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 Algumas estratégias das operações artísticas no livro ou uma terceira leitura



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3. Algumas estratégias das operações artísticas no livro ou uma terceira leitura 

O primeiro fato a nos chamar a atenção é a forma como retratos, fotos de objetos, 

lugares  e  documentos  diversos,  frames  de  vídeo,  imagens  do  google  street  view,  são 

articuladas  no  livro.  Se  vemos  uma  série  de  retratos  de  vítimas,  logo  essa  série  é 

interrompida por uma foto e texto de uma outra situação singular. A ponto de que não 

podemos prever exatamente o que vem na página seguinte. E assim a história vai sendo 

composta numa estrutura que é mais intervalar do que linear. A quebra de continuidade 

operacionaliza  o  intervalo  que  nos  tira  da  ilusão  do  fluxo  narrativo  da  história  e  nos 

devolve ao presente do ato de leitura, quase como se exigisse que não percamos o nosso 

próprio presente de vista.  

 

Voltemos às várias imagens e textos presentes no livro. Podemos dizer que o livro 



se  configura  como  um  arranjo  de  fragmentos  verbos-visuais  coletados  no  mundo, 

fragmentos que podem ter sido apropriados de vídeos, de sites, ou fotografias realizadas 

pela autora em sua visita ao Museu do Aborto em Viena ou nas entrevistas realizadas com 

as  pessoas  que,  num  ato  político,  se  dispuseram  a  ocupar  o  espaço  do  livro  com  suas 

reproduções fotográficas e seus depoimentos pessoais, expondo suas vidas, fazendo de 

suas  narrativas  de  vida  mais  do  que  uma  história  pessoal,  uma  forma  de  partilha 

(RANCIÈRE,  2012,  p.121).  De  tal  forma  que  poderíamos,  numa  analogia,  dizer  que 

folhear On Abortion é que nem revirar a terra num trabalho arqueológico (BENJAMIN, 

2012a, p. 245). Em cada camada de terra revirada, ou de página virada, um fragmento 

surge, um fato, uma história singular aparece.  

Com isso, percebemos as repercussões da falta de acesso ao aborto pelo olhar de 

cada um dos fragmentos verbos-visuais dispostos no livro, os quais formam uma grande 

teia de relações de figuras às vezes tão díspares quanto um cabide, um droner, uma pedra, 

uma  beata  e  um  político.  Não  são  relações  de  causa-consequência,  são  antes  relações 

intensivas  de  histórias  que  se  interseccionam  (CUSICANQUI,  1987).  On  Abortion

portanto, operacionaliza uma forma de contar a história que é mais holística do que linear. 




 

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação 

42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Belém - PA – 2 a 7/09/2019

 

 



 

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Trata-se  menos  de  um  encadeamento  temporal  do  que  de  uma  espacialização  de 

fragmentos de outros tempos e lugares em um novo espaço de existência, no qual a cada 

virada  de  páginas  somos  tocados  por  mais  uma  micronarrativa,  singular,  sobre  as 

repercussões da falta de acesso ao aborto, uma questão universal.  

Entre  imagens  e  textos,  vamos  conhecendo  as  várias  nuances  do  assunto 

abordado:  a  questão  financeira  da  mulher,  sua  classe  social,  a  questão  da  orientação 

afetiva, das imposições legais de vários Estados, do peso da religião, do abandono afetivo 

pelo parceiro, do apoio e da rejeição que receberam de terceiros, da solidão que sentiram, 

do  medo,  das  injustiças,  dos  discursos  midiáticos,  entre  outros;  sempre  por  meio  de 

histórias singulares contadas diretamente pelas testemunhas ou relatadas pela autora. Se 

o frame de vídeo do presidente dos  EUA pode ser considerado  a representação  de um 

imaginário, pretensamente hegemônico, em que a colonização dos seres é algo ‘natural’; 

o  todo  do  livro  torna  latente  a  contínua  e  ininterrupta  luta  de  mulheres  (e  de  alguns 

homens) pela liberdade e autodeterminação de seus corpos. 

Ainda  sobre  as  narrativas,  convém  especificar  que  as  fotografias  se  unem  a 

pequenos textos (depoimentos das testemunhas ou relatos da autora) formando pequenos 

núcleos  narrativos  verbos-visuais.  O  texto,  aliás,  longe  de  ser  redundante,  em  alguns 

momentos  restitui  a  singularidade  das  imagens,  proporcionando  um  maior  impacto 

afetivo. Uma foto de um cabide, de uma rã ou um droner, em si, não comunicam como 

esses objetos se relacionam a questão do aborto; não atesta os usos sociais de tais coisas. 

O texto nos proporciona essa informação complementar e, ao fazer, modifica nosso olhar. 

Um cabide deixa de ser apenas um cabide e toda uma carga afetiva transborda da foto ao 

imaginarmos seu uso, o desespero que leva uma pessoa a usá-lo e o absurdo de todo o 

sistema de controle que obriga os corpos gestantes a passar por essas situações, colocando 

suas vidas em risco.  

Evidentemente  que  todo  o  contexto  do  livro,  inclusive  as  outras  fotografias, 

contribui também para a forma de percebermos as imagens, seus sentidos e afetos e para 

nossas reflexões como leitores. Se tocamos no texto aqui é apenas para enfatizar o seu 

papel e não para restringir todas as relações costuradas no livro a dimensão texto-imagem. 

Na qual as imagens, aos moldes representacionais, deveriam meramente ilustrar o texto 

prévio  (RANCIÈRE,  2009),  como  por  muito  tempo  se  olhou  para  a  fotografia 

documental. No livro, ao contrário, não há hierarquias entre imagens e textos, nem entre 

os núcleos narrativos apresentados no livro; tampouco há entre as imagens fotográficas, 



 

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação 

42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Belém - PA – 2 a 7/09/2019

 

 



 

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consideradas  isoladamente.  Estas  últimas,  aliás,  são  tratadas  com  diferentes  recursos 

estéticos.  

Os retratos, como vimos, são tratados de acordo com a especificidade do que é 

contado  no  texto,  criando  conjuntos  tipológicos  dentro  do  livro  (FIG.12).  Vemos  com 

clareza o rosto daqueles que prestaram depoimento, contando suas histórias, em primeira 

pessoa no livro, sejam ativistas pró-escolha ou vítimas. A exceção de KL, cujos olhos não 

são mostrados, estão pixelados; cujo nome não é revelado. Ao não mostrar, essa imagem 

nos  mostra  mais,  se  impõe  como  presença  visual  bruta  de  uma  condição  histórica  de 

dominação  cifrada  nos  pixels  e,  também  nas  iniciais  do  nome:  a  história  de  que  a 

colonização do corpo de KL ainda persiste, afinal à KL não é seguro ou confortável se 

expor imageticamente. Tal como o persiste para outras mulheres, seja pelo Estado, pela 

religião, pela sociedade patriarcalista; esse regime de dominação é realidade presente em 

muitos  países.  Segundo  Laia  Abril  (2018),  principalmente  naqueles  de  democracias 

frágeis, com grandes desigualdades sociais.  

Não  vemos  em  definição  os  rostos  daquelas  que  foram  criminalizadas  (FIG.8), 

que vieram a óbito (FIG.11) ou que foram obrigadas pelo estado a realizar o procedimento 

abortivo como política de controle de natalidade, o caso da China (FIG.9). A opacidade 

dessas fotos cria esses rostos fantasmáticos, rostos do passado, que olhamos, mas que não 

nos retribuem o olhar. É como se essas pessoas, a diferença dos que prestaram depoimento 

para o livro (FIG.12), não pudessem se assumir como sujeitos, não são donos nem de sua 

imagem,  quanto  mais  do  seu  olhar.  Se,  esteticamente,  a  autora  impõe  a  esses  retratos 

(opacos) aquilo que o Estado e a sociedade impuseram a seus corpos, a negação de sua 

autodeterminação;  textualmente, o procedimento  é o oposto.   Laia Abril recupera suas 

histórias de vida e as traz à tona no livro, fazendo emergir do poço de esquecimentos ao 

qual a historiografia oficial as condena, por vezes como números em estatísticas oficiais; 

numa  retomada  que  não  só  presentifica  essas  histórias,  como  as  torna  gatilho  para  a 

operação artística do livro.    

De um lado, o livro nos fornece os depoimentos dos vivos; de outro, o relato da 

autora sobre cada um dos mortos. Aos vivos, a possibilidade de nos olhar diretamente nos 

olhos;  aos  mortos,  o  desfoque  e  a  impossibilidade  de  alcançá-los  totalmente.  À  KL,  o 

registro de sua impossibilidade de se determinar como sujeito no livro, de assumir seu 

nome e seu rosto. De todos, a singularidade de suas histórias e da intensidade com que a 

falta de acesso ao aborto atingiu seus corpos, sua liberdade, sua existência. 



 

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação 

42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Belém - PA – 2 a 7/09/2019

 

 



 

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FIGURA 12 – Retratos e narrativas de pessoas quanto aos efeitos da falta de acesso ao aborto em suas vidas 



FONTE - ABRIL, 2018. 

 

 Com  isso,  podemos  ratificar  que  não  vislumbramos  no  livro  a  redução 



universalista  das  abordagens  tradicionais  da  história,  cada  vida  presente  ou  passada  é 

UMA vida. Cada história contada é uma narrativa de vida. Menos homogeneizar a história 

e  as  narrativas,  a  autora  opta  pela  singularização,  por  expor  as  diferenças  com  que  a 

questão  afeta  corpos  diferentes  em  situações  de  vida  diferentes.    Esse  respeito  pelas 

diferenças faz com que as histórias dos vivos e dos mortos partilhem de um espaço de 

igualdade  no  livro.  E  tal  igualdade  se  reflete  esteticamente,  no  livro,  na  disposição 

operativa  das  imagens  e  dos  textos.  Longe  das  relações  hierárquicas  representativas, 

imagens e textos tomam posição uns diante dos outros e todos diante da história do aborto 

e das repercussões da falta de acesso. 

 

Contudo, temos uma crítica. A história contada por Laia Abril ainda é marcada 



pela ordem do esquecimento. Todos os corpos gestantes do livro são de mulheres cis, não 

vemos ou lemos casos envolvendo homens trans. Essa omissão se mostra como parte de 

um outro complexo problema de colonização dos seres humanos que é o da negação dos 

direitos das pessoas trans em igualdade com as pessoas cis. A questão do aborto poderia 

ter sido abordada no livro como uma questão de todos os corpos capazes  de realizar a 

gestação,  isto  é,  corpos  que  possuem  útero  (VALVERDE,  2018).  Sentimos  falta  das 

narrativas  de vida dos  homens trans.  Afinal, as  repercussões  da falta de  acesso  legal  e 

digno ao aborto atinge todos esses corpos. 

   




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