Pedagogia da Autonomia



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Pedagogia-da-Autonomia-Paulo-Freire(1)
recebedor da que lhe sej a transferida pelo professor.

* Ver FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido.

Quanto m ais m e torno capaz de m e afirm ar com o sujeito pode conhecer tanto m elhor

desem penho m inha aptidão para fazê-lo.

Ninguém  pode conhecer por m im  assim  com o não posso conhecer pelo aluno. O que posso e o



que devo fazer é, na perspectiva progressista em  que m e acho, ao ensinar-lhe certo conteúdo,

desafiá-lo a que se vá percebendo na e pela própria pratica, suj eito capaz de saber. Meu papel de

professor progressista não é apenas o de ensinar m atem ática ou biologia m as sim , tratando a

tem ática que é, de um  lado obj eto de m eu ensino, de outro, da aprendizagem  do aluno, aj udá-lo a

reconhecer-se com o arquiteto de sua própria prática cognoscitiva.

Todo ensino de conteúdos dem anda de quem  se acha na posição de aprendiz que, a partir de

certo m om ento, vá assum indo a autoria tam bém  do conhecim ento do obj eto. O professor

autoritário, que recusa escutar os alunos, se fecha a esta aventura criadora. Nega a si m esm o a

participação neste m om ento de boniteza singular: o da afirm ação do educando com o suj eito de

conhecim ento. É por isso que o ensino dos conteúdos, criticam ente realizado, envolve a abertura

total do professor ou da professora, à tentativa legítim a do educando para tom ar em  suas m ãos a

responsabilidade de suj eito que conhece. Mais ainda, envolve a iniciativa do professor que deve

estim ular aquela tentativa no educando, aj udando-o para que a efetive.

É neste sentido que se pode afirm ar ser tão errado separar prática de teoria, pensam ento de ação,

linguagem  de ideologia, quanto separar ensino de conteúdos de cham a -m ento ao educando para

que se vá fazendo suj eito do processo de aprendê-los. Num a perspec tiva progressista o que devo

fazer é experim entar a unidade dinâm ica entre o ensino do conteúdo e o ensino de que é e de

com o aprender. É

ensinando m atem ática que ensino tam bém  com o aprender e com o ensinar, com o exercer a

curiosidade epistem ológica indispensável à produção do conhecim ento.

3.7 – Ensinar exige reconhecer que a educação é ideológica

Saber igualm ente fundam ental à prática educativa do professor ou da professora é o que diz

respeito à força, às vezes m aior do que pensam os, da ideologia. E o que nos adverte de suas

m anhas, das arm adilhas em  que nos faz cair. É que a ideologia tem  que ver diretam ente com  a

ocultação da verdade dos faros, com  o uso da linguagem  para penum brar ou opacizar a realidade

ao m esm o tem po em  que nos torna “m íopes”.

O poder da ideologia m e faz pensar nessas m anhãs orvalhadas de nevoeiro em  que m al vem os o

perfil dos ciprestes com o som bras que parecem  m uito m ais m anchas das som bras m esm as.

Sabem os que há algo m etido na penum bra m as não o divisam os bem . A própria “m iopia” que

nos acom ete dificulta a percepção m ais clara, m ais nítida da som bra. Mais séria ainda é a

possibilidade que tem os de docilm ente aceitar que o que vem os e ouvim os é o que na verdade é,

e não a verdade distorcida. A capacidade de penum brar a realidade, de nos “m iopizar", de nos

ensurdecer que tem  a ideologia faz, por exem plo, a m uitos de nós, aceitar docilm ente o discurso

cinicam ente fatalista neo-liberal que proclam a ser o desem prego no m undo um a desgraça do

fim  de século. Ou que os sonhos m orreram  e que o válido hoj e é o “pragm atism o”

pedagógico, é o treino técnico-científico do educando e não sua form ação de que j á não se fala.

Form ação que, incluindo a preparação técnico-científíca, vai m ais além  dela.



A capacidade de nos amaciar que tem  a ideologia nos faz às vezes m ansam ente aceitar que a

globalização da econom ia é um a invenção dela m esm a ou de um  destino que não poderia se

evitar, um a quase entidade m etafísica e não um  m om ento do desenvolvim ento econôm ico

subm etido, com o toda produção econôm ica capitalista, a um a certa orientação política ditada

pelos interesses dos que detêm  o poder.

Fala-se, porém , em  globalização da econom ia com o um  m om ento necessário da econom ia

m undial a que por isso m esm o, não é possível escapar. Universaliza-se um  dado do sistem a

capitalista e um  instante da vida produtiva de certas econom ias capitalistas hegem ônicas com o se

o Brasil, o México, a Argentina devessem  participar da globalização da econom ia da m esm a

form a que os Estados Unidos, a Alem anha, o Japão. Pega-se o trem  no m eio do cam inho e não

se discutem  as condições anteriores e atuais das diferentes econom ias. Nivelam -se os patam ares

de deveres entre as distintas econom ias sem  se considerarem  as distâncias que separam  os

“direitos” dos fortes e o seu poder de usufruí-los e a fraqueza dos débeis para exercer os seus

direitos. Se a globalização im plica a superação de fronteiras, a abertura sem  restrições ao livre

com ércio, acabe-se então quem  não puder resistir. Não se indaga, por exem plo, se em

m om entos anteriores da produção capitalista nas sociedades que lideram  a'globalização hoj e elas

eram  tão radicais na abertura que consideram  agora um a condição indispensável ao livre

com ércio.

Exigem , no m om ento, dos outros, o que não fizeram  consigo m esm as. Um a das eficácias de sua

ideologia fatalista é convencer os prej udicados das econom ias subm etidas de que a realidade é

assim  m esm o, de que não há nada a fazer m as seguir a ordem  natural dos faros. Pois é com o

algo natural ou quase natural que a ideologia neoliberal se esforça por nos fazer entender a

globalização e não com o um a produção histórica.

O discurso da globalização que fala da ética esconde, porém , que a sua é a ética do m ercado e

não a ética universal do ser hum ano, pela qual devem os lutar bravam ente se optam os,na

verdade, por um  m undo de gente. O discurso da globalização astutam ente oculta ou nela busca

penum brar a reedição intensificada ao m áxim o, m esm o que m odificada, da m edonha m alvadez

com  que o capitalism o aparece na História. O

discurso ideológico da globalização procura disfarçar que ela vem  robustecendo a riqueza de uns

poucos e verticalizando a pobreza e a m iséria de m ilhões. O sistem a capitalista alcança no neo-

liberalism o globalizante o m áxim o de eficácia de sua m alvadez intrínseca.

Espero, convencido de que chegará o tem po em  que, passada a estupefação em  face da queda

do m uro de Berlim , o m undo se refará e recusará a ditadura do m ercado, fundada na

perversidade de sua ética do lucro.

Não creio que as m ulheres e os hom ens do m undo, independentem ente até de suas opções

políticas, m as sabendo-se e assum indo-se com o m ulheres e hom ens, com o gente, não

aprofundem  o que hoj e j á existe com o um a espécie de m al-estar que se generaliza em  face da

m aldade neoliberal. Mal-estar que term inará por consolidar-se num a rebeldia nova em  que a




palavra crítica, o discurso hum anista, o com prom isso solidário, a denúncia veem ente da negação

do hom em  e da m ulher e o anúncio de um  m undo

“genteficado” serão arm as de incalculável alcance.

Há um  século e m eio Marx e Engels gritavam  em  favor da união das classes trabalhadoras do

m undo contra sua espoliação. Agora, necessária e urgente se Fazem  a união e a rebelião das

gentes contra a am eaça que nos atinge, a da negação de nós m esm os com o seres hum anos

subm etidos à “fereza” da ética do m ercado.

É neste sentido que j am ais abandonei a m inha preocupação prim eira, que sem pre m e

acom panhou, desde os com eços de m inha experiência educativa. A preocupação com  a natureza

hum ana* a que devo a m inha lealdade sem pre proclam ada. Antes m esm o de ler Marx j á fazia

m inhas as suas palavras: j á fundava a m inha radicalidade na defesa dos legítim os interesses

hum anos. Nenhum a teoria da transform ação político-social do m undo m e com ove, sequer, se

não parte de um a com preensão do hom em  e da m ulher enquanto seres fazedores da História e

por ela feitos, seres da decisão, da ruptura, da opção. Seres éticos, m esm o capazes de transgredir

a ética indispensável, algo de que tenho insistentem ente “falado”

neste texto. Tenho afirm ado e reafirm ado o quanto realm ente m e alegra saber-m e um  ser

condicionado m as capaz de ultrapassar o próprio condicionam ento. A grande força sobre que

alicerçar-se a nova rebeldia é a ética universal do ser hum ano e não a do m ercado, insensível a

todo reclam o das gentes e apenas aberta à gulodice do lucro. E a ética da solidariedade hum ana.

Prefiro ser criticado com o idealista e sonhador inveterado por continuar, sem  relutar, a apostar

no ser hum ano, a m e bater por um a legislação que o defenda contra as arrancadas 'agressivas e

inj ustas c]e quem  transgride a própria ética. A liberdade do com ércio não pode estar acim a da

liberdade do ser hum ano. A liberdade de com ércio sem  lim ite é licenciosidade do lucro. Vira

privilégio de uns poucos que, em  condições favoráveis, robustece seu poder contra os direitos de

m uitos, inclusive o direito de sobreviver. Um a fábrica de tecido que fecha por não poder

concorrer com  os preços da produção asiática, por exem plo, significa não apenas o colapso

econôm ico-financeiro de seu proprietário que pode ter sido ou não um  transgressor da ética

universal hum ana, m as tam bém  a expulsão de centenas de trabalhadores e trabalhadoras do

processo de produção. E suas fam ílias? Insisto, com  a força que tenho e que posso j untar na

m inha veem ente recusa a determ inism os que reduzem  a nossa presença na realidade histórico-

social à pura adaptação a ela. O desem prego no m undo não é, com o disse e tenho repetido, um a

fatalidade. É antes o resultado de um a globalização da econom ia e de avanços tecnológicos a que

vem

* Ver FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança, Cartas à Cristina Pedagogia do Oprimido. Rio



de Janeiro, Paz e Terra.

faltando o dever ser de um a ética realm ente a serviço do ser hum ano e não do lucro e da

gulodice irrefreada das m inorias que com andam  o m undo.



O progresso científico e tecnológico que não responde fundam entalm ente aos interesses

hum anos, às necessidades de nossa existência, perdem , para m im , sua significação. A todo

avanço tecnológico haveria de corresponder o em penho real de resposta im ediata a qualquer

desafio que pusesse em  risco a alegria de viver dos hom ens e das m ulheres. A um  avanço

tecnológico que am eaça a m ilhares de m ulhere s e de hom ens de perder seu trabalho deve-ria

corresponder outro avanço tecnológico que estivesse a serviço do atendim ento das vítim as do

progresso anterior. Com o se vê, esta é um a questão ética e política e não tecnológica. O

problem a m e parece m uito claro. Assim  com o não posso usar m inha liberdade de fazer coisas,

de indagar, de cam inhar, de agir, de criticar para esm agar a liberdade dos outros de fazer e de

ser, assim  tam bém  não poderia ser livre para usar os avanços científicos e tecnológicos que

levam  m ilhares de pessoas à desesperança. Não se trata, acrescentem os, de inibir a pesquisa e

frear os avanços m as de pô-los a serviço dos seres hum anos. A aplicação de avanços

tecnológicos com  o sacrifício de m ilhares de pessoas é um  exem plo a m ais de quanto podem os

ser transgressores da ética universal do ser hum ano e o fazem os em  favor de um a ética pequena,

a do m ercado, a do lucro.

Entre as transgressões à ética universal do ser hum ano, suj eitos à penalidade, deveria estar a que

im plicasse a falta de trabalho a um  sem -núm ero de gentes, a sua desesperação e a sua m orte em

vida. A preocupação, por isso m esm o, com  a form ação técnico-profissional capaz de reorientar

a atividade prática dos que foram  postos entre parênteses, teria de m ultiplicar-se.

Gostaria de deixar bem  claro que não apenas im agino m as sei quão difícil é a aplicação de um a

política do desenvolvim ento hum ano que, assim , privilegie fundam entalm ente o hom em  e a

m ulher e não apenas o lucro. Mas sei tam bém  que, se pretendem os realm ente superar a crise em

que nos acham os, o cam inho ético se im põe. Não creio em  nada sem  ele ou fora dele. Se, de um

lado, não ode haver desenvolvim ento sem  lucro este não pode ser, pó por outro, o obj etivo do

desenvolvim ento, de que o fim  últim o seria o gozo im oral do investidor.

De nada vale, a não ser enganosam ente para um a m inoria que term inaria fenecendo tam bém ,

um a sociedade eficazm ente operada por m áquinas altam ente “inteligentes”, substituindo

m ulheres e hom ens em  actividades as m ais variadas, e m ilhões de Marias e Pedros sem  ter o que

fazer, e este é um  risco m uito concreto que correm os.*

Não creio tam bém  que a política a dar carne a este espírito ético possa j am ais ser a ditatorial,

contraditoriam ente de esquerda ou coerentem ente de direita. O cam inho autoritário j á é em  si

um a contravenção à natureza inquietam ente indagadora, buscadora, de hom ens e de m ulheres

que se perdem  ao perderem  a liberdade. É exatam ente por causa de tudo isso que, com o

professor, devo estar advertido do poder do discurso ideológico, com eçando pelo que proclam a a



morte das ideologias. Na verdade, só ideologicam ente posso m atar as ideologias, m as é possível

que não perceba a natureza ideológica do discurso que fala de sua m orte. No fundo, a ideologia

tem  um  poder de persuasão indiscutível. O discurso ideológico nos am eaça de anestesiar a

m ente, de confundir a curiosidade, de distorcer a percepção dos fatos, das coisas, dos

acontecim entos. Não podem os escutar, sem  um  m ínim o de reação crítica, discursos com o estes:



“ O negro é geneticam ente inferior ao branco. É um a pena, m as é isso o que a ciência nos diz."

“Em  defesa de sua honra, o m arido m atou a m ulher.” “Que poderíam os esperar deles, uns

baderneiros, invasores de terra?”

“Essa gente é sem pre assim : dam os-lhe os pés e logo quer as m ãos.

“Nós j á sabem os o que o povo quer e do que precisa.-Perguntar-lhe seria um a perda de tem po.”

“O saber erudito a ser entregue às m assas incultas é a sua salvação.”

* MOERMANN, Joseph. Le Courrier – 8 Août, 1996 – Suisse La globalization de l'econom ie

provoquera-t-elle un m ai 68 m ondial? – La m arm ite m ondiale sousf pression.

“Maria é negra, m as é bondosa e com petente.”

“Esse suj eito é um  bom  cara. E nordestino, m as e sério e prestim oso.”

“Você sabe com  quem  está falando?”

“Que vergonha, hom em  se casar com  hom em , m ulher se casar com  m ulher.

“É isso, você vai se m eter com  gentinha, e o que dá.

“Quando negro não suj a na entrada, suj a na saída.”

“O governo tem  que investir m esm o é nas áreas onde m ora gente que paga im posto.”

“Você não precisa pensar. Vote em  fulano, que pensa por você.”

“Você, desem pregado, sej a grato. Vote em  quem  aj udou você. Vote em  fulano de tal.”

“Está se vendo, pela cara, que se trata de gente fina, de trato, que tom ou chá em  pequeno e não

de um  pérapado qualquer.”

“O professor falou sobre a Inconfidência Mineira.”

“O Brasil foi descoberto por Cabral.”

No exercício crítico de m inha resistência ao poder m anhoso da ideologia, vou gerando certas

qualidades que vão virando sabedoria indispensável à m inha prática docente. A necessidade desta

resistência crítica, por exem plo, m e predispõe, de um  lado, a um a atitude sem pre aberta aos

dem ais, aos dados da realidade; de outro, a um a desconfiança m etódica que m e defende de

tornar-m e absolutam ente certo das certezas. Para m e resguardar das artim anhas da ideologia

não posso nem  devo m e fechar aos outros nem  tam pouco m e enclausurar no ciclo de m inha

verdade. Pelo contrário, o m elhor cam inho para guardar viva e desperta a m inha capacidade de




pensar certo, de ver com  acuidade, de ouvir com  respeito, por isso de form a exigente, é m e

deixar exposto às diferenças, é recusar posições dogm áticas, em  que m e adm ita com o

proprietário da verdade. No fundo, a atitude correra de quem  não se sente dono da verdade nem

tam pouco obj eto acom odado do discurso alheio que lhe é autoritariam ente feito. Atitude correra

de quem  se encontra em  perm anente disponibilidade a tocar e a ser tocado, a perguntar e a

responder, a concordar e a discordar. Disponibilidade à vida e a seus contratem pos. Estar

disponível é estar sensível aos cham am entos que nos chegam , aos sinais m ais diversos que nos

apeiam , ao canto do pássaro, à chuva que cai ou que se anuncia na nuvem  escura, ao riso m anso

da inocência, à cara carrancuda da desaprovação, aos braços que se abrem  para acolher ou ao

corpo que se fecha na recusa. É na m inha disponibilidade perm anente à vida a que m e entrego

de corpo inteiro, pensar crítico, em oção, curiosidade, desej o, que vou aprendendo a ser eu

m esm o em  m inha relação com  o contrário de m im . E quanto m ais m e dou à experiência de lidar

sem  m edo, sem  preconceito, com  as diferenças, tanto m elhor m e conheço e construo m eu perfil.

3.8 – Ensinar exige disponibilidade para o diálogo

Nas m inhas relações com  os outros, que não fizeram  necessariam ente as m esm as opções que fiz,

no nível da política, da ética, da estética, da pedagogia, nem  posso partir de que devo “conquistá-

los”, não im porta a que custo, nem  tam pouco tem o que pretendam  “conquistar-m e”. É no

respeito às diferenças entre m im  e eles ou elas, na coerência entre o que faço e o que digo, que

m e encontro com  eles ou com  elas. É na m inha disponibilidade à realidade que construo a m inha

segurança, indispensável à própria disponibilidade. É im possível viver a disponibilidade à

realidade sem  segurança m as é im possível cam bem  criar a segurança fora do risco da


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