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   Alguns aspectos do livro ou uma segunda leitura



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Alguns aspectos do livro ou uma segunda leitura 

On  Abortion  é  um  livro em  formato  códex  e  apesar  de  este  ser  um  formato  de 

leitura  linear,  página  após  página,  da  esquerda  para  a  direita,  no  ocidente,  o  livro  se 

organiza  como  uma  ‘terra  revirada’.  Vejamos  mais  detalhadamente.  O  livro  inicia 

apresentando o depoimento de Françoise, 76 anos, ativista pró-escolha

5

 contando sobre 



seu trabalho entre 1973 e 1992, na Europa, de proporcionar a realização do aborto para 

outras  mulheres,  alguns  casos  específicos  e  as  mudanças  nas  leis  europeias.    Esse 

depoimento dá o tom do livro: depoimentos de vidas individuais que são atravessadas por 

outras  vidas,  pelos  ordenamentos  legais,  médico-sanitários  e  religiosos  a  respeito  da 

possibilidade de realizar, ou não, o aborto. Ao contar, Françoise rememora e faz viver em 

sua narrativa os eventos e pessoas que marcaram sua história. 

Na França, Itália e Espanha, as mulheres chegaram a nós com diferentes 

situações e problemas, com ou sem filhos, com ou sem dinheiro. Quem 

era  eu  para  escolher?  Decidimos  levá-las  todas,  desde  que  suas 

gestações não tivessem passado por 12 semanas. (...) Eu me lembro de 

uma garota que veio só e triste. Um amigo do anfitrião a viu e começou 

a conversar com ela. De repente ele saiu e voltou com uma rosa para 

ela (...). Depois da legalização do aborto na França em 1975, a advogada 

Gisèle  Haliminos  pediu  que  ensinássemos  outros  como  performar 

abortos (...).  Algumas  mulheres  vinham  procurar  ajuda  e  diziam:  "eu 

sou contra o aborto", perguntávamos por que elas tinham vindo, e elas 

sempre  tinham  suas  razões.  Assim  como  todos  as  outras. 

(FRANÇOISE, apud ABRIL, 2018, t.n.)  

 

FIGURA 1 – Capa e retratos de Françoise 



FONTE - ABRIL, 2018. 

                                                 

5

 Pelo direito de a mulher poder escolher se deseja continuar ou não com uma gravidez em seu corpo. 




 

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação 

42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Belém - PA – 2 a 7/09/2019

 

 



 

Na sequência, podemos ler um pequeno resumo explicativo de Laia Abril sobre a 



atuação da entrevistada e dois retratos de Françoise (FIG.1), um mais antigo e um mais 

recente feito pela fotógrafa. Após essa abertura temos a folha de rosto e na sequência uma 

série de cinco fotos de objetos usados como métodos contraceptivos ou abortivos (FIG.3). 

Todos  os  objetos  são  legendados  com  informações  textuais  sobre  seus  usos.  Vemos 

objetos do século XIX e do início do séc. XX, tais como preservativos feitos da pele da 

bexiga  de  peixe  e  do  intestino  de  ovelhas,  aparelho  de  ducha  vaginal  e  pessários.  Um 

texto  interrompe  a  sequência  e,  numa  página  dupla,  podemos  ler  o  depoimento  de 

Christian Fiala, fundador do Museu da Contracepção e Aborto de Viena, sobre o processo 

de legalização do aborto na maior parte da Europa: 

Legalizar  o  aborto  foi  o  próximo  grande  passo.  Esse  passo  havia 

começado na União Soviética em 1920, com a revolução comunista. A 

mudança  fundamental  que  tornou  possível  o  aborto  legal  foi  a 

democratização:  assim  que  eles  superaram  a  monarquia,  as  pessoas 

começaram  a  pedir  autodeterminação  na  vida.  Depois  da  Segunda 

Guerra Mundial, os países comunistas começaram a legalizar o aborto. 

Os países da Europa Ocidental começaram a seguir o exemplo nos anos 

70. (FIALA, apud ABRIL, 2018, t.n.) 

 

Passada a página, retornamos a mais uma sequência de seis outras fotos de objetos 



diversos  e uma de uma rã (FIG.2), usada entre os  anos 1930 e 1950 na verificação de 

gravidez.  Viramos a página e nos deparamos com foto e relato sobre outra ativista pró-

escolha, Margaret Sanger (1879 – 1966). Na sequência podemos ler o depoimento e vê o 

retrato  de  Rebecca  Gomperts  (FIG.4),  fundadora  e  diretora  da  organização  alemã  pró-

escolha Women on Waves (fundada em 1999). Na página seguinte vemos uma foto de um 

barco  que,  segundo  o  texto  que  legenda  a  imagem,  é  usado  pela  organização  para 

providenciar procedimentos médicos abortivos gratuitos, em águas internacionais, para 

mulheres de países em que o aborto não é permitido pelo Estado.  

 

FIGURA 2 – Rã usada como 



teste de gravidez 

FONTE - ABRIL, 2018. 

 

FIGURA 


– 

métodos 



contraceptivos ou abortivos 

FONTE - ABRIL, 2018. 

 

FIGURA 4 – Depoimento e retrato 



de Rebecca Gomperts 

FONTE - ABRIL, 2018. 

O livro todo é estruturado numa oscilação entre textos de testemunhos e relatos 

feitos pela autora, fotos de ativistas e vítimas, mulheres e homens que de alguma forma 




 

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação 

42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Belém - PA – 2 a 7/09/2019

 

 



 

tiveram suas vidas marcadas por imposições governamentais com relação a reprodução; 



bem como fotos de objetos e lugares que se relacionam de alguma forma a questão. Não 

há uma sequência linear de leitura, podemos ir e voltar entre os depoimentos e relatos. 

Longe de contar uma história universalizante sobre a questão do aborto, o livro valoriza 

a singularidade de cada história pessoal. Cada depoimento é mais um fragmento que se 

soma a outro,  como se a cada virada de página estivéssemos escavando mais e mais o 

solo de hoje e encontrando imagens e testemunhos de histórias de vida. 

O livro apresenta depoimento de oito pessoas, sete mulheres e um homem, que 

fala por sua esposa morta, sobre o impacto da proibição do aborto em suas vidas. Além 

do retrato da testemunha, os textos são entrecortados por fotos de lugares e objetos que 

fizeram parte dos eventos narrados.  Um dos depoimentos é o do Justyna, 40, Polônia. 

Ela conta que já era mãe de três filhos quando tomou a decisão de realizar um aborto e 

que tal decisão tornou ela uma pessoa diferente, ela se sentiu enfim capaz de tomar as 

próprias decisões sobre sua vida:  

Hoje eu dirijo um fórum oferecendo informações e apoio a mulheres 

polonesas que estão procurando por aborto. Nós recentemente tivemos 

problemas com a polícia, que pediu informações sobre uma usuária do 

fórum  que  estava  supostamente  grávida  de  17  semanas.  Nós 

derrubamos o site. Eu também dirijo uma linha direta anônima, na qual 

mulheres  podem  ligar  antes  de  tomar  as  pílulas  abortivas  para  se 

assegurar de que elas estão fazendo a coisa certa. Eu recebo em média 

cinco  ligações  por  dia  e  os  dias  mais  cheios  são  segundas  e  sextas. 

(JUSTYNA, apud ABRIL, 2018, t.n.) 

 

Dos  oito  retratos,  o  único  em  que  não  podemos  ver  o  rosto  da  testemunha 



totalmente, os olhos são vendados por uma faixa pixelada (FIG.12), é o de KL (supomos 

que sejam as iniciais do nome), 32, Peru. KL foi obrigada, aos 17 anos, pelo governo de 

seu  país  a  parir  um  bebê  anencefálico,  ela  ainda  chegou  a  amamentá-lo  por  três  dias, 

quando o bebê veio a óbito. Na sequência do testemunho de KL, na página seguinte, em 

um papel brilhoso, podemos ler pequeno relato escrito pela autora relacionado a imagem 

que vemos na página posterior, duas imagens de um ultrassom (FIG.5): 

(próxima página) MÃE AOS NOVE ANOS DE IDADE. 

Em  novembro  de  2015,  Inocencia,  9  anos,  deu  nascimento  a  um  bebê  na 

Nicaragua.  Ele  era  filho  de  seu  pai  biológico,  que  a  estuprou  repetidamente 

desde  a  idade  dos  7  anos.  Muitos  países,  incluindo  Paraguai,  Guatemala, 

Honduras,  Venezuela,  Somalia,  Congo,  Egito,  Irã  e  Líbano  não  consideram 

estupro uma razão legítima para o aborto e permitem aborto apenas em caso 

de  risco  de  vida  para  a  mãe.  Mais  rigorosos  ainda,  Nicaragua,  El  Salvador, 

República Dominicana, Malta e o Vaticano são as cinco nações do mundo onde 

o aborto é proibido sob qualquer circunstância. (ABRIL, 2018, t.n.) 



 

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação 

42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Belém - PA – 2 a 7/09/2019

 

 



 

FIGURA 5 – Ultrassom do feto 



FONTE - ABRIL, 

2018.


 

 

 



FIGURA 6 – Cabide e texto explicativo 

FONTE - ABRIL, 

2018.

 

Ao longo do livro vemos fotos de objetos e lugares que aparentemente nada dizem, 



como a foto de um cabide (FIG. 6). Mas, ao virar a página, percebemos que a mesma tem 

um  tamanho diferenciado devido  a um  corte  e no seu verso  é possível  ler sobre o uso 

daquele objeto como método abortivo. Já chegando próximo ao meio do livro, Laia Abril 

vai abordar o terrorismo anti-aborto, focando principalmente em casos norte-americanos. 

Nos EUA o aborto foi legalizado em 1973 e desde então extremistas têm cometidos atos 

de terrorismo anti-aborto. Podemos ver no livro tanto cartazes de “Procurado” feitos por 

extremistas denunciando médicos por performar abortos e ao mesmo tempo incitando a 

violência contra esses profissionais; quanto cartazes de “Procurado pelo FBI” com fotos 

de extremistas anti-aborto procurados pela polícia em virtude de crimes cometidos. 

 

  



Interrompendo o embate de cartazes, temos quatro páginas em que podemos ver 

frames  de  vídeos  televisivos  legendados  (FIG.7).  Em  um  deles  é  possível  ler:  “toda 

punição para o aborto: sim ou não é um princípio e a resposta é que tem que haver alguma 

forma de punição”. O texto fica sobre a imagem, o que nos transmite a impressão de ser 

a fala daquele que vemos na imagem; neste caso, Donald Trump, o atual presidente dos 

EUA. Ainda nesta página-dupla, do lado esquerdo, podemos ler o texto explicativo: 

FEMINAZI.  

O termo “feminazi”  foi cunhado pelo radialista politicamente conservador e 

opositor ao aborto Rush Limbaugh. Em seu livro de 1992,  O modo como as 




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