Pedagogia da Autonomia



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Pedagogia-da-Autonomia-Paulo-Freire(1)
disponibilidade.

Com o professor não devo poupar oportunidade para testem unhar aos alunos a segurança com

que m e com porto ao discutir um  tem a, ao analisar um  fato, ao expor m inha posição em  face de

um a decisão governam ental. Minha segurança não repousa na falsa suposição de que sei tudo, de

que sou o “m aior”.

Minha segurança se funda na convicção de que sei algo e de que ignoro algo a que se j unta a

certeza de que posso saber m elhor o que j á sei e conhecer o que ainda não sei. Minha segurança

se alicerça no saber confirm ado pela própria experiência de que, se m inha inconclusão, de que

sou consciente, atesta, de um  lado, m inha ignorância, m e abre, de outro, o cam inho para

conhecer.

Me sinto seguro porque não há razão para m e envergonhar por desconhecer algo. Testem unhar a

abertura aos outros, a disponibilidade curiosa à vida, a seus desafios, são saberes necessários à

prática educativa.

Viver a abertura respeitosa aos outros e, de quando em  vez, de acordo com  o m om ento, tom ar a

própria prática de abertura ao outro com o obj eto da reflexão crítica deveria fazer parte da

aventura docente. A razão ética da abertura, seu funda-m ento político, sua referência

pedagógica; a boniteza que há nela com o viabilidade do diálogo. A experiência da abertura com o



experiência fundante do ser inacabado que term inou por se saber inacabado. Seria im possível

saber-se inacabado e não se abrir ao m undo e aos outros à procura de explicação, de respostas a

m últiplas perguntas. O fecham ento ao m undo e aos outros se torna transgressão ao im pulso

natural da incom pletude.

O suj eito que se abre ao m undo e aos outros inaugura com  seu gesto a relação dialógica em  que

se confirm a com o inquietação e curiosidade, com o inconclusão em  perm anente m ovim ento na

História.

Certa vez, num a escola da rede m unicipal de São Paulo que realizava um a reunião de quatro dias

com  professores e professoras de dez escolas da área para planej ar em  com um  suas atividades

pedagógicas, visitei um a sala em  que se expunham  fotografias das redondezas da escola.

Fotografias de.ruas enlam eadas, de ruas bem  postas tam bém . Fotografias de recantos feios que

sugeriam  tristeza e dificuldades. Fotografias de corpos andando com  dificuldade, lentam ente,

alquebrados, de caras desfeitas, de olhar vago. Um  pouco atrás de m im  dois professores faziam

com entários em  torno do que lhes tocava m ais de perto. De repente, um  deles afirm ou: “Há dez

anos ensino nesta escola. Jam ais conheci nada de sua redondeza além  das ruas que lhe dão

acesso. Agora, ao ver esta exposição* de fotografias que nos revelam  um  pouco de seu contexto,

m e convenço de quão precária deve ter sido a m inha tarefa form adora durante todos estes anos.

Com o ensinar, com o form ar sem  estar aberto ao contorno geográfico, social, dos educandos?”

A form ação dos professores e das professoras devia insistir na constituição deste saber necessário

e que m e faz certo desta coisa óbvia, que é a im portância inegável que tem  sobre nós o contorno

ecológico, social e econôm ico em  que vivem os. E ao saber teórico desta influência teríam os que

j untar o saber teórico-prático da realidade concreta em  que os professores trabalham . Já sei, não

há dúvida, que as condições m at eriais em  que e sob que vivem  os educandos lhes condicionam  a

com preensão do próprio m undo, sua capacidade de aprender, de responder aos desafios. Preciso,

agora, saber ou abrir-m e à realidade desses alunos com  quem  partilho a m inha atividade

pedagógica. Preciso tornar-m e, se não absolutam ente íntim o de sua form a de estar sendo, no

m ínim o, m enos estranho e distante dela. E a dim inuição de m inha estranheza ou de m inha

distância da realidade hostil em  que vivem  m eus alunos não é um a questão de pura geografia.

Minha abertura à realidade negadora de seu proj eto de gente é um a questão de real adesão de

m inha parte a eles e a elas, a seu direito de ser. Não é m udando-m e para um a favela que

provarei a eles e a elas m inha verdadeira solidariedade política sem  falar ainda na quase certa

perda de eficácia de m inha luta em  função da m udança m esm a. O fundam ental é a m inha

decisão ético-política, m inha vontade nada piegas de intervir no m undo. É o que Am ilcar Cabral

cham ou “suicídio de classe” e a que m e referi, na Pedagogia do Oprimido, com o páscoa ou




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