Pedagogia da Autonomia



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Pedagogia-da-Autonomia-Paulo-Freire(1)
travessia. No fundo, dim inuo a distância que m e separa das condições m alvadas em  que vivem

os explorados, quando, aderindo realm ente ao sonho de j ustiça, luto pela m udança radical do

m undo e não apenas espero que ela chegue porque se disse que chegará. Dim inuo a distância

entre m im  e a dureza de vida dos explorados não com  discursos raivosos, sectários, que só não

são ineficazes porque dificultam  m ais ainda m eus alunos, dim inuo a distância que m e separa de

suas condições negativas de vida na m edida em  que os aj udo a aprender não im porta que saber,




o do torneiro ou o do cirurgião, com  vistas à m udança do m undo à superança das estruturas

inj ustas, j am ais com  vistas à sua im obilização.

O saber alicerçante da travessia na busca da dim inuição da distância entre m im  e a perversa

realidade dos explorados é o saber fundado na ética de que nada legitim a a exploração dos

hom ens e das m ulheres pelos hom ens m esm os ou pelas m ulheres. Mas, este saber não basta. Em

prim eiro lugar, é preciso que ele sej a perm anentem ente tocado e em purrado por um a calorosa

paixão que o faz quase um  saber arrebatado. É preciso tam bém  que a ele se som em  saberes

outros da realidade concreta, da força da

* As fotos que com punham  a exposição haviam  sido feitas por um  grupo de professoras da área.

ideologia; saberes técnicos, em  diferentes áreas, com o a da com unicação. Com o desocultar

verdades escondidas, com o desm istificar a farsa ideológica, espécie de arapuca atraente em  que

facilm ente caím os.

Com o enfrentar o extraordinário poder da m ídia, da linguagem  da televisão, de sua “sintaxe” que

reduz a um  m esm o plano o passado e o presente e sugere que o que ainda não há j á está feito.

i%aís ainda, que diversifica tem áticas no noticiário sem  que haj a tem po para a reflexão sobre os

variados assuntos. De um a notícia sobre Miss Brasil se passa a um  terrem oto na China; de um

escândalo envolvendo m ais um  banco dilapidado por diretores inescrupulosos tem os cenas de um

trem  que descarrilou em  Zurique.

O m undo encurta, o tem po se dilui: o ontem  vira agora; o am anhã j á está feito. Tudo m uito

rápido.


Debater o que se diz e o que se m ostra e com o se m ostra na televisão m e parece algo cada vez

m ais im portante.

Com o educadores e educadoras progressistas não apenas não podem os desconhecer a televisão

m as devem os usá-la, sobretudo, discuti-la.

Não tem o parecer ingênuo ao insistir não ser possível pensar sequer em  televisão sem  ter em

m ente a questão da consciência crítica. É que pensar em  televisão ou na m ídia em  geral nos põe

o problem a da com unicação, processo im possível de ser neutro. Na verdade, toda com unicação

é com unicação de algo, feita de certa m aneira em  favor ou na defesa, sutil ou explícita, de

algum  ideal contra algo e contra alguém , nem  sem pre claram ente referido. Daí tam bém  o papel

apurado que j oga a ideologia na com unicação, ocultando verdades m as tam bém  a própria

ideologização no processo com unicativo. Seria um a santa ingenuidade esperar de um a em issora

de televisão do grupo do poder dom inante que, noticiando um a greve de m etalúrgicos, dissesse

que seu com entário se funda nos interesses patronais.

Pelo contrário, seu discurso se esforçaria para convencer que sua análise da greve leva em

consideração os interesses da nação.



Não podem os nos pôr diante de um  aparelho de televisão “entregues” ou “disponíveis” ao que

vier.


Quanto m ais nos sentam os diante da televisão – há situações de exceção – com o quem , em

férias, se abre ao puro repouso e entretenim ento, tanto m ais risco correm os de tropeçar na

com preensão de fatos e de acontecim entos. A postura crítica e desperta nos m om entos

necessários não pode faltar.

O poder dom inante, entre m uitas, leva m ais um a vantagem  sobre nós. E que, para enfrentar o

ardil ideológico de que se acha envolvida a sua m ensagem  na m ídia, sej a nos noticiários, nos

com entários aos acontecim entos ou na linha de certos program as, para não falar na propaganda

com ercial, nossa m ente ou nossa curiosidade teria de funcionar epistem ologicam ente todo o

tem po. E isso não é fácil. Mas, se não é fácil estar perm anentem ente em  estado de alerta é

possível saber que não sendo um  dem ô nio que nos espreita para nos esm agar, o televisor diante

do qual nos acham os não é tam pouco um  instrum ento que nos salva. Talvez sej a m elhor contar

de um  a dez antes de fazer a afirm ação categórica a que Wright Mills* se refere: “É verdade,

ouvi no noticiário das vinte horas.”

3.9 – Ensinar exige querer bem  aos educandos

E o que dizer, m as sobretudo que esperar de m im , se, com o professor, não m e acho tom ado por

este outro saber, o de que preciso estar aberto ao gosto de querer bem , às vezes, à coragem  de

querer bem  aos educandos e à própria prática educativa de que participo. Esta abertura ao querer

bem  não significa, na verdade, que, porque professor m e obrigo a querer bem  a todos os alunos

de m aneira igual. Significa, de fato, que a afetividade não m e assusta, que não tenho m edo de

expressá-la. Significa esta abertura ao querer bem  a m aneira que tenho de autenticam ente selar

o m eu com prom isso com  os educandos, num a pratica específica do ser hum ano. Na verdade

preciso descartar com o falsa a separação radical entre seriedade docente efetividade. Não é

certo, sobretudo do ponto de vista dem ocrático, que serei tão m elhor professor quanto m ais

severo, m ais frio, m ais distante e "cinzento” m e ponha nas m inhas relações com  os alunos, no

trato dos obj etos cognoscíveis que devo ensinar. A afetividade não se acha excluída da

cognoscibilidade. O que não posso obviam ente perm itir é que m inha afetividade interfira no

cum prim ento ético de m eu dever de professor no exercício de m inha autoridade. Não posso

condicionar a avaliação do trabalho escolar de um  aluno ao m aior ou m enor bem  querer que

tenha por ele.

* Mills, Wright. A elite do poder.

A m inha abertura ao querer bem  significa a m inha disponibilidade à alegria de viver. Justa

alegria de viver, que, assum ida plenam ente, não perm ite que m e transform e num  ser

“adocicado” nem  tam pouco num  ser arestoso e am argo.

A atividade docente de que a discente não se separa é um a experiência alegre por natureza. E

falso tam bém  tom ar com o inconciliáveis seriedade docente e alegria, com o se a alegria fosse



inim iga da rigoridade. Pelo contrário, quanto m ais m etodicam ente rigoroso m e torno na m inha

busca e na m inha docência, tanto m ais alegre m e sinto e esperançoso tam bém . A alegria não

chega apenas no encontro do achado m as faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender

não podem  dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria. O desrespeito à educação, aos

educandos, aos educadores e às educadoras corrói ou deteriora em  nós, de um  lado, a

sensibilidade ou a abertura ao bem  querer da própria prática educativa de outro, a alegria

necessária ao que-fazer docente. É digna de nota a capacidade que tem  a experiência

pedagógica para despertar, estim ular e desenvolver em  nós o gosto de querer bem  e o gosto da

alegria sem  a qual a prática educativa perde o sentido. É esta força m isteriosa, às vezes cham ada

vocação, que explica a quase devoção com  que a grande m aioria do m agistério nele perm anece,

apesar da im oralidade dos salários. E não apenas perm anece, m as cum pre, com o pode, seu

dever.


Am orosam ente, acrescento.

Mas é preciso, sublinho, que, perm anecendo e am orosam ente cum prindo o seu dever, não deixe

de lutar politicam ente, por seus direitos e pelo respeito à dignidade de sua tarefa, assim  com o

pelo zelo devido ao espaço pedagógico em  que atua com  seus alunos.

É preciso, por outro lado, reinsistir em  que não se pense que a prática educativa vivida com

afetividade e alegria, prescinda da form ação científica séria e da clareza política dos educadores

ou educadoras. A prática educativa é tudo isso: afetividade, alegria, capacidade científica,

dom ínio técnico a serviço da m udança ou, lam entavelm ente, da perm anência do hoj e. É

exatam ente esta perm anência do hoj e neoliberal que a ideologia contida no discurso da “m orte

da História” propõe. Perm anência do hoj e a que o futuro desproblem atizado se reduz. Daí o

caráter desesperançoso, fatalista, antiutópico de um a tal ideologia em  que se forj a um a educação

friam ente tecnicista e se requer um  educador exím io na tarefa de acom odação ao m unido e não

na de sua transform ação. Um  educador com  m uito pouco de form ador, com  m uito m ais de


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