Pedagogia da Autonomia



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Pedagogia-da-Autonomia-Paulo-Freire(1)
educação pode. Se a educação não é a chave das transform ações sociais, não é tam bém

sim plesm ente reprodutora da ideologia dom inante. O




que quero dizer é que a educação nem  é um a força im batível a serviço da transform ação da

sociedade, porque assim  eu queira, nem  tam pouco é a perpetuação do "status quo” porque o

dom inante o decrete. O

educador e a educadora críticos não podem  pensar que, a partir do curso que coordenam  ou do

sem inário que lideram , podem  transform ar o país. Mas podem  dem onstrar que é possível m udar.

E isto reforça nele ou nela a im portância de sua tarefa político-pedagógica.

A professora dem ocrática, coerente, com petente, que testem unha seu gosto de vida, sua

esperança no m undo m elhor, que atesta sua capacidade de luta, seu respeito às diferenças, sabe

cada vez m ais o valor que tem  para a m odificação da realidade, a m aneira consistente com  que

vive sua presença no m undo, de que sua experiência na escola é apenas um  m om ento, m as um

m om ento im portante que precisa de ser autenticam ente vivido.

3.6 – Ensinar exige saber escutar

Recentem ente, em  conversa com  um  grupo de am igos e am igas, um a delas, a professora Olgair

Garcia, m e disse que, em  sua experiência pedagógica de professora de crianças e de

adolescentes m as tam bém  de professora de professoras, vinha observando quão im portante e

necessário é saber escutar. Se, na verdade, o sonho que nos anim a é dem ocrático e solidário, não

é falando aos outros, de cim a para baixo, sobretudo, com o se fôssem os os portadores da verdade

a ser transm itida aos dem ais, que aprendem os a escutar, m as é escutando que aprendem os a ferir



com eles. Som ente quem  escuta paciente e criticam ente o outro, fala com ele. Mesm o que, em

certas condições, precise de falar a ele. O que j am ais faz quem  aprende a escutar para poder

falar com  é falar impositivamente. Até quando, necessariam ente, fala contra posições ou

concepções do outro, fala com  ele com o suj eito da escuta de sua fala crítica e não com o obj eto

de seu discurso. O educador que escuta aprende a difícil lição de transform ar o seu discurso, às

vezes necessário, ao aluno, em  um a fala com ele.

Há um  sinal dos tem pos, entre outros, que m e assusta: a insistência com  que, em  nom e da

dem ocracia, da liberdade e da eficácia, se vem  asfixiando a própria liberdade e, por extensão, a

criatividade e o gosto da aventura do espírito. A liberdade de m over-nos, de arriscar-nos vem

sendo subm etida a um a certa padronização de fórm ulas, de m aneiras de ser, em  relação às quais

som os avaliados. É claro que j á não se trata de asfixia truculentam ente realizada pelo rei

despótico sobre seus súditos, pelo senhor feudal sobre seus vassalos, pelo colonizador sobre os

colonizados, pelo dono da fábrica sobre seus operários, pelo Estado autorit ário sobre os cidadãos,

m as pelo poder invisível da dom esticação alienante que alcança a eficiência extraordinária no

que venho cham ando “burocratização da m ente”. Um  estado refinado de estranheza, de

"autodem issão” da m ente, do corpo consciente, de conform ism o do indivíduo, de acom odação

diante de situações consideradas fatalistam ente com o im utáveis. E a posição de quem  encara os

fatos com o algo consum ado, com o algo que se deu porque tinha que se dar da form a com o se

deu, é a posição, por isso m esm o, de quem  entende e vive a História com o determinismo e não

com o possibilidade. É a posição de quem  se assum e com o fragilidade total diante do todo-

poderosism o dos fatos que não apenas se deram  porque tinham  que se dar m as que não podem



ser “reorientados” ou alterados.

Não há, nesta m aneira m ecanicista de com preender a História, lugar para a decisão hum ana.*

Na m edida m esm a em  que a desproblem atização do tem po, de que resulta que o am anhã ora é a

perpetuação do hoj e, ora é algo que será porque está dito que será, não há lugar para a escolha,

m as para a acom odação bem  com portada ao que está aí ou ao que virá. Nada é possível de ser

feito contra a globalização que, realizada porque tinha de ser realizada, tem  de continuar seu

destino, porque assim  está m isteriosam ente escrito que deve ser. A globalização que reforça o

m ando das m inorias poderosas e esm igalha e pulveriza a presença im potente dos dependentes,

fazendo-os ainda m ais im potentes é destino dado. Em  face dela

* Ver FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança. Rio de Janeiro, Paz e Terra.

não há outra saída senão que cada um  baixe a cabeça docilm ente e agradeça a Deus porque

ainda está vivo. Agradeça a Deus ou à própria globalização.

Sem pre recusei os fatalism os. Prefiro a rebeldia que m e confirm a com o gente e que j am ais

deixou de provar que o ser hum ano é m aior do que os m ecanicism os que o m inim izam .

A proclam ada m orte da História que significa, em  últim a análise, a m orte da utopia e do sonho,

reforça, indiscutivelm ente, os m ecanism os de asfixia da liberdade. Daí que a briga pelo resgate

do sentido cia utopia ele que a prática educativa hum anizante não pode deixar de estar

im pregnada tenha de ser um a sua constante.

Quanto m ais m e deixe seduzir pela aceitação da m orte da História tanto m ais adm ito que a

im possibilidade do am anhã diferente im plica a eternidade do hoj e neo-liberal que aí está, e a

perm anência do hoj e m ata em  m im  a possibilidade de sonhar. Desproblem atizando o tem po, a

cham ada m orte da História decreta o im obilism o que nega o ser hum ano.

A desconsideração total pela formação integral do ser hum ano e a sua redução a puro treino

fortalecem  a m aneira autoritária de falar de cim a para baixo. Nesse caso, falar a, que, na

perspectiva dem ocrática é um  possível m om ento do falar com , nem  sequer é ensaiado. A

desconsideração total pela form ação integral do ser hum ano, a sua redução a puro treino

fortalecem  a m aneira autoritária de falar de cim a para baixo a que falta, por isso m esm o, a

intenção de sua dem ocratização no falar com.

Os sistem as de avaliação pedagógica de alunos e de professores vêm  se assum indo cada vez

m ais com o discursos verticais, de cim a para baixo, m as insistindo em  passar por dem ocráticos. A

questão que se coloca a nós, enquanto professores e alunos críticos e am orosos da liberdade, não

é, naturalm ente, ficar contra a avaliação, de resto necessária, m as resistir aos m étodos

silenciadores com  que ela vem  sendo às vezes realizada. A questão que se coloca a nós é lutar

em  favor da com preensão e da prática da avaliação enquanto instrum ento de apreciação do que-

fazer de suj eitos críticos a serviço, por isso m esm o, da libertação e não da dom esticação.

Avaliação em  que se estim ule o falar com o cam inho do falar com.




No processo da fala e da escuta a disciplina do silêncio a ser assum ido com  rigor e a seu tem po

pelos suj eitos que falam  e escutam  é um  “sine qua” da com unicação dialógica. O prim eiro sinal

de que o suj eito que fala sabe escutar é a dem onstração de sua capacidade de controlar não só a

necessidade de dizer a sua palavra, que é um  direito, m as tam bém  o gosto pessoal,

profundam ente respeitável, de expressá-la.

Quem  tem  o que dizer tem  igualm ente o direito e o dever de dizê-lo. É preciso, porém , que quem

tem  o que dizer saiba, sem  som bra de dúvida, não ser o único ou a única a ter o que dizer. Mais

ainda, que o que tem  a dizer não é necessariam ente, por m ais im portant e que sej a, a verdade

alvissareia por todos esperada. É preciso que quem  tem  o que dizer saiba, sem  dúvida nenhum a,

que, sem  escutar o que quem  escuta tem  igualm ente a dizer, term ina por esgotar a sua

capacidade de dizer por m uito ter dito sem  nada ou quase nada ter escutado.

Por isso é que, acrescento, quem  tem  o que dizer deve assum ir o dever de m otivar, de desafiar

quem  escuta, no sentido de que, quem  escuta diga, fale, responda. E intolerável o direito que se

dá a si m esm o o educador autoritário de com portar-se com o o proprietário da verdade de que se

apossa e do tem po para discorrer sobre ela. Para ele, quem  escuta sequer tem  tem po próprio pois

o tem po de quem  escuta é o seu, o tem po de sua fala. Sua fala, por isso m esm o, se dá num

espaço silenciado e não num  espaço com ou em silêncio. Ao contrário, o espaço do educador

dem ocrático, que aprende a falar escutando, é cortado pelo silêncio interm itente de quem ,

falando, cala para escutar a quem , silencioso, e não silenciado, fala.

A im portância do silêncio no espaço da com unicação é fundam ental. De um  lado, m e

proporciona que, ao escutar, com o suj eito e não com o obj eto, a fala com unicante de alguém ,

procure entrar no m ovim ento interno do seu pensam ento, virando linguagem ; de outro, torna

possível a quem  fala, realm ente com prom etido com  comunicar e não com  fazer puros


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