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2. 

Uma prática política da história 

O  passado  é  fundamental  para  a  autonomia  e  autodeterminação  das  mulheres. 

Contudo,  não  basta  o  mero  deslocamento  de  uma  visão  histórica  a  partir  de  um  outro 

ponto  de  vista  e  a  crítica  às  formas  sucessivas  de  opressão  social,  é  preciso  mais. 

Cusicanqui (1987) fala de uma radical transformação da história. Se a história normativa 

adquire uma forma pretensamente hegemônica e universal, a história das mulheres deve 

respeitar e compreender as diferenças existentes entre as mulheres, isto, é deve levar em 

conta as singularidades de suas vidas, de seus corpos, de suas narrativas. 

A socióloga menciona alguns métodos de investigação histórica que podem nos 

ser útil para compreender mais adiante as estratégias políticas de On Abortion: a coleta 

de testemunhos como uma forma de transpor os vazios comunicacionais e a reconstrução 

histórica atenta às percepções internas das testemunhas, isto é, sua visão da história. Para 

a  autora,  dessa  forma  “não  apenas  se  fundamenta  uma  posição  crítica  frente  à 

historiografia  oficial,  senão  que  se  descobre  a  existência  de  racionalidades  históricas 

diversas,  que  cumprem  funções  legitimadoras  das  respectivas  posições  em  conflito” 

(CUSICANQUI, 1987). 

A  radical  transformação  da  história,  defendida  por  Cusicanqui,  é  também 

defendida  por  Walter  Benjamin.  O  filósofo  vê  a  prática  da  história  como  redentora  e 

revolucionária (GAGNEBIN, 2013, p.1). Redentora porque capaz de resgatar do passado 

os futuros que não foram realizados, que foram sufocados pela dominação social, pela 

política  do  silenciamento  e  do  esquecimento.  Revolucionária  porque  ao  realizar  esse 

resgate, ao tornar novamente vivos esses desejos  de futuro, pode modificar o curso do 

presente. O futuro do passado pode deixar de ser desejo e passar a ser ação política no 

agora.  E  aqui  entendemos  a  política  no  sentido  de  uma  reconfiguração  da  partilha  do 

mundo  sensível  capaz  de  fazer  justiça  social  (RANCIÈRE,  2012,  p.121).  No  caso 



 

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação 

42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Belém - PA – 2 a 7/09/2019

 

 



 

específico, propondo a liberdade de direito e de fato aos corpos gestantes.  Uma prática 



política da história, desse modo, pode ser capaz de retirar do poço do esquecimento os 

desejos dos vencidos, dos oprimidos e com isso libertar esses desejos, dá-lhes uma nova 

chance de realização no hoje. É uma prática que vai ao passado, mas sem esquecer do 

momento presente. 

Articular o passado historicamente não significa conhecê-lo ‘tal como 

ele propriamente foi’. Significa apoderar-se de uma lembrança na forma 

tal como  ela  cintila  num  instante  de  perigo.  Importa  ao  materialismo 

histórico  reter  firmemente  uma  imagem  do  passado,  como  ela 

inadvertida de se coloca para o sujeito histórico no momento do perigo. 

O perigo ameaça tanto o conteúdo dado da tradição quanto aqueles que 

a  recebem.  Para  ambos  é  um  só  e  mesmo  perigo.  Em  cada  época,  é 

preciso tentar arrancar a transmissão da tradição ao conformismo que 

está  sempre  na  iminência  de  subjugá-la.  Pois  o  Messias  não  vem 

somente como redentor; ele vem como vencedor do Anticristo. Só ao 

historiador que está perpassado por essa convicção é ínsito o dom de 

atear no passado a centelha da esperança: também os mortos não estarão 

seguros diante do inimigo, se ele for vitorioso. Esse inimigo não tem 

cessado de vencer (BENJAMIN, 2012, Tese VI, p.243 – 244). 

 

A  recuperação  dos  desejos  de  igualdade,  latentes  nas  narrativas  dos  oprimidos, 



alimenta a salvação. Esta, portanto, e aqui retomamos tanto Benjamin como Cusicanqui, 

não é matéria de futuro e sim de ação sobre uma história que se desenvolve agora. Não 

se trata, portanto, de uma salvação utópica, mas de uma ação política, de uma ação que 

reconfigura a partilha do mundo sensível no seu próprio ato.  Enquanto Cusicanqui aponta 

como método dessa prática da história a coleta de testemunhos e a atenção às percepções 

internas de cada uma das testemunhas; Benjamin é mais abrangente e aponta a coleta de 

fragmentos do mundo. Segundo a professora Jeanne Marie Gagnebin (2018, p.73), leitora 

de Benjamin, para o filósofo: “o mundo está em pedaços e a história se assemelha a um 

‘amontoado de ruínas’. A salvação não consiste em uma recriação inteiramente nova, mas 

em um longo e paciente recolhimento desses pedaços perdidos e dispersos”. 

Os testemunhos e os fragmentos do que foi trazem em si não apenas as marcas de 

suas dores (no caso das pessoas), de seus usos (no caso dos objetos), mas, como dissemos, 

os desejos do que poderia ter sido diferente. A coleta não tem por fim a coleção ou a mera 

observação, mas sim a reconfiguração narrativa, o ato de (re)contar a história de outra 

forma, de se  (re)criar outras  narrativas e outros sentidos, que façam  jus  aos mortos  do 

passado e aos vivos do presente.  

Evidentemente  que  os  testemunhos  e  fragmentos  de  que  falam  Cusicanqui  e 

Benjamin,  dificilmente  serão  encontrados  nos  livros  de  história  oficiais.  Aliás,  é  bom 




 

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação 

42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Belém - PA – 2 a 7/09/2019

 

 



 

reforçar que a concepção de história desses dois autores passa longe de uma concepção 



de “continuidade/unicidade temporal” (SALOMON, 2018, p.19) ou totalitária da história. 

Ambos criticam uma certa historiografia dita tradicional, moderna, calcada no triunfo de 

alguma forma de dominação social. Contra as narrativas de dominação e sua ilusão de 

totalidade  histórica,  se  colocam  as  práticas  políticas  da  história  de  descolonização  dos 

imaginários,  das  formas  de  representação  e  de  reconfiguração  das  narrativas.  Vejamos 

como tal se dá em On Abortion

 




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