho,  e  Alonso  Bernd.  Além  do  crédito  rural,  essa  instituição 

financeira  também  fornecia  financiamentos  pessoais  e  para  construção  de 

moradias. 

570 

Segundo PETRY, op. cit., p.126,127,128,129. 



571 

Jornal


 O 5 de Abril

, 28/02/1930 

572

 

[…]  as  antigas  “Caixas  Rurais”  eram  autônomas,  pois  respondiam  por  seus  atos  e 



financiamentos, e estavam diretamente subordinadas a uma “Central das Caixas Rurais” de Porto 

Alegre;  a  fiscalização  era  feita  por  esta  central  e  também  pelo  Banco  Central.  Anualmente,  o 

estabelecimento  recebia  dos  dois  órgãos  a  inspeção,  como  também  orientação  técnica  e  fiscal

VIER, Justino Antonio.



 História de Dois Irmãos/RS

  – Passado  e  Presente.  São Leopoldo:  Gradfil, 

1999. p.134



Segundo  Vier,  os  empréstimos  eram  proporcionais  às  cotas  de  capital 

subscrito, e as Caixas  não  financiavam capital de giro de empresas,  mas, com o 

aumento  do  volume  de  negócios,  aumentavam,  também,  os  fundos  de  reserva. 

Assim,  “o  desenvolvimento  dos  negócios  financeiros  cresciam  na  mesma 

proporção do bom desempenho da produção, dos preços agrícolas e do comércio 

desses produtos”. 

573 

Nessa  instituição  financeira  havia  um



  “Fundo  de  Reserva  Especial”

,  que 


deveria ser distribuído a associações beneficentes, como hospitais, igrejas, asilos, 

escolas públicas, enterros, etc. 

Se,  de  um  lado,  a  participação  de  Adams  nessa  instituição  mostra  seu 

comprometimento com a comunidade em que vivia, de outro, era uma maneira de 

obter  recursos  financeiros  com  mais  facilidade.  Não  podemos  esquecer  que 

Adams  era  um  empresário  engajado, 

574 

que  assumia  os  problemas  da 



comunidade, e procurava  resolvê­los  pessoalmente,  como nesse caso, assumir a 

direção da Caixa. 

Essa  preocupação  apareceu  em  outros  momentos  da  história  da  cidade, 

como, por exemplo, quando um grupo de pessoas lançou a idéia da criação de um 

centro de caridade em Novo Hamburgo, logo após a sua emancipação. 

575 


A esse respeito diz o jornal

 O 5 de Abril

573 


Ibidem, p.138 

574 


Como  vimos  em  diversas  ocasiões,  como  na  criação  da  empresa  de  energia  elétrica,  na 

sociedade do carro fúnebre, na criação da Associação Comercial, na criação da Caixa Rural União 

Popular, no auxílio aos doentes de gripe espanhola, entre outras. 

575 


Jornal

 O 5 de Abril

, 13/05/1927



[...]    a  caridade,  este  bálsamo  salutar  que  mitiga  as  dores  e  alivia  os 

sofrimentos,  ainda não encontrou  eco  nos bondosos  corações de  nossa 

terra. Seria talvez falta de iniciativa para assunto de tal relevância? 

Em  Hamburgo  Velho  foi  lançada  a  base.  Basta  que  a  Indústria  e  o 

Comércio,  analisando  o  bem  que  poderão  auferir  os  seus  operários  ou 

mesmo  a  coletividade  inteira,  [...]  dispensem  um  pouco  de  sua  energia 

em  benefício  de  tão  magno  assunto  e  em  breve  as  duas  localidades 

irmanadas  poderão  ver  se  levantar  um  templo  de  caridade  que  a 

posteridade saberá venerar e amparar. 

O  início  deverá  ser  modesto,  cada  obreiro  com  uma  pequena 

mensalidade,  o comércio e a  indústria com a sua contribuição mensal, e 

os  poderes  públicos  com  o  que  os  seus  órgãos  possam  anualmente 

despender,  e  em  breve  teremos  completado  o  verdadeiro  problema 

social,  por  que  socialmente  falando  não  é  somente  com  diversões  que 

uma  coletividade  conquista  o  seu  bem­estar,  sem  cores  políticas  ou 

religiosas, tendo em mira o amparo da humanidade sofredora e a frente o 

desinteresse,  é  fácil  transpor  todas  dificuldades  e  veremos  em  breve 

realizada  uma aspiração  tão justa  e  tão  benéfica  tanto  quanto o  decreto 

que há pouco criou o município de Novo Hamburgo. 

576 


A  forma  paternalista,  ou  a  falta  de  autonomia  atribuída  ao  trabalhador  em 

relação à solução de seus problemas sociais fica muito clara. O centro de caridade 

seria  doado  aos  trabalhadores  com  a  intenção  de  ajudá­los,  mas,  quem  sabe, 

também  como  forma  de  aliviar  a  consciência  daqueles  que  podiam  usufruir  os 

prazeres que as “sociedades de diversões” proporcionavam. 

A  preocupação  com  o  bem­estar  dos  operários  que  viviam  na  cidade  e 

trabalhavam em suas diversas indústrias, foi demonstrada, anos mais tarde, com a 

criação  da vila industrial  e de uma financiadora  de  imóveis  populares:  era a  “Cia. 

Pró Lar Próprio”. Essa companhia tinha como objetivo financiar a casa própria dos 

trabalhadores  que  poderiam  adquirir  um  terreno  em  prestações  naquela  vila, 

localizada numa região considerada promissora,  por  lá haver diversas  fábricas, e 

576 


Jornal

 O 5 de Abril

, 13/05/1927



por ser cortada pela estrada de ferro, que ligava Novo Hamburgo a São Leopoldo. 

577 


Essa  idéia  de  o  progresso  da  cidade  estar  ligado  ao  bem­estar  do 

trabalhador  aparecia  constantemente  no  jornal  local,  como  nessa  matéria

 

intitulada “Novo Hamburgo em progresso”:



 

Em todos os cantos surgem almas que propugnam pelo engrandecimento 

de  nossa  Vila,  que  já  é  um  dos  impulsores  máximos  da  indústria  rio­ 

grandense. 

Não  temos  mais  só  indústria  de  couro,  como  era  até  ainda bem  pouco. 

Não! Já outras indústrias surgiram e muitas de grande importância. 

Era  lógico  que,  aumentando  cada  vez  mais  a  nossa  população,  pelos 

operários  que  essas  empresas  necessitam,  também  deveriam  surgir 

pessoas que facultassem ao operariado uma vida mais despreocupada. 

O  operário  já  não  precisa  mais  viver  sob  o  teto  estranho,  se  seus 

caprichos  o  levam  a  tanto,  pois  com  pouca  cousa,  tendo  as  melhores 

condições,  adquirirá  o  seu  terreno,  pagando­o  em  prestações,  na  Vila 

Industrial. [...] 

578 


O  jornal  ainda  publicou  um  apelo  dramático  aos  empresários  locais,  aos 

industriais,  aos comerciantes  e  à população  em  geral  no  sentido  de  contribuírem 

para o natal da criança carente. Vejamos: 

Apello! 


A generosidade dos snrs. commerciantes e industrialistas e da população 

de Novo Hamburgo em geral. 

Approxima­se a festa mais doce, mais suave da Cristandade – o NATAL. 

Innumeros corações juvenis pulsam mais depressa com a lembrança dos 

prazeres que esta festa lhes trará. 

Mas  quantas  crianças  existem  que  conhecem  o  Natal  só  por  bocas  de 

outros, mais felizes. 

As crianças pobres, os filhos dos desherdados da fortuna, não têm Natal. 

Nem  árvore,  nem  presentes,  pois  a  tanto  os  parcos  recursos  dos  paes 

não alcançam. 

Rectifiquemos  esta  injustiça!  Proporcionemos  a  festa  de  Natal  às 

creancás humildes. 

A  comissão  central  abaixo,  tomou  a  si  a  tarefa  de  organizar  o  NATAL 

DAS  CREANÇAS  POBRES.  Para  ser  bem  succedida,  precisa,  no 

577 

Jornal


 O 5 de Abril

, 16/12/1932 

578 

Ibidem



entanto, do auxilio da nossa população para quem apella, pedindo de um 

óbulo,  ou  entregando­o  a  algum  membro  da  commissão  ou  a  quem  a 

percorrerá. 

QUEM DÁ AOS POBRES DÁ A DEUS! 

A Commissão Central: 

José J. Martins 

Pedro Alles 

Henrique Schneider 

Lino Kieling 

Jukio Adams 

Alberto Mossmann 

Roberto Lipp 

Leopoldo Schneider 

Willy Martin 

Ewaldo Koch 

579 


Figura 92 ­ Jornal

 O 5 de Abril

, 02/12/32 (APNH) 

Mais  uma  vez  podemos  perceber  o  discurso  do  positivismo  difuso 

580 

permeando  as  relações  sociais,  pregando  a  integração  do  proletariado  à 



sociedade de classes, e deixando claro que a missão dos capitalistas fortes era de 

ajudar os fracos e oprimidos. 

579 

Jornal


 O 5 de Abril

, 02/12/32 (APNH) 

580 

BOEIRA, op. cit. p. 45,46




Pedro Adams Filho foi, ainda, um dos responsáveis pela criação de um dos 

clubes de futebol que mais paixão desperta na cidade até os dias de hoje: o

 Sport 

Club Novo  Hamburgo

,  fundado  em  uma  festa  que  o  empresário  ofereceu  a seus 

funcionários em comemoração ao dia do trabalho, em 1911. 

A  data  foi  comemorada  com  um  churrasco  e  uma  partida  de  futebol  que 

incentivou  os  funcionários  da  empresa  de  Adams  (Manoel  Lopes  Mattos,  João 

Scherer,  Aloys  Hauschild,  Manoel  Outeiro,  João  Tamujo  e  Adão  Steigleder.)  a 

criarem  esse  clube  que,  num  primeiro  momento,  se  chamou

  Adams  Futebol 

Clube


581 


As  atividades  comunitárias  lideradas  e  apoiadas  por  Pedro  Adams  Filho 

ficaram na memória da cidade, e seu espírito alegre e festivo foi fundamental para 

incentivá­las. 

Entretanto,  acreditamos  que  duas  ações  sociais  lideradas  por  ele  foram 

especialmente  significativas  e  o  aproximaram  do  que  hoje  se  chama  de  um 

empreendedor  social,  alguém  responsável  por  alguma  ação  que  cause  um 

impacto social. 

Entendemos que a criação da “sociedade do carro fúnebre” e a sua atuação 

na  epidemia  de  gripe  espanhola  que  assolou  a  cidade  são  dois  exemplos  de 

empreendedorismo  social,  pois  Adams  não  precisava  se  envolver  com  esses 

problemas,  mas  assumiu  de  forma  privada  e  sem  retorno  financeiro, 

581 


Segundo Jornal

 NH


, 05/04/2002. O estádio de futebol construído posteriormente foi chamado de 

Estádio  Santa Rosa,  em  homenagem a  sua  primeira  mulher,  Rosa  Saenger.  O  bairro  residencial 

Vila Rosa também foi uma homenagem a ela, pois foi criado em terras que pertenciam a Adams.



responsabilidades que eram da alçada do poder público. Por isso também deixou 

sua marca na história do município. 

3.2.1 – O colégio São Jacob e a educação na cidade 

Pedro  Adams  Filho  pode  ser  considerado  um  empreendedor  também  na 

área  educacional,  pela  consciência  expressa  sobre  a  importância  da  educação 

para  o  desenvolvimento  da  comunidade  e  a  necessidade  de  instrução  para  o 

trabalhador melhor desempenhar suas funções. 

Com  essa  idéia  ele  foi  um  dos  responsáveis  pela  criação  de  uma  das 

escolas mais importantes da cidade: o Colégio São Jacob, em 1914. 

Acreditamos  que  uma  breve  contextualização  da  educação  é  importante 

para compreendermos melhor a  importância  da criação dessa escola no início do 

século passado na cidade. 

A educação  no Brasil não  era considerada prioridade  para  os  governantes 

no  final  do  século  XIX,  entretanto,  algumas  regiões  do  país  diferenciaram­se  em 

relação  a  ela,  como  o  Vale  do  Sinos,  por  exemplo,  pois  a  imigração  européia 

ajudou a construir um sistema educacional com características peculiares. 

No ano  de  1824,  os imigrantes alemães  desembarcam na Real  Feitoria  do 

Linho  Cânhamo,  onde  hoje  se  situa  a  cidade  de  São  Leopoldo,  e  alguns  meses 

depois chegaram onde hoje se localiza a cidade de Novo Hamburgo. Mesmo com 

um  início  de  vida  muito  difícil  aqui  no  Estado,  muitos  foram  os  progressos




alcançados por  esses  imigrantes,  primeiro  na  agricultura,  depois,  no  artesanato e 

no comércio e, por último, na indústria. 

Além  da  força  de  trabalho,  os  imigrantes  contribuíram  com  suas  tradições 

religiosas,  sociais  e  culturais  em  Novo  Hamburgo,  o  que  criou  um  grupo  com 

características  peculiares.  Os  colonos  alemães,  em  sua  maioria,  eram 

evangélicos,  e  trouxeram  em  sua  bagagem  um  grande  interesse  pela  educação, 

mas  não  encontrou  eco  no  governo  brasileiro,  que  tinha  um  péssimo  sistema 

escolar,  o  que  é  atestado  pelo  fato  de  que  no  final  do  século  XIX  ainda  havia 

aproximadamente 80% da população analfabeta. 

A  inexistência,  pois,  de  um  sistema  escolar  organizado  não  foi  nenhuma 

surpresa,  mas  a  pressão  para  a  criação  de  escolas  públicas  nas  áreas  de 

colonização  não  tardou  a  iniciar,  pois  no  ano  da  chegada  dos  imigrantes  havia 

apenas  oito  escolas  públicas  (chamadas  de  aulas),  mas  quatro  estavam  sem 

professor. 

582 

Antes  da  organização  efetiva  do  ensino  público,  entretanto,  os  colonos 



estruturaram  suas  próprias  escolas  domésticas,  ou  seja,  as  pessoas  mais 

instruídas davam aulas em suas casas, e ainda havia as escolas­volantes, em que 

os  professores iam  aonde se  encontravam as crianças,  que  muitas vezes tinham 

que ajudar os pais no trabalho.  Mais tarde, foram criadas as escolas comunitárias, 

também conhecidas por escolas paroquiais, visto que tinham estreita  ligação com 

as igrejas, tanto católicas, quanto evangélicas. Essas escolas também foram muito 

582 

KREUTZ, Lúcio. Muito empenho pelas escolas. In:



 Nós, os teuto­gaúchos

. Porto Alegre: Editora 

da Universidade, 1996. p.145



importantes,  pois  formaram  verdadeiras  estruturas  comunitárias,  que  apoiavam  o 

imigrante nas suas dificuldades. 

As  primeiras  escolas  evangélicas  e  católicas  que  ensinavam  na  língua 

alemã, estavam  organizadas segundo as necessidades  locais,  o material didático 

era precário e o governo provincial despendia­lhes pouco apoio, mesmo porque o 

governo 


central 

não 


tinha 

interesse 

em 

investir 



na 

educação, 

e, 

conseqüentemente,  não  liberava  verbas  para  as  províncias.  Mesmo  assim,  a 



educação  nas  áreas  de  colonização  ainda  era  melhor  que  no  restante  da 

província. 

Segundo Petry, 

Remediavam­na  [a  educação]  os  colonos,  cedendo  compartimentos  de 

suas  residências  para  as  escolas,  funcionando  estas  ora  numa,  ora 

noutra casa, e mudando em geral, semanalmente. Material de ensino não 

existia. 

Por  isso  o  professor  Rosenbruch,  um  dos  primeiros  que  exerceu  o 

magistério  nesta  zona,  escreveu,  de  próprio  punho,  cartilhas  primárias, 

em  belos  caracteres  góticos  e  que  eram  vendidas  ao  preço  de  32 

centavos, cada uma. Outro professor de boa caligrafia daquela época era 

Carlos  Schrater,  que,  durante  as  horas  vagas,  escrevia  pequenos 

almanaques com indicação dos dias e meses do ano. Esses manuscritos 

custavam meia pataca (16 centavos). [...] 

583 

A  independência  do  Brasil  não  representou  uma  grande  mudança  no 



sistema educacional brasileiro em relação ao ensino primário, foi apenas em 1827 

que foi criada a primeira Lei Geral da Instrução Pública que garantiu a educação, 

inclusive para meninas, a partir de 1829. Com essa lei, os Estados tinham o direito 

583 


PETRY, op. cit. p.51


Quadr o 4 ­ Histór ico das escolas par ticula r es em Novo Hambur go (1832/1929) 

Ano fundação 

Nome 

Fundamento religioso 



1832 

Comunidade Evangélica de 

Hamburgo Velho 

Protestante 

1886 

Evangelisches Stift 



Protestante 

1896 


Comunidade Evangélica de 

Novo Hamburgo 

Protestante 

1900 


Colégio Santa Catarina 

Católico 

1914 

Colégio São Jacob 



Católico 

1929 


Escola Normal Católica 

Católico 

Fonte: SARLET, op. cit. 

de  organizar  sua  educação,  mas  com  a  falta  de  verbas  não  obtiveram  sucesso, 

problema que pode ser estendido aos municípios. 

584 


Dentro  desse  contexto,  podemos  entender  porque  a  primeira  escola  da 

cidade  somente  foi  fundada  em  1832,  a

  Comunidade  Evangélica  de  Hamburgo 

Velho


,  atual  escola

  Pindorama

,  onde  as  aulas  eram  dadas  inicialmente  em  uma 

igreja, hoje a

 Igreja Evangélica Três Reis Magos

Por volta de 1850, já existiam no Rio Grande do Sul 14 escolas evangélicas 



e 10 escolas católicas. Em  1875,  o  número  de  escolas  confessionais era  99, e o 

das  públicas,  252.  Em  1900,  passou  para  308  escolas  em  língua  alemã.  A  partir 

dessa  data, o  Estado passou  a incentivar a  formação  de  docentes,  que, até esse 

584 


PILETTI, Nelson.

 História da Educação no Brasil

. 7.ed. São Paulo: Ática, 1997. p.41­43



período,  era  muito  precária,  além  de  melhorar  a  infra­estrutura  das  escolas  e  o 

material  didático  utilizado.  É  importante  lembrar  que  Porto  Alegre  teve  sua 

primeira  escola  normal  para  formação  de  professores  em  1869,  sendo  uma  das 

primeiras a serem criadas no país. 

585 

Segundo Bakos, a instrução pública constituiu um elemento fundamental do 



PRR  para  manter  seu  poder  hegemônico,  pois  o  ideário  positivista,  tão  caro  aos 

governantes  gaúchos,  dava  uma grande  importância à educação.  Diz,  ainda,  que 

o Rio Grande do Sul “consagrava à educação uma quota maior do que São Paulo 

e Minas Gerais.” 

586 

Em Novo Hamburgo, no ano de 1883, já havia duas escolas públicas e, em 



1886, foi fundada, pelas irmãs Engel, no bairro de Hamburgo Velho, um “internato 

para  moças  evangélicas  teuto­brasileiras”,  que,  mais  tarde,  transformou­se  na

 

Fundação Evangélica



585


 

Em  1865,  o  município  de  São  Leopoldo  tem  18  mil  habitantes,  conta  com  56  escolas,  49 

professores e 5 professoras. Dos professores, 38 são  pagos por sua escola, 11 são funcionários 

do Estado. Destes, 5 são de origem portuguesa e 6 alemães. O número de alunos é de 1958, dos 

quais  1259  são  meninos  e  699  meninas.

  KANNENBERG,  Hilmar.

  Fundação  Evangélica

  –  Um 


século as serviço da educação (1886 a 1986). São Leopoldo: Rotermund, 1987. p. 26 

586 


BAKOS, op. cit. p. 25


Figura 93 ­ Fundação Evangélica, anos 30. 

587 


A criação dessa escola representou um grande passo para a educação das 

mulheres, já  que elas passaram  a  ter uma educação mais  apurada, cujo objetivo 

era a educação dos filhos e os cuidados com a casa. 

A  proclamação  da  república  no  Brasil  não  mudou  substancialmente  a 

situação  da  educação  da  maioria  da  população.  A  primeira  constituição 

republicana, de 1891, falava apenas na criação de instituições de ensino superior 

e  secundário  nos  Estados,  e  estabelecia  que  o  ensino  deveria  ser  leigo  nas 

escolas  públicas.    O  índice  de  analfabetismo,  ainda  na  casa  dos  80%  nos 

587 

SCHEMES & PRODANOV, op. cit.




primeiros  anos  da  república,  atesta  o  descaso  com  a  educação  elementar  e 

popular. 

588 

Com  relação  à  educação  no  período  da  República  Velha,  Corsetti  nos 



informa que 

[...]  a  política  educacional  implementada  pelos  dirigentes  republicanos 

demonstrou  ser  de  caráter  excludente,  particularmente  marcada  pela 

separação dos saberes que consagrou as diferenças sociais cristalizadas 

na  sociedade  gaúcha.  Ao  lado  de  procedimentos  de  acomodação  de 

interesses  utilizados  na  relação  com  a  Igreja  Católica,  o  privilegiamento 

da 

iniciativa 



privada 

no  campo 

educacional 

foi 


consagrado, 

particularmente no nível secundário. [...] 

589 

Assim, o  início do século XX  marca  uma  expansão das  escolas  privadas e 



confessionais no Estado 

590 


Em  Novo  Hamburgo,  no  ano  de  1896,  é  criada  a

  Comunidade 

Evangélica  de  Novo  Hamburgo

,  hoje  escola

  Oswaldo  Cruz

.  A  primeira  escola 

católica  da  cidade  foi  o  colégio

  Santa  Catarina

,  criado  em  1900  pelas  irmãs  da 

congregação de Santa Catarina. 

Figura 94 ­ Colégio Santa Catarina, 1925. 

591 

588 


PILETTI, op. cit. p.54,55 

589 


CORSETTI, Berenice. Política e organização da educação sob o castilhismo. In: AXT, Gunter et 

alii (orgs).

 Júlio de Castilhos e o paradoxo republicano

. Porto Alegre: Nova Prova, 2005. p.215 

590 

KREUTZ, op. cit. p.146




Segundo  Erica  Sarlet 

592 


,  o  nível  cultural  em  Novo  Hamburgo  no  final  do 

século  XIX  era  “considerável”,  pois  muitos  livros  e  coleções  de  revistas  de 

moradores da cidade nesse período ainda existem em bibliotecas locais, e dos 12 

jornais e revistas em língua alemã fundados na metade do século XIX, ainda havia 

nove  no  fim  do  século  XIX.  Diz  a  autora,  também,  que  existiam  bibliotecas  bem 

equipadas nas sociedades recreativas da cidade. 

Finalmente,  em  1914,  foi  fundado,  pelos  irmãos  maristas,  o

  Colégio  São 

Jacob



Figura 95 ­ Colégio São Jacob logo após sua inauguração. 



593 

Os  padres  jesuítas  chegaram  à  região  do  Vale  do  Sinos  na  metade  do 

século XIX e assumiram a freguesia de Nossa Senhora da Piedade, em Hamburgo 

591 


SCHEMES & PRODANOV, op. cit. 

592 


SARLET, op. cit. p.55 

593 


SCHEMES & PRODANOV, op. cit.


Velho. Lá instalaram  uma  escola paroquial  junto  à  igreja  local. Em  1914, o  padre 

Benedito  Meienhofer  organizou  uma  subscrição  para  fundar  uma  escola  católica 

para meninos.  Um  dos seus principais  colaboradores  foi Pedro Adams Filho,  que 

contou com  a  ajuda  de João  Wendelino  Hennemann,  Jacob  Kroeff  Filho  e  Jacob 

Kroeff Neto para constituir uma “comissão escolar”. 

594 


Essa comissão procurou a Ordem dos Irmãos Maristas para oferecer­lhes a 

escola,  o  que  foi  aceito  e  firmado  em  contrato  em  dezembro  de  1914.  Um  ano 

depois,  os  irmãos  maristas  chegaram  a  Hamburger  Berg,  e  fundaram  o  Colégio 

São Jacob, assim denominado em homenagem ao santo

 “Saint Jacob”

 e a Jacob 

Kroeff Filho, doador das terras onde foi construído o prédio. 

595 


Em  15  de  março  de  1915,  iniciaram­se  as  aulas  na  escola  paroquial,  com 

quatro  maristas  e  35  alunos  e,  em  abril,  quando  concluída  a  obra  da  escola,  foi 

aberto oficialmente o internato e externato para meninos. Ali funcionava um curso 

Elementar e um curso Especial com quatro anos de duração cada um. Mais tarde 

foi  instituído  o  curso  de  guarda­livros.  Três  anos  depois  de  sua  instituição,  a 

escola já havia aumentado seu número de alunos para 166, sendo que a primeira 

formatura de guarda­livros aconteceu em 1932 com nove formandos. 

596 


A  escola,  por  não  se  localizar  tão  distante  da  capital,  pôde  receber  um 

grande  número  de  alunos  de  Porto  Alegre  e  de  outras  cidades  do  interior,  além 

disso,  era  uma  escola  com  ótima  reputação  em  todo  o  Estado,  tendo  suas 

qualidades  amplamente  reconhecidas:  “Próximo  a  Porto  Alegre,  nesta 

594 

Jornal


 NH

, 05/04/2002. 

595 

Ibidem 


596 

Ibidem



encantadora  e  simples  localidade  de  Hamburgo­Berg,  onde  se  respira, 

continuamente,  um  ar  puro  que  inunda  de  felicidade  a  boa  gente  dali,  fica  o 

colégio de S. Jacob [...]” 

597 


O  colégio  era  muito  apreciado  pelo  seu  programa  de  ensino  e  por  suas 

normas  disciplinares  rígidas,  o  que  deixava  as  famílias  tranqüilas  em  colocarem 

seus filhos naquela instituição. 

Trata­se  de  um  estabelecimento  de  ensino  primário,  secundário  e 

comercial,  dirigido  pelos  Irmãos  Maristas,  e  que,  a  par  de  proporcionar 

uma  sólida  educação  literária  e  científica  aos  seus  alunos,  ainda  lhes 

incute  no  espírito  o  confortante  balsamo  da  instrução  religiosa,  sob  as 

bases da rígida e indestrutível moral católica. [...] 

Instalado  num  verdadeiro  palácio,  á  cuja  historia  e  construção  estão 

ligados digníssimos benfeitores,  nomes beneméritos como Pedro Adams 

Filho e Jacob  Kroeff –  o colégio  obedece  ainda, a um regime disciplinar 

severo, que tem sortido os melhores efeitos. 

Os  estudos  são  intercalados  com  recreios,  passeios  e  exercícios 

esportivos.  Os  alunos  têm  toda  a  facilidade  para  tomarem  banhos.  É 

servida aos alunos, quatro vezes por dia, comida abundante, e há todo o 

cuidado para que os alimentos sejam sãos, convenientes e variados. 

Em  atestados  mensais,  são  os  pais  informados  do  comportamento, 

aplicação e progresso do aluno. 

A  pensão  mensal,  inclusive  as  mensalidades  de  ensino,  é  de  55$000, 

fazendo­se o pagamento em três prestações adiantadas: a 1ª. no ato da 

entrada  do  aluno,  a  2ª.  no  principio  de  Junho  e  a  3ª.  no  principio  de 

Setembro. 

598 

Pedro  Adams  Filho  teve  uma  atuação  decisiva  na  criação  dessa  escola, 



pois envolveu­se na arrecadação de fundos na comunidade para a sua criação.  A 

sua participação nesse episódio foi descrita de forma laudatória na época: 

[...]  O  seu  instintivo  amor  pelas  crianças  e  conhecimento  que  tem  dos 

benefícios  que  aufere  a  instrução,  levaram­no  a  dotar  Novo  Hamburgo 

com um excelente Colégio, o de S. Jacob, magnífico estabelecimento [...] 

e  que,  merecidamente,  o  conta  no  número  dos  seus  ativos  diretores.  A 

fim  de  levar  avante  a  construção  de  tão  importante,  como  útil 

estabelecimento, soube  se fazer rodear  das pessoas de maior  destaque 

597 

MONTE DOMECQ, op.cit.p.240 



598 

Ibidem, p.240




e  inteligência da localidade, como sejam  os  Srs. Jacob Kroeff, Dr. Jacob 

Kroeff  e  João  W.  Hennemann,  com  cuja  cooperação  e  sob  a  direta 

fiscalização dos quais foi edificado o colégio. 

599 


Um  fato  que  comprova  a  participação  direta  de  Pedro  Adams  Filho  na 

fundação da escola foi uma declaração escrita em papel timbrado de sua empresa 

e  assinada  pela  proprietária  de  uma  área  de  terras  que  passou  a  pertencer  ao 

colégio, conforme reprodução a seguir: 

Novo Hamburgo, 24 de janeiro de 1916. 

Declaro que recebi  do Colégio  São  Jacob, por  intermédio  de  seu  diretor 

Snr.  Pedro  Adams  Filho  a  quantia  de  R$  300$000  (trezentos  mil  reis) 

proveniente da indemnisação que me pagou para  eu reconhecer  o novo 

limite  de  minhas  terras  que  limitam  com  o  referido  Collegio,  de 

conformidade  com  a  annotação  que  vae  ser  feita  no  meu  traslado  de 

compra  de  minhas  terras,  e  nos  livros  competentes,  limite  novo  aquelle 

que  reconheço  desde  já  para  todos  os  effeitos  passados  prezentes  e 

futuros,  podendo desde já tomar posse, a qual entretanto já fora tomada 

com  o  que  concordo,  declarando  mais  desta  maneira  inteiramente 

solucionado  satisfactoriamente  para  mim,  a  questão  que  surgia  com  os 

referidos limites do que para clareza passo presente recibo para todos os 

effeitos. 

Ass. Katharina Backes 

Figura 96 ­ Prédio do colégio logo depois de sua fundação. 

600 


599 

Ibidem, p.240 

600 

Ibidem, p.238




Figura 97 – Dormitório típico de internatos do período, que mostram a ordem e a disciplina 

que eram impostas à educação dos alunos. 

601 

Figura 98 ­ Banda dos alunos. 



601 

Ibidem, p.239




Figura 99 ­ Alunos em forma, mais uma vez destacando a questão displinar. 

602 


No  ano  da  emancipação  de  Novo  Hamburgo,  em  1927,  havia  na  cidade 

sete  escolas  estaduais,  totalizando  374  alunos,  uma  municipal  com  72  alunos,  e 

seis  particulares  com  478  alunos.  Em  1930  havia  oito  escolas  estaduais,  seis 

municipais e oito particulares, com 1477 alunos no total. 

603 

A  partir  de  1930,  quando  Getulio  Vargas  assumiu  o  poder,  importantes 



modificações ocorreram na administração da educação brasileira, como a criação 

do  Ministério  da  Educação  e  Saúde  (1932)  e  a  inclusão  de  um  capítulo  sobre  a 

educação no Constituição de 1934. 

Nos anos 1930, já havia sido organizado na  região rural do Rio Grande do 

Sul,  uma  rede  de  1.041  escolas  comunitárias  com  1.200  professores,  sendo  que 

602 


Ibidem, p,239 

603 


PETRY, op. cit. p.52


nas  regiões dos teuto­brasileiros  não havia analfabetos, enquanto que  nas zonas 

rurais do resto do Brasil o analfabetismo encontrava­se na faixa de 80%. 

604 

A  era  Vargas  (1930/1945),  segundo  Piletti,  representou  um  avanço 



significativo na educação nacional. As escolas primárias dobraram seu número, as 

secundárias  quadruplicaram  e  as  técnicas  industriais  multiplicaram­se.  Passou  a 

haver  uma  preocupação com  a formação pedagógica dos professores e surgiram 

muitos educadores interessados em reformar a educação brasileira. 

605 

Essa  verdadeira  revolução  educacional  também  se  observou  em  Novo 



Hamburgo.  Em  1943,  a  cidade  já  contava  com  35  escolas  entre  públicas  e 

privadas e com  um  total  de  3668 alunos, o que mostra  que triplicou o  número  de 

alunos e mais que duplicou o de escolas. 

606 


A  preocupação  com  a  educação  aparece  quando  analisamos  o  jornal

 O  5 


de Abril

 desde o ano de sua fundação, em 1927, até o ano de 1935. Encontramos 

15  artigos  maiores,  além  de  pequenas  notas  sobre  escolas,  educação,  instrução 

em  quase  todos  os  exemplares.  Os  artigos  eram  assim  intitulados

:

 

“Analfabetismo”,  “Quadro  Escolar”,  “Instrução  Pública”,  “Aulas  Noturnas”,  “Pela 



Instrução”,  “Combate  ao Analfabetismo”,  “Escolas  de  Novo  Hamburgo”,  “Cruzada 

da Educação Proletária”.  Dentre  eles  exemplificamos  com  um  artigo  de  24  de 

junho  de  1927,  quando  foi  apresentado  um  levantamento  com  o  número  de 

escolas e de alunos da cidade, e no qual é feito o seguinte comentário a respeito 

daquela situação: 

604 


KREUTZ, op.cit. p.145 

605 


PILETTI, op. cit. p.74,75,76 

606 


PETRY, op. cit. p. 52


Calculando­se  em  8.500  o  número  de  habitantes,  a  porcentagem  de 

pessoas que freqüentam colégios é de 9,5% o que constitui um quociente 

sumamente  lisonjeiro  para  o  desvelo  que  a  população  dedica  a  esse 

importante  fator  de  progresso.  Julgo,  no  entanto,  de  toda  conveniência 

aumentar  o  número  de  escolas  e  fundar  mesmo  algumas  novas  em 

zonas  um  tanto  afastadas  do  centro,  como  sejam  Rincão,  Canudos  e  o 

ex­Prado,  lugares  com população  muito densa  e  que  já há  tempos  vem 

reclamando  esse  melhoramento,  não  tendo  sido  atendidos  até  agora, 

unicamente por falta de pessoal competente. 

607 


Nesse mesmo ano, o jornal faz referência ao

 Grêmio Sportivo Hamburguez

que havia sido criado nesse mesmo ano, e que já prestava amplos benefícios aos 



seus  associados,  como  a  “aula  nocturna  gratuita”.  O  jornal  salienta  que  essa 

oportunidade  oferecida  pela  agremiação  é  fundamental  para  os  operários  da 

cidade  que  não  possuíam  instrução  primária  ou  secundária,  e  que  a  falta  de 

instrução representava um dos maiores males do país. 

Os  que  mais  aproveitarão  dessa  idéia,  ora  realizada,  são  os  operários, 

maioria  absoluta da  população do nosso município,  são esses operários 

que  de  manhã  á  noite  empregam  a  sua  atividade  fecunda  nas  nossas 

fábricas  e  que  com  desejos  ardentes  de  instruir­se,  não  tinham  todavia 

ocasião de fazê­lo. 

608 


Alguns  dias  depois,  o  mesmo  jornal,  num  editorial  intitulado  “Um  gesto  de 

patriotismo”,  abordava  os  graves  problemas  enfrentados  pelo  país  em  relação  a 

sua  grande  extensão  territorial  e  à  impossibilidade  de  levar  escolas  a  todos  os 

lugares,  mas  elogiava  o  governo  do  Estado  do  Rio  Grande  do  Sul,  na  figura  de 

seu  governador  Borges  de  Medeiros,  que  representava  “um  posto  na  vanguarda 

607 


Jornal

 O 5 de Abril

, 26/06/1927 

608 


Jornal

 O 5 de Abril

, 12/08/1927



entre  os  estadistas  brasileiros  que  mais  se  tem  preocupado  com  a  difusão  do 

alfabeto”. 

609 

Dizia ainda, 



Afortunadamente, em nosso Estado, o problema da instrução publica tem 

merecido, em todos os tempos, uma atenção carinhosa e solícita que nos 

reservou  um  lugar  de  proeminência  entre  as  demais  unidades  da 

Federação.  Ninguém  ignora,  por  certo,  que  as  estatísticas  –  e  o 

algerismo  não  é  uma  opinião  –  nos  assegura  a  glória  da  mais  alta 

percentagem de alfabetização de todo país. [...] O analfabetismo é tido no 

Brasil,  como um cancro  que estende  raízes  fundas  e  letais  em  todas  as 

manifestações da  nossa  vida  coletiva.  Extirpá­lo,  pois,  é  não  só  realizar 

obra  meritória,  si  não  também  encaminhar  a  solução  de  múltiplos 

problemas nacionais. 

610 

Nesse  sentido,  o  jornal  elogia,  mais  uma  vez,  a  iniciativa  “patriótica”  e  de 



“benemerência” do

 Grêmio Sportivo Hamburguez,

 que possibilitou a instrução e o 

próprio “

aperfeiçoamento da raça

”. 


As  regiões  de  colonização alemã,  como  já  foi  mencionado,  apresentavam­ 

se  em  vantagem  em  relação  às  demais  regiões  do  Estado.  Numa  estatística 

apresentada pelo mesmo jornal, o índice de analfabetismo no Brasil na década de 

1920 estava na faixa dos 80%, enquanto que o analfabetismo na cidade de Novo 

Hamburgo,  era,  apenas,  1,39%,  ou  seja,  uma  diferença  gritante  em  relação  à 

situação  nacional.  As  demais  colônias  alemãs  também  apresentavam  índices 

baixos  de  analfabetismo:  Estrela,  4,62%,  São  Leopoldo,  5,16%,  Santa  Cruz, 

5,63%,  Lajeado,  6,67%,  Taquara,  8,91%  e  Montenegro  9%.  Porto  Alegre  tinha 

6,93% de analfabetos. Já a região da serra e da campanha (Caçapava, São José 

609 


Jornal

 O 5 de Abril

, 28/08/1927 

610 


Ibidem


do  Norte,  Piratini  entre  outras  cidades)  apresentava  índices  de  40  a  50%,  em 

função da dificuldade na instalação de escolas nessas regiões, segundo o jornal. 

A  região  colonial  possuía  um  importante  trabalho  das  comunidades 

religiosas  que  se  envolviam  na  educação,  além  das  associações  desportivas  e 

recreativas,  particulares  e  poder  público.  A  importância  da  família  também  era 

considerada  fundamental,  pois  eram  os  pais  os  maiores  incentivadores  da 

instrução  de  seus  filhos.  A  instrução,  segundo  o  jornal,  estava  diretamente 

relacionada  ao  desenvolvimento  econômico  da  região,  o  que  era  comprovado 

pelos  dados  numéricos  apresentados.  Um  último  fator  apresentado  pelo  jornal  e 

que justifica o ótimo desempenho da educação no município está relacionado aos 

operários das indústrias. 

Em  último  lugar  ainda  convém  notar  que  os  operários  empregados  na 

indústria,  já  por  sua  natureza  procuram  instruir­se  sendo  de  notar  que 

pessoas  moças  de  outras  localidades  venham  procurar  colocação  na 

nossa  vila  a maioria  pertence  a  classe  dos  que  tem alguma  instrução  e 

inteligência  e que, mudam de domicilio, por que desejam empregar a sua 

atividade num meio em que ela lhes promete um futuro, ao passo que os 

indolentes  costumam  permanecer  nos  lugares  onde  residem  querendo 

antes passar mal do que aumentar os valores negativos do que sujeitar­ 

se  aos  trabalhos  e  esforços  que  a  luta  pela  vida  nos  impõe,  num 

ambiente novo e movimentado como só em ser os centros industriais. 

611 


Ainda no ano de 1929, segundo o jornal

 O 5 de Abril

, a cidade mobilizou­se 

para  alfabetizar  o  maior  número  de  pessoas  possível,  pois,  no  ano  seguinte, 

seriam  realizadas  eleições,  e  apenas  os  alfabetizados  poderiam  exercer  o  direito 

do  voto.  Para  isso,  muitos  professores  colocaram­se  à  disposição  para  ensinar 

611 

Jornal


 O 5 de Abril

, 16/08/1929




gratuitamente  aqueles  adultos  que  ainda  não  eram  alfabetizados.  O  Comitê 

Operário  Pró  Candidatura  de  Getulio  Vargas  e  João  Pessoa  também  se 

mobilizaram, e abriram uma aula noturna com esse fim. 

O

 5 de Abril



 de  16  de  agosto de 1929 publicou  uma  lista  com  o nome  das 

professoras  responsáveis  pelas  “aulas  públicas  e  subvencionadas”.  Eram  elas: 

Zozina Soares, Christiana Haag, Frederica S. Pacheco,Izabel Tschiedel, Maria das 

N.  Marques,  Elsa  Zottmann,  Elvira  Brandi,  Maria  A.  Ribeiro,  Francisca  Saile  e 

Ludwina Vier. No total, elas atendiam 549 alunos. 

A idéia do progresso relacionado com a educação era constante nos artigos 

e editoriais  do  jornal  local. Havia um consenso  entre a elite econômica da cidade 

que  era  apenas  com  um  povo  instruído  que  se  conseguiriam  os  melhores 

resultados  econômicos.  Isso  pode  ser  considerado  um  dos  elementos 

responsáveis  pelo  desenvolvimento  da  indústria  local,  já  que  havia,  por  parte  do 

poder  público,  da  iniciativa  privada  (industriais)  e  das  comunidades  religiosas  e 

recreativas,  um  grande  incentivo  à  criação  de  escolas  ou  aulas  isoladas.  Essa 

importância dada à educação não era comum em todas as regiões do Brasil, como 

podemos observar pelas altas taxas de analfabetismo citadas anteriormente. Será 

apenas mais tarde, com a política educacional de Getulio Vargas que a educação 

passará  a  ser  considerada  como  um  elemento  fundamental  para  o 

desenvolvimento econômico da nação.



Não podemos esquecer que a escola pública foi fundamental para a política 

de  nacionalização  das  populações  coloniais,  daí  a  expansão  do  ensino  público 

nessas regiões. 

612 


Leopoldo  Petry  escreveu  um  artigo  para  o  jornal  da  cidade,  em  1931, 

intitulado  “Pela  instrucção”,  em  que  reforçou  essa  idéia  da  importância  da 

educação. 

E não é de hoje esse interesse pela alfabetização do povo. Vem de muito 

longe. 

Já há meio século, quando na sede do primeiro distrito apareciam apenas 

algumas  modestas  casinhas,  rodeadas  de  macegas,  e  quando  em 

Hamburgo  Velho  se  concentrava  a  vida  social e  religiosa  desta  zona,  já 

ali existiam boas escolas publicas e particulares. 

As  comunidades  religiosas,  coadjuvadas  por  cidadãos  que  reconheciam 

o  valor do ensino,  não poupavam  esforços em atrair  bons professores e 

apesar  de  alguns  fracassos,  firmou­se  em  todos  os  moradores  a 

convicção de não se recuar ante sacrifícios para progredir cada vez mais. 

[...]  Como  se  vê, já há oitenta  anos  a  questão do  ensino  preocupava  os 

dirigentes  e  já  naquele  tempo  se  clamava  por  escolas,  e  esse  clamor 

acompanha  toda  a  nossa  história  e  ainda  levará  muito  tempo  até 

cessar.[...] 

613 


A  questão  do  analfabetismo  no  Brasil  ainda  era  apontada  como  um 

problema  sério  nos  primeiros  anos  do  governo  Vargas,  segundo  informa  o

  5  de 

Abril


  em um artigo sobre analfabetismo, em que foi apresentado o caso da cidade 

do  Rio  de Janeiro,  onde  numa  população  infantil  calculada  em  400.000  crianças, 

menos  de  50.000  freqüentavam  a  escola  pública  e  40.000  as  particulares,  o  que 

deixava mais de 300.000 crianças fora das escolas. O jornal ainda dizia: 

[...] se  isso ocorre na  nossa grande metrópole,  o  que se poderá esperar 

do  resto  do  Brasil?  E  como  podemos  progredir,  como  o  nosso  país 

poderá  integrar­se  no  concerto  das  nações  civilizadas,  livre  do  – 

612 


CORSETTI, op. cit. p. 215 

613 


Jornal

 O 5 de Abril

, 01/05/1931



“cangaço”  –  diante de  índices  tão  baixos de instrução do  seu povo? Isto 

se  dá  precisamente  na  época  em  que  os  homens,  como  os  povos,  se 

elevam pela sua capacidade intelectual, ou pela sua inteligência exercida 

no  trabalho  construtor  do  progresso  nas  artes,  no  comércio,  na 

agricultura,  nas  indústrias,  como  nas  ciências.  Não  é  de  admirar, 

portanto,  o  nosso  relativo  atraso  e  os  surtos  de  barbarismo  que 

ensangüentam o solo pátrio. 

614 


Reforçando  a  idéia  colocada  anteriormente,  de  que  era  uma  meta  dos 

industriais  a  instrução  dos  seus  operários,  foi  instituída  em  Novo  Hamburgo,  a 

Cruzada  de  Educação  Proletária  (CEP),  que  tinha  como  objetivo  “cooperar  na 

grande  campanha  que  visa  fazer  do  povo  brasileiro,  um  povo  culto  e  capaz  de 

figurar junto aos povos mais cultos do globo.” 

615 


A  Cruzada  daria  a  possibilidade  não  só  de  os  operários  estudarem,  como 

também  de  seus  filhos,  familiares  e  outras  pessoas  que  não  tivessem  condições 

de pagar seus estudos em escolas particulares. 

As  aulas  da  CEP  localizavam­se  na  sede  do  Sindicato  dos  Trabalhadores 

na  Indústria  de  Couros,  que  deveria  fornecer  o  local  para  as  aulas  e  a  luz,  sem 

nenhuma remuneração, e receberia da Cruzada local os professores e o mobiliário 

necessário. O professor responsável pelo CEP na cidade fez uma conferência de 

inauguração,  abordando  o  tema  “O  papel  do  operário  na  sociedade  moderna”,  e 

mostrou a importância da  instrução e o papel que ela exerce para que o operário 

“ocupe condignamente o lugar que lhe cabe na sociedade”. 

614 

Jornal


 O 5 de Abril

, 04/11/1932 

615 

Jornal


 O 5 de Abril

, 13/10/1933




A Escola  Júlio  de  Castilhos, como  era chamada,  manteve­se até o final da 

década  de  1930  com  uma  pequena  contribuição  da  Prefeitura  Municipal,  bem 

como  com  as  contribuições  de  empresas,  de  pessoas  físicas  e  das provenientes 

de eventos beneficentes organizados por ela. 

A CEP não tinha ligação com partidos políticos ou com credos religiosos, e 

recebia doações que eram utilizadas para a manutenção das escolas. 

[...]  A  diretoria  local  da  “Cruzada”  pede  por  nosso  intermédio  o  auxílio 

monetário  dos  srs.  Industrialistas  locais  para  a  manutenção  do  dito 

Colégio. Aqui fica, pois, o nosso apelo, que, estamos certos, não deixará 

de  ser  bem  recebido,  dada  a  reconhecida  utilidade  que  o  novo  Colégio 

trará a população de nossa vila. 

616 


A  necessidade  da  integração  do  operariado  estava  por  trás  do  discurso 

desta Cruzada, pois o operário tinha uma missão a cumprir, e deveria fazê­lo com 

a  maior  eficiência  possível,  por  isso  deveria  estar  devidamente  preparado.  A 

alfabetização era o mínimo necessário para atingir tal fim. 

Pedro  Adams  Filho  ficou  na  memória  da  comunidade  como  um  grande 

colaborador  da  vida  cultural  da  cidade.  Por  ocasião  da  sua  morte,  o  editorial  do 

jornal

 O 5 de Abril



 diz que 

[...]  Quase  todas  as  sociedades  locais  tiveram  nele  um  sócio  dedicado, 

sempre  pronto  para  auxiliá­las.  Os  estabelecimentos  de  ensino 

contavam­no  entre  seus  mais  fervorosos  protetores  e  importantes  eram 

também  os  donativos  que  destinava  às  comunidades  religiosas  e  às 

instituições caritativas. 

617 

616 


Jornal

 O 5 de Abril

, 17/11/1933 

617 


Jornal

 O 5 de Abril

, 13/09/1935



Não  podemos  deixar  de  incluir  nessa  análise  da  educação  da  região,  os 

pressupostos positivistas da “construção de uma sociedade racional, [...] na qual o 

controle dos  trabalhadores requeria  a  utilização sistemática da educação moral e 

da prática do trabalho regular.” 

618 

Segundo Corsetti, a educação era fundamental no projeto de modernização 



capitalista  do  Rio  Grande  do  Sul,  era  “um  instrumento  da  política  econômica 

desenvolvida pelos dirigentes positivistas do sul do Brasil. “ 

619 

Uma educação controlada garante a estabilidade social, e evita os conflitos 



que podem advir das desigualdades existentes. 

Como  vimos, cada época tem um  tipo de empreendedor.  No seu contexto, 

Adams era levado a crer que de nada adiantaria ter uma grande empresa, se não 

tivesse trabalhadores instruídos e controlados que pudessem colaborar para o seu 

crescimento. 

Entretanto,  além  do  contexto,  seu  envolvimento  nas  atividades  sócio­ 

culturais  o  aproxima  do  conceito  de  empreendedor  social,  que  tem  como 

motivação  a  melhoria  da  vida  das  pessoas  por  meio  da  criação  de  novos 

procedimentos e serviços que ajudam a resolver problemas sociais. 

618 


CORSETTI, op. cit. p.204 

619 


Ibidem, p. 210


3.3 – A vida familiar 

Pedro  Adams  Filho  ficou  conhecido  na  história  de  Novo  Hamburgo  como 

um  industrial  pioneiro  e  político  engajado,  contudo,  sua  vida  familiar  é  pouco 

conhecida. 

Figura 100 ­ Pedro Adams Filho posando para um fotógrafo no jardim de sua casa. 

620 


As  pessoas  que  conviveram  com  ele  e  que  ainda  puderam  dar  seu 

depoimento  dizem  que  era  uma  pessoa  de  muito  fácil  convívio,  sempre  alegre, 

bem disposto, e pronto para ajudar a quem necessitasse. 

621 


A imagem do “alegre 

620 


SCHEMES& PRODANOV, op. cit. 

621 


Segundo depoimento de seus netos Pedro Adams Neto e Carmen Mosmann e suas filhas, 

Theresa Allgayer e Carla Bins.




Pedro”,  como  se  referiu  a  ele  um  de  seus  empregados,  ficou  na  memória  de 

muitas delas. 

Pedro Adams Filho foi aprendiz de sapateiro em Taquara e em Dois Irmãos. 

Somente  depois  é  que  abriu  um  negócio  próprio  com  o  dinheiro  herdado  do  pai 

que,  mais  tarde,  cresceu,  e  se  tornou  a  primeira  indústria  calçadista  do  Vale  do 

Sinos. 


Ele  casou  em  1891,  aos  21  anos  com  Rosa  Saenger,  de  mesma  idade, 

natural  de  Bom  Jardim  (hoje  Ivoti).  Com  ela  teve  seis  filhos:  Ludwina  Catharina, 

nascida  em  1894;  Albano  Jacob,  em  1900;  Oscar  Frederico,  em  1903;  Júlio,  em 

1906; Edgar Albano,  em 1907  e  Hildegard, em  1913. Sua filha Ludwina  casou­se 

com  Pedro  Alles,  um  dos  principais  industrialistas  da cidade,  proprietário  de  uma 

fábrica de molduras. 

Figura 101 ­ Pedro com sua esposa Rosa, sua sogra e seus seis filhos. (AFA)



Figura 102 ­ Rosa com alguns de seus filhos (AFA) 

Figura 103 ­ Rosa e Hildegard (AFA)




Em 1924, Rosa faleceu e dois anos depois Pedro casou­se novamente com 

Olga Maria Kroeff. Com trinta e quatro anos, ela era vinte e dois anos mais jovem 

que  ele.  Olga  era  filha  de  seu  amigo  de  longa  data  Jacob  Kroeff  Filho  e  irmã  de 

Jacob Kroeff Neto. 

Como  sua  nova  esposa  residia  em  Porto  Alegre,  Adams  mudou­se  para 

aquela  cidade,  e  foi  lá  que  nasceram  Luiz,  em  1927,  Theresa,  em  1928  e  Carla, 

em 1930. 

A  lua­de­mel  foi  a  única  viagem  internacional  realizada  por  Adams  nesses 

seus últimos nove anos de vida. O casal foi passear na Alemanha logo depois do 

casamento  e  permaneceu  por  lá  aproximadamente  um  mês,  pois  tinha  muitos 

amigos e conhecidos que residiam naquele País. 

Figura 104 ­ Casamento de Pedro e Olga, onde podemos perceber o luxo através das roupas: o 

fraque, as rendas, o sapato de seda. (AFA)



Figura 105 ­ Olga e seus filhos Luiz, Theresa e Carla. (AFA) 

Segundo suas filhas mais novas, Carla e Theresa, Adams era “uma pessoa 

muito  alegre,  muito  carinhoso  com  os  filhos,  um  homem  muito  bom”  que  não 

media esforços em ajudar quem necessitasse. 

Ele  tratava os  empregados como  se fossem da  família.  O jardineiro, por 

exemplo, foi uma pessoa da rua que meu pai pegou e colocou para morar 

numa  espécie  de  galpão  que  tínhamos  atrás  de  casa,  lá  ele  comia, 

dormia  e  cuidava  do  jardim.  A  lavadeira  tinha  dois  filhos,  que  também 

moravam conosco, e que foram muito ajudados por ele, tanto que a filha 

se  formou  economista  e  o  filho  parece  que  é  advogado.  A  nossa 

cozinheira também foi ajudada por ele. 

622 


A  família,  portanto,  vivia  com  bastante  conforto  em  um  “palacete”  na  Rua 

João  Pessoa,  com  jardineiro,  lavadeira,  cozinheira,  motorista  e  uma  governanta 

622 

Entrevista concedida por Theresa Allgayer e Carla Bins, filhas de Pedro Adams Filho, em maio 



de 2006.


alemã,  que  foi  contratada  para  ensinar  uma  segunda  língua  ao  filho  mais  velho, 

Luiz. 


Pedro  e Olga davam­se  muito bem.  “Ele  sempre  dizia  pra  mãe:  ‘Eu não  te 

dou as estrelas porque eu não alcanço. ’ Ele era apaixonado por ela.” 

623 

O relacionamento com os filhos do primeiro casamento era muito tranqüilo, 



tanto que a filha mais nova de Adams e Rosa, Hildegard,  morou em Porto Alegre 

com  sua  nova  família.  Segundo  Theresa,  “a  mãe  tratava  os  filhos  do  primeiro 

casamento como se fossem dela, apesar de terem quase a mesma idade.” 

624 


Em  1928,  Adams  se  afastou  da  vida  pública,  mas,  embora  morando  em 

Porto Alegre, continuava indo diariamente à fábrica em Novo Hamburgo. Theresa 

lembra  que  muitas  vezes  o  pai  ia  de  trem  até  a  fábrica,  mesmo  tendo  carro  e 

motorista. 

Seus netos também lembram de seu bom humor e do prazer que tinha em 

brincar com eles,  cada vez  que vinha para Novo  Hamburgo  e  que  os encontrava 

na fábrica. 

Sua saúde era frágil, pois Adams sofria de asma, o que o obrigava a passar 

seis  meses  por  ano  com  sua  família  no  Rio  de  Janeiro,  em  função  do  clima 

ameno. Porém, seu afastamento dos negócios dar­se­ia por volta de 1933, quando 

foi  obrigado  pelos  médicos  a  ficar  em  repouso  em  sua  casa,  em  decorrência  de 

uma insuficiência cardíaca que o debilitou muito. 

623 

Ibidem 


624 

Ibidem



A  partir  desse  ano,  a  empresa  ficou  sendo  administrada  pelos  filhos  do 

primeiro  casamento,  Oscar  e  Albano,  que  já  conheciam  o  seu  funcionamento,  e 

que  naturalmente  assumiram  seus lugares. Porém, Adams sempre  era informado 

sobre o que acontecia na empresa e a administrava de maneira indireta. 

Esse  problema  de  saúde  transformou  a  rotina  de  Adams  e  sua  família. 

Segundo suas filhas, Olga passou a se dedicar exclusivamente ao marido doente. 

Ele  ficou  mais  ou  menos  dois  anos  doente  de  cama,  não  sabemos 

exatamente o que ele tinha, mas era uma doença do coração e saía água 

pelos poros, ele estava sempre enfaixado e tinha dia e noite enfermeiras 

cuidando  dele.  Naquela  época  o  atendimento  médico,  dentário  era  todo 

em casa. 

A minha mãe, durante todo esse tempo, não desceu do andar de cima da 

casa, praticamente se mudou para lá. Meu irmão ficava muito na casa da 

nossa tia e a Carla, quando ele piorou, também, mas eu fiquei em casa o 

tempo todo e lembro que subia aquelas escadas e levava comida, água, 

remédio, as coisas que a mãe e o pai precisavam. Eu fiquei lá até o fim. 

Ele sempre foi uma pessoa agradável, com tudo que a gente via que ele 

sofria,  ele  nunca  se  queixava,  mas  no  fim  teve  muitas  complicações. 

Lembro  que  ele  estava  fraco,  mas  totalmente  lúcido  e  gostava  de  ter  a 

companhia dos filhos, de conversar, brincar, ele foi alegre até o fim. 

625 

A doença cardíaca de Adams era altamente incapacitante e dolorosa, o que 



explica  todo  esse  período  de  inatividade,  e  a  dedicação  da  família  e  de 

empregados. 

Baseados  nos  depoimentos  familiares,podemos  caracterizar  a  família 

Adams  como  uma  família  patriarcal,  que  tinha  o  pai  como  figura  central  e 

dominante, que gostava de estar cercado pelos seus familiares a agregados. 

Esse  “paternalismo”  característico  de  Adams  transcendia  a  esfera  privada 

da  sua  vida  e  passava  para  a  pública,  como  observamos  nas  suas  atividades 

625 


Ibidem


comunitárias e na sua relação com seus empregados domésticos e das empresas. 

Percebemos  que,  muitas vezes,  a sua  vida  privada  foi  invadida  pelas  atribuições 

públicas a que se dedicou. 

Nesse  sentido,  Adams  aproximava­se  do  que  Petersen  chama  de 

“paternalismo”,  ou  seja,  a  maneira  pessoal  de  tratar  os  problemas  do  trabalho 

típicos do positivismo gaúcho. 

626 

Adams  morreu  em  casa,  na  companhia  de  seus  familiares  em  9  de 



setembro  de  1935,  e  sua  morte  causou  pesar  não  só  entre  seus  familiares  e 

amigos,  mas  também  na  comunidade  de  Novo  Hamburgo,  a  qual  ele  sempre 

esteve ligado. 

O  enaltecimento  à  sua  pessoa  foi  a  tônica  do  jornal  da  cidade  na semana 

da  sua  morte.  Seu  amigo  Leopoldo  Petry  escreve  um  artigo  sugerindo,  inclusive, 

que seja feito um monumento para homenageá­lo. 

O  dia 9 de Setembro  foi um dia  de  luto para Novo Hamburgo. Em Porto 

Alegre  faleceu,  nesse  dia,  um  homem,  que,  além  de  ser  um  paradigma 

de  trabalho  profícuo  e  de  iniciativa,  para  nosso  município  foi  o  grande 

impulsionador  do  seu progresso, e o criador dessa  invejável situação de 

prosperidade que vem trazendo o bem estar e a felicidade a centenas de 

lares: Pedro Adams Filho. [...] 

Porém,  embora  significativas  e  imponentes,  não me  parecem  bastantes 

as  homenagens  prestadas.  Seria  de  toda  justiça  que  Novo  Hamburgo 

traduzisse  os  seus  sentimentos  de  gratidão  de  outra  forma  mais 

expressiva  e mais  elevada:  honrando  a  memória  de Pedro  Adams  Filho 

com  um  monumento  que  deverá  ser  erguido  numa  das  nossas  praças 

publicas!  Esse  monumento  seria  não  somente  uma  homenagem  ao 

impulsionador  do  nosso  progresso  e  ao  cidadão  benemérito,  mas  ainda 

deveria traduzir o espírito de trabalho, de iniciativa, de tenacidade, de que 

o nosso homenageado foi um dos mais altos expoentes. 

627 


626 

PETERSEN, op. cit. p. 280 

627 

Jornal


 O 5 de Abril

, 13/09/1935




A comunidade  parou  para acompanhar  o enterro, as fábricas e lojas  foram 

fechadas  no  período  da  manhã,  como  forma  de  respeito  e  de  agradecimento 

àquele  que  era  considerado  o  pioneiro  da  indústria  do  calçado.  O  jornal

  O  5  de 

Abril

  diz  na  ocasião  que  os  industrialistas  de  calçados  da  cidade,  em  sua  quase 



totalidade, colheram na fábrica Adams os seus primeiros conhecimentos do ramo. 

628 


Centenas  de  pessoas  acompanharam  o  enterro,  que  teve  discursos  dos 

padres da paróquia do centro e de Hamburgo Velho, já que Adams era um católico 

fervoroso, de um representante da Associação Comercial, de um representante da 

família,  da  fábrica  e  dos  empregados,  e  de  um  senhor  chamado  Manoel  Flores 

que,  segundo

  O  5  de  Abril

,  “falou  em  seu  nome  e  no  da  pobreza”.  O  Círculo 

Operário  solicitou  o  fechamento  das  fábricas  e  incentivou  a  presença  dos 

trabalhadores para agradecer o “carinho, a amizade e a dedicação que ele sempre 

dispensou  aos  seus  colaboradores,  e  que,  [...]  disputaram  as  alças  do  caixão 

fúnebre [...]” 

629 


628 

Ibidem 


629 

Ibidem



Figura 106 ­ Jornal

 O 5 de Abril

, 1935. (APNH) 

Figura 107 ­ Túmulo da família Adams no Cemitério Católico de Hamburgo Velho.




Figura 108 ­ Lápide do túmulo. 

Figura 109 ­ Lembrança de enterro 

630 

(AFA) 


630

 

Meu Jesus  Misericordioso!  Doce  coração  de  Maria  seja  minha  salvação!  Para  lembrança  em 



oração daquele que em paz morreu no Senhor. Pedro Adams Filho. Oh Maria, Mãe de Deus e Mãe 

de Misericórdias, por favor ora por nós e por aqueles que para aí foram enviados.




O monumento  a Adams  nunca  foi  feito,  mas a homenagem prestada a ele 

acabou sendo maior, pois a principal rua da cidade ganhou­lhe o nome: a Avenida 

Pedro  Adams  Filho,  ela  que,  segundo Selbach,  “[...]  encerrou  o  ambiente  urbano 

tão  desejado  e,  como  mônada  das  artérias  principais  das  grandes  cidades,  se 

transformou num cenário mágico, que todos sonhavam ter.” 

631 


Figura 110 – Manchete do jornal O 5 de Abril, 22/05/1935 

Figura 111 ­ Avenida no dia da inauguração 

632 

631 


SELBACH, op. cit. p. 66,67 

632 


Jornal

 O 5 de Abril

, 22/05/1936



A  avenida,  durante  toda  a  história  da  cidade,  representou  o  local  de 

convergência dos cidadãos, sem distinções sociais, o local de lazer, de trabalho, a 

nossa Rua da Praia. 

Figura 112 ­ Av. Pedro Adams Filho na década de 30 (AFS) 

Antes  de  Adams  morrer,  ele  manifestou  o  desejo  de  que  Oscar,  seu 

segundo  filho  homem,  assumisse  a  direção  da  empresa.  Albano,  que  era  o  mais 

velho,  ressentiu­se  e  instalou  seu  próprio  curtume  em  outra  cidade,  deixando  a 

empresa a cargo de seus irmãos, pois, além de Oscar, Albano assumiu a gerência 

da empresa, e Edgar assumiu o curtume da família. 

633 


Mesmo doente, Adams acompanhou a administração de sua empresa para 

deixá­la  em  ótimas  condições,  tanto  que,  durante  muitos  anos,  ainda  continuou 

633 

Depoimento de Pedro Adams Neto em abril de 2006.




sendo  referência  em  qualidade  de  calçado  na  cidade.  Na época  da sua  morte,  a 

fábrica tinha  dois  prédios  que produziam, separadamente, calçados masculinos e 

sandálias. 

A empresa ficou com a família Adams por mais 16 anos, até 1951, quando 

passou por problemas financeiros e sofreu intervenção do Banco do Brasil. Nesse 

ano, a família foi afastada da sua administração e foi nomeado um interventor para 

dirigi­la. 

As  informações  que  temos  sobre  a  vida  familiar  de  Adams  estão  calcadas 

nas  lembranças  pessoais  de  seus  parentes,  portanto,  carregadas  de 

sentimentalismo.  Mesmo  assim,  procuramos  cruzá­las  com  outras  fontes  para 

descrevermos  aspectos  do  seu cotidiano  familiar  que  são  indispensáveis  quando 

se pretende contar uma história de vida. 

Já disse Agnes  Heller que, “naquele tempo havia um homem lá. Ele existiu 

naquele tempo [...] e existirá  enquanto alguém contar a sua história.” 

634 

Concordamos  com  a  autora,  e  acreditamos  que  uma  história  pode  ser 



contada e permanecerá  na  memória enquanto existirem aqueles que a relatem e 

aqueles que a registrem. 

No  caso  de  Pedro  Adams  Filho,  a  história  narra  a  memória  da  indústria 

calçadista e da criação do menor município gaúcho, em 1927, e refere­se a ela. 

634 

HELLER, Agnes. Uma teoria da história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993. p.13




CRONOLOGIA DE PEDRO ADAMS FILHO 

13/04/1870  –  Nascimento  em  Santa  Clara  do  Sul,  distrito  de  Lajeado,  onde  vive 

sua infância e adolescência; seu pai era proprietário de um empório comercial. 

Filho  de  Johann  Peter  Adams  (08/06/1844  –  08/11/1913)  e  Maria  Angelina 

Loeblein  (07/04/1849­04/12/1918)  que  se  casaram  em  29/06/1869  em  Dois 

Irmãos. 


1878  (?)  –  Estudou  durante  três  meses  com  uma  professora  particular,  depois 

disso não freqüentou mais escola regular. 

1886/87  –  Família  volta  a  Dois  Irmãos  e  Adams  vai  trabalhar  por  alguns  meses 

como  aprendiz  de  seleiro  com  o  mestre  Jacob  Bossle,  proprietário  de  uma 

sapataria  e  selaria,  em  Taquara  do  Mundo  Novo.  Depois  volta  a  Dois  Irmãos  e 

trabalha  como  empregado  de  uma  fábrica  de  couros  curtidos  e  correaria,  onde 

logo passa a exercer a função de contra­mestre. 

1888  –  Estabeleceu­se  em  Dois  Irmãos  como  sapateiro  e  seleiro  com  o  dinheiro 

recebido  do  pai  (4  contos  de  réis),  logo  empregou  doze  pessoas  em  sua  oficina. 

As vendas dos produtos eram feitas pelo próprio Adams. 

1891  –  Casamento  com  Rosa  Saenger  (01/12/1870­28/12/1924)  natural  de  Bom 

Jardim, atual Ivoti. 

1894  –  Nasce  1ª.  filha,  Ludwina  Catharina  (25/04/1894  –  27/07/1969)  que  mais 

tarde se casa com Pedro Alles (01/09/1888­10/03/1975), proprietário da fábrica de 

molduras Alles em Novo Hamburgo. 

1898 – Instalou­se em Novo Hamburgo com sua família em função das melhores 

condições  de  infra­estrutura  que  permitiriam  um  desenvolvimento  mais  rápido  de 

sua oficina.




1900­  Nasce  2º.  filho,  Albano  Jacob  (05/04/1900­07/11/1985)  que  mais  tarde  se 

casa  como  com  Irmgard  Lanzer  (28/10/1905­14/08/1928).  Albano  mais  tarde  irá 

trabalhar com o pai. 

1901 – Instala

 Fábrica de Calçados Rio­Grandense

 em Novo Hamburgo com sócio 

Frederico Gerhardt e gerência administrativa de Alberto Adams, seu irmão. 

1901  –  Participa  da  Exposição  Industrial  de  Porto  Alegre,  ganha  a  medalha  de 

ouro pelos seus produtos. Sua empresa já conta com 112 funcionários. 

1903  –  Nasce  3º.  filho,  Oscar  Frederico  (29/01/1903­13/11/1975)  que  mais  tarde 

se  casa  com  Elma  Lackmann,  e  em  segundas  núpcias  com  Arabela  Reguly 

(09/08/1904). 

1904 – Sócio se retira da fábrica que passa a se chamar

 Pedro Adams Filho e Cia. 

Ltda

.  A  empresa



  Franco,  Ramos  e  Cia

.  assume  o  cargo  de  agente  geral  da 

fábrica. 

1906 – Nasce 4º. filho, Júlio Adams (1905 ?) mais tarde se casa com Irma Martins. 



1907 – Nasce 5º. filho, Edgar Alberto Adams (23/11/1907 – 18/11/1980) que mais 

tarde se casa com  Azella Ody. 

1910  –  Presidente  da  Sociedade  Ginástica  de  Novo  Hamburgo  (até  1911),  seu 

vice era Augusto Jung. 

1911  –  Empregados  da  empresa  de  Adams  criam  clube  de  futebol

  Sport  Club 

Novo Hamburgo

 que era para se chamar

 Adams Futebol Clube

1912  –  Instalação  da  agência  do



  Banco  da  Província

,  tendo  Adams  como  seu 

agente. 

1912 – Passa a fazer parte da diretoria do

 Jockey Clube

 de Novo Hamburgo, que 

existiu até os anos 40. 

1913  –  Nasce  6ª.  filha,  Hildegard  Adams  (10/10/1913­09/04/1975)  casada  com 

Alfredo Zancani Azevedo. 

1913  –  Cria  a

  Sociedade  do  Carro  Fúnebre

  com  objetivo  de  adquirir  um  carro 

fúnebre para o município e a administra até 1928. 

1914 – Faz parte da comissão encarregada da criação do

 Colégio São Jacó

, que 


inicia suas atividades nesse ano. 

1914  – Sua empresa participa  da

 Exposição Industrial de Santa Maria

  e ganha a 

medalha de ouro pelos seus produtos expostos.



1915 – Com a 1ª Guerra Mundial, é obrigada a substituir as máquinas alemãs de 

sua empresa por máquinas norte­americanas. 

1916 – Participa da

 Exposição Industrial em Caxias do Sul

 e sua empresa ganha 

medalha de ouro. 

1917  –  Inauguração  do

  Curtume  Hamburguez

,  empresa  que  irá  fornecer  a 

matéria­prima  para  sua  indústria  de  calçados,  produz  couros  e  solas  com 

tecnologia moderna. 

1917  –  Curtume  inicia  exportação  de  couro  para  Suíça,  além  de  já  estar 

exportando perneiras para a Bolívia e a Venezuela. 

1917 – É eleito o representante de Hamburger Berg na Câmara Municipal de São 

Leopoldo. 

1917  –  É  eleito  chefe do Partido Republicano  Rio­Grandense  na  cidade  de  Novo 

Hamburgo. 

1918  –  Começa  a  vender  calçados  para  São  Paulo  e  logo  depois  para  o  Rio  de 

Janeiro. 

1918  –  Empresa  já  produz  sapatos  masculinos  e  femininos  e  aumentou  seu 

quadro para 180 funcionários. 

1918  –  A  gripe  espanhola  acomete  a  cidade  e  Adams  é  uma  das  pessoas  que 

mais auxilia os doentes com  a sua remoção para os postos de saúde  e  hospitais 

da região. 

1920  ­  A  empresa,  nos  anos  20,  produzia  mais  de  700  modelos  de  calçados 

diferentes para crianças, homens e  mulheres  e  sua  produção  diária era  de  2.000 

pares de calçados, sendo 1.500 sandálias e 500 sapatos masculinos. 

1920 – É um dos fundadores da Associação Comercial de Novo Hamburgo. 

1921  –  Faz  negócios  com  compadre  que  vive  na  Europa,  provavelmente,  venda 

de couro, que não surtem o efeito desejado. 

1924  –  Faz  parte  da  comissão  pró­emancipação  de  Novo  Hamburgo,  que  inicia 

campanha pela emancipação do município. Nesse mesmo ano o grupo é recebido 

por Borges de Medeiros para tratar da questão. 

1924  –  Adams  participa  com  sua  empresa  da  2ª  Exposição  Industrial  de  Novo 

Hamburgo  com150  modelos  de  calçados  masculinos,  femininos  e  infantis  e  sua 

empresa  ganha  a  medalha  de  ouro;  fez  parte  da  comissão  organizadora  do 

evento.



1924 (?) – Cria a Vila Operária onde fornece casas para seus empregados. 

1924  –  Participa  da  comissão  responsável  pela  construção  da  Igreja  Católica  no 

centro da cidade. 

1925  –  Foi  realizada  outra  reunião  com  Borges  de  Medeiros  pela  Comissão  pró­ 

emancipação.  No  mesmo  ano  foi  enviado  um  memorial  pelo  Conselho  Municipal 

de  São  Leopoldo  negando o  pedido de emancipação,  mas com voto contrário  de 

Pedro Adams. 

1925 – Adams renuncia ao cargo de conselheiro municipal. 

1926  –  Casa­se  em  segundas  núpcias  com  Olga  Maria  Kroeff  (09/03/1892  –  ?), 

filha  de  Jacob  Kroeff  Filho  e  irmã  de  Jacob  Kroeff  Neto,  amigos  de  Adams.  Faz 

sua última viagem para a Alemanha em lua­de­mel. 

1926  –  Participa  de  uma  comissão  responsável  pela  qualificação  dos  eleitores 

para um plebiscito que seria realizado sobre a emancipação 

1927  –  Emancipação  de  Novo  Hamburgo  que  teve  Adams  como  um  dos  seus 



principais líderes; seu filho Alberto assume cargo de conselheiro pelo PRR. 

1927  –  Realiza  com  a  prefeitura  de  Novo  Hamburgo  um  contrato  para 

fornecimento de energia elétrica para empresas e residências. 

1927 – Vence concorrência pública e cria a

 Energia Elétrica Hamburguesa Ltda

1927 – Nascimento de Luiz Adams, filho de seu segundo casamento. 



1928  –  Assembléia  para  a  constituição  da

  Sociedade  Energia  Elétrica 

Hamburguesa

 elege Pedro Adams Filho por unanimidade para presidência. 

1928  – Nascimento de sua 2ª filha com Olga, Theresinha Adams, que mais tarde 

se casa com Francisco Allgayer. 

1928 – Afasta­se da vida pública por motivos desconhecidos. 

1929  –  Participa  da  comissão  organizadora  da  3ª.  Exposição  Industrial  de  Novo 

Hamburgo e sua empresa participa da exposição. 

1929 – Afasta­se da direção da empresa por motivo de doença, deixa seus filhos 

na administração, mas continua acompanhando os negócios. 

1929 – Participa ativamente da campanha pela eleição de Getulio Vargas. 

1929  –  Adams  funda  a  Caixa  Rural  União  Popular  entidade  com  o  objetivo  de 

prestar serviços a economia local e que tinha como sede a sua empresa.




1930  ­  A  empresa,  nos  anos  30,  já  possuía  uma  divisão  de  sandálias  femininas 

que eram produzidas num local separado do sapato masculino. 

1930 ­ Nascimento de sua 3ª filha com Olga, Carla Adams, que mais tarde se casa 

com Telmo José Bins. 

1930 – Empresa cresce e já conta com aproximadamente 250 empregados. 

1930  –  É  realizada  a  1ª.  greve  de  funcionários  da  empresa  de  Adams  que  é 

tratada como “caso de polícia”. 

1932  ­  É  formada  a  União  Operária  Beneficente,  entidade  representativa  dos 

trabalhadores apoiada pelos empresários, dentre eles, Adams. 

1933  –  Criação  dos  dois  primeiros  sindicatos  da  cidade,  o  dos  Marceneiros  e 

Carpinteiros  e  dos  Trabalhadores  em  Couro  e  seus  Artefatos.  Essas  entidades 

não eram apoiadas pelos empresários. 

1933  –  Adams  se  afasta  de  seus  negócios  em  função  de  sua  doença,  seu  filho 

Oscar assume o cargo de diretor­presidente e seu filho Albano assume a gerência 

de produção. 

1935  –  Criação  do  Círculo  Operário  em  Novo  Hamburgo  com  total  apoio  da 

empresa de Adams. 

09/09/1935 – Adams morre em decorrência de problemas cardíacos em sua casa 

em  Porto  Alegre,  junto  de  sua  mulher  e  seus  filhos  do  segundo  casamento.  É 

enterrado no cemitério católico de Hamburgo Velho em Novo Hamburgo.




CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Ao  seguirmos  o  itinerário  pessoal  de  Pedro  Adams  Filho  na  formação  do

 

cluster


  coureiro­calçadista  e  na  sua  atuação  política  e  comunitária,  nesta 

pesquisa,  buscamos  compreender  o  processo  de  construção  da  cidade  de  Novo 

Hamburgo como pólo de desenvolvimento do Vale do Sinos. 

Para podermos expressar esses objetivos, estruturamos a tese da seguinte 

maneira:  o  primeiro  capítulo  tratou  do  contexto  histórico  e  dos  empreendedores 

coloniais,  ou  seja,  pontuamos  a  conjuntura  político­econômica,  privilegiando  a 

origem  e  o  desenvolvimento  da  indústria  do  Estado  do  Rio  Grande  do  Sul  e  o 

cotidiano da cidade onde Adams viveu a sua infância e juventude. Nesse capítulo, 

analisamos  o  papel  de  nove  empreendedores  gaúchos,  como  Alberto  Bins, 

Ernesto  Neugebauer,  de  Porto  Alegre;  Carlos  Oderich,  A.J.  Renner,  do  Vale  do 

Caí;  Guilherme  Ludwig,  Arthur  Haas,  Augusto  Jung,  Pedro  Alles  e  Arlindo 

Spindler,  do  Vale  do  Sinos,  que, como  Pedro  Adams  Filho,  são  lembrados  como 

lideranças industriais do Estado. 

A  problemática  básica  desse  capítulo  girou  em  torno  da  análise  dos 

significados  da  categoria  empreendedorismo  nas  comunidades  coloniais,  dentro



de um contexto de crescimento da atividade artesanal e da indústria moderna, que 

foi a trajetória comum a unir esses empreendedores locais. 

No segundo capítulo, abordamos o desenvolvimento e a formação do setor 

coureiro­calçadista e o desenvolvimento da cidade de Novo Hamburgo como pólo 

industrial.  Para  isso  tratamos  da

  Fábrica  de  Calçados  Sul  Rio­Grandense

  e  do

 

Curtume  Hamburguez



,  ambos  de  propriedade  de  Adams,  do  design  de  calçados 

desenvolvido na época, das exposições industriais que aconteceram no município, 

das relações de trabalho e do fornecimento de energia elétrica para as empresas 

e cidade. 

A  problemática  desse  capítulo  discorreu  sobre  como  e  onde  encontrar, 

caracterizar e analisar atos e tomadas de decisão que poderiam ter caracterizado 

Pedro Adams Filho como um empreendedor múltiplo. 

Descobrimos  que  as  estratégias  utilizadas  por  ele  na  construção  de  sua 

liderança  no  setor  coureiro­calçadista  tiveram  início  no  momento  em  que  ele 

investiu  a  herança  que  recebeu  de  seu  pai  na  ampliação  de  seu  ateliê  de 

calçados,  e  transferiu­se  de  Dois  Irmãos  para  Novo  Hamburgo,  pois  via  nessa 

cidade 


melhores 

oportunidades 

de 

crescimento 



do 

capital 


investido, 

principalmente  em  função  da  existência  da  estrada  de  ferro  que  servia  como 

escoamento  para  seus  produtos.  Criou,  assim,  a  primeira  empresa  moderna  do 

Vale  dos  Sinos.  Vimos  que,  nos  primeiros  tempos,  além  responsável  pela 

fabricação dos produtos, Adams também era o responsável pela comercialização, 

embrenhando­se,  para  isso,  nas  picadas  com  uma  carroça  puxada  por  bois.  Ao 

mesmo  tempo, ele  assumiu  o cargo de agente  do Banco da Província  na  cidade.



Parece­nos que esse posto facilitar­lhe­ia, pelos investimentos  que fazia em suas 

empresas,  a  obtenção  de  créditos  para  seus  negócios,  como  a  compra  de 

máquinas.  A  diversificação  de  produção  e  a  exportação  também  foram 

características marcantes em sua vida empresarial. 

O pioneirismo de Adams também pode ser confirmado com a criação de um 

curtume  que  representou  a  verticalização  da  produção,  ou  seja,  a  sua  empresa 

passou  a  responsabilizar­se pelas  principais  etapas  necessárias para a produção 

do  calçado,  desde  a  produção  da  matéria­prima  até  produto  acabado,  o  que 

significou um ganho de capital e uma autonomia que são até hoje fundamentais no 

mundo  dos  negócios.  Seu  curtume,  desde  o  início,  utilizou­se  de  máquinas 

modernas  que  diminuíram  o  tempo  de  produção  do  couro,  e  representavam  a 

modernização do setor. 

A  ativa  participação  de  Adams  nas  exposições  industriais  e  o  seu 

envolvimento na vida comunitária mostraram­nos que elas não tinham apenas fins 

econômicos,  mas  também  políticos,  pois  representavam  uma  oportunidade  para 

ele  tornar­se  mais  conhecido  e  próximo  da  comunidade.  Para  empreendedores 

como ele, a aliança entre a indústria e a comunidade era feita por meio de ações 

políticas.

Ao  voltarmo­nos  para  Pedro  Adams  Filho  e  suas  relações  com  a  mão  de 

obra  necessária  para  levar  adiante  seus  negócios,  podemos  analisar  o  grau  de 

seu  comprometimento  com  a  formação  e  perpetuação  da  idéia  de  que  o 

trabalhador,  com  seu  esforço  e  trabalho,  conseguiria  tornar­se  patrão.  Com  isso,




constatamos  que  o  mito  da  ascensão  social  teve  o  suporte  das  lideranças 

empresariais  e  sindicais  da  cidade  para  conciliar  os  interesses  de  dois  grupos 

sociais distintos: capitalistas e operários. Adams, nessa questão, alinhou­se com a 

filosofia  da  busca  da harmonia  nas  relações de  trabalho,  o  que se evidencia  pelo 

apoio  de  sua  empresa  ao  Círculo  Operário,  e  o  tratamento  dado  à  greve  que 

ocorreu em sua fábrica. 

A  criação  da  empresa  de  fornecimento  de  energia  elétrica  para  a  cidade 

corrobora  com  nossa  tese  sobre  a  relação  entre  o  empreendedorismo  de  Pedro 

Adams  e  sua  condição  de  político  influente.  Ele  poderia  ter  pressionado  o  poder 

público  para  solucionar  o  problema  energético,  vital  para  o  desenvolvimento  da 

cidade,  mas  optou  por  assumir  o risco  do  empreendimento, mesmo sabendo  que 

isso  lhe  renderia  muitas  críticas,  especialmente  das  lideranças  políticas  de  São 

Leopoldo, que não queriam perder o negócio do fornecimento de energia. 

O  terceiro  capítulo  tratou  das  atividades  políticas  e  comunitárias  do 

biografado e de como ficou registrada, nos documentos e jornais, sua atuação na 

emancipação  do  município,  no  Partido  Republicano  Rio­Grandense  e  na  criação 

do colégio São Jacó. Por fim, tratamos da vida familiar de Adams, sua postura de 

gerenciador  dos  bens  da  família  e  de  distribuição  de  tarefas  e  postos,  desde 

quando  nomeou  seu  irmão  para  um  cargo  em  sua  empresa,  até  a  indicação  de 

seus  sucessores.  Finalmente,  tratamos  da  sua  morte,  ocorrida  na  companhia  de 

médicos, enfermeiros e de sua família.



Esse  capítulo  teve  como  problemática  principal  a  busca  pelas  estratégias 

utilizadas  por  Adams  para  construir  sua  liderança  no  processo  político  e 

comunitário da cidade e do Vale do Sinos, levando­se em consideração, para isso, 

o  círculo  que  influenciava  e  pelo  qual  era  influenciado,  o  que  incluía  toda  uma 

geração de empreendedores locais. 

Constatamos  que  a  atuação  política  de  Adams  iniciou  dez  anos  antes  da 

emancipação da cidade, e teve uma grande importância na sua vida. Sua carreira 

política  iniciou  em  1917,  como  representante  do  Partido  Republicano  Rio­ 

Grandense,  e  teve  seu  ápice  na  emancipação  do  distrito  de  Hamburger  Berg  da 

cidade de São Leopoldo. 

Esse  movimento  emancipacionista,  além  de  representar  a  autonomia 

municipal  que  veio  acompanhada  de  decisões políticas  favoráveis à comunidade, 

pode  ser  considerado,  também,  como  a  primeira  iniciativa  da  formação  de  uma 

identidade  própria  para  a  cidade,  pois,  nesse  momento,  a  comunidade  sentiu  a 

necessidade de afirmar­se em contraposição ao município sede. 

No  processo  de  construção  dessa  identidade  inicial,  leia­se  o  discurso 

sobre  o  sentimento  municipal  de  pujança  e  de  empreendedorismo.  Acreditamos 

que  Pedro  Adams  Filho  foi  um  dos  pioneiros  da  indústria  e  um  dos  líderes  da 

emancipação municipal, e terminou por tornar­se um modelo para novas gerações 

de  novo­hamburguenses  que  se  seguiram  a  esses  primeiros  passos 

emancipatórios.



As  questões  cotidianas  apresentadas  ajudaram­nos  a  compreender  como 

era o dia a dia em que Adams estava inserido e quais eram as suas necessidades. 

As  atividades  comunitárias  lideradas  e  apoiadas  por  ele  sugerem­nos  sua 

condição  de  empreendedor  social,  ou  seja,  alguém  que  propõe  a  solução  de 

problemas  sociais,  combinando  práticas  e  conhecimentos  inovadores  e  criando 

novos serviços para melhorar a vida das pessoas. 

Ele  participou  da  administração  de  dois  clubes  recreativos  e  esportivos, 

Sociedade  Frohsin  e  Sociedade  Ginástica de  Novo Hamburgo; ajudou  a fundar o 

Sport Club Novo Hamburgo e o Jockey Club; criou e administrou a Sociedade do 

Carro  Fúnebre;  foi  um  dos  fundadores  do  Colégio  São  Jacó  e  da  Associação 

Comercial de Novo Hamburgo; fez parte da  comissão de obras da Igreja Católica 

do centro da cidade, e foi presidente da Caixa Rural União Popular. 

Finalmente,  a  vida  familiar  de  Pedro  Adams  Filho  permite­nos  conhecer 

alguns  aspectos  pouco  explorados  de  sua  personalidade,  que  comparecem  no 

bojo  de  sua  atuação  pública,  e  possibilitam  que  as  poucas  pessoas  que 

conviveram com ele possam deixar  registrada sua história e nuances de sua vida 

afetiva,  pois,  segundo  Agnes  Heller,  é  “na  dimensão  da  vida  cotidiana  que  se 

evidencia a essência humana dos atores sociais.” 

635 

Aspectos  da  história  de  Novo  Hamburgo  apareceram  nessa  pesquisa, 



baseada  no  gênero  biográfico.  Ela  nos  permitiu  observar  como  os  indivíduos 

podem  adotar  atitudes  que  caracterizam  uma  capacidade  transformadora, 

635 

HELLER, Agnes.



 Uma Teoria da História

. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.




salientando­se como protagonistas em lugar de apenas personagens aprisionados 

pelas estruturas sociais. 

Essa “nova” maneira de se fazer história também nos deixou trabalhar com 

a trajetória individual de um sujeito que, mesmo tendo seu papel reconhecido pela 

comunidade,  encontrava­se  submerso  na  “macro­história”,  no  anonimato.  À 

trajetória  empresarial, política e comunitária  de  Pedro Adams Filho, que  lhe pode 

dar a dimensão de um empreendedor, conforme viemos pontuando ao longo desta 

tese,  deve­se a escolha de seu nome para a principal avenida da cidade. 

Pedro  Adams  Filho  não  é  cultuado  na  cidade  como  um  herói,  um  líder 

predestinado, ou um “salvador que guiaria seu povo pelos caminhos do futuro” 

636 



sua trajetória de vida ficou reduzida à legenda da placa de rua que informa que ele 



foi  o    “pioneiro  da  indústria  calçadista  no  Vale”.  Desdobrar  o  significado  dessa 

legenda  levou­nos à sua trajetória empreendedora, e impulsionou­nos a escrever 

esta tese. 

Se  nosso  biografado  merece  essa  placa  de  rua  ou  não,  é  uma  questão 

muito  discutível  e  que  se  presta  a  muitas  respostas,  mas  achamos  que  esta 

pesquisa possa ajudar a pontuá­la. 

Acreditamos  que  esta  tese  trouxe  avanços  em  relação  aos  trabalhos 

existentes  sobre  a  história  da  industrialização  em  Novo  Hamburgo,  levando  em 

consideração  as  pesquisas  existentes  sobre  essa  questão;  analisamos  a 

636 


Conforme classificação de GIRARDET, Raoul.

 Mitos e Mitologias Políticas

. São Paulo: Cia. das 

Letras, 1987.




importância de Pedro Adams Filho como pioneiro da indústria moderna da cidade, 

observando  sua  trajetória  dentro  de  um  contexto  em  que  vários  outros 

empreendedores coloniais também tiveram uma participação ativa; reconstruímos 

o  processo  de  emancipação  de  Novo  Hamburgo  com  base  em  várias  fontes 

jornalísticas  recolhidas  por  um  dos  líderes  do  movimento  da  cidade;  realizamos 

uma  análise  da  história  do  município  através  da  trajetória  de  uma  figura 

representativa  para  a  região,  procurando  não  enaltecer  essa  figura,  mas  mostrar 

suas  possíveis  contradições;  finalmente,  assumimos  o  desafio  de  escrever  uma 

biografia  onde  a  “história  narrativa”,  tão  marginalizada  pela  historiografia  atual,  é 

fundamental  na  construção  do  texto,  mas,  ao  mesmo  tempo,  não  deixamos  de 

lado a “história problema”, ou seja, como se deu a industrialização e o processo de 

emancipação  de  Novo  Hamburgo,  questões  fundamentais  para  a  construção  de 

sua história. 

Entretanto,  é  fundamental  salientar  que,  embora  boa  parte  da  histórica  da 

cidade  ter  sido  abordada  nesta  tese,  muitas  questões  ainda  estão  em  aberto,  e 

carecem de um estudo mais minucioso. Muitos empreendedores e políticos como 

Adams  existiram  e  foram  fundamentais  para  a  construção  da  história  do  Vale  do 

Rio  dos  Sinos.  Eles,  junto  da  grande  massa  de  trabalhadores  e  de  eleitores 

anônimos,  contemporâneos,  deixaram  muitos  vestígios  de  suas  sagas 

particulares,  embora  poucos  tenham  o  nome  registrado  em  placas  de  ruas. 

Portanto, ainda há muito que se pesquisar na cidade e região. 

Acreditamos,  finalmente,  na  citação  de  Schmidt  quando  ele  diz  que,  “na 

Grécia  antiga,  acreditava­se  que  cabia  aos  poetas  a  preservação  da  vida  dos



heróis [...] hoje o historiador­biógrafo pode assumir essa tarefa, possibilitando que 

os  indivíduos  esquecidos,  as  trajetórias  perdidas,  as  falas  silenciadas  venham  à 

tona e ressuscitem para o mundo dos vivos. “ 

637 


Esperamos  que  esta  pesquisa  possa  ser  multiplicada  e  amplamente 

utilizada,  principalmente  pela  comunidade  novo­hamburguense,  e  que  passe  a 

ocupar  um  lugar  na  historiografia  sobre  o  município  e  sobre  o  setor  coureiro­ 

calçadista no Vale do Sinos. 

637 

SCHMIDT,  Benito  Bisso.



  Uma  reflexão  sobre  o  gênero  biográfico:  a  trajetória  do  militante 

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GUIA DO VALE. Novo Hamburgo, 1972 (APVS) 

ABC DOMINGO. Novo Hamburgo, 1997. (APVS) 

DEUTSCHE POST, São Leopoldo, 1925,1926,1927. (MHVSL/APVS)




DEUTSCHES VOLKSBLATT, São Leopoldo, 1900, 1925. (MHVSL/APVS) 

CORREIO DA SERRA, Santa Maria, 1926, 1927. (APVS) 

SUPLEMENTO  ESPECIAL  DA  CIA.  JORNALÍSTICA  CALDAS  JÚNIOR.  Porto 

Alegre, 1974. (APVS) 

TRIBUNA ILLUSTRADA. Porto Alegre, 1927 (APVS) 

A FEDERAÇÃO. Porto Alegre, 1929, 1930. (APVS) 

DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Porto Alegre, 1925,1927, 1928. (APVS) 

CORREIO DO POVO, Porto Alegre, 1928, 1929, 1930. (APVS) 

ÚLTIMA HORA, Porto Alegre, 1925. (APVS) 

ASÓGA, Porto Alegre, 1925. (APVS) 

CONSULTOR COMMERCIAL, Porto Alegre, 1927. (APVS) 

Outras 


ANUÁRIO Estatístico do Brasil do IBGE (1933/1940) (APVS) 

ATAS Conselho Municipal de São Leopoldo, 1924, 1925. (MHVSL) 

CARTAS de Pedro Adams Filho, Rosa Adams, J. Akert (AFA) 

FOTOS da família Adams (AFA) 

FOTOS de Novo Hamburgo (APVS, FEFS, MNC) 

HISTÓRIA em quadrinhos sobre Pedro Adams Filho (AFA) 

LIVRO­ARQUIVO  sobre  a  exposição  Industrial  e  Emancipação  de  Novo 

Hamburgo, 1927. (APVS) 

LIVRO  de  Atas  da  Comissão  Organizadora  da  Exposição  Industrial  de  Novo 

Hamburgo, 1927. (APVS) 

LIVRO de Eleitores de Estrela, 1890. 

MANUSCRITO de Telmo Bins sobre genealogia da família Adams. (AFA)




PASQUIM  publicado  em  Novo  Hamburgo  com  críticas  a  conselheiros  de  São 

Leopoldo. (APVS) 

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Hamburgo:  2005.  Entrevista  concedida  para  tese  de  doutorado  sobre  Pedro 

Adams Filho. 

ALLGAYER,  T.  Theresinha  Allgayer:  depoimento  [mai  2006].  Entrevistadora: 

C.Schemes.Novo  Hamburgo:  2006.  1  fita cassete (60  min.).  Entrevista concedida 

para tese de doutorado sobre Pedro Adams Filho. 

BINS,  C.  Carla  Bins:  depoimento  [mai  2006].  Entrevistadora:  C.Schemes.Novo 

Hamburgo:  2006.  1  fita  cassete  (60  min.).  Entrevista  concedida  para  tese  de 

doutorado sobre Pedro Adams Filho. 

MOMBERGER,  R.A.  Regina  Astrid  Momberger:  depoimento  [set.2006]. 

Entrevistadora: C.Schemes.Novo Hamburgo: 2006. Entrevista concedida para tese 

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MOSMANN, 

C. 

Carmem 


Mosmann: 

depoimento 

[jun.2005, 

abr.2006]. 

Entrevistadora:  C.Schemes.Novo  Hamburgo:  2005.  1  fita  cassete  (60  min.). 

Entrevista concedida para tese de doutorado sobre Pedro Adams Filho. 

WIRTH,  J.A.  João  Arlindo  Wirth:  depoimento  [nov.  2004].  Entrevistadora: 

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ANEXOS 

Anexo A ­ Carta de J. Akeret para Pedro Adams Filho. (AFA)






Tradução da carta

 

Caro Pedro Adams Filho 



No futuro  eu  enviarei toda a  correspondência  do  negócio com a indicação 

“particular”.  Na  minha  carta  do  dia  20  para  o  senhor  eu  reconheço  que  recebi  a 

sua carta de 25 de abril. [...] pois sem tal discussão não pode ser solucionado e, 

assim,  naturalmente  o  senhor  também  foi  lesado.  Só  no  Banco Pelotense  foram 

trocados  1.350.000  francos  sem  crédito  aceito,  mas  não  entrou  para  a  troca 

1.017.000  francos  [...].  No  Banco  Francês  foram  trocados  documentos  aceitos, 

mas não creditados de 1.017.000 francos. Houve um grande prejuízo para nossa 

firma. [...] Eu preciso ver se a trocas foram feitas porque, para os credores, eu sou 

o responsável. 

Eu comprei para a firma um lote de peles que eu achei que poderia vender 

bem  em  Viena  e  em  Budapeste,  onde  o  meu  irmão  está.  Eu  imediatamente 

enviarei pelo correio  para  o senhor  produtos para  o  pagamento  da  minha dívida, 

2.000  barbeadores  gilette  e  2.000  dúzias  de  lâminas  gillete,  para  que  o  senhor 

possa  vender  os  mesmos  assim  que  chegarem.  Como  garantia  eu  mandei  fazer 

um título através do curtume de Caxias. 

Peço que o senhor reclame lá assim como a negociação do meu seguro de 

vida  em  Montevideo  através  do  Banco  Francês.  Certamente  agradará  tentar 

realizar negócios de exportação na base de variados produtos de lá, para tanto, no 

entanto,  o  momento  atual  não  é  o  mais  adequado.  [...]  a  depressão  que  se 

alcançou sempre colocará os negócios em risco, porque os compradores, sempre




em  uma  queda  de  preços,  compram  tudo  adiantado,  conservam  o  produto  e 

tentam devolver. 

Eu  vejo  uma  melhora  nos  negócios  até  o  próximo  mês  de  setembro.  Aí 

espero  ter  relações  suficientes  e  ter  informação  principalmente  nos  Bálcãs  e  aí 

poder  trabalhar  em  bases  sólidas.  Eu  enviarei  para  o  senhor  finas  amostras  de 

diversos produtos para que  o senhor  possa fazer pequenas  encomendas  que  eu 

posso enviar sem pagamento. 

Juntamente enviarei para  o  senhor  a  fotografia  da  casa de meus  pais. Na 

frente, no jardim, está o teu afilhado Roberth, ao lado Elsli. 

No futuro envio ao senhor minhas cordiais saudações. 

J. Akert, Weinfelden, Suíça 

P.S.  A 3ª  veio  feliz  –  a  pequena  Stella,  mais  uma  menina.  Minha  mulher  e  as  3 

crianças estão no meu pequeno pedaço de terra. J.A.



ANEXO B – CARTA DE ROSA SAENGER PARA PEDRO ADAMS FILHO



TRADUÇÃO DA CARTA:

 

Querido Pedro! 



Escrevo­te para Berlim com a esperança de que  encontre­o com saúde. 

Aqui em casa ainda vai tudo bem, as crianças estão todas com saúde. 

De Oscar eu ainda não tenho notícias, certamente ele ainda não voltou. 

Na segunda­feira faleceu o Jacob e eu achei que o vigário fez um discurso 

longo na sepultura do falecido. 

Como eu fui [...] tu novamente viveste uma tempestade. 

Hildegart esteve ultimamente um pouco [...] tu o perceberás em sua carta. 

Eu encerro minha carta com a esperança de que tu novamente estejas com 

boa saúde. 

Cordiais saudações para Julio e também para ti. 

Da tua 

Rosa



ANEXO C – Programa dos festejos do 1º Centenário de Imigração Alemã



ANEXO D ­ Carta Convite da exposição municipal comemorativa da 

imigração alemã (APVS)

 

Exposição  Industria l e  Agrícola, de productos deste  município, convida­se a  todos 



que  se  interessarem  por  tão  importante  certamen  a   porem­se  em  communicação  com  a 

commissão abaixo firmada, afim de receberem a s necessá rias instrucções. 

Tra tando­se  de  uma  manifestação  de  vem  demostrar  aos  olhos  não  só  de  todo  o 

Estado, mas de toda  a  Nação, a nossa capacidade productiva, o nosso va lor como agentes 

do  progresso  e  a  nossa   situação  privilegiada  como  factores  do  desenvolvimento  da 

indústria , não escapará  á esclarecida intelligencia de nossos co­municipes a significação 

moral desse grandioso projecto. 

Esperando  que  cada  S.  Leopoldense  contribua  para  a   sua  realização  com  todo  o 

ardor cívico, estamos ao dispôr dos interessados. 

Novo Hamburgo, Julho de 1924. 

Dr. Jacob Kroeff Netto 

Pedro Adams Filho 

Guilherme Ludwig 

Julio Kunz 

José J. Martins 

André Kilpp 

Leopoldo Petry 

Carlos Dienstbach, Secretário





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