Pedro adams filho: empreendedorismo



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CLAUDIA SCHEMES 

PEDRO ADAMS FILHO: EMPREENDEDORISMO, 

INDÚSTRIA CALÇADISTA E EMANCIPAÇÃO DE 

NOVO HAMBURGO (1901­1935) 

Orientadora: Profa. Dra. Margaret Marchiori Bakos 

Porto Alegre 

2006



DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) 

Bibliotecária responsável: Susana Fernandes Pfarrius Ladeira – CRB 10/1484 

Schemes, Claudia 

Pedro  Adams  Filho:  empreendedorismo,  indústria  calçadista  e 

emancipação  de  Novo  Hamburgo  (1901­1935)  /  Claudia  Schemes.  – 

2006. 


445. : il. ; 30 cm. 

Inclui bibliografia e apêndice. 

Tese  (doutorado)  –  Programa  de  Pós­Graduação  em  História,  da 

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2006. 

“Orientadora Profa. Dra. Margaret Marchiori Bakos” 

1. Pedro Adams Filho ­ Biografia 2. Indústria de calçados  – História 

– Novo Hamburgo 3. Empreendedorismo – Rio Grande do Sul I. Bakos, 

Margaret Marchiori  II. Título. 

CDU 67­051(816.5)



CLAUDIA SCHEMES 

PEDRO ADAMS FILHO: EMPREENDEDORISMO, INDÚSTRIA CALÇADISTA E 

EMANCIPAÇÃO DE NOVO HAMBURGO (1901­1935) 

Tese  apresentada  como  requisito  para  obtenção 

do  grau  de  doutor  pelo  Programa  de  Pós­ 

Graduação  em  História  da  Pontifícia  Universidade 

Católica do Rio Grande do Sul. 

Aprovada em 06 de dezembro de 2006. 

BANCA EXAMINADORA: 

Prof. Dr. René E. Gertz 

Profª Drª Claudia Musa Fay 

Prof. Dr. Alexandre Fortes 

Profª Drª Acácia Z. Kuenzer 

Porto Alegre 

2006



Para Sofia e Laura


AGRADECIMENTOS 

Mesmo  correndo  o  risco  de  cometer  alguma  injustiça  em  virtude  de  uma 

possível  falha  de  memória,  gostaria  de  agradecer  às  seguintes  pessoas  e 

instituições que, de alguma forma, tornaram essa pesquisa possível. 

Primeiramente, aos familiares de Pedro Adams  Filho ­ Pedro Adams  Neto, 

Carmen Mosmann,  Carla Bins  e  Theresa Allgayer,  que  muito atenciosamente me 

deram todas as informações, os documentos e as fotografias que possuíam a seu 

respeito. 

Aos  meus  colegas  de  trabalho,  Cristina  Ennes  da  Silva,  Ida  Helena  Thön, 

Magna Lima Magalhães, Luiz Antônio Maroneze, Rodrigo Perla Martins, Rosemari 

Lorenz  Martins  e  Denise  Castilhos  de  Araújo,  que  colaboraram  nas  traduções, 

correções, informações ou apenas dividiram as angústias desta caminhada. 

Ao meu ex­colega Guido Lang, do Arquivo Público de Novo Hamburgo e ao 

Fernando Gusmão, pelas informações encontradas no Jornal

 NH

 e nos grupos de 



genealogia.


À Cristiane  Gerhard,  Marília Spindler  e  Adriana  Schemes  Gusmão que,  de 

alguma forma, ajudaram neste trabalho. 

À Gisele Claro da Silva e Carlos Schwartzhaupt pela ajuda técnica. 

À  banca  do  Exame  de  Qualificação,  prof.  Dr.  René  Gertz  e  Prof 

.  Dr 


Claudia Musa Fay, pela discussão e direcionamentos apontados para esta tese. 



À banca examinadora final, prof. Dr. René Gertz e Prof 

. Dr 



. Claudia Musa 

Fay, Prof. Dr. Alexandre Fortes e Prof 

. Dr 



Acácia Kuenzer. 

Ao Centro Universitário Feevale que me concedeu uma bolsa­auxílio para o 

Doutorado. 

Ao  Cleber  Prodanov,  que  foi  o  co­orientador  informal  desta  tese, 

companheiro incansável e que fez o possível para facilitar meu caminho; sem ele 

tudo teria sido mais difícil. 

Finalmente,  à  minha  orientadora,  Prof 

Dr 


Margaret  Marchiori  Bakos,  pela 

orientação  minuciosa  e  dedicada  que  dispensou  a  esta  pesquisa.  Seu  auxílio  foi 

decisivo para que as barreiras teóricas e metodológicas fossem superadas. Divido 

com ela o resultado deste trabalho.



RESUMO 

Esta  pesquisa  tem  como  objetivo  pontuar  a  trajetória  de  vida  de  Pedro 

Adams Filho, industrial gaúcho que nasceu em 1870 e morreu em 1935 e que foi 

um dos pioneiros do setor coureiro­calçadista no Rio Grande do Sul. 

Através  deste trabalho  analisaremos o  papel deste  industrial  como  um  dos 

principais  agentes  do  processo  de  industrialização  do  município  de  Novo 

Hamburgo  e,  através  dele,  traçaremos  um  perfil  da  sociedade,  relações  de 

trabalho e do cotidiano da época. 

Esta  análise  das  origens  da  indústria  calçadista  através  da  biografia  de 

Pedro Adams Filho procurará, também, compreender as relações sociais, políticas 

e culturais decorrentes desta atividade produtiva. 

Procuraremos  mostrar  de  que  forma  Pedro  Adams  Filho  e  outros 

empreendedores  foram  impulsionadores  do  processo  de  transformação  das 

economias  locais  baseadas  no  trabalho  artesanal  individual  para  um  processo 

produtivo  em  escala  industrial  e  como  eles  possibilitaram  a  construção  de 

estruturas urbanas e industriais de sucesso na cadeia produtiva do Estado. 

As teorias relacionadas à biografia e empreendedorismo serão norteadoras 

desse trabalho. 

Palavras­chave: Pedro Adams Filho. Biografia. Setor coureiro­calçadista. História 

de Novo Hamburgo. Empreendedorismo.




ABSTRACT 

This  research  aims  to  reconstruct  the  life history of Pedro Adams  Filho, an 

industrialist  who  was  born  in1870  and  died  in  1935.  He  was  one  of  the  biggest 

examples of entrepreneurism in Rio Grande do Sul. 

Through this  work,  we  will  analize  the role  of this  industrialist  as one  of the 

main  agents  in  the  industrialism  process  of  the  city  of  Novo  Hamburgo  and, 

through  it,  define  a  profile  of  the  society,  work  relations  and  the  daily  life  at  the 

time. 


This  analysis  of  the  origins  of  the  shoe  industry  through  the  biography  of 

Pedro  Adams  Filho  will  also  aim  to  understand  the  social,  politics  and  cultural 

relations related to this productive activity. 

We will  show the  way that Adams  and other immigrant descendants  triggered the 

process  of  transformation  of  the  local  economies  based  on  the  individual 

handmade 

work 

to 


productive 

process 

in 


industrial 

scale 


and 

how  these  entrepreneurs  made possible  the  construction  of successful  urban  and 

industrial structures in the state’s productive chain. 

The  theories  related  to  the  biography,  daily  life  and  entrepreneurism  will 

guide this research. 

Key  words:  Pedro  Adams  Filho.  Biography.  Leather  Industry.  History  of  Novo 

Hamburgo. Entrepreneurism.



LISTA DE ILUSTRAÇÕES 

Figura 1 – Placa da Avenida Pedro Adams Filho...................................................17 

Figura 2 – Propaganda da empresa Guilherme Ludwig.........................................51 

Figura 3 – Propaganda da fábrica Athur Haas & Cia..............................................52 

Figura 4 – Propaganda da empresa Pedro Alles....................................................55 

Figura 5 – Fachada da fábrica Oderich..................................................................59 

Figura 6 – Caminhão da empresa Neugebauer......................................................60 

Figura 7 – Caminhão da empresa Spindler & Cia..................................................64 

Figura 8 – Venda de Johann Peter Schmitt............................................................89 

Figura 9 – Fábrica de Calçados Sul Rio­Grandense............................................102 

Figura 10 – Depósito Fábrica de Calçados Sul Rio­Grandense...........................104 

Figura 11 – Depósito Fábrica de Calçados Sul Rio­Grandense...........................105 

Figura 12 – Depósito Fábrica de Calçados Sul Rio­Grandense...........................105 

Figura 13 – Setor de expedição da Fábrica de Calçados Sul Rio­Grandense.....106 

Figura 14 – Gabinete de trabalho de Pedro Adams Filho.....................................107



Figura 15 – Escritório da Fábrica de Calçados Sul Rio­Grandense.....................107 

Figura 16 – Cabeçalho de papel de carta da empresa, 1916 ..............................108 

Figura 17 – Atelier de fabricação de calçado da Fábrica de Calçados Sul Rio­ 

Grandense............................................................................................................111 

Figura 18 – Atelier de fabricação de calçado Fábrica de Calçados Sul Rio­ 

Grandense............................................................................................................112 

Figura 19 – Seção de corte e modelagem de calçados da Fábrica de Calçados Sul 

Rio­Grandense......................................................................................................114 

Figura 20 – Seção de corte da Fábrica de Calçados Sul Rio­Grandense............114 

Figura 21 – Setor de montagem da Fábrica de Calçados Sul Rio­Grandense.....116 

Figura 22 – Ateliê de costura Fábrica de Calçados Sul Rio­Grandense..............120 

Figura 23 – Ateliê de costura e seção de corte de calçados da Fábrica de 

Calçados Sul Rio­Grandense...............................................................................120 

Figura 24 – Pedro Adams Filho e amigos............................................................121 

Figura 25 – História em quadrinhos......................................................................125 

Figura 26 – Anúncio do jornal

 O 5 de Abril...........................................................

129 


Figura 27 – Anúncio do jornal

 O 5 de Abril...........................................................

130 

Figura 28 – Bota de garrão de potro.....................................................................133 



Figura 29 – Tamanco do século XIX ....................................................................134 

Figura 30 – Loja de sapateiro, Rio de Janeiro,século XIX....................................137 

Figura 31 – Modelo de calçado feminino do final do século XIX..........................138 

Figura 32 – Borzeguim de 1922............................................................................140 

Figura 33 – Modelo de calçado feminino dos anos 20.........................................141 

Figura 34 – Modelo de calçado dos anos 30........................................................142 

Figura 35 – Jornal

 O 5 de Abril

, 24/04/31, anúncio de modelista.........................144



Figura 36 – Tanques de cimento usados para curtir o couro no Curtume 

Hamburguez.........................................................................................................151 

Figura 37 – Tanques de cimento usados para curtir o couro no Curtume 

Hamburguez.........................................................................................................151 

Figura 38 – Máquina geradora de força, tambores para curtir couros e máquina 

para igualar espessura de couros no Curtume Hamburguez...............................152 

Figura 39 – Seção de armazenagem e embalagem de couros curtidos no Curtume 

Hamburguez.........................................................................................................152 

Figura 40 – Curtume Momberger – início década 20...........................................153 

Figura 41 – Curtume Momberger – início década 20...........................................154 

Figura 42 – Curtume Momberger – início década 20...........................................154 

Figura 43 – Jornal

 O 5 de Abril

, 06/07/1928, convite para industriais do couro...160 

Figura 44 – Estande da empresa Pedro Adams Filho e Cia.................................182 

Figura 45 – Cartaz da exposição..........................................................................183 

Figura 46 – Cartaz da exposição..........................................................................184 

Figura 47 – Cartaz da exposição..........................................................................184 

Figura 48 – Estande da empresa de máquinas Cope..........................................185 

Figura 49 – Selas e perneiras produzidas pelo Curtume Central de propriedade de 

Albino Momberger.................................................................................................186 

Figura 50 – Fábrica de bijuterias e artigos de prata e metal H.F.Kondörfer & 

Cia.........................................................................................................................186 

Figura 51 – Fábrica de café e caramelos e funilaria Bertholdo Rech...................187 

Figura 52 – Pirâmide de molduras da empresa de molduras Alles......................188 

Figura 53 – Foto da visita da primeira­dama estadual à exposição industrial de 

Novo Hamburgo....................................................................................................190 

Figura 54 – Diploma Grande Prêmio....................................................................191 

Figura 55 – Cartaz da exposição..........................................................................192



Figura 56 – Lembrança da exposição...................................................................193 

Figura 57 – Foto do pavilhão da Exposição Municipal.........................................194 

Figura 58 – Foto do pavilhão da exposição..........................................................194 

Figura 59 – Convite para as festas comemorativas do centenário da imigração 

alemã....................................................................................................................196 

Figura 60 – Diploma para expositores .................................................................201 

Figura 61 – “Pin­Nic” oferecido por Pedro Adams Filho aos seus funcionários 

(década de 30)......................................................................................................234 

Figura 62 – Jornal

 O 5 de Abril

, 16/03/28, aviso de reunião da Sociedade Energia 

Elétrica Hamburgueza Ltda..................................................................................248 

Figura 63 – Jornal

 O 5 de Abril

, 13/04/1928, anúncio da Sociedade Energia 

Elétrica Hamburgueza Ltda..................................................................................249 

Figura 64 – Jornal

 O 5 de Abril

, 30/11/1928, anúncio da Sociedade Energia 

Elétrica Hamburgueza Ltda..................................................................................250 

Figura 65 – Monumento do Imigrante...................................................................259 

Figura 66 – Líderes da emancipação de Novo Hamburgo...................................263 

Figura 67 – Mapa com divisão dos distritos..........................................................265 

Figura 68 – Panfleto distribuído pela comissão pró­emancipação.......................287 

Figura 69 – Desfile da emancipação de Novo Hamburgo....................................293 

Figura 70 – Festa da emancipação nas ruas da cidade.......................................293 

Figura 71 – Panfleto do Partido Republicano.......................................................297 

Figura 72 – Primeiro governo municipal, Jornal

 O 5 de Abril

, 03/06/27...............299 

Figura 73 – Jornal

 Correio da Serra

, 26/04/1927.................................................301 

Figura 74 – Panfleto distribuído na cidade...........................................................305 

Figura 75 – Convite do Partido Republicano, Jornal

 O 5 de Abril,

 20/04/1927....307 

Figura 76 – Rua Júlio de Castilhos.......................................................................313




Figura 77 – Estação ferroviária nos anos 20........................................................316 

Figura 78 – Estação nos anos 20.........................................................................316 

Figura 79 –Trem passando pela cidade...............................................................317 

Figura 80 – Estação ferroviária nos anos 20........................................................317 

Figura 81 – Praça 14 de Julho..............................................................................318 

Figura 82 – Praça 14 de Julho .............................................................................319 

Figura 83 – Bebedouro para animais localizado na Praça 20 de Setembro.........320 

Figura 84 – Hamburgo Velho, 1922......................................................................321 

Figura 85 – Loja e depósito de couros em Hamburgo Velho, anos 20.................326 

Figura 86 – Prédio do primeiro cinema da cidade, 1916......................................328 

Figura 87 – Avenida Pedro Adams Filho, década de 40......................................329 

Figura 88 – Carro decorado para desfile carnavalesco nos anos 20...................330 

Figura 89 – Primeiro prédio da Igreja Católica de centro da cidade.....................333 

Figura 90 – Sociedade Frohsin.............................................................................346 

Figura 91 – Hospital Regina, anos 30...................................................................350 

Figura 92 – Apelo aos comerciantes e industrialistas, 

Jornal

 O 5 de Abril



, 02/12/32................................................................................355 

Figura 93 – Fundação Evangélica, anos 30.........................................................362 

Figura 94 – Colégio Santa Catarina, 1925............................................................363 

Figura 95 – Colégio São Jacó...............................................................................364 

Figura 96 – Colégio São Jacó...............................................................................367 

Figura 97 – Colégio São Jacó, dormitório.............................................................368 

Figura 98 – Colégio São Jacó, banda dos alunos................................................368 

Figura 99 – Alunos do Colégio São Jacó..............................................................369




Figura 100 – Pedro Adams Filho..........................................................................379 

Figura 101 – Pedro Adams Filho e família............................................................380 

Figura 102 – Rosa Saenger e filhos.....................................................................381 

Figura 103 – Rosa Saenger e filha.......................................................................381 

Figura 104 – Casamento de Pedro e Olga...........................................................382 

Figura 105 – Olga e seus filhos Luiz, Theresa e Carla.........................................383 

Figura 106 – Convite de enterro de Pedro Adams Filho.......................................388 

Figura 107 – Túmulo da família Adams................................................................388 

Figura 108 – Lápide do túmulo de Pedro Adams Filho.........................................389 

Figura 109 – Lembrança de enterro de Pedro Adams Filho.................................389 

Figura 110 – Manchete do jornal

 O 5 de Abril

, 22/05/1935..................................390 

Figura 111 – Avenida Pedro Adams Filho no dia da inauguração........................390 

Figura 112 – Av. Pedro Adams Filho na década de 30........................................391



LISTA DE TABELAS E QUADROS 

Tabela 1 – Crescimento econômico de Novo Hamburgo nos anos 1927/28........164 

Tabela 2 – Empresas contribuintes para o Círculo Operário................................211 

Tabela 3 – Sócios do Círculo Operário e benefícios concedidos.........................212 

Quadro 1 – Exposições/Festejos realizados em Novo Hamburgo.......................176 

Quadro 2 – Atividades sócio­culturais de Pedro Adams Filho..............................337 

Quadro 3 – Sociedades de Novo Hamburgo (1888­1927)...................................339 

Quadro 4 – Escolas particulares de Novo Hamburgo (1832/1929)......................360




SUMÁRIO 

Introdução...............................................................................................................17 

Capítulo 1 – Empresas e empreendedores coloniais 

1.1 – Um novo impulso econômico.........................................................................32 

1.2 – Os empreendedores coloniais........................................................................46 

1.2.1. – Arriscar, ousar, inovar, empreender..........................................................65 

1.3 – Pedro Adams Filho:de Moers a Novo Hamburgo..........................................78 

Capítulo 2 – Indústria calçadista 

2.1 – A fábrica de calçados Sul­Riograndense.......................................................91 

2.1.1 – O design do calçado.................................................................................132 

2.2 – O curtume Hamburguez...............................................................................146 

2.3 – As exposições industriais.............................................................................177 

2.4 – As relações de trabalho.............................................................................. 203 

2.5 – Energia para a cidade e suas empresas.....................................................239 

Capítulo 3 – Atividades políticas e vida comunitária 

3.1 – As atividades políticas e a emancipação da cidade....................................256 

3.1.1 – A cidade e seu cotidiano nos anos 20 e 30..............................................311 

3.2 – As atividades comunitárias..........................................................................336 

3.2.1 – O colégio São Jacob e a educação na cidade..........................................357 

3.3 ­ A vida familiar...............................................................................................379 

Cronologia.............................................................................................................393



Considerações finais.............................................................................................398 

Referências Bibliográficas....................................................................................406 

Anexos..................................................................................................................428



INTRODUÇÃO 

A placa, a seguir, está localizada em uma das esquinas centrais da cidade. 

Por tal razão, ela comparece no dia­a­dia de milhares de pessoas que vivem e/ou 

passam  por  Novo  Hamburgo.  Esses  indivíduos,  habitantes  da  cidade,  turistas  e 

trabalhadores de cidades vizinhas terminam por transitar por essa avenida que é a 

principal  da  cidade,  ponto  de  encontro,  de  cruzamentos,  do  mais  variado  tipo  de 

comércio e de serviços.  Mas quem sabe qual a relação entre Pedro Adams Filho 

e a História da cidade?




Acreditamos  que,  para  dar  essa  resposta,  é  necessária  uma  investigação 

sobre  ele  –  Pedro  Adams  Filho  –  e,  principalmente,  sobre  o  seu  contexto 

histórico, 

a  fim  de  compreendermos  a  razão  da  escolha  de  seu  nome  para 



indicar artéria tão importante da cidade. 

A  indicação  do  nome  da  pessoa  que  está  na  placa  foi  feita  pelo  prefeito 

Ângelo  Provenzano,  em  10  de  maio  de  1936,  através  de  lei  orgânica,  que  diz  o 

seguinte: 

[...]  Considerando  que  o  cidadão  Pedro  Adams  Filho,  há  pouco 

desaparecido,  prestou  inestimáveis  serviços  a  Novo  Hamburgo,  quer 

como seu representante no antigo Conselho Municipal de São Leopoldo, 

onde se bateu denodadamente, pela sua emancipação,  quer,  depois,  na 

comissão para tal fim organizada, quer, finalmente, como “leader” que foi 

da indústria local, para cuja expansão contribuiu decisivamente; 

Considerando, finalmente, que o nome do homem de um mérito tal deve 

ser para sempre lembrado não  só como justa  homenagem  dos que  lhes 

testemunharam  os  atos  de  benemerência  pública,  mas  também  como 

tributo de inteira justiça, 

RESOLVE: 

Art.  1º.  –  Fica  denominada  “PEDRO  ADAMS  FILHO”  a  Avenida  que 

passa  entre  o  edifício  da  Prefeitura  e  a  Praça  14  de  Julho,  na  parte 

compreendida entre a Rua 15 de Novembro e a Travessa Corte Real. 

Art. 2º. – Revogam­se as disposições em contrário. 

(ass.) Ângelo Provenzano (prefeito) 

A relação indivíduo/contexto é fundamental para esta tese. Segundo Benito Schmidt, existe uma 



“tensão” entre o sistema normativo de uma sociedade e a liberdade de ação dos indivíduos, tensão 

esta  que  seria  fundante  do  pensamento  ocidental  e  que  as  biografias  seriam  uma  forma 

privilegiada  para  se pensar  esta  questão.  SCHMIDT,  Benito  Bisso.

 Uma  reflexão sobre o  gênero 

biográfico: a trajetória do militante socialista Antônio Guedes Coutinho na perspectiva de sua vida 

cotidiana (1868­1945)

. Dissertação de Mestrado, UFRGS, 1996.  Carlos Rojas também trabalha a 

questão do  indivíduo/contexto  dizendo  que  durante muito  tempo havia  duas  formas  ineficazes  de 

se interpretá­la: a primeira seria enfatizando a dimensão do indivíduo sobre o contexto, ou seja, o 

contexto  seria  um  simples  cenário  para  a  reconstrução  biográfica;  a  segunda  seria  outra 

simetricamente  oposta  onde  o  contexto  geraria  o  indivíduo.  Para  o  autor,  o  indivíduo  deve  ser 

abordado


 no

 contexto, ele é criador e fruto desse contexto, e é nessa perspectiva dialética que se 

encontra o centro da problemática do gênero histórico­biográfico. ROJAS, Carlos A.A.

 La Biografia 

como gênero  historiográfico:algunas  reflexiones sobre  sus  posibilidades  actuales.

  Santa  Cruz  do 

Sul: EDUNISC, 2000.p.33



Para  realizar  nossa  pesquisa,  utilizaremos  como  um  dos  referenciais 

teóricos  alguns  aportes  do

  gênero  biográfico

,  cujo  retorno  na  História  dá­se, 

principalmente,  em  função  da  crise  dos  paradigmas  clássicos  da  historiografia. 

Eles  trouxeram  à  tona  uma  crítica  contra  os  conceitos  totalizadores,  o 

desinteresse  pelas  experiências  humanas  e  o  retorno  do  indivíduo  ao  centro  da 

História. 

Uma biografia sempre é intermediada pelo pesquisador e pelo relato escrito 



que  é elaborado a partir  de  documentos, de arquivos pessoais e de depoimentos 

de pessoas próximas do sujeito pesquisado, gerando um texto que sofre recortes, 

montagens e traduções de depoimentos orais para escritos. 

Em  muitos  momentos  algumas  respostas  ficam  implícitas,  e  coube  a  nós 

pressupormos  o que  possa  ter  acontecido. Quando isso ocorre,  deixaremos claro 

que  é  uma  suposição,  pois  uma  das  características  das  biografias  é  o  diálogo 

entre a história e a ficção. 

Concordamos  com  Benito  Schmidt  que  a  biografia  é  um  “gênero  de 

fronteira”  entre  a  história  e  a  ficção  e  entre  a  realidade  e  a  imaginação.  O 

historiador tem, sim, de ter uma preocupação com sua fonte documental, algo que 

um  romancista  não  tem,  mas,  ao  mesmo  tempo,  muitas  lacunas  surgem  numa 

SCHMIDT,  Benito  Bisso.



  Uma  reflexão  sobre  o  gênero  biográfico:  a  trajetória  do  militante 

socialista Antônio Guedes Coutinho na perspectiva de sua vida cotidiana (1868­1945)

. Dissertação 

de Mestrado, UFRGS, 1996. p. 19




pesquisa  biográfica,  e  podem  ser  inferidas  pelo  narrador,  desde  que  sinalizadas 

adequadamente. 

A biografia histórica é, segundo Benito Schmidt, um gênero narrativo que se 



apresenta novamente aos historiadores de maneira ressignificada, pois, como diz 

esse  autor,  “[...]  as  narrativas  histórico­biográficas  contemporâneas  não  se 

esgotam  nas  singularidades  individuais,  mas  servem  para  esclarecer  temas  e 

problemas mais amplos.” 

Outro  referencial  importante  para  esta  pesquisa  é  o  cotidiano,  segundo 



Agnes  Heller,  “a  vida  cotidiana  pode  ser  considerada  central  na  existência  dos 

indivíduos,  pois  ele  é  um  espaço  de  construção  da  história,  não  apenas  de 

reprodução.” 

Ainda  segundo  Del  Priore,  “[...]  Contrariamente  às  aparências,  cotidiano  e 



história  não são opções contraditórias.  Resta  analisar  de  que maneira  se  operam 

as relações entre ambos, [o historiador deve] recuperar os laços entre o social e o 

individual, o social e o histórico.” 

Finalmente, 



outro 

referencial 

que 

mereceu 


destaque 

foi 


empreendedorismo. Tomado de empréstimo da Administração, esse termo tornou­ 

se a categoria principal desta investigação e definidora de sua tese central. 

Ibidem, p.19 



Ibidem, p.41 

HELLER, Agnes.



 O Cotidiano e a História

. 3.ed. Rio de Janeiro:Paz e Terra, 1989. p.20 

DEL  PRIORE,  Mary.  História  do  Cotidiano  e  da  Vida  Privada.  In:



  Domínios  da História

.  Rio  de 

Janeiro: Campus, 1997. p.266



Nossa tese consiste em seguir o itinerário pessoal de Pedro Adams Filho na 

formação do

 cluster

 



coureiro­calçadista, no desenvolvimento da cidade de Novo 

Hamburgo  como  pólo  industrial,  e  na  sua  atuação  política  e  comunitária, 

buscando compreender aspectos inusitados do processo de construção da cidade 

como  pólo  de  desenvolvimento  do  Vale  do  Rio  dos  Sinos  e  desdobrando  suas 

ações em todos esses segmentos do contexto em que vivia. 

Nossa tarefa foi dificultada pela falta de registros da memória da cidade que 

o  acolheu.  Fontes  escassas  e  mal  arquivadas  de  pesquisa  também  foram 

percalços  com  que  nos  deparamos,  mas  não  desanimamos  de  fazer  essa 

caminhada. 

A história dos municípios ainda não é uma prática comum dos historiadores 

brasileiros,  por  isso  os  acontecimentos  se  perdem,  e  fica  muito  difícil  reconstituir 

períodos  mais  distantes. Para  a  realização  desta  investigação,  foi­nos  de  grande 

importância os trabalhos de historiadores, muitas vezes sem formação acadêmica 

em  História  e/ou  pesquisadores  leigos  que  escrevem  livros  sobre  os  seus 

municípios  de  origem  e  que,  muitas  vezes,  os  publicam  com  seus  próprios 

recursos. 



Concentrações  geográficas  de  empresas  interligadas  que  atuam  num  mesmo  setor  de 



fornecedores especializados, provedores de serviços e  instituições  associadas,  tendo em comum, 

além  da  localização,  a  contribuição  para  o  desenvolvimento  de  produtos  dessa  região.  São 

norteadas por princípios  como a  cooperação, a complementaridade,  o  senso de  comunidade e  a 

competição. 

Dentre  esses  trabalhos  podemos  citar:  FIRMBACH,  Theodor.



  Santa  Clara

  –  o  combate 

federalista. Porto Alegre: Nova Dimensão, 1995; KANNENBERG, Hilmar.

  Fundação Evangélica

 – 

Um século a serviço da educação (1886 a 1986). São Leopoldo: Rotermund, 1987; LANG, Guido.



 

Jacob  Lang

  –  A  História  de  um  Imigrante  Pioneiro.  São  Leopoldo:  Rotermund,  1992  e

 

Reminiscências  da  memória  colonial



  –  Teutônia  –  RS.  Campo  Bom:  Papuesta,  1999;  SARLET, 

Erica.


  Ainda  Hoje  Plantaria  Minha  Macieira

.  São  Leopoldo:  Sinodal,  1993;  SCHIERHOLT,  José




Sobre a história da cidade de Novo Hamburgo existem duas obras que são, 

praticamente, as únicas fontes para os pesquisadores da história local. A primeira 

é o  livro

 O município de Novo Hamburgo – monografia

 



, publicado em  1944  por 



Leopoldo Petry que foi um político local e que fez um trabalho de cunho positivista 

e tradicional em que tratou, desde os aspectos físicos, até os dados estatísticos do 

município, fazendo uma análise superficial das questões abordadas. 

Trinta  anos  mais  tarde,  na  década  de  1970,  a  historiadora  Liene  M.  M. 

Schütz  fez  uma  espécie  de  releitura  da  obra  de  Petry  e  publicou  o  livro

  Novo 


Hamburgo – Sua História Sua Gente

 

10



 

,

 mas não fugiu da linha de seu antecessor, 



pois  dividiu  suas  206  páginas  em  mais  de  150  capítulos  e  subcapítulos, 

apresentando, apenas, alguns dados estatísticos mais atualizados. 

Além  desses  dois  trabalhos,  outras  duas  obras  sobre  diferentes  aspectos 

da  história  da  cidade  foram  publicadas:

  Classe  Operária  e  Sindicalismo  no  Rio 

Grande do Sul

 (Novo Hamburgo: 1945­1964) 

11 


, de Marcos V. A.  Saul,  na qual o 

autor faz uma análise do movimento operário e sindical da cidade e

 O 5 de Abril

 – 


o primeiro jornal de Novo Hamburgo 

12 


, de Martin H. Behrend,  onde é registrada a 

história deste jornal. 

Alfredo.

 Lajeado  I

.  2.ed.  Lajeado:  Prefeitura  Municipal,  19993;  VIER,  Justino  Antonio.

 História de 

Dois Irmãos

. Passado e Presente. Dois Irmãos: Gradfil, 1999. 

PETRY,  Leopoldo.



  O  município  de  Novo  Hamburgo  –  monografia

.  Porto  Alegre:  Edições  A 

Nação, 1944. 

10 


SCHÜTZ, Liene M. Martins.

 Novo Hamburgo: Sua História Sua Gente

. Novo Hamburgo: Pallotti, 

1976. 


11 

SAUL, Marcos Vinicios de Almeida.

 Classe Operária e Sindicalismo no Rio Grande do Sul

 (Novo 


Hamburgo: 1945­1964). Santo Ângelo: Fundames, 1988. 

12 


BEHREND, Martin  Herz.

 O 5 de Abril

 – O primeiro jornal de Novo Hamburgo.  Novo Hamburgo: 

Metrópole, 2002.




A  bibliografia  mais  recente  sobre  a  cidade  data  do  ano  de  2006  e  é 

intitulada

  Pegadas  Urbanas:  Novo  Hamburgo  como  palco  do  flâneur, 

13

 



que  é  o 

resultado  da  dissertação  de  mestrado  em  Planejamento  Urbano  e  Regional  da 

UFRGS  de  Jeferson  Selbach.  Essa  obra,  editada  pelo  próprio  autor,  tem 

circulação  muito  restrita  e  é  praticamente  desconhecida.  Nela  são  tratados  os 

espaços de sociabilidade da cidade no período de 1927 a 1997. 

A  metodologia  utilizada  nesta  pesquisa  foi  a  investigação  em  jornais  da 

época  (décadas  de  1920  e  1930)  e  a  análise  de  seu  conteúdo,  a  pesquisa  em 

documentos pertencentes à família do biografado, entrevistas com seus familiares, 

livros  da época,  que  tratam  da  história  do  município, e fotografias que  retratam o 

cotidiano da cidade e do biografado. 

Juntamente com a quase inexistência de bibliografia sobre história local, as 

fontes de pesquisa também são raras na cidade. É grande o descaso para com a 

sua  memória,  tanto  por  parte  do  poder  público,  quanto  dos  cidadãos  comuns.  O 

Arquivo Histórico Municipal foi criado a apenas dois anos, em 2004, contando com 

escasso material de consulta, com exceção das coleções de jornais da cidade

 O 5 


de Abril

 (que existiu de1927 a 1962) e o

 Jornal NH

 (criado em 1960 e que continua 

em circulação). Por esses motivos, optamos por privilegiar essa fonte de pesquisa, 

entretanto, algumas considerações se fazem necessárias a respeito dela. 

Segundo Márcia Espig, 

13 


SELBACH,  Jeferson.

 Pegadas Urbanas: Novo Hamburgo como palco do flâneur

. Cachoeira  do 

Sul: Ed. Do Autor, 2006.




O  jornal  possui  toda  uma  série  de qualidades  peculiares,  extremamente 

úteis  para  a  pesquisa  histórica.  Uma  delas  é  a  periodicidade,  os  jornais 

constituem­se em verdadeiros arquivos do cotidiano, nos quais podemos 

acompanhar a memória do dia­a­dia e estabelecer a cronologia dos fatos 

históricos. Outra é a disposição espacial da informação, que nos permite 

a inserção do acontecimento histórico dentro de um contexto mais amplo. 

E  outro  aspecto  singular  do  material  jornalístico  é  o  tipo  de  censura 

sofrida, pois a imprensa recebe apenas a censura instantânea e imediata, 

diferentemente  de  outras  fontes  que  poderão  ser  submetidas  a  uma 

triagem antes de serem arquivadas.(...)  para os  historiadores, o  jornal é, 

antes de tudo, uma fonte onde se ‘recupera’ o fato histórico – uma ponte 

ou trampolim em direção à realidade – não havendo entretanto interesse 

por sua crítica interna. 

14 


Ainda  segundo  Capelato 

15 


,  “a  produção  deste  documento  pressupõe  um 

ato de poder no qual estão implícitas relações a serem desvendadas. A imprensa 

age  no  presente  e  também  no  futuro,  pois  seus  produtores  engendram  imagens 

que serão produzidas em outras épocas.” 

Levando em consideração essas colocações, temos clara a importância do 

questionamento  do  conteúdo  publicado  pelos  jornais  e  colocamo­nos  como 

leitores ativos e críticos  dos discursos construídos pela imprensa local no período 

pesquisado. 

Portanto, os estudos feitos até hoje sobre a cidade seguem uma orientação 

bastante  tradicional,  quase  sempre  abordados  apenas  pelo  aspecto  econômico, 

carecendo  de  uma  análise mais  diversificada  sobre as pessoas  que ali viveram e 

seu cotidiano. Acreditamos que, por meio do resgate da trajetória empresarial, da 

ação  empreendedora  de  um  personagem  de  destaque  no  cenário  local  e  do  seu 

14 


ESPIG,  Márcia  Janete.  O  uso  da  fonte  jornalística  no  trabalho  historiográfico:  o  caso  do 

Contestado.

 Estudos Ibero­Americanos

, Porto Alegre, PUCRS, v.XXIV, no. 2, p.269­289, dez.98 

15 

CAPELATO,  Maria  Helena  Rolim.



  Imprensa  e  História  do  Brasil

.  São  Paulo:  Contexto/Edusp, 

1998.



cotidiano, podemos contribuir para a preservação e difusão da memória da cidade 

e de seus cidadãos. 

Para pontuarmos  o  papel  de  Pedro  Adams Filho  como um  dos agentes do 

processo  de  industrialização do Vale,  devemos  lembrar  que  a  industrialização  no 

Rio Grande do Sul  iniciou  no  final  do  século XIX,  como  uma  importante  atividade 

econômica  que  prosperou e superou  as  expectativas criadas pelos  imigrantes  ao 

longo  da  passagem  do  trabalho  artesanal  para  produção  em  série  nas  fábricas, 

fazendo florescer cidades e criando um completo

 cluster

 produtivo no país. 

A  partir  das  definições  de  J.B.  Say  sobre  “empresário”,  como  um 

“organizador  e  coordenador  de  fatores  de  produção  que  compra,  combina  e 

vende”,  de  J.  Schumpeter  que  “atribuía  ao  empresário  o  papel  de  inovador,  de 

produtor do progresso técnico, de motor das transformações”, e de H. Pirenne que 

“propunha  a  tese  de  que  a  cada  período  da  história  econômica  corresponde  um 

grupo de capitalistas e, ao se transformarem as condições econômicas, parte dos 

capitalistas  não  se  adapta,  enquanto  outra  aceita  as  mudanças  e  trabalha  no 

mesmo  sentido  delas”, 

16 

procuraremos  pontuar  o  papel  de  Pedro  Adams  Filho 



como  um  dos  principais  agentes  do  processo  de  industrialização  no  Vale  dos 

Sinos e, em especial, na cidade de Novo Hamburgo. 

Essas  categorias  listadas  por  Eulália  Lobo,  reconhecida  historiadora  e 

proponente  da  ênfase  nas  pesquisas  e  na  importância  da  questão  empresarial, 

16 

LOBO,  Eulália  L.  História  Empresarial.  In:  CARDOSO,  Ciro  F.  &  VAINFAS, Ronaldo.



 Domínios 

da História: Ensaios de Teoria e Metodologia.

 Rio de Janeiro: Campus, 1997. p.217



indicaram­nos  estratégias  de  abordagem,  de  ação,  e  incentivaram­nos  a  seguir 

nossa investigação. 

17 

A  análise  das  origens  de  Novo  Hamburgo  e  da  indústria  calçadista,  por 



meio  da  trajetória  de  Pedro  Adams  Filho,  muitas  vezes,  confundem­se,  e  temos 

como objetivo mais geral compreender a sociedade,  as relações sociais, políticas 

e  culturais  decorrentes  da  atividade  produtiva  e,  principalmente,  as  relações  de 

trabalho e o cotidiano da cidade. 

Este  trabalho,  longe  de  buscar  uma  história  linear  e  coerente  sobre  Pedro 

Adams,  busca  nas  ações  e  idéias  desse  político  suas  múltiplas  facetas.  Dessa 

forma,  nossa  pesquisa  tem  como  marco  temporal  principal  o  período  que  vai  de 

1901, com a instalação da

 Fábrica de Calçados Sul Rio­Grandense,

 até 1935, ano 

da  morte  de  Pedro  Adams  Filho.  Não  utilizaremos,  porém,  esse  período 

demarcado de forma rígida, já que algumas questões do final do século XIX serão 

abordadas,  pois  são  importantes  para  compreendermos  sua  trajetória  pessoal  e 

profissional. 

Pedro  Adams  Filho  viveu  entre  1870  e  1935.  Buscamos  nas  fontes,  na 

historiografia  e  junto  aos  seus  familiares,  além  de  testemunhos  de  sua  história, 

responder aos seguintes problemas de pesquisa: 

1º. Quais os tipos de empreendedores encontradiços no contexto de Pedro 

Adams Filho? 

17 


Ibidem, p. 217, 218.


2º. Por que Pedro Adams Filho foi lembrado para ser o nome de uma das 

principais avenidas de Novo Hamburgo? 

3º.  Quais  foram  as  estratégias  escolhidas  por  Pedro  Adams  Filho  para 

construir  sua  liderança  no  setor  coureiro­calçadista,  na  vida  comunitária  e  na 

emancipação política de Novo Hamburgo? 

Para  conseguirmos  responder  essas  questões,  a  partir  dos  marcos 

cronológicos  assinalados,  realizamos  esta  investigação,  que  dividimos  em  três 

capítulos, como segue: 

No primeiro capítulo, tratamos do contexto histórico e dos empreendedores 

coloniais,  ou  seja,  identificamos  a  conjuntura  político­econômica,  privilegiando  a 

origem  e  a  evolução  da  indústria  do  Estado  do  Rio  Grande  do  Sul  e  o  cotidiano 

das cidades onde Adams viveu a sua infância e juventude. Além disso, analisamos 

o  papel  de  vários  empreendedores  gaúchos,  como  Alberto  Bins  e  Ernesto 

Neugebauer,  de  Porto  Alegre;  Carlos  Oderich  e  A.J.  Renner  do  Vale  do  Caí;  e 

Guilherme Ludwig, Arthur Haas, Augusto Jung, Pedro Alles  e Arlindo Spindler, do 

Vale  do  Sinos.  Esses  empresários  representaram  algumas  lideranças  industriais 

do  Estado,  e  acabaram  tornando­se  referências  que  delimitavam  e  balizavam  as 

ações  de  dinamismo  e  sucesso  como  indivíduos  que  superaram  a  situação 

colonial  na  qual  têm  origem,  e  contribuíram  para  a  industrialização  e  expansão 

econômica  do  Estado  nas  áreas  de  transporte,  na  metalurgia,  em  curtume,  em 

fábrica  de  calçados,  de  bolsas,  de  molduras,  de  vestuário,  de  conservas  e  de 

doces.



O  caráter  empreendedor  desses  industriais  teuto­brasileiros  apresenta­se 

não apenas no âmbito econômico, pois sua influência política e comunitária deixou 

vestígios de outras ordens. Através da análise desses traços deixados por eles e, 

mais  especificamente,  por  Pedro  Adams  Filho  na  vida  da  comunidade,  podemos 

compreender  como  ele  se  relacionou  com  as  pessoas  que  o  cercavam  por  meio 

das  rotinas  e  fatos  do  trabalho,  da vida  social,  da  vida  cultural  e,  principalmente, 

entender  os  desdobramentos  de  suas  decisões  políticas  e  econômicas  com 

relação à história de Novo Hamburgo. 

Nesse  capítulo, 

analisamos 

categoria 



empreendedorismo 

nas 


comunidades  coloniais,  que  passavam  por  um  processo  de  transformação  da 

atividade  artesanal  para  a  indústria  moderna,  cujo  acompanhamento  ensejou  a 

trajetória comum entre esses empreendedores. 

Adotamos  o  conceito  de  Gimenez  de  que  “o  empreendedorismo  é  o 

resultado  tangível  ou  intangível  de  uma  pessoa  com  habilidades  criativas,  sendo 

uma  complexa  função  de  experiências  de  vida,  oportunidades,  habilidades  e 

capacidades individuais e o seu exercício está inerente a variável risco.” 

18 


No segundo capítulo, abordamos o desenvolvimento e a formação do setor 

coureiro­calçadista e o desenvolvimento da cidade de Novo Hamburgo como pólo 

industrial.  Para  isso  tratamos  da  história  da

  Fábrica  de  Calçados  Sul  Rio­ 

Grandense

 e do


 Curtume Hamburguez

, ambos de propriedade de Adams, a partir 

do  sentido  simbólico  e  prático  do

  design


  de  calçados  na  época,  das  exposições 

18 


GIMENEZ,  Fernando  et  al.  Uma  investigação  sobre  a  tendência  do  comportamento  do 

empreendedor. In:

 Empreendedorismo

: competência essencial para pequenas e médias empresas. 

Brasília: ANPROTEC, 2001.



industriais  que  aconteceram  na  cidade,  das  relações  trabalhistas  e  do 

fornecimento de energia elétrica para as empresas e cidade. 

A  problemática  desse  capítulo  forma­se  em  torno  das  características, 

escolhas e ações no que tange à formação do

 cluster

 coureiro­calçadista. 

O  terceiro  capítulo  trata  das  atividades  políticas  e  comunitárias  de  Pedro 

Adams Filho, com vistas a apresentar fatos pouco divulgados da história de Novo 

Hamburgo, como o da criação do colégio São Jacó. O capítulo também analisa a 

participação  política desse homem,  para  atualizar o  contexto de emancipação  de 

Novo  Hamburgo  do  município  de  São  Leopoldo,  para  tornar­se  o  município  de 

menor tamanho do Estado do Rio Grande do Sul e futura sede do pólo econômico 

do Vale dos Sinos. Preocupamos­nos em narrar, ainda, o apoio para tal fato, dado 

pelo Partido Republicano Rio­Grandense. Por fim, registramos dados sobre a vida 

familiar  de  Adams,  sua  relação  com  os  filhos, com  netos  e  a  sua  morte  que  são 

pouco conhecidos acerca do personagem cujo nome consta da placa da principal 

avenida de Novo Hamburgo. 

Na  complementação  da  pesquisa,  oferecemos  uma  cronologia  que  aponta 

para  os  principais  acontecimentos  da  vida  de  Adams,  pois,  segundo  Borges,  um 

esquema cronológico é necessário para ajudar na ordenação dos acontecimentos 

no tempo, já que o percurso de uma vida não é linear, mas descontínuo. 

19 


19 

BORGES,  Vavy  Pacheco.  Grandezas  e  misérias  da  biografia.  In:  BORGES,  Vavy  Pacheco.

 

Fontes Históricas



. São Paulo: Ática, 2004. p.221, 224.


Nos anexos desta tese, disponibilizamos uma série de documentos, muitos 

inéditos e pertencentes a arquivos particulares. 

Esperamos,  com  este  trabalho,  contribuir  para  o  conhecimento  de  vários 

aspectos  ainda  pouco  divulgados  sobre  a  história  política,  econômica  e  social  de 

Novo  Hamburgo  e  sobre  um  de  seus  empreendedores,  atualmente  lembrado 

apenas como nome de rua.




CAPÍTULO 1 – EMPRESAS E EMPREENDEDORES COLONIAIS 

1.1 – Um novo impulso econômico 

Neste  capítulo,  vamos  traçar  as  principais  análises  históricas  de  cunho 

econômico  social  no  Vale  do  Sinos  do  final  do  século  XIX  até  os  anos  1930, 

cenário  e  balizas  cronológicas  da  vivência  e  atuação  empreendedora  de  Pedro 

Adams Filho. 

20 

Em  consonância  com  Henri  Pirenne,  que  afirma  que  “a  cada  período  da 



história  econômica  corresponde  um  grupo  diferente  de  capitalistas  e,  ao  se 

transformarem  as  condições  econômicas,  parte  dos  capitalistas  não  se  adapta, 

enquanto outra parte aceita as mudanças e trabalha no mesmo sentido delas” 

21

 



,

 

optamos  em  lembrar,  neste  capítulo,  que  outros  empresários  de  origem  alemã, 



além  de  Pedro  Adams  Filho,  participaram  da  expansão  e  diversificação  industrial 

do  Estado  gaúcho  por  demonstrarem  características  e  ações  empreendedoras, 

como,  por  exemplo,  Alberto  Bins  (1869­1930),  Guilherme  Ludwig  (1878­1954), 

20 


Segundo  FRAGOSO, João  & FLORENTINO,  Manolo.  História  Econômica.  In:  CARDOSO,  Ciro 

Flamarion & VAINFAS, Ronaldo (org)

 Domínios da História

 – Ensaios de Teoria e Metodologia. Rio 

de  Janeiro:  Campus,  1997.  p.33,  os  fenômenos  sociais  devem  ser  apreendidos  como históricos, 

isto é, devemos levar em conta a sua pertinência temporal mais ampla. 

21 

PIRENNE,  Henri  apud  LOBO,  Eulália L.  História  Empresarial.  In:  CARDOSO,  Ciro  Flamarion & 



VAINFAS, Ronaldo (org)

 Domínios da História

 – Ensaios de Teoria e Metodologia. Rio de Janeiro: 

Campus, 1997. p. 217




Arthur  Haas  (1868­1945),  Augusto  Jung  (1861­1925),  Pedro  Alles  (1888­1975), 

A.J.  Renner  (1884­1966),  Adolfo  Oderich  (1890­1908),  Ernesto  Neugebauer 

(1887­1896) e Arlindo Spindler (1907­1994). 

O  Estado  gaúcho,  no  final  do  século  XIX  e  início  do  XX  conheceu  um 

considerável  desenvolvimento  das  lavouras  coloniais  alemãs,  que  passaram  a 

abastecer grande parte do mercado interno do centro do País. 

22 

Depois  da  agricultura,  o  comércio  realizado  pelos  alemães  foi  a  atividade 



econômica  que  mais  se  destacou  no  Estado,  pois  os  comerciantes  lucravam  em 

várias  frentes:  na  diferença  entre  os  preços  de  compra  e  venda  dos  produtos 

agrícolas,  no  transporte  desses  produtos  e  nos  empréstimos  e  outras  operações 

financeiras  realizadas  por  eles.  Segundo  Telmo  Moure,  “o  artesanato  familiar 

estava fadado a morrer diante do desenvolvimento da agricultura comercial, cujos 

recursos  monetários  capacitavam  o  agricultor  na  aquisição  de  produtos 

necessários em troca de seu excedente comercializado.” 

23 


Com a crise da pecuária gaúcha a partir de 1870, foram esses imigrantes e 

seus  descendentes  que  colocaram  seus  produtos  como  itens  da  pauta  das 

exportações. Por isso, eles passaram a representar um dos pólos de dinamicidade 

na  economia  local  na  função  de  serem  detentores  de  poder  aquisitivo  mais  alto 

que o da média da população em geral. 

24 


22 

MOURE,  Telmo.  A  inserção  da  economia  imigrante  na  economia  gaúcha.  In:  DACANAL,  José 

Hildebrando (org)

 RS:Imigração & Colonização

. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1980.p.96 

23 


Ibidem, p. 98 

24 


Ibidem


A  economia  gaúcha  tinha  algumas  peculiaridades  que  a  diferenciavam  da 

economia  do  centro  do  País,  pois,  no  Rio  Grande  do  Sul,  a  produção  era 

basicamente agropecuária e subordinada à agroexportação, ou seja, era uma das 

responsáveis  pelo  abastecimento  do  mercado  interno  brasileiro  com  produtos  de 

baixo  valor  agregado,  o  que  representava  para  o  Estado  um  menor  poder  de 

acumulação de capital comparado aos Estados do Sudeste. 

25 

Entretanto,  mesmo  existindo  núcleos  com  considerável  desenvolvimento 



econômico, como as regiões dominadas por imigrantes alemães e italianos, era a 

pecuária, ainda, a base econômica do Estado. 

26 

A  posição  econômica  subsidiária  do  Rio  Grande  do  Sul  manteve­se 



inalterada com o advento da República. A pecuária, principalmente com o charque 

e o couro, continuava a ser o principal  item  de exportação gaúcho, entretanto, as 

charqueadas  gaúchas,  durante  a  República  Velha,  sofreram  concorrência  do 

charque  dos  países  do  Prata  e  de  outros  estados  brasileiros,  que  voltaram  suas 

atividades econômicas para o mercado interno. Além dessa concorrência, a baixa 

qualidade  do  produto  sulino  e  o  alto  preço  do  sal  e  do  transporte  deixaram  os 

charqueadores  em  condições  desfavoráveis,  pois  não  eram  consideradas 

prioridades  para  o  governo  central,  que  nada  fazia  para  resolver  esses 

problemas. 

27 


25 

PESAVENTO,  Sandra  Jatahy.  República  Velha  Gaúcha:  “Estado  Autoritário  e  Economia”.  In: 

DACANAL, José Hildebrando & GONZAGA, Sergius (orgs.)

 RS:Economia & Política

. Porto Alegre: 

Mercado Aberto.1979. p.200,201 

26 

Ibidem, p. 214 



27 

Ibidem, p. 199




Segundo  Heloísa  Reichel, 

28 


durante  a  Primeira  República,  o 

desenvolvimento  da  indústria  gaúcha  teve  um  bom  desempenho  no  conjunto  da 

indústria  nacional.  O  Rio  Grande  do  Sul,  segundo  estatística  industrial  de  1907, 

ocupava o terceiro lugar no desenvolvimento industrial brasileiro. Para a autora, a 

existência de um mercado consumidor, formado principalmente pelos imigrantes e 

a  expansão  das  exportações  gaúchas,  consistiam  nos  principais  fatores  de 

dinamização da economia gaúcha. 

O  governo  estadual  concedeu,  então,  incentivos  fiscais  que  acabaram 

trazendo  empresas  estrangeiras  ao  Estado  (ARMOUR,  WILSON  e  SWIFT)  que 

impulsionaram a charqueada gaúcha. 

29 

Da  mesma  forma  que  a  pecuária  passou  por  problemas,  a  agricultura 



praticada  pelos  imigrantes  também  estava  com  dificuldades  naquele  início  de 

século  em  função  da  concorrência  com  outros  Estados,  de  problemas  com  o 

esgotamento da terra, da sua divisão entre seus descendentes e a exploração dos 

comerciantes,  que  ficavam  com  a  maior  parte  dos  lucros  provenientes  da  venda 

dos produtos agrícolas dos colonos. A expansão do comércio rumo ao Prata, além 

do abastecimento do mercado interno brasileiro e dos países envolvidos na guerra 

de 1914, foi uma das maneiras de contornar a crise. 

30 


Com a Primeira Guerra Mundial, com o aumento do consumo do charque e 

com  os  charqueadores  unidos  em  um  órgão  de  classe  apoiado  pelo  governo 

28 

REICHEL,  Heloísa  Jochims.



  A  indústria  têxtil  do  Rio  Grande  do  Sul­1910/1930

.Porto  Alegre: 

Mercado Aberto, 1980.p.13 

29 


PESAVENTO, op. cit. p.216 

30 


LOVE, Joseph.

 O Regionalismo Gaúcho

. São Paulo: Perspectiva, 1975. p. 117.



estadual,  a  situação  alterou­se  a  ponto  de  os  estancieiros  se  interessarem  em 

criar um frigorífico no Rio Grande do Sul, a exemplo do que já ocorria no Prata. 

Portanto, até os anos 20 do século passado a economia apresentava­se em 

boa fase, com o aumento de preços dos produtos e o aumento da exportação. 

Nessa  mesma  conjuntura,  a  indústria  também  se  desenvolveu,  a  exemplo 

do que vinha ocorrendo em São Paulo, pois a acumulação de capital por parte dos 

imigrantes  que  possuíam  comércio,  a  formação  de  um  mercado  regional  nas 

colônias e na cidade, a matéria­prima da pecuária e a mão­de­obra imigrante eram 

fatores que impulsionavam o desenvolvimento industrial de forma quase natural. 

Aliada  a  esses  fatores  locais,  o  governo  central  promoveu  uma  política 

econômica  que  desestimulou  a  importação  e  facilitou  o  crédito  bancário 

(Encilhamento 

31 

).  Isso  levou  a  um  desenvolvimento  industrial  bastante 



concentrado no final do século  XIX, centrado no Rio Grande do Sul, na produção 

de alimentos e bebidas (banha, conservas, vinho e cerveja), nos produtos têxteis e 

na indústria de calçados. 

Segundo  Claudia  Wasserman 

32 

,  durante  a  República  Velha,  o  Rio  Grande 



do  Sul apresentava­se de  forma  peculiar, tanto  política,  quanto  economicamente, 

pois  tinha  sua  economia  voltada  para  o  mercado  interno,  enquanto  os  principais 

produtos  econômicos  nacionais  eram  basicamente  destinados  à  exportação.  No 

31 


Política  emissionista  criada  pelo  Ministro  da  Fazenda  Rui  Barbosa  na  tentativa  de  estimular  a 

industrialização  do  Brasil,  baseada  em  créditos  livres  aos  investimentos  industriais,  garantidos 

pelas emissões monetárias. 

32 


WASSERMAN, Claudia. O Rio Grande do Sul e as elites gaúchas na Primeira República: guerra 

civil e crise no bloco do poder. In: GRIJÓ, Luiz Alberto et alli.

 Capítulos de História do Rio Grande 

do Sul


. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004. p.275


cenário nacional, não era considerado um Estado importante politicamente, como 

Minas  Gerais  e  São  Paulo,  mas  também  não  era  um  Estado

  “fraco”

 como  os  do 

Nordeste. 

Entretanto,  mesmo  se  o  comerciante  de  origem  imigrante  tivesse  poder 

econômico,  segundo  Pesavento,  sua  participação  política  praticamente  inexistia, 

visto que esta era dominada pelos pecuaristas durante toda a República Velha. Os 

comerciantes com poder econômico alto e condições de uma participação política 

mais  efetiva  eram  os  representantes  dos  pequenos  proprietários  frente  à 

oligarquia pecuária. 

Dentro  desta  perspectiva,  cabe  referir,  entre  os  elementos  que  irão,  ao 

longo  da  Primeira  República,  compor  os  grupos  secundários  de  maior 

expressão, os imigrantes e seus descendentes, presentes no comércio e 

na  indústria.  Crescem,  desenvolvem­se  e  são  atendidos  em  suas 

reivindicações 

dentro 

de 


um 

contexto 

predominantemente 

agropecuarista. Podem inclusive até alcançar cargos na estrutura política 

vigente, desde que se mostrem defensores da ordem estabelecida. 

34 


Politicamente,  o  Estado  também  dependia  das  decisões  tomadas  pelo 

poder  central,  o  que  gerava  outros  tipos  de  descontentamentos  que  foram  os 

responsáveis  pela  criação  do  Partido  Republicano  Rio­Grandense  (PRR),  dentro 

de  um  quadro  político  em  que  o  Partido  Liberal  era  dominante.  O  PRR  procurou 

buscar representantes  em outras bases, como os imigrantes  ligados  ao comércio 

e  indústria,  que  ainda  não  se  faziam  representar.  Buscou,  também,  uma  aliança 

com o exército, o que lhe deu forças para se impor. 

33 


PESAVENTO,  Sandra  Jatahy.  O  imigrante  na  política  rio­grandense.In:DACANAL,  José 

Hildebrando (org)

 RS:Imigração & Colonização

. Porto Alegre: Mercado Aberto,1980. p. 170. 

34 

Ibidem, p.171




É nesse contexto que o  ideário positivista se impõe no Rio  Grande  do Sul, 

pois  suas  noções  básicas  “pressupõem  uma  perspectiva  de  progresso  material 

sem  alteração  da  estratificação  social,  adequada,  portanto,  às  perspectivas  de 

grupos interessados na conservação de posições conquistadas.” 

35 

Esse quadro político e econômico do País e do Estado é importante de ser 



apresentado,  pois  foi  nessa  conjuntura  que  Pedro  Adams  Filho,  assim  como 

outros  empreendedores  novo­hamburguenses,  percebeu  a  possibilidade  de  abrir 

uma empresa e posicioná­la dentro desse contexto regional. 

Nesse  sentido,  para  compreendermos  melhor  a  ligação  entre  a 

industrialização  de  Novo  Hamburgo,  o  empreendedor  e  a  emancipação  do 

município,  devemos  referir­nos  às  teses  a  respeito  da  origem  e  da  evolução  da 

indústria no Rio Grande do Sul. 

A primeira delas é de Limeira Tejo 

36 

, que no final dos anos 1930, defendia a 



tese  de  que  foi  o  artesanato  que  originou  as  indústrias  do  ramo  calçadista. 

Segundo esse autor, o gaúcho foi obrigado a prover o mercado local de produtos 

que  não  eram  possíveis  de  serem  consumidos  em  função  do  quase  isolamento 

que  existia  entre  o  Sul  e  o  centro  do  País.  Esse  isolamento  forçou  a  produção 

daquilo que o mercado necessitava e que não estava sendo devidamente suprido, 

ou  seja,  foi  a  demanda  local  a  impulsionadora  da  produção  artesanal  que  se 

35 

Ibidem, p. 205 



36 

TEJO,  Limeira.  A  indústria  rio­grandense  em  função  da  economia  nacional.  In:

  Estatística 

industrial do Rio Grande do Sul – Ano de 1937

. Porto Alegre: Globo, 1939.



transformou  em  industrial.  Houve,  portanto,  um  desenvolvimento  harmônico  das 

forças produtivas locais. 

37 

No  início  dos  anos  1960,  Jean  Roche 



38 

faz  uma  análise  mais  minuciosa 

dessa  questão.  Segundo  o  autor,  a  maior  parte  das  indústrias  do  couro  não  foi 

criada  por  artesãos  rurais,  mas  por  citadinos  que  muitas  vezes  desconheciam  o 

trabalho  artesanal.  Roche  acreditava  que  não  houve  uma  passagem  direta  do 

artesanato  para  a  indústria,  dizia  que  o  artesanato  estava  inscrito  numa  curva 

parabólica seguido da indústria que traçava uma linha ascendente. 

39 


Segundo  Roche,  não  podemos  considerar  o  artesanato  o  gerador  da 

indústria.  Ao  contrário,  as  tarifas  alfandegárias,  as  oscilações  do  câmbio,  o 

crescimento  do  mercado  consumidor  e  do  transporte  marítimo  foram  muito  mais 

decisivos  para  o  desenvolvimento  industrial  do  que  a  existência  do  artesanato 

colonial.  Apenas  em  algumas  atividades  industriais  é  que  houve  essa  ligação 

artesanato­indústria. 

Para  Roche,  as  tentativas  de  industrialização  até  1890  foram  ínfimas,  e 

salienta  o fato  de  não  existirem estatísticas  até  o ano  de  1907,  apenas  os dados 

37 

Ibidem, p.19,20. 



38 

ROCHE,  Jean.  A  colonização  alemã  e  o  Rio  Grande  do  Sul.  Porto  Alegre:  Globo,  1969. 

v.2.p.498­506. A primeira edição dessa obra é de 1962. 

39

 



(…) O artesanato rural progredia ao mesmo tempo que aumentavam a população e a produção 

agrícolas. Depois que se separaram da agricultura, certos artesãos puderam viver exclusivamente 

de seu ofício, mas não deixaram de estar solidários com os camponeses, seus clientes: seu papel 

diminuiu quando a  produtividade das  terras baixou e se  tornou insuficiente para  manter  todos os 

habitantes  da  região.Nem  sua  instalação,  nem  suas  reservas  lhes  permitiam  abandonar  a 

povoação  ou  a  vila.  Podem,  no  melhor  dos  casos,  aí  subsistir  por  vezes,  no  âmbito  das 

manufaturas  e  das  indústrias  que  se  desenvolveram  nas  cidades,  mas  que  ordinariamente  os 

eliminam.  Houve,  por  conseguinte,  antagonismo  ou,  pelo  menos,  hiato  entre  o  artesanato  e  a 

indústria, e não passagem harmoniosa de um a outro

. Ibidem, p.502.




das  exposições  industriais  de  Porto  Alegre,  o  que  dificulta  o  mapeamento  da 

economia desse período. 

40 

Mais  no  final  dos  anos  1960,  Paul  Singer 



41 

discorda  da  teoria  de  Tejo, 

dizendo  que  não  houve  um  desenvolvimento  harmônico,  mas  contraditório.  Para 

ele, o artesanato já não existia quando surgiu a indústria, pois o artesão não tinha 

condições  de  concorrer  com  produtos  estrangeiros  importados,  ou  seja,  o 

artesanato,  muito  antes  de  ser  a  origem  da  indústria,  era  um  obstáculo  que 

deveria ser transposto. A indústria, portanto, já encontrou um mercado instituído. 

Já  nos  anos  1980,  Eugenio  Lagemann 

42 

realizou  um  importante  apanhado 



das diferentes concepções acerca da origem industrial do Estado. Segundo ele, a 

relação  entre  imigração  e  industrialização  não  é  tão  automática  como  parte  da 

historiografia  tende  a  acreditar,  ou  seja,  o  imigrante  alemão  e  o  italiano  foram 

importantes  nesse  processo,  mas  não  foram  os  primeiros  responsáveis  por  ele. 

Aos  imigrantes  deve  ser  creditada  a  expansão  das  atividades  industriais  e  a  sua 

especialização  e  ramificação,  mas  não  a  criação  da  indústria  no  Estado,  pois 

esteve  ausente  da  principal  atividade  econômica  sulina  que  foi  a  charqueada.  O 

imigrante,  portanto,  quando  aqui  chegou  já  encontrou  uma  organização  social 

formada, e apenas integrou­se a ela. 

40 


Segundo Roche em 1874 havia no RS apenas 34 empresas dirigidas por alemães e nesse ano 

foi  fundado  a  primeira  “verdadeira”  indústria  do  estado:  a  fábrica  de  fiação  Rheingatz.  Ibidem, 

p.504,505 

41 


SINGER,  Paul.

  Desenvolvimento  econômico  e  evolução  urbana

.  São  Paulo:  Nacional, 

1968.p.169,170,171. 

42 

LAGEMANN,  Eugenio.  Imigração  e  Industrialização.  In:  DACANAL,  José  Hildebrando 



(org.)

RS:Imigração e Colonização

. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1980.



Com relação ao surgimento da indústria, o mesmo autor afirma que a idéia 

de  que  ela  tenha  surgido  do  desenvolvimento  do  artesanato  não  pode  ser 

considerada regra geral, pois a maioria das indústrias teve sua origem mais ligada 

ao comércio, que era a atividade econômica que apresentava melhores condições 

de  acumulação  de  capitais  e,  conseqüentemente,  de  aplicação  desse  capital  em 

outros setores econômicos, como a indústria. O comércio dava­se em três níveis: 

as  vendas  coloniais,  que  tinham  um  contato  direto  com  o  colono;  o  comércio 

intermediário  em  colônias  maiores  e  o  grande  comércio  de  Porto  Alegre;  e  o 

capital decorrente dessa atividade  estava presente em diversos  ramos industriais 

que  necessitavam  de  maior  investimento  que  uma  pequena  propriedade  agrícola 

poderia oferecer, como nas indústrias têxteis, nas de alimentos, nas de tabaco, e 

nas de cervejarias. 

43 

Entretanto,  mesmo  concordando  com  as  afirmações  de  Lagemann, 



lembramos  que  muitas  das  indústrias  do  setor  coureiro­calçadista  do  Vale  dos 

Sinos, que são o foco do nosso trabalho, tiveram origem no artesanato. 

44 

Ainda  nos  anos  1980,  Lígia  Gomes  Carneiro 



45 

fez  uma  minuciosa  análise 

da  industrialização  no  Estado,  e  apontou  as  condições  propícias  para  o  seu 

desenvolvimento,  como  a  existência  de  um  mercado  consumidor  (mais 

desenvolvido  na  zona  colonial),  de  uma  ferrovia  ligando  a  região  à  capital  (em 

1874 foi construída a ferrovia que ligava Porto Alegre a São Leopoldo, e, em 1876, 

43 

Ibidem, p.128. 



44 

Não existe  um levantamento de dados que possa afirmar o número de empresas que  surgiram 

do artesanato no Vale do Sinos. 

45 


In:

 Trabalhando o couro

 – Do serigote ao calçado “made in Brazil”. Porto Alegre: L&PM/CIERGS, 

1986.



essa  ferrovia  foi  estendida  até  Novo  Hamburgo,  o  que  facilitou  muito  o  comércio 

entre estas cidades) e a um certo isolamento econômico do Rio Grande do Sul em 

relação  ao  resto  do  País.  Entretanto,  a  disponibilidade  de  capitais  necessários 

para serem investidos na indústria e as inovações técnicas para uma produção em 

maior escala, também eram fatores fundamentais para esse processo. 

A autora acredita que os capitais investidos nas fábricas tiveram origem na 

agricultura  e  nas  atividades  comerciais  ligadas  a  ela e que o trabalho  do  artesão 

foi  substituído  muito  lentamente  pelo  do  operário  especializado,  inclusive  houve 

uma coexistência entre o artesanato e a indústria moderna durante muito tempo. 

Carneiro afirma  que havia uma coexistência  nas  formas de produção,  mas 

que  os  produtos  não  disputavam  as  mesmas  fatias  de  mercado,  pois  as  classes 

mais  abastadas  compravam  calçados  importados;  os  que  estavam  um  pouco 

abaixo  desse  grupo  compravam  os  calçados  feitos  sob  encomenda,  as  classes 

médias, os produtos desenvolvidos pelas fábricas e os agricultores e operários os 

calçados produzidos pelos artesãos. 

Entretanto,  é  difícil  comprovar  que  o  capital  necessário  para  a 

industrialização tenha vindo do artesanato, embora, nesse aspecto, a indústria do 

calçado  fosse  privilegiada,  pois  precisava  de  pouco  investimento  e  nem  todos  os 

artesãos tinham condições de acumular o capital necessário para tal investimento. 

Muitas fábricas, inclusive, tiveram seu capital inicial surgido do comércio. 

46

 

46 



[...]

 Embora as informações sobre a origem do capital aplicado nas indústrias sejam escassas, é 

possível  afirmar  que,  ao  menos  nas  maiores  fábricas,  existiam  investimentos  vindos  de  outros 

setores,  enquanto  que  nas  pequenas  unidades  era  mais  utilizado  o  capital  acumulado  pelos 

artesãos. É pouco provável que se tenha verificado um processo de crescimento progressivo, onde



Outro  autor  que,  mais  recentemente,  faz  uma  análise  muito  oportuna  para 

essa tese é Sergio Schneider 

47 

que trata da pluriatividade praticada pelos colonos 



no Rio Grande do Sul e suas relações com a indústria calçadista. Embora o autor 

trate mais especificamente das décadas de 1970 e 1980, ele faz uma abordagem 

histórica  das  transformações  sociais,  econômicas  e  culturais  do  Vale  do  Rio  dos 

Sinos e de seu desenvolvimento local desde a chegada dos imigrantes. 

Schneider  diz  que  as  teses  da  origem  da  indústria  de  calçados  e  das 

atividades  a  ela  ligadas,  como  o  curtimento  do  couro,  constitui  um  tema 

controverso  e  desenvolve  o  conceito  de  “industrialização  difusa”  para  explicá­la. 

Segundo  ele,  este  conceito,  pouco  conhecido  no  Brasil,  vem  sendo  utilizado  na 

Europa para tentar explicar o processo de industrialização de algumas regiões da 

Itália, Portugal e Espanha. 

O  autor  afirma  que  as  teses  que  procuram  explicar  o  início  da 

industrialização  no  Vale  do  Sinos,  embora  tenham  trazido  contribuições 

importantes, deixam muitas lacunas. A primeira delas diz respeito à debilidade da 

acumulação  de  capital  e o problema da elasticidade  da  estrutura  agrária gaúcha, 

pois 

[...] tanto a teoria da substituição de importações quanto a da acumulação 



de  capitais  via  expropriação  do  campesinato  colonial  parecem  atribuir 

pouca  importância ao  fato de  que  a  comercialização do produto colonial 

dos  pequenos  agricultores,  pelo  menos  no  período  inicial  da 

industrialização  (até  a década de 1950), e a expansão da zona pioneira,

 

as firmas passavam sucessivamente pelas fases de artesanato, pequena, média e grande fábrica, 



pois o salto que permitia passar de média para grande era muito difícil de ser dado, a não ser que 

houvesse  uma  fonte  de  capital  que  não  o  simples  reinvestimento  das  economias  poupadas  na 

própria indústria.

 [...] Carneiro, op.cit. p.65 

47 

SCHNEIDER,  Sergio.



  Agricultura  familiar  e  industrialização

  –  Pluriatividade  e  descentralização 

industrial no Rio Grande do Sul. 2.ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004.



funcionavam  com  base  em  uma  racionalidade  que  mais  se  caracteriza 

pela busca da reprodução familiar do que pela acumulação. [...] 

48 

Ele  critica,  também,  a  tese  do  crescimento  orgânico  do  artesanato  até  a 



fábrica, pois assevera que carece de sustentação empírica e “faz uma apologia da 

ideologia  do  self­made­man,  do  colono  que  se  tornou  empresário,  forjando  um 

processo de industrialização em seu rastro.” 

49 


A  segunda  lacuna  que  ele  mostra  existir  é  especificamente  aquela 

relacionada  ao  processo  de  industrialização  do  setor coureiro­calçadista,  pois diz 

que  é  apenas  por  meio  das  análises  de  casos  que  podemos compreender  como 

aconteceu  esse  processo.  As  generalizações  com  base  no  estudo  de  outros 

ramos da indústria não contribuem para essa análise. 

Schneider  afirma  que  a  atividade  artesanal  sempre  foi  praticada  pelos 

colonos como complemento das atividades agrícolas, a agricultura e o artesanato 

faziam  parte  de  um  mesmo  modo  de  viver.  Entretanto,  a  diversificação  desse 

artesanato  sempre  esteve  acompanhada  pela  expansão  do  comércio. 

50 


Desse 

modo,  o  autor  mostra  a  estreita  ligação  existente  entre  os  diversos  setores 

econômicos:  artesanato,  comércio  e  indústria,  assumindo  esse  conceito  de 

industrialização  difusa,  ou  seja,  não  generalizando  explicações,  mas  tentando 

entender as especificidades do setor coureiro­calçadista e do Vale do Sinos. 

48 


Ibidem, p. 51 

49 


Ibidem 

50 


[...]

  a  estreita  ligação  entre  agricultura  e  o  artesanato  colonial  respondia  às  necessidades 

elementares  dos  colonos  tanto  por  produtos  para  uso  próprio  como  para  vender  ou  trocar  seu 

artesanato  por  outras  mercadorias.  Para  o  colono,  o  artesanato  facilitava  o  trabalho  agrícola, 

permitia desfrutar de maior conforto e qualidade de vida e, às vezes, ainda possibilitava a obtenção 

temporária de rendas

. Ibidem, p.35



Porém,  a  região  do  Vale  do  Rio  dos  Sinos,  já  no  final  do  século  XIX, 

apresentava vários  fatores favoráveis  ao  desenvolvimento da indústria  calçadista, 

como  um  mercado  consumidor  com  poder  aquisitivo  para  adquirir  esse  produto, 

mão­de­obra  especializada  e  capital  acumulado  do  artesanato,  do comércio  e  da 

agricultura, atividade que não deixava de ser praticada. 

51 


Essas  breves considerações  de cunho  historiográfico a  respeito  da  história 

da  indústria  no  Vale  do  Sinos,  mostram­nos,  em  primeiro  lugar,  que  não  existe 

unanimidade  em  relação  a  essa  questão.  São  diversos  os  fatores  que  estão  na 

gênese da industrialização no Rio Grande do Sul, e tentar reduzi­los a um só não 

resolve  nosso  problema,  pelo  contrário,  é  exatamente  a  complexidade  da 

discussão que a torna interessante para esta tese. 

E, em segundo lugar, a questão polêmica aponta a análises de caso, como 

o  de  Pedro  Adams  Filho,  por  exemplo,  que  põe  em  pauta  uma  trajetória  de  vida 

que  envolve,  além  da  criação  pessoal  de  sua  empresa,  a  sua  participação  na 

história regional em que se insere. 

As  raízes  da  indústria  de  couro  em  Novo  Hamburgo  são  carentes  de 

investigação. Trata­se  de  um  tema que carece  de  análises  mais aprofundadas, e 

acreditamos que toda a empresa surgida no início do século XX no Vale do Sinos 

merece estudo apurado, que ligue seus fundadores, para além dos seus papéis de 

51 

[...]


 A indústria ocupava, inicialmente, os vários membros da família. Entusiasmados, entretanto, 

com a aceitação de seus produtos, os fabricantes mais ativos e que dispunham de algum recurso 

financeiro,  reuniram  outros  profissionais,  foram  montando  suas  fabriquetas  e  comercializando  o 

fruto  de seu  trabalho,  paralelamente  às  lides da  lavoura.

  [...]  COPETTI,  Américo.

  Monografia  da 

Indústria de Calçados do Rio Grande do Sul

. Porto Alegre: CORAG, 1976. p.23




capitães  de  indústria;  ligue­os  ao  de  construtores  da  história  política  de  seus 

municípios. 

1.2. 

Os empreendedores coloniais 



Optamos em lembrar, neste trabalho, outros empresários de origem alemã, 

contemporâneos  de  Pedro  Adams  Filho  que,  de  uma  forma  ou  de  outra,  foram 

responsáveis  pela  expansão  e  diversificação  industrial  do  Estado  gaúcho  a  partir 

da evidência de possuírem características empreendedoras. 

Todos  esses  empreendedores  formaram­se  a  partir  de  alguns  elementos 

comuns: a  origem teuto­brasileira,  a demonstração de competência para avançar 

do comércio para o modo produtivo artesanal e o impulso para implementação de 

processos  industriais  mais  complexos.  Eles  aproveitaram  e  ensejaram  o 

crescimento de Porto Alegre e adjacências enquanto os núcleos coloniais de onde 

eram oriundos cresciam, e transformavam­se  em  cidades. Nesse contexto,  foram 

beneficiados com o aumento do mercado interno regional que se tornou capaz de 

assimilar  e  acomodar  o  florescente  processo  de  industrialização  que 

capitaneavam. 

Deve  ser  pensada,  também,  quanto  à  atitude  empreendedora  desses 

homens,  a  sua  busca  por  atividades  que,  alicerçadas  por  pequenos  e  médios 

capitais, foram importantes para romper o ciclo agricultura­pecuária e buscar uma




modernização  econômica  para  o  Estado.  Nesse  sentido,  a  seguir  faremos  um 

breve  histórico  de  alguns  dos  empreendedores  de  origem  alemã,  para  situá­los 

nesse  contexto  de  transformações  da  matriz  produtiva  do  Rio  Grande  do  Sul  no 

início do século XX. 

Alberto  Bins,  filho  de  imigrantes  alemães,  nascido  em  1869,  estudou  na 

Alemanha  e  na  Inglaterra  durante  seis  anos.  Iniciou  sua  vida  profissional  como 

sócio  majoritário da empresa  de  metalurgia  de  E. Berta  que  passou a se chamar 

E. Berta & Cia., e que fabricava, principalmente, cofres, além de fogões, camas e 

móveis  de  ferro,  baldes  galvanizados  e  fechaduras  que  gozavam  de  grande 

prestígio. 

52 

Tão  logo  assumiu  a  empresa,  modernizou  seu  processo  de  trabalho  em 



função dos conhecimentos adquiridos em seus estudos no exterior. As máquinas e 

as matérias­primas eram, em sua maioria, importadas da Alemanha, da Inglaterra 

e dos Estados Unidos. 

Bins também era proprietário da fundição Phenix, essencial para o preparo 

do  ferro  e  outros  metais  empregados  na  fabricação  dos  diversos  produtos  que 

eram vendidos, não só no Estado, mas também no resto do País. 

52 

SOCIETÉ DE PUBLICITÉ SUD­AMERICAINE MONTE DOMECQ & CIA.



 O Rio Grande do Sul 

Colonial


. Paris/Barcelona: Estabelecimento Gráfico Thomas, 1918. p. 139, 140.


Além  da  empresa  de  metalurgia,  possuía  uma  propriedade  rural,  a  Granja 

Progresso, onde plantava uvas de duas variedades para produção de vinho tinto e 

branco 

53 


e uvas de mesa. 

Outra  atividade desenvolvida  por Bins era  o cultivo do  eucalipto  que servia 

para  defender  os  vinhedos  da  ação  dos  ventos  e  que,  pelo  seu  rápido 

desenvolvimento,  passou  a  ser  explorado  industrialmente  como  madeira  para 

construção e combustível. 

54 


Alberto  Bins  foi  vereador  na  Câmara  de  Porto  Alegre  de  1908  a  1913, 

quando, neste  mesmo  ano,  tornou­se  deputado  estadual  com  mandato  renovado 

por  mais  três  vezes.  Foi  vice­intendente  de  Porto  Alegre,  intendente,  além  de 

presidente  da  Associação  Comercial  de  Porto  Alegre,  um  dos  fundadores  do 

Banco Pelotense e do Centro da Indústria Fabril do RS. 

55 


Segundo  Bakos, “o  fato  de  ser  um homem bem sucedido nos  negócios  foi 

habilmente usado na campanha como argumento de garantia para o progresso de 

Porto  Alegre.” 

56 


Além  disso,  Bins  dizia­se  representante  das  classes  produtoras 

em  função  da  sua  participação  na  fundação  do  Sindicato  do  Arroz  e  da  VARIG, 

53

 

[...]  O  atual  proprietário,  não  só  na  plantação  da  vitis,  como,  também,  na  vinificação  sempre 



guiou­se pelos ensinamentos de seu antecessor: apresentar somente um produto natural, puro, de 

uva,  melhorado,  apenas,  pelo  tratamento  adequado  de  adega,  excluindo  todos  os  processos 

químicos de  melhoria.  Eis o segredo porquê  foram tão bem  acolhidos em  todos os  mercados  os 

produtos  desta  Granja  a  ponto  de  serem  vendidos  como  estrangeiros,  em  vasilhame  de 

fora..

.Ibidem, p.148. 



54

 

[...]  No  horto  experimental,  cultivam­se  32  diversas  variedades  de  eucaplitus,  que  são 



observadas e estudadas por um silvicultor competente, fornecendo os viveiros não só mudas para 

ampliar  a  plantação  da  Granja,  como,  também,  para  a  venda  a  outros  interessados  no  plantio 

dessa  preciosa  produção  que  se  presta,  não  somente  à  exploração  da  madeira,  mas,  ainda, 

favorece o criador, oferecendo a seu gado, nas invernadas rigorosas, um excelente abrigo

. Idem, 

p.148,149. 

55 

Ibidem, p.181 



56 

BAKOS, Margaret Marchiori.

 Porto Alegre e seus eternos intendentes

. Porto Alegre: EDIPUCRS, 

1996. p.62



primeira  empresa  aérea  comercial  do  país  e,  ao  mesmo  tempo,  propunha­se  a 

amparar ao operário, fundando em 1930 um comitê com essa finalidade. 

57 

Guilherme  Ludwig,  nascido  em  1878,  em  Bom  Jardim,  hoje  Ivoti,  distrito 



de São Leopoldo, veio para Novo Hamburgo em 1894 e, depois de seus primeiros 

anos  de  escola,  apenas  com  16  anos,  iniciou  suas  atividades  profissionais  como 

aprendiz de curtidor e seleiro no curtume

 Libório Müller

. Quatro anos mais tarde, já 

abriu seu próprio curtume, o

 Curtume Ludwig

 uma selaria e tamancaria, ampliando 

o trabalho artesanal do criador  do  primeiro curtume  em  Novo Hamburgo,  Nicolau 

Becker. 


A  força  motriz  de  seu  curtume  era,  inicialmente,  constituída  por  uma 

máquina  a  vapor  que  trabalhava,  principalmente,  na  preparação  de  couros  de 

porco,  de  camurça,  mouton,  marroquin  e  vaquetas  que  eram  fornecidas  a 

sapatarias,  selarias  e  correarias.  Além  do  couro  de  porco,  o  curtume  trabalhava, 

também,  com  o  couro  de  rês  e  produzia  tamancos,  chinelos,  solados  para 

calçados  e  outros  artigos.  Seus  produtos  eram  muito  bem  aceitos  e  os  pedidos 

costumavam  superar  a  produção,  o  que  levou  Ludwig  a  modernizar  a  produção 

adquirindo máquinas modernas de cortar e lustrar couro. 

Ludwig também se dedicou à cultura do eucalipto, utilizando alguns lotes de 

sua propriedade em Hamburgo Velho e vendendo a madeira para a usina elétrica. 

Além  das  atividades  industriais,  participava  da  vida  política  e  social  da 

comunidade integrando­se em todos os projetos relevantes para a cidade de Novo 

57 

Ibidem, p.63




Hamburgo.  Dentre  eles,  o  movimento  emancipacionista  que,  desde  o  início  dos 

anos  20,  já  vinha  se  delineando  na  ainda  vila  de  Hamburguer  Berg.  Ludwig  fez 

parte  da  “Liga  Pró  Villamento”,  formada  em  1926  e  que  junto  a  outros  nomes 

ligados  ao  movimento  foram  pessoalmente  recebidos  pelo  governador  do  Estado 

para tratar  das questões políticas  ligadas ao movimento.  Com  a emancipação  do 

município, em 1927, Ludwig foi eleito para o cargo de vice­intendente de Leopoldo 

Petry, primeiro intendente do município emancipado. 

Ludwig  foi  um  nome  importante  para  a  comunidade  de  Novo  Hamburgo, 

segundo  palavras  de  Monte  Domecq,  pois  “sempre  foi  um  espírito  progressista  e 

amante de melhoramentos, [...] um conceituado industrialista e sua fabrica merece 

figurar ao lado das mais ativas e interessantes do Estado do Rio Grande do Sul.” 

58 


58 

Conforme MONTE DOMECQ, op. cit.p.255




Figura 2 

­ 

Propaganda da empresa. 



59 

Arthur  Haas  nasceu  em  Dois  Irmãos  em  1868  e  mudou­se  para  Novo 

Hamburgo em 1885, onde empregou­se em uma selaria em que trabalhou por dez 

anos. 


Com  a  experiência  adquirida,  criou  uma  pequena  fábrica  para  produzir 

carteiras  de  couro  e,  segundo  Schütz, 

60 

percebendo  que  os  produtos  de  couro 



para viagem eram importados em sua maioria e notando a boa aceitação de suas 

carteiras,  criou uma  indústria  de  produtos  para  viagem em  Hamburgo  Velho,  que 

fabricava, entre  outros,  bolsas,  frasqueiras  e  malas.  Chamava­se  Arthur  Haas    & 

59 


Tribuna Illustrada, Porto Alegre, n.10, mai 1927. 

60 


SCHÜTZ, Liene M.Martins.

 Novo Hamburgo: Sua História, Sua Gente

. Porto Alegre: Palotti, 

1976. p. 103




Cia.  Seus produtos, de alta  qualidade, logo tiveram ampla aceitação, e passaram 

a  ser  comercializados  em  todo  país.  Em  1926,  sua  empresa  expandiu  os 

negócios, e iniciou a fabricação de calçados. 

Haas  também  participou  intensamente  da  vida  social  e  comunitária  da 

cidade. Foi um dos fundadores da Sociedade Frohsin, em que cantava no coral e 

participava  de  sua  orquestra  como  flautista.  Participou  também  ativamente  da 

Comunidade  Evangélica  de  Hamburgo  Velho  principalmente  apoiando  a  escola 

dessa comunidade. 

61 

Figura 3 



­ 

Propaganda da fábrica. 

62 

61 


PETRY,  Leopoldo.

  O  município  de  Novo  Hamburgo

  –  Monografia.  Porto  Alegre:  Edições  A 

Nação, 1944. 

62 

Tribuna Illustrada, Porto Alegre, n.10, mai 1927.




Augusto Jung nasceu em Estância Velha em 1861, e, em 1892, veio para 

Novo  Hamburgo,  onde  estabeleceu  um  comércio  de  chinelos,  o  primeiro  da 

cidade,  além  de  possuir  um  curtume  e  uma  fábrica  de calçados, que  em  1907  já 

empregava cerca de 50 operários. Sua produção era bastante representativa para 

a  época,  pois  ele  tinha  condições  de  vender  seus  produtos  para  Porto  Alegre. 

Além dos chinelos produzia  lombilhos, vaquetas e botinas e, como seus produtos 

eram muito bem cotados no mercado, muitas vezes não podia atender a todos os 

pedidos de compra. 

63 

Jung  é  considerado,  por  Paulo  Henrique  Kern,  o  pioneiro  do  comércio 



atacadista de Novo Hamburgo. 

64 


Além de suas atividades econômicas, participava ativamente das atividades 

sociais  e  comunitárias,  tendo  exercido  o  cargo  de  vice­presidente  da  Sociedade 

Ginástica por duas vezes. 

65 


Pedro Alles nasceu  em  Santa Maria  do  Herval  em 1888 e, desde criança, 

teve  que  trabalhar  em  função  de  sua  família  ser  de  origem  modesta,  segundo 

relato  de  sua  neta,  Ceiça  Alles. 

66 


Com  seis  anos  de  idade  veio  para  Novo 

Hamburgo,  mas  logo  foi  mandado  para  um  internato  religioso  em  Bom  Princípio, 

onde  era  obrigado  a  cumprir  pequenas  tarefas  para  pagar  seus  estudos.  Assim 

63

 



[...] A fábrica do sr. Augusto Jung, compreende duas seções principais: a primeira é um curtume 

a  vapor,  estabelecido  há  muitos  anos,  perfeitamente  organizado  e  cuja  produção  é  muito 

importante;  e  a segunda  uma  fábrica de  calçados  de  todas  as qualidades e  gostos,  que  produz 

igualmente chinelos, serigotes, caronas e todos os mais artigos de montaria, assim como artigos 

para  sapateiros:  essa seção  foi  organizada  há  menos  de  dois  anos  e  o  seu desenvolvimento  foi 

assombroso

. MONTE DOMECQ. O Rio Grande do Sul Colonial. Barcelona:Thomas, 1918.p.254. 

64 


KERN,  Paulo  Henrique.

  Ruas  &  Praças  de  Novo  Hamburgo

:  Quem  é  Quem.  2.ed.  Novo 

Hamburgo: Metrópole, 2002. p. 77 

65 

Monte Domecq, op. cit. p. 254. 



66 

Entrevista concedida por Ceiça Alles, neta de Pedro Alles em março de 2006.




que  saiu  dessa  escola,  foi  morar  em  Porto  Alegre,  e  trabalhou  na  área  de 

contabilidade  de  uma  empresa  onde,  depois  de  muita  labuta,  conseguiu  guardar 

algum dinheiro para abrir seu primeiro negócio: um ateliê fotográfico na capital. 

67 


Com sua pequena empresa estabelecida, e observando os hábitos de seus 

clientes,  conforme  Kern,  Alles  percebeu  que  as  pessoas  gostavam  de  emoldurar 

suas  fotografias  e que  as  molduras  eram escassas naqueles tempos. Viu  aí uma 

oportunidade  de  negócio  e  partiu  para  a  Alemanha,  em  1910,  a  fim  de  trabalhar 

em alguma empresa especializada e aprender a técnica de fazer molduras. 

68 


Assim  que  se  julgou  suficientemente  apto,  voltou  ao  Brasil  e  estabeleceu, 

em  Novo  Hamburgo,  em  1912,  a  primeira  fábrica  de  molduras  no  país,  a

  Pedro 

Alles.


 Seus produtos tiveram ampla e rápida aceitação, não só em nível local, mas 

também nacional. 

69 

67 


Foi  fotografando  em  seu  ateliê  que  Alles  conheceu  sua  futura  esposa,  Ludwina  Catharina 

Adams,  filha  de  Pedro  Adams  Filho,  que  tinha  por  hábito  levar  seus  filhos  à  capital  para  serem 

fotografados. 

68 


KERN, op. cit. p. 210 

69 


Ibidem, p. 210


Figura 4 ­ Propaganda da empresa. 

70 


Antônio Jacob Renner nasceu em 1884, na vila de Alto Feliz, pertencente 

ao  município  de  São  Sebastião  do  Caí.  Aos  20  anos  casou­se  com  uma  das 

herdeiras  da  empresa  Cristiano  J.  Trein  &  Cia.,  que  dominava  a  atividade 

comercial  da  cidade,  que  era  bastante  intensa  em  função  da  existência  de  um 

porto  fluvial,  que  distribuía  as  mercadorias  vindas  de  Porto  Alegre,  e  escoava  a 

produção  da  colônia.  O  comércio  era  feito  em  lombo  de  burros  por  trilhas 

rudimentares. 

70 


Tribuna Illustrada, Porto Alegre, n.10, mai 1927.


Com  a  chegada  da  estrada  de  ferro,  o  transporte  animal  tornou­se 

ultrapassado, o que representou uma oportunidade de negócios para Renner, que 

já conhecia as necessidades dos colonos em matéria de vestuário. 

Em  1911,  Renner  participou  da  fundação  de  uma  pequena  tecelagem 

chamada  Frederico  Engel  &  Cia.  Um  ano  depois,  por  sua  iniciativa,  passou  a 

produzir  as  capas  impermeáveis  de  marca  Ideal,  que  se  tornaram  famosas  em 

todo  o  Estado  por  apresentarem  características  distintas  dos  modelos  até  então 

existentes. A pequena  empresa  instalou­se,  inicialmente,  num  galpão de madeira 

utilizado  para  pouso  de  tropeiros  e  o  capital  investido  foi  pequeno  para  a  época 

(54 contos de réis), já que o Estado destacava­se por um parque fabril estruturado 

em bases industriais. 

71 


A instalação dessa fábrica, segundo Reichel

,

  “se constituiu num caso típico 



de empresa que se forma a partir da acumulação de capital provindo do comércio, 

pois seus principais fundadores eram comerciantes do interior do Estado.” 

72 

Os primeiros tempos da empresa foram de muitas dificuldades, abrangendo 



desde  as  de  cunho  técnico:  fios  importados  de  baixa  qualidade  e  equipamentos 

rudimentares,  até  o  pouco  capital  disponível,  mas  a  restrição  das  importações 

durante a Primeira Guerra Mundial representou um grande aumento de vendas. 

73 


A  fábrica,  nesse  período,  passou  a  trabalhar  em  três  turnos  para  atender  a 

demanda de mercadorias. 

71 

REICHEL, Heloisa. O surgimento de uma grande empresa no parque industrial gaúcho. O caso 



das indústrias Renner.

 História & Perspectivas

, Uberlândia, n.6, jan./jun. 1992. p.102 

72 


Ibidem, p.102 

73 


FORTES, Alexandre.

 Nós do Quarto Distrito

 – A classe trabalhadora porto­alegrense e a era 

Vargas. Caxias do Sul: Educs, Rio de Janeiro: Garamond, 2004. p.180,181.




A  partir  de  1914,  a  fábrica  iniciou  sua  instalação  na  capital  com  o  objetivo 

de aproximar­se do consumidor e da matéria­prima. Em 1917, a empresa passou 

a  chamar­se  A.J.Renner  &  Cia.  e  mudou  sua  sede  definitivamente  para  Porto 

Alegre, onde teria maiores oportunidades de crescer. 

No final dos anos 1920, a empresa já era a primeira na indústria de fiação e 

tecelagem  do  Estado,  e  passou  a  produzir,  além  das  capas,  roupas  masculinas 

que utilizavam o mesmo tecido. 

74 


Renner  inovou  na  fabricação  de  ternos  masculinos.  Até  então  esse 

segmento  era  praticamente  monopolizado  pelos  alfaiates  e,  portanto,  bastante 

elitizado.  Com  a  fabricação  em  escala  industrial,  a  demanda  por  esse  produto 

passou  a  ser  prontamente  atendida,  o  que configura  um  momento  importante  na 

criação de uma cultura de consumo no Estado do Rio Grande do Sul. 

75 


A  empresa  ainda  foi  a  responsável  pela  introdução  da  técnica  da  “fiação 

penteada”  que  “permitia  a  produção  de  casemiras  muito  semelhantes,  na 

qualidade  com  as  inglesas  e,  em  1933,  iniciou  a  fiação  e  tecelagem  do  linho, 

produtos  esses  que  lhe  permitiam  estender  a  sua  produção  por  todo  o  território 

nacional.” 

76 


A empresa de A. J. Renner expandiu­se além da fábrica de tecidos, criando, 

também, as Lojas Renner, as Tintas Renner, entre outras. 

74 

REICHEL, op. cit. p.102 



75 

Ibidem, p.181. 

76 

Ibidem, p.182.




Por  volta  de  1890,  em  São  Sebastião  do  Caí,  Adolfo  Oderich  abriu  uma 

fábrica  de  banha,  que  era  um  dos  produtos  comerciais  de  maior  destaque  na 

região e que era muito utilizado nas  frituras em função da não utilização de óleos 

vegetais.

A  larga  utilização  da  banha criou  um  subproduto,  o  restante  do  porco  que 

não  era  aproveitado  e  que,  muitas  vezes,  era  descartado,  por  não  haver 

tecnologia  disponível  para  a  sua conservação.  Essa  situação  incomodava  Carlos 

Henrique, filho de Adolfo, que em 1903 foi estudar na Alemanha a fim de aprender 

novas técnicas de produção de conservas de produtos em lata. 

77 


De volta ao Brasil, depois  de  passar por  uma  série de dificuldades, Carlos 

aplica  seus  conhecimentos  na  empresa  do  pai,  fundando,  em  1908,  a  fábrica 

Conservas  Oderich  S.A.  que  rapidamente  cresceu  e  conquistou  clientes,  não  só 

no Brasil, mas também no exterior. 

78 

77 


Os colonos alemães utilizavam­se amplamente das conservas de produtos rurais como forma de 

conservar  aqueles  produtos  que  escasseavam  na  época  das  entressafras.  Muitas  frutas  como 

pêra, figo, ameixa, pêssegos e verduras como beterraba, cebola, cenoura, pepino, rabanete, além 

dos  ovos,  também  eram  cozidas  ou  colocadas  cruas  com  temperos  em  vidros  para  o  posterior 

consumo  da  família.  Essa  prática  caiu  em  desuso  com  o  advento  dos  enlatados.  Segundo 

http://www.oderich.com.br/historico.htm 

78 

Segundo http://www.oderich.com.br/historico.htm




Figura 5 ­ Fachada da fábrica Oderich em São Sebastião do Caí – 1908 

79 


Em  1891,  os  irmãos  Franz  e  Max  Neugebauer,  juntamente  com  o  sócio 

Fritz Gerhardt fundaram a empresa Neugebauer Irmãos & Gerhardt. 

O interesse na criação de uma nova indústria surgiu quando Franz, que era 

confeiteiro, veio ao Brasil em 1887, e certificou­se do interesse das autoridades na 

implantação de uma empresa do ramo alimentício. Após conseguir um prédio para 

sua  instalação,  Franz  pediu  a  seu  irmão  Ernest  que  se  especializasse,  na 

Alemanha,  no  ramo  de  confeitaria  e  chocolates  e  que  Max  viesse  ao  Brasil  para 

iniciarem a indústria. 

No começo,  as dificuldades  foram  muitas,  mas  foram  vencidas por  eles. O 

salto  na  produção  deu­se  quando  Ernest  voltou  ao  Brasil  carregado  de  novas 

tecnologias e com o aumento do capital da empresa. 

79 


Ibidem


Nos  primeiros  tempos,  Max  vendia  seus  produtos  artesanais  de  porta  em 

porta,  no  lombo  de  cavalos,  mas  logo  depois  os  cavalos  foram  substituídos  por 

veículos  modernos  e  equipes  de  vendas  que  expandiram  a  comercialização  dos 

doces e chocolates para locais em que antes não conseguiam chegar. 

Em  1896,  já  era  uma  empresa  de  sucesso,  com  mais  um  prédio.  Nesse 

ano,  com  a  saída  do  sócio  Fritz  Gerhardt,  passou  a  chamar­se  Neugebauer  & 

Irmãos.  A empresa continuou crescendo  até se  tornar  a maior  empresa  do  bairro 

Navegantes de Porto Alegre. 

80 

Figura 6 



­ 

Um dos primeiros caminhões de entrega ­ Década de 1920 

81 

Arlindo  Júlio  Spindler 



82 

,  nascido  em  Campo  Bom  em  1907,  veio  para 

Novo  Hamburgo  ainda  criança.  Aos  18  anos  já  trabalhava  como  motorista  na 

empresa  Breidenbach  &  Mossmann,  maior  construtora  da  cidade  na  época.  Em 

80 

Em 1904 o prédio da Neugebauer era tão imponente que podia ser avistado do centro da cidade 



e nesse mesmo ano foi aberta a primeira loja de seus produtos. In: www.neugebauer.com.br 

81 


Disponível em http://www.neugebauer.com.br 

82 


Achamos  importante  incluir  Arlindo  Spindler  neste  trabalho,  mesmo  que  sua  atuação  tenha  se 

dado  alguns  anos  mais  tarde  que  os  outros  empreendedores  apresentados  até  esse  momento, 

pois  ele  foi  um  importante  empresário  e  seu  trabalho  foi  extremamente  significativo  para  o  setor 

coureiro­calçadista da região.




seis  meses  de  trabalho,  juntou  dinheiro  suficiente  para  comprar  seu  primeiro 

caminhão usado e abrir seu próprio negócio em sociedade com um amigo. 

Conseqüentemente,  a  partir  de  1925  o  comércio  e  a  distribuição  de 

mercadorias  no  Vale  do  Sinos  começava  a  mudar,  pois  até  esse  momento  o 

transporte era feito apenas via ferroviária e marítima. O produto que levava cerca 

de uma semana para sair da fábrica de Novo Hamburgo e chegar à loja em Porto 

Alegre,  passou  a  levar  seis  horas  para  chegar,  e  o  comerciante  não  precisava  ir 

até o porto para pegar sua mercadoria, pois ela chegava diretamente à sua porta. 

Isso foi uma verdadeira revolução para a época. 

Porém,  Spindler  decidiu  que  levaria  as  mercadorias  das  empresas  locais 

até  São  Paulo,  façanha  considerada  quase  impossível  por  seus  clientes  e 

colaboradores,  já  que  praticamente  não  havia  mapas  nem  estradas  até  aquele 

Estado  e  muitos  motoristas  acreditavam  que  nenhum  caminhão  conseguiria 

chegar até lá. 

83 

Para Spindler nada era impossível, como ele mesmo conta numa entrevista 



que deu ao

 Jornal NH

 em 1988 disse que recebeu um pedido dos curtumes para 

buscar couro de boa qualidade em Santa Vitória do Palmar, e não havia estradas 

de Rio Grande em diante, o que o obrigou a ir pela beira da praia, dependendo da 

maré  baixa  para  passar  com  seu  caminhão.  Ele  contou,  ainda,  que,  naquela 

cidade, as mercadorias chegavam de barco à vela apenas duas vezes por ano, o 

que  obrigava os comerciantes  a  fazerem  grandes estoques. Ele  passou, então, a 

83 

Jornal


 NH

, 28/07/1988. p.25




levar  diversos  tipos  de  produtos  para  lá,  e  retornava  com  excelentes  peles  de 

couro  sem  qualquer  arranhão  ou  marca,  pois  as  fazendas  não  tinham  cerca  de 

arame farpado, e na região não havia carrapato. Conta, ainda, que o único dia em 

que  dormia  numa  cama  era  no  sábado,  pois,  durante  as  viagens,  apenas  dava 

umas cochiladas dentro do caminhão. 

Em 1939, Spindler viajou para Santa Catarina. Ele saiu de Santo Antônio da 

Patrulha  e  levou  calçados  a  várias  cidades  por  meio  das  estradas  do  litoral. 

Chegou  até  Blumenau,  Joinville  e  Florianópolis.  Para  fazer  o  mapeamento  do 

trajeto  (localidades  e  distâncias)  Spindler  levou  seu  amigo  João  Bionde,  que 

aproveitou  a  viagem  para  vender  500  quilos  de  charuto  da  fábrica  de  seu sogro. 

Até  Torres,  foi  utilizada  a  beira  da  praia,  e  a  chegada  a  Santa  Catarina  deu­se 

pelas mesmas estradas utilizadas pelos tropeiros do século XVII. O resto foi mais 

fácil, pois havia estradas melhores. Chegando ao seu destino final e apresentando 

a nota fiscal onde constava a data da saída do Rio Grande do Sul, o comerciante 

não conseguiu acreditar que o trajeto havia sido feito em apenas três dias. A partir 

daí, os lojistas passaram a pedir aos fabricantes que mandassem as mercadorias 

apenas de caminhão. 

Nesse  mesmo  ano  de  1939,  ele  fez  a  primeira  viagem  a  São  Paulo,  que 

levou  onze  dias  e  que  pelas  vias  normais  levava  mais  de  um  mês.    Além  da 

vantagem  da  rapidez,  o  transporte  rodoviário  era  mais  seguro,  pois  antes  muita 

mercadoria  desaparecia  indo  de  um  cais  a  outro;  agora,  havia  a  segurança  e  a 

facilidade  de  o  produto  chegar  direto  na  loja,  muitas  vezes  sendo  colocado 

diretamente na prateleira.



Três  anos  depois  dessa  viagem,  Spindler  não  dava  mais  conta  do 

transporte  de  tanta  mercadoria  que  tinha  que  levar  para São Paulo,  mas  sempre 

privilegiou  seus  clientes  de  Novo  Hamburgo,  priorizando  o  atendimento  de  seus 

pedidos. 

A  mudança  do  nome  da  empresa  de  Spindler  &  Cia.  para  Expresso  Rio 

Grande­São  Paulo,  em  1940,  ocorreu  justamente com  o  objetivo  de  conquistar  a 

confiança dos  empresários  paulistas,  que,  desde  1930,  estavam com as relações 

estremecidas com os gaúchos e os caminhões que saíam lotados do Rio Grande 

do  Sul,  voltavam  vazios  de  São  Paulo,  o  que  representava  um  prejuízo.  Essa 

“estratégia de

 marketing

” deveria fazer com que os empresários imaginassem que 

a empresa era paulista! 

Essa  verdadeira  revolução  na  maneira  de  transportar  as  mercadorias  do 

Vale do Sinos para o resto do país representou uma possibilidade de crescimento 

do setor coureiro­calçadista, pois, além da considerável diminuição de tempo entre 

saída  da  fábrica  e  a  chegada  à  loja,  o  transporte  rodoviário  evitou  que  as 

mercadorias ficassem armazenadas em depósitos ou fossem extraviadas. 

84 

84 


SCHEMES, Claudia et alii.

 Memória do Setor Coureiro­Calçadista

: Pioneiros e Empreendedores 

do Vale do Rio dos Sinos. Novo Hamburgo: Feevale, 2005. p. 81­88.




Figura 7 ­ Um dos caminhões da empresa nos anos 30. 

85 


Nessas  circunstâncias  e  baseados  no conceito  de  Gimenez  que  diz  que  o 

empreendedorismo  “é  o  resultado  tangível  ou  intangível  de  uma  pessoa  com 

habilidades  criativas,  sendo  uma  complexa  função  de  experiências  de  vida, 

oportunidades,  habilidades  e  capacidades  individuais  e  o  seu  exercício  está 

inerente  a  variável  risco” 

86 


,  esses  sujeitos  citados  caracterizam­se  como 

empreendedores,  no  sentido  de  terem  sido  pioneiros  em  serviços  e  práticas 

inexistentes  e,  nessa  ótica,  ativos  participantes  de  um  processo  de  incipiente 

industrialização do Estado. 

85 

Ibidem, p.88 



86 

GIMENEZ,  Fernando.  Et  al.  Uma  investigação  sobre  a  tendência  do  comportamento  do 

empreendedor. In:

 Empreendedorismo

: competência essencial para pequenas e médias empresas. 

Brasília: ANPROTEC, 2001.




Baseados  em  Fillion 

87 


,  podemos  concluir  que  esses  empreendedores 

citados  possuem  as  características  indispensáveis  na  constituição  de  um 

empreendedor:  identificar  oportunidades  de  negócios,  conceber  visões  e  realizá­ 

las, tomar decisões, dominar a tecnologia adotada em seu negócio, saber comprar 

e  vender,  saber  lançar­se  no  mercado,  cercar­se  das  pessoas  certas  e  delegar 

poder. 


Com  poucas  exceções,  com  destaque  para  a

  Oderich

,  essas  empresas 

desapareceram  e/ou  foram  absorvidas  por  grupos  econômicos  nacionais  e/ou 

internacionais. 

Evidentemente,  outros  empreendedores poderiam ser  citados,  assim  como 

de  outros  etnias,  entretanto,  nosso  trabalho  fixou­se  naqueles  que  possuíam  os 

traços em comum com Pedro Adams Filho, o nome da avenida mais importante de 

Novo Hamburgo. 

1.2.1 – Arriscar, ousar, inovar, empreender 

Para  podermos  analisar  os  desdobramentos  das  ações  e  repercussões 

desses  empreendedores  consideramos  fundamental  abordarmos  algumas 

questões teóricas a respeito do conceito e da história do empreendedorismo. 

87 


FILION,  Louis  Jacques.

  Empreendedorismo

:  empreendedores  e  proprietários­gerentes  de 

pequenos negócios. Revista de Administração, São Paulo, v.34, n.2, p.5­28, abril/junho, 1999.




Como  não  há  consenso  em  torno  da  utilização  do  termo

  “empreendedor

”, 

podemos  fazer  algumas  considerações  a  esse  respeito  baseados  em  alguns 



trabalhos amplamente aceitos pela comunidade acadêmica. 

O  termo  empreendedor  é  proveniente  da  palavra

  entrepreneur

,  que  no 

século XII, na França, era utilizada para designar a pessoa que incentivava brigas. 

No  século  XVI,  o  termo  passa  a  descrever  uma  pessoa  que  tomava  a 

responsabilidade e dirigia uma ação militar. 

88 


No  século  XVII,  surgem  as  primeiras  relações  entre  assumir  riscos  e 

empreendedorismo,  onde  empreendedores  estabeleciam  acordos  com  governos 

para  a  realização  de  algum  serviço  ou  fornecimentos  de  produtos,  arcando  com 

qualquer lucro ou prejuízo, pois os preços eram definidos anteriormente. 

O  economista  do  século  XVII,  Richard  Cantillon,  é  considerado  um  dos 

criadores  do  termo  empreendedorismo,  pois  foi  um  dos  primeiros  a  diferenciar  o 

empreendedor,  que  seria  aquela  pessoa  que  assume  riscos,  do  capitalista,  que 

era quem fornecia o capital. 

89 

Entretanto,  foi  no  final do  século  XVII  e  início  do  século  XVIII  que  o  termo 



passou  a  ser  utilizado  para  se  referir  àquele  que  criava  e  conduzia  projetos  e 

empreendimentos. 

No  século  XVIII,  capitalista  e  empreendedor  já  eram  facilmente 

diferenciados,  principalmente  em  função  do  processo  de  industrialização  que 

88 

ZENI,  Alexandre.



  Centro  de  Empreendedorismo:  um  estudo  para  implantação

.  Santa  Maria: 

UFSM, 2002. 

89 


Ibidem


vinha  se  instalando  na  Europa  e  onde  vários  inventos só  foram  possíveis  devido 

ao auxílio de investidores que financiavam pesquisas e experimentos. 

No  final  desse  século,  empreendedor  era  aquela  pessoa  que  comprava 

matéria­prima, processava­a e a vendia para outra pessoa, ou seja, era a pessoa 

que criava e conduzia projetos e empreendimentos, conceituação que se aproxima 

da atual, em que o termo “empreender” identifica uma oportunidade de negócio no 

qual há um risco inerente à compra e comercialização do produto final. 

Ainda  no  final  do  século  XIX  e  início do século  XX, empreendedores  eram 

confundidos  com  administradores,  pois  eram  identificados  apenas  pelo  ponto  de 

vista  econômico  e  como  aqueles  que  organizavam  a  empresa,  pagavam  seus 

empregados,  planejavam,  dirigiam  e  controlavam  as  ações  desenvolvidas  na 

organização. 

90 

Foi somente no século XX que ao termo empreendedorismo foi associada a 



idéia de inovação. 

A  falta  de  consenso  sobre  o  termo  empreendedor  deriva,  principalmente, 

das disputas entre duas correntes que tentam explicar o fenômeno: a primeira é a 

dos  economistas,  que  associam  o  empreendedor  à  inovação  e  a  seu  papel 

fundamental  no  desenvolvimento  econômico;  e  a  segunda  é  formada  pelos 

comportamentalistas, que enfatizam os aspectos atitudinais do empreendedor. 

91 

90 


Este histórico foi baseado na dissertação de mestrado de Engenharia de Produção de Alexandre 

Zeni  intitulada

  Centro  de  Empreendedorismo:  um  estudo para  implantação

.  Santa  Maria:  UFSM, 

2002. 

91 


DOLABELA,  Fernando.

  Oficina  do  empreendedor

:  a  metodologia  de  ensino  que  ajuda  a 

transformar conhecimento em riqueza. São Paulo: Cultura, 1999.




Entendemos  que  essas  duas  vertentes  não  são  contraditórias,  mas 

complementares,  pois  enquanto  os  economistas  associam  o  estudo  do 

empreendedorismo  à  idéia  de  inovação  e  como  força  direcionadora  do 

desenvolvimento,  os  comportamentalistas  preocupam­se  com  características 

como criatividade, intuição, persistência e liderança. 

Cantillon,  conforme  informa  Dolabela,  um  banqueiro  que  viveu  no  século 

XVIII,  é  considerado  pela  maioria  dos  pesquisadores  um  dos  pioneiros  na 

conceituação  de  empreendedorismo.  Ele  dizia  que  o  empreendedor  era  aquele 

que  comprava  matéria­prima  por  um  preço  certo  para  revendê­la  por  um  preço 

incerto,  e, se o  empreendedor  lucrasse mais que o esperado, significava  que ele 

havia  inovado.  Na  verdade,  ele  era  o  que  hoje  seria  classificado  como  um 

investidor em capital de risco. 

Outro  pioneiro  foi  Jean Baptiste  Say,  que viveu  quase  um  século  depois  e 

que  estabeleceu  o  que  seria  uma  diferença  entre  os  lucros  apurados  pelo 

empreendedor e pelo capitalista. Say foi o primeiro administrador a utilizar o termo

 

entrepeneur



  ao elaborar uma teoria sobre as funções do empresário, e ao conferir 

a ele uma importância especial no crescimento da economia. 

Entretanto,  foi  Joseph  Schumpeter  quem,  segundo  McClelland,  na  década 

de 30 do século passado, incorporou ao conceito de empreendedorismo a idéia de 

inovação, enfatizando a  importância de o empreendedor realizar coisas  novas  ou 

fazê­las  de  outra  maneira.  O  empreendedor  deveria  “destruir”  uma  determinada 

ordem  econômica  e  reconstruí­la  de  uma  nova  maneira.  Ou  seja,  os  aspectos



comportamentais  do  empreendedor,  como  a  inovação,  a  independência  e  a 

liderança passam a fazer parte das análises. 

Julgamos  importante  informar  que  as  teorias  comportamentalistas  seriam 

hegemônicas  apenas  a  partir  dos  anos  1970,  período  em  que  os  behavioristas 

progrediam. Nesse período, Davis McClelland 

92 


analisou os fatores que explicam 

o apogeu e o declínio entre civilizações. 

Sua  conclusão  foi  de  que  as  gerações  que  precediam  o  apogeu  de  um 

povo eram fortemente influenciadas por modelos, heróis que haviam sido 

personagens  populares  na  literatura  e  com  os  quais  os  jovens  se 

identificavam.  Criando­se  um  efeito  de  estímulo  capaz  de  aumentar  a 

necessidade  de  conquistas  entre  estes  jovens  que  desejavam  se 

aproximar de seus heróis. 

93 

Essas pesquisas de McClelland suscitam uma série de outras investigações 



nos  anos  posteriores  no  sentido  de  entender  a  personalidade  do  empreendedor. 

Porém,  não  foi  possível  definir  com  clareza  esse  perfil,  dadas  às  múltiplas 

conclusões a que chegaram os pesquisadores. 

Foi  no  final  dos  anos  1980  que  o  empreendedorismo  passou  a  ter  uma 

importância maior como tema de estudos em muitas áreas do conhecimento. 

Atualmente  existe  uma  corrente  que  busca  abordagens  mais  amplas  e 

que  reconhecem  as  variáveis  sociais  (mobilidade  social,  sociedade, 

cultura),  econômicas  (incentivos  de  mercado,  estoque  de  capital), 

psicológicas além das características comportamentais como formadoras 

e influenciadoras do surgimento do empreendedorismo. 

94 

92 


McCLELLAND,  David.

 The  Achieving Society

.  New York:  Irvington,  1976.  apud FILLION,  Louis 

Jacques.  O  Empreendedorismo  como  Tema  de  Estudos  Superiores.  In:

  Empreendedorismo

Ciência, técnica arte. Brasília: CNI – IEL Nacional, 2001. 



93 

MONNERAT & FERRAZ, São Paulo, 2002. 

94 

Ibidem



Podemos citar alguns conceitos mais atuais sobre empreendedorismo: 

“O  empreendedorismo  é  o  resultado  tangível  ou  intangível  de  uma  pessoa 

com  habilidades  criativas,  sendo  uma  complexa  função  de  experiências  de  vida, 

oportunidades,  habilidades  e  capacidades  individuais  e  o  seu  exercício  está 

inerente a variável risco.” 

95 


Fortin 

96 


conceitua empreendedor como alguém que é capaz de transformar 

um  sonho,  um  problema  ou  uma  oportunidade  de  negócios  em  uma  empresa 

viável. 

Filion 


97 

diz  que  empreendedor  é  uma  pessoa  que  imagina,  desenvolve  e 

realiza visões; para isso precisa ter imaginação, criatividade. 

Para  Dolabela 

98 

empreendedor  é  “aquele  que  se  dedica  à  geração  de 



riquezas,  seja  na  transformação  de  conhecimentos  em  produtos  ou  serviços,  na 

geração  do  próprio  conhecimento  ou  na  inovação  em  áreas  como  marketing, 

produção,  organização”.  Afirma  também  que  empreendedora  “é  uma  pessoa  que 

acredita  que  pode  realizar  seu  próprio  sonho,  julgando­se  capaz  de  mudar  o 

ambiente em que está inserido.” 

95 


GIMENEZ,  Fernando  et  al.  Uma  investigação  sobre  a  tendência  do  comportamento  do 

empreendedor.  In:

  Empreendedorismo

:  competência  essencial  para  pesquenas  e  médias 

empresas. Brasília: ANPROTEC, 2001. 

96 


FORTIN, P.A.

 Devenez entrepreneur

. Quebéc: Éditions de l’entrepreneur, 1992. 

97 


FILION,  Louis  Jacques.

  Empreendedorismo

:  empreendedores  e  proprietários­gerentes  de 

pequenos negócios. Revista de Administração, São Paulo, v.34, n.2, p.5­28, abril/junho, 1999. 

98 

DOLABELA, Fernando.



 O Segredo de Luísa.

 São Paulo: Cultura, 1999.




Finalmente,  Dornelas 

99 


considera  empreendedor  aquele  que  detecta  uma 

oportunidade  e  cria  um  negócio  para  capitalizar  sobre  ela,  assumindo  riscos 

calculados. 

Segundo  Alexandre  Zeni,  todas  essas conceituações  nos  levam  a  concluir 

que 

[...]  além  de  características  comuns  nas  pessoas  chamadas 



empreendedoras, da vontade de gerenciar seus negócios ou projetos, da 

liderança  intrínseca,  de  transformar  idéias  e  sonhos  em  negócios,  de 

serem  criativos,  de  terem  iniciativas,  de  aprenderem  com  os  erros  e 

acertos,  eles  possuem o que  chamamos de  espírito  empreendedor,  que 

está  relacionado  com  o  processo  de  iniciar  um  negócio,  organizar  os 

recursos  necessários  e assumir  seus  respectivos  riscos  e  recompensas; 

são as pessoas que querem controlar o seu próprio destino. 

100 


Dornelas 

101 


assevera  que  o  empreendedor  de  sucesso  possui  algumas 

características  extras,  além  dos  atributos  do  administrador  que  seria  o  fato  de 

conhecer  como  poucos  o  negócio  em  que  atua.  Diz  ainda,  que  os 

empreendedores são pessoas diferenciadas que possuem motivação singular; são 

apaixonadas  pelo  que  fazem;  não  se  contentam  em  ser  mais  um  na  multidão; 

querem  ser  reconhecidos  e  admirados,  referenciados  e  imitados;  querem  deixar 

um legado. 

Finalmente, a  historiografia  consultada  autoriza­nos a discriminar três tipos 

de  empreendedores:  os  independentes  (que  não  possuem  apoio  ou  benefícios 

provenientes de outra organização

)

, os


 spin­off

 (que tem fortes vínculos e apoio de 

99 

DORNELAS, José Carlos Assis.



 Empreendedorismo

: transformando idéias em negócios. Rio de 

Janeiro: Campus, 2001. 

100 


ZENI op. cit. 

101 


DORNELAS, op. cit.


uma  organização  já  estabelecida)  e  os  internos  (que  trabalham  em  empresas  já 

consolidadas, mas agregam valor aos negócios existentes). 

102 

Levando  em  consideração  a  história  do  empreendedorismo  e  as  suas 



conceituações  mais  atuais,  podemos  apontar  os  empresários  citados  como 

representantes do empreendedorismo no início do século XX, com destaque para 

Pedro  Adams  Filho  pela  sua  relação  com  a  emancipação  política  de  Novo 

Hamburgo. 

O  Estado  do  Rio  Grande  do  Sul  ainda  não  possuía  uma  indústria 

desenvolvida  naquele  início  de século.  A pecuária  ainda  era  a  principal  atividade 

econômica  e  o  charque  e  o  couro  os  produtos  mais  importantes  dos  gaúchos.  A 

tecnologia  empregada  era  rudimentar,  o  que  tornava  o  produto  local  menos 

competitivo  no  mercado  internacional,  principalmente  dos  países  do  Prata.  Outro 

fator determinante para a supremacia das  atividades agropecuárias no Estado  foi 

a  eclosão  da  Primeira  Guerra  Mundial,  que  representou  um  grande  incremento 

nos negócios, aliado à implantação dos frigoríficos norte­americanos. 

Nesse contexto dinâmico de supremacia da economia agropecuária, alguns 

empresários  destacaram­se  na  criação  de  indústrias  com  bases  modernas  de 

produção. 

Evidentemente, não podemos esquecer de que existiam algumas condições 

favoráveis  a  este  surto  industrial  do  final  do  século  XIX,  como  o  fornecimento  de 

102 


BATEMAN, Thomas S. & SNELL, Scott A.

 Administração: Construindo Vantagem Competitiva

São Paulo: Atlas, 1998.




matéria­prima,  o  couro,  para  a  indústria  de  calçados,  por  exemplo.  Ou  o  capital 

acumulado  pelos  comerciantes  de origem  imigrante  que poderia  subsidiar  alguns 

negócios.  Além  dessas  condições  locais,  o  governo  federal,  com  sua  política 

emissionista  acabava  aumentando  o  preço  dos  produtos  importados  e 

incentivando  a  produção  nacional,  o  que  foi  intensificado  com  a  guerra  de  1914, 

que praticamente acabou com a concorrência dos produtos estrangeiros. 

Inseridos 

nessa  conjuntura, 

nós  podemos 

perceber 

importantes 

características 

empreendedoras 

nos 


empresários 

teuto­gaúchos 

citados 

anteriormente. 

103 

Os  empresários  apontados  conseguiram  agir  em  diversas  áreas  desde  a 



metalurgia, passando pelo curtume, a fábrica de calçados, de bolsas, de molduras, 

pelo  vestuário,  até  a  fábrica  de  conservas  e  de  doces.  Nesse  sentido, 

aproveitaram  as  oportunidades  de  negócios  oferecidos  por  um  mercado 

consumidor, a facilidade de adquirir matéria­prima e a inexistência de concorrência 

para esses produtos no mercado local, regional e nacional. 

As  oportunidades  econômicas  de  um  negócio,  as  habilidades  criativas  de 

cada  um  dos  empreendedores  e  a  persistência  deles  foi  fundamental  para  o 

sucesso de seus empreendimentos. Muitos empresários eram de família humilde e 

103 

Optamos  em  trabalhar  com  os  teuto­gaúchos  em  função  de  Pedro  Adams  Filho  encontrar­se 



nessa categoria  e por esse  segmento  representar  comprovadamente pela  historiografia  que  trata 

das  questões  econômicas  do  Rio  Grande  do  Sul,  um  dos  setores  que  mais  contribuiu  para  o 

desenvolvimento industrial do estado. 

Jean  Roche,  op  cit,  faz  um  minucioso  relato  seguido  de  dados  estatísticos  da  supremacia  da 

indústria  teuto  no  período  por  nós  analisado.  Como  exemplo,  o  autor  coloca  que  no  período  de 

1914/18 apenas nos ramos industriais da vinificação e na fabricação de manteiga é que os teutos 

não estavam em primeiro lugar. p. 511.



“trabalharam  duro” 

104 


para conseguir  juntar  um  capital que  pudesse  dar  início ao 

“sonho” ou transformá­lo em uma empresa viável. 

As  experiências  prévias  de  vida  dos  profissionais  também  foram 

importantes, já que muitos haviam iniciado sua vida profissional na sua futura área 

de  atuação,  como  Ludwig,  Haas,  Renner,  Jung  e  Spindler  e  os  que  não  tinham 

foram buscar no exterior a experiência, como no caso de Bins, Neugebauer, Alles 

e Oderich. 

Evidentemente, o risco esteve presente em todos os negócios, pois mesmo 

uma conjuntura favorável e experiência na área, não eram garantia de sucesso. A 

transformação do sonho em uma empresa viável e geradora de riquezas dependia 

de uma série de outros fatores e a possibilidade de insucesso era muito grande. 

Outro  elemento  importante  apontado  por  Dolabela 

105 

e  que  caracteriza  o 



empreendedor  é  o  desejo  de  mudar  o  ambiente  de  trabalho  no  qual  ele  está 

inserido. 

A  mudança  nos  casos  analisados  consistiu  basicamente  da  modernização 

da  produção  de  muitos  produtos  que  ainda  eram  feitos  artesanalmente.  A 

tecnologia  empregada  nessas  empresas,  na  maioria  das  vezes  importada  da 

Europa,  foi  fundamental  para  o  seu  sucesso.  O  domínio  dessa  tecnologia  pelos 

empreendedores também era uma realidade, pois todos atuavam diretamente em 

suas  empresas,  comprando  matérias­primas,  lançando  o  produto  no  mercado  e 

104 

Expressão que aparece profusamente em referência aos pioneiros do setor coureiro­calçadista 



nas entrevistas realizadas para o livro de SCHEMES, Claudia op. cit. 

105 


DOLABELA, op. cit.


realizando  sua  venda,  muitas  vezes  de  forma  direta,  como  no  caso  da 

Neugebauer, cujos proprietários batiam de porta em porta para comercializar seus 

produtos. 

Além da inovação tecnológica, a mudança no cotidiano dava­se através do 

consumo  de  produtos  que  até  então  eram  inexistentes,  como  as  capas 

impermeáveis  e  os  ternos  industrializados  criadas  por  Renner,  os  produtos  para 

viagem de Haas e até ousar com uma nova forma de transporte, por exemplo. 

Outra  característica  que  chamou  a  atenção  foi  a  capacidade  de  tomar 

decisões  desses  empreendedores,  pois  eles  assumiram  a  direção  e  a 

administração  de  suas  empresas,  cercando­se  de  pessoas  de  confiança,  muitas 

vezes  da  própria  família,  e  delegaram  o  poder  que  julgaram  necessário.    Pedro 

Adams  Filho  é  exemplo,  pois  seu  irmão  assumiu  um  lugar  de  destaque  em  sua 

empresa  desde  seu  surgimento,  Arlindo  Spindler  também  teve  seu  irmão,  Emílio 

Edwino Spindler, como sócio e um de seus principais colaboradores. 

Essa  capacidade  de  liderança  aparece  em  várias  áreas,  não  só  na 

econômica, mas também na política, comunitária, etc. Nos casos analisados, isso 

fica  mais  uma  vez  claro,  pois  todos  os  industriais  participaram  da  vida  política  e 

comunitária  de  suas  cidades.  Alguns,  como  Bins  e  Ludwig,  mais  diretamente  na 

vida política, assumindo cargos de deputado, vice­intendente e intendente, outros, 

com  uma  participação  comunitária  mais  acentuada,  como  Haas,  Alles,  Renner  e 

Oderich.  Porém,  todos  foram  pessoas  influentes  e  participativas  na  comunidade, 

variando apenas a área de atuação.




Se  fosse  o  caso,  utilizando  a  classificação  criada  por  Bateman 

106 


,  esses 

empreendedores  poderiam  ser  classificados  como

  independentes

,  ou  seja,  não 

possuíam apoio ou benefícios de outra empresa ou organização já estabelecidas, 

como Ludwig, Haas, Jung, Alles, Spindler, Oderich e Neugeubauer. Eles iniciaram 

seus  negócios  de  maneira  autônoma  e  sem  nenhum  respaldo  econômico  de 

alguma outra instituição, segundo nos mostram as fontes consultadas e já citadas 

no decorrer desse trabalho. 

Renner  pode  ser  classificado  como

  spin­off

,  que  são  os  empreendedores 

que  possuem  fortes  vínculos  e  apoio  de  uma  organização  já  estabelecida,  neste 

caso, a empresa da família de sua mulher já existia, mas trabalhava com outro tipo 

de negócio. 

Finalmente,  Bins  enquadra­se  na  categoria  dos  empreendedores

  internos

que são aqueles que já trabalham em empresas consolidadas (metalúrgica Berta), 



mas  agregam  valor  aos  negócios  existentes,  pois  foi  ele  o  responsável  pelas 

inovações tecnológicas da empresa que geraram a melhoria dos produtos. 

107 

Acreditamos que os empreendedores citados neste trabalho, Renner, Bins, 



Oderich,  Neugebauer,  Ludwig,  Jung,  Haas,  Alles,  Spindler  podem  ser 

considerados como pioneiros em suas áreas de atuação. 

Até  hoje  seus  nomes  são  referência  nas  comunidades  onde  atuaram, 

mesmo  que  suas  empresas  não  existam  mais  ou  não  pertençam  mais  à  família 

106 

BATEMAN, op. cit. 



107 

MONTE DOMECQ, op. cit. p. 139­150.




que  lhes  deu  origem.  Com  exceção  de  Ludwig  e  Haas,  todos  demais  foram 

lembrados por suas comunidades que lhes deram nomes de ruas ou praças. 

108 

Segundo  Fortes,  esses  industriais  teuto­brasileiros  conquistaram  uma 



influência política, não apenas em função de sua importância econômica, mas por 

outros dois fatores adicionais: 

[...] de um lado, a ampla autonomia cultural desfrutada pela colônia alemã 

desde  o  início  da  imigração,  em  1824,  que  se  refletia,  por  exemplo,  na 

rede  de  instituições  e  organismos  mantidos  até  a  Segunda  Guerra 

Mundial,  de  outro,  a  ascendência  que  possuíam  sobre  segmentos  da 

própria  classe  trabalhadora,  por  meio  de  um  sofisticado  sistema 

paternalista  que  integrava  empresa,  família  e  comunidade,  perpassadas 

por valores e práticas culturais estruturados por relações hierárquicas de 

gênero e etnia. 

109 

Outro  fator  importante  de  salientar  nos  empresários  do  setor  coureiro­ 



calçadista era a hegemonia dos teuto­brasileiros em detrimento das demais etnias 

e a presença predominante do capital nacional. 

Entretanto,  segundo  Carneiro 

110 


,  o  capital  alemão  investido  no  Brasil 

também  foi  significativo,  pois  segundo  dados  econômicos  da  época,  como  o 

Censo  Industrial  de  1920,  40%  de  todo  o  capital  investido  pelos  alemães  na 

indústria  brasileira  concentravam­se  no  Rio  Grande  do  Sul,  zona  de  colonização 

108 

KERN,  Paulo  Henrique.



  Ruas  &  Praças  de  Novo  Hamburgo

:  Quem  é  Quem.  2.ed.  Novo 

Hamburgo: Metrópole, 2002. 

109 


Segundo FORTES,op. cit. p.179 

Lembramos,  ainda,  Nelson  Boeira  que  desenvolveu  a  idéia  do  “positivismo  difuso”,  em  que 

mostrou que as idéias positivistas foram absorvidas e vulgarizadas por uma variedade de públicos 

que fazia uso daquilo que mais lhes convinha. No caso de Pedro Adams Filho, o axioma positivista 

de  integração  do  proletariado  à  sociedade  de  classes  pode  ser  considerado  uma  forma  de 

“positivismo  difuso”.  In:  O  Rio  Grande  de  Augusto  Comte.  In:  DACANAL,  José  Hildebrando  & 

GONZAGA, Sergius (orgs).

 RS:Cultura & Ideologia

. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1980. p.45,46 

110 


CARNEIRO,  Lígia  Gomes.

  Trabalhando  o  couro

  –  Do  serigote  ao  calçado  “made  in  Brazil”. 

Porto Alegre: L&PM/CIERGS, 1986. p.76




alemã  que  se  dedicava  ao  comércio  e  à  indústria,  estabelecendo  vínculos  com 

empresas de sua pátria de origem. 

A  participação  do  teuto­brasileiro  e  do  capital  alemão,  entretanto,  não  foi 

suficiente para mudar a situação periférica da economia do Estado do Rio Grande 

do  Sul.  No  final  do  século  XIX  e  início  do  XX,  havia  como  principais  produtos 

aqueles  que  eram  ligados  à  indústria  agropastoril  (banha,  charque,  vinho,  por 

exemplo),  já  os  produtos  ligados  ao  setor  calçadista  atendiam  mais  ao  mercado 

regional. 

111 

A  trajetória  de  Pedro  Adams  Filho,  como  vimos,  dá­lhe  condições  de 



participar  do  seleto  grupo  de  empreendedores  do  início  do  século  XX  na  região 

Sul, é dele, portanto, que trataremos a seguir com maior profundidade. 

1.3–Pedro Adams Filho: de Moers a Novo Hamburgo 

Pedro  Adams  Filho  era  filho  e  neto  de  imigrantes.  Seu  avô,  Mathias  Josef 

Adams,  nascido  em  Moers 

112 


,  região  da  Renânia,  Alemanha,  por  volta  de  1800, 

era  casado  com  Margaretha  Scholles,  nascida  aproximadamente  em  1802  e 

natural de Warmsroth. 

113 


111 

Ibidem, p.76,77. 

112 

Moers fica na Renânia, próximo a Düsseldorf. 



113 

As informações referentes à história dos pais e avós de Pedro Adams Filho foram pesquisadas 

no arquivo da Cúria Metropolitana de Porto Alegre por Thelmo José Bins, marido de Carla Adams 

Bins, filha mais nova de Pedro Adams Filho.




Alguns  anos  depois  que  Mathias  morreu,  em  1856,  Margaretha  decidiu  vir 

para  o  Brasil,  em  1862,  com  seis  dos  seus  sete  filhos:  Johannes,  nascido  em 

08/11/1831,  Pedro  José,  02/02/1835,  Martin,  09/05/1837,  Christina,  16/02/1839, 

Johann  Peter,  08/06/1844  e  Mathilde,  30/03/1846.  Margaretha,  nascida  em 

05/12/1840 não veio junto com sua família por motivos desconhecidos. 

As  razões  particulares  que  fizeram  a  família  Adams  deixar  a  Europa  e 

imigrar  para  o  Brasil  são  desconhecidas. Acredita­se  que,  entre  eles,  estejam  as 

perspectivas  econômico­sociais  que  levaram  milhares  de  europeus  a  tomar  a 

mesma decisão. Uma mãe viúva com sete filhos alguns com idade suficiente para 

assumirem  o  sustento  da  família,  pois  o  mais  velho  já  estava  com  31  anos  e  o 

mais  novo  com  27,  sendo  que  quatro  deles  eram  homens  e  apenas  duas 

mulheres, podia vislumbrar com otimismo o  uso da força física para trabalhar nas 

terras que eram prometidas pelo governo brasileiro. 

A  história  conta  que  Margaretha  se  estabeleceu,  primeiramente,  em  Nova 

Petrópolis  e,  mais  tarde,  em  Dois  Irmãos 

114 


,  mas  os  registros  desses  fatos  se 

perderam  e  não  se  sabe  ao  certo  onde  ela  viveu,  o  que  fazia  para  sobreviver  e 

como conseguiu criar seus filhos. 

O que sabemos  é que Johann  Peter Adams, ou Pedro Adams, casou  com 

Maria  Angelina  Loeblein,  natural  de  Dois  Irmãos,  em  29/06/1869  nesta  mesma 

cidade.  Ambos  tiveram  sete  filhos:  Pedro  Adams  Filho,  nascido  em  13/04/1870, 

Catharina Joana,  em  18/03/1872, Ana Catharina,  em 23/05/1875,  Maria  Mathilde, 

114 


Segundo  consta  no  livro

  Povoadores  do  Rio  Grande  do  Sul

  (1853­1863).  Porto  Alegre:  EST 

Edições, 2004, Margaretha chegou a bordo do navio

 Continentista

 em Rio Grande e depois foi até 

Porto Alegre.



em 30/03/1881, Maria Luiza, em 23/06/1883, Carlos, em 09/02/1886 e Alberto em 

07/08/1890. 

115 

Pedro  Adams  Filho  não  nasceu  em  Dois  Irmãos,  mas  em  Santa  Clara  do 



Sul,  distrito  de  Lajeado 

116 


.  O  motivo  mais  comum  que  levava  as  famílias  a  se 

estabelecerem  em  Santa  Clara  do  Sul,  era  a  possibilidade  de  adquirirem  terras 

que estavam sendo loteadas naquele distrito, e melhorarem as condições de vida, 

além  do  fato  de  as  migrações  internas  serem  bastante  comuns  naquela  época, 

pela  busca  de  oportunidades  econômicas,  principalmente  comerciais,  que 

algumas localidades poderiam oferecer. Muitos colonos de Dois Irmãos e de áreas 

circunvizinhas estabeleceram­se no vale do Rio Taquari. 

117 


Entretanto,  os  motivos  concretos  que  levaram  a  família  Adams  a  deixar 

Dois Irmãos e estabelecer­se no vale do Taquari são desconhecidos. 

Santa  Clara  do  Sul  era  um  local  bastante  agradável  de  se  viver,  como 

demonstra a descrição feita, em 1896, por Theodor Firmbach: 

118 

Quem,  partindo  de  Estrela,  transpõe  o  rio  Taquari,  defronta­se  com  um 



belo  e  romântico  quadro  provinciano  ao  longo  do  curso  de  água. 

Atravessando  São  Gabriel,  avista­se  uma  região  montanhosa,  cheia  de 

exuberantes  plantações  que  atestam  a  segurança  e  bem­estar  dos 

numerosos  colonos  alemães  que  lá  vivem.  Magníficos  milharais, 

soberbos  ervais,  saborosa  e  suculenta  cana­de­açúcar,  ondulantes 

campos de cereais e majestosa selva constituem­se em aconchego para 

115 

TRÄSEL, Pe.



 Dicionário Geral de Lajeado

. Lajeado, s.d. 

116 

Segundo SCHIERHOLT, José Alfredo.



 Lajeado I

 – povoamento – colonização – história política. 

2. ed. Lajeado: Prefeitura Municipal.1993, a cidade de Lajeado foi colonizada em 1855, através de 

um empreendimento particular de Antônio Fialho de Vargas que,  em 1870,  foi  o  responsável pelo 

loteamento  de  Santa  Clara.  Entretanto,  a  partir  de  1869  os  primeiros  colonos  alemães  já  se 

estabeleceram naquela localidade. 

117 

Ibidem, p.50. 



118 

Este  autor  era  médico  e  atendeu  os  feridos  nos  combates  ocorridos  naquele  distrito  na 

Revolução Federalista. Como ficou muito impressionado com o que viu, resolveu documentar essa 

história,  que  foi  publicada  em  1896  em  alemão  e  traduzida  em  1995  por  Hilda  Agnes  Hübner 

Flores.



os  alemães.  Até  onde  a  vista  e  o  ouvido  alcançam,  encontra­se  labor 

alemão  e  estilo  alemão,  verdadeiro  espelho  do  bem­estar  existente  nas 

moradias  dos  colonos,  duráveis,  feitas  de  pedras  e  madeira de  lei,  com 

bom gosto e funcionalidade. 

Santa  Clara  é  o  nome desta bonita  picada  alemã,  cujos moradores não 

têm  outro  objetivo  senão  cultivar  os  campos,  educar  seus  filhos  com 

escola e igreja e pagar ao Estado, de bom grado, aquilo que de direito ele 

exige dos cidadãos. 

Sim, os moradores de Santa Clara estão satisfeitos com a sorte que lhes 

é oferecida neste belo torrão. 

119 

Segundo  o  padre  Träsel 



120 

,  Johann Peter  Adams  foi  um  dos  87  pioneiros 

fundadores  de  Santa  Clara  do  Sul,  em  seu  primeiro  período  de  colonização,  que 

foi  de  1869  a  1885.  Ele  foi,  também,  um  dos  responsáveis  pela  construção  da 

primeira capela da vila, a de São Francisco Xavier e o responsável pela criação do 

primeiro empório  comercial  do  distrito. A  criação  desse  estabelecimento  vinha  ao 

encontro  das  necessidades  dos  moradores  da  vila  de  centralizar  a  produção  da 

colônia  que  cultivava  cana­de­açúcar,  erva,  milho  e  cereais,  conforme  vimos  na 

descrição de Firmbach. 

121 


Johann  Peter  Adams  centralizava  a  produção,  e  era  o  responsável  pela 

venda  do  excedente  para  outras  localidades,  principalmente  Lajeado,  pelo 

transporte  dessas  mercadorias  até  o  porto  de  Cruzeiro  do  Sul,  bem  como  por 

trazer  para  o  distrito  outros  artigos  de  primeira  necessidade  que  não  eram 

produzidos por lá. 

119 


FIRMBACH,  Theodor.

  Santa  Clara

  –  o  combate  federalista.  Porto  Alegre:  Nova  Dimensão, 

1995. p.33,34 

120 

As  informações  referentes  a  Johann  Peter  constam  no



  Dicionário  Geral  de  Lajeado

  e  foram 

escritas pelo pesquisador padre Alberto Träsel. 

121 


FIRMBACH op.cit. p.33,34


Segundo  Moure, o  comerciante controlava  a produção do agricultor,  fixava 

os preços, monopolizava o crédito, o que acabou gerando um acúmulo de capital 

em  suas  mãos  e  condições  de  investir  em  empreendimentos  comerciais  e 

industriais ainda maiores. 

122 

Embora não possuamos informações referentes à infância de Pedro Adams 



Filho,  acreditamos  ser  possível  indicar  algumas  situações  baseadas  na 

historiografia disponível sobre as localidades em que nosso biografado viveu. 

Essa  historiografia  utilizada,  embora  seja  de  cunho  narrativo  e  positivista, 

faz recortes históricos  menores e nos permite  buscar informações periféricas  que 

nos ajudam a conhecer a conjuntura em que viveu Pedro Adams Filho. 

123 


O contexto em que ele estava inserido na sua infância pode ser identificado 

através  da  sua  participação  nas  histórias  das  cidades  em  que  ele  viveu  (Santa 

Clara do Sul, Dois Irmãos, Novo Hamburgo). 

Através  da  participação  de  Pedro  Adams  Filho  na  vida  cotidiana,  como 

industrial, festeiro, político, podemos compreender  como  ele  relacionou­se com a 

comunidade por meio do trabalho, da vida social, cultural e, principalmente, como 

tomou suas decisões políticas e econômicas. 

122 


MOURE, op. cit. 97,100 

123 


LANG,  Guido.

  Jacob Lang

  –  A  História  de  um  Imigrante  Pioneiro.  São  Leopoldo:  Rotermund, 

1992  e


  Reminiscências  da  memória  colonial

  –  Teutônia  –  RS.  Campo  Bom:  Papuesta,  1999; 

FIRMBACH,  Theodor.

 Santa Clara

  –  o  combate  federalista.  Porto  Alegre:  Novo  Dimensão,  1995; 

SCHIERHOLT, José  Alfredo.

 Lajeado I

. 2.ed. Lajeado: Prefeitura  Municipal, 1993 e VIER,  Justino 

Antonio.

 História de Dois Irmãos

. Passado e Presente. Dois Irmãos: Gradfil, 1999.



Quando  tratamos  de  cotidiano,  uma  referência  que  se  faz  obrigatória  é 

Agnes Heller 

124 

, pois, segunda essa autora, a vida cotidiana é uma dimensão da 



vida que todos os homens possuem e, além disso, é uma categoria que engloba a 

vida  do  homem  como  um  todo,  pois  aí  se  colocam  em  funcionamento  todos  os 

seus  sentidos,  as  suas  capacidades  intelectuais,  suas  habilidades,  seus 

sentimentos,  paixões,  idéias  e  ideologias.  Diz,  ainda,  que  a  vida  cotidiana  é 

heterogênea  principalmente  no  que  se  refere  ao  conteúdo  e  à  significação  dos 

vários  tipos  de  atividades  (trabalho,  vida  privada,  lazer,  etc.),  além  disso,  afirma 

que  a  vida  cotidiana  possui  várias  características:  a  espontaneidade,  a 

probabilidade, o economicismo, o pragmatismo, a imitação. 

Para  Heller,  é  muito  difícil  separarmos  o  comportamento  cotidiano  do  não 

cotidiano  por  limites  rígidos,  pois  todos  os  indivíduos  estão  inseridos  numa 

cotidianidade e são, ao mesmo tempo, particulares e genéricos. 

Feitas  essas  considerações  teóricas,  podemos  dizer,  baseados  nas 

palavras  de  Lang 

125 


,  que  viver  na  zona  rural  era  sinônimo  de  muito  trabalho  e 

pouco conforto e, para as crianças, havia muitos deveres e poucos direitos. 

A labuta parecia um sentido existencial, pois norteava todas as atividades 

coloniais.  As  gerações  novas  tinham  a  necessidade  de  auxiliar  nas 

inúmeras  tarefas,  que  não  eram  questionadas  e  sim  cumpridas.  [...]  Os 

pais,  em  hipótese  alguma,  admitiam  a  criação  de  membros  familiares 

desonestos  ou  malandros,  que  poderiam  ostentar  tendências  em 

sobreviver  através  do  parasitismo  social.  Os  jovens,  em  meio  ao 

124 

HELLER, Agnes.



 O Cotidiano e a História

. São Paulo: Paz e Terra, 1989. 

125 

A respeito da vida nas colônias alemãs ver LANG, Guido.



 Reminiscências da memória colonial

 

–  Teutônia­RS.  Campo  Bom:  Papuesta,  1999.  O  autor  conta,  detalhadamente,  como  era  o 



cotidiano  na  região  onde  hoje  se  localiza  a  cidade  de  Teutônia  e  que  era  o  mesmo  das  áreas 

circunvizinhas, como Santa Clara onde Pedro Adams Filho nasceu.




desconhecimento  de  maiores  realidades,  ajustavam­se  àquele  mundo 

cultural. [...] 

126 

Nesse contexto, o ensino formal era um luxo a que poucos tinham acesso, 



já  que  a  educação  não  era  uma  prioridade  para  o  governo  e  as  escolas  eram 

escassas, principalmente em áreas afastadas dos grandes centros. 

127 

Pedro  Adams  Filho  teve  como  escolaridade  formal,  apenas  três  meses  de 



aulas  com  uma  professora  particular  de  Santa  Clara,  o  que  era  muito  comum  na 

época. Na verdade, seu aprendizado ocorreu muito mais de forma prática, através 

da curiosidade e da observação. 

128 


A  sua  infância  pode  ser  caracterizada,  segundo  Lang,  como  a  de  muitas 

crianças  filhas  de  colonos  alemães  que  viviam  em  pequenas  localidades  do 

interior  onde  a  cada  um  cabia  um  papel  pré­determinado,  ou  seja,  os  meninos 

ocupavam­se com  a  criação  de  gado  ou  outros  animais  que  porventura  a  família 

possuísse,  e  com  a  roça  de  subsistência;  e  as  meninas  dedicavam­se  aos 

afazeres domésticos, mas todos tinham as suas obrigações. 

Segundo  palavras  de  Lang,  “o  mundo  rural  era  controlador  e  punitivo,  no 

qual  a  criançada  conhecia  limites  e  obrigações.  Os  valores  familiares  e 

comunitários  eram  incutidos  pela  força  das  circunstâncias,  que  advinham  das 

agruras da sobrevivência.” 

129 

126 


LANG, op.cit. p.66 

127 


Ver capítulo 3. 

128 


MONTE DOMECQ, op. cit. p. 242. 

129 


LANG, op. cit. p.67.


É  o  mesmo  autor  quem  diz  que,  mesmo  sendo  uma  vida  sacrificada,  as 

crianças se  divertiam  das  mais  diversas  formas,  utilizando­se,  principalmente,  de 

objetos que a própria natureza fornecia, ou seja, pedra, madeira, terra, água, mais 

uma  dose  de  criatividade  supria  as  necessidades  dos  brinquedos  que  eram  tão 

raros  naqueles  tempos.  As  pescarias  e  as  caçadas  com  estilingues  eram  outras 

brincadeiras das crianças nas colônias. 

O lazer dos adultos limitava­se aos bailes que aconteciam esporadicamente 

nos  armazéns  dos comerciantes  e eram  animados  por algumas  músicas tocadas 

pelos  colonos  mais  talentosos,  e  aos  casamentos,  nas  casas  dos  próprios 

colonos,  ocasiões  em  que  as  pessoas  se  reuniam  e,  de  forma  festiva,  saiam  da 

rotina. 

O

 kerb,



 a festa mais esperada do ano, era o momento da fuga da rotina, da 

fartura,  da  alegria,  de  muita  música,  dança,  comidas  e  bebidas,  conversas, 

animação. 

O

  kerb



,  homenagem  ao  padroeiro  da  igreja,  rendia  três  dias  de  festa, 

começando  com  missa  ou  culto  pela  manhã,  depois  comilança  nas 

residências  repletas  de  parentes  vindos  de  longe.  À  noite  o  baile  na 

sociedade local atraía toda a família. Junto ao salão havia um quarto com 

amplas  camas  onde  se  acomodavam  as  crianças  vencidas  pelo  sono. 

Eram  imperdíveis  as  três  noites  de  animado baile do

  kerb

:  ostentava­se 



vestido novo, matava­se saudades de velhas amizades que acorriam de 

longe,  confraternizava­se  jantando  na  copa  anexa  ao  salão  de  baile, 

engrenavam­se namoros. 

130 


130 

FLORES,  Hilda  Agnes  Hübner.

  História  da  Imigração  Alemã  no  Rio  Grande  do  Sul

.  Porto 

Alegre: EST Edições, 2004. p.132



Os preparativos para a festa eram intensos e contavam com o envolvimento 

de  todos  os  familiares  nas  mais  diversas  tarefas  para  a  festa  para  as  quais  as 

famílias  chegavam  a  economizar  o  ano  inteiro.  A  compra  de  uma  roupa  ou  um 

calçado  novo  sucedia­se,  geralmente,  nessa  ocasião,  pois  todos  deveriam  estar 

muito bem trajados. 

Os  habitantes  dessas  colônias  alemãs  (Santa  Clara  do  Sul  entre  elas) 

viviam  praticamente  isolados  dos  outros  municípios  ou  vilas,  abandonados  pelo 

poder  público  estadual  que  não  se  preocupava  com  as  suas  dificuldades.  Daí  a 

importância  da  união  dos  colonos  na  organização  das  suas  próprias  instituições: 

funerárias,  como  o  cemitério;  de  consumo,  como  as  lojas  ou  armazéns, 

conhecidos como  vendas; e educativo­religiosas, como  as  escolas,  as  igrejas,  os 

clubes de lazer e, principalmente, sociedades de bolão e de tiro ao alvo. 

131 

Nesse contexto, as  vendas  tinham  um  papel  fundamental,  pois  era  o  local 



de  maior  movimento  na  região  colonial  em  função  das  operações  comerciais, 

trocas de informações e encontros sociais. 

O vendeiro aproveitava o movimento de pessoas para tomar conhecimento 

das notícias e difundi­las. Esses comerciantes acabavam se tornando, junto com o 

pastor, padre e professor a pessoa de confiança dos moradores e, até certo ponto, 

influenciavam  a  opinião  pública  as  decisões  a  serem  tomadas  na  comunidade. 

131 

LANG, op. cit. p. 68.




Havia  venda  em  todas as  colônias,  às  vezes  mais  de  uma,  numa  média  de  uma 

para cada 30 famílias de colonos. 

132 

Os  vendeiros  eram  pessoas  de  prestígio,  pois  eram  os  responsáveis  pela 



comunicação  direta  ou  indireta  com  a  capital  da  província.  Por  isso  eram  muito 

bem  informados  e  exerciam  controle  sobre  as  transações  econômicas  dos 

colonos. 

133 


Era  o  vendeiro  o  responsável  pela  compra  dos  produtos  coloniais 

(lingüiça,  banha,  vinho,  etc.)  e  a  venda  dos  produtos  industrializados  feitos  em 

outros locais. Muitas vezes as vendas  agiam como bancos, guardando o dinheiro 

dos colonos e podendo utilizá­lo para seus negócios. 

Segundo Flores,

Na dinâmica da  venda,  tinham papel  importante a mulher  do  vendeiro e 

suas  filhas,  que  atendiam  no  balcão  e  na  ausência  do  vendeiro  o 

substituíam  com  êxito.  Nas  compras,  a  mulher  decidia  sobre  artigos  de 

armarinhos, tecidos e artefatos femininos. 

134 


As  vendas,  segundo  Müller,  eram  muito  parecidas  umas  com  as  outras: 

possuíam  armários  envidraçados  até  o  teto  que  continham  baldes,  regadores, 

bacias de alumínio, urinóis,  bombas de “flit”, caçarolas,  louça de barro, cafeteiras 

132 


Segundo  ROCHE,  Jean.

  A  Colonização  Alemã  e  o  Rio  Grande  do  Sul

.  Porto  Alegre:  Globo, 

1969.p. 58 

133 

A primeira venda de Novo Hamburgo foi fundada por Alexandre Kersting, natural de Hamburgo, 



Alemanha e que, por volta 1830 passou o ponto para Johann Peter Schmitt, que veio da Alemanha 

em 1825. Schmitt era “

pessoa influente na localidade e na região e seu nome identificava o lugar. 

Foi escolhido para exercer as funções de Inspetor para as áreas de Estância Velha, Bom Jardim e 

Campo Bom, e, em 1861, eleito Juiz de Paz da Capela da Piedade do Hamburger Berg. Colaborou 

nas  obras  da  Igreja  Evangélica,  Igreja  Católica,  escolas  e  em  outras  iniciativas  de  interesse 

comunitário  na  localidade.  Sensível  à  música,  participava  de um  dos  primeiros  corais  da  região. 

Após o falecimento de sua primeira esposa, Ana Barbara Blauth, com quem teve 4 filhos, casou­se 

com Catharina Keiper em 1839, com quem teve mais 16 filhos. Faleceu em 16 de junho de 1868, 

aos 67 anos.”

 

(

http://www.scheffel.com.br/casaschmitt.htm



134 


FLORES, op.cit. p.98


esmaltadas,  tecidos  em  peças,  miudezas  para  costura,  chinelos,  tamancos, 

ferramentas, fumo em corda, bibelôs, mantimentos e muito mais. 

135 

Funcionavam, 



também,  como farmácias, vendendo alguns  tipos  de  medicamentos mais comuns 

(xaropes, pomadas, esparadrapo, vermífugos, etc.) e produtos de higiene pessoal. 

Não  se  deve esquecer  o  prazer  das crianças:  as  balas  e  os chocolates. 

Essas  tentações  estavam  em  grandes  vidros  na  outra  extremidade  do 

balcão,  junto  à  balança.  A  variedade  de  balas  não  era  muito  grande: 

balas de frutas, café­com­leite [...] e umas coloridas com listras de várias 

cores,  cilíndricas,  em  pequenos  pedaços.  Eram  do  Neugebauer  [...].  Em 

outro  vidro  estavam  as  balas  à  base  de  guaco,  escuras,  açucaradas, 

indicadas  contra  tosse  [...]  O  chocolate  [...]  uns  pirulitos  vermelhos  [...] 

Num outro vidro estavam as rapaduras [...] 

136 

Uma  das  vendas  mais  conhecidas  da  região  foi  a  Casa  Schmitt  Presser, 



que foi construída na primeira metade do século XIX e constitui­se num dos mais 

antigos  exemplares do Rio Grande do Sul, da arquitetura  enxaimel, característica 

das áreas de imigração germânica. 

137 


135 

MÜLLER, Telmo Lauro.

 Colônia Alemã

  – Imagens do Passado. Porto Alegre: EST, 1981. p.74, 

75 

136 


Ibidem, p.74,75 

137 


Nesse  sistema de  construção,  as  paredes  são  formados por um  tramado  de  madeira  onde  as 

peças  horizontais,  verticais  e  inclinadas  são  encaixadas  entre  si  e  os  vãos,  posteriormente,  são 

preenchidos  com  taipa,  adobe,  pedra  ou  tijolo.  Essa  casa  é  notável  por  ser  uma  das  únicas 

construções  em  enxaimel,  no  Estado,  em  que  há  remanescentes  de  taipa  nas  vedações  das 

paredes  externas.  Internamente,  a  maior  parte  das  paredes,  também  ,foi  assim  construída.  As 

peças  estruturais  são  em  madeira  falquejada,  demonstrando  sua  antiguidade.  Em  1923,  com  o 

rebaixamento  da  rua,  aos  alicerces  originais  foram  acrescentadas  grossas  paredes  de  pedra  e 

tijolo.  A construção  ganhou assim  mais um pavimento.  As  várias  ocupações,  ao  longo dos anos, 

submeteram  a  casa  a  modificações,  dificultando  a  identificação  precisa  de  funções  e  aspectos 

físicos originais. Segundo site 

http://www.scheffel.com.br/casaschmitt.htm



Figura 8 ­ Venda de Johann Peter Schmitt no início do século. 

138 


Johann  Peter  era  o  vendeiro  local  e,  segundo  a  historiografia,  foi  uma 

pessoa bastante conhecida em função de sua atividade. Seu negócio foi bastante 

rentável,  pois  aproximadamente  dezoito  anos  depois  de  ter  se  estabelecido  em 

Santa Clara, ele retornou para Dois Irmãos e teve a satisfação de distribuir a cada 

um de seus seis filhos (o sétimo ainda não tinha nascido) a quantia de 40 contos 

de réis, valor bastante alto para a época. 

139 

A família Adams, por volta de 1886­7, deixou a vila de Santa Clara do Sul e 



voltou  para  Dois  Irmãos.  Entretanto,  não  se  sabe  a  data  certa  em  que  a  família 

saiu de Santa Clara, mas há indícios sobre isso no Livro de Eleitores de Estrela de 

1890,  onde  não  consta  o  nome  de  Johann Peter,  portanto,  ele  não  deveria  mais 

estar  residindo  naquele  município.  Ao  mesmo  tempo,  segundo  Monte  Domecq, 

138 

Jornal


 NH

, 05/04/2002 

139 

Segundo  PETERSEN,  Sílvia  F.  As  greves  no  Rio  Grande  do  Sul.  In:  DACANAL,  José 



Hildebrando & GONZAGA, Sergius (orgs.)

 RS:Economia & Política

. Porto Alegre: Mercado Aberto, 

1979. p. 283, o salário de um operário qualificado era de 150$000 e as despesas que uma família 

de seis pessoas tinha por mês com aluguel, lenha, água e alimentação era de 125$000.



Pedro  Adams  Filho  já  estava  estabelecido  em  Dois  Irmãos  em  1888  com  uma 

sapataria e selaria. 

140 

A vida em Dois Irmãos, segundo Vier, também não foi fácil para os colonos 



e  seus  descendentes  que  lá  viviam.  Desde  o  início  da  colonização,  antes  da 

criação  das  cooperativas  e  das  Caixas  Rurais  os  colonos  não  tinham  nenhum 

auxílio financeiro, contando apenas com sua força de trabalho para sobreviver. 

141 


Neste capítulo, buscamos narrar a história de Pedro Adams Filho e povoar 

o seu contexto de vida através da narrativa de trajetória de homens que, como ele, 

investiram  momentos  de  suas  vidas  à  criação  de  empresas,  inovações 

tecnológicas  e  formas  de  agremiação  de  cunho  religioso,  educativo  e/ou 

recreativos.  Tais  iniciativas  e/ou  atividades  deixaram  vestígios  que  permitem 

conhecer  um  pouco  aspectos  da vida cotidiana  e da  história  de  suas  respectivas 

cidades. 

140 


MONTE DOMECQ, op. cit. p.242. 

141 


Segundo  VIER,  Justino  Antonio.

  História  de  Dois  Irmãos/RS  –  Passado  e  Presente

.  São 

Leopoldo:  Gradfil,  1999,  em  1929  Adams criou  a Caixa  Rural  União  Popular  de  Novo  Hamburgo 

que financiava pequenos proprietários auxiliando­os nos negócios.



CAPÍTULO 2 – INDÚSTRIA CALÇADISTA 

2.1 ­ A Fábrica de Calçados Sul­Riograndense 

Neste  capítulo  vamos  tratar  dos  seguintes  aspectos  relativos  a  Pedro 

Adams  Filho:  suas  empresas,  a  Fábrica  de  Calçados  Sul­Riograndense  e  o 

Curtume  Hamburguez,  o  design  de  calçados,  as  exposições  industriais,  as 

questões de trabalho na cidade e de energia elétrica. 

A  busca  sobre  a  criação  da  indústria  por  Pedro  Adams  Filho,  levou­nos  a 

fazer uma análise historiográfica sobre a história do setor coureiro­calçadista para 

situarmos  o  caráter  de  empreendedorismo  presente  nas  iniciativas  de  nosso 

personagem. 

A narrativa começou com a análise de um livro chamado

 O Rio Grande do 

Sul Colonial

, publicado em  1918  pela  Societé  de  Publicité Sud­Americaine Monte 

Domecq  & Cia. 

142 


, empresa franco­espanhola. De forma laudatória, o livro conta a 

história  do  Estado  através  de  fatos  municipais  e  biografias  de  seus  principais 

empresários  e  políticos.  As  empresas  de  Pedro  Adams  Filho  são  descritas  com 

142 


SOCIETÉ DE  PUBLICITÉ  SUD­AMERICAINE  MONTE DOMECQ  &  CIA.

 O Rio Grande do Sul 

Colonial

. Paris/Barcelona: Estabelecimento Gráfico Thomas, 1918.




detalhes  nessa  obra,  e  as  informações  ali  contidas  foram  de  grande  valia  para 

este trabalho. 

Encontramos  também  uma  obra  sobre  a  história  dos  curtumes  e  seu 

funcionamento, de autoria de E. Belavsky, 

143 

publicada nos anos 1960, e que nos 



ajudou a compreender a história do curtimento do couro. 

Foi somente a partir dos anos 1990 que o setor coureiro­calçadista do Vale 

do  Sinos começou  a  ser estudado com mais profundidade. Desse período temos 

as obras de Brenner 

144 

e Fensterseifer 



145 

que analisam a indústria de calçados no 

Brasil  e  no  Vale.  Mais  recentemente,  há  as  obras  de  Rupenthal 

146 


,  Costa  & 

Passos 


147 

, que organizam um livro com vários artigos específicos sobre o tema, e 

Motta 

148 


que faz uma pesquisa integrando o calçado e a moda no Brasil. 

Sobre  a  indústria  calçadista de  Novo  Hamburgo,  a  obra  mais  recente  está 

vinculada a um projeto desenvolvido pelo Centro Universitário Feevale através de 

seu  grupo de pesquisa Memória  e História da Comunidade e do Museu  Nacional 

do  Calçado  intitulado

  Memória  do  Setor  Coureiro­Calçadista:  Pioneiros  e 

Empreendedores do Vale do Rio dos Sinos 

149


 

, em que foram narradas, através de 

143 

BELAVSKY, E.



 O curtume no Brasil

. Porto Alegre: Globo, 1965. 

144 

BRENNER,  G.



  A  indústria  de  calçados  no  Brasil

:  trabalho,  competição  e  produtividade. 

Dissertação Mestrado, PPGA, UFRGS, 1990. 

145 


FENSTERSEIFER,  Jaime  E.  (org.)

  O  Complexo  Calçadista  em  Perspectiva:  Tecnologia  e 

Competitividade

. Porto Alegre: Ortiz, 1995. 

146 

RUPENTHAL, Janis Elisa.



 Perspectivas do Setor Couro do Estado do Rio Grande do Sul

. Tese 


de doutorado. UFSC. PPG Engenharia de Produção. Florianópolis, 2001. 

147 


COSTA,  Achyles  Barcelos  da  &  PASSOS,  Maria  Cristina  (orgs.)

  A  indústria calçadista no Rio 

Grande do Sul

. São Leopoldo: Editora Unisinos.2004. 

148 

MOTTA,  Eduardo.



  O  Calçado  e  a  Moda  no  Brasil:  um  olhar  histórico

.  Porto  Alegre: 

Litokromia/Magno, 2005. 

149 


SCHEMES, Claudia et alii.

 Memória do Setor Coureiro­Calçadista

: Pioneiros e Empreendedores 

do  Vale  do  Rio  dos  Sinos.  Novo  Hamburgo:  Feevale,  2005.  Nessa  obra  foram  colhidas  23




depoimentos  orais,  as  histórias  dessas  pessoas  que  tiveram  alguma  participação 

na formação desse setor. 

O  CD­ROM

  Memória  do  Setor  Coureiro­Calçadista:  Pioneiros  e 

Empreendedores do Vale do Rio dos Sinos

, que contém fotografias relacionadas à 

história  da  cidade  de  Novo  Hamburgo  e  sua  indústria,  e  cuja  elaboração  teve  a 

participação  da  autora  desta  tese,  foi  outra  obra  muito  importante  para  esta 

pesquisa. 

150 


Para  analisar  o  contexto  de  criação  da  empresa  de  Pedro  Adams  Filho,  é 

preciso  apontar  a  forte  tradição  pecuária  do  Estado  que  remonta  ao  século  XVII 

com  a  introdução  do  gado  pelos  jesuítas  no  Rio  Grande  do  Sul,  pois  essa 

atividade  representou sua  primeira força  econômica,  e foi a responsável pela  sua 

integração  ao  restante  do  país.  Inclusive  o  período  que  vai  do  século  XVII  a 

meados  do  XIX  ficou  conhecido  por  parte  da  historiografia  brasileira  como  Idade 

do  Couro.  Foram  os  produtos  derivados  do  setor  primário  os  responsáveis  pelo 

início da industrialização gaúcha (tecidos, lãs, couro, calçados, entre outros). 

Desde  o  século  XVIII,  o  gado  era  abatido,  principalmente,  para  o 

aproveitamento  das  peles  que  eram  exportadas  para  fora  do  Estado,  já  que  não 

existia  mercado  consumidor  para  uma  grande  quantidade  de  carne.  O  couro, 

nessa  conjuntura,  era  utilizado  de  maneira  bruta,  mais  tarde  é  que  passou  a ser 

entrevistas  com  mais  de  50  horas  de  gravação  e  12  meses  de  pesquisa.  As  categorias 

representadas nessa pesquisa foram: empresários  e trabalhadores, caixeiros­viajantes,  transporte 

rodoviário,  imprensa  e  raid  do  calçado,  FENAC  (Feira  Nacional  do  Calçado),  prefeitos, 

exportadores e estilistas. 

150 

SCHEMES, Claudia & PRODANOV, Cleber. Memórias do setor coureiro­calçadista: um acervo 



fotográfico [recurso eletrônico]. Novo Hamburgo: Feevale, 2006. 1 CD­ROM.


curtido.  Com  o  desenvolvimento  das  charqueadas,  essa  produção,  mesmo 

perdendo  o  valor,  aumentou  e  continuou  sendo  vendida  para  o  exterior.  Apenas 

com o desenvolvimento da indústria frigorífica na primeira década do século XX é 

que as peles passaram a ter um uso mais racional através de seu processamento 

industrial. 

151 


A economia gaúcha então centrava­se em três produtos: o gado vivo, 

o charque e o couro. 

Segundo  Belavsky 

152 


,  as  técnicas  relacionadas  ao  curtimento  do  couro 

desenvolveram­se  vagarosamente,  uma  vez  que  a  arte  de  curtir  as  peles  foi 

introduzida pelos árabes na Europa já no século VIII, mas apenas no século XVIII, 

quando houve a instalação do primeiro curtume na Europa, é que se iniciaram as 

pesquisas  nessa  área. 

153 


Até  esse  momento,  o  trabalho  artesanal  e  os segredos 

do  curtimento  eram  passados  de  pai  para  filho,  baseados,  principalmente,  na 

observação e experiência. 

Acredita­se que o primeiro curtume do Brasil foi fundado no início do século 

XIX,  no  Rio  Grande  do  Sul, 

154 


e  prosperou  rapidamente  no  Vale  do  Sinos,  uma 

vez que havia poucos produtos de couro no mercado. Entretanto, ele era utilizado 

em quase todos os artigos que o gaúcho possuía: “na construção de sua moradia, 

151 


Para  conhecer  o  histórico  da  pecuária  e  curtumes  do  RS  ver:  RUPENTHAL,  Janis  Elisa.

 

Perspectivas  do  Setor  Couro  do  Estado  do  Rio  Grande  do  Sul



.  Tese  de  doutorado.  UFSC.PPG 

Engenharia de Produção. Florianópolis, 2001 e SANTOS, André Maurício. A Indústria de Curtumes 

do  Rio  Grande  do  Sul.  In:  COSTA,  Achyles  Barcelos  da  &  PASSOS,  Maria  Cristina  (orgs)

  A 


Indústria Calçadista no Rio Grande do Sul

. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2004. 

152 

BELAVSKY, E.



 O curtume no Brasil

. Porto Alegre: Globo, 1965. 

153 

Foi  apenas  por  volta  de  1800  que  iniciaram as  experiências  com  o  tanino  (extrato  vegetal  de 



árvores)  para  o  curtimento  do  couro  e  introduzidas  as  máquinas  nos  curtumes.  RUPENTHAL  op 

cit.p.73,74. 

154 

Segundo BRENNER, G.



 A indústria de calçados no Brasil

: trabalho, competição e produtividade. 

Dissertação  Mestrado,  PPGA, UFRGS,  1990. O autor ainda  diz que no Rio de Janeiro, em 1816, 

85%  da  população  andava  descalça  e  as  mulheres  usavam  sapatos  de  seda  que  duravam 

aproximadamente dois dias.



no  mobiliário  rústico,  no  transporte,  no  armamento,  no  vestuário  e  em  outros 

utensílios.” 

155 

O  couro  era  uma  mercadoria  de  grande  valor  que,  em  alguns 



momentos,  chegou  a  ser  moeda  corrente,  todavia,  essa  importância  não  foi 

sempre a mesma. 

Segundo Selbach, 

[...] foi Nicolau Becker [...] no final do século XVIII, o primeiro a trabalhar 

com curtume e selaria. Instalado na Estrada das Tropas, na altura do que 

viria  a  ser  Hamburgo  Velho,  via  passar  a  sua  frente os  tropeiros  vindos 

das  estâncias  localizadas  na  parte  sul  do  Estado  rumo  ao  mercado 

principal de Sorocaba, em São Paulo.  Além do ponto privilegiado, pouco 

valia a matéria­prima utilizada no fabrico dos artigos de montaria [...] Para 

os estancieiros,  o  que importava no boi  era  a carne e não o couro;  este 

era  tão  somente  utilizado  na  própria  estância.  Desta  forma  o  negócio 

prosperou. [...] 

156 

Mas  mesmo  a  indústria  de  couro  tendo  prosperado  no  Vale  do  Sinos,  os 



colonos alemães não foram os primeiros a se dedicarem a esse tipo de atividade, 

pois  os  portugueses  já  haviam  instalado  curtumes  na  região  de  Pelotas  e  Rio 

Grande. Mesmo assim, colonos alemães  tornaram­se  os  principais  produtores  de 

artigos  de couro,  como  arreios,  guaiacas,  perneiras,  botinas, chinelos,  tamancas, 

sapatos, etc., criando as primeiras sapatarias. 

155 


SANTOS, André Maurício. A Indústria de Curtumes do Rio Grande do Sul. In:COSTA, Achyles 

Barcelos  da  &  PASSOS,  Maria  Cristina  (orgs)

  A  Indústria Calçadista no  Rio  Grande  do  Sul

.  São 


Leopoldo: Editora Unisinos, 2004. p. 99 

156 


SELBACH, Jeferson.

 Pegadas Urbanas

 – Novo Hamburgo como palco do flâneur. Cachoeira do 

Sul: Ed. Do Autor, 2006.p.181




O pioneirismo dos colonos na indústria  de calçados surgiu principalmente 

pela necessidade de proteção dos pés, não só por causa do frio, mas também por 

causa dos bichos e arbustos existentes em profusão nas zonas de colonização. 

157 


O  trabalho  na  agricultura,  nas  roças,  também  exigia  o  uso  do  calçado  que 

não  era  comercializado  em  lojas.  Os  sapateiros  faziam­nos  sob  medida  e  por 

encomenda. 

É bom lembrar que o imigrante alemão trouxe o hábito de andar calçado e 

tinha  mais  condições  financeiras  de  adquirir  esse  produto  que  a  maioria  da 

população brasileira, portanto, mesmo que a utilização do calçado fosse bastante 

restrita  em  todo  o  país,  no  Vale  do  Sinos    era  muito  utilizado  desde  meados  do 

século XIX. 

Segundo Santos 

158 


, no século XVIII a média de exportação anual girava em 

torno de 120 mil couros, e os impostos excessivos cobrados pelo governo imperial 

juntamente  com  o contrabando eram  motivos  de  descontentamento e de protesto 

por parte dos produtores. 

A  Idade  do  Couro  terminou  em  meados  do  século  XIX,  mas  a  sua 

importância na economia perdurou e lançou as bases do setor coureiro­calçadista, 

que impulsiona até hoje a economia do Estado. 

Dentro desse contexto de abundância de peles e de inserção do colono no 

uso  e  produção  de  calçados,  encontramos  Pedro  Adams  Filho,  então  com  18 

157 


COPETTI,  Américo.  Monografia da Indústria  de Calçados do Rio Grande do Sul. Porto  Alegre: 

CORAG, 1976. 

158 

Ibidem, p.100




anos, que vai trabalhar como aprendiz de seleiro com o mestre Jacob Bossle dono 

de  uma  selaria  e  uma  sapataria  na  colônia  de  Taquara  do  Mundo  Novo,  atual 

cidade de Taquara por volta de 1886­87. 

159 


Não  foram  preservados  documentos  que  explicassem  a  ida  de  Adams  a 

cidade  de  Taquara,  nem  como  foi  sua  estada  naquele  local.  Provavelmente,  ele 

passou  alguns  meses  por  lá  apenas  para  aprender  um  ofício,  já  que  possuía 

dinheiro  para  investir  em  um  negócio  próprio,  e  ainda  não  tinha  uma  formação 

profissional. 

160 


Ao  lado  desse  desenvolvimento  dos  curtumes,  a  produção  de  calçados 

havia tomado um impulso bastante grande na segunda metade do século XIX com 

a Guerra do Paraguai, que aumentou a demanda de calçado, e com a urbanização 

e  a  conseqüente  diminuição  dos  produtos  de  montaria  no  mercado.  Nesse 

período,  os  artigos  de  montaria,  por  exemplo,  ainda  eram  produzidos  de  forma 

artesanal  enquanto  na  fabricação  do  calçado  já  eram  utilizadas  algumas 

máquinas. 

Vimos que  a  instalação da fábrica  de  Pedro Adams Filho  está  intimamente 

ligada ao estabelecimento, no Estado, dos primeiros curtumes, que impulsionaram 

a produção de artigos de couro. 

Depois  de  aprender  seu  ofício  de  seleiro,  Adams  mudou­se  para  Dois 

Irmãos onde trabalhou como empregado numa fábrica de couros curtidos e numa 

159 

Segundo suplemento especial da Cia. Jornalística Caldas Junior, 1974. 



160 

Entramos em contato com a família Bossle de Taquara que não tinha informações a respeito de 

Jacob Bossle, seu negócio e a passagem de Pedro Adams Filho por aquele local.



correaria,  com  salário  inicial  de  oito  mil  réis  mensais  e,  rapidamente,  passou  a 

contra­mestre, ganhando 22$000. 

Segundo Monte Domecq, 

Por  muito  modesta  que  pareça  essa  situação,  ela  bastou  ao  jovem 

trabalhador  para  incutir­lhe  no  espírito  a  esperança  de  um  futuro  mais 

risonho  para  o  qual  sua  energia  e  seu  modo  econômico  de  viver  se 

encaminhava,  resolutamente,  embora  aos  poucos,  constituindo,  assim, 

um pequeno capital inicial. 

Pedro Adams [...] conheceu, na sua mocidade, todas as dificuldades que 

o

  strugle for life



  reserva aos que  devem conquistar  o  seu lugar  na  vida, 

contando, apenas, com a sua inteligência, o seu amor ao trabalho e a sua 

vontade de vencer. 

161 


Não  tardou  muito  para  o  jovem  Adams,  em  1888,  então  com  18  anos  de 

idade,  estabelecer­se  em  Dois  Irmãos  como  sapateiro  e  seleiro  usando  seus 

próprios  recursos,  como  nos  informa  Monte  Domecq.  Esses  recursos,  como 

vimos 


162 

, não provinham apenas de seu trabalho, mas também do dinheiro juntado 

por seu pai na casa de comércio que a família possuiu em Santa Clara. 

Essa cidade, mesmo estando voltada para a agricultura colonial, conheceu 

a criação de vários tipos de manufaturas e agroindústrias de gêneros alimentícios, 

pois os colonos possuíam famílias numerosas, uma média de sete a dez filhos, e 

tinham de sobreviver de qualquer maneira. Essas atividades artesanais abrangiam 

uma  série  de  artigos,  utensílios  e  alimentos  que  eram  consumidos  localmente  e 

vendidos para outras cidades. 

163 


161 

MONTE DOMECQ, 1918, p.242 

162 

Conforme capítulo 1 desta tese. 



163 

VIER,  Justino  Antonio.

  História  de  Dois  Irmãos

  –  RS  –  passado  e  presente.  São  Leopoldo: 

Sinodal, 1999. p.117



Normalmente  as  sapatarias  funcionavam  em  uma  peça  da  casa  do 

sapateiro, e os calçados fabricados, mesmo não sendo sofisticados, eram de boa 

qualidade. 

164 


Os  produtos  mais  procurados  na  oficina  de  Adams  eram  os  arreios  de 

montaria  e  tração,  dado  que  o  cavalo  era  o  principal  meio  de  transporte  da 

época. 

165 


A  produção  de  arreios  acabou  influenciando  a  fabricação  dos  calçados,  já 

que havia muita sobra de couro, principalmente das pernas e virilhas dos animais 

que  não  eram  aproveitáveis  para  o  material  de  montaria,  mas  serviam  para  a 

fabricação dos tamancos, chinelos, solas e saltos. 

Além dos chinelos, a produção da sandália iniciou no final do século XIX e 

teve como um dos seus primeiros fabricantes Paulo Triebses, que constatou, pela 

análise técnica, que esse produto era mais leve, cômodo e de baixo custo. Assim, 

logo teve ampla aceitação no mercado. 

166 

Adams  notou  que  o  mercado  era  amplamente  favorável  e  que  alguns 



fregueses faziam pedidos específicos de alguns produtos. Começou então a fazer 

chinelos e botinas que eram produzidos em pequena quantidade e, na maioria das 

vezes, segundo o gosto do comprador. 

Dentre as atividades citadas pelo autor estão: alambiques,  atafonas, moinhos de grãos, serrarias, 

carpintarias, olarias,ferrarias, selarias, alfaiatarias, matadouros, cantarias, bebidas. 

164 


Ibidem, p.120. 

165 


Ibidem, p.120. 

166 


SCHÜTZ,  Liene  M.Martins.

  Novo  Hamburgo:  Sua  História,  Sua  Gente

.  Porto  Alegre:  Palotti, 

1976. p. 103




Nessa  época,  as  oficinas  empregavam,  no  máximo,  dois  funcionários:  os 

aprendizes,  que  em  geral  não  recebiam  salários  pelo  seu  trabalho,  exceto  a 

comida.  Esses  aprendizes  eram,  normalmente,  da  própria  família,  e/ou  tinham 

relações de amizade ou de vizinhança com o dono da oficina. 

167 

Segundo depoimento de J.A. Wirth, as oficinas tinham instalações simples e 



precárias:  apenas  algumas  mesas,  cavaletes  e  bancos.  Os  instrumentos  e 

ferramentas  de  trabalho  eram  rudimentares  e  pertenciam  ao  dono  do 

estabelecimento.  A  oficina  de  Adams  era  um  pouco  maior  que  a  média  das 

oficinas da cidade e tinha doze pessoas trabalhando na fabricação de chinelos. 

168 

Os  produtos  da  oficina  de  Adams  foram  assim  anunciados  em  jornal  da 



época: 

Em  nenhum  outro  negócio  se  compra  tão  barato  como  na  fábrica  de 

calçados  de  Pedro  Adams  Filho,  em  Dois  Irmãos.  Todos  os  artigos  são 

feitos à mão e são de 25 a 30% mais baratos do que toda a concorrência, 

como,  por  exemplo:  um  par  de  botas  para  cavalgar  somente  28$000  e 

um par de calçado masculino (botina) somente 12$000. 

169 

Não havia, nesse final de século XIX, uma estrutura organizada de vendas 



como  vai  ocorrer  mais  tarde.  As  vendas  dos  produtos  eram  feitas  pessoalmente 

por  Pedro  Adams  Filho,  que  se  embrenhava  nas  picadas 

170 

pelo  interior  apenas 



com  uma carreta  e  o desafio  de colocar  no mercado o maior número possível  de 

mercadorias.  A  maioria  dessa  produção  artesanal  era  comprada  pelas  casas 

167 

Depoimento de WIRTH, J. A., empresário do setor calçadista da cidade de Dois Irmãos, em 



novembro de 2004. 

168 


Ibidem 

169 


Jornal

 Deutsches Volksblatt

, 17/07/1900. 

170 


Picada, segundo Jean Roche op. cit., são caminhos estreitos abertos a golpe de facão no mato.


comerciais  locais,  chamadas  de  vendas,  e  pelo  comércio  da  capital,  Porto 

Alegre. 


171 

Segundo  relato  de  J.A.  Wirth,  em  Dois  Irmãos  “tinha  a  família  Adams,  do 

Pedro Adams  Filho, que  tinha uma pequena selaria e  sapataria.” Diz  o depoente, 

que com a ida do trem a Novo Hamburgo a família decidiu abrir uma fábrica maior 

naquela cidade,  “eles enxergaram  longe por  causa do trem”. 

172 


Portanto, além da 

prosperidade alcançada nos negócios o que o incentivou a transferir­se para Novo 

Hamburgo em 1898, foi a facilidade do transporte ferroviário, que poderia significar 

um  aprimoramento  da  rede  de  distribuição  de  seus  produtos  para  fora  da  área 

colonial, especialmente para Porto Alegre. 

Na nova cidade, Adams  instalou  sua  oficina  no  mesmo  local  da  sua  futura 

indústria, e logo teve de aumentar o seu número de funcionários. 

Entretanto, Pedro  Adams  Filho  tinha planos de  aumentar  seus negócios  e, 

assim, em 1901 resolveu associar­se a José Frederico Gerhardt para instalar uma 

fábrica  de  calçados  em  moldes  mais  modernos,  com  um  maior  número  de 

máquinas e funcionários, a

 Fábrica de Calçados Sul Rio­Grandense

A  análise  das  condições  da  selaria  de  Adams,  sua  preocupação  com 



anúncios  nos  jornais  e  até  mesmo  sua  transferência  para  Novo  Hamburgo, 

denotam uma preocupação em fazer seu negócio prosperar e ganhar um mercado 

maior  do  que  aquele  proporcionado  pelo  artesanato.  Tinha,  pois,  uma  visão 

171 


Jornal

 NH


, 05/04/1977. 

172 


Segundo depoimento de J. A. Wirth (nov/2004).


industrial,  como  tantos  outros  empreendedores  que  estavam  surgindo  nas 

diversas colônias do Estado. 

Figura 9 ­ Primeira foto tirada em frente a fabrica em 1901. (AFA) 

173 


Essa  foto,  segundo  informação  de  Carmen  Mosmann 

174 


,  foi  a  primeira  a 

ser tirada da fábrica logo após sua instalação no centro da cidade, na Rua Júlio de 

Castilhos,  e  mostra­nos  o  numeroso  grupo  de  trabalhadores  que  a  empresa 

empregava  (mais  de  100)  e,  dentre  eles,  um  número  considerável  de  mulheres 

(20%). Adams, como um típico capitão da indústria colocou­se no centro e à frente 

de todos. 

173 

Para a análise das fotos neste trabalho utilizamos como referencial  as obras:  KOSSOY, Boris.



 

Fotografia  e  História

.  São  Paulo:  Ática,  1989  e  BORGES,  Maria  Elisa  Linhares.

  História  & 

Fotografia

. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. 

174 

Neta de Pedro Adams Filho. Depoimento concedido em junho de 2005 e abril de 2006.




Para  Lagemann 

175 


,  a  expressão  “indústria  de  calçados”  pode  ser 

empregada  somente  a  partir  do  início  do  século  XX,  quando,  em  1907,  no 

levantamento  realizado  pelo  Centro  Industrial  do  Brasil,  foram  registradas  nove 

indústrias  calçadistas.  Baseados  nesse  autor,  podemos  conferir  à  empresa  de 

Adams  o  título de primeira  indústria  de  calçados  nos moldes modernos  em  Novo 

Hamburgo. 

Segundo  Rupenthal 

176 


,  um  fator  conjuntural  importante  a  ser  lembrado  é 

que as altas taxas de importação criadas pelo governo republicano incentivavam a 

criação  de  indústrias.  Mesmo  assim,  havia  apenas  duas  empresas  calçadistas 

com  mais  de  100  empregados  no  ano  de  1900  (Pelotas  e  Porto  Alegre)  e,  pelo 

censo  de  1907,  metade  da  produção  de  calçados  estava  concentrada  no  Rio  de 

Janeiro, em São Paulo e no Rio Grande do Sul, e supria 90% do mercado interno 

(a  taxação  sobre  os  calçados  importados  era  de  115%  e  o  governo  estadual 

incentivava as vendas para outros Estados). 

177 

O  capital  investido  inicialmente  pelos  sócios,  Adams  e  Gerhardt,  foi  de 



22:000$000  e  o  início  das  atividades  apresentou  uma  série  de  problemas,  como 

acontece  com  qualquer  negócio.  A  fabricação  dos  produtos  requeria  muito 

trabalho, e a colocação de novos produtos no mercado, juntamente com a criação 

de um mercado consumidor, apresentava uma série de dificuldades. 

175 

LAGEMANN,  Eugenio.  O  setor  coureiro­calçadista  na  história  do  Rio  Grande  do  Sul. 



Indicadores Econômicos.

 Ensaios FEE

, Porto Alegre, ano 7, n.2, p.69­82, 1986. 

176 


Op cit. p. 76,77. 

177 


O  censo  industrial  de  1907  atribuía  ao  Estado  9  indústrias  calçadistas  e,  em  1912, 

contabilizando também as indústrias de pequeno porte, somavam­se 699 fábricas de calçados que 

se concentravam na região de Porto Alegre e Vale do Sinos.



Em 1912, Adams já era agente do Banco da Província em Novo Hamburgo, 

o que certamente lhe facilitou a obtenção de créditos para suas empresas. 

Logo  que  abriu  sua  empresa,  Pedro  Adams  Filho  contratou  seu  irmão 

Alberto  para  gerente  técnico,  e  dedicou­se  integralmente  às  questões 

administrativas. 

178 


Figura 10 ­ Vista externa do depósito da empresa de Pedro Adams Filho em 1918 

179 


178 


MONTE DOMECQ, op. cit. p.242 

179 


Ibidem, p.242


Figura 11 ­ ­ Vista interna do depósito da fábrica. 

Figura 12 ­ Vista interna do depósito da fábrica. 

180 

180 


Ibidem, p.245


Figura 13 ­ Setor de expedição. 

181 


O  depósito  localizava­se  bem  ao  lado  da  fábrica,  o  que  facilitava  o 

transporte de material entre os dois prédios. Percebemos nessas fotos a extrema 

organização  do  local  e a grande  quantidade de  material estocado,  desde  couros, 

caixas  de  papelão,  até  componentes  para  calçados,  (fivelas,  fitas,  solas,  saltos, 

linhas, forros,  etc.)  No  setor de expedição, podemos ver as caixas  de calçados e 

os rolos de couro sendo preparados para a sua comercialização. 

181 

SCHEMES & PRODANOV, op. cit.




Figura 14 ­ Gabinete de trabalho de Adams. 

182 


Figura 15 ­ Um dos escritórios da empresa. 

183 


Na primeira foto, vemos Adams posando para o fotógrafo com um de seus 

funcionários  do  setor  administrativo  e,  na  segunda,  uma  imagem  de  um  dos 

escritórios,  em  que  percebemos  a  ausência  de  paredes,  que  possibilita  um 

182 


Ibidem, p.242 

183 


Ibidem, p.243


controle mais direto e intensivo do trabalho de seus funcionários, o que indica que 

Adams  utilizava­se  dos  princípios  de  administração  científica  criadas  por  Taylor 

184 



Apenas  três  anos  depois  de  iniciada  a  empresa,  José  Frederico  Gerhardt 



retira­se  satisfeito  com  seu  capital  e  lucro,  segundo  Monte  Domecq,  deixando­a 

nas  mãos  apenas  de  Pedro.  A  partir  daí,  a  fábrica  passa  a  se  chamar

  Pedro 

Adams Filho & Cia. Ltda

185 


Na  ocasião  da  saída  de  seu  sócio,  Pedro  nomeou  a  empresa  Franco, 

Ramos & Cia., de Porto Alegre, como seus agentes gerais. 

Figura 16 – Cabeçalho de papel de carta da empresa, 1916 (AFA) 

184 


Frederick  Winsllow  Taylor  (1856­1915),  engenheiro  norte­americano,  criou  um  método, 

conhecido como  taylorismo,  de  racionalização  e  controle do  tempo do  trabalhador,  elevando  sua 

produtividade individual , eliminando o desperdício e gerando redução dos custos de produção. 

185 


Conforme MONTE DOMECQ, op. cit. p.242.


No  início,  em  1901,  a  empresa  contava  com  112  funcionários  e,  em  1918 

esse  número  havia  passado  para  180,  o  que  representou  um  aumento  na 

produção, não só em função do maior número de trabalhadores, mas também por 

causa  da  aquisição  de  máquinas  mais  modernas,  que  aumentavam  a 

produtividade da empresa. 

A

  Pedro  Adams  Filho  &  Cia.  Ltda



  conheceu  um  rápido  crescimento,  pois, 

segundo  Monte  Domecq 

186 

,  o  capital  social  da  empresa  em  1918  era  de  R$ 



600:000$000, sendo o capital de giro de 4:000:000$000. Já as vendas da fábrica e 

do curtume somaram durante o ano de 1916, o valor de 1.969 contos de réis. 

Segundo  Rupenthal 

187 


,  na  primeira  década  do  século  XX  há  uma 

proliferação  de  fábrica  de  calçados  no  Estado,  pois  esse  tipo  de  indústria  não 

exigia  grandes  investimentos  e  havia  mão­de­obra  abundante  (ex­comerciários  e 

ex­agricultores),  entretanto,  a  produção  ainda  era  artesanal.  Diz,  ainda,  que  em 

1912  havia  699  fábricas  de  calçados,  a  maioria  com  dois  a  sete  empregados, 

produzindo 1,15 milhões de pares. Quatro anos depois, já havia 736 fábricas, mas 

apenas  quatro  tinham  mais  de  100  empregados  e  eram  responsáveis  por  quase 

50% da produção nacional. 

Numa  região  em  que  o  processo  de  produção  era  quase  artesanal,  uma 

fábrica  que  dispunha  de  maquinário  importado  era  vista  com  grande  admiração, 

conforme palavras de Monte Domecq: 

186 


MONTE DOMECQ, op. cit. p. 8 

Embora  não  seja  uma  obra  de  cunho  crítico,  ela  traz  informações  e  descrições  inéditas  sobre 

muitas empresas e faz um histórico da vida de muitos personagens importantes da história do Rio 

Grande do Sul. 

187 

Op cit p.77, 78.




Apesar  do  nosso  ofício  de  publicistas  obrigar­nos  a  uma  assimilação 

rápida  dos  processos  industriais  que  somos  chamados  a  estudar, 

confessamos  que  a  nossa  visita  á  fábrica  de  calçados  do  Sr.  Pedro 

Adams  Filho  deixou­nos  um  tanto  aturdidos,  pela  surpreendente 

variedade e pela precisão no trabalho das máquinas, que concorrem para 

a  fabricação  deste  artigo  de  primeira  necessidade:  um  par  de  botas. 

Sentíamos­nos  muito  longe  dos  nossos  velhos  sapateiros  d’outrora 

trabalhando a grandes golpes de martelo, com a forma entre as pernas, a 

sovela entre os dentes, as mãos pegajosas; o industrialismo acabara com 

essa  figura,  que  nos  foi  familiar,  e  dessa  execução  encarregaram­se 

alguns Pedro Adams Filho espalhados pelo Mundo...Se o nosso amor ás 

coisas  velhas  nos  incita  a  lamentá­lo  (somos  todos  um  pouco  amantes 

daquilo  que  foi...),

 em compensação nossas finanças não se queixam e, 

muito  pelo  contrário,  nem  nosso  instintivo  desejo  de  beleza  das  linhas, 

pois  a máquina  moderna, pelo menos na  industria do calçado, substitui, 

vantajosamente, a mão do artista e produz, ao mesmo tempo, obras tão 

agradáveis à vista, como sólidas.

 

188 


(grifo nosso) 

Percebe­se,  nesse  excerto,  a  estranheza  com  que  era  encarada  essa 

“nova”  indústria  e  até  certa  nostalgia  em  relação  ao  passado  e  à  produção 

artesanal. Mas, mesmo assim, os autores do texto (Monte Domecq) que visitaram 

a  empresa  de  Adams,  são  obrigados  a  prestar  tributo  a  essa  nova  maneira  de 

fabricar  o  calçado,  que  é  mais  rentável,  segundo  constatação  dos  próprios 

autores, e com tanta qualidade quanto um calçado feito de forma artesanal. 

188 


MONTE DOMECQ, op.cit.p.243,244.


Figura 17 ­ Atelier de fabricação de calçado. 

189 


Essa  foto  mostra  que  a  fábrica  possuía  um  sistema  de  produção  em 

esteiras e a especialização do trabalho, muito próximo do que podemos ver numa 

empresa de hoje. 

189 


MONTE DOMECQ, op. cit. p.243


Figura 18 ­ Atelier de fabricação de calçado. 

190 


Percebemos,  nessa  foto,  a  coexistência  das  máquinas  e  dos  instrumentos 

manuais,  como  o  martelo, utilizados pelos velhos sapateiros  que a  nova  indústria 

ainda não conseguia suplantar. 

A  máquina  como  substituta  do  trabalho  do  homem  era,  ainda,  objeto  de 

reflexões. 

Percorrendo  as  grandes  salas  de  trabalho  [...]  seguíamos,  etapa  por 

etapa,  as  manipulações  para  a  fabricação  do  calçado  e  todo  esse 

trabalho  inteligente  da  matéria  bruta,  guiada  pela  mão  do  homem,  nos 

parecia  natural,  como  se  não  pudesse  ser  diferente  e  como  se,  desde 

que  os  homens  andam  calçados,  as  máquinas  tinham  necessariamente 

produzido  o  mesmo  trabalho.  E  quando  nosso  amável  guia  (Alberto 

Adams)  nos  informava  da  utilidade  de  alguma  máquina  nova,  que  ele 

tinha  resolvido  importar,  logo  que  as  circunstâncias  o  permitissem,  para 

simplificar  ou  ativar  alguma  manipulação,  nos  dizíamos  a  nós  mesmos: 

“Pra  que?  Será  possível  simplificar  ainda  este  trabalho  que  nos  parece 

ter  reduzido  á  mais  simples  expressão  a  intervenção  do  homem? 

Entretanto se ele assim fala, deve ser certo, ­ ele entende bem disto...” – 

e  quase  suspeitamos  que  o  arrojado  industrialista  estava  sonhando 

190 

Ibidem, p.246




alguma  máquina  que,  recebendo  todos  os  apetrechos,  devolveria  o 

calçado inteiramente acabado. 

191 

Essa  estranheza  em  relação  à  tecnologia  empregada  na  fabricação  do 



calçado,  que  ficou  clara  na  citação  anterior,  aponta  ao  gerente  da  fábrica  como 

empresário  “arrojado”,  pois  Alberto  Adams  buscava  novas  tecnologias  para 

aperfeiçoar  um  produto  que,  em  essência,  já  era  considerado  muito  bem  feito 

apenas pela mão do trabalhador. 

Os autores desse mesmo livro seguem sua visita pela empresa e continuam 

a descrição do maquinário moderno utilizado. Descrevem o processo de produção 

detalhadamente,  e  surpreendem­se  com  uma  “máquina  circular,  cuja  faca, 

seguindo  o  molde  da  madeira,  corta  as solas  em  ambos  os  pés”.  Eles  explicam, 

também,  que  era  colocado  um  feltro  entre  as  palmilhas  e  a  sola  para  tornar  o 

calçado impermeável, o que era incomum naqueles tempos. 

191 

Ibidem, p.244




Figura 19 ­ Seção de corte e modelagem. 

192 


Figura 20 

­ 

Seção de corte. 



193 

192 


Ibidem,p.244


Descrevem, ainda, máquinas especiais para pregar o calçado, para montar 

o bico, para costurá­lo e que dependiam de operários hábeis e que dominassem o 

uso  do  maquinário.  Destacam  uma  preocupação  inusitada  com  a  estética  do 

produto, manifesta  pelas costuras  que  ficavam  escondidas  por pedaços  de couro 

colados com um produto feito pela própria empresa que, além de representar uma 

considerável  economia,  ainda  constituía­se  uma  forma  de  exclusividade  de 

fabricação e valorização do produto Adams. 

A citação a seguir exemplifica o encantamento dos observadores para com 

o  número  e  a  eficiência  das  máquinas  utilizadas  na  produção  de  um simples  par 

de sapatos masculinos: 

Finalmente,  intervém  uma  das  máqu in as  mais  curiosas  da  oficina,  a 

máquina


  Black

,  que  deve  seu  nome  a  um  preto  americano,  que  a 

inventou, e que acaba de costurar firmemente o rosto do calçado á sola. 

Nesta  altura  da  fabricação,  o  calçado  está  já  firme  e  definitivamente 

construído nas suas partes essenciais; o rosto e a sola. 

Outras  máquinas  aparecem,  logo,  para  alisar  a  sola  e  marcar  a  veia 

exterior;  esta  ultima  é  das  mais  aperfeiçoadas  e  gira,  a  razão  de  6.000 

voltas, por minuto. 

Falta colocar ainda os saltos. Estes vêm, grosseiramente, preparados por 

camadas  superpostas  de  couro.  Uma  primeira  máquina  prega, 

fortemente, essas camadas  e, outra, segura a ultima camada externa. O 

salto,  ainda  rudimentar,  é,  seguidamente,  colocado  numa  máquina 

poderosa que o comprime sob uma pressão de 30.000 quilos, formando a 

concavidade  da  parte  superior,  que  encaixará  com  a  sola,  na  parte  do 

calcanhar,  pela  intervenção  de  outra  máqu ina  muito  mais  delicada, 

destinada a pregar o salto á botina:  é a única parte do calçado que leva 

pregos. (grifos meus) 

194 


193 

SCHEMES & PRODANOV, op. cit. 

194 

Ibidem, p. 244,245




Figura 21 ­ Setor de montagem. 

195 


Nessas seções de corte, montagem e modelagem (figuras 19, 20 e 21),  chama­nos a 

atenção a presença, provavelmente, de um contra­mestre postado com as mãos na cintura, 

observando o trabalho sendo realizado pelos operários, que pode ser, mais uma vez, um 

aspecto do controle que havia em relação ao trabalhador e ao tempo utilizado por cada 

tarefa. 

Por fim, depois de o calçado ter passado por tantas mãos e utilizado tantas 

máquinas, ele é ainda “bastante rudimentar”. Para sanar esses problemas, outros 

equipamentos modernos se faziam necessários. 

Uma máquina  ronha o salto; outra  lixa o salto por meio de duas pedras 

rotativas  de  espessura  diferente,  deixando­o  perfeitamente  liso;  e  outra 

ainda  acaba  de  lixar  a  sola,  que  toma  um  aspecto  perfeitamente  liso 

numa ultima máqu ina. Falta pintar a sola, queimá­la com cera e lustrá­la, 

195 

SCHEMES & PRODANOV, op. cit.




operações estas, que são, também, feitas mecanicamente, e o artigo está 

prestes  a  receber  o  carimbo  do  fabricante,  a  numeração  e  o  elegante 

invólucro  de  papelão,  para  sair  ao  assalto  de  todos  os  mercados  do 

Brasil,  afirmando  cada  dia,  mais  poderosamente,  a  pujança da  industria 

deste recanto gaúcho, que mereceria ser mais eficazmente conhecido. 

196 


O uso intensivo da máquina é um dos fatores que diferenciava Adams dos 

demais  empreendedores da época no Vale dos Sinos. Ele  via  na  tecnologia uma 

maneira  de  destacar  seu  produto.  Poderia  ter  mantido  sua  fábrica  com  um 

maquinário  mais  rudimentar,  com  um  trabalho  mais  artesanal,  mas  optou  pela 

inovação. 

A  qualidade  e  a  acabamento  do  calçado  produzido,  como  vimos,  também 

são detalhes que não passam despercebidos, deixando claro ao leitor que aquele 

era um produto feito dentro da mais alta tecnologia, o que confirmava a pujança do 

Estado nesse setor da economia. 

Essas máquinas foram importadas da Alemanha e eram da marca

 Moenus

mas  durante  a  1ª.  Guerra  Mundial,  Pedro  Adams  Filho,  por  pressões  políticas  e 



econômicas, 

197 


foi obrigado a substituí­las por máquinas norte­americanas. 

198 


Procurando,  ainda,  melhorar  o  sistema  de  produção,  Pedro  Adams  Filho 

trouxe técnicos da Itália e do Uruguai para operarem essas máquinas. 

199 

196 


Ibidem, p. 244,245 

197 


Segundo Jornal

 NH


, 05/04/1977 

198 


Embora  Adams  tenha  importado  suas  primeiras  máquinas  da  Alemanha,  a  maior  parte  do 

maquinário  era  produzido  nos  Estados  Unidos,  que  desde  o  início  dedicaram­se  a  produção  em 

massa  do  calçado,  enquanto  que  outros  países  que  lideravam  a  produção  e  o  comércio  se 

apegavam  à  manufatura,  como  a  Inglaterra,  que  mesmo  dominando  no  negócio  do  calçado  foi 

obrigada  a  pagar  royalties  aos  americanos  pelo  uso  de  suas  máquinas.  MOTTA,  Eduardo.

  O 


Calçado e a Moda no Brasil: um olhar histórico

. Porto Alegre: Litokromia/Magno, 2005. p.67.




Ele  foi,  também,  o  responsável  pela  vinda  dos  três  primeiros  técnicos  em 

fabricação  de  calçados,  Salvador  Ingletto,  Nicolas  Daile  e  Paulo  Triebses  que 

“transformaram  sua  indústria  numa  verdadeira  escola,  da  qual  começaram  a  sair 

as outras fábricas do Vale.” 

200 

Essa  “inovação”,  a  preocupação  com  o  ensino  do  ofício,  pode  ser  inserida 



dentro de um processo mais amplo de modernização do setor calçadista brasileiro, 

que  ocorreu  entre 1880  e  1920,  em  função  da  substituição de  importações. 

201 

Já 


no  final  do  século  XIX,  o  uso  de  máquinas  a  vapor  (marco  no  desenvolvimento 

tecnológico  mundial)  intensificou­se  nos  curtumes  e  indústrias  calçadistas  no 

Brasil.  Além  disso,  os  novos  avanços  tecnológicos  europeus  passaram  a  ser 

incorporados pelas indústrias do Vale dos Sinos nas primeiras décadas do século 

XX. 

Aliado  a  todo  o  processo  de  produção  básico  do  calçado,  havia,  também, 



outros  processos  acessórios  que  eram  fundamentais  para  dar  um  bom 

acabamento  ao  produto,  como  o  “cimento  especial”,  feito  de  borracha  vinda  do 

Pará e utilizado para colar o couro.  Mais uma vez Monte Domecq explica como se 

dá essa parte da produção: 

O couro, cortado em tiras de 15 a 20 centímetros de largura, é chanfrado, 

mecanicamente, nas suas extremidades,  que  são  coladas,  cabo a cabo, 

por  meio  do  cimento  especial,  de  modo  a  oferecerem  uma  espessura 

igual em  todo  o  comprimento.  A máquina  de  chanfrar  trabalha  por  meio 

de  uma  navalha,  sem  fim,  que  se  afia  na  própria  máquina.  A  comprida 

199 


Jornal

 NH


, 05/04/77 

200 


Guia do Vale, 28/07/72 

201 


REICHERT,  Clóvis  Leopoldo.    A evolução  tecnológica da  indústria  calçadista  no  sul do  Brasil. 

In:  COSTA,  Achyles  Barcelos  da  &  PASSOS,  Maria  Cristina  (orgs)

  A  indústria calçadista  no Rio 

Grande do Sul

. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2004.p.52



banda  de  couro  entra  logo  em  outra  máquina,  que  a  debita  em  tiras 

estreitas, que são as viras de que anteriormente falamos. 

202 

Em raros momentos, os operários da fábrica são lembrados pelos visitantes 



(Monte Domecq) como protagonistas, pois, o encantamento com a máquina era tal 

que parecia não haver pessoas ali trabalhando. 

É  apenas  na  descrição  da  etapa  de  acabamento  do  calçado  que  os 

operários são citados: 

Quando  iniciamos  o  estudo  das  diversas  máquinas,  que  concorrem  ao 

acabamento, recebemos os rostos dos calçados já preparados. Eles vêm 

do atelier de costura, servido por máquinas, dirigidas por mulheres. 

Uma  máquina  perfura  a  biqueira  da  bota;  outra,  chanfra  as  tirinhas  de 

couro,  que  servirão  interna  ou  externamente;  outra,  abre  e  costura  as 

casas  para  abotoar,  com  inexcedível  perfeição,  sendo  essas  casas 

consolidadas n’outra máquina; outra, ainda, e não a menos interessante, 

costura botões. Uma máquina “Singer”, trabalhando com quatro novelos, 

faz duas costuras,  simultaneamente,  na parte  posterior  do  rosto.  E  todo 

esse  trabalho,  se  efetua  num

  zum­zum

,  quais  novas  abelhas  em  sua 

tarefa,  com  vertiginosa  rapidez  e  singular  perfeição.  As  máquinas  não 

descansam,  pois  os  pedidos  estão  lá,  prementes,  que  exigem  uma 

atividade febril.  Acontece  por  acaso  um  desarranjo?  Quebra uma peça? 

Imediatamente,  o  hábil  mecânico  da  fábrica  conserta  o  desarranjo  ou 

fabrica uma peça nova. 

203 


202 

MONTE DOMECQ, op. cit. p. 245 

203 

Ibidem, p.245




Figura 22 ­ Ateliê de costura. 

204 


Figura 23 ­ Ateliê de costura e seção de corte de calçados. 

205 


204 

Ibidem, p.244




Esse “zum­zum” das  “abelhas” nos remete à rapidez com que as mulheres 

trabalhavam e ao tempo que passou a ser precioso, pois os pedidos exigiam uma 

atividade febril e, nesse contexto, a máquina era uma aliada fundamental. 

Embora  Monte  Domecq  descreva  detalhadamente  as  máquinas  da 

empresa  de  Adams,  percebemos  que,  nas  fotos,  elas  quase  não  aparecem,  são 

os operários que se destacam nas imagens. 

Figura 24 ­ Pedro Adams Filho, de branco, com uma bota produzida por sua empresa. (AFA) 

O  calçado  era  produzido,  na  sua  maioria,  dentro  da  fábrica,  mas  também 

havia calçados femininos e infantis feitos em ateliê de costura fora da fábrica. 

A  permanência  do  trabalho  artesanal  mostra­nos  que  a  industrialização 

ocorreu  de  modo  lento.  Não  se  nota  a  passagem  abrupta  de  um  modo  de 

produção  a outro, mas sim,  a coexistência, durante muitos  anos,  do artesanato e 

da  indústria.  Aliás,  é  peculiar  ao  setor calçadista  a continuação,  até a  atualidade, 

205 


SCHEMES & PRODANOV, op. cit.


do  trabalho  artesanal  por  razões  estéticas  e/ou  de  especificidade  do  produto 

demandado. 

A  produção  dos  calçados  era,  então,  feita  sob  encomenda,  o  que 

impossibilitava a formação de grande número de calçados estocados à espera de 

compradores:  “É  que  não  há  tempo  para  armazenar.  Os  viajantes  e 

representantes da fabrica não dormem; trabalham sempre...e o calçado fabricado 

é d’ante­mão vendido.” 

206 


Vejamos o que Monte Domecq conta: 

Assim,  vendo  a  fuga  dos  seus  produtos,  o  Sr.  Pedro  Adams,  sempre, 

vigilante,  sempre  empreendedor  e  ansioso  por  desenvolver,  ainda  e 

sempre,  o  seu negócio,  sonha em máquinas novas  e aperfeiçoadas que 

duplicarão,  triplicarão  a  produção,  permitindo  a  invasão  pacifica  dos 

mercados americanos, e quiçá europeus, pelos seus modelos e pela sua 

marca. Os 700 modelos que fabrica são poucos para sua justa ambição; 

exige  os  mais  numerosos  e  melhores,  ­  e  tem  razão.  Ele  pode  e  deve 

completar  a  sua  obra,  deve  levá­la  até  o  extremo  possível  do 

aperfeiçoamento,  como  um  exemplo  nobre,  para  os  seus  patrícios  e 

mesmo  para  o  estrangeiro,  do  que  pode  a  inteligência  pratica  servida 

pelo trabalho. 

207 

Adams,  além  de  fabricar  os  produtos,  era  também  o  responsável  pelas 



vendas.  De  início  ele  utilizava  uma  carroça 

208 


puxada  por  quatro  cavalos  para  ir 

até  São  Leopoldo,  Montenegro  e  Taquara,  onde  vendia  acessórios  de  couro  e 

calçados  e  comprava  a  matéria­prima  de  que  necessitava.  Nessas  andanças, 

tinha  um  companheiro  chamado  Felter,  mais  conhecido  por  “Father”,  que  o 

acompanhava nas viagens de negócios. 

206 


Ibidem, p.245 

207 


Ibidem, p.245 

208 


A  carroça  de  quatro  rodas  e  tração  animal,  fabricada  inicialmente  em  São  Leopoldo,  foi 

introduzida  pelos  imigrantes  em  substituição  ao  carro  de  boi  de  duas  rodas  e  com  eixo  móvel. 

Segundo  FLORES,  Hilda  Agnes  Hübner.  In:

  História  da  Imigração  Alemã  no  Rio  Grande  do 

Sul

.EST Edições:Porto Alegre, 2004. p.103




Father lembra  que uma  vez, ao tentarem ultrapassar o rio Santa Maria em 

Taquara,  quase  perderam  a  vida,  pois  a  carroça  foi  arrastada  pelas  águas.  Eles 

conseguiram se salvar, mas o mesmo não aconteceu com a carroça, os cavalos e 

a  mercadoria,  que  foi  totalmente  perdida. 

209 

É  bom  lembrar  que  o  estado  das 



estradas nessa época era péssimo e constituía­se num dos itens de maior número 

de  reclamações  para  o  governo  do  Estado,  visto  que  representava  um  entrave 

para a comercialização das mercadorias produzidas nas colônias. 

Com  o  tempo,  a  carroça  já  não  correspondia  mais  às  necessidades  do 

industrial. Ele então adquiriu um automóvel da marca Fiat, importado e com 24 HP 

de  potência,  o  que  representava  um  avanço  no  sistema  de  compra  e  venda  de 

mercadorias. 

Entretanto,  para  dirigir  esse  carro,  Adams  achou  melhor  contratar  um 

motorista ­ Christiano Huber ­ que o levava a todos os locais onde tinha negócios, 

tanto no Vale dos Sinos quanto na serra e litoral (São Leopoldo, Linha Hortênsia, 

Porto Alegre, Nova Petrópolis, Caxias do Sul, Tramandaí, entre outras). 

O  motorista  Christiano  deixou  registradas  algumas  das  peripécias  das 

viagens  realizadas  por  eles:  “De  Novo  Hamburgo  a  Porto  Alegre  gastava­se 

normalmente  de  3  a  4  horas,  mas  houve  casos  que  para  vencer  o  trecho 

Sapucaia­Canoas  (o  pior  de  todos)  consumiram­se  7  horas.”  Lembra,  também, 

209 


Jornal

 NH


, 05/04/1977


que  “como  Christiano  fumasse  charuto,  era  normalmente  confundido  por  Pedro 

Adams nas localidades em que chegavam pela primeira vez.” 

210 

Um  dos  empregados  de  Adams,  que  provavelmente  estava  aprendendo  a 



falar  alemão,  presenteou­lhe  com  uma  história  em  quadrinhos  que  fazia  menção 

ao automóvel e à carroça como meios de transporte do couro, fazendo referência 

a uma venda realizada por Pedro Adams Filho. 

Foi difícil traduzir a história e compreendê­la, mas, mesmo assim, achamos 

válido  incluí­la  neste  trabalho,  uma  vez  que  corrobora  as  informações  acerca  da 

comercialização das mercadorias. 

210 

Ibidem.p.56




Figura 25 ­ História em quadrinhos. (AFA) 

“1 ­ Com o automóvel Adams pode mover­se; 

2 – Agora caminha sem ofegar; 

3 – Voou sobre a ponte sem respirar; 

4 – Aqui está uma carta do sr. Becker e do sr. Dienstman, diz Schmidt; 

5 – Rápido para dentro do carro; 

6 ­ Agora vamos embora rápido, logo estaremos lá; 

7 – Adams bate nas costas de Willy, aí eles riem; 

8 – Aqui tem um conto a mais, Schmidt. Aqui tem dois contos a mais, diz Schmidt e não 

leva o couro 

9 – Eles riram muito.” 

211 


211 

Tradução da história em quadrinhos.




Depois  da  carroça  e  do  automóvel,  a  empresa  passou  a  contar  com  um 

grupo  de  vendedores,  os  representantes  comerciais,  ou  caixeiros­viajantes 

212 



como  eram  conhecidos  na  época,  que  eram  incumbidos  de  colocarem  o  produto 



no mercado. Inicialmente o calçado era vendido apenas no Estado do Rio Grande 

do Sul, mais tarde passou a ser vendido, também, para outros Estados, como São 

Paulo e Rio de Janeiro. 

Segundo  Hilda Flores,  o caixeiro­viajante  já  era uma profissão comum  nos 

países  europeus  e,  no  Rio  Grande  do  Sul,  ele  percorria  as  zonas  coloniais 

estabelecendo relações de amizade com as comunidades, principalmente com os 

vendeiros,  levando  os  mostruários,  recebendo  encomendas,  cobrando  faturas  e 

entregando pedidos. Ao mesmo tempo era uma espécie de informante, não só dos 

mercados  e  preços,  mas  também  das  notícias  sociais,  esportivas  e  políticas  da 

capital e do mundo. Diz a autora, ainda: 

A  presença  do caixeiro  viajante  na  venda  atraía a atenção  dos  colonos. 

Demorava­se  vários  dias,  enquanto  visitava  os  vendeiros  dos  arredores. 

Participava da vida social e das atividades da comunidade, aproveitando 

o  relacionamento  para  fazer  promoção  dos  produtos  que  oferecia. 

Palavra  fluente  – alguns caixeiros  eram  exímios contadores de  piadas – 

valia­se desse recurso para aumentar os negócios.  Dançava com a  filha 

do  vendeiro  e  não  raro  casava  com  ela.  Vez  por  outra  constituía  um 

segundo  lar  no  interior,  para  compensar  as  longas  ausências  da  família 

legítima, em Porto Alegre. Casos houve de problemas na hora de receber 

o  pecúlio  por  morte,  que  era  reclamado  pela  “outra”  e  que 

estatutariamente cabia à mulher legítima. 

Em  1885  nasceu  a  Sociedade  dos  Caixeiros  Viajantes,  que  congregou 

esses profissionais e suas famílias, com fins esportivos, sociais e também 

previdenciários. [...] 

213 

212 


FLORES,  Hilda  Agnes  Hübner.  In:

  História  da  Imigração  Alemã  no  Rio  Grande  do  Sul

.  EST 

Edições:Porto Alegre, 2004. p. 99,100 

213 

Ibidem, p. 100.




Além  das  vendas  no  Brasil,  a  empresa  também  exportou  perneiras  para  o 

exército  da  Bolívia  e  da  Venezuela.  Uma  curiosidade  é  que  as  perneiras 

produzidas  por  Adams  tinham  a  cor  vermelha,  o  que  as  diferenciava  das 

demais. 


214 

A questão dos transportes no Estado torna­se importante para esta tese, na 

medida  em  que  informa  que  a  comercialização  do  calçado  e  do  couro  na  região 

até meados de 1920 dava­se, principalmente, por meio da rede ferroviária, já para 

os outros estados do Brasil era através da navegação de cabotagem. 

215 


A  partir  dessa  época,  a  rede  ferroviária  foi  incapaz  de  suprir  a  demanda, 

pois a malha não interligava todas as regiões e o transporte marítimo e fluvial era 

descuidado  e  arcaico.  Nessa  conjuntura,  o  transporte  rodoviário  de  cargas,  por 

meio de caminhões, tornou­se o principal elo do Rio Grande do Sul com o centro 

do país. 

Nesse mesmo período, as estradas praticamente inexistiam, pois o governo 

central  também  não  investia  nesse  setor.  O  sistema  viário  do  Estado  seguia  o 

mesmo  caminho utilizado  pelos tropeiros  e carreteiros. As carroças seguiam com 

importante  papel  nas  áreas  em  que  as  mercadorias  não  chegavam  de  trem  ou 

navio. 


Para  calcular­se  a  precariedade  dos  meios  de  circulação  de  mercadorias, 

até  o  desenvolvimento  do  transporte,  os  produtos  do  Vale  do  Sinos,  como 

214 

Informação fornecida por Pedro Adams Neto em depoimento concedido em junho de 2005. 



215 

Segundo o Anuário  Estatístico do  Brasil  do  IBGE  de 1939/1940, o Rio Grande do Sul enviava 

para  outros  Estados  do  Brasil  95,1%  de  sua  produção  por  cabotagem  e  apenas  4,9%  era 

transportado por vias internas.




chinelos,  sapatos,  couros,  solas,  etc.,  até  o  desenvolvimento  do  transporte 

rodoviário, eram levados até São Leopoldo de carroça e embarcados num vapor a 

Porto Alegre pelo Rio dos Sinos. 

Somente  no  ano  de  1927,  o  novo­hamburguense  Arlindo  Spindler 

216 

comprou  um  caminhão,  e  iniciou  os  fretes  de  cargas  em  São  Leopoldo  e  Novo 



Hamburgo, chegando, logo, a Porto Alegre. 

Nessa época, as  empresas não se preocupavam  em produzir  apenas uma 

linha de calçados. No início, a empresa produzia calçados masculinos, femininos e 

infantis.  Por  volta  de  1930,  passou  a  se  concentrar  na  produção  de  sandálias, 

época  em  que  a  empresa  de  Adams  já  possuía  mais  de  250  empregados. 

Entretanto, o calçado masculino em toda a história da empresa sempre foi o carro­ 

chefe. 

Além  de  calçado,  a  empresa  produzia,  também,  outros  produtos  de couro, 

como acentos e encostos de cadeiras, que eram feitos com máquinas nacionais e 

importadas.  A  máquina  que  era  responsável  pela  gravação  do  couro  havia  sido 

criada no Brasil, e foi patenteada por Pedro Adams Filho. 

O  couro,  previamente  cortado  do  tamanho  conveniente,  é  introduzido 

nessa máquina que o prensa,  poderosamente, sobre um clichê de metal 

onde  está  gravado  o  desenho,  em  negativo;  o  relevo  do  desenho  fica 

admiravelmente gravado no couro, e inapagável. A produção é intensiva. 

Ao lado, existe  uma curiosíssima máquina,  de  fabricação  alemã e única 

neste  Estado,  que serve  para medir  exatamente o  tamanho  dos couros. 

Estes  passam  rapidamente  debaixo  de  um  cilindro  e  uma  agulha 

indicadora  marca  sobre  um  circulo  dividido  em  polegadas  quadradas  e 

metros quadrados a medida exata. Não se pode imaginar operação mais 

rápida, nem máquina mais engenhosa. 

217 


216 

Conforme abordado no capítulo 1, Os Empreendedores Coloniais. 

217 

MONTE DOMECQ, op.cit. p.246




Figura 26 ­ Jornal

 O 5 de Abril

, 1935 (APVS) 

Através  desse  anúncio  lemos  que  várias  das  atitudes  e  escolhas 

características  do  empreendedor  foram  adotadas  por  Pedro  Adams,  tais como:  o 

domínio  da  tecnologia,  a  publicidade  e  a  divulgação  no  mercado.  Salienta­se  a 

garantia dos serviços  a preços módicos e tratamento individual e diferenciado.



Figura 27 ­ Jornal

 O 5 de Abril

, 1927 (APVS) 

Segundo  informações  dos  familiares  de  Adams  entrevistados,  os  seus 

negócios sempre foram bem, e não consta em nenhum documento disponível algo 

sobre  problemas  em  suas  empresas.  Entretanto,  em  uma  correspondência 

pessoal  de  Adams,  há  indícios  de  que  alguns de seus  trâmites  envolvendo  outra 

pessoa  poderiam ter sofrido algum contratempo. 

218 

218 


Segundo  Ângela  de  Castro  Gomes,

  “a  correspondência  pessoal  expande­se  ao  processo  de 

privatização  da  sociedade  ocidental,  com  a  afirmação  do  valor  do  indivíduo  e  a  construção  de 

novos  códigos  de  relações  sociais  de  intimidade.  [...]  A  escrita  de  cartas  expressa  de  forma 

emblemática tais características, com uma particularidade: elas são produzidas tendo, a priori, um 

destinatário.  Assim,  tal  como  outras  práticas  de  escrita  de  si,  a  correspondência  constitui, 

simultaneamente,  o  sujeito  e  seu  texto.[...]  A  escrita  epistolar  é,  portanto,  uma  prática 

eminentemente relacional e, no caso das cartas pessoais, um espaço de sociabilidade privilegiado 

para  o  estreitamento  (ou  rompimento)  de  vínculos  entre  indivíduos  e  grupos.  Isso  ocorre  em



Tratam­se  de  duas  correspondências  produzidas  em  maio  de  1921,  e 

enviadas  de Paris por  um  emissor que se  intitulava compadre  de  Adams,  o sr. J. 

Akeret. Dessas correspondências, entendemos que alguns negócios mantidos por 

ambos  não  iam  bem,  pois  Akeret  pedia  a  Adams  que  ele  fosse  até  o  Banco 

Pelotense para obter informações a respeito de seus títulos que haviam sumido do 

mercado  de  ações  e  dizia  que  ele  poderia  resgatar  somente  através  de  suas 

contas  correntes  de  Paris  e  de  Porto  Alegre.  Akeret  mencionou  uma  possível 

fraude em algum negócio não especificado (possivelmente venda de couro) e que 

estaria dando­lhe  um grande  prejuízo, mas como essa fraude  teria  acontecido  na 

Europa,  e  Akeret  não  tinha  nenhum  conhecido  influente,  nada  poderia  ser  feito. 

Contava então apenas com a ajuda de Adams. 

219 


O  compadre  de  Adams,  conforme  a  carta,  diz  que  enviaria  pelo  correio 

2.000 barbeadores e 2.000 lâminas Gilette para que ele pudesse vender no Brasil 

e resgatar uma parte do prejuízo que teve com os negócios. 

Akeret  aconselhou  Adams  a  esperar  quando  o  mercado  estivesse  melhor 

para  fazer  negócios  de  exportação  com  a  Europa,  pois  naquele  momento  eles 

ainda representavam um grande risco. 

Entende­se  que  Pedro  Adams  Filho  realizou  alguma  transação  comercial 

não  especificada  com  esse  compadre  e  não  obteve  o  resultado  esperado,  razão

 

sentido duplo, tanto porque se confia ao “outro” uma série de informações e sentimentos íntimos, 



quanto porque cabe a quem lê, e não quem escreve, a decisão de preservar o registro”

. In: Escrita 

de si, escrita da história. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. p. 19 

219 


Segundo correspondência pessoal de Adams fornecida por sua neta.


pela  qual  a  correspondência  falava  em  prejuízo  e  na  forma  de  minimizar  as 

perdas. 


Essas correspondências pessoais 

220 


são pequenas pistas que nos ajudam 

a mapear o grau de complexidade da vida desse empresário, cujos negócios nem 

sempre  traziam  bons  resultados.  O  exemplo  dessa  transação  comercial,  mesmo 

deixando lacunas e muitas perguntas sem respostas, é claro nesse sentido. 

Mesmo  com  esses  contratempos  observados,  as  empresas  de  Adams 

foram  bem  sucedidas,  tanto  que  sobreviveram  por  muitos  anos  depois  de  sua 

morte  e  continuam  sendo  referência  na  industrialização  do  município.  Apenas 

achamos  importante  ressaltar  essas  descontinuidades  da  trajetória  empresarial, 

que vêm ao encontro do que escrevemos na introdução deste trabalho a respeito 

da não linearidade na trajetória de vida de uma pessoa. 

2.1.1 – O design de calçados 

No  início  do  século,  quando  Adams  iniciou  sua  empresa,  em  1901,  a 

indústria calçadista não tinha uma preocupação com o

 design


, pois o calçado era 

produzido para atender a uma necessidade imediata: proteger os pés. 

221 

220 


Segundo Gomes,  op. cit. p.  21

  “a correspondência privada  é, com freqüência, um espaço que 

acumula  temas e informações, sem ordenação, sem  finalização, sem hierarquização. Um espaço 

que estabelece  uma  narrativa  plena  de  imagens e  de  movimentos,  dinâmica  e  inconclusa como 

cenas de um filme ou de uma peça de teatro”

221 



MOTTA, Eduardo.

 O Calçado e a Moda no Brasil

: um olhar histórico.  Porto  Alegre:  Litokromia, 

2004. p.49




Dentre  os  primeiros  calçados  que  se  tem  notícia  no  Rio  Grande  do  Sul, 

ainda  no  século  XVI,  está  a  “bota  de  garrão  de  potro”

,

  que  já  era  utilizado  pelos 



indígenas, gaúchos e tropeiros e que era, na verdade, o couro extraído inteiro da 

pata  do  boi,  utilizado  sem  emenda  ou costura  e,  normalmente,  com  os  dedos  de 

fora  ou  com  a  ponta  amarrada. 

222 


Esse  calçado,  entretanto,  não  era  usado  por 

todos, pois o peão e sua família usavam, normalmente, os pés descalços. 

223 

Figura 28 ­ Bota de garrão de potro. 



224 

Com a vinda do imigrante alemão para o Vale do Sinos no século XIX, que 

dominava  a  técnica  artesanal  da  produção  do  calçado,  novos  modelos  foram 

surgindo.  Em  primeiro  lugar,  os  chinelos,  bastante  rústicos  e  sem  nenhuma 

preocupação estética, mas muito duráveis e resistentes, pois garantiam a proteção 

dos pés dos colonos nas lidas do campo. 

222 

Ibidem, p.49 



223 

ZATERA,  Vera  Stedile

.  Cone  Sul,  adereços  indígenas  e  vestuário  tradicional

.  Porto  Alegre: 

Pallotti, 1999. 

224 


Motta, 2004.p.49


Logo depois  dos chinelos, começaram a ser produzidos  os tamancos, com 

as mesmas características de rusticidade e resistência. No campo passaram a ser 

usadas as botas de cano alto, algumas até as coxas: as granaderas. 

Figura 29 ­Tamanco usado pelos imigrantes alemães desde o século XIX produzido artesanalmente. (MNC) 

Se  no  Rio Grande do Sul  a  produção  de calçados  era artesanal, o  mesmo 

não se pode dizer da capital do País, o Rio de Janeiro, pois com a vinda da corte 

portuguesa ao Brasil, em  1808, o  comércio  sofreu  um incremento e  os costumes 

europeizaram­se,  principalmente  devido  a  um  “complexo  de  inferioridade”  em 

relação ao europeu, e um desejo de diferenciar­se do escravo e do índio. 

225 


Nicolau  Sevcenko,  informa  que,  no  Brasil,  até  o  século  XIX,  os  escravos 

eram  proibidos  de  usar  certos  tipos  de  tecidos,  roupas  e  acessórios,  que  eram 

225 

Com relação a questão da indumentária no Rio de Janeiro no século XIX ver: RAINHO, Maria 



do Carmo Teixeira.

 A Cidade e a Moda

. Brasília:Editora UNB,2002.



reservados  aos  grupos sociais  dominantes  e,  principalmente  aos  brancos;  dentro 

desses acessórios proibidos estava o calçado. 

226 

Segundo Sevcenko, um viajante francês que estava no Brasil fez uma visita 



a  uma  ex­escrava,  e  achou  interessante  o  fato  de  ela  ter  um  par  de  sapatos  de 

boa  qualidade, mas antigo, colocado  em  uma  mesinha de altar no salão principal 

de sua casa. Isso, segundo o autor, comprova o fato constatado por historiadores 

de que muitos escravos, assim que conseguiam sua liberdade, compravam um par 

de  calçados  como  símbolo  da  nova  condição  social.  Como  muitos  não  se 

acostumavam  a  usá­lo,  acabavam  transformando­o  em  objeto  de  decoração  ou 

carregando­os, orgulhosamente, nos ombros ou nas mãos. 

227 


Nesse contexto, o calçado passou a ser parte integrante da indumentária e 

a ter uma importância que não tinha até o momento. O seu uso se disseminou em 

função do desenvolvimento  urbano e  da  vida  social  (teatros,  restaurantes, bailes, 

festas).    Além  disso,  o  calçado,  juntamente  com  a  roupa,  traduzia  posições  e 

interesses  de  atores  sociais  distintos,  pois  os  trajes  eram  fundamentais  para  a 

distinção dos grupos na sociedade. 

228 

226 


SEVCENKO, Nicolau. Os Sem Sapato.

 Revista Nossa História

, Rio de Janeiro, n.30, p.89, abr 

2006 


227 

Ibidem 


228 

Segundo  ZATTERA,op.  cit.  No  período  de  1865  a  1950

  [...]  O  gaúcho  urbano  usa  camisa 

branca  de  colarinho  e  terno  completo,  composto  de  calça,  paletó  e  colete,  gravata  de  nó  ou 

borboleta, chapéu de  feltro e, às vezes, polainas. A senhora  urbana do  final  do século dezenove 

usa um vestido de seda com corte “V” na cintura, jabô e fichu de rendas. As mangas são bufantes, 

ajustando­se no punho. Complementa com broche e brincos e carrega nas mãos uma sombrinha 

ou  leque. Os cabelos são presos no alto da cabeça, estilo “cebola”,  por  travessas. Nos pés, usa 

botinas ou sapatos fechados. 

O gaúcho fazendeiro veste bombachas e botas, colete, paletó, camisa e lenço branco e cinturão 

sobre a faixa. Na lida do campo adota chapéu de feltro e pala. A mulher rural, de 1865 a 1920, usa 

saia  menos  rodada  e  blusa  ou  vestido,  muitas  vezes  estampados  em  tecido  leve.  A  blusa  tem 

mangas bufantes e é enfeitada por babados  ou  rendas  como  acabamento.  Não  deixa de  usar o 

casaquinho  acinturado  e  a  saia  longa,  que  caracterizaram  a  época  anterior.  A  silhueta  deste




Jean  Baptiste  Debret,  em  sua  visita  ao  Brasil,  faz  uma  descrição  muito 

pontual em matéria de calçados: 

O  europeu  que  chegasse  ao  Rio  de  Janeiro,  em  1816,  mal  poderia 

acreditar,  diante  do  número considerável  de  sapatarias,  todas cheias  de 

operários, que esse gênero de indústria se pudesse manter numa cidade 

em que os cinco sextos da população andam descalços. Compreendia­o, 

entretanto,  logo  quando  lhe  observavam  que  as  senhoras  brasileiras, 

usando exclusivamente sapatos de seda para andar com qualquer tempo 

por cima das calçadas de pedras,  que esgarçam  em poucos instantes o 

tecido  delicado  do calçado,  não  podiam  sair mais  de dois  dias  seguidos 

sem renová­los, principalmente para fazer visitas. 

229 


Afirma ainda o autor que as cores utilizadas eram o branco, o rosa e o azul 

e  que  mais  tarde  acrescentaram­se  o  verde  e  o  amarelo,  que  eram  as  cores 

imperiais.  Conta  ainda  que  as  senhoras  obrigavam  suas  escravas  a  usar  sapato 

quando  a  acompanhavam  nas  missas  ou  passeios.  Em  casa,  os  escravos 

andavam descalços e as mulheres usavam chinelos. 

O  calçado  normalmente  era  importado  da  Europa,  tendo  sua  produção 

incrementada no Brasil com a transferência da capital do reino para cá. 

O modelo básico do calçado do final do século XIX era a botina fechada de 

camurça,  de  pelica  ou  de  seda  para  as  mulheres  mais  abastadas,  e  os  chinelos 

para o restante da população feminina.

 

período é marcada por cinturas finas, destacadas por um cinto bem apertado. Nos pés, botinas ou 



sapatos fechados.

 p. 179,180 

229 

DEBRET, Jean Baptiste.



 Viagem Pitoresca ao Brasil

. São Paulo: Jangada Brasil, 1999.




Figura 30 ­ Loja de sapateiro, onde é mostrado o trabalho artesanal desenvolvido no Rio de 

Janeiro do século XIX. 

230 

O calçado, assim como toda a moda brasileira, era uma cópia dos modelos 



europeus. A civilização européia era o modelo a ser copiado, quanto mais europeu 

o brasileiro se parecesse, mais “civilizado” ele seria. Não havia, nesse contexto, a 

menor  possibilidade  de  desenvolvimento  de  uma  “moda  nacional”,  incluindo  aí,  o 

calçado. Por isso, os modelos utilizados pelas brasileiras, deveriam ser iguais aos 

230 

Debret,  1999.  Segundo  a  Enciclopédia  Koogan­Houaiss,  Jean  Baptiste  Debret,  pintor  e 



desenhista francês (1768­1848), foi membro da missão de artistas franceses, solicitada por D. João 

VI,  que  chegou  ao  Brasil  em  1816.  Regressou  à  França  em  1831  e,  três  anos  depois,  publicou

 

Viagem  Pitoresca  e  Histórica  ao  Brasil



,  uma  série  de  gravuras  sobre  aspectos,  paisagens  e 

costumes do Brasil, de valor fundamental para nossa história do começo do século XIX.




usados  pelas  européias,  não  havia  espaço para  modelos  nacionais  e  adequados 

ao nosso clima e necessidades. 

231 

Figura 31 ­ Modelo de calçado feminino do final do século XIX produzido na Europa com tecido e 



bordados artesanais. 

232 


O  estilismo  de  calçado,  nesse  contexto,  não  tinha  como  se  desenvolver 

aqui,  inclusive,  foi  somente  na  passagem  do  século  XIX  para  o  XX  que  o 

fenômeno do

 designer

 de calçados com

 status


 autoral surge na Europa. Segundo 

Motta, 


[...]  Até  então,  sapateiros  tinham  a  mesma  posição  social  que 

carpinteiros, jardineiros e outros prestadores de pequenos serviços. 

Na  Europa,  costureiros  da  época  ficavam  famosos  enquanto  os 

sapateiros permaneciam sem reconhecimento, atendendo anonimamente 

a  demanda  das

  maisons

,  as  grandes  casas  de  costura.  No  início  do 

século,  um  fato  inesperado  alterou  esse  quadro:  por  força  de  uma  vida 

urbana  que  exigia  praticidade,  o  traje  feminino  foi  simplificado,  o 

comprimento  dos  vestidos  subiu  consideravelmente  e  os  sapatos 

ganharam visibilidade, destacando os criadores. [...] 

233 


231 

Segundo  MOTTA,  op  cit,  O  calçado  era  feito,  normalmente,  sob  medida,  somente  a  partir  do 

momento em que as sapatarias começaram a produzir excedentes é que foi criado um padrão de 

medidas que é  utilizado no  Brasil até hoje.  Uma curiosidade é que a unidade base da medida  foi 

definida dividindo­se por 40 vezes o pé do rei francês Carlos Magno. p.66 

232 


Motta, 2004.p.62 

233 


Ibidem, p.79


Se na Europa os

 designers

 de calçados passaram a ser valorizados apenas 

no início do século  XX, no Brasil esse apreço só acontecerá, por volta da década 

de 50. 

Apesar  da  pouca  valorização  de  cunho  estético,  a  importância  do  calçado 

no  Brasil  foi  se  tornando  cada  vez  maior  na  sociedade  brasileira.  A 

industrialização,  a  urbanização  e  os  novos  hábitos  sociais  fizeram  com  que  as 

pessoas  necessitassem  de  calçados,  pois  o  costume  de  andar  descalço  no 

campo,  o  chinelo  e  o  tamanco  não  supriam  mais  as  necessidades  das  pessoas. 

Ao mesmo tempo, um sapato elegante começou a ser uma maneira de diferenciar 

as  pessoas:  mostrava  quem  tinha  condições  de  adquirir  um  par  de  calçados  de 

qualidade, diferentemente da roupa que poderia ser copiada de uma vitrine e feita 

com material mais barato. 

O  modelo  de  sapato  mais  usado  no  Brasil  nos  anos  10  e  20  do  século 

passado era  o borzeguim  ou  a  botina, pois os pés  femininos ainda  não poderiam 

ser expostos, mesmo que os vestidos já tivessem subido seu comprimento. 

[...] quanto mais subiam os vestidos maiores eram os canos das

 bottines

Geralmente,  tinham  fechamento  lateral,  com  fileira  de  botões  e 



acabamento  de  volteados  curvos  na  pala  trespassada  ou  versões  de 

amarrar,  muito  populares.  Variações  elegantes,  com  trançado  de 

influência greco­romana, também eram objeto de desejo. 

Quando  confeccionados  em  dois  materiais,  o  tecido  ficava  na  parte  de 

cima, facilitando a modelagem rente ao tornozelo. Alguns eram ricamente 

bordados  com  motivos  florais  e  adornados  com  cadarços  de  seda, 

usados em ocasiões importantes.[...] 

234 


234 

Ibidem, p.81




Figura 32 ­ Borzeguim de 1922 produzido no Rio de Janeiro. (MNC) 

O pós­guerra representou uma mudança muito grande na maneira de vestir 

e de calçar. A mulher passou cada vez mais a sair às ruas, a praticar esportes e a 

cuidar  do  corpo  (o  tênis  é  inventado  nessa  época).  Além  disso,  os  vestidos 

encurtaram, e os sapatos ficaram mais à mostra, aumentando a preocupação com 

a estética do calçado. 

Os sapatos ficaram mais abertos, deixando o peito descoberto, e podiam ter 

alças em cima do pé e fechadas lateralmente ou tiras na parte traseira ou presas 

no tornozelo. O conforto era importante, por causa disso, os saltos não eram muito 

altos, e permitiam dançar o

 jazz

 e o


 charleston

 com desenvoltura. 

235 

235 


Nos anos  20 foi  introduzida no  Brasil  uma máquina americana de colar  a  sola no sapato, não 

havia mais  a necessidade de pregá­lo, o que foi  uma revolução no sistema de produção e  tornou 

os sapatos mais leves.



Figura 33 ­ Modelo de calçado feminino dos anos 20, fabricado em Novo Hamburgo, 

semelhante ao produzido pela empresa de Adams. (MNC) 

Ao  contrário  da  euforia  dos  anos  1920,  a  moda  dos  anos  1930  refletiu  a 

crise  econômica  mundial. 

236 

Os  sapatos,  portanto,  tornaram­se  mais  sisudos, 



mais pesados e com saltos mais grossos. Por outro lado, o

 glamour


 das estrelas e 

do  cinema  norte­americano  também  influenciou  o  estilismo  de  calçado  com  a 

introdução das plataformas e das sandálias. 

236 


Na cidade de Novo Hamburgo, nesse mesmo período, o vestuário básico era o terno com colete 

e flor, geralmente camélia na lapela nos dias de festa, vestidos longos sem decote, chapéus para 

homens  e  mulheres.  As  calças  dos  homens  eram  largas  e  os  trajes  de  banho  iam  até  o  joelho. 

Jornal


 NH

, 05/04/2002




Figura 34 ­ Modelo de calçado dos anos 30. (MNC) 

Os grandes nomes internacionais do estilismo de calçados nos anos 1920 e 

1930 eram os do francês André Perugia e do italiano Salvatore Ferragamo, que se 

destacavam por suas criações originais e utilização de novos materiais. 

237 

Não  podemos  deixar  de  considerar  que  as  mudanças  na  moda 



influenciavam  a  modelagem  do  calçado,  principalmente  o  feminino,  que  se 

transformava  numa  velocidade  muito  mais  rápida  que  o  masculino,  aliás, 

tendência verificada até os dias atuais. 

Segundo Carneiro, essa necessidade de acompanhar a moda será um dos 

fatores  que  influenciará  a  especialização  do  Vale  do  Sinos  na  produção  do 

calçado feminino, pois uma forte característica da indústria do Estado era o pouco 

237 

O’KEEFFE, Linda.



 Sapatos

. Colônia:Könemann, 1996. p. 46 e 374.




uso  das  máquinas,  as  pequenas  unidades  de  produção  e  o  trabalho  mais 

artesanal, o que facilitava a substituição de um modelo de calçado para outro. 

238 

A  empresa  de  Pedro  Adams  Filho,  nos  anos  1920,  produzia  mais  de  700 



modelos  de  calçados  diferentes 

239 


para  crianças,  homens  e  mulheres,  e  sua 

produção  diária  era  de  2.000  pares  de  calçados,  sendo  1.500  sandálias  e  500 

sapatos masculinos. 

240 


Nessa  época  já  existiam  alguns  modelistas que vinham  de  fora  da  cidade, 

como Jeronymo Issler, e ofereciam seus serviços de confecção de calçados pelos 

métodos

 “modernos

”, conforme anúncio abaixo. 

241 


Quereis  ser  bom  modelista?  Então  aproveite  a  occasião  única  que 

offerece  um  professor  competente,  tanto  na  theoria  como  na  prática  da 

confecção de calçado á geometria, pelos méthodos mais modernos. 

O curso será aberto em 15 de maio do anno corrente. 

Para  demais  informações  e  matrícula,  dirigir­se  das  18  as  20  horas  ao 

Hotel Familiar a Jeronymo Issler. 

238 

Segundo CARNEIRO, op.cit. p.112,113. 



239 

MONTE DOMECQ, op. cit. p.246. 

240 

Jornal


 A Federação

, 18/08/1930. p.3 

241 

Jornal


 O 5 de Abril

, 24/04/1931




Figura 35 ­ Jornal

 O 5 de Abril

, 24/04/31 

Porém,  foi  apenas  nos  anos  1950  que  a  indústria  calçadista  gaúcha 

especializou­se no calçado feminino. 

242 


242 

CARNEIRO, op. cit. p. 113




Adams pode ser considerado como um dos responsáveis indiretos pelo fato 

de  a cidade  ser  uma  das  principais  produtoras  de  calçado  feminino,  pois  quando 

um  de  seus  empregados  saía  da  empresa  para  abrir  um  negócio  próprio, 

procurava  não  competir  com  o  antigo  patrão,  já  que,  muitas  vezes,  era  ele  que 

ajudava  financeiramente  essa  nova  fábrica.  Essas  novas  fábricas  produziam, 

preferencialmente,  os  calçados  femininos  ­  o  que  acabou  sendo  uma  tendência 

importante para a cidade até os dias atuais ­, visto que Adams dedicou­se mais ao 

calçado  masculino. 

243 

Todavia,  a  empresa,  nos  anos  1930,  já  possuía  uma 



divisão  de  sandálias  femininas  que  eram  produzidas  num  local  separado  do 

sapato masculino. 

Era  dentro  desse  contexto  que  Pedro  Adams  Filho  desenvolvia  seus 

produtos,  portanto,  não  podemos  nos  admirar  com  o  fato  de  não  existir  uma 

preocupação estética tão grande. O que caracterizava o calçado no Vale do Sinos 

até o final dos anos 30, período em que Adams esteve a frente de seus negócios, 

era a durabilidade, a qualidade, e não o

 design


. A inovação estava muito mais na 

forma  de  produzir  o  calçado  (em  algumas  empresas  com  um  maquinário  mais 

avançado,  como  na  de  Adams,  noutras com  um  trabalho  mais  artesanal)  do  que 

nas questões de

 design

 ou estética do produto. 

243 

Segundo depoimento de seu neto Pedro Adams Neto, concedido em junho de 2005.




2.2 – O Curtume Hamburguez 

Pedro Adams Filho, como vimos, ao contrário da maioria dos industriais do 

setor  coureiro­calçadista,  iniciou  seu  negócio  com  uma  fábrica  em  lugar  de  um 

curtume.  Ele  desejava  uma  maior  independência  das  exigências do  mercado  em 

relação  à  compra  de  matérias­primas  necessárias  para  a  fabricação  do  calçado, 

assim, decidiu abrir um curtume. 

Adams,  já  naquela  época,  percebeu  a  importância  do  que  hoje 

denominamos  verticalização  da  produção,  ou  seja,  a  empresa  é  responsável  por 

todas  as  etapas  necessárias  para  a  produção  do  calçado  o  que  representa  um 

ganho de capital e uma autonomia que são de fundamental importância no mundo 

dos negócios. 

Por esse  motivo, em  1917,  ele  fundou o

 Curtume Hamburguez

,  na  mesma 

rua  de  sua  fábrica,  o  que  representou  um  incremento  em  seus  negócios,  pois 

neste  início  de  século,  o  curtume  no  Rio  Grande  do  Sul  tinha  uma  importância 

econômica  muito  maior que o calçado.  Como  vimos, será apenas nos  anos 1950 

que a indústria calçadista e a do couro igualar­se­ão. 

Este  curtume  não  foi  o  primeiro,  pois  já  havia  no  Vale  dos  Sinos  muitos 

desses  empreendimentos.  Segundo  registros  da  época,  em  1829  havia  dez 

curtumes; em 1858, trinta e dois, e uma rua só de curtumes em Novo Hamburgo. 

Esses estabelecimentos produziam lombilhos (usado na montaria em substituição 

à sela, selim e serigote), cinchas (faixa de couro que segura a sela), sobrecinchas 

(tira de couro usada para apertar os arreios), serigotes (um tipo de  lombilho mais




confortável),  rédeas e outras peças de montaria. 

244 


Os produtos de couro tinham 

uma importância fundamental para a economia, sendo responsáveis, até a metade 

do  século  XIX,  por  30  a  50%  das  exportações  do  Estado.  Somente  a  partir  do 

século XX o calçado passará a ter mais importância econômica que o couro. 

245 

Com  relação,  especificamente,  a  Novo  Hamburgo,  o  jornal



  Diário  de 

Notícias


,  de  Porto  Alegre,  diz  que,  em  1835,  a  cidade  já  contava  com  sete 

curtumes,  e,  em  1845,  já  produzia  botinas,  courinhos  lavrados,  lombilhos  lisos  e 

lavrados, sola, tamancos e vaquetas. A produção no ano de 1858 foi avaliada em 

cerca  de  300:000$000,  quantia  bastante  alta  para  a  época.  Diz,  também,  que, 

naquele ano de 1927, a produção estava em torno de 9.000:000$000. 

246 


Várias  foram  as  causas  que  levaram  os  curtumes  a  se  desenvolverem 

amplamente no Estado. Segundo Carneiro, 

[...] O crescimento das atividades dos curtumes, lombilharias e sapatarias 

foi  devido  ao  fato  de  suprirem  as  necessidades  mais  cotidianas  da 

população  –  vestimenta  e  transporte  –  contribuindo  também  o  periódico 

aumento  da  procura,  causado  pelas  sucessivas  guerras  que  agitaram  a 

província,  pois  permitiu  que  o  artesanato  do  couro  vivesse  fases  de 

expansão  que  colaboraram  para  sua  consolidação.  Contudo,  a 

característica mais  importante  era  a de  ser  um  artesanato que,  além  de 

produzir  artigos  que  utilizavam matéria­prima  abundante no  Rio  Grande, 

confeccionava­os para um mercado que estava próximo. Isto lhe permitia 

sobreviver  naquelas  fases  em  que  as  encomendas  externas  (como  as 

provocadas pela Guerra do Paraguai) diminuíam. 

247 


244 

Segundo  CARNEIRO,  Lígia  Gomes.

  Trabalhando  o  Couro

:  Do  serigote  ao  calçado  “made  in 

Brazil”.  Porto  Alegre:  L&PM/CIERGS,  1986,  o  primeiro  curtume  instalado  no  Rio  Grande  do  Sul, 

antes da chegada dos alemães, localizava­se perto de Porto Alegre e foi montado em 1820 por um 

técnico  francês,  pois  esta  atividade exigia  um  conhecimento  técnico  específico.  A  autora diz  que 

não se sabe ao certo quem instalou o primeiro curtume em São Leopoldo, se Luiz Rau ou Nicolau 

Becker. p.14 e 21. 

245 


Ibidem, p.23 

246 


Jornal

 Diário de Notícias

, apud Jornal

 O 5 de Abril

 de 07/10/1927 

247 


Carneiro, op. cit. p.32


Além desses produtos, os artesãos que trabalhavam nos curtumes também 

costumavam  produzir  calçados  mais  simples  para  seu  próprio  uso,  já  que  os 

imigrantes  alemães  não  estavam  acostumados  a  trabalharem  descalços,  ao 

contrário dos escravos que viviam no país. Os imigrantes vieram ao Brasil com um 

nível  de  renda  superior  ao  da  maioria  da  população,  o  que  lhes  permitia  o 

consumo  de  produtos  que  os  escravos  e  a  população  livre  de  baixa  renda  não 

tinham condições de consumir. 

Segundo  Carneiro,  existiam  três  tipos  de  estabelecimentos  em  que  eram 

comercializados os calçados: as pequenas lojas de sapateiros, onde o calçado era 

encomendado;  as  lojas  de  calçados,  que  tinham  artesãos  próprios  e 

confeccionavam  o  calçado  sob  medida  e  que  importavam;  e  as  lojas  de  artigos 

para vestuário, onde eram comercializados também os calçados. 

248 

A  instalação  do  curtume  de  Adams,  porém,  teve  um  início  difícil, 



principalmente  em  função  da  aquisição  de  seu  maquinário,  visto  que  estava  em 

curso a 1ª. Guerra Mundial, o que dificultava as importações, mas, mesmo assim, 

o curtume produzia couros e solas de diversas qualidades, dentre elas, a de couro 

suíno e, no mesmo ano de sua instalação, o curtume já exportava para a Europa 

(Suíça). 

O

  Curtume  Hamburguez



  já  foi  criado  com  características  de  produção 

bastante  modernas  para  a  época.  Os  processos  de  curtição  eram  diversos, 

dependendo  de  cada  exigência,  e  eram  feitas  experiências  com  cascas 

248 


Ibidem, p. 35


misturadas  com  folhas  de  manga,  cromo  ou  quebracho,  que  davam  ótimos 

resultados. 

O  tempo  necessário  para  tirar  os  pêlos  do  couro  também  foi  reduzido  no 

curtume de Adams. O couro  bruto era imerso  em tanques grandes  e fundos com 

água e ácidos, principalmente cal, e por meio de uma hélice colocada no fundo do 

tanque, e que mantinha a água em movimento, o processo era concluído em três 

dias, quando normalmente se levava dezoito dias. 

Para  lavagem  e  curtimento  dos  couros  ao  cromo  e  ao  quebracho,  a 

fábrica dispõe de 5 grandes tambores giratórios, e de grande quantidade 

de  pilhas  de  cimento  que  recebem  o  extrato  vegetal  preparado  em 

pilhetas  especiais.  Os  couros  ficam  mergulhados  por  camadas 

superpostas  de  couros  e  matéria  curtidora.  Segundo  as  qualidades,  a 

imersão é mais ou menos prolongada, sendo de 3 meses para as solas, e 

de menor tempo para as vaquetas. 

249 

O curtume também conseguiu reduzir o tempo de lavagem e curtimento do 



couro  com  quebracho,  que  era  preparado  no  próprio  curtume  “conseguindo­se 

couros admiravelmente curtidos num prazo de 36 horas, em vez de 3 meses, que 

dura a operação nos tanques.” 

250 


Depois  de curtido  o couro era empilhado, esticado  à mão (três vezes para 

aumentar de tamanho) sobre grandes mesas e estendido para secar. 

Na  descrição  do  processo  de  produção,  mais  uma  vez  é  colocada  a 

questão da tecnologia utilizada em larga escala na empresa. 

249 

MONTE DOMECQ, op. cit. p. 246 



250 

Ibidem, p.247




Diversas  máquinas  são  usadas  para  ultimar  a  preparação  do 

produto.  Uma delas  comprime o couro entre um plano fixo  e  um cilindro 

rotativo,  para  igualar a  espessura;  outra,  por meio de  um braço  armado 

com  um  cilindro  de  pedra  Agatha  que  bate  e  esfrega  sucessivamente 

cada  parte  do  couro,  dá  o  brilho  necessário;  outra  ainda,  projeta  com 

violência  um  braço  armado  com  dois  maxilares,  que  agarram  o  couro 

solidamente  mantido  pelo  operário,  esticando­o.  Há  uma  máquina,  de 

incomparável precisão, que corta o couro na  espessura  fazendo dois  de 

um. 

A  tintura  dos  couros  é  feita  depois  de  acabado  o  curtimento.  É  uma 



operação  bastante  delicada,  principalmente  para  se  conseguir  uma  cor 

havaneza. 

251 

Entendemos que o processo de produção do couro demandava um número 



significativo  de  máquinas  e  de  experimentos  com  substâncias  utilizadas  para  o 

curtimento  do  couro.  Como  essa  descrição  da  produção  foi  feita  apenas  um  ano 

depois  da  abertura  do  curtume,  deduzimos  que  ele  já  iniciou  sua  produção  de 

forma bastante eficiente. 

As  fotos  a  seguir  mostram  aspectos  internos  do  curtume  de  Adams  onde 

podemos ver as diversas fases da produção do couro. 

251 

Ibidem, p. 247




Figuras 36 e 37 ­Tanques de cimento usados para curtir o couro. 

252 


252 

MONTE DOMECQ, op. cit. p.246




Figura 38 ­ Máquina geradora de força, tambores para curtir couros (fulões) à esquerda e 

máquina para igualar espessura de couros, à direita. 

253 

Figura 39 ­ Seção de armazenagem e embalagem de couros curtidos. 



254 

253 


Ibidem, p.247 

254 


Ibidem, p.247


Se  compararmos  o  curtume  de  Adams  com  outro  que  havia  na  mesma 

época, o Curtume Momberger, também criado em 1917, podemos perceber que o 

primeiro  tinha  instalações  mais  organizadas,  prédios  melhor  estruturados  e 

maquinário mais moderno e sofisticado. 

255 

Figura 40 ­ Curtume Momberger – início década 20. 



256 

255 


Segundo  Regina  Astrid  Momberger,  neta  de  Albino  Momberger,  proprietário  do  curtume,  seu 

avô  chegou  a  ser  sócio  do  curtume  Hamburguez  de  propriedade  de  Pedro  Adams  Filho,  mas 

depois resolveu abrir sua própria empresa. Depoimento concedido em setembro de 2006. 

256 


SCHEMES & PRODANOV, op. cit.


Figura 41 ­ Curtume Momberger – início década 20. 

257 


Figura 42 ­ Curtume Momberger – início década 20. 

258 


257 

Ibidem



A  produção  do  curtume,  no  seu  primeiro  ano  de  funcionamento,  “foi 

bastante resumida” 

259 

, mas de ótima qualidade. E, além de suprir a demanda de 



sua empresa, ainda era suficiente para a exportação. 

A  produção  moderna  em  larga  escala  era  um  dos  motivos  de  orgulho  da 

cidade,  todavia,  esse  desenvolvimento  industrial,  ao  mesmo  tempo  em  que  era 

valorizado era, também, motivo de preocupação. 

Em  um  artigo  de  1931,  publicado  pelo  jornal

  O  5  de  Abril

  e  intitulado

  “A 


Machina  e  os  sem­trabalho”

,  sem  autoria  mencionada,  são  colocadas  as 

problemáticas  de  uma  sociedade  excessivamente  industrializada,  que  era  a 

substituição da mão­de­obra humana pela máquina e o alto índice de desemprego 

daí  decorrente.  Esse  artigo  cita,  inclusive,  um  movimento  de  camponeses 

espanhóis  de  destruição  de  máquinas  agrícolas,  e  sugere  que  a  mesma  coisa 

possa  acontecer  no  Brasil,  caso  nenhuma  medida  de  controle  seja  tomada. 

Termina  com  a  seguinte  indagação:  “E  teremos,  nesse  caso,  a  humanidade 

condenando as próprias conquistas do progresso?” 

260 


Essa era uma  preocupação  real,  já que o desenvolvimento  tecnológico era 

um  fato  concreto,  embora  relativamente  novo,  e  que  deveria  entrar  na  pauta  das 

discussões do trabalho e do desenvolvimento econômico. 

258 


Ibidem 

259 


MONTE DOMECQ, op. cit. p.246 

260 


Esse  episódio  relatado  nos  remete  ao  movimento  ludista  ocorrido  na  Inglaterra  no  início  do 

século  XIX,  que  foi  uma  revolta contra  a  substituição da  mão­de­obra  humana pela  máquina e o 

desemprego  decorrente  dessa  nova  realidade.  Os  ludistas  invadiram  fábricas  e  destruíram 

máquinas para mostrar seu descontentamento. Segundo THOMPSON, E.P.

 A Formação da Classe 

Operária Inglesa

 – A força dos trabalhadores. São Paulo: Paz e Terra, 1987.



Ao mesmo tempo em que a imprensa fazia a crítica à mecanização e suas 

conseqüências  no  mercado  de  trabalho,  as  máquinas  eram  também  motivo  de 

orgulho  nacional,  incensado em  notícias  como a  publicada  no  jornal

 O 5 de Abril

 

de 11 de setembro de 1931 sobre uma máquina de montar sandálias “Herrero”. 



[...] Estas máquinas são fabricadas em dois tipos. O modelo A [...] prega 

190 a 200 grampos por minuto, trabalhando com 200 rotações. O modelo 

B,  rápido,  trabalha com  280  rotações  por  minuto  e  grampeia  por  minuto 

260 a 280 vezes, com uma produção diária de 600 a 800 pares.[...] 

Trata­se  de  uma  maquina  de  fabrico  nacional,  mas  muito  mais 

aperfeiçoada, que qualquer máquina estrangeira, [...] 

Além  disso,  o  seu  preço  é  40%  mais  barato  do  que  a  máquina 

estrangeira, a qual não possui os aperfeiçoamentos e as vantagens que a 

máquina de grampear

 Herrero


 oferece. 

261 


Não  podemos  esquecer  que,  até  os  anos  1950,  praticamente  não  existia 

uma produção nacional de máquinas. Elas eram, na maioria, importadas, de forma 

que  os  curtumes  e  indústrias  de  calçados  ficavam  dependentes  das  taxas  de 

câmbio o que muitas vezes dificultava essas importações. 

Apesar de a indústria do couro ser considerada a mais importante da cidade 

de Novo Hamburgo, ela sofreu diversas crises e oscilações de preço e mercado. 

Maria  Antonieta  Antonacci 

262 


pesquisou  a  crise  dos  anos  1920  no  Rio 

Grande  do  Sul,  e  constatou  que  a  situação  pós­guerra  acabou  com  a  euforia 

econômica  em  função  da  retração  dos  mercados  consumidores  europeus.  Além 

disso, a concorrência externa com a região do Prata e a concorrência interna com 

261 

Jornal


 O 5 de Abril

, 11/09/1931 

262 

ANTONACCI,  Maria  Antonieta.  A  revolução  de  1923:  as  oposições  na  República  Velha.  In: 



DACANAL,  José Hildebrando & GONZAGA,  Sérgio (orgs).

 RS:Economia & Política.

 Porto  Alegre: 

Mercado Aberto, 1979. p. 230




São  Paulo,  Minas  Gerais  e  outros  estados,  diminuiu  a  lucratividade  dos 

investimentos feitos na produção gaúcha. 

Segundo a historiadora, a partir dessa crise torna­se inviável a estratégia de 

desenvolvimento do PRR para o Estado. 

Com  isso,  no  movimento  dos  pecuaristas  gaúchos  por  melhores 

condições  diante  da  crise  econômica  do  após­guerra,  abriu­se  espaço 

para  atuação  dos  grupos  de  oposição  rio­grandenses.  Estes  grupos  da 

oposição  tiveram  uma  conjuntura  nacional  e  regional,  extremamente 

propícia  à  articulação  dos  grupos  rio­grandenses  contra  o  domínio  do 

PRR no RS. 

263 

No  final  da  década  de  1920,  essa  indústria  passou  por  outra  grave  crise 



específica,  em  parte,  decorrente  da  falta  de  proteção  e  das  altas  taxas  sobre  o 

produto face ao contexto grave da economia mundial, cujo epílogo seria a quebra 

da Bolsa de Nova York em 1929. 

A respeito dessa crise o jornal

 Diário de Notícias

 comentou o seguinte: 

[...]  Mas  onde  a  causa  ainda  se  torna  mais  frisante  é  na  indústria  do 

couro.  Senão  vejamos,  isso  vem  ferir  de  cheio  uma  das  grandes  fontes 

de  riqueza  rio­grandense  –  a  pecuária  e  a  correspondente  exportação 

dos  produtos  beneficiados  do  couro.  Sem  entrar  no  custo  da  matéria­ 

prima – o couro salgado e seco – cujo beneficiamento para solas e outros 

tipos mais finos deixaremos de lado, [...] 

Si  não  fora  a  taxação  elevada  dos  calçados,  poderíamos  muito  bem 

conseguir mercados  estrangeiros, para o artigo  inferior,  como fossem  as 

sandálias,  das  quais  temos  uma  produção  de  muitos  milhares  de  pares 

por dia, e mesmo de botinas de cromo e vaqueta. 

[...]  Conseguindo  o  imposto  eqüitativo  para  a  importação  das  matérias­ 

primas a empregar  na curtição de solas [...]  poderíamos exportar  para a 

Europa  as  nossas  solas,  já  prontas,  dificultando­se  assim  a  exportação 

de  nossos  melhores  couros  salgados  ou  secos,  que  saem  em  enormes 

quantidades e constituem valores consideráveis no erário estadual. 

264 


263 

Ibidem, p.234 

264 

Jornal


 Diário de Notícias

, apud Jornal

 O 5 de Abril

, 17/08/1928




O  jornal  fez  uma  análise  muito  pertinente  da  situação  econômica  das 

regiões  que  se  dedicavam  à  indústria  do  couro,  salientando,  ainda,  que  a cidade 

de Novo Hamburgo era uma das mais prejudicadas com essa crise: 

Com  o  beneficiamento  ganhariam  todos  –  o  industrial,  o  operário,  o 

Estado  –  e  o  nosso  torrão  teria  mais  esta  primazia  nos  balanços 

brasileiros por  seus  rebanhos e condições naturais  que o  fazem o maior 

exportador de produtos da pecuária na comunhão nacional. 

Para  finalizar  convém  lembrar  que  um  dos  maiores  centros  da  indústria 

de  curtumes  e  calçados  é  o  município  de  Novo  Hamburgo.  Estatísticas 

aproximadas dão­lhe  a  produção  anual  de cerca  de 2 milhões  de pares 

de calçados de todos os tipos. 

O  valor  da  exportação  computa­se  em  mais  ou  menos  40  mil  contos, 

dados  oficiais,  sendo  que  a  renda  da  coletoria  federal  deve  andar  em 

1.000 contos de réis. 

265 

A  crise  econômica  pela  qual  passou  a  indústria  nacional  foi  amplamente 



debatida  pela  imprensa  na  cidade,  entretanto,  muitos  eram  aqueles  que  viam  o 

problema  de  uma  forma  mais  global,  ou  seja,  sem  culpar  apenas  a  falta  de 

incentivo ou proteção do Estado como únicos fatores. 

Além  da  concorrência  com  os  produtos  estrangeiros,  havia,  também,  a 

pouca  capacidade  aquisitiva  do  mercado  interno  a  colaborar  com  esta  situação. 

Entretanto, segundo editorial do jornal

 O 5 de Abril

[...]  Não  parece  difícil  a  quem  estuda  a  situação  industrial  do  Brasil 



chegar  a  certas  conclusões,  que  impõem  a  convicção  da  necessidade 

urgente  de  uma  reorganização  integral  do  nosso  aparelhamento 

manufatureiro. 

[...]  Da  análise  das  condições  atuais  do  nosso  sistema  industrial  e  do 

cotejo  delas  com  a  orientação  econômica  do  mundo  contemporâneo, 

ressalta  a  evidência  de  que  há  um  vício  intrínseco  na  maquinaria  que 

precisamos renovar, afim de que a sua  ineficiência não a incompatibilize 

para a realização da sua finalidade. [...] 

266 

265 


Ibidem 

266 


Jornal

 O 5 de Abril

, 11/04/1930



Em outras palavras, o editorial amplia a discussão mostrando que de nada 

adianta  culpar  o  governo se as  indústrias  ainda  não estão  aparelhadas  de  forma 

moderna e, dessa forma, nunca conseguirão competir internacionalmente. 

O  jornal  já  havia  publicado  uma  nota  conclamando  os  industrialistas  do 

setor coureiro  a  irem  a um  encontro com um  técnico em  couro,  representante  do 

Ministério  da  Agricultura,  para  fundarem  um  centro  de  defesa  e  melhoramentos 

dessa indústria. 

[...] É de esperar que este apelo do dr. Alves da Rocha [técnico] encontre 

eco no seio da classe, e que todos os industriais no ramo, compareçam à 

reunião  em  que  se  tratará  do  meio  mais  eficaz  de  debelar  os  sérios 

embaraços com que tem lutado ultimamente a industria de couros. 

267 


O  convite,  subscrito  pelo  Dr.  Francisco  Alves  da  Rocha,  “tecnologista”  de 

couros do Ministério da Agricultura, dizia o seguinte: 

Convido os snrs. Industriaes de couros deste prospero município para se 

reunirem  domingo,  8  do  corrente,  ás  9,30  horas  da  manhã,  na  sede  da 

Associação Commercial, a fim de  transmittir­lhes um ofício  do Centro de 

Industrias  de Couros de  Pelotas  e  tratar da  creação  de  uma associação 

congênere aqui com o fim de proteger os interesses da classe. 

268 


267 

Jornal


 O 5 de Abril

, 06/07/1928 

268 

Ibidem



Figura 43 ­ Jornal

 O 5 de Abril

, 06/07/1928 

Um  fato  importante  a  salientar  é  que,  em  outubro  de  1920,  foi  criada  em 

Novo  Hamburgo  a  Associação  Comercial,  que  mais  tarde  passará  a  se  chamar 

Associação  Comercial  e  Industrial  (ACI),  o  que  mostra  que  havia,  de  um  lado,  a 

preocupação  de  um  grupo  de  empresários  para  a  formação  corporativa  para 

solucionar problemas que viessem a atingir  a  toda a classe. Essa associação,  foi 

criada  com  a  finalidade  de  atender  aos  interesses  dos  comerciantes  da  região, 

apenas nos anos 1960 é que passou a ocupar­se, também, com os problemas das 

indústrias.  Dentre  os  líderes e  criadores  da  ACI estava  Pedro  Adams Filho, além 

dos empresários Guilherme Ludwig, Ernesto Möeller e Frederico Kraemer. 

269 

De  outro  lado,  os  empresários  preocupavam­se,  também,  com  a 



concorrência entre os próprios Estados vizinhos. Em 1929, houve a manifestação 

de  uma  preocupação  com  o  interesse  de  Santa  Catarina  em  incrementar  seu 

parque  industrial,  já  importante  na  indústria  têxtil.  O  interesse  nas  fábricas  de 

calçados  era  considerado  grave,  pois  ali  havia  possibilidades  de  desenvolverem­ 

269 

SCHÜTZ, Liene M. M. op. cit, p.130.




se  amplamente.  Além  disso,  o  Estado  vizinho  possuía  mão­de­obra  e  matéria­ 

prima baratas, bem como isentava as novas empresas de impostos por dez anos, 

o que diferia muito dos altos impostos que estavam sendo cobrados pelo governo 

estadual  gaúcho.  O  fato  de  estar  mais  perto  do  centro  do  País  também 

preocupava,  pois  o  Rio  Grande  do  Sul,  até  esse  momento,  dominava  a  indústria 

de calçados do Rio de Janeiro, porque “dispunha do couro à mão e de operários a 

menor preço.” 

270 


A grande crítica do

 Correio do Povo

 estava focada no descaso do governo 

estadual  com  suas  indústrias  e  nos  exorbitantes  impostos,  o  que  abria 

possibilidades de empresas saírem em busca de melhores condições oferecidas. 

O jornal


 O 5 de Abril

, na semana posterior à publicação do artigo do

 Correio 

do  Povo


,  faz  um  editorial  onde  corrobora  as  idéias  apresentadas  e  acrescenta 

outras.  Segundo  o  editorial,  em  uma  rápida  retrospectiva  é  fácil  comprovar  o 

“assombroso desenvolvimento”  das  indústrias  locais  nos  últimos  dez  anos.  “Esse 

surto vertiginoso de progresso devemo­lo ao extraordinário espírito de iniciativa de 

nossa população, que possui, toda ela, a propensão para a carreira industrial.” 

271 


Segundo o jornal citado, os motivos do domínio da indústria gaúcha no Rio 

de Janeiro seriam dois: a perfeição do produto e seu baixo custo. 

Somente  há  uns  vinte  anos,  quando  os  nossos  industriais 

compreenderam  que  era  necessário  conhecer  e  estudar  os  novos 

processos  usados  na  fabricação  do  couro  e  do  calçado,  quando,  após 

visitarem  os  estabelecimentos  congêneres  nas  Repúblicas  Platinas,  do 

Rio,  S.  Paulo  e  da  Europa,  dotaram  suas  fábricas com  os  maquinismos 

270 


Jornal

 Correio do Povo

, 14/06/1929 

271 


Jornal

 O 5 de Abril

, 21/06/1929



mais modernos, empregando na fabricação os mais recentes processos, 

de modo a gozar todo o produto saído daqui de justo renome como artigo 

durável  e  perfeitamente  acabado,  somente  então  começou  o  formidável 

incremento das nossas indústrias. 

272 

O editorial do jornal lembra que a crise econômica mundial de 1930 foi um 



fator fundamental no crescimento da participação do calçado gaúcho no mercado 

nacional,  já  que  as  indústrias  calçadistas  do  centro  do  País  foram  fortemente 

abaladas por essa crise. 

Segundo  Carneiro,  a  depressão  que  se  seguiu  à  crise  de  1929  foi  a 

responsável  pelo  significativo  aumento  da  penetração  dos  calçados  gaúchos  no 

mercado  nacional,  devido  ao  enfraquecimento  temporário  da  indústria  de  São 

Paulo.  Porém,  uma  vez  recuperada  a  indústria  paulista,  o  esperado seria  que  as 

vendas do Rio Grande do Sul para os outros Estados diminuíssem, mas isso não 

aconteceu. 

A  autora  aponta  como  uma  das  principais  desvantagens  da  indústria 

calçadista gaúcha em relação à paulista a sua pouca mecanização, que resultava 

no  uso  mais  intensivo  da  mão­de­obra  e  num  grande  número  de  pequenas 

unidades  de  produção,  o  que  fazia  com  que  funcionasse  a  custos  mais  altos, 

obtendo  uma  menor  produtividade  por  operário  e,  conseqüentemente,  menores 

lucros.  Por  outro  lado,  o  pouco  uso  das  máquinas  protegia  as  indústrias  do  Rio 

272 


Jornal

 O 5 de Abril

, 21/06/1929



Grande  dos  problemas  que  poderiam  ocorrer  com  equipamentos  mais 

sofisticados. 

Outra  vantagem  apontada  em  relação  à  indústria  gaúcha,  era  que  seu 

trabalho mais artesanal atendia a um público mais exigente quanto à qualidade do 

calçado, especialmente o feminino. 

273 


A idéia de Carneiro explicaria a inserção do calçado gaúcho no mercado do 

centro  do  País,  mesmo  não  possuindo  uma  indústria  tão  bem  equipada  e  com 

tanto  capital  disponível  como  a  de  São  Paulo,  por  exemplo.  Podemos  inferir,  a 

partir  desse  raciocínio,  que  a  indústria  de  Pedro  Adams  Filho,  mesmo  sendo 

considerada  a  primeira  indústria  com  um  modo  de  produção  moderno  na  região, 

era  suficientemente  ágil  para  atender  às  demandas  do  mercado  da  moda, 

principalmente  feminina,  que  mudava  com  uma  velocidade  ainda  maior  que  a  do 

mercado de calçado masculino e infantil. 

Uma questão importante a ser salientada e que foi lembrada pelo jornal

 O 5 


de Abril

 é que nem todos os artigos necessários para a produção do calçado eram 

produzidos na cidade, o que onerava o produto final que dependia de alguns itens 

apenas  fabricados  no  centro  do  País,  ou  eram  importados.  Como  exemplo, 

podemos  citar  uma  tinta  especial  para  couro  muito  utilizada  pela  indústria 

calçadista para o acabamento do calçado. 

Esse produto foi desenvolvido por Walter Kunz que depois de “longos anos 

de  estudos  e  experiências  finalmente  conseguiu  obter  um  produto  perfeito, 

273 

CARNEIRO, op. cit. p.112,113.




superior  ao  americano  e  60%  mais  barato.”  Depois  do  desenvolvimento  desse 

produto, foi criada a empresa Walter Kunz e Cia., “confortavelmente instalada em 

novo  prédio  especialmente  construído,  e  dispondo  de  todo  o  aparelhamento 

necessário, máquinas, tanques, um bem montado laboratório essa nova firma está 

em condições de fornecer toda e qualquer sorte em tintas.” 

274 


Esse  progresso  tão  aclamado  da cidade  também  é  expresso  em  forma  de 

números no jornal da cidade. O prefeito Leopoldo Petry publica no jornal

 5 de Abril

 

um quadro estatístico comprovando o crescimento econômico do novo município, 



sem esquecer o fato de ele ser o “menor município do Brasil”, com apenas 65 km², 

porém, “relativamente um dos mais importantes, si não o mais importante”. 

275 

274 


Jornal

 O 5 de Abril

, 21/06/1929 

275 


Jornal

 O 5 de Abril

, 03/05/1929



Tabela 1 ­ Crescimento econômico de Novo Hamburgo nos anos 

1927/28 


Fonte: Jornal

 O 5 de Abril

, 03/05/1929 

Segundo  Petry,  o  crescimento  da  produção  foi  “extraordinário”,  pois 

aumentou,  em apenas  um ano, 37%.  Acrescenta  que  esse fenômeno não era  de 

momento, mas resultado de um “crescimento regular e seguro”, e informa que, de 

1921  a  1928,  o  valor  da  produção  quintuplicou  na  cidade  de  Novo  Hamburgo. 

Finaliza  dizendo  que  os  dados  divulgados  não  são  “fantásticos”  ou  “jogos  de 

números”, mas foram fornecidos pela Coletoria Federal. 

276 


Analisando o quadro publicado, percebemos que dos 41 produtos feitos na 

cidade,  os  derivados do couro  (botas, sapatos, chinelos, coturnos, malas,  bolsas, 

276 

Ibidem



pastas,  carteiras,  cintos,  etc.)  são,  disparadamente,  os  mais  rentáveis, 

representando 90% do valor total do faturamento. 

Um  ano  mais  tarde,  em  9  de  maio  de  1930,  Leopoldo  Petry  fala, 

novamente, do “progresso de Novo Hamburgo”, minimizando as conseqüências da 

crise econômica pela qual estava passando o País face ao contexto internacional. 

Segundo  ele,  “[...]  a  nossa  indústria,  baseada  nos  sãos  [saudáveis]  princípios  da 

atividade  incansável  e  da  iniciativa  inteligente,  representa  um  organismo  sadio, 

forte e resistente. [...]” 

277 

Ele continua o artigo comparando a produção dos anos 



de  1928  e  1929,  e  mostrando  como  houve  considerável  crescimento, 

principalmente no setor calçadista. 

[...]  Novo  Hamburgo  pode  ufanar­se  de  que  venceu  a  crise.  Em  toda 

parte  surgem  as  provas  de  nova  vida,  nova coragem,  novo  entusiasmo. 

As fábricas  estão  começando  a  readmitir  os empregados  dispensados a 

meses atrás. O comércio reanima­se. Os estabelecimentos de crédito vão 

saindo  da  reserva,  mantida  durante  alguns  meses  e  novas  esperanças 

animam os industrialistas.[...] 

Não  há,  pois,  razão  para  desânimo,  antes  pelo  contrário,  podemos 

tranqüilamente olhar para  o futuro, que acentuará cada  vez mais o  valor 

da nossa atividade e do nosso espírito de trabalho e progresso. 

278 


Pesquisando o período de 1927 a 1935 no jornal

 O 5 de Abril

, percebemos 

que  invariavelmente  as  referências  à  indústria  local  são  feitas  de  forma  ufanosa; 

as crises são minimizadas e é acentuado o caráter trabalhador da população que 

luta e é a grande responsável pelo progresso do município. 

Ao  mesmo  tempo  em  que  o

  5  de  Abril

  saudava  o  desenvolvimento 

econômico  local,  mostrava  uma  preocupação  para  com  o  comportamento  da 

277 

Jornal


 O 5 de Abril

, 09/05/1930 

278 

Ibidem



sociedade,  e/ou  a  responsabilidade  dos  cidadãos  perante  a  situação  pela  qual  a 

economia  mundial  passava,  como  esclareceu  o  editorial  do  dia  15  de  agosto  de 

1930: 

[...]  Eduquemo­nos,  pois,  na  escola  da  economia  e  do  trabalho,  e 



lembremo­nos  do  que  disse  um  dos  homens  mais  ricos  do  mundo,  que 

saiu  da  pobreza  apenas  pelo  seu  esforço  e  pela  sua  perseverança, 

quando  perguntado  a  respeito  do  segredo da  sua  vitória:  “Todos  sabem 

ganhar  o  vintém,  mas  poucos  o  sabem  guardar.”  Evitemos  os  gastos 

supérfluos,  e  assim,  beneficiando­nos,  assegurando­nos  para  os  dias 

vindouros,  teremos  contribuindo  para  o  fim  alevantado  de  uma  Pátria 

maior, alicerçado na colaboração individual de seus filhos. Eduquemos a 

nossa  vontade,  e  sejamos  mais  ou  menos  financistas,  trabalhando  e 

economizando,  para  bem  nosso,  da  nossa  família  e  do  Brasil,  que  se 

ergue, projetando­se no ambiente internacional com uma força nova para 

o Mundo. 

279 


De fato, a crise econômica mundial era de tal ordem que, um ano depois, as 

preocupações  com  a  saúde  da  economia  nacional  e,  conseqüentemente,  com  a 

municipal, ainda eram a tônica de muitas das matérias e editoriais de jornal. 

Numa  matéria  intitulada  “A  crise  econômica  e  a  situação  do  Brasil”, 

publicada n

O 5 de Abril,

 são apontados os erros dos governos estaduais e federal, 

que  seriam  os  principais  responsáveis  pela  crise  do  país:  em  primeiro  lugar,  o 

câmbio  desfavorável  e,  em  segundo,  o  pagamento  de  juros  dos  empréstimos 

feitos  do  exterior.  Além  disso,  de  acordo  com  a  matéria  do  jornal,  como  os 

governos haviam reduzido as despesas ao mínimo possível e cortado o salário de 

funcionários,  o  comércio  vinha  lutando  com  a  queda  do  poder  aquisitivo  da 

população, e as fábricas não achavam colocação para seus produtos. 

279 


Jornal

 O 5 de Abril

, 15/08/1930



O  jornal  incita  o  leitor  a  reagir  e  a  lutar  com  energia  para  dominar  a  crise, 

diz  ainda  que  “é  lamentável  que  ainda  hoje  alguns  brasileiros  prefiram  usar 

produtos estrangeiros, quando temos similares nacionais tão bons ou melhores”, o 

que  era considerado  uma  “falta de patriotismo”, pois, dessa forma,  deixava­se  de 

dar “trabalho ao operário brasileiro, estimulando sua atividade honesta e útil.” 

280 


O nacionalismo varguista que imperava na política brasileira no período fica 

explícito  nessa  passagem,  em  que  a  idéia  de  patriotismo  estava  intimamente 

ligada  ao  nacionalismo econômico e todos aqueles que  não colaborassem com o 

País eram considerados seus inimigos. 

281 

Três  anos  mais  tarde,  outro  editorial  intitulado  “Sejamos  mais  bairristas” 



segue na mesma linha, conclamando a população a privilegiar os produtos locais, 

tanto do comércio quanto da indústria, pois, dessa forma, a economia não sofreria 

tanto. 

Segundo esse mesmo artigo, se fosse comparada a situação econômica de 

Novo Hamburgo com a de outras cidades, poderia ver­se como o progresso ainda 

era uma característica local marcante, e o exemplo dado para tal progresso era o 

número de prédios que vinham sendo construídos na cidade. 

[...]  Acontece  freqüentemente  que  se  compra  um  artigo  fora  da  nossa 

vila, que aqui se pode obter nas mesmas condições ou mais vantajosas. 

Podemos  orgulhar­nos  de  ter  na  nossa  praça  um  comércio  sério  e  que 

não  mede  esforços  para  bem  servir  a  freguesia.  Naturalmente  a  boa 

vontade  deve  ser  correspondida  por  parte  desta,  dando  sempre 

preferência,  as  casas  aqui  estabelecidas,  tanto  comerciais  quanto 

industriais.  Quanto  maior  o  movimento,  tanto  melhor  pode  ser  o 

280 

Jornal


 O 5 de Abril

, 09/10/1931 

281 

GOMES, Angela de Castro.



 A Invenção do Trabalhismo

. São Paulo: Vértice, 1988. p. 211




sortimento que  se  tem para  escolher  um  determinado,  porque a procura 

regula a oferta. 

[...]  Quem  tem  interesse  no  progresso  do  nosso  torrão,  e  isto  deve­se 

esperar  de  todo cidadão,  seja  capitalista  ou empregado,  porque,  quanto 

maior é o movimento comercial, tanto mais se valorizam os bens de raiz, 

e se o chefe de um estabelecimento tem lucros compensadores, também 

o empregado tem probabilidade de progredir. 

282 


Foram  utilizados  argumentos  de  cunho  emocional  para  incentivar  a 

população  a  comprar  os  produtos  locais,  por  exemplo,  o  de  que  as  pessoas  que 

não  privilegiassem  o  comércio  e  a  indústria  da  cidade  seriam  indiretamente 

responsáveis  pela  estagnação  profissional  dos  empregados  que  trabalhavam 

nesses estabelecimentos. 

A população também se via, dessa maneira, coagida pelo jornal a consumir 

somente  o  que  era  produzido  em  Novo  Hamburgo,  caso  contrário  não  estaria 

ajudando  no  “progresso”,  além  de  ser  considerada  “orgulhosa”  e  “vaidosa”  por 

querer usar alguma coisa “diferente”: 

Absolutamente não  quer  isto  dizer que  devemos boicotar  o comércio  de 

outras  localidades  vizinhas,  pois,  o  intercâmbio  de  mercadorias  sempre 

traz  vantagens  mutuas,  mas  não  deixemo­nos  arrastar,  pela  mania  da 

exclusividade,  pensando  que,  fazendo  aquisição  de  um  objeto,  por 

exemplo  uma  roupa,  um  chapéu,  etc.,  num  outro  lugar,  pode­se 

apresentar diferente dos outros para satisfazer um orgulho vaidoso.[...] 

Não  desprezemos,  pois,  o  que  é  nosso  e  auxiliemos  a  intensificar  o 

progresso de nossa vila, porque assim contribuiremos não só para o bem 

estar  entre  nós,  como  também  para  o  engrandecimento  do  Rio  Grande 

do Sul e da nossa cara pátria brasileira. 

283 


Em  outro  momento,  o  jornal  faz  um  alerta  à  comunidade  a  respeito  da 

tentativa  de  algumas  cidades  de  atrair  indústrias.  Diz  que  existem  pessoas  que 

vêm para Novo Hamburgo com o objetivo de atrair empresas para outros locais e 

282 


Jornal

 O 5 de Abril

, 04/05/1934 

283 


Ibidem


que  os  industriais  não  podem  se  deixar  enganar  com  falsas  promessas,  pois  a 

isenção  de  impostos  prometida  não  é  real,  dado  que  nenhum  município  pode 

garantir  isenções  estaduais  e federais,  além  do fato  de  que os impostos,  quando 

passam a ser cobrados, são muito mais caros do que deveriam ser. 

[...]  Ainda  mais.  O  nosso  município  não  tem  dívida  externa  e  não  é 

preciso  salientar  aqui  a  vantagem  dessa  circunstância;  somente  quem 

estuda,  a  economia  pública  pode  avaliar  devidamente  o  lastro  que 

importa  para  qualquer  empresa  ou  estabelecimento  o  encargo 

proveniente de compromissos em moeda estrangeira. 

Também no que diz respeito ao fornecimento de energia elétrica, o nosso 

município  não  precisa  temer  confrontações:  uma  usina,  de  que  são 

cotistas a maioria dos industrialistas locais, dirigida por cidadãos ativos e 

competentes,  fornece  luz  e  força  em  abundância,  com  regularidade  e 

com preços módicos. [...] 

284 

O  artigo  ainda  lembra  que  Novo  Hamburgo  é  uma  das  cidades  que  mais 



oferecia vantagens as suas indústrias, pois cobrava os menores tributos, e a renda 

do município aumentaria com o desenvolvimento industrial. 

Apesar  de  toda  contrapropaganda,  Novo  Hamburgo,  é  um  centro 

industrial  de  primeira  ordem,  graças  a  atividade,  inteligência  e 

concentração  ao  trabalho  de  seus  filhos  e  continuará  a  sê­lo  no  futuro, 

graças à sua mocidade, animada por um são patriotismo e amor por esta 

terra, cheia de vida e de coragem, que entra na luta pelo nosso progresso 

com todo o preparo intelectual e material necessários, que conhece o seu 

valor,  compreende a sublime missão que  tem a cumprir,   saberá manter 

bem alto as  tradições dessa terra de progresso e prosseguirá na grande 

obra  de  construção  que,  com  imensos  sacrifícios,  foi  fundada  pelos 

nossos antepassados. 

285 

Mais  uma  vez  vemos  a  responsabilidade  pelo  progresso  do  município  nas 



mãos  da comunidade,  que não se  pode curvar  às ofertas de  outras cidades, pois 

estaria obstaculizando o desenvolvimento econômico local. 

284 

Ibidem 


285 

Leopoldo Petry In:Jornal

 O 5 de Abril

, 13/04/1934




Na  busca  da  história  do  jornal

  O  5  de  Abril

,  tão  importante  e  básico  para 

esta  pesquisa, descobrimos que ele foi  criado para representar os interesses  dos 

industriais,  considerados  os  responsáveis  pelo  progresso  e  desenvolvimento  da 

cidade.  Nessa  ótica,  fazendo  uma  análise  mais  detalhada  desse  periódico  em 

relação aos anúncios e artigos relacionados às indústrias e aos empregos por ela 

gerados, chegamos a algumas conclusões importantes. 

Em  primeiro  lugar,  os  jornalistas  eram  convidados  pelas  empresas  para 

visitarem­nas,  pois  em  várias  ocasiões  essa  situação  é  reportada.  Em  1934,  o 

jornal fala de uma visita a uma fábrica de malhas e diz “[...] observamos mais um 

surto  na  indústria  local  [...]  maquinário  moderno  e  eficiente,  com  profissionais 

competentes  sob  direção  de  experimentado  técnico  estrangeiro[...]  Confecção 

moderna e perfeito acabamento dos diversos modelos.[...]” 

286 

Em  segundo,  essas  visitas  rendiam  os  mais  largos  elogios  às  fábricas 



visitadas, o que era uma publicidade gratuita. 

O  jornal  também  informava  quando  algumas  empresas  recebiam 

encomendas  muito  grandes,  quando  uma  indústria  se  instalaria  na  cidade,  ou 

quando alguma máquina grande era comprada. 

E,  em  terceiro,  a  indústria  sempre  foi  diretamente  ligada  à  idéia  de 

progresso,  de sucesso, de desenvolvimento  local, como aparece nesta edição  do 

jornal:  “[...]  O justo  renome  de  nosso  município  como  grande centro industrial,  de 

há  muito  não  só  transpôs  as  fronteiras  de  nosso  Estado,  como  já  alcançou  boa 

286 

Jornal


 O 5 de Abril

, 28/12/1934






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