Os Temas em Galego do Romanceiro Tradicional da Galiza



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Os Temas em Galego do Romanceiro Tradicional da Galiza



José Luís Forneiro Pérez*
O silêncio das letras galegas desde a Idade Média até ao Ressurdimento oitocencista fez com que os historiadores da literatura na Galiza se perguntassem na segunda metade do séc. XIX e durante o séc. XX que se deve entender por literatura galega; em 1963 Ricardo Carvalho Calero na sua clássica Historia da literatura galega contemporánea definiu-a como a literatura composta em galego. Deste modo, prescindia-se das obras em língua castelhana de autores nascidos na Galiza como Emilia Pardo Bazán, Ramón María del Valle Inclán, Wenceslao Fernández Flórez, Camilo José Cela ou Gonzalo Torrente Ballester; em troca, incluíam-se composições em galego de escritores de fora como os andaluzes Federico García Lorca ou Juan Pérez Creus ou o catalão Carles Riba. Porém, há quem considere com base nesse critério linguístico que estes autores não-galegos não deveriam fazer parte da literatura galega, devido à sua produção na língua da Galiza ser de circunstância. Nos últimos tempos, dois professores da Universidade de Santiago, Antón Figueroa e Elias Torres, têm posto em causa que a língua defina necessariamente o que se deve entender por literatura galega: para Figueroa esta “sería aquela que se escribe e le, é dicir, aquela na que a ficción se constrúe a partir de redes culturais e de experiencia galegas, con modos de entender o mundo galegos”;1 para Torres algumas das obras compostas em galego no séc. XIX ou nas primeiras décadas do séc. XX, como a produção do escritor ourensano Lamas Carvajal (director do primeiro jornal em língua galega O Tío Marcos da Portela), fariam parte do sistema literário espanhol (seriam obras “regionais”), enquanto que outras obras escritas, nessa altura, em castelhano e que propunham um sistema literário galego independente do espanhol, seriam mais plenamente galegas.2

No estudo da literatura popular, oral, tradicional, o critério linguístico tem impedido na Galiza de compreender a personalidade de um dos acervos literários folclóricos mais ricos do mundo pan-ibérico, devido ao aparecimento da língua castelhana em muitos textos da tradição oral. Pensamos que a incompreensão deste facto se deve fundamentalmente aos seguintes factores:

a) A mitificação romântica dos camponeses como depositários do ser nacional. Segundo esta ideia a população camponesa viveu isolada durante séculos preservando, assim, a essência nacional, nomeadamente a língua. Mas a verdade é que desde finais da Idade Média até hoje as comunidades orgânicas galegas não só receberam influências de todo o tipo das camadas favorecidas do país, como também estiveram em contacto com as classes populares do centro da Península.

b) O celtismo ou o lusismo das classes populares galegas. Como as camadas urbanas galegas estavam mergulhadas na cultura espanhola, os camponeses no seu isolamento mantiveram o espírito diferenciador da nação galega: “celta” para a intelligentsia galeguista do séc. XIX e “galaico-português” para a tradição central do nacionalismo do nosso século. O celtismo do povo galego tem perdido protagonismo no discurso nacionalista galego até chegar a carecer de validade em determinados âmbitos da “comunidade galeguista”; de qualquer modo, não desapareceu totalmente na teoria da nação galega. Porém, o “lusitanismo” dos camponeses galegos tem de maior acolhimento gozado nas últimas décadas: a indubitável pertença das falas autóctones da Galiza ao sistema linguístico ibero-românico ocidental (defendida pela filologia românica e por parte da filologia galega) e a existência de uma lírica galego-portuguesa medieval comum têm feito com que se extrapole aplicando ambos os factos à literatura das camadas populares da Galiza e de Portugal. Mas, embora o acervo literário folclórico de ambos os povos compartilhe não poucos aspectos, noutros, no entanto, oferece realidades diferentes, ou porque na Galiza aparecem traços desconhecidos em Portugal e vice-versa, ou porque cada um destes povos partilha com outras comunidades peninsulares saberes desconhecidos aquém ou além Minho.

c) O excessivo respeito reverencial pelos predecessores. Um dos empecilhos que têm impedido o desenvolvimento normal da cultura galega em todos os âmbitos é a ausência de crítica. O critério de se medir a qualidade científica ou literária de uma obra pelo seu espírito diferenciador ou pelo amor ao país mantém a cultura na Galiza num estado de contínua imaturidade; no estudo da literatura de tradição oral, como se não conseguiu contextualizar o trabalho dos antecessores (com as suas teorias celtistas, textos retocados e invenções), a sua intocabilidade tem como resultado a ausência de trabalhos científicos neste campo, ou a manutenção, em não poucos casos, de teses oitocentistas totalmente ultrapassadas noutras culturas.

Por tudo isto não admira que o romanceiro de tradição oral da Galiza, de origem castelhana e em grande parte conservador do castelhanismo linguístico originário, fosse falsificado ou ocultado por muitos dos seus estudiosos galeguistas. A manipulação e/ou a ocultação do castelhanismo do romanceiro galego, que teoricamente poria em causa a caracterização diferenciadora da Galiza feita pelo Ressurdimento romântico, e que ainda hoje em grande parte vigora, tem empobrecido a cultura galega contemporânea, ao prescindir de um facto literário de grande riqueza como é a sua canção narrativa tradicional, que, por outro lado, é tão interessante pelas suas implicações filológicas, sócio-linguísticas, históricas e antropológicas.

Na nossa tese de doutoramento tratámos dos diversos aspectos sincrónicos e diacrónicos ligados à personalidade do romanceiro tradicional na Galiza.3 Um dos nossos contributos foi classificar linguisticamente os mais de 160 temas romancísticos4 que se têm recolhido em terras galegas segundo o monolinguismo ou o bilinguismo que apresentavam. Comprovámos que a imensa maioria dos romances obtidos na Galiza são bilingues em maior ou menor grau, e dividimos os temas linguisticamente mistos em quatro grupos, sendo os dois primeiros os mais frequentes: temas em que aparecem escassos galeguismos dispersos, temas com versos ou partes galeguizadas, temas de língua "híbrida" e temas com grandes contrastes.

Os temas monolingues em castelhano ou em galego são, portanto, minoritários no romanceiro galego e esta reduzida presença revela o seu carácter marginal. Apenas dez temas (três folclóricos, dois líricos, um burlesco, dois infantis e dois vulgares) não apresentam nenhum traço da língua autóctone da Galiza. Esta pureza linguística, assim como a sua raridade na tradição oral galega (de facto, esses temas estão atestados por poucas versões ou mesmo por um único texto) revelam uma trasmissão em terras galaicas tardia e superficial. Não é por acaso que alguns destes temas são vulgares (em princípio os últimos que se incorporaram ao acervo literário popular) ou infantis, os quais, como é sabido, se caracterizam pela sua deficiente tradicionalidade uma vez que o contexto folclórico fossilizou e uniformizou os textos impedindo ou dificultando a variabilidade discursiva própria do texto tradicional que também facilita a entrada da fala quotidiana nos poemas.

Os romances em língua galega não apresentam, porém, uma pureza linguística absoluta, e, além disso, tal como os temas em castelhano sem interferências, são muito raros e partilham com estes a sua marginalidade no romanceiro tradicional da Galiza. Os únicos títulos de Os romances tradicionais de Galicia. Catálogo exemplificado dos seus textos cujas versões estão todas em língua galega são os romances carolíngios Morte de D. Beltrão (duas versões) e Floresvento (um fragmento de quatro versos), o tema cavalheiresco Virgílios (uma versão fragmentária), os romances novelescos Conde da Alemanha (uma versão) e A Devota Caluniada (uma versão), o romance lírico A Bela na Missa (uma versão pura), o tema folclórico A Pastora Experimentada pelo Irmão, os romances burlescos Maravilhas do Meu Velho (uma versão), A Devota do Frade (uma versão fragmentária) e O Gato do Convento, e o tema religioso A Fortuna da Samaritana (uma versão).

Segundo o critério dominante na filologia e na cultura galega contemporâneas estes dez temas seriam, independentemente de outros factores, as autênticas amostras da canção narrativa tradicional galega por estarem expressos na língua do país.5 Todavia, como veremos mais à frente, estes textos mostram uma realidade bem diferente da postulada desde o século XIX sobre a cultura popular galega.

Para já, alguns destes temas foram traduzidos ou retocados pelo seu colector, Víctor Said Armesto, um dos vultos mais interessantes que deu a Galiza do XIX. Na nossa opinião, tanto o Conde de Alemanha como A Fortuna da Samaritana não foram obtidos da tradição oral pelo erudito pontevedrense. O primeiro destes romances não passa de um “arranjo à galega” deste tema tão conhecido em Portugal.6 Quanto à Fortuna da Samaritana, a sua falsidade é evidenciada pelo facto de, sendo embora um tema religioso, estar quase totalmente em galego (embora apresente alguns castelhanismos próprios do galego coloquial como “Jesucristo” ou “bautismo”), quando se sabe que o romanceiro devoto raramente incorporou aos textos a língua autóctone, o que demonstra o papel castelhanizador da Igreja na Galiza moderna e contemporânea. Uma outra razão para considerar falso este tema é tratar-se ele de uma versão “transmitida” pela mendiga Lucía Domínguez (de Cerdedo, Pontevedra), uma informante, em nosso entender, inventada por Said, a quem ele atribuiu versões elaboradas a partir dos textos que obteve da tradição oral galega. Nos materiais romancísticos do espólio de Said Armesto (depositado na Fundación Pedro Barrié de la Maza, da Corunha)7 não constam as notas de campo nem do Conde de Alemanha nem de nenhuma das versões muito galeguizadas de Lucía Domínguez.8

Pelo contrário, no espólio de Víctor Said encontram-se as cópias de campo de A Devota Caluniada de Asneiros (Piñor) e da Bela na Missa obtida em Paradela (O Bolo). No texto do primeiro romance não aparecem os dois versos iniciais e figuram alguns castelhanismos que Said traduziu para galego na versão da antologia Poesía Popular Gallega (preparada em 1904 e editada, postumamente, em 1998). Por seu lado, a versão de campo da Bela na Missa é diferente da versão incluída no Cancionero Musical de Galicia (1942) de Casto Sampedro,9 mas a versão deste cancioneiro coincide com o texto incluído em Poesía Popular Gallega, onde se indica que o texto foi elaborado com a versão de Paradela e uma outra de Cuñas. Os dois versos totalmente em castelhano (vv. 1 e 5) da versão de campo de Paradela excluem também este romance do grupo dos temas em língua galega, além de evidenciarem, mais uma vez, a manipulação dos romances realizada por Víctor Said Armesto.

As versões dos velhos romances Morte de D. Beltrão, Floresvento e Virgílios levantam questões de grande interesse sobre a participação da língua autóctone no romanceiro da Galiza. Ao contrário dos textos que acabámos de comentar, as versões destes três temas parecem plenamente autênticas10 e o facto de existirem na tradição oral galega pode estar relacionado com a sua presença no norte de Portugal. Com toda a prudência a que obriga pronunciarmo-nos sobre as vias de penetração de um romance numa dada região folclórica, podemos pôr a hipótese de as versões de Floresvento e da Morte de D. Beltrão serem textos de origem portuguesa que passaram para solo galego. Segundo Ana Valenciano o fragmento de Floresvento “procede sin duda de la tradición trasmontana”;11 contudo, o texto está bem adaptado à realidade linguística galega: o hemistíquio “na raia de Portugale”, os castelhanismos “iglesia” e “sangre”, os pretéritos simples galegos en “-ache” e o galego “meniña” em lugar do português “menina”. No que diz respeito à Morte de D. Beltrão, embora as duas versões recolhidas também respondam ao tipo trasmontano, linguisticamente ambas são também galegas pois contêm castelhanismos desconhecidos nas versões portuguesas (“caballero”, “gracia”, “espuelas”, “anduvera”), assim como abundantes formas galegas (“atopastes”, “pedinlle”, “quixera”, “aiquí”...); porém, não apresentam lusismos claros (“Deus” e “largar”, ainda que pouco frequentes, são também termos galegos). Julgamos que, o quase total monolinguismo em galego destes temas, a sua raridade na tradição da Galiza e a sua abundância em Trás-os-Montes são razões para considerar que se trata de duas versões portuguesas emigradas para a Galiza, onde os textos em português se acomodaram ao bilinguismo característico do romanceiro galego;12 de qualquer modo, os traços linguisticamente galegos demonstram que tal importação não devia ser muito recente. Uma outra possibilidade seria a de ambas as versões serem amostras de uma tradição galaico-lusitana comum dos dois temas, que hoje manteria maior vitalidade em Portugal. Esta hipótese parece-nos menos provável dada a excepcionalidade linguística destes romances no conjunto dos temas de inequívoca qualidade literária tradicional do romanceiro da Galiza: Floresvento e Morte de D. Beltrão estão em galego com alguns castelhanismos, face ao maior bilinguismo próprio do resto dos romances.13 Por seu lado, a versão de Virgílios, um texto monolingue em galego, não evidencia uma procedência portuguesa tão clara como a dos dois romances anteriores, já que, ao contrário destes, Virgílios é um tema muito pouco conhecido na tradição trasmontana moderna e as escassas versões recolhidas não apresentam parecenças tão evidentes com a versão galega.

Para além destes três temas plenamente tradicionais muito raros na tradição da Galiza, apenas os romances burlescos Maravilhas do meu Velho e A Devota do Frade (de que foi recolhido apenas um texto de cada) e O Gato do Convento, e a pastorela A Pastora Experimentada pelo Irmão14 mostram uma galeguização quase total. É muito significativo que estes dois últimos temas (situados nos limites do género devido à sua pouca tradicionalidade, pois são transmitidos em versões muito parecidas a nível discursivo e fabulístico) sejam os únicos romances em língua galega de que se recolheu um número importante de textos: O Gato do Convento é um dos dois temas do romanceiro galego em que o adultério é tratado em tom de paródia,15 enquanto A Pastora Experimentada pelo Irmão é um romance muito próximo do mundo referencial dos informantes. O monolinguismo de ambos os temas face ao castelhanismo predominante nos títulos plenamente tradicionais indica que na cultura popular a língua galega não é considerada como apropriada para transmitir o romanceiro, e que a reduzida presença do galego neste género literário tradicional se limita na maioria dos casos às narrativas do quotidiano e de carácter jocoso.16

Esta prática diglóssica das comunidades orgânicas da Galiza reflecte a permeabilidade que elas apresentam face às influências culturais surgidas nas classes sociais mais altas, e demonstra que, contra o mito romântico do Ressurdimento, nunca existiu uma cultura popular galega isolada e resistente aos saberes das camadas sociais superiores e dos povos vizinhos. A carência secular de uma literatura culta na língua autóctone repercutiu-se necessariamente no modo como as comunidades tradicionais encaravam o galego; estas, ao não receberem dos grupos letrados textos literários no idioma do país susceptíveis de se integrarem no património oral, identificaram, não só na interacção social, mas também na canção narrativa tradicional, o galego com os registos linguísticos mais baixos.

O professor Antón Figueroa, a respeito do papel do texto literário numa situação de conflito linguístico, assinalou as limitações estéticas do texto literário culto composto na língua B, baseando-se no conceito de literatura de Walter Mignolo e nos requisitos que toda a obra de ficção deve ter segundo Wolfang Iser. Na nossa opinião, determinados textos de transmissão oral emitidos num idioma menorizado partilham também estas limitações.

Segundo Mignolo, numa situação linguística normal existe uma matriz social que classifica os discursos de vários modos e em vários níveis; assim, o texto literário seria um subconjunto do grupo dos textos.17 Figueroa, ao aplicar estes postulados teóricos a uma situação diglóssica, assinala a dificuldade para estabelecer a referida matriz dada a carência de certos registos, de certos textos, na língua B; por isso, os textos compostos no idioma “inferior” teriam sempre a mesma significação independentemente “do que se diga ou escriba en cada momento ou texto [...] nesta situación, o texto, o texto literario e o discurso de comunicación normal, non só comparten código, senón que comparten ademais a ulterior significación derivada de usalo.”18 Consequentemente, os valores associados à língua “menorizada” impedem o normal funcionamento do texto literário composto numa língua deste tipo:

o uso dunha determinada lingua, que non supón de seu ningunha reacción interpretativa utilizada en condicións normais, nun caso de conflicto social de linguas supón unha certa reacción interpretativa, non moi fácil de explicitar no seu contido concreto, pero non por iso menos evidente. Esta reacción interpretativa estaría constituída por unha serie de denotacións ou connotacións, relativas en todo caso ó conxunto de feitos que fan que esa lingua sexa o que se chama lingua B. Cando esta lingua é utilizada en clave non utilitaria, nin inmediatamente comunicativa, senón estética, esta reacción interpretativa maniféstase con máis forza precisamente pola “gratuidade” do discurso literario. Poderíase neste caso dicir que non sucede, ou sucede en menor medida, o que W. Iser atribúe ó discurso de ficción que “aparece coma a representación dun acto ilocutivo orfo de toda situación contextual dada, e obrigado polo mesmo a fornecer de por si ó seu destinatario o conxunto das directivas necesarias para o establecemento dunha tal situación”. No caso ó que nos referimos o acto ilocutorio representado non parece orfo de situación contextual, senón que o feito de realizalo nun contexto conflictivo confórmao conflictivamente, e o contexto aparece así coma unha interferencia non normal no funcionamento do acto estético. [...] Esta interferencia volve o texto ó mundo utilitario do que o texto estético está de seu illado segundo nos di Mikel Dufrenne: “E este é o caso tamén do obxecto estético: négase máis enérxicamente cá cousa a deixarse integrar, pola percepción e pola acción do mundo cotián [...]. O entorno aquí parece unha fronteira ca un intermediario; a percepción estética é invitada a illa-lo obxecto máis ca a enmarcalo cos outros.19

É por tudo isto que o texto literário culto em língua B é menos rico em sentidos, está menos aberto que uma obra composta na língua de uma sociedade monolingue. Esta limitação no âmbito da literatura culta pode relacionar-se com a utilização do galego nos temas marginais da canção narrativa tradicional na Galiza. Os romances caracterizam-se, como todo o texto tradicional, por uma “abertura” quer no nível da expressão, quer no nível do conteúdo “que garantiza la actualidad permanente de los mensajes romancísticos”.20 Portanto, se a canção narrativa “no constituye un ‘programa virtual’ sujeto a la eventualidad de transformaciones en el curso de la transmisión, no será un romance tradicional y, en muchos casos no llegará a serlo nunca”.21 Assim, nos reportórios obtidos na tradição oral moderna, alguns romances são mais romances que outros, e são-no menos aqueles poemas “cuyos cambios diacrónicos no suelen responder a una creatividad tradicional sino a una tendencia a la entropía y a la indiferenciación entre versiones”.22 No romanceiro tradicional da Galiza é muito significativa a prática linguística realizada nos textos “minimamente abertos”, caracterizados pela uniformidade e fossilização das versões tanto no nível da fábula como no nível do discurso, que colocam sempre a dúvida da sua inclusão num corpus romancístico: enquanto alguns se transmitem num castelhano puro ou sem quase interferências, outros são expressos num galego mais ou menos livre de castelhanismos.

Se o sistema literário23 de uma “literatura letrada” estagna quando não existe uma subcultura que pressione a cultura canonizada para que esta se adeque à sociedade do seu tempo, na cultura tradicional a falta de renovação tem as mesmas consequências. Se durante séculos as comunidades tradicionais da Galiza não receberam estímulos literários cultos, neste caso romances, na língua autóctone,24 parece inevitável a identificação do galego com algumas canções narrativas de tipo jocoso ou relacionadas com o mundo rural.25

Portanto, estas composições em galego situadas nos limites do reportório do romanceiro são equivalentes a uma “diliteratura” ou literatura em língua B,26 que compartilha muitas das características da língua B, principalmente a sua situação de dependência em relação a uma literatura ou língua A; assim, não é apenas do ponto de vista sócio-cultural da língua A que se pode definir a língua B como um carnaval de A, quer dizer, como “unha contraposición máis ou menos festiva [...] como unha especie de ‘reserva’ que se pretende socioculturalmente fosilizada e estática”;27 também do ponto de vista sócio-cultural da língua B, incluindo o âmbito rural, “os textos tenden a valorarse máis como mostras da propia identidade ca pola súa novidade estética frente a outros textos; en definitiva, tenden a ser considerados como un folklore”,28 ou como um carnaval entendendo este “como unha simple parodia de referencias alleas”.29

Em resumo, o critério linguístico é inoperante para dar conta do modo as coisas se passam literariamente no romanceiro tradicional galego. Se um romance é galego porque é expresso nesta língua as versões bilingues ou castelhanas de temas de que se têm encontrado textos em galego deveriam ser postas de lado, acção injustificável do ponto de vista científico. Considerar, portanto, como galegos apenas os temas que se têm transmitido por todo o território galego na língua do país seria contrário aos interesses do galeguismo cultural, uma vez que estes romances são marginais dentro do género pela sua inferior qualidade literária, e, sobretudo, porque os assuntos burlescos ou pastoris de que tratam revelam que a identificação da língua autóctone com os registos mais baixos também se produziu dentro do âmbito da cultura popular.

Oferecemos seguidamente versões dos romances que só foram recolhidos em língua galega. Como se poderá ver, é claro o contraste entre o discurso poético dos temas carolíngios e cavalheirescos, de um lado, e, do outro, o dos pastoris e burlescos. Além disso, repare-se no galego dos textos manipulados por Víctor Said Armesto: Conde de Alemanha, A Fortuna da Samaritana e A Bela na Missa.




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