Os historiadores no labirinto da pós-modernidade Aline Loretto Garcia Introdução


As multifaces do historiador brasileiro diante da pós-modernidade



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1.3 As multifaces do historiador brasileiro diante da pós-modernidade

Em 1994 foi publicado na Revista Brasileira de História um texto de autoria da historiadora marxista Emília Viotti da Costa. Neste texto que veio a público com o provocativo titulo “A Dialética Invertida (1960-1990)” Viotti analisava as correntes historiográficas que buscavam emergir sobre os escombros da historiografia anterior (cartesiana, estruturalista, marxista). E relacionava a emergência dessas novas correntes historiográficas às mudanças que ocorriam nas sociedades e nos processos culturais. Criticando tanto os historiadores que permanecem apegados aos métodos estruturalistas dos anos 60, como os que rejeitavam em bloco as lições do passado e embarcam no pós-modernismo sem qualquer critica; Emília propôs uma síntese dessas duas tendências.

Para melhor compreensão da ideia da autora resgatarei momentos chaves do artigo.

Na abertura do texto á evocação de uma interessante imagem “Mai 68, on refrait le monde, Mai 86,on refrait la cuisine. Sobre o jogo de palavras que nos apresenta a historiadora, que apareceu no jornal francês Le Monde em maio de 1986, Costa informa que foi reproduzido na capa de um volume de 1987, da Radical History Rewiew americana. O sentido da reprodução da idéia do jornal francês na revista americana, segundo a autora, era fruto das preocupações de uma parcela de historiadores quanto ao projeto de construção de uma sociedade mais justa. ( COSTA,1994)

Segundo Costa (1994) o abandono da função da historia como construtora de uma sociedade mais justa teria sido colocada em pratica por uma historiografia pós-moderna. Historiografia esta que nascera como critica a uma forma de fazer historia demasiadamente objetiva e que, segundo Viotti, acabou por se tornar numa total inversão da dialética.

E por que ocorreu essa inversão? Um dos problemas diria respeito à excessiva ênfase no discurso que teria promovido a reificação da linguagem, indo ao encontro das propostas de Jacques Derrida quando afirmava a necessidade de se interpretar as interpretações mais do que interpretar as coisas. Além disso, teriam sido abandonadas as criticas de Sartre que se propunha a recuperar o homem no interior do marxismo, optando-se por Nietzsche e seu esteticismo. Por fim a historiografia pós-moderna teria refletido as transformações pelas quais passava a sociedade contemporânea, especialmente as sociedades europeias e americanas, e caberia aos historiadores indagarem sobre sua validade dentro de outros contextos. Como que os problemas, as dificuldades e as capacidades epistêmicas do ocidente mudassem quando atravessamos uma fronteira, por exemplo, da Europa para América do Sul.

Para nós a questão que se coloca é simples: se a nova historiografia nasceu de condições históricas especificas, até que ponto é valido dentro de nosso contexto? Como comparar a situação de trabalhadores da América Latina com os trabalhadores europeus e americanos (...)” (COSTA, op. cit, 25)

Emilia aponta que a nossa historiografia igualou condições diferentes e conclui que vivemos um novo período da historia, período que seria de crise do capitalismo e, por conseguinte momento propício a uma nova síntese e que evite a reificação da linguagem que segundo ela ocorre em uma historiografia pós-moderna.

No ano de 1997 o tema da pós-modernidade volta à tona na historiografia brasileira, em um texto chamado História e Paradigmas Rivais escrito por Ciro Flamarion Cardoso.

Cardoso inicia o texto comparando o nosso tempo com o vivido pelos físicos no início do século XX, que padeciam os últimos momentos do modelo clássico newtoniano pré-relativista (no sentido einsteiniano e pré-quântico do mundo)

Os últimos anos do século XX caracterizaram-se por um mal estar teórico e epistemológico entre os cientistas naturais, similar a dos cientistas sócias da atualidade: com o agravante para estes últimos de que as teorias disponíveis caducaram, sobretudo porque o próprio objeto central-as sociedades humanas mudaram muito intrinsicamente (Cardoso, 1997, p 41).

. Tal crise fez com que muitas áreas do saber revissem e reestruturassem suas bases epistemológicas. E a disciplina histórica também foi afetada por tal crise, passando a valorizar a diversidade dos objetos e a diversidade cultural, influenciado por um movimento que se convencionou chamar de pós-modernidade.

Com a pós-modernidade, segundo esse historiador, o conhecimento histórico teria perdido seu caráter cientifico, racional, sendo recomendável renunciar ao analítico, a macro analise, a explicação, em favor da hermenêutica, da microanálise, da concepção de historia como sendo narrativa e literária.

Contudo para Cardoso, essas características epistemológicas da pos-modernidade estariam dando sinais de esgotamento no campo historiográfico.

Há alguns historiadores, dotados de vivo interesse pela epistemologia e pelos métodos de sua área de estudo, bem como conscientes, e isso há vários anos, do esgotamento das estruturas pós-modernas e culturalistas, os quais, por tal razão, mostram-se atentos as repercussões possíveis do declínio do pós-modernismo sobre o futuro imediato da História-disciplina.·1(CARDOSO, op.cit, p. 46).

Assim, em linhas gerais, a pós-modernidade configura-se para Cardoso (no âmbito do saber) como mais uma forma de construir o conhecimento histórico que abandou o ideal de construir uma sociedade mais justa, mas que ao mesmo tempo já vem dando sinais de esgotamento na atualidade.

Um historiador brasileiro que apresenta uma postura menos profética e pessimista acerca da pós-modernidade é José Carlos Reis no seu livro História e Teoria: historicismo, modernidade, temporalidade e verdade.

Partindo da questão: qual o conhecimento histórico adequado à temporalidade pós-moderna? José Carlos Reis discorre acerca da conjuntura histórica atual e conclui que o conhecimento histórico mais próximo das mudanças da sociedade atual priorizaria a esfera cultural. A cultura sendo entendida como o mundo das ideias, interpretações, valores, regras. Aquilo que um dia foi chamado de um mundo superestrutural. Agora não mais visto como aquilo que é mero reflexo do mundo material, mas como algo que aparece em todas as esferas da vida humana. (REIS, 2003)

Para este historiador a história ao se aliar ao paradigma pós-moderno tende a abandonar as suas pretensões cientificas e torna-se um ramo da estética. Se aproxima da arte e passa a entender que forma e conteúdo caminham juntos no processo do conhecimento histórico .A forma passa a ser também mensagem no discurso historiográfico.

A teologia, a utopia, a crença no progresso que levariam a crença na emancipação humana, perderam relevância em favor da

Valorização da alteridade, da diferença regional e local, micro cortes no todo social, apego a micronarrativas e a descrição densa, em detrimento da explicação globalizante, abertura a todos os fenômenos humanos no tempo, com ênfase no individual, no irracional, no imaginário, nas representações, nas manifestações subjetivas, culturais”. (REIS, 2007, p.60-61)

Nesses três momentos elencados acima a pós-modernidade foi apreendida de forma diferente pelos historiadores brasileiros. Se com Emília Viotti da Costa, ela aparece como inadequada a realidade brasileira, na obra de Ciro Flamarion Cardoso ela não passa de um modismo passageiro que na atualidade já dos sinais de esgotamento. É com José Carlos Reis que teremos uma visão menos profética ressaltando, sobretudo, como a pós-modernidade permitiu a historiografia se aproximar das discussões filosóficas.

No entanto, nesses três momentos não temos historiadores que assumam uma posição pós-modernista. José Carlos Reis apesar de não criticar a sensibilidade pós-moderna, restringisse a apresentar o fenômeno, sem, contudo tomar uma posição muito claramente. É no ano de 2011 com a publicação do livro Epistemologias da História: verdade, linguagem, realidade, interpretação e sentido na pós-modernidade que teremos um grupo de historiadores tomando uma posição pós-modernista.2 (GIANNATTASIO, G.& IVANO, R. 2011)

O livro Epistemologias da História se constituiu em um conjunto de textos escritos por professores e alunos de história, tendo como objetivo principal refletir acerca da pratica historiográfica, tanto no que se refere aos diferentes pontos de vista metodológicos, bem como acerca dos problemas teóricos que se apresentam ao saber histórico contemporâneo. Partindo da premissa que nos tempos atuais não cabe mais ao historiador recorrer ao discurso que a teoria por ele utilizada esta diluída em sua narrativa, nesta obra é colocado em primeiro plano os fundamentos que sustentam o valor do conhecimento histórico.

Os temas tratados no livro são bastante atraentes: a historiografia pós-moderna, seus grandes teóricos (Nietzsche, Foucault, Derrida, Rorty);seus problemas (verdade, interpretações ,o sentido ,a virada linguística);e os novos objetos históricos: historia e cinema,história e hermenêutica.

Em geral a obra aponta para ao fato de que assumir uma posição historiográfica pós-moderna significa não apenas abolir a verdade, como também a exigência de um domínio cada vez maior que o historiador deve ter sobre o seu discurso. Ou seja, colocar as vistas os instrumentos da operação historiográfica. Mostra ainda que na contemporaneidade não podemos produzir um discurso historiográfico sem levar em consideração os estudos feitos pelas teorias e filosofias da linguagem. Independente do uso que se queira fazer da história, independente da metodologia a se utilizar, há algo que se impõe ao historiador: a história opera no campo da linguagem.

Para finalizar, apesar das conclusões opostas que os historiadores brasileiros chegaram acerca da pós-modernidade na historiografia, a grande importância do pensamento pós-moderno é levar a Teoria para o centro da analise dos estudos históricos. Como certa vez nos escreveu Keith Jekins quando vamos às livrarias dificilmente encontramos uma prateleira dedicada a Teoria da História. Ou ainda como nos colocou David Harlan historiadores são pessoas céticas, eles receiam que, uma vez deixando-se distrair pela teoria, passarão a vagar por um labirinto do qual não encontrarão a saída. Dessa forma o grande mérito do pensamento pós-moderno é levar o historiador brasileiro a olhar para a teoria e refletir sobre a singela e crucial questão: o que faz o historiador?

Bibliografia

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CARDOSO, C. F. História e paradigmas rivais. In: CARDOSO, C. F. e VAINFAS, R.

(Orgs.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus,

1997.


__________. Um historiador fala de teoria e metodologia: ensaios. Bauru: Edusc, 2005.

CONNOR, Steven. Cultura pós-moderna: introdução às teorias do contemporâneo. Trad. Adail Ubirajara Sobral e Maria Stella Sobral. São Paulo. Loyola, 1994.

COSTA, Emília Viotti da, A dialética invertida: 1960-1990. Revista Brasileira de História. Brasil: 1954-1964. São Paulo: ANPUH/Marco Zero, v.14, n.27, p.9-26, 1994.  .

Nietszche, F. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Tradução. Paulo César Souza: Companhia das Letras, 1992.

GIANNATTASIO, G. & IVANO, R. (org). Epistemologias da História: Verdade, Linguagem, Realidade, Interpretação e Sentido na pós-modernidade. Londrina: Eduel, 2011.

HUCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

LYOTARD, Jean François. Condição pós-moderna. Trad. Ricardo Correa Barbosa. São Paulo: José Olimpo, 2010.

OLIVA, Alfredo dos Santos. Por uma historiografia pós-moderna, pós-virada linguística e interpretativista. In: Epistemologias da História: Verdade, Linguagem, Realidade, Interpretação e Sentido na pós-modernidade Londrina: Eduel, 2011.

Reis, José Carlos. História e Teoria: historicismo, temporalidade, moralidade e verdade. Rio de Janeiro: Editora: FGV, 2007.

VASCONCELOS, José Antônio. Quem tem medo da teoria? A ameaça do pós-modernismo na historiografia americana. São Paulo: Analume: FAPESP, 2005.

WEBER, Max. Rejeições Religiosas do mundo e suas direções. In Weber. São Paulo: Abril Cultural, 1974.

WHITE, Hayden. Trópicos do Discurso: ensaio sobre a critica da cultura. Trad. Alípio de Franco Correa Neto. São Paulo: Edusp, 1994.



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