Pedagogia da Autonomia



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Pedagogia-da-Autonomia-Paulo-Freire(1)
escutá-la. O diferente não é o outro a m erecer respeito é um  isto ou aquilo, destratável ou

desprezível.

Se a estrutura do m eu pensam ento é a única certa, irrepreensível, não posso escutar quem  pensa

e elabora seu discurso de outra m aneira que não a m inha. Nem  tam pouco escuto quem  fala ou

escreve fora dos padrões da gram ática dom inante. E com o estar aberto às form as de ser, de

pensar, de valorar, consideradas por nós dem asiado estranhas e exóticas de outra cultura? Vem os

com o o respeito às diferenças e obviam ente aos diferentes exige de nós a hum ildade que nos

adverte dos riscos de ultrapassagem  dos lim ites além  dos quais a nossa autovalia necessária vira

arrogância e desrespeito aos dem ais. É preciso afirm ar que ninguém  pode ser hum ilde por puro

form alism o com o se cum prisse m era obrigação burocrática. A hum ildade exprim e, pelo

contrário, um a das raras certezas de que estou certo: a de que ninguém  é superior a ninguém . A

falta de hum ildade, expressa na arrogância e na falsa superioridade de um a pessoa sobre a outra,

de um a raça sobre a outra, de um  gênero sobre o outro, de um a classe ou de um a cultura sobre a

outra, é um a transgressão da vocação hum ana do ser m ais.* O que a hum ildade não pode exigir

de m im  é a m inha subm issão à arrogância e ao destem pero de quem  m e desrespeita. O que a

hum ildade exige de m im , quando não posso reagir à altura da afronta, é enfrentá-la com

dignidade. A dignidade do m eu silêncio e do m eu olhar que transm item  o m eu protesto possível.

E óbvio que não posso m e bater fisicam ente com  um  j ovem  a quem  não é necessário j untar

robustez e, m enos ainda, a qualidade de lutador. Nem  por isso, porém , devo am esquinhar-m e

diante de seu desrespeito e de seu agravo, trazendo-os com igo de volta para casa sem  um  gesto

ao m enos de protesto.

É preciso que, assum indo com  gravidade a m inha im potência na relação de poder entre m im  e

ele, fique sublinhada sua covardia. É necessário que ele saiba que eu sei que sua falta de valor

ético o inferioriza. É

preciso que ele saiba que, se fisicam ente pode golpear-m e e seus golpes m e causam  dor, não

tem , contudo, a força suficiente para dobrar-m e a seu arbítrio.

Sem  bater fisicam ente no educando o professor pode golpeá-lo, im por-lhe desgostos e prej udicá-

lo no processo de sua aprendizagem . A resistência do professor, por exem plo, em  respeitar a

“leitura de m undo” com  que o educando chega à escola, obviam ente condicionada por sua



cultura de classe e revelada em  sua linguagem , tam bém  de classe, se constitui em  um  obstáculo

à sua experiência de conhecim ento. Com o tenho insistido neste e em  outros trabalhos, saber

escutá-lo não significa, j á deixei isto claro, concordar com  ela, a leitura do m undo ou a ela se

acom odar, assum indo-a com o sua. Respeitar a leitura de m undo, do educando não é tam bém  um

j ogo tático com  que o educador ou educadora procura tornar-se sim pático ao educando. É a

m aneira correra que tem  o educador de, com o educando e não sobre ele, tentar a superação de

um a m aneira m ais ingênua por outra m ais crítica de inteligir o m undo.

Respeitar a leitura de m undo do educando significa tom á-la com o ponto de partida para a

com preensão do papel da curiosidade, de m odo geral, e da hum ana, de m odo especial, com o um

dos im pulsos fundantes da produção do conhecim ento. É preciso que, ao respeitar a leitura do

m undo do educando para ir m ais além  dela, o educador deixe claro que a curiosidade

fundam ental à inteligibilidade do m undo é histórica e se dá na história, se aperfeiçoa, m uda

qualitativam ente, se faz m etodicam ente rigorosa. E a curiosidade assim  m etodicam ente

rigorizada faz achados cada vez m ais exatos. No fundo, o educador que respeita a leitura de

m undo do educando, reconhece a historicidade do saber, o caráter histórico da curiosidade, desta

form a, recusando a arrogância cientificista, assum e a hum ildade crítica, própria da posição

verdadeiram ente científica.

O desrespeito à leitura de m undo do educando revela o gosto elitista, portanto antidem ocrático, do

educador que, desta form a, não escutando o educando,com  ele não fala. Nele deposita seus

com unicados.

Há algo ainda de real im portância a ser discutido na reflexão sobre a recusa ou ao respeito à

leitura de m undo do educando por parte do educador. A leitura de m undo revela, evidentem ente,

a inteligência do m undo que vem  cultural e socialm ente se constituindo. Revela tam bém  o

trabalho individual de cada suj eito no próprio processo de assim ilação da inteligência do m undo.

Um a das tarefas essenciais da escola, com o centro de produção sistem ática de conhecim ento, é

trabalhar criticam ente inteligibilidade das coisas e dos fatos e a sua com unicabilidade. É

im prescindível portanto que a escola instigue constantem ente a curiosidade do educando em  vez

de “am aciá-la” ou “dom esticá-la”. É

preciso m ostrar ao educando que o uso ingênuo da curiosidade altera a sua capacidade de achar

e obstaculiza a exatidão do achado. É preciso por outro lado e, sobretudo, que o educando vá

assum indo o papel de suj eito da produção de sua inteligência do m undo e não apenas o de


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