Pedro adams filho: empreendedorismo


parte  do  estrangeiro  [...]”



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parte  do  estrangeiro  [...]”, 

287 


em  consonância  com  o  lema  positivista  “ordem  e 

progresso”, tão caro aos governantes gaúchos do período em questão. 

O jornal empenhava­se em mostrar que a indústria era o orgulho local, que 

tornava  a  cidade  conhecida  nacionalmente,  como  mostra  a  citação  a  seguir 

intitulada

 “A indústria de Novo Hamburgo”

 

Em  ocasiões  diversas  já  tivemos  ensejo  de  nos  ocuparmos  do 



adiantamento  das  indústrias  em  nosso  município,  cujo  progresso  com 

justiça, já lhe valeu o honroso cognome de ‘Manchester Rio Grandense’, 

devido ao grande número de fábricas aqui existentes[...]. 

288 


Finalmente, o jornal diz que o governo estadual só emancipou a cidade por 

causa  dos  formidáveis  recursos  advindos  da  indústria  e  do  comércio  local.  Na 

ocasião da visita de Flores  da  Cunha à cidade, o prefeito  incluiu no seu discurso 

os  dizeres:  “[...]  Novo  Hamburgo,  a  cidade­oficina  que  com  as  suas  duzentas  e 

muitas fábricas, influi poderosamente na economia do Estado[...]”. 

289 


Indústrias de 

algumas cidades vizinhas (Campo Bom, Dois Irmãos) também eram mencionadas 

pelo jornal como as responsáveis pelo seu progresso. 

Feitas  as  ressalvas,  a  utilização  das  matérias  do  jornal

 O 5  de  Abril

  como 


fonte dessa pesquisa, impõe­se pelo grande número de informações que trazem e 

os interesses que esse veicula, que são indícios do contexto em que Pedro Adams 

vivia e do seu cotidiano. 

287 


Jornal

 O 5 de Abril

, 25/07/1934. 

288 


Ibidem, 21/12/1934 

289 


Ibidem, 10/05/1935


Com relação aos empregos oferecidos pelas indústrias locais, havia muitos 

anúncios, inúmeras vezes repetidos, em mais de uma edição, o que pode sinalizar 

um  mercado  de  trabalho  bom,  em  relação  aos  baixos  índices  de  desemprego  da 

cidade  na  época.  Dentre  os  empregos  oferecidos  estavam  o  de  costureira  de 

calçados, de sapateiros, de curtidores e de maleiros, sendo as costureiras as mais 

procuradas. É importante salientar que o trabalho infantil era considerado normal, 

como  mostra  um  dos  anúncios:  “Procura­se  um  bom  sapateiro  e  meninas  que 

saibam trabalhar em calçados tressé. PAGA­SE BOM ORDENADO. [...]” 

290 

Outro 


anúncio  interessante  procurava  “um  sapateiro  e  um  curtidor  competentes  que 

poderão encontrar pronta  colocação numa colônia  alemã  no  Paraguai”,  que pode 

significar  a  procura  de  mão­de­obra  local  pela  comunidade  alemã  que  se 

estabeleceu na América do Sul. 

A questão do trabalho infantil já havia sido regulamentada há anos atrás. 

291 


A legislação  previa  que era  proibido o trabalho  de  menores de 12 anos de idade. 

Os  maiores  de  12  e  menores  de  14  anos  que  não  tivessem  completado  a 

instrução primária, também não poderiam entrar no mercado de trabalho, a menos 

que  uma  autoridade  competente  autorizasse  seu  trabalho,  quando  considerasse 

indispensável para sua subsistência dos mesmos ou de sua família. Aos menores 

de  18  anos  eram  proibidos  os  trabalhos  que  apresentassem  riscos  à  saúde,  à 

vida,  à  moralidade  ou  que  fossem  excessivamente  cansativos.  O  trabalho  dos 

290 


Ibidem, 14/09/1934. O jornal não informa a idade das meninas que seriam contratadas. 

291 


Um  decreto  de  1891  proibia  o  trabalho  de  crianças  em  máquinas  em movimento,  em  1927  é 

criado o Código de Menores que regulamenta o trabalho infantil, a Constituição de 1934 determina 

a  proibição  do  trabalho  de  menores  de  14  anos  sem  permissão  judicial.  PASSETTI,  Edson. 

Crianças  Carentes  e  Políticas  Públicas.  In:  DEL  PRIORE,  Mary  (org.)

  História  das  Crianças  no 

Brasil


. São Paulo: Contexto, 2000. p. 351,354.


menores não poderia exceder às seis horas diárias interrompidas por um ou vários 

repousos, cuja duração não poderia ser inferior a uma hora; não poderiam exercer 

trabalho  noturno;  os  chefes  dos  estabelecimentos  industriais  ou  comerciais  em 

que eram empregados os menores eram responsáveis por “velar pela manutenção 

dos bons costumes e da decência pública”, bem como da higiene e segurança dos 

lugares de trabalho. 

292 

Outra característica desses anúncios era a solicitação de candidatos “bons” 



ou  “competentes”,  o  que  vem  ao  encontro  da  idéia  de  empreendedorismo  que 

exige mão­de­obra qualificada. 

293 

Os  donos  das  indústrias  tinham  um  tratamento  privilegiado  pelo  jornal  se 



comparados  a  outras  categorias  profissionais.  Em  algumas  ocasiões,  o  jornal 

relatou  viagens  particulares  de  um  “forte  industrialista”  e  de  um  sócio  de 

“importante firma” que aparentemente não tinham função alguma para terem sido 

relatadas.  Já  em  outro  momento,  foi  citado  o  “nobre  e  patriótico  gesto  do  forte 

industrialista”  em  ajudar  na  construção  de  uma  estação  férrea  em  Campo  Bom, 

além  do  chamamento  para  os  industriais  mobilizarem­se  para  a  construção  de 

uma  nova  usina  elétrica.  Os  demais  profissionais  citados  pelo  jornal,  como 

advogados,  médicos  entre  outros,  não  recebiam  nenhum  tipo  de  tratamento 

especial. 

292 


Jornal

 O 5 de Abril

, 26/10/1928 

293 


Segundo  entrevistas  com  trabalhadores  das  décadas  de  30  e  40  que  dizem  que  havia  uma 

dificuldade  muito  grande  de  se  conseguir  operários  qualificados  para  a  indústria  que  ainda  se 

encontrava  em  fase  incipiente.  In:  SCHEMES,  Claudia  et  alii.

  Memória  do  Setor  Coureiro­ 

Calçadista

:  Pioneiros  e  Empreendedores  do  Vale  do  Rio  dos  Sinos.  Novo  Hamburgo:  Feevale, 

2005.



A importância dada pelo

 5 de Abril

 aos industriais fica evidenciada em uma 

matéria  de  1935  sobre  o  progresso  da  vizinha  cidade  de  Campo  Bom.  Ela  não 

apenas cita os nomes dos empresários locais, mas ainda descreve suas casas, ao 

buscar provas de que o progresso econômico profissional vinha acompanhado de 

uma  vida  privada  muito  confortável  com  vistas  a  transformar  o  caso  em  um 

exemplo a ser seguido pela população em geral. 

Outro indício da valorização é que, sempre que um industrial era citado nos 

artigos,  além  de  sempre  estar  associado  ao  desenvolvimento  e  ao  progresso  da 

cidade,  ele  tinha  uma  qualidade  agregada  a  seu  nome:  “perfeito”,  “cavalheiro”, 

“importante”, “nobre”, “patriótico”, entre outros. 

Com relação aos serviços  oferecidos  às  indústrias, poucos  anúncios  foram 

feitos  durante  o  período  analisado.  Muitos  eram  das  mesmas  empresas  que 

ofereciam  técnicos  para  consertar  qualquer  tipo  de  máquina  e  em  qualquer 

horário, o que mostra que muitas empresas trabalhavam no turno da noite. 

Outros anúncios veiculados no jornal

 O 5 de Abril

 que se relacionavam com 

o  mundo  do  trabalho  tratavam  de  venda  de  máquinas,  formas  e  navalhas  para  a 

fabricação  de calçados,  da  venda  de  um curtume e  de  propagandas  de  produtos 

de  fábrica  de  calçados  (por  exemplo,  “Calçado  de  tressé  moderno  e  durável. 

Confecciona­se  sob  medida  na  fábrica”),  molduras  e  órgãos  e  alguns  roubos  de 

couro. 


294 

294 


Jornal

 O 5 de Abril

, 14/09/1934



Vimos  que,  nesse  contexto  de  progresso  econômico  e  desenvolvimento 

industrial  da  cidade,  Pedro  Adams  Filho  achava­se  inserido.  Ele  foi  um 

personagem  fundamental  na  história  de  sua  industrialização,  porque  iniciou  uma 

produção  moderna  de  calçados  e  financiou  outras  empresas  e  curtumes  que 

surgiram na época. 

295 


Muitos dos novos industriais eram seus antigos empregados e Adams dava­ 

lhes assistência, dinheiro e, muitas vezes, comprava­lhes a produção quando não 

conseguiam vender o que produziam. 

296 


Ele  [Pedro  Adams  Filho]  criou  trabalho  e  fez  com  que  muitos  dos  seus 

colaboradores  se  tornassem  independentes  e  fundassem,  por  sua  vez, 

estabelecimentos próprios, assim incrementando sempre mais a indústria 

local. 


297 

Segundo depoimentos, podemos concluir que Pedro Adams Filho tinha uma 

preocupação com a comunidade na qual estava inserido, e acreditava que poderia 

contribuir  para  melhorar  as  condições  de  vida  de  seus  operários  e,  em  última 

instância, da população da cidade que o acolheu. Ao mesmo tempo, as pequenas 

empresas que eram abertas por seus antigos empregados não representavam um 

risco para seus negócios, pois a sua empresa já era uma das maiores do Vale do 

Sinos  com  um  volume  de  vendas  e  um  rendimento  que  lhe  colocavam  numa 

situação financeira confortável e estável. 

295 


Segundo  depoimentos  de  Pedro  Adams  Neto  e  empresários  e  trabalhadores  de  Novo 

Hamburgo  que  deram  seus  depoimentos  para  o  projeto  de  pesquisa  desenvolvido  pelo  Museu 

Nacional  do Calçado, em  Novo Haburgo, intitulado  Memória  do Setor Coureiro­Calçadista  no ano 

de 2002. 

296 

Ibidem 


297 

Segundo  Ervino  João  Schmidt,  funcionário  da  empresa  de  Adams.  Jornal

  O  5  de  Abril

22/05/1936




2.3 – As exposições industriais 

A  participação  das  empresas  em  feiras  e  exposições  industriais  era 

fundamental, na ótica do empreendedor, para firmarem­se imagens de instituições 

sólidas e afinadas com o progresso em nível popular. 

As empresas de Pedro Adams costumavam participar desses eventos, e os 

prêmios recebidos atestavam a qualidade dos seus produtos. Em 1901, a Fábrica 

de Calçados Sul­Riograndense participou de uma exposição em Porto Alegre, em 

1914, em Santa Maria e, em 1916, em Caxias. Em todas elas recebeu medalha de 

ouro pela boa qualidade e acabamento de seus produtos. 

298 


A  trajetória  das  exposições  em  Novo  Hamburgo,  entretanto,  é  antiga,  pois 

em  1908  já  havia  sido  realizada  nos  salões  da  Sociedade  de  Cantores  de 

Hamburgo  Velho,  o  Frohsin,  uma  exposição  de  produtos  e  máquinas  agrícolas 

organizada pela Sociedade dos Agricultores Riograndenses. 

Quadro 2 ­ Exposições/Festejos realizados em Novo Hamburgo 

(1908­1929) 

Data 

Exposição 



Local 

1908 


Produtos e Máquinas Agrícolas 

Sociedade Frohsin 

1922 

Centenário da Independência 



Sociedade Frohsin 

1924 


Centenário da Imigração Alemã 

Pavilhão  na  Praça  20  de 

Setembro 

1929 


Homenagem a Getulio Vargas 

Pavilhão  na  Praça  20  de 

Setembro 

Fonte: PETRY, op. cit. 

298 

MONTE DOMECQ, op. cit. p. 247.




Em  1924,  foi  realizada  a  terceira  exposição  na  cidade  de  Novo  Hamburgo 

em  comemoração  ao  primeiro  centenário  da  imigração  alemã  no  Rio  Grande  do 

Sul.  Para  esse  evento,  foi  construído  um  grande  pavilhão  na  Praça  20  de 

Setembro, e o então presidente do Estado, Borges de Medeiros, compareceu para 

prestigiá­la. 

299 


Esse evento foi de fundamental importância  para a cidade, visto que ela  já 

vinha  tentando  há  vários  anos,  por  vias  políticas,  tornar­se  um  município 

independente da sua sede, São Leopoldo. 

Assim,  essa  exposição  representou  muito  mais  para  Novo  Hamburgo  do 

que  possa  parecer  à  primeira  vista.  Significou  uma  vitória  sobre  São  Leopoldo, 

que  também  tinha  pretensões  em  sediar  o  evento,  mas  acabou  tendo  de  ceder 

para seu distrito mais importante. 

Sua  importância  estratégica  também  ficou  evidente  com  o  fato  de  os 

membros  da  comissão  organizadora  (moradores  de  Novo  Hamburgo)  serem  os 

mesmos que estavam na comissão pró­emancipação da cidade. 

Pedro Adams Filho fazia parte da comissão organizadora principal, e atuou 

muito  enfaticamente  na  organização  do  evento.  Além  de  Adams,  participaram 

Jacob Kroeff Netto (deputado estadual e  industrialista), Leopoldo Petry (professor 

e  coletor  da  cidade)  e  Júlio  Kunz  (industriário,  representante  da  Sociedade 

Frohsin),  representando  o  2º.  distrito  e  João  Correia  (candidato  à  intendência), 

299 


Sobre essas comemorações ver: WEBER, Roswithia.

 As comemorações da imigração alemã no 

Rio  Grande  do  Sul

  –  O  “25  de  Julho”  em  São  Leopoldo,  1924­1949.  Novo  Hamburgo:  Editora 

Feevale, 2004.



Oscar  Stabel  (vice­intendente),  Arthur  Ebling  (advogado  e  secretário  da 

intendência), Leopoldo  Hofmann  Filho  ( Sociedade  Ginástica de  São  Leopoldo) e 

Ernesto  Rotermund (  redator  da

 Deutsche Post

). 

300 


Essa comissão era  formada, 

portanto,  por  políticos  e  empreendedores  do  comércio,  indústria  e  de  clubes 

locais. 

301 


O  que  nos  interessa,  especificamente  nesse  caso  dos  festejos,  foi  a  sua 

ligação  com  o  movimento  emancipacionista  que  já  estava  sendo  pensado  há 

algum  tempo  e  que  veremos  mais  adiante.  Contudo,  como  coloca  Weber,  não 

podemos  esquecer  que  a  maior  parte  dessa  comissão  era  composta  por 

descendentes de alemães e que aquele evento “foi um momento de manifestação 

da  identidade  de  imigrantes  alemães  e  de  seus  descendentes”,  além  de  ter 

representado  um  fortalecimento  desses  vínculos  étnicos  e  uma  trégua  das 

disputas religiosas e políticas. 

302 

Ficou determinado que a exposição industrial, que era um dos eventos dos 



festejos, aconteceria  no  2º.  distrito  ­  Novo  Hamburgo  ­  que  possuía  um  potencial 

econômico significativo e havia feito muita pressão política por parte da comissão 

que  o  representava.  Sediar  o  evento  era  visto  como  uma  grande  oportunidade 

300 


Esses  mesmos  representantes  de  Novo  Hamburgo,  Kroeff,  Adams,  Petry  e  Kunz,  já  haviam 

participado da comissão organizadora dos festejos  do  centenário da  independência do  Brasil que 

aconteceu  no ano de 1922. Adams, além de colaborar  com a organização, ainda doou medalhas 

de  ouro  para  os  vencedores  do  torneio  de  tiro  que  aconteceria  nos  clubes  hamburguenses. 

Segundo, SCHUTZ, op. cit. p.39,42. 

301 


WEBER,  op.cit.  faz,  também,  uma  análise  do  sentido  simbólico  da  festa  como  momento  da 

criação de uma memória, salientando que esses rituais não atingem todos da mesma forma e que 

não só o progresso foi  comemorado, mas,  também, o início da imigração alemã, a etnia alemã, a 

Alemanha  e  a  própria  cidade  de  São  Leopoldo  e  seus  distritos.  Diz  que  as  comissões  formadas 

para  organizarem  esse  evento  representavam  vários  segmentos  que

  “buscaram  brechas  para  a 

inclusão de seus símbolos para a defesa de interesses pessoais ou institucionais e ainda para uma 

série de outras manifestações

.” p..25 

302 


Ibidem, p.25


para mostrar a potencialidade do distrito e as condições para a sua emancipação. 

Segundo  Carlos  Dienstbach,  um  dos  membros  da  comissão  organizadora,  “a 

celebração  das  festas  do  centenário  alemão  e  a  municipalização  de  Novo 

Hamburgo eram duas idéias irmanadas.” 

303 

Para  essa  exposição,  foi  construído um  pavilhão  de  madeira,  na  Praça  20 



de  Setembro,  de  88  metros  de  comprimento  por  62  metros  de  largura,  com  um 

único acesso, um palco, banheiros, um restaurante e local para deixar animais. 

Os  230  expositores  estavam  divididos  em  duas  grandes  áreas:  indústria  e 

agricultura  e  pecuária.  Cada  área  estava  subdividida  em  seções  e,  estas,  em 

classes.  A  divisão  industrial  tinha  representantes  do  couro,  da  madeira,  da 

metalurgia, de bebidas, de álcool e de vinagre, do fumo, de produtos alimentícios 

e  de  outras  indústrias;  já  a  divisão  da  agricultura  e  da  pecuária,  em  produtos 

vegetais e animais. O regulamento da exposição organizava o setor indústria, que 

é o que nos interessa da seguinte forma: 

1ª. Divisão: Indústria 

303 

Carlos  Dienstbach  organizou  um  “livro­arquivo”,  que  se  encontra  no  Arquivo  Público  de  Novo 



Hamburgo,  com  todas  as  informações  a  respeito  da  exposição  industrial  e  da  emancipação  de 

Novo  Hamburgo.  Ele  guardou  todos  os  recortes  de  jornais  do  Estado,  em  língua  portuguesa  e 

alemã,  que  publicaram  artigos  sobre  esses  assuntos,  tirou  várias  fotos,  guardou  telegramas, 

cartas,  cartazes,  papel  timbrado  e  tudo  que  julgou  necessário  para  preservar  a  história  do 

município.  No  final  desse  livro,  ele  deixa  a  seguinte  declaração:

  Uma  vez  guardados  todos  os 

recortes  de  jornaes,  por  até  hoje  collecionados,  e  que  se  referem  a  história  da  Exposição  do 

Centenário em 1924 e a Emancipação Municipal de Novo Hamburgo em 1927 e archivados neste 

livro,  dou  por  finda  a  minha  por  mim  mesmo  demarcada  missão.  Quem  quizer  saber  mais  da 

história  de  Novo  Hamburgo,  estude­a  no  “O  5  de  Abril”,  jornal  que  ali  surgiu  depois  de  sua 

separação  de  São  Leopoldo  e  também  colecionado  e  arquivado.  Por  que  me  dei  o  trabalho  de 

colleccionar o conteúdo deste livro? – Por amor ao povo laborioso de Novo Hamburgo. Penso que 

esta  collecção  mais  tarde,  com  toda  certeza  daqui  a  100  annos,    quando  elles  festejarem  o 

segundo anniversário da immigração allemã ao Rio Grande do Sul, ou quando elles festejarem  o 

1º  Centenário  da  Emancipação    de  Novo  Hamburgo,  terá  um  certo  valor  como  material  para 

historiadores! E sendo assim: então ajudei edificar um monumento para Novo Hamburgo – e para 

mim. Carlos Dienstbach, julho 1928



1ª. Secção – industria de couro 

1ª classe: couros beneficiados 

1º grupo – couros vaccuns cortidos em cor natural. 

2º grupo – idem tingidos 

3º grupo – pelles cortidas em cor natural 

5º grupo – idem tingidas 

6º grupo – idem envernizadas. 

2ª classe: calçados etc. 

1º grupo – calçados (botas, botinas, sapatos, etc. etc. etc.) 

2º grupo – sandálias 

3º grupo – chinellos e semelhantes 

4º grupo – perneiras 

3ª classe: arreiamentos, trançaria, pellegos, etc. 

1º grupo – arreiamentos 

2º grupo – caronas, serigotes e pertences 

3º  grupo  –  sellas,  sellins  (sellas  inglezas  e  mexicanas)  e 

pertences 

4º grupo – pellegos cortidos, cochinilhos e semelhantes 

5º ­ obras de trançaria e anexos 

4ª classe: bahus, malas, bolsas, carteiras e annexos 

1º grupo – bahus, malas de viagem e annexos 

2º grupo – malas e bolsas de mão e annexos 

3º grupo – carteiras, bolsinhas e annexos 

4º grupo – cintas e cartucheiras – artigos de caça e sport [...] 

304 

A diversificação da produção industrial é um  aspecto que nos chama muito 



a atenção, pois são citados mais de 30 produtos relacionados à indústria de couro, 

além de toda uma vasta produção ligada a outros tipos de indústria. 

A  empresa  de  Pedro  Adams  Filho  também  participou  mostrando  parte  de 

seus produtos, conforme registrado na legenda da foto do evento. 

304 

Parte do regulamento da exposição (APVS)




Figura 44 ­ Estande da empresa Pedro Adams Filho e Cia. (APVS) 

Analisando  detalhadamente  essa  foto,  constatamos  que  o  estande  da 

empresa  de  Adams  apresentava  mais  de  150  modelos  de  calçados  masculinos, 

femininos  e  infantis.  Embora  os  masculinos  fossem  a  maioria,  foram  destacados 

os  sapatos  de  mulher,  provavelmente  porque  elas  formavam  o  grande  público 

consumidor.  As  modelagens  eram  ricas  e  variadas  para  a  época,  com  produtos 

em  várias  cores,  alturas  de  saltos  e  detalhes,  tanto  para  os  modelos  femininos 

como para os masculinos. 

A simplicidade do local indica que deveria ser destacado o produto e não o 

seu  entorno,  o que  não  impedia  que a  decoração privilegiasse o nacionalismo. A 

bandeira do Brasil, com o seu lema colocado em destaque, as fitas e balcões com 

as  cores  do  Rio  Grande  do  Sul,  podiam  significar  e  passar  a  idéia  de




pertencimento e de orgulho da nação brasileira, do Estado gaúcho e do progresso 

industrial. 

Tais  considerações  contrastavam  com  as  mensagens  passadas  pelo 

caráter  bilíngüe  das  informações  que  favoreciam  e  incentivavam  o  germanismo 

local. 

Alguns  cuidados  extras  foram  tomados  para  evitar  problemas,  como  a 

colocação de alguns cartazes no pavilhão da exposição. 

Figura 45 ­ Cartaz da exposição 

O  cartaz,  se  por  um  lado  surpreende  face  ao  fato  de  a  cidade  contar  com 

poucas  ocorrências  policiais,  conforme  observamos  na  seção  de  ocorrências  do 

jornal

  O  5  de  Abril



  durante  os  anos  pesquisados,  por  outro  lado,  pode  indicar  o 

grande número de pessoas que circulavam na cidade e que realizavam pequenos 

furtos.  Esses  “vigaristas”  deveriam  ser  comuns  nesses  eventos,  caso  contrário, 

não haveria a necessidade desse alerta.




Figura 46 ­ Cartaz da exposição. (APVS) 

Figura 47 ­ Cartaz da exposição. (APVS) 

Percebemos, também,  os  objetivos e  a  preocupação de cunho pedagógico 

da  exposição,  quando  a  comissão  organizadora  solicitou  que  os  expositores 

disponibilizassem  pessoas  para  explicar  aos  visitantes  o  que  estava  sendo



exposto  e,  dessa  forma,  informava  detalhadamente  à  comunidade  sobre  como 

eram feitos os produtos na cidade. 

Além  do  estande  de  Adams,  outros  também  foram  fotografados  na 

Exposição,  e  podemos  ver  que  todos  seguiam  o  mesmo  padrão  em  relação  a 

forma de expor seus produtos. 

Figura 48 ­ Estande da empresa de máquinas Copé. (APVS)




Figura 49 ­ Selas e perneiras produzidas pelo Curtume Central de propriedade de Albino Momberger (APVS

Figura 50 ­ Fábrica de bijuterias e artigos de prata e metal H.F.Kondörfer & Cia. (APVS)




Figura 51 ­ Fábrica de café e caramelos e funilaria Bertholdo Rech (APVS) 

Além dos estandes com produtos diversos, havia outras atrações que 

chamavam a atenção do público que participou do evento. 

Segundo Weber, 

As  atrações  foram  inúmeras  e  diversas:  de  uma  cuca  com  mais  de  um 

metro de diâmetro, passando por pão representando um aeroplano com o 

comprimento  de  2,80  metros  [...]  Mereceu  destaque  da  imprensa  uma 

pirâmide  (de  molduras  coloridas)  confeccionada  no  estabelecimento  de 

Pedro Alles, que foi erguida no centro do pavilhão. 

Na parte externa da exposição, foram montados, ao ar livre, um carrossel 

e um cinematógrafo público. 

305 


305 

WEBER, op. cit. p.61




Figura 52 ­ Pirâmide de molduras da empresa de molduras Alles. (APVS) 

O evento foi notícia em diversos órgãos de imprensa, não só locais, como o

 

Deutsche Post



  , mas também da capital, como

 Correio do Povo

 e

  A Federação.



 

Vários  convites  foram  enviados  para  todas  as  autoridades  estaduais  que,  na 

maioria  das  vezes,  respondiam  confirmando  suas  presenças,  mandando 

representantes  ou  justificando  sua  ausência.  Podemos  constatar  isso  no 

telegrama enviado pelo intendente Flores da Cunha a Jacob Kroeff Neto: 

Associando­me 

de 

coração 


festas 

commemorativas 

centenário 

colonisação  allemã  peço  representar  este  município  juntamente  coronel




João  Correa  ahi  e  São  Leopoldo.  Saudações  cordeaes.  Flores  Cunha 

Intendente. 

306 

A programação oficial das festas comemorativas foi amplamente divulgada, 



e  a  organização  das  mesmas  foi  impecável,  como  podemos  verificar  no  material 

impresso  que  foi  distribuído  antes  do  início  do  evento  e  definia  o  que  seria  feito 

desde as  seis  horas  da  manhã até  às 21 horas.  A  exposição aconteceu entre  os 

dias  20  de  setembro  e  5  de  outubro  e,  em  todos  esses  dias,  uma  extensa 

programação fora organizada. A  disponibilidade de hotéis e restaurantes também 

foi  divulgada,  mostrando  o  grau  de  profissionalismo  do  evento  que  buscou  evitar 

problemas e tornar o contexto o mais agradável possível para os visitantes. 

A  inauguração  da  exposição  contou  com  a  presença  do  presidente  do 

Estado,  Borges  de  Medeiros  e  várias  autoridades,  entre  secretários  de  Estado, 

arcebispo,  industrialistas  e  políticos  locais,  entre  outros.  A  esposa  de  Borges  e 

outras senhoras da capital também compareceram ao evento. 

306 


Telegrama de Flores da Cunha a Jacob Kroeff Neto. (APVS)


Figura 53 ­ No dia 23 de setembro de 1924, a esposa do presidente do Estado, sr. Antonio Augusto 

Borges de  Medeiros,  dona Carlinda,  com grande commitiva de  senhoras das rodas mais altas  de 

Porto  Alegre,  veio  visitar  a  exposição.  Foto  onde  aparece,  à  frente,  Dna.  Carlinda,  esposa  de 

Borges  de  Medeiros,  sr.  Pedro  Adams  Filho,  Frederico  Wolffenbüttel,  vice­intendente  de  São 

Leopoldo, a sra. do Dr. Jacob Kroeff Netto, presidente da diretoria da exposição, o sr. Pedro Alles, 

industrialista, o sr. Luiz Moog, colletor estadual em São Leopoldo. 

307 

Dentre  as  empresas  premiadas  na  exposição  estava  a  de  Pedro  Adams 



Filho,  que  ganhou  a  medalha  de  ouro,  o  prêmio  máximo,  juntamente  com  outros 

empresários de outros ramos. Pela quantidade de prêmios distribuídos, vimos que 

a  exposição  teve  um  grande  número  de  participantes,  por  volta  de  230,  segundo 

registros. 

Conforme  o  livro  de  atas  da  exposição,  das  vinte  e  três  empresas  que 

receberam  o  “grande  prêmio”,  dezesseis  eram  de  Novo  Hamburgo,  sendo  que 

quatro  estavam  ligadas  ao  setor  coureiro  (Arthur  Haas  e  Cia.,Albino  Momberger, 

Pedro  Adams  Filho  e  Cia.  e  Schneider  e  Zwetsch).  As  demais  empresas 

307 

Legenda da foto escrita por Carlos Dienstbach (APVS)




agraciadas  eram  de  propriedade  de  teuto­brasileiros,  fato  que,  de  certa  forma, 

reforça  a  idéia  sobre  o  empreendedorismo  dos  teuto­gaúchos  na  industrialização 

da cidade. 

As  empresas que  não eram agraciadas com medalhas,  recebiam  diplomas 

de  participação,  e  o  público  poderia  adquirir  lembranças  da  exposição,  como 

medalhas comemorativas, como vemos a seguir. 

Figura 54 ­ Diploma Grande Prêmio. (APVS) 

O  diploma  enfatizava  a  questão  do  trabalho,  como  podemos ver  nas  duas 

imagens superiores, uma de um trabalhador  no campo e outra de um trabalhador 

numa  empresa,  onde  aparecem  máquinas  e  outras  ferramentas.  O  brasão  do




Brasil,  o  do  Rio  Grande  do  Sul  e  o  da  Alemanha,  podem  significar  a  idéia  do 

entrelaçamento e/ou harmonia entre as nações. 

Figura 55 ­ Cartaz da exposição. (APVS) 

A  venda  de  lembranças  pode  significar  o  interesse  dos  organizadores  da 

exposição em manter esse evento na memória da comunidade, dessa forma, uma 

medalha comemorativa é um objeto que poderia permanecer por muito tempo em 

posse  de  seu  comprador  e,  portanto,  manteria  viva  a  idéia  da  pujança  e  do 

progresso do município.




Figura 56 ­ Lembrança da exposição (frente e verso) (APVS) 

A  legenda  laudatória  da  lembrança  deixa  claro  o  apoio  do  ”benemérito” 

Presidente  do  Estado,  Borges  de  Medeiros,  ao  evento  realizado,  quando  diz  que 

ele “prestou eficaz auxílio moral e financeiro nos festejos”, e sua ligação ao grupo 

organizador da exposição.



A  necessidade  de  mostrar  o  desenvolvimento  econômico  e  a  pujança  do 

almejado  distrito,  fica  bastante  evidente  quando  observamos  as  seguintes  fotos 

que  apresentam  grandes  pavilhões,  automóveis,  pessoas  bem  trajadas, 

bandeiras: 

Figura 57 ­ Foto do pavilhão da Exposição Municipal. (APVS) 

Figura 58 ­ Foto do pavilhão da exposição. (APVS)




Essas  fotos  foram  encontradas  no  livro­ata  sobre  o  evento,  e  tinham  a 

seguinte legenda: “No dia do encerramento da exposição, dia 5 de outubro. No fim 

da  festa.  Tinha  havido  corso  e  batalha  de  flores  e  confetti.  Já  se  tinha  retirado  a 

maioria  do  povo,  quando  o  photographo  pediu  que  alguns  dos  automóveis  que 

tinham tomado parte, entrassem no recinto para tirar a photographia delles.[...]” 

Constatamos que, embora presentes em várias matérias sobre a história de 

Novo  Hamburgo,  essas  fotos  foram  pouco  aproveitadas.  Sugerimos  sua  análise 

como  uma  montagem  de  cenário  que  vinha  ao  encontro  dos  interesses  dos 

organizadores  da  festa,  pois  os  carros  representavam  um  símbolo  de 

modernidade e a pujança do município. 

O  encerramento  do  evento  aconteceu  em  grande  estilo,  com  convites 

distribuídos  pela  cidade, conclamando  o  povo  a  participar  para  abrilhantar  o  final 

de tão importante evento para a cidade, principalmente, os “senhores proprietários 

de autos e carros para a batalha de flores [...] “, como podemos ver a seguir:




Figura 59 ­ Convite para as festas comemorativas do centenário da imigração alemã. (APVS) 

A  participação  da  cidade  em  exposições  industriais  continuou  em  outros 

anos,  pois  em  1928  a  cidade  de  Novo  Hamburgo  foi  convidada  a  fazer  parte  de 

um pavilhão  exclusivo  da

 Grande Exposição­Feira Commercial, Industrial e Agro­ 

Pecuaria


  que  se  realizaria  em  Porto  Alegre.  A  imprensa  da  época  apoiou 

incisivamente  a  participação,  pois  achava  que  a  cidade  tinha  de  mostrar  seu 

potencial, já que havia se tornado município  há pouco tempo, e precisava afirmar 

sua importância econômica.




[...]  Positivamente,  Novo  Hamburgo  é  dos  municípios  do  Estado,  o  de 

maior  densidade  comercial  e  industrial,  e,  embora  ser  o  menor,  está 

colocado  em  5º.  lugar,  pelo  que  nos  ensina  a  estatística,  quanto  á 

exportação. 

Infelizmente, devido  a falta de publicidade, este  fato é desconhecido  em 

grande parte do Brasil e mesmo do nosso Estado. 

Magnífica  é,  pois,  a  oportunidade  que  ora  se  apresenta,  para 

evidenciarmos nosso adiantamento e a nossa produtibilidade. 

É  pois,  de  esperar  que  todos  os  nossos  industriais,  de  todos  os  ramos, 

participem daquele grande certame. 

Além  de  facilitarem  a  realização  de  vantajosos  e  avultados  negócios, 

virão  contribuir  para  o  engrandecimento  do  nosso  município,  fazendo­o 

conhecido e falado em todo o país. 

308 


Um  ano  depois,  em  1929,  foi  realizada  uma  exposição  na  cidade,  em 

homenagem a Getúlio Vargas. 

A exposição de 1929, portanto, foi a quarta. Para a sua realização também 

foi  construído  um  pavilhão  na  Praça  14  de  Julho,  e  contou  com  a  presença  de 

Getúlio Vargas e de Osvaldo Aranha, Secretário do Interior. 

Essa exposição, mais uma vez, foi fundamental para mostrar a pujança do 

município  e,  para  isso,  foi  organizada  uma  comissão,  formada  pelos  mais 

importantes  empresários  da  cidade,  que  deveriam  incentivar  a  participação  do 

maior número de industrialistas possível. 

Pedro  Adams  Filho,  mais  uma  vez,  fez  parte  dessa  comissão,  que  foi 

dividida em três grupos para agilizar os trabalhos: recepção, ordem e policiamento 

e ornamentação. 

309 

308 


Jornal

 O 5 de Abril

, 10/08/1928 

309 


Faziam  parte  da  comissão  de  recepção:  Leopoldo  Petry  (intendente  municipal),  Guilherme 

Ludwig (vice­intendente), Eduino Brodbeck (presidente do Conselho), André Kilpp (coletor federal),




Segundo o jornal

 O 5 de Abril

, a acolhida que teve a comissão foi a melhor 

possível,  pois  “[...]  todos  compreenderam  que  essa  exposição,  além  de  ser  uma 

magnífica  homenagem  prestada  ao  Presidente  do  Estado,  traria  reaes  proveitos 

para a indústria local [...]” 

310 

O pavilhão foi construído pela empresa Breidenbach, Mosmann & Cia., pelo 



valor de 15$000, e o valor dos ingressos foi fixado em 1$000 para adultos e $500 

para  crianças,  sendo  que  as  escolas  eram  isentas  de  pagamento  no  dia  da 

inauguração.  Junto  ao  pavilhão  foi  construído  um  palco  onde  teriam 

apresentações artísticas, projeções de filmes, etc. 

Esse evento, portanto,  além de ser  importante como mostra  industrial,  era, 

também, uma grande festa popular que tinha diversão para o público de todas as 

idades. 

Essa exposição foi amplamente divulgada pela  imprensa local e da capital, 

que  exaltava  a  qualidade  da  indústria  local  e  a  sua  capacidade  de  concorrer, 

inclusive, com produtos importados. 

311 

O  jornal



  A  Federação 

312


 

de  Porto  Alegre,  órgão  oficial  do  PRR,  assim  se 

referiu a ela: 

Augusto  Wolf  (coletor  estadual),  Eduardo  Santos  Maya  (juiz  distrital),  Marcolino  dos  Santos 

Pacheco  (Delegado de  polícia),  Pedro  Adams  Filho,  José J.  Martins,  Arthur  Haas,  Carlos  Berner, 

Samuel Dietschi, Julio Kunz e Ewaldo Koch. 

310 

Jornal


 O 5 de Abril

, 13/09/1929 

311 

Jornal


 Correio do Povo

, 11/10/1929 

312 

Segundo  SPALDING,  Walter.



  Os  construtores  do  Rio  Grande

.  Porto  Alegre:  Sulina,  1969.O 

jornal

 A Federação



 foi fundado em 1884 com o objetivo de propagandear as idéias republicanas e 

defender o Partido Republicano Rio­Grandense, o PRR.




A  exposição  industrial  de  Novo  Hamburgo  representa  um  motivo  de 

justificado orgulho para o Rio Grande do Sul. 

A variedade da produção e o grande aperfeiçoamento alcançado revelam 

a  brilhante  situação  da  cultura  industrial  que  tanto  enobrece  o  próspero 

município.  Há  cerca  de  cinco  anos  visitamos  ali  mesmo  uma  outra 

exposição,  a  que  concorreram  muitos  dos  mesmos  expositores  que  lá 

vimos agora, junto a outros novos. 

Alguns  estabelecimentos  que  trabalhavam  em  pequena  escala,  com 

poucos  operários,  apresentam­se  no  momento  já  como  fortes 

industrialistas,  oferecendo  o  belo  espetáculo  da  atividade  vitoriosa  e 

compensadora.  As magníficas impressões recebidas pelo  Sr.  Presidente 

do  Estado  encontram  ampla  justificativa  no  fecundo  labor,  de  tão  úteis 

conseqüências, e que está fomentando por forma tão sugestiva a riqueza 

do município e do Estado. 

Disse­o  S.  Excia.  com  a  maior  clareza,  em  palavras  que  servirão  de 

poderoso estímulo para os nossos operosos patrícios. [...] 

313 

O jornal


 Diário de Notícias

, também da capital, publicou um artigo louvando 

o  povo  trabalhador  da  pequena  cidade  de  65  km²  “exemplo  admirável  na 

actividade  industrial  do  Rio  Grande”,  cidade  que  deveria  ser  aplaudida  pelo  seu 

“labor incessante” e “espírito de iniciativa”. 

314 


Diz ainda: 

Não  exageramos  se afirmarmos que  a  vida  do  homem  de  trabalho  ali  é 

de uma vibração tão intensa e vale por uma manifestação de vontade tão 

notável,  que bem podia  servir  de modelo  aos  surtos de  todas as nossas 

atividades. Ninguém diz que aquele povoado que há pouco se fez vila e 

se constituiu  em município,  é  hoje uma colméia onde  todos  trabalham e 

lutam. Não há casa que não seja uma oficina: não há oficina que dentro 

em  pouco  não  esteja  transformada  numa  verdadeira  fabrica.  Todas  as 

principais indústrias riograndenses estão ali dignamente representadas. A 

próxima  exposição  municipal  que  Novo  Hamburgo  vai  promover  em 

honra  do  presidente  do  Estado  será,  indiscutivelmente,  o  melhor  índice 

dos inúmeros fatores que colocam aquele núcleo obreiro em situação tão 

invejável perante as demais comunas do Rio Grande. 

315 


Esse  artigo  revela  a  forma  como  foi  criado  o  mito  do  povo  laborioso,  do 

trabalhador incansável de Novo Hamburgo, do seu rumoroso progresso através de 

313 

Jornal


 A Federação

 apud PETRY, 1944. p.108 

314 

Jornal


 Diário de Notícias

, apud, Jornal O

 5 de Abril

, 13/09/1929 

315 

Ibidem



sua  indústria  que  foi  disseminado  com  muito  afinco  pelos  grupos  dominantes 

locais e regionais e teve boa repercussão no imaginário da coletividade. 

O  evento  contou,  segundo  relato  de  seus  organizadores  no  jornal

  O  5  de 

Abril

  de  25  de  outubro  de  1929,  com  150  expositores  e  com  a  visita  de  25.000 



pessoas,  muitas  vindas  de  trem  de  outras  cidades.  A  exposição  mostrou  toda  a 

produção  do  município,  como  tintas,  ceras  para  calçados,  bolsas,  chapéus, 

couros,  calçados,  artefatos  de  madeira,  arreios,  peças  e  máquinas  para  móveis, 

cartonagem,  molduras, charutos, balas, torrefação  de café,  bebidas, instrumentos 

musicais, etc. 

Dentre  os  expositores  estava  a  firma  de  Pedro  Adams  Filho  &  Cia.,  que, 

segundo  o  jornal

 O 5 de Abril

,  foi  uma  das  que se  destacou  pela  abundância  de 

mostruários  e  excelência  dos  produtos.  Essa  empresa  teria  apresentado 

“verdadeiras maravilhas em manufatura de calçados”. 

316 


316 

Jornal


 O 5 de Abril

, 25/10/1929




Figura 60 ­ Diploma para expositores. (APVS) 

O  diploma  dado  aos  expositores  nesse  evento  que  homenageou  Getulio 

Vargas  também  é  bastante  laudatório.  Abaixo  da  foto  do  Presidente,  envolto  nas 

bandeiras do Brasil e Rio Grande do Sul, está a legenda “para glória do Brasil”, ou 

seja,  ele  representava  a  salvação  e  a  glória  nacional.  Ao  mesmo  tempo,  sua 

ligação  com  a  cidade  era  concretizada  com  dois  monumentos  importantes,  o 

Monumento do Imigrante e o chafariz da Praça 14 de Julho. 

Se  a exposição  de  1929 obteve  êxito, o  mesmo não pode ser  dito sobre a 

participação  das empresas  da  cidade  na

 Exposição Agrícola, Pastoril e  Industrial 

do Estado do Rio Grande do Sul

, que aconteceria no ano de 1931.




O  jornal  local  contou  as  dificuldades  encontradas  pela  comissão  formada 

por  industriais  para  tratarem  da  representação  da  indústria  de  Novo  Hamburgo 

naquele evento, pois  o momento era crítico, não só  para  a  economia local,  como 

também  para  a  estadual  e  a  federal.  Segundo  o  jornal,  a  comissão  chegou  à 

conclusão  de  que  apenas  com  um  auxílio  financeiro  do  município  algumas 

empresas  poderiam  expor  seus  produtos.  Aproximadamente  40  empresas  foram 

procuradas, e apenas sete dispuseram­se a participar da Exposição, dentre elas a 

firma Pedro Adams Filho & Cia., que estava disposta a alugar 20 m², desde que o 

aluguel não fosse superior a 25$000. 

As  exposições  industriais,  portanto,  foram  importantes  não  só  para  fins 

econômicos,  mas  também  para  fins  políticos,  pois  representavam  uma 

oportunidade  para  realizar  uma  aproximação  com  a  comunidade.  Para 

empreendedores  como  Pedro  Adams  Filho,  a  aliança  entre  a  indústria  e  a 

comunidade era feita através de ações políticas, o que ficou claro e explicou todo 

o  seu  empenho  para  que  tais  eventos  ocorressem  e  tivessem  a  participação 

popular. 

Margaret  Bakos 

317 


,  analisando  as  exposições  ocorridas  em  Porto  Alegre 

nos  anos  1920  e  1930,  afirma  que  os  governantes,  para  manterem  sua 

hegemonia,  julgavam  importante  “empresariar  exposições  grandiosas  para 

mostrar e incentivar, com prêmios pecuniários e honrarias, a produção industrial e 

agropecuária no Estado e Município.” 

317 


BAKOS, op. cit. p. 27


Acreditamos  que  em  Novo  Hamburgo  essa  mesma  idéia  perpassou  os 

projetos  de  governantes  e  de  empresários  locais  que  viam  nessas  exposições 

uma  forma  de  se  perpetuarem  no  poder  mostrando  as  potencialidades  do 

município. Ao mesmo tempo, ainda conforme exemplo de Bakos, pode­se fazer a 

conjetura  de  que  os  organizadores  desejavam  tornar  Novo  Hamburgo  a

 “sala  de 

visitas”

 do Vale do Sinos, título que Porto Alegre recebeu em nível estadual. 

318 

Nesse  sentido,  cogita­se  que  Pedro  Adams  Filho  foi,  de  um  lado,  um 



entusiasta promotor das exposições por elas mostrarem a força do setor industrial 

de Novo Hamburgo e, de outro, pelo seu desejo de ampliar as bases comerciais e 

de  representação  política  da  cidade,  o  que  operava  com  sua  condição  de 

empresário e de líder comunitário. 

2.4 – As relações de trabalho 

As  relações  de  trabalho  em  Novo  Hamburgo  sofreram  as  condições 

estabelecidas  por  um  contexto  nacional  e  estadual  que  são  de  fundamental 

importância para a sua compreensão. 

As condições de trabalho dos operários no início do século eram precárias. 

Não  havia  direitos  trabalhistas  como  férias  remuneradas,  indenizações,  licenças 

médicas,  pagamento  de  horas  extras,  aposentadoria.  As  jornadas  de  trabalho 

eram de 16 horas diárias, a semana de trabalho era de seis ou sete dias. 

318 

Ibidem, p. 15 e 185.




As primeiras medidas tomadas pelos trabalhadores, ainda no final do século 

XIX  para  reverterem  essa  situação,  foram  a  organização  de  associações  de 

socorro mútuo, em que cada trabalhador contribuía com uma porcentagem de seu 

salário para formar uma reserva que seria utilizada quando fosse necessário. 

Segundo  Petersen,  quase  ao  mesmo  tempo,  os  operários  começaram  a 

organizar­se  em  sociedades  de  resistência,  “embriões  dos  sindicatos”,  com  o 

objetivo  de  enfrentar  essa  situação  de  exploração  e  as  péssimas  condições  de 

trabalho. Nesse período, as idéias socialistas e anarquistas européias já estavam 

influenciando  o  movimento  operário  gaúcho  e  “tais  idéias  ressignificadas  no 

contexto gaúcho, foram os grandes princípios orientadores, embora não os únicos, 

do movimento operário local.” 

319 


Essa  organização  dos  operários  culminou  com  a  realização  da  primeira 

grande greve geral de Porto Alegre ocorrida em 1906. Segundo Petersen, 

Essa  greve  foi  a  maior  manifestação  pública  do  operariado  até  então 

ocorrida no Rio  Grande do Sul, marcando a  visibilidade da classe diante 

do  patronato,  dos  poderes  públicos  e  da  sociedade  em  geral,  em  uma 

cidade  onde  avançavam  a  industrialização  e  as  relações  capitalistas  de 

produção. 

320 


A  mesma  autora  ainda  lembra  que  o  Estado  “relegava  as  relações  de 

trabalho  ao  âmbito  privado  e  seu  controle  à  polícia”,  daí  a  inexistência  de  uma 

legislação  social  que  regulamentasse  as  relações  de  trabalho,  situação  que 

assumia um “contorno mais nítido” no Rio Grande do Sul em função da influência 

319 

PETERSEN,  Silva  R.F.  &  SCHMIDT,  Benito  B.  O  movimento  operário  no  Rio  Grande  do  Sul: 



militantes, instituições e lutas (das origens a 1920). In: GRIJÓ, Luiz Alberto et alii (org)

 Capítulos de 

História do Rio Grande do Sul.

 Porto Alegre: UFRGS Editora, 2004. p. 210,211. 

320 

Ibidem, p. 215




do  positivismo  nos  governos  de  Júlio  de  Castilhos  e  Borges  de  Medeiros  que 

orientou as relações estado­economia­trabalho. 

321 

Os  efeitos  da  Primeira  Guerra  Mundial  vão  agravar  as  condições 



econômicas  do  país  aumentando  o  custo  de  vida  e  o  desemprego  levando  o 

Estado a um novo processo de agitação e greves. 

[...]  os  anos  1917  a  1919  constituíram  a  culminância  da  mobilização 

operária  na  Primeira  República.  Se  quisermos  caracterizar  o  padrão 

organizativo  dessa  etapa,  observamos  que  as  sociedades  operárias  – 

ligas,  uniões,  sindicatos  –  quaisquer  que  fossem  suas  tendências 

ideológicas,  eram  iniciativas  constantes,  embora  de  pequeno  alcance  e 

duração.  A  elas  se  deve,  até  a  Revolução  de  30,  uma  vida  associativa 

autônoma  e  combativa  que  realizou numerosas  greves,  fundou  escolas, 

publicou jornais e denunciou as diferentes formas de exploração a que os 

operários eram submetidos. 

322 


A  revolução  de  1930  e  a  criação  da  legislação  trabalhista  quatro  anos 

depois  representaram  uma  mudança  de  rumos  nas  relações  de  trabalho  a  nível 

nacional e estadual. 

Durante  o  primeiro  governo  Vargas  (1930/1934)  foram  promulgadas várias 

leis  que  regulamentaram  o  trabalho  no  País,  tanto  relacionadas  às  condições  de 

trabalho,  como às férias, ao repouso semanal remunerado, à jornada de trabalho 

de  oito  horas  semanais,  à  regulamentação  do  trabalho  da  mulher  e  do  menor,  à 

obrigatoriedade  da  carteira  de  trabalho,  à  isonomia  salarial,  ao  salário  mínimo,  à 

indenização  por  demissão  sem  justa  causa,  quanto  em  compensações  sociais, 

321 


PETERSEN,  Sílvia  R.F.  As  greves  no  Rio  Grande  do  Sul  (1890­1919).  In:  DACANAL,  José 

Hildebrando & GONZAGA, Sergius (Orgs.)

 RS: Economia e Política

. Porto Alegre: Mercado Aberto, 

1979. p. 27 

322 


PETERSEN, Silva R.F. & SCHMIDT, Benito B. O movimento operário no Rio Grande do Sul: 

militantes, instituições e lutas (das origens a 1920). In: GRIJÓ, Luiz Alberto et alii (org)

 Capítulos de 

História do Rio Grande do Sul.

 Porto Alegre: UFRGS Editora, 2004. p. 210,211.



como  direito  aposentadorias  e  pensões.  Além  disso,  foram  criados  mecanismos 

institucionais para enfrentar  os conflitos de trabalho,  como  as comissões e juntas 

de conciliação e as convenções coletivas de trabalho. 

Segundo Gomes, 

Trata­se  de  um  período  chave,  no  qual  o  Estado  assumiu  a  primazia 

incontestável  do  processo  de  elaboração  da  legislação  social,  tentando 

através  dela  desenvolver  uma  série  de  contatos  com  “empregados”  e 

“empregadores”.  Seu  objetivo  era  ajustar  os  interesses  em  confronto, 

fazendo­os participar da dinâmica do ministério. 

323 


Mais uma vez, o jornal

 O 5 de Abril

 vai nos auxiliar na compreensão dessas 

questões no que tange à história de Novo Hamburgo. 

Considerando operários/trabalhadores como uma categoria a ser analisada, 

percebemos  que  o  jornal  pouco  faz  referência  a  ela.  Se  fizéssemos  uma  média 

das  vezes  que  essa  categoria  aparece  no  jornal,  poderíamos  dizer  que  era  uma 

vez por mês, no máximo. Na maioria das vezes, esses trabalhadores são citados 

quando os imigrantes alemães e seus descendentes são homenageados como os 

responsáveis  pelo  progresso  da  região.  Na  ótica  da  criação  mitológica,  os 

trabalhadores  alemães  eram  “concentrados  no  trabalho”,  possuíam  ”espírito 

ordeiro”  e  deixaram  seus  “continuadores”.  Na  ocasião  da  visita  de  Flores  da 

Cunha  à  cidade,  o  5  de  Abril  confirma  essa idéia  dizendo  que  o  município  muito 

contribuiu  para  a  economia  do  Estado  “embora  a  maioria  da  população  seja 

descendente  de  uma  raça  estrangeira  que  demonstrou  amor  ao  Rio  Grande  em 

323 


GOMES, Ângela de Castro.

 A Invenção do Trabalhismo

. Rio de Janeiro: Vértice/IUPERJ, 1988. 

p.177



nada inferior aos genuínos riograndenses [...]”, fala também das “belas qualidades 

de trabalho das famílias alemãs e dos seus descendentes [...]” 

324 

O  enaltecimento  do  trabalhador  alemão,  seu  espírito  ordeiro  e  obediente 



era um dos elementos destacados pelos governantes. Segundo Weber, o discurso 

de Borges de Medeiros na exposição de 1924 em Novo Hamburgo deixa isso bem 

claro, quando ele elogia os descendentes de alemães por cultivarem a comunhão 

de interesses, de sentimentos e de opiniões. 

325 

Não  podemos  esquecer  que  para  o  governo  era  estratégico  considerar  o 



alemão  ordeiro  e  pacífico,  pois,  caso  contrário,  ele  poderia  representar  uma 

ameaça à ordem reinante. 

Essa  questão  germanidade

  versus


  nacionalismo  perpassou  muitos  dos 

discursos oficiais  do  período.  Havia  a necessidade e o  interesse de se criar uma 

identidade nacional, mas os laços que uniam os descendentes de alemães à sua 

antiga pátria eram muito fortes e tinham que ser habilmente tratados. 

[...] os divulgadores da germanidade defendiam, no todo ou parcialmente, 

a preservação do  idioma, das  instituições,  dos costumes e tradições. No 

processo de demarcação étnica, pesavam, portanto, indicadores culturais 

como  idioma  e  descendência  comum.  Essa  última  integrou  o  ideário  de 

superioridade  racial  acionado  também  para  estereotipar  o  imigrante 

alemão como trabalhador. 

326 

Não  temos  dados  para  precisar  o  número  de  trabalhadores  descendentes 



de  alemães  nas  indústrias  de  Novo  Hamburgo,  mas,  seguramente,  um  grande 

324 


Jornal

 O 5 de Abril

, 03/05/1935 

325 


WEBER, Roswithia op. cit. p. 68. 

326 


Ibidem, p.48


número de trabalhadores não tinha vinculação com essa nacionalidade e, por isso, 

foi sistematicamente ignorado pelo jornal. 

327 

O  operariado  em  geral  só  era  citado  pelo  jornal  quando  era  noticiada 



alguma  visita  de  governador  ou  presidente  e  dever­se­ia  detalhar  o  público 

presente, ou era mencionado algum evento específico para os trabalhadores como 

uma sessão da Ação Integralista Brasileira, por exemplo: 

[...] realizou­se no domingo último uma sessão de difusão e propaganda 

do  Integralismo,  analisando  a  questão  social  dentro  do  mesmo, 

combatendo  com  vasta  argumentação  o  absurdo  do  comunismo  e  os 

erros  da  liberal­democracia,  para  demonstrar  as  vantagens  do 

Integralismo para o operariado em geral. [...] 

328 

A  criação  do  Círculo  Operário  em  Novo  Hamburgo,  em  1935,  foi  um 



momento  importante  para  a  organização  dos  trabalhadores  da  cidade,  embora 

poucas vezes o jornal

 O 5 de Abril

 tenha se referido a ele. 

329 

O  Círculo  Operário  fazia  parte  de  um  projeto  sócio­político  da  Igreja 



Católica no Brasil e era, portanto, uma entidade patrocinada por ela. Desde o seu 

327 


Essa  idéia  da  superioridade  do  trabalhador  de  origem  alemã  é  tão  forte  que  até  hoje  se 

mantém.  Segundo  Schneider,  que  analisa  a  mercado  de  trabalho  do  setor,  [...]

  o  elemento 

diferenciador do operário antigo em relação aos demais estratos sociais do mercado de trabalho, e 

que  marca  sua  trajetória  como  assalariado,  é  o  conteúdo  étnico  que  esses  operários  fazem 

questão de ressaltar. Essa etnicidade refere­se às formas específicas de incorporação da disciplina 

na execução das tarefas produtivas e à observância a valores e normas características da cultura 

germânica. Essa situação é facilmente perceptível entre os trabalhadores do setor calçadista, pois 

um operário de origem alemã sempre se considera ‘mais’ trabalhador do que o outro (em geral o 

migrante,  vindo  ‘de  fora’)  mediante a auto­afirmação  de  suas  relações pessoais, subjetivas  e  de 

cunho étnico com os patrões.

 SCHNEIDER,  Sérgio. O  Mercado de trabalho da indústria  coureiro­ 

calçadista do Rio  Grande do  Sul: formação histórica e desenvolvimento.  In:

 A indústria calçadista 

no Rio Grande do Sul

. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2004. p.39 

328 

Jornal


 O 5 de Abril

, 03/05/1935 

329 

O  Círculo  Operário  foi  criado  no  mesmo  ano  da  morte  de  Pedro  Adams  Filho,  entretanto, 



achamos  importante  abordá­lo  nessa  tese,  pois,  mesmo enfermo,  Adams continuou,  até  o dia  de 

sua  morte  participando  e  sendo  informado  de  tudo  o  que  acontecia  na  sua  empresa,  segundo 

relato de seus familiares.



início, teve estreita ligação com os empresários que colaboravam financeiramente 

com  o  movimento,  pois  era  muito  melhor  uma  entidade  representativa  dos 

trabalhadores estar sob a tutela do empresariado e da Igreja do que dos sindicatos 

mais combativos. 

Lembramos que nos  anos 1910,  os  sindicatos estavam  se  organizando  de 

forma  mais  efetiva  e  estavam  sob  orientação  do  anarco­sindicalismo,  que  era 

muito  mais  combativo  e  independente.  Daí  surge  a  estratégia  de  recuperação 

católica que estava assentada no tripé: 

[...]  combate  ostensivo  ao  materialismo,  através  do  púlpito  e  da  “boa 

imprensa”;  organização  de  associações  de  senhoras,  de  estudantes,  de 

moços,  Ação  católica,  Liga  Eleitoral  Católica,  onde  se  formavam  líderes 

imbuídos  do  espírito  cristão”;  e,  finalmente,  aproximar­se  do  operariado 

pela organização dos Círculos Operários. 

330 


É nesse contexto que foi criado o Círculo Operário em Novo Hamburgo, em 

1º.  de  maio,  com  a  presença  do  Padre  Leopoldo  Brentano, que  foi  o  iniciador do 

movimento  circulista  no  Brasil,  tendo  fundado  o  primeiro  Círculo  na  cidade  de 

Pelotas, em 1932. 

O  Círculo  de  Novo  Hamburgo  ocupou  as  dependências  do  Sindicato  dos 

Sapateiros e reuniu trabalhadores de todas as categorias. A sua primeira diretoria 

foi  composta  por  Eugenio  Afonso  Schwan  e  Vicente  Kieling,  ambos  do  sindicato 

dos marceneiros, e Augusto Edmundo Lichtler, representante dos sapateiros. 

331 

330 


DIEHL,  Astor  Antônio.

  Círculos  Operários  no  Rio  Grande  do  Sul

.  Porto  Alegre:  EDIPUCRS, 

1990. p.26 

331 

SAUL, Marcos Vinicios de Almeida.



 Classe Operária e Sindicalismo no Rio Grande do Sul

 (Novo 


Hamburgo: 1945­1964). Santo Ângelo: FUNDAMES, 1988. p.29


Astor  Diehl 

332 


faz  uma  pesquisa  bastante  aprofundada  sobre  esse 

movimento  no  Rio  Grande  do  Sul,  e  mostra  que  o  Círculo  era  uma  resposta  da 

Igreja  Católica  ao  liberalismo  e  ao  marxismo, 

333 


que  eram  considerados  os 

responsáveis  pelo  afastamento  do  homem  e  da  sociedade  dos  ideais  religiosos. 

Esse  projeto  da  Igreja  oferecia  uma  possibilidade  à  sociedade  brasileira  de  viver 

em  harmonia,  sem  conflitos  sociais  e,  ao  mesmo  tempo,  ocupava  um  espaço 

político  do  Estado,  já  que,  até  esse  momento,  era  ele  que  monopolizava  os 

sindicatos. 

334 

Segundo  Diehl,  “o  liberalismo  abre  um  flanco  para  a  atuação  das 



associações  orientadas  pela  Igreja,  como  projeto  cristianizador  do  capitalismo, 

organizadas  dentro  da  mística  paternalista, sob  o imperativo  ético,  moralizando­o 

a partir da prática do assistencialismo e do mutualismo.” 

335 


O  autor  ainda  afirma  que,  nem  a  orientação  positivista  do  governo  do  Rio 

Grande do Sul, que tinha um projeto de participação das classes subalternas nas 

332 

DIEHL, op.cit. 



333

 

A  “questão  social”,  no  final  do  século  XIX,  na  visão  da  Igreja,  mostrou  as  falhas  ao  mesmo 



tempo da MORAL e da COMPETÊNCIA do Estado na resolução do problema da relação capital­ 

trabalho. O Estado liberal deixara, assim, a sociedade abandonada a si mesma na resolução deste 

problema  e  em  conseqüência  tornou  incapaz  de  organizar­se  e  apresentar  soluções,  permitindo 

que a miséria ameaçasse a própria sociedade liberal.

 Ibidem, p.16 

334


 

Interpretar a  posição  da  Igreja  nos  anos  20  e  30 significa  fazer  uma  avaliação do  seu  papel 

nesse momento histórico. Esta interpretação requer a verificação dos espaços político­ideológicos 

ainda não ocupados pelo Estado. Pois, com  o advento da república, a Igreja perdera  a estrutura 

administrativa  do  Estado,  fato  que  se  agravou  com  a  falta  de  clérigos,  que  de  certa  forma  foi 

suprida pela atuação  do  laicato e da  Ação  Católica.  Portanto,  até  esse momento,  duas  posições 

ficam  evidentes:  um  projeto  de  formação  de  uma  elite  intelectual  para  a  “reconquista”  da 

hegemonia  no  pensamento  e  nos  diversos  setores  da  sociedade  brasileira;  um  projeto  sócio­ 

político  junto  à  massa operária, como forma de legitimar a  Igreja numa posição histórica

.  Ibidem, 

p.37 

335 


Ibidem, p.19


decisões  político­sociais,  conseguiu  deter  a  atuação  da  Igreja.  O  que  pode  ser 

visto pela rede de escolas católicas que atingiu todo o Estado. 

336 

Provavelmente,  Pedro  Adams  Filho  apoiou  a  criação  da  entidade,  porque 



achava  esta  uma  alternativa  melhor  do  que  o  sindicato  para  os  trabalhadores  da 

sua  empresa,  pois  o  Círculo  representava  o  controle  dos  operários,  enquanto  o 

sindicato poderia ser muito mais combativo e perigoso para os seus interesses. 

Além  dele,  o  Círculo  contou  com  a  colaboração  financeira  de  outras 

empresas e particulares. 

O jornal


 O 5 de Abril

 diz o seguinte a esse respeito: 

É  admirável  o  entusiasmo  e  a  atividade  reinantes  no  núcleo  local  do 

Círculo  Operário.  Mas,  deve­se  admirar  ainda  mais,  o  apreço  e  o  bom 

acolhimento que gozam os sócios circulistas nesta florescente vila. 

A lista áurea que segue é a prova eloqüente do que afirmamos. [...] 

337 

336 


Ibidem, p.24 

337 


Jornal

 O 5 de Abril

, 19/07/1935



Tabela 2 – Empresas contribuintes para o Círculo Operário 

Contribuinte 

Ramo de atividade 

Valor 


P.Alles & Cia. 

Fábrica de molduras 

20$000 mensais 

Pedro Adams Fo. & Cia. 

Fábrica de calçados 

20$000 mensais 

Breidenbah,Mosmann& Cia. 

Construção civil 

20$000 mensais 

N. Lichter & Cia. 

Curtume 

10$000 mensais 

Leopoldo Petry 

Particular 

10$000 mensais 

José J. Martins 

Particular 

20$000 mensais 

Fonte:Jornal

 O 5 de Abril

, 19/07/1935 

Podemos  ver  que  a  fábrica  de  Adams  foi  uma  das  empresas  que  mais 

colaborou para essa entidade, fato muito significativo, pois o Círculo Operário era 

uma  entidade  muito  mais  assistencialista  que  combativa,  procurava  cooptar  o 

operário  mais  pelos  seus  benefícios  materiais  do  que  por  sua  luta  em  prol  de 

melhores condições de trabalho  e  salários.  A assistência social e a luta contra a

 

“subversão da ordem”



 eram os princípios norteadores do movimento. 

Segundo Diehl, o Círculo Operário se baseava nos seguintes princípios: 

a)  a  doutrina  moral  de  Cristo,  código  inigualável  de  justiça,  respeito 

mútuo, amor e harmonia; 

b)  a  orientação  sociológica  contida  nas  encíclicas  Rerum  Novarum,  de 

Leão XIII, Quadragésimo Anno e Divini Redemptoris, de Pio XI; 

c) repúdio à luta sistemática e violenta de classes; 

d)  a  fórmula  de  Toniolo:  “O  Trabalho  cada  vez  mais  dominante,  a 

natureza  cada  vez  mais  dominada  e  o  capital  cada  vez  mais 

proporcionado”;




Tabela 3 – Sócios do Círculo Operário e benefícios concedidos 

Associados 

Profissão 

Descontos 

Wolfram Metzler 

Médico 


20 a 30% 

Rudolfo Walch 

Médico 

20 a 30% 

Pedro Alfredo Klein 

Dentista 

20 a 30% 

Lino Ernesto Juchem 

Dentista 

20 a 30% 

J. Willibaldo Sperb 

Padaria 


15% 

Albino Kieling 

Charutaria 

10% 


Pharmacia Hamburgueza 

Medicamentos 

10 a 15% 

Ruth Trindade 

Modista 

10% 


Heidrich & Ebling 

Loja de fazendas 

5% em compras 

superiores a 10$000 

Fonte: Jornal

 O 5 de Abril

, 19/07/1935 

e) a necessidade de intervenção moderada do Estado na questão social, 

no  sentido  de  controlar  e  regular  o  justo  salário,  a  justa  produção  e  o 

justo preço; 

f) conservar­se acima e fora da política partidária. 

338 


A  política  assistencial  dos  Círculos  acontecia  efetivamente  através  da 

assistência  médica  e  jurídica,  das  vilas  operárias,  das  escolas  noturnas,  das 

creches. 

Em Novo Hamburgo, via­se essa prática através de vários descontos em serviços e 

comércios, que eram oferecidos aos seus associados, como a cedência gratuita do carro 

fúnebre, pela prefeitura, e descontos aos associados segundo a tabela abaixo: 

338 

DIEHL, op.cit. p.66




As notícias do Círculo Operário veiculadas no jornal deixam claro que essa 

entidade era muito mais ligada aos patrões que aos operários. O Círculo Operário 

teve uma pequena divulgação, mas mesmo assim, maior que a dos sindicatos, já 

que não encontramos nenhuma referência a eles. 

O  jornal  apóia  a  iniciativa  do  Círculo,  dizendo  que  esse  era  uma  salutar 

instituição  que  deveria  ser  levada  a  sério  pela  comunidade,  pois  ela  “vem  se 

batendo  com  entusiasmo  e  resultados  satisfatórios  pelos  interesses  da  classe 

trabalhista  do  nosso  Estado  [...]  agremiação  sindical  que,  baseada  na  pura 

doutrina cristã, está fundamentada no corporativismo moderno, já  empregado em 

diversos países. [...]” 

339 

Em outro momento, o jornal publica um artigo intitulado



 “O Círculo Operário 

é uma vitória”,

 que retrata com muita fidelidade o que os empresários e os grupos 

ligados  a  eles  pensavam  do  operariado.  Segundo  esse  artigo,  o

  Círculo

  era  uma 

“dádiva  da  Providência  Divina”,  pois  o  trabalhador  era  uma  pessoa  “pobre, 

desanimada, sem amor, sem dinheiro e sem alegria” que só teria uma vida digna 

se tivesse a “complacência, o apreço e a caridade” do Círculo. 

Ainda  segundo  o  artigo  do  jornal,  os  operários  “sedentos  de  amparo” 

acorreram em grande número ao movimento circulista. Em três, anos o número de 

associados  decuplicou  e  os  seus  benefícios  aumentaram,  já  que  “os  nobres 

corifeus  da  causa  operária  não  descansam,  antes  se  consomem  por  seu 

estremecido  operário”,  ou  seja,  é  através  dos  favores  dos  empresários  que  o 

operário terá seus problemas resolvidos e não através da sua luta. 

339 


Jornal

 O 5 de Abril

, 13/03/1935



Outra  questão  importante  abordada  é  com  relação  à

  ”ordem  social”

  que 

precisava ser mantida a qualquer custo: 



[...] E com “ordem social” não combinam greves nem revoltas. E queixas 

contra  seus  chefes  não  serão  impassivelmente  toleradas  aos  sócios 

circulistas.  Se  as  queixas  forem  justas,  com  brandura,  procurar­se­á 

extinguir  a  causa.  Se  forem  queixas  injustas,  também  com  brandura, 

serão  explicados os  direitos  dos patrões e o dever de entendimento dos 

empregados.  O  operário  deve  ter  em  grande  consideração  o  seu  chefe, 

do  mesmo  modo,  como  este,  por  um  dever  de  consciência  não  deve 

abusar da simplicidade operária. [...] 

340 

O Círculo vinha, assim, ao encontro dos interesses dos empresários, pelos 



seus objetivos de transformação do trabalhador infeliz e desamparado no operário 

alegre, entusiasmado, pacato e assíduo, cujo sucesso seria alcançado através da 

máxima  positivista  ordem  e  progresso,  tão  cara  à  nação  e,  principalmente,  ao 

Estado do Rio Grande do Sul e ao PRR. 

Segundo Petersen, a influência positivista norteava as relações de trabalho 

no  Estado  preservando  “o  privativismo  nas  relações  econômicas  e  a  autonomia 

estadual,  cerrando  o  Rio  Grande  a  qualquer  intromissão  federal  e  às  iniciativas 

federais de legislação reguladora do trabalho.” 

341 

Diz,  ainda,  que,  mesmo  defendendo  esse  privativismo  nas  relações  de 



trabalho,  o  governo  gaúcho  com  “um  paternalismo  também  comteano”,  adotou 

medidas  estatais  de  proteção  ao  trabalhador  industrial,  o  que  era  aparentemente 

contraditório,  mas  se  explicava  dentro  do  marco  positivista  que  poderia  ser 

“constatado no Parlamento, onde os representantes gaúchos se opuseram sempre 

340 

Jornal


 O 5 de Abril

, 07/06/1935 

341 

PETERSEN,  Silvia  R.F.  As  greves  no  Rio  Grande  do  Sul  (1890­1919).  In:  DACANAL,  José 



Hildebrando  &  GONZAGA,  Sergius  (orgs.)

  RS:Economia  &  Política

.  Porto  Alegre:  Mercado 

Aberto,1979. 279,280.




aos  projetos  de  regulamentação  do  trabalho,  mas  apoiaram  as  iniciativas  de 

indenização ao trabalhador.” 

342 

O  Círculo,  diz  Marcos  Saul,  reuniu  líderes  de  sindicatos  já  oficializados  e 



operários  de  todas  as  categorias,  sindicalizados  ou  não,  em  torno  de  seus 

benefícios  assistenciais,  culturais  e  recreativos  em  que  exercia  uma  função 

doutrinária em que a tônica era a manutenção da paz e da ordem. 

343 


Afirma ainda, 

[...] Os indícios, portanto, levam a pensar que estava [o Círculo Operário] 

contribuindo  para  o  esvaziamento  dos  sindicatos,  ainda  que  estes 

estivessem  organizados,  atuando  de  acordo  com  a  lei.  Exemplifica­se 

com  uma  nota  de  jornal  segundo  a  qual  a  firma  N.  Lichter  &  Cia., 

colaboradora  financeira  do  Círculo,  despediu  um  de  seus  operários,  de 

nome  Cassemiro  Moreira,  motivando  protesto  dos  Sindicatos  dos 

Trabalhadores em Couro e  seus Artefatos junto ao  Inspetor Regional  do 

Ministério  do Trabalho  no Rio  Grande do Sul porque o operário  demitido 

era, justamente, o único sindicalizado na empresa. 

344 

Os Círculos tinham uma fundamentação ideológica e doutrinária identificada 



com  o Estado  em relação  ao  movimento  operário,  pois  se  mantinham  dentro  dos 

limites  legais  do  Ministério  do  Trabalho  e  supriam  a  deficiência  beneficiária  do 

governo  através  de  seu  mutualismo.  Dessa  forma,  a  organização  desse 

movimento acabou sendo absorvida, mais tarde, por Getúlio Vargas e sua política 

populista. 

345 


342 

Ibidem, p. 280 

343 

SAUL, op. cit. p.30 



344 

Ibidem, p.30 

345 

DIEHL, op. cit. p.104




Pedro  Adams  Filho,  como  seguidor  do  ideário  católico,  tinha  motivos  para 

apoiar  esse  movimento,  já  que  ele,  de  certa  forma,  educava  o  operário  para 

exercer seu trabalho e conduzir sua vida cotidiana dentro da mais perfeita ordem e 

harmonia,  o  que  era  o  objetivo  final  de  qualquer  empresário  que  não  quer 

conflitos.  Esse aspecto educacional­pedagógico do movimento é que era o ponto 

de convergência e de apoio de Adams ao circulismo. 

Nas palavras de Diehl, 

[…]  os  Círculos  Operários  ocupam  o  espaço  de  intercâmbio  ideológico 

entre a Igreja e o Estado, cumprindo a função de base realimentadora do 

sistema  corporativo.  Este  fato  demonstra  a  capacidade  reivindicatória 

incipiente do operariado circulista, que estava colocado entre duas forças 

que  buscavam  sua  hegemonia  sobre  a  sociedade  civil.  Mais  tarde, 

porém,  o  Estado  Novo  cria  mecanismos  de  maior  eficácia  no  controle 

social,  como  a  propaganda  repetitiva,  a  legislação  autoritária  e 

intervencionista,  além  de  ser  o  patrocinador  das  formas  sócio­ 

educacionais e interlocutor das camadas assalariadas, via populismo. 

346 

O Círculo Operário, mesmo  sendo uma entidade  ligada  aos interesses  dos 



empresários,  não  teve  ampla  divulgação  no  jornal  da  cidade.  Aos  operários  era 

dado muito pouco espaço de divulgação para os assuntos de seu interesse. Desse 

modo,  os  sindicatos  dos  trabalhadores  que  já  haviam  se  formado  na  cidade, 

poucas vezes tinham suas ações divulgadas pelo

 5 de Abril

Segundo Marcos Saul, 



[...]  Curiosamente,  a primeira  vez  que a palavra  “sindicato”  apareceu  no 

jornal local,

 O 5 de  Abril

,  em 1928,  referia­se   ao movimento associativo 

dos  fabricantes  de  sandálias  que  procuravam  fundar  uma  entidade 

346 


Ibidem, p. 121, 122.


patronal, embora as categorias econômicas já estivessem representadas, 

desde 1920, por uma Associação Comercial. [...] 

347 

Além  do  Círculo  Operário,  outras  instituições  já  haviam  sido  criadas  para 



defender  os  trabalhadores,  como  a  Liga  Operária  Hamburguesa,  surgida  na 

cidade  em  1929  e  que  teve  curta  duração,  provavelmente  em  função  das 

perseguições políticas e policiais. 

[...]  um  grupo  de  operários  da  indústria  de  calçados,  liderados  por 

Augusto Edmundo Lichtler, Clemente Alialdos e Júlio Mohr, fundou a Liga 

Operária  Hamburguesa,  associação  da  qual pouco  se  sabe  [...].  Lichtler 

foi  inclusive  ameaçado  de  morte  e,  em  1932,  ficou  desempregado  por 

oito meses. 

348 

Alguns  anos  mais  tarde,  em  1932,  foi  formada  a  União  Operária 



Beneficente,  outra  entidade  representativa  dos  trabalhadores  apoiada  pelos 

empresários. 

Com  a  presença  de  representante  do  Ministério  do  Trabalho  deste 

Estado [...],  do presidente  da  Federação Operária  do Rio  Grande do Sul 

[...]  e  do  consultor  jurídico  desta  entidade  de  classe,  a  União  Operária 

Beneficente [...] empossou a sua diretoria. 

Na abertura dos trabalhos, o dr. Ernani  de Oliveira,  saudou os operários 

novo­hamburguenses,  representados por  seleta  e numerosa assistência, 

dizendo  que  individualmente  e  em  nome  do  Ministério  que  representa, 

hipotecava  inteira  e  absoluta  solidariedade  nos  operários  em  geral, 

acompanhando­os  na  luta  e  na  conquista  dos  seus  direitos  sagrados  e 

inconspurcáveis,  uma  vez  que  esses  direitos  sejam  perfeitamente 

previstos e assegurados em Lei. 

Terminando,  o  dr.  Ernani  de Oliveira  estendeu­se  em  considerações  em 

torno  dos  direitos  e  dos  deveres  que  assistem  aos  operários  em  suas 

relações  com  a  classe  patronal,  concitando  os  presentes  a  que  se 

congreguem e se unam, porque só congregados e unidos seriam fortes e 

necessariamente respeitados. [...] 

349 

347 


Ibidem, p.26 

348 


Ibidem 

349 


Jornal

 O 5 de Abril

, 08/07/1932



Mais uma vez  fica explícita  a  forma  paternalista com que eram tratados os 

operários. Seus  direitos  eram,  na  prática, considerados  uma  dádiva do Ministério 

do  Trabalho.  Os  trabalhadores,  segundo  podemos  inferir  pela  documentação 

existente, tinham  pouca  força política, pois suas entidades  de  luta estavam  muito 

mais  vinculadas  aos  interesses  patronais,  do  que  a  seus  próprios  interesses  de 

classe,  tanto na Liga Operária Hamburguesa, quanto na União Beneficente. 

Apenas  em  1933  é  que  surgiram  os  primeiros  sindicatos  de  trabalhadores 

na  cidade:  em  20  de  janeiro,  foi  fundado  o  Sindicato  dos  Marceneiros  e 

Carpinteiros  e,  em  21  de  fevereiro,  o  Sindicato  dos  Trabalhadores  em  Couro  e 

seus Artefatos. É interessante salientar, que, dentre os seus fundadores, estavam 

nomes de trabalhadores que se destacariam mais tarde no sindicalismo da cidade: 

Rodolpho  Reinaldo  Terra,  Clemente  Alialdos,  Augusto  Edmundo  Lichter  e  Júlio 

Mohr. 

350


É  importante  informar  que  na  ótica  do  jornal

  O  5  de  Abril,

  as  relações  de 

trabalho  em  Novo  Hamburgo  nos  anos  1930  davam­se  na  mais  perfeita  ordem  e 

harmonia.  Em  nenhum  momento  foi  noticiado  algum  problema  relacionado  à 

indústria  ou  aos  industriais  locais.  Ao  contrário,  o  progresso  e  a  pujança 

municipais sempre foram a tônica das notícias. Os trabalhadores, por sua vez, ou 

estavam  ligados  aos  colonos  alemães  e  eram,  portanto,  os  responsáveis  pelo 

“trabalho bem feito”, ou eram os coitados que precisavam da tutela do patrão para 

serem  “pessoas mais felizes”. 

350 

Segundo  SAUL,  Marco  V.A.



  Classe  Operária  e  Sindicalismo  no  Rio  Grande  do  Sul

  (Novo 


Hamburgo: 1945­1964).Santo Ângelo:FUNDAMES, 1988.p.28.


Esse  silenciamento  sobre  um  movimento  operário  mais  combativo  é 

bastante  significativo  se  levarmos  em  consideração  quem  eram  as  pessoas 

formadoras da opinião pública da cidade, ou qual era a linha editorial do jornal

 O 5 


de Abril

, porta­voz dos empresários de Novo Hamburgo. 

Eni  Orlandi  diz  que  “todo  poder  se  acompanha  de  um  silêncio”,  que  ela 

chama de “política do silêncio”. A autora subdivide essa política em duas formas: o 

“silêncio  constitutivo”,  ou  seja,  “a  parte  do  sentido  que  necessariamente  se 

sacrifica,  se  apaga,  ao  se  dizer”,  pois  toda  a  fala  silencia  necessariamente  e  o 

“silêncio  local”,  aquele  que  “é  produzido  ao  se  proibir  alguns  sentidos  de 

circularem.” 

351 

Acreditamos  que  esse  silenciamento  sobre  as  questões  dos  operários  faz 





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