Oscar e lina: dois olhares sobre o brasil


Um novo caminho – A mão do povo brasileiro



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Um novo caminho – A mão do povo brasileiro

A partir de 1959, após o contato de Lina com a Bahia sua arquitetura começa a tomar contornos mais áridos, talvez gestado em seu contato com a “arte popular” baiana, principalmente a do sertão. Lina quando chega ao Brasil tomara contato com a arquitetura brasileira e se influencia ao passo que também traz na bagagem a contribuição da arquitetura italiana principalmente de Gio Ponti. Seus trabalhos após sua chegada é carregada de sutileza e poética advindo obviamente da mesma matriz da arquitetura brasileira e italiana: de Le Corbusier e também do sumo sacerdote da Bauhaus Mies Van der Rohe. Sobre a influência do primeiro, podemos encontrar exemplificado no projeto dos Diários Associados (1947) e Taba Guaianases (1951). Sobre a segunda influência poderíamos colocar a Casa de Vidro (1951), Museu à Beira do Oceano (1951) e obviamente o MASP (1957 a 1968).

Após este período podemos falar que sua arquitetura sofre de mutação visível àqueles acostumados à sua obra. Primeiramente o Solar do Unhão (1959) que já emite traços de uma mudança, a começar pela proposta de implantação e intervenção interna, com sua magnífica escada. Nas casas também vemos estes sinais, como o projeto de Mario Cravo e Chame Chame (1958), exposições Bahia no Ibirapuera (1959) e Nordeste no Solar do Unhão (1963). Por fim o contato com as cenografias de peças de teatro, onde talvez seja seu ultimo laboratório como Ópera dos Três Tostões (1960) e Calígula (1961). O ápice desta nova estética e novo caminho para uma arquitetura brasileira , talvez seja o SESC Pompéia (1979 a 1986). Ela que contou com a assessoria de Marcelo Ferraz, Marcelo Suzuki e André Vainer, chega à quintessência de uma novo rumo hoje facilmente identificável, mas que na época gerou polêmica e preconceitos.

O SESC se apresenta como um prédio onde se exala de forma límpida todos os conceitos de apropriação colocados por Lina. Primeiramente o respeito pela memória da antiga fábrica de tambores da Lapa, mas não um respeito normalmente proposto pelo IPHAN, de preservação total e de visão historicista clássica, mas de uma aproximação cirúrgica e ousada, na intenção de transformar os valores nele contidos, que exponencializados, se transforma numa arquitetura mais humanista e libertária.

A brutalidade poética desta nova arquitetura se confirma como um mandacaru no sertão, duro mas igualmente belo e Lina por sua vez se aproxima de uma outra beleza, uma poesia que se consagra vindo do magma do povo do brasileiro, se distanciando cada vez mais da beleza clássica que varreu e ainda varre a arquitetura ocidental e parte da oriental ainda hoje.

Se na arquitetura clássica Vitruvius já havia identificado o belo nas colunas gregas relacionando com as possíveis formas e valores dos deuses, isto é, de forma idílica quase, Lina faz o contrário com esta estética. Ela propõe uma descida às questões mais mundanas dos seres humanos e as realça num caráter digno. A mão do povo brasileiro está contida em sua nova proposta, é dela que sai o insumo desta nova proposta: é da lama que um Chico, o Science propõe sua Mangue Beat, sendo da mesma esfera, da rudeza, da crueza ríspida e não obstante, libertadora. Mas para isso é preciso sujar as mãos e dar a cara, e quem está disposto?

Obviamente esta nova visão de uma arquitetura esbarrou e esbarra ainda num preconceito. Cada vez mais os prédios de Lina e suas propostas sofrem com desaprovações e apenas algumas poucas e boas características são adotadas, mas nunca publicamente reveladas. A ordem clássica volta e meia se impõe como ondas que destroem rochas.

Se hoje temos um design brasileiro e uma arte que impõe respeito no mundo ele é filho bastardo desta proposta, como vemos na obra dos irmãos Campana, que até certo ponto esvaziaram o conteúdo polêmico, criando uma estética do “anti-design”. Vic Muniz trabalha no mesmo sentido, mas talvez sendo mais contundente nas posições do “ser brasileiro” visto que expatriado no período em que desenvolveu seu trabalho, e assim tenha entendido o sentido cultural de nossa “ação” no exterior. Todos são válidos, refletem nossa condição cultural. São facetas da mesma proposta, que não possui visão absoluta, mas Lina fora pioneira e ao desbravar este conflito, foi talvez quem mais tocou no ponto e o fez com maior precisão.

Trabalhamos no existencialismo de dignificar utensílios, brinquedos e roupas por uma não aceitação das coisas tal como ela se impõe--da tal beleza clássica, cartesiana da “ordem”. Ora se no sertão nem Deus põe ordem, como dizia o personagem de Guimarães Rosa, é neste caos que se deve criar o belo e Lina vislumbrou isso: não só no sertão, mas no serrado também, na imigração italiana de um bairro paulistano, enfim é um fator que se mostra em todos seus projetos maduros.

Mas, se afastar dessa beleza clássica teve um custo a Lina, que em vida, a não ser por alguns poucos rebeldes, viveu a total não aceitação de suas idéias. Os bastidores da política e da arquitetura seja ela carioca ou paulista, fizeram tanto que ela pouco antes da morte achava que estas idéias iam cair no vazio. Após sua volta à Bahia na década de 80, ela chega a “entregar os pontos”. Ir contra a maré de uma arquitetura que a muito custo conseguiu seu respeito no mundo seria o maior crime que poderia cometer, e cometeu! O próprio cardeal não se ressente em conviver com outras arquiteturas, mas os apóstolos sim e são estes missionários que entram em confronto. Quando não sentia a resistência nua e crua no rosto, havia o silêncio do esquecimento. Mas às vezes vemos que em algum canto do Brasil, ou numa banda de rock, ou num artista plástico percebemos ecos destes ensinamentos, mesmo que não seja de forma direta... Mas não existe reconhecimento maior, pois as idéias são eternas e elas sim, caso tenham consistência, possuem poder de reverberação, mesmo que nos guetos mais escondidos do país.






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