Pedagogia da Autonomia



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Pedagogia-da-Autonomia-Paulo-Freire(1)
suporte de que resultaria inevitavelm ente a com unicabilidade do inteligido, o espanto diante da

vida m esm a, do que há nela de m istério. No suporte, os com portam entos dos indivíduos têm  sua

explicação m uito m ais na espécie a que pertencem  os indivíduo do que neles m esm os. Falta-lhes

liberdade de opção. Por isso, não se fala em  ética entre os elefantes.

A vida no suporte não im plica a linguagem  nem  a postura erecta que perm itiu a liberação das

m ãos*.


Mãos que, em  grande m edida, nos fizeram . Quanto m aior se foi tornando a solidariedade entre

m ente e m ãos, tanto m ais o suporte foi virando mundo e a vida, existência. O suporte veio

fazendo-se mundo e a vida, existêmia, na proporção que o corpo hum ano vira corpo consciente,

captador, apreendedor, transform ador, criador de beleza e não “espaço” vazio a ser enchido por

conteúdos.

A invenção da existência envolve, repita-se, necessariam ente, a linguagem , a cultura, a

com unicação em  níveis m ais profundos e com plexos do que o que ocorria e ocorre no dom ínio

da vida, a “espiritualização”

do m undo, a possibilidade de em belezar com o de enfear o m undo e tudo isso inscreveria

m ulheres e hom ens com o seres éticos. Capazes de intervir no m undo, de com parar, de aj uizar,

de decidir, de rom per, de escolher, capazes de grandes ações, de dignificantes testem unhos, m as

capazes tam bém  de im pensáveis exem plos de baixeza e de indignidade. Só os seres que se

tornaram  éticos podem  rom per com  a ética. Não se sabe de leões que covardem ente tenham

assassinado leões do m esm o ou de outro grupo fam iliar e depois tenham  visitado os “fam iliares”

para levar-lhes sua solidariedade. Não se sabe de tigres africanos que tenham  j ogado bom bas

altam ente destruidoras em  “cidades” de tigres asiáticos.

No m om ento em  que os seres hum anos, intervindo no suporte, foram  criando o mundo,

inventando a linguagem  com  que passaram  a dar nom e às coisas que faziam  com  a ação sobre o

m undo, na m edida em  que se foram  habilitando a inteligir o m undo e criaram  por conseqüências

a necessária com unicabilidade do inteligido, j á não foi possível existir a não ser disponível à

tensão radical e profunda entre o bem  e o m al, entre a dignidade e a indignidade, entre a

decência e o despudor, entre a boniteza e s feiúra do m undo. Quer dizer, j á não foi possível existir

sem  assumir o direito e o dever de optar, de decidir, dr lutar, de fazer política. E tudo isso nos traz

de novo à im periosidade da prática formadora, de natureza em inentem ente ética. E tudo isso nos

traz de novo à radicalidade da esperança. Sei que as coisas podem  até piorar, m as sei tam bém

que é possível intervir para m elhorá -las.




Gosto de ser hom em , de ser gente, porque não está dado com o certo, inequívoco, irrevogável que

sou ou serei decente, que testem unharei sem pre gestos puros, que sou e que serei j usto, que

respeitarei os outros, que não m entirei escondendo o seu valor porque a invej a de sua presença

no m undo m e incom oda e m e enraivece. Gosto de ser hom em , de ser gente, porque sei que a

m inha passagem  pelo m undo não é predeterm inada, preestabelecida. Que o m eu “destino” não é

um  dado m as algo que precisa ser feito e dr cuj a responsabilidade não posso m e exim ir. Gosto de

ser gente porque a História em  que m e faço com  os outros e de cuj a feitura tom o parte é um

tem po de possibilidades e não de determ inism o. Daí que insista tanto na problematização do

futuro e recuse sua inexorabilidade.

* Ver: The Cam bridge Ency clopedia of Language. Cry stal, Davi', Cam bridge, Cam bridge

University  Press, 1987.

2.2 – Ensinar exige o reconhecim ento de ser condicionado

Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um  ser condicionado m as, consciente do

inacabam ento, sei que posso ir m ais além  dele. Esta é a diferença profunda entre o ser

condicionado e o ser determ inado. A diferença entre o inacabado que não se sabe com o tal e o

inacabado que histórica e socialm ente alcançou a possibilidade de saber-se inacabado. Gosto de

ser gente porque, com o tal, percebo afinal que a construção de m inha presença no m undo, que

não se faz no isolam ento, isenta òa influência das forças sociais, que não se com preende fora da

tensão entre o que herdo geneticam ente e o que herdo social, cultural e historicam ente, tem

m uito a ver com igo m esm o. Seria irônico se a consciência de m inha presença no m undo não

im plicasse j á o reconhecim ento da im possibilidade de m inha ausência na construção da própria

presença. Não posso m e perceber com o um a presença no m undo m as, ao m esm o tem po,

explicá-la com o resultado de operações absolutam ente alheias a m im . Neste caso o que faço é

renunciar à responsabilidade ética, histórica, política e social que a prom oção do suporte mundo

nos coloca. Renuncio a participar a cum prir a vocação ontológica de intervir o m undo. O fato de

m e perceber no m undo, com  o m undo e com  os outros m e põe num a posição em  face do m undo

que não é de quem  nada tem  a ver com  ele. Afinal, m inha presença no m undo não é a de quem

a ele se adapta m as a de quem  nele se insere. É a posição de quem  luta para não ser apenas




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