Pedagogia da Autonomia



Baixar 1.06 Mb.
Pdf preview
Página16/30
Encontro11.02.2022
Tamanho1.06 Mb.
#21570
1   ...   12   13   14   15   16   17   18   19   ...   30
Pedagogia-da-Autonomia-Paulo-Freire(1)
inserção, que im plica decisão, escolha, intervenção na realidade. Há perguntas a serem  feitas

insistentem ente por todos nós e que nos fazem  ver a im possibilidade de estudar por estudar. De



estudar descom prom etidam ente com o se m isteriosam ente de repente nada tivéssem os que ver

com  o m undo, um  lá fora e distante m undo, alheado de nós e nós dele.

Em  favor de que estudo? Em  favor de quem ? Contra que estudo? Contra quem  estudo?

Que sentido teria a atividade de Danilson no m undo que descortinávam os do pontilhão se, para

ele, estivesse decretada por um  destino todo poderoso a im potência daquela gente fustigada pela

carência?

Restaria a Danilson trabalhar apenas a possível m elhora de performance da população no

processo irrecusável de sua adaptação à negação da vida. A prática de Danilson seria assim  o

elogio da resignação.

Na m edida porém  em  que para ele com o para m im  o futuro é problem ático e não inexorável,

outra tarefa se nos oferece. A de, discutindo a problem aticidade do am anhã, tornando-o tão óbvio

quanto a carência de tudo na favela, ir tornando igualm ente óbvio que a adaptação à dor, à fom e,

ao desconforto, à falta de higiene que o eu de cada um , com o corpo e alm a, experim enta é um a

form a de resistência física a que se vai j untando outra, a cultural. Resistência ao descaso ofensivo

de que os m iseráveis são obj eto. No fundo, as resistências – a orgânica e/ou a cultural – são

manhas necessárias à sobre-vivência física e cultural dos oprim idos. O sincretism o religioso afro-

brasileiro expressa a resistência ou a m anha com  que a cultura africana escrava se defendia do

poder hegem ônico do colonizador branco.

É preciso porém  que tenham os na resistência que nos preserva vivos, na compreensão do futuro

com o problema e na vocação para o ser mais com o expressão da natureza hum ana em  processo

de estar sendo, fundam entos para a nossa rebeldia e não para a nossa resignação em  face das

ofensas que nos destroem  o ser. Não é na resignação m as na rebeldia em  face das inj ustiças que



nos afirm am os.

Um a das questões centrais com  que tem os de lidar é a prom oção de posturas rebeldes em

posturas revolucionárias que nos engaj am  no processo radical de transform ação do m undo. A

rebeldia é ponto de partida indispensável, é deflagração da j usta ira, m as não é suficiente. A

rebeldia enquanto denúncia precisa de se alongar até um a posição m ais radical e crítica, a

revolucionária, fundam entalm ente anunciadora. A m udança do m undo im plica a dialetização

entre a denúncia da situação desum anizante e o anúncio de sua superação, no fundo, o nosso

sonho.


É a partir deste saber fundam ental: mudar é difícil mas é possível, que vam os program ar nossa

ação político-pedagógica, não im porta se o proj eto com  o qual nos com prom etem os é de

alfabetização de adultos ou de crianças, se de ação sanitária, se de evangelização, se de

form ação de m ão-de-obra técnica.

O êxito de educadores com o Danilson está central-m ente nesta certeza que j am ais os deixa de

que é possível m udar, de que é preciso m udar, de que preservar situações concretas de m iséria é

um a im oralidade. É assim  que este saber que a História vem  com provando se erige em  princípio

de ação e abre cam inho à constituição, na prática, de outros saberes indispensáveis.

Não se trata obviam ente de im por à população expoliada e sofrida que se rebele, que se m obilize,

que se organize para defender-se, vale dizer, para m udar o m undo. Trata-se, na verdade, não

im porta se trabalham os com  alfabetização, com  saúde, com  evangelização ou com  todas elas, de

sim ultaneam ente com  o trabalho específico de cada um  desses cam pos desafiar os grupos

populares para que percebam , em  term os críticos, a violência e a profunda inj ustiça que

caracterizam  sua situação concreta. Mais ainda, que sua situação concreta não é destino certo ou




Baixar 1.06 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   12   13   14   15   16   17   18   19   ...   30




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal