Pedagogia da Autonomia



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Pedagogia-da-Autonomia-Paulo-Freire(1)
objeto, m as suj eito tam bém  da História.

Gosto de ser gente porque, m esm o sabendo que as condições m ateriais, econôm icas, sociais e

políticas, culturais e ideológicas em  que nos acham os geram  quase sem pre barreiras de difícil

superação para o cum prim ento de nossa tarefa histórica de m udar o m undo, sei tam bém  que os

obstáculos não se eternizam .

Nos anos 60, preocupado j á com  esses obstáculos, apelei para a conscientização não com o

panacéia, m as com o um  esforço de conhecim ento crítico dos obstáculos, vale dizer, de suas

razões de ser. Contra toda a força do discurso fatalista neoliberal, pragm ático e reacionário,

insisto hoj e, sem  desvios idealistas, na necessidade da conscientização. Insisto na sua atualização.

Na verdade, enquanto aprofundam ento da




“prise de conscience” do m undo, dos fatos, dos acontecim entos, a conscientização é exigência

hum ana, é um  dos cam inhos para a posta em  prática da curiosidade epistem ológica. Em  lugar de



estranha, a conscientização é natural ao ser que, inacabado, se sabe inacabado. A questão

substantiva não está por isso no puro inacabam ento ou na pura inconclusão. A inconclusão, repito,

faz parte da natureza do fenôm eno vital. Inconclusos som os nós, m ulheres e hom ens, m as

inconclusos são tam bém  as j aboticabeiras que enchem , na safra, o m eu quintal de pássaros

cantadores; inconclusos são estes pássaros com o inconcluso é Eico, m eu pastor alem ão, que m e

"saúda” contente no com eço das m anhãs.

Entre nós, m ulheres e hom ens, a inconclusão se sabe com o tal. Mais ainda, a inconclusão que se

reconhece a si m esm a, im plica necessariam ente a inserção do suj eito inacabado num

perm anente processo social de busca. Histórico-sócio-culturais, m ulheres e hom ens nos tornam os

seres em  quem  a curiosidade, ultrapassando os lim ites que lhe são peculiares no dom ínio vital, se

torna fundante da produção do conhecim ento. Mais ainda, a curiosidade é j á conhecim ento.

Com o a linguagem  que anim a a curiosidade e com  ela se anim a, é tam bém  conhecim ento e não

só expressão dele.

Num a m adrugada, há alguns m eses, estávam os Nita e eu, cansados, na sala de em barque de um

aeroporto do Norte do país, à espera da partida para São Paulo num  desses vôos m adrugadores

que a sabedoria popular cham a "vôo coruj a”. Cansados e realm ente arrependidos de não haver

m udado o esquem a de vôo. Um a criança em  tenra idade, saltitante e alegre, nos fez, finalm ente,

ficar contentes, apesar da hora para nós inconveniente.

Um  avião chega. Curiosa a criança inclina a cabeça na busca de selecionar o som  dos m otores.

Volta-se para a m ãe e diz: “O avião ainda chegou.” Sem  com entar, a m ãe atesta: “O avião j á

chegou.” Silêncio. A criança corre até o extrem o da sala e volta. “O avião j á chegou”, diz. O

discurso da criança, que envolvia a sua posição curiosa em  face do que ocorria, afirm ava

prim eiro o conhecimento da ação de chegar do avião, segundo o conhecim ento da

tem poralização da ação no advérbio j á. O discurso da criança era conhecim ento do ponto de

vista do fato concreto: o avião chegou e era conhecim ento do ponto de vista da criança que, entre

outras coisas, Fizera o dom ínio da circunstância adverbial de tem po, no já.

Voltem os um  pouco à nossa reflexão anterior. A consciência do inacabam ento entre nós,

m ulheres e hom ens, nos fez seres responsáveis, daí a eticidade de nossa presença no m undo.

Eticidade, que não há dúvida, podem os trair. O m undo da cultura que se alonga em  m undo da

história é um  m undo de liberdade, de opção, de decisão, m undo de possibilidade em  que a

decência pode ser negada, a liberdade ofendida e recusada. Por isso m esm o a capacitação de

m ulheres e de hom ens em  torno de sabereis instrum entais j am ais pode prescindir de sua

form ação ética. A radicalidade desta exigência é tal que não deveríam os necessitar sequer de

insistir na form ação ética do ser ao falar de sua preparação técnica e científica. É fundam ental

insistirm os nela precisam ente porque, inacabados m as conscientes do inacabam ento, seres da

opção, da decisão, éticos, podem os negar ou trair a própria ética. O educador que, ensinando

geografia, “castra” a curiosidade do educando em  nom e da eficácia da m em orização m ecânica



do ensino dos conteúdos, tolhe a liberdade do educando, a sua capacidade de aventurar-se. Não

form a, dom estica. Tal qual quem  assum e a ideologia fatalista em butida no discurso neoliberal, de

vez em  quando criticada neste texto, e aplicada preponderantem ente às situações em  que o

paciente são as classes populares. “Não há o que fazer, o desem prego é um a fatalidade do fim  do

século.”

A “andarilhagem ” gulosa dos trilhões de dólares que, no m ercado financeiro, “voam ” de um

lugar a outro com  a rapidez dos faxes, à procura insaciável de m ais lucro, não é tratada com o


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