Oscar e lina: dois olhares sobre o brasil



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Brasília – 1956 a 1960

Como descrito acima Brasília fora a “Meta Síntese” de Juscelino. Nela resumia todo esforço de uma nação ansiosa em sair do subdesenvolvimento.

Sabemos, ou melhor, especula-se que Brasília é uma idéia vinda de tempos remotos, talvez por Marquês de Pombal nos fins do século XVII, passando por William Pitt, primeiro ministro do Reino Unido em 1809 logo após a chegada da família real no país; ela chega até José Bonifácio em 1821 tendo a sua formalização escrita na constituição de 1891, logo após a proclamação da republica. Independente da veracidade de todas as evidencias históricas, o que mais se exalta neste longo processo é o anseio da interiorização da capital federal. Seja por questões de defesa nacional, ou por questões sociais, levar o Brasil ao interior , tendo em vista que grande parte de sua ocupação se fazia mais facilmente no litoral do país, era um desejo antigo.

Juscelino possuía seu Michelangelo—Oscar Niemayer, desde os tempos de prefeito de Belo Horizonte e nele se apóia para coordenação da empreitada ; e nas as questões pragmáticas, Israel Pinheiro como administrador da mesma.

Lucio Costa fora o grande idealizador do Plano Piloto, vencido num concurso. Com seu majestoso croquis em forma de avião e cruz sintetiza valores da ação. Se por um lado o avião representava o máximo do desenvolvimento, da tecnologia, do avanço de uma sociedade, por outro, a cruz representa a posse da terra, a demarcação de se posicionar frente a novos tempos.

Mas no contexto da dissertação, o mais importante seria analisar Brasília como símbolo, como matriz de um raciocínio e o que ela nos representa como ideologia de uma intenção. Esta idéia toma força e emerge principalmente pela ação de dois ótimos articuladores que há duas décadas haviam escandalizados o mundo, Oscar e Lucio.

Se Lucio como o próprio se define seria o pé na tradição e a transição para modernidade, Oscar seria o arauto máximo de nossa criatividade. E foi através destes dois personagens que Brasília se inscreve num capítulo do século XX no mundo. Lucio trazia nas superquadras residenciais os valores da urbanização corbusiana, mas injetava traços de nossa tradição colonial. Se por um lado os edifícios residenciais possuíam um gabarito baixo e restritivo, advindo muito do Plano Haussman para Paris e uma ocupação horizontal que não concorresse com os edifícios públicos, Lucio também traz a relação edifício e área externa das casas geminadas de Diamantina e de outras cidades históricas, onde como ele mesmo exemplificava: a mãe no ultimo andar de um prédio poderia “ficar de olho” no filho que brinca tranquilamente na área externa.

Brasília fora também o ponto alto de nossa arquitetura moderna. Fora o pico de nossa exuberante arquitetura e também o começo do declínio de uma manifestação que não se sustentou após este evento. Para os críticos, Brasília resume o que há de melhor e pior na arquitetura de Oscar Niemeyer e conseqüentemente brasileira, tendo em vista que o arquiteto sempre simbolizara o nosso movimento como um todo.

Se por um lado o nosso arquiteto se apresenta com uma criatividade fenomenal e pujante, por outro ele reafirma posições altamente questionáveis. Conseguimos ver nos palácios do Alvorada, no Itamaty, no Planalto e no Congresso toda sua inventividade, mas também constatamos a influência de sua arquitetura em conceitos corbusianos de belas artes francesas e clássicas. Em muitos edifícios nota-se a influência da arquitetura grega do Pathernon com suas colunatas externas e exuberantes, assim como a influência da arquitetura colonial com seus grandes beirais a se lançar sobre os alpendres, contendo a insolação dos trópicos, principalmente de uma cidade quente e seca do serrado como Brasilia.

Por outro lado, a monumentalidade e a necessidade de se abraçar a uma arquitetura do espetáculo, colocam em xeque a real postura até certo ponto questionável para um Brasil subdesenvolvido. Seria como maquiar e se apresentar ao mundo tão ou mais moderno que a “velha Europa”. Seria a prepotência do adolescente talentoso insolente que necessita se provar ao pai, ou seria a ingenuidade de uma nação com baixa auto-estima que necessariamente precisa se mostrar igual, ou ainda, um país que sem nenhum compromisso com o passado a se apresentar como “bem quer” ao futuro? Um pouco de tudo. Naquele momento como hoje (em menor escala) o brasileiro sempre teve a famosa “síndrome de vira lata”, termo cunhado por Nelson Rodrigues. Se Gilberto Freire nos livra desta patologia com Casa Grande & Senzala em 1933, nós mestiços ainda nos sentíamos presos a olhares discriminantes do velho continente. Através do grande arquiteto Abraão Sanovicz, entendi o fascínio que Lina possuía pelo brasileiro. Ela disse a ele em 1959 na FAU (que me contou quarenta anos depois na mesma instituição), que sentia grande inveja dos brasileiros, que aqui tudo era possível fazer, diferentemente da Itália. Não tínhamos as amarras do peso histórico, uma tradição como impedimento, assim como também tínhamos tudo por fazer, uma história a começar e o fazíamos barbaramente sob uma ótica européia. Rompemos tranquilamente com a esquizofrenia européia que sempre fora salva por “países bárbaros / exóticos”, sejam as pinturas japonesas que embasbacaram os impressionistas franceses no final do século XIX, ou a máscara africana que impulsionou o cubismo de Picasso e Braque. Eram as civilizações bárbaras, as que salvavam a Europa do beco sem saída da mentalidade cristalizada e antiga.

O mais interessante a notar é que a cada dia, sentimos que os prédios de Brasília pertencem mais a Oscar que ao povo brasileiro. O sentimento de pertencimento a um local como Brasília nunca se manifestou de forma plena, seja pelos cidadãos brasilienses, seja por brasileiros de toda a parte. Muitos poderiam justificar que a cidade famosa pela corrupção, por não ter esquinas, por ser sede do que há de pior no brasileiro, dificultaram este sentimento de pertencimento. Mas não creio que um cristão não se seduza pelos famosos templos mouros de Granada ou um mulçumano pela capela Sistina e não sinta que, embora sejamos povos diferentes, a sensação de dignidade humana sensivelmente se aflora nestes locais. Brasília ainda hoje não manifesta este tipo de sentimento.




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