Pedagogia da Autonomia



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Pedagogia-da-Autonomia-Paulo-Freire(1)
apreender. Por isso, som os os únicos em  quem  aprender é um a aventura criadora, algo, por isso

m esm o, m uito m ais rico do que m eram ente repetir a lição dada. Aprender para nós é construir,

reconstruir, constatar para mudar, o que não se faz sem  abertura ao risco e à aventura do espírito.

Creio poder afirm ar, na altura destas considerações, que toda prática educativa dem anda a

existência de suj eitos, um  que, ensinando, aprende, outro que, aprendendo, ensina, daí o seu

cunho gnosiológico; a existência de obj etos, conteúdos a serem  ensinados e aprendidos; envolve o

uso de m étodos, de técnicas, de m ateriais; im plica, em  função de seu caráter diretivo, obj etivo,

sonhos, utopias, ideais. Daí a sua politicidade, qualidade que tem  a prática educativa de ser



política, de não poder ser neutra.

Especificam ente hum ana a educação é gnosiológica, é diretiva, por isso política, é artística e

m oral, serve-se de m eios, de técnicas, envolve frustrações, m edos, desej os. Exige de m im , com o

professor, um a com petência geral, um  saber de sua natureza e saberes especiais, ligados à m inha

atividade docente.

Com o professor, se m inha opção é progressista e venho sendo coerente com  ela, se não m e posso

perm itir a ingenuidade de pensar-m e igual ao educando, de desconhecer a especificidade da

tarefa do professor, não posso, por outro lado, negar que o m eu papel fundam ental é contribuir

positivam ente para que o educando vá sendo o artífice de sua form ação com  a aj uda necessária

do educador. Se trabalho com  crianças, devo estar atento à difícil passagem  ou cam inhada da



heteronomia para a autonomia, atento à responsabilidade de m inha presença que tanto pode ser

auxiliadora com o pode virar perturbadora da busca inquieta dos educandos; se trabalho com

j ovens ou adultos, não m enos atento devo estar com  relação a que o m eu trabalho possa

significar com o estím ulo ou não à ruptura necessária com  algo defeituosam ente assentado e à

espera de superação. Prim ordialm ente, m inha posição tem  de ser a de respeito à pessoa que

queira m udar ou que recuse m udar. Não posso negar-lhe ou esconder-lhe m inha postura m as não

posso desconhecer o seu direito de rej eitá-la. Em  nom e do respeito que devo aos alunos não

tenho por que m e om itir, por que ocultar a m inha opção política, assum indo um a neutralidade

que não existe. Esta, a om issão do professor em  nom e do respeito ao aluno, talvez sej a a m elhor

m aneira de desrespeitá-lo. O m eu papel, ao contrário, é o de quem  testem unha o direito de

com parar, de escolher, de rom per, de decidir e estim ular a assunção deste direito por parte dos



educandos.

Recentem ente, num  encontro público, um  j ovem  recém -entrado na universidade m e disse

cortesm ente:

“Não entendo com o o senhor defende os sem -terra, no fundo, uns baderneiros, criadores de

problem as.”

“Pode haver baderneiros entre os sem -terra”, disse, “m as sua luta é legítim a e ética”.

“Baderneira” é a resistência reacionaria de quem  se opõe a ferro e a fogo à reform a agrária. A

im oralidade e a desordem  estão na m anutenção de um a “ordem ” inj usta.

A conversa aparentem ente m orreu aí. O m oço apertou m inha m ão em  silêncio. Não sei com o

terá


“tratado” a questão depois, m as foi im portante que tivesse dito o que pensava e que tivesse ouvido

de m im  o que m e parece j usto que devesse ter dito.

É assim  que venho tentando ser professor, assum indo m inhas convicções, disponível ao saber,

sensível à boniteza da prática educativa, instigado por seus desafios que não lhe perm item

burocratizar-se, assum indo m inhas lim itações, acom panhadas sem pre do esforço por superá -las,

lim itações que não procuro esconder em  nom e m esm o do respeito que m e tenho e aos

educandos.

2.7 – Ensinar exige alegria e esperança

O m eu envolvim ento com  a prática educativa, sabidam ente política, m oral, gnosiológica, j am ais

deixou de ser feito com  alegria, o que não significa dizer que tenha invariavelm ente podido criá-

la nos educandos.

Mas, preocupado com  ela, enquanto clim a ou atm osfera do espaço pedagógico, nunca deixei de

estar.

Há um a relação entre a alegria necessária à atividade educativa e a esperança. A esperança de



que professor e alunos j untos podem os aprender, ensinar, inquietar-nos, produzir e j untos

igualm ente resistir aos obstáculos à nossa alegria. Na verdade, do ponto de vista da natureza

hum ana, a esperança não é algo que a ela se j ustaponha. A esperança faz parte da natureza

hum ana. Seria um a contradição se, inacabado e consciente do inacabam ento, prim eiro, o ser

hum ano não se inscrevesse ou não se achasse predisposto a participar de um  m ovim ento

constante de busca e, segundo, se buscasse sem  esperança. A desesperança é negação da

esperança. A esperança é um a espécie de ím peto natural possível e necessário, a desesperança é

o aborto deste ím peto. A esperança é um  condim e nto indispensável à experiência histórica. Sem

ela, não haveria História, m as puro determ inism o. Só há História onde há tem po problem atizado

e não pré-dado. A inexorabilidade do futuro é a negação da História.




É preciso ficar claro que a desesperança não é m aneira de estar sendo natural do ser hum ano,

m as distorção da esperança. Eu não sou prim eiro um  ser da desesperança a ser convertido ou

não pela esperança. Eu sou, pelo contrário, um  ser da esperança que, por "n" razões, se tornou

desesperançado.

Daí que um a das nossas brigas com o seres hum anos deva ser dada no sentido de dim inuir as

razões obj etivas para a desesperança que nos im obiliza.

Por tudo isso m e parece um a enorm e contradição que um a pessoa progressista, que não tem e a

novidade, que se sente m al com  as inj ustiças, que se ofende com  as discrim inações, que se bate

pela decência, que luta contra a im punidade, que recusa o fatalism o cínico e im obilizante, não

sej a criticam ente esperançosa.

A desproblem atização do futuro num a com preensão m ecanicista da História, de direita ou de

esquerda, leva necessariam ente à m orte ou à negação autoritária do sonho, da utopia, da

esperança. É que, na inteligência m ecanicista portanto determ inista da História, o futuro é j á

sabido. A luta por um  futuro assim

“a priori” conhecido prescinde da esperança.

A desproblem atização do futuro, não im porta em  nom e de quê, é um a violenta ruptura com  a

natureza hum ana social e historicam ente constituindo-se.

Tive, recentem ente em  Olinda, num a m anhã com o só os trópicos conhecem , entre chuvosa e

ensolarada, um a conversa, que diria exem plar, com  um  j ovem  educador popular que, a cada

instante, a cada palavra, a cada reflexão, revelava a coerência com  que vive sua opção

dem ocrática e popular. Cam inhávam os, Danilson Pinto e eu, com  alm a aberta ao m undo,

curiosos, receptivos, pelas trilhas de um a fivela onde cedo se aprende que só a custo de m uita

teim osia se consegue tecer a vida com  sua quase ausência – ou negação –, com  carência, com

am eaça, com  desespero, com  ofensa e dor. Enquanto andávam os pelas ruas daquele m undo

m altratado e ofendido eu ia m e lem brando de experiências de m inha j uventude em  outras

favelas de Olinda ou do Recife, dos m eus diálogos com  favelados e faveladas de alm a rasgada.

Tropeçando na dor hum ana, nós nos perguntávam os em  torno de um  sem -núm ero de problem as.

Que fazer, enquanto educadores, trabalhando num  contexto assim ? Há m esm o o que fazer?

Com o fazer o que fazer? Que precisam os nós, os cham ados educadores, saber para viabilizar até

m esm o os nossos prim eiros encontros com  m ulheres, hom ens e crianças cuj a hum anidade vem

sendo negada e traída, cuj a existência vem  sendo esm agada? Param os no m eio de um  pontilhão

estreito que possibilita a travessia da favela para um a parte m enos m altratada do bairro popular.

Olhávam os de cim a um  braço de rio poluído, sem  vida, cuj a lam a e não cuj a água em papa os

m ocam bos nela quase m ergulhados. “Mais além  dos m ocam bos”, m e disse Danilson, “há algo

pior: um  grande terreno onde se faz o depósito do lixo público.

Os m oradores de toda esta redondeza ‘pesquisam ’ no lixo o que com er, o que vestir, o que os




m antenha vivos”. Foi desse horrendo aterro que há dois anos um a fam ília retirou de lixo

hospitalar pedaços de seio am putado com  que preparou seu alm oço dom ingueiro. A im prensa

noticiou o fato que citei horrorizado e pleno de j usta raiva no m eu últim o livro À sombra desta


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