Pedagogia da Autonomia



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Pedagogia-da-Autonomia-Paulo-Freire(1)
mangueira. É possível que a notícia tenha provocado em  pragm áticos neoliberais sua reação

habitual e fatalista em  favor sem pre dos poderosos. “É

triste, m as, que fazer? A realidade é m esm o esta.” A realidade, porém , não é inexoravelm ente

esta. Está sendo esta com o poderia ser outra e é para que sej a outra que precisam os os

progressistas de lutar. Eu m e sentiria m ais do que triste, desolado e sem  achar sentido para m inha

presença no m undo, se fortes e indestrutíveis razoes m e convencessem  de que a existência

hum ana se dá no dom ínio da determ inação.

Dom ínio em  que dificilm ente se poderia falar de opções, de decisão, de liberdade, de ética. “Que

fazer? A realidade é assim  m esm o”, seria o discurso universal. Discurso m onótono, repetitivo,

com o a própria existência hum ana. Num a história assim  determ inada as posições rebeldes não

têm  com o tornar-se revolucionárias.

Tenho o direito de ter raiva, de m anifestá-la, de tê-la com o m otivação para m inha briga tal qual

tenho o direito de am ar, de expressar m eu am or ao m undo, de tê-lo com o m otivação de m inha

briga porque, histórico, vivo a História com o tem po de possibilidade não de determ inação. Se a

realidade fosse assim  porque estivesse dito que assim  teria de ser não haveria sequer por que ter

raiva. Meu direito à raiva pressupõe que, na experiência histórica da qual participo, o am anhã

não é algo “pré-dado”, m as um  desafio, um  problem a. A m inha raiva, m inha j usta ira, se funda

na m inha revolta em  face da negação do direito de “ser m ais” inscrito na natureza dos seres

hum anos. Não posso, por isso, cruzar os braços fatalistam ente diante da m iséria, esvaziando,

desta m aneira, m inha responsabilidade no discurso cínico e

“m orno”, que fala da im possibilidade de m udar porque a realidade é m esm o assim . O discurso

da acom odação ou de sua defesa, o discurso da exaltação do silêncio im posto de que resulta a

im obilidade dos silenciados, o discurso do elogio da adaptação tom ada com o fado ou sina é um

discurso negador da hum anização de cuj a responsabilidade não podem os nos exim ir. A

adaptação a situações negadoras da hum anização só pode ser aceita com o conseqüência da

experiência dom inadora, ou com o exercício de resistência, com o tática na luta política. Dou a

im pressão de que aceito hoj e a condição de silenciado para bem  lutar, quando puder, contra a

negação de m im  m esm o. Esta questão, a da legitim idade da raiva contra a docilidade fatalista

diante da negação das gentes, foi um  tem a que esteve im plícito em  toda a nossa conversa

naquela m anhã.

2.8 – Ensinar exige a convicção de que a m udança é possível

Um  dos saberes prim eiros, indispensáveis a quem , chegando a favelas ou a realidades m arcadas

pela traição a nosso direito de ser, pretende que sua presença se vá tornando convivência, que seu

estar no contexto vá virando estar como ele, é o saber do futuro com o problem a e não com o

inexorabilidade. É o saber da História com o possibilidade e não com o determinação. O m undo




não é. O m undo está sendo.

Com o subj etividade curiosa, inteligente, interferidora na obj etividade com  que dialeticam ente

m e relaciono, m eu papel no m undo não é só o de quem  constata o que ocorre m as tam bém  o de

quem  intervém  com o suj eito de ocorrências. Não sou apenas obj eto da História m as seu suj eito

igualm ente. No m undo da História, da cultura, da política, constato não para m e adaptar m as

para mudar. No próprio m undo físico m inha constatação não m e leva à im potência. O

conhecim ento sobre os terrem otos desenvolveu toda um a engenharia que nos aj uda a sobreviver

a eles. Não podem os elim iná-los m as podem os dim inuir os danos que nos causam . Constatando,

nos tornam os capazes de intervir na realidade, tarefa incom paravelm ente m ais com plexa e

geradora de novos saberes do que sim plesm ente a de nos adaptar a ela. É por isso tam bém  que

não m e parece possível nem  aceitável a posição ingênua ou, pior, astutam ente neutra de quem

estuda, sej a o físico, o biólogo, o sociólogo, o m atem ático, ou o pensador da educação. Ninguém

pode estar no m undo, com  o m undo e com  os outros de form a neutra. Não posso estar no m undo

de luvas nas m ãos constatando apenas. A acom odação em  m im  é apenas cam inho para a


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