Pedagogia do trabalho



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A FEBEM EM FOCO PG 56
 
Projeto História, São Paulo, n.55, pp.45-77, Jan.-Abr. 2016
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de caridade, algumas a partir dos 5 anos de idade, sob a alegação de 
propiciar-lhes uma ocupação considerada mais útil, capaz de combater 
a vagabundagem e a criminalidade”.
33
Desse modo, percebe-se que com o advento da República, houve 
a preocupação de tornar a criança o “futuro trabalhador” A partir da égide 
da “ordem e do progresso”, o Estado passa a criar políticas públicas 
assistencialistas com o objetivo de formar e disciplinar braços da indústria 
e da agricultura nacional. Foi neste cenário que emergiu o discurso 
salvacionista de que era necessário “salvar as crianças” para que se 
tornassem no futuro cidadãos úteis na nação. 
Para Ângela de Castro Gomes, foi no início do Brasil República 
que o trabalho era visto “como uma atividade positiva na justa medida em 
que exercia uma função de regeneração social”. Para Gomes, a República 
nasceu sob o discurso da “Revolução regeneradora que tinha como 
corolário a igualdade”, tendo como meta a garantia de construir a 
cidadania e a participação. Foi neste cenário que o trabalho passou a se 
destinar “aos que deveriam ser recuperados, aos inferiores: desocupados, 
órfãos, asilados, enfim, às classes pobres”.
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A historiografia da criança e do adolescente no mundo do trabalho 
retrata as falas e práticas do mundo adulto, que ao longo do tempo 
ignorou, e ainda hoje ignora, a possibilidade de meninos e meninas 
vivenciarem a infância, direcionando-os, prematuramente, para o universo 
das fábricas, das oficinas, do trabalho agrícola e doméstico. As produções 
analisadas sinalizam que o discurso de educar pelo trabalho se confunde 
com a prática da exploração do trabalho infantil. 


 
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Ao pesquisar sobre o cotidiano de meninos institucionalizados na 
cidade de São Paulo, entre as décadas de 1930 e 1960, a historiadora 
Elaine Marina Bueno Bernal afirma que as crianças e os adolescentes que 
adentravam no mundo do trabalho recebiam uma “remuneração irrisória, 
tendo sido crescente a porcentagem de crianças que trabalhavam em 
fábricas, casas e nos mais diversos ambientes”. Para a historiadora, os 
“arquivos do abandono” registram trajetórias de vida de meninos e 
meninas que “muitas vezes estavam nas ruas, praticando brincadeiras ou 
também tendo as ruas como local de sobrevivência foram taxados como 
vadios e perniciosos”, sendo detidos e encaminhados para as colônias 
agrícolas ou escolas profissionalizantes.
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Ao estudar a rotina dos internos nas unidades da Febem em 
Pernambuco, mais notadamente no Recife, a pesquisadora Lygia Pereira 
Edmundo afirma que foram construídas várias “denúncias” sobre as 
formas de “imposição e a ausência de opções de cursos” 
profissionalizantes oferecidos pela instituição. Em seu livro Instituição: 
escola de marginalidade?, a autora analisa depoimentos de adolescentes que 
vivenciaram as oficinas oferecidas pela Febem, quando afirmaram que tais 
atividades de cunho profissionalizante não atendiam às suas “aptidões” ou 
mesmo os sonhos e desejos construídos pelos(as) adolescentes sobre suas 
escolhas profissionais. Um dos internos, entrevistado por Edmundo, 
chega a afirmar: “Eu queria ser datilógrafo, mas não sei bater à máquina. 
A Febem não dá esses cursos pra gente”.
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De acordo com os estudos de Arno Vogel, a ideia de prevenção 
esteve associada ao “combate à marginalização do menor”, discurso 
amplamente divulgado nas falas e publicações produzidas pelos técnicos 



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