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1. 

Introdução 

O fotolivro On Abortion and the repercussions of lack of access



3

  (2018) de Laia 

Abril  é  o  primeiro  capítulo  de  um  projeto  maior,  de  longo  prazo,  chamado  History  of 

Misoginy

4

  ,  uma  pesquisa  visual  levada  pela  fotógrafa  através  da  história  por  meio  de 

objetos,  lugares,  pessoas,  depoimentos,  fatos,  imagens  do  passado  e  contemporâneas. 

Numa primeira leitura, notamos que a autora assume, de modo implícito em sua obra, a 

posição  política  de  que  o  aborto  é  um  direito  humano.  No  livro  não  se  discute  em 

momento  algum  se  mulheres  devem  ter  ou  não  o  direito  de  abortar.  Se  decisões  que 

implicam os corpos das mulheres pertencem a elas (às mulheres) ou se devem estar sob 

uma tutela político-religiosa do Estado, por exemplo. O livro não enfatiza as causas que 

levaram  tais  ou  quais  mulheres  a  realizar  o  procedimento  abortivo,  tampouco  realiza 

julgamentos morais ou religiosos sobre as decisões de tais mulheres; parece estar mais 

interessado em trazer à tona as histórias que são silenciadas, ou não escutadas, os efeitos 

da proibição do aborto nos corpos das mulheres.  

A  socióloga  Silvia  Cusicanqui  (2006,  p.3),  no  contexto  da  contemporaneidade 

indígena  boliviana,  diz  que  a  “autodeterminação  política  e  religiosa  significava  uma 

retomada da historicidade própria, uma descolonização dos imaginários e das formas de 

                                                 

1

  Trabalho  apresentado  no  GP  Fotografia,  XIX  Encontro  dos  Grupos  de  Pesquisas  em  Comunicação,  evento 



componente do 42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. 

2

 Mestre do curso de Comunicação da UFPE, e-mail: 



marinafeldhues@gmail.com

3



 Sobre o aborto e as repercussões da falta de acesso (t.n.). 

4

 História da Misoginia (t.n.).



 


 

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação 

42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Belém - PA – 2 a 7/09/2019

 

 



 

representação”. Para a autora, as elites culturais procuram impor uma visão da história 



como  linear  e  teleológica,  enquanto  na  visão  indígena  a  história  não  é  concebida 

linearmente: 

O  passado  e  o  futuro  estão  contidos  no  presente:  a  regressão  ou  a 

progressão, a repetição, ou a superação do passado estão em jogo em 

cada  conjuntura  e  dependem  de  nossos  atos  mais  do  que  de  nossas 

palavras. O projeto de modernidade indígena poderá aflorar a partir do 

presente, numa espiral cujo movimento é um contínuo retroalimentar-

se  do  passado  sobre  o  futuro,  um  ‘princípio  de  esperança’  ou 

‘consciência  antecipante’  (Bloch,  1971)  que  vislumbra  a 

descolonização  e  a  realiza  ao  mesmo  tempo.  (CUSICANQUI,  2006, 

p.4) 

 

Para  a  autora,  no  presente  estão  postas  todas  as  possibilidades  de  futuro.  É  no 



presente  que  se  dá  o  embate  de  tempos,  que  se  escrutina  o  passado  em  vista  de  uma 

escolha de futuro ou de realizar aquele futuro que o passado não conseguiu. No presente, 

todas as estratégias estão em jogo, algumas arcaicas e conservadoras, pretendem manter 

status quo daqueles que são privilegiados, dos que usam do poder político, econômico 

e religioso para exercer o domínio e a colonização de outros corpos. Outras, chamadas 

pela  autora  de  “modernizadoras”  lutam  contra  essa  conservação  dos  privilégios  do 

passado,  procuram  a  descolonização  e  a  igualdade  dos  corpos  na  sociedade 

(CUSICANQUI, 2006).  

Por sua vez, o filósofo Jacques  Rancière (2012, p.121), no contexto do estudos 

cinematográficos, diz que a política pode aparecer num filme em dois sentidos diferentes 

e complementares. Primeiro, no sentido de ser “aquilo de que trata um filme - a história 

de um movimento, ou de um conflito, a revelação de uma situação de sofrimento ou de 

injustiça”.  Segundo,  como  uma  “estratégia  própria  da  operação  artística”,  isto  é  uma 

reconfiguração espaço-temporal que acelera ou retarda o tempo, que desvia elementos de 

suas funções normativas, que escolhe o que vem antes e o que vem depois, que aproxima 

ou distancia, que diminui ou amplia, entre outras operações estéticas configuram a forma 

do filme. Em resumo, para o autor, nos filmes, a política é “a relação entre uma questão 

de justiça e uma prática de justeza”. 

Nos apropriamos do conceito de “política” (pensado por Rancière para os filmes) 

e de “retomada da historicidade” (desenvolvido por Cusicanqui) para pensar a lógica das 

operações artísticas do fotolivro aqui em questão. Cusicanqui (2006) nos lembra que as 

histórias que não são contadas, que são silenciadas, não escutadas, ou invisibilizadas por 

um sistema dominação social, nem por isso deixam de existir. Torná-las visíveis, ou fazer 



 

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação 

42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Belém - PA – 2 a 7/09/2019

 

 



 

com que sejam escutadas é uma prática política, pois reconfigura uma partilha do sensível 



- do que é visível, dizível (Rancière, 2009) e, seguindo as lições de Cusicanqui (2006), 

escutável. Nossa hipótese é de que, em On Abortion, a política é uma prática de justiça, 

de  uma  retomada  da  historicidade  do  aborto  focada  na  autodeterminação  do  corpo  da 

mulher, e uma operação de justeza, de encontrar a configuração estética mais adequada à 

realização da justiça no livro. Dito isso, avancemos na compreensão das relações entre 

política (como fazer justiça) e a retomada do que deve ser considerado como histórico.  






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