Os historiadores no labirinto da pós-modernidade Aline Loretto Garcia Introdução


-1. Modernidade, pós-modernidade, historiografia



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1-1. Modernidade, pós-modernidade, historiografia.

Para Linda Hutcheon entre os termos que circulam na teoria cultural e nos textos contemporâneos sobre as artes, o pós-modernismo deve ser o mais indefinido.

Como a expressão traz em si um prefixo que faz referência ao conceito de modernidade, se faz necessário iniciar com uma caracterização da modernidade para depois problematizar o conceito pós-moderno.

Segundo Max Weber entre os séculos XIII e XVI, temos um corte na identidade ocidental que podemos definir através do conceito de modernidade. A modernidade para Weber tem como características a constituição de uma nova ordem política (Estado burocrático), uma nova ordem econômica (ética do trabalho e empresa capitalista) e uma nova ordem social (não fraternidade religiosa). Esse processo levou ao desencantamento das concepções religiosas de mundo, a cultura se laicizou, as sociedades passaram a ser movidas pelo Estado burocrático e pela empresa capitalista. O espírito da modernidade é secularizado, racional e imanente, com a valorização do conhecimento científico em detrimento de outras formas de saber e uma visão epistemológica dualista. (WEBER, 1974.)

Contudo, a partir do século XX, uma critica sistemática a esse paradigma passou a ser feito. As reflexões fazem referência a uma consciência de ruptura na sociedade e na cultura. Em outras palavras, tais reflexões apontam para o fato de que estaríamos transitando para uma condição pós-moderna.

Nietzsche foi um dos primeiros filósofos a fazer uma critica ao ethos da modernidade. E, segundo José Carlos Reis, é o mais radical formulador da crise do racionalismo moderno. Se uma cultura vive de crenças e valores, para ele, os valores do o homem ocidental moderno: cristianismo, pessimismo, ciência, racionalismo, moral do dever, são sintomas de decadência, de uma vida que se empobrece e se apaga

A partir dessas reflexões acerca da modernidade, podemos buscar uma significação para o conceito pós-modernidade.

José Antônio Vasconcelos nos escreve que em primeiro lugar, devemos ter em mente que a pós-modernidade constitui uma sensibilidade, não uma teoria geral da sociedade da cultura, pois as teorias fazem parte das metanarrativas, alvo da critica pós-modernista. Além disso, a pós-modernidade constitui uma sensibilidade que quando expressa conceitualmente, seja em uma discussão, seja em uma sala de aula ou em uma publicação cientifica, muitas vezes deixam de ser pós-modernas uma vez que os conceitos muitas vezes exigem categorias forjadas pela modernidade (VASCONCELOS, 2005).

Mesmo assim podemos tentar alguns exercícios de definição. Dando a palavra a Linda Hutcheon “o pós-modernismo é um fenômeno contraditório, que usa e abusa, instala e depois subverte, os próprios conceitos que desafia sejam na arquitetura, na literatura, na pintura, na dança (...) na historiografia”. (HUNTCHETON, 1991, p.19).

E por ser contraditório e atuar dentro dos próprios sistemas que tenta subverter provavelmente o pós-modernismo não pode ser considerado um novo paradigma. Ele não substitui o humanismo liberal, mesmo que o tenha contestado. No entanto pode servir de marco para algo novo.

Acerca da condição pós-moderna assim nos escreveu Steven Connor:

A fórmula apresentado por Jean François Lyotard para a emergência do pós-modernismo, a suspeitas das metanarrativas - os princípios orientadores e metodologias universais que um dia pareceram controlar. Delimitar e interpretar as diferentes formas da atividade discursiva-conseguiu um amplo acordo. A condição pós-moderna, dizem-nos repetidas vezes, manifesta-se na multiplicação de centros de poder e de dissolução de toda espécie de narrativa totalizante que afirme governar todo o complexo campo da atividade e da representação social. (...). Notável é o grau de consenso do discurso pós-moderno quanto ao fato de já não haver mais possibilidade de consenso, os anúncios peremptórios do desaparecimento da autoridade final e a promoção e a rearticulação de uma narrativa total e abrangente de uma condição cultural em que a totalidade já não pode ser pensada. (CONNOR, 1994, p.31).

Quando pensamos na relação entre a pós-modernidade e a produção historiográfica contemporânea Hayden White em Trópicos do Discurso escreve que a historiografia no século XIX assumia um status privilegiado. Quando questionados pelos artistas, os historiadores recorriam ao caráter cientifico. Quando questionado pelos cientistas, os historiadores recorriam que a história estava muito próxima a arte. Para White ao passo que a arte e a ciência responderam aos anseios de seu tempo, a história permaneceu nos moldes que foi concebida no século XIX. Dessa forma a historiografia só teria a ganhar abrindo-se a outros modos de representação.

O historiador poderia ser visto como alguém que como o artista e os cientistas modernos, procura explorar certa expectativa sobre o mundo que não se arroga exaurir a descrição ou a analise de todo o campo fenomenal, mas que ao invés, se oferece como uma maneira entre muitas de esclarecer certos aspectos do campo. E usa de modos de representação expressionistas, surrealistas, para a dramatização de dados (WHITE, 1994, p.46).

Sobre a influencia do pensamento pós-moderno na historiografia o historiador F.K Ankersmith escreveu que a história ao se aliar a perspectiva pós-moderna teria que abandonar toda a pretensão cientifica e aceitar a investigação do passado como uma construção de valor puramente estético.

De acordo com Ankersmith

Se concordarmos com o acima-mencionado, isto é, com a aplicabilidade do insight pós-moderno à historiografia, gostaria de enunciar uma série de conclusões. Para o modernista, dentro de sua noção científica de mundo, dentro da visão de história que inicialmente todos aceitamos, evidências são essencialmente evidência de que algo aconteceu no passado. O historiador modernista seguia uma linha de raciocínio que parte de suas fontes e evidências até a descoberta de uma realidade histórica escondida por trás destas fontes. De outra forma, sob o olhar pós-modernista, as evidências não apontam para o passado, mas sim para interpretações do passado; pois é para tanto que de fato usamos essas evidências. Para expressar essa ideia por meio de imagens: para o modernista, a evidência é um azulejo que ele levanta para ver o que está por baixo; para o pós-modernista, ela é um azulejo sobre o qual ele pisa para chegar a outros azulejos; horizontalmente em vez de verticalmente. (ANKERSMITH, 2001, p.24).

No contexto pós-moderno Linda Hutcheon, define a história como um problema de representação e da linguagem: diz Hutcheon “nós não criamos acontecimentos, mas atribuímos-lhes significados e fazemos ao interpretar e construir o referente, este de natureza discursiva”. (HUNTCHETON, op. cit, p.203).

Ou seja, em lugar do remetente quer para um referente concreto quer para um significado transcendente, o texto remete sempre para ele próprio.

Linda Hutcheon considera o ato de contar historias no seio da ficção literária e a própria história como único meio de obtermos significados provisórios e contextualizados. (Huntcheton, op.cit, 204).

E ainda salienta que a abertura pós-moderna ao mundo é operada através do discurso. O conhecimento do mundo opera-se através das narrativas. O conhecimento do mundo dá-se através das narrativas passadas através de textos e intertextos. É assim que a história se liga a literatura, o passado realmente existiu, nós é que só o conhecemos através de textos.

Na medida em que o acontecimento do passado é textualizado, perde-se a ilusão da transparência histórica, porque não temos um em si mesmo, o acontecimento é transposto para um texto através da linguagem temos então a narrativa do que aconteceu.

O acontecimento histórico tem de ser “traduzido” pela linguagem para desse modo ser conhecido. A linguagem tem assim o poder de clarificar e obscurecer o que mostra acerca da realidade Questionar a escrita trata-se fundamentalmente de redefinir a capacidade que a história tem de transmitir uma verdade transparente, una e definitiva.

Dessa forma vemos que a repercussão da pós-modernidade na história trouxe a linguagem para a cena principal. De tal modo que tanto o historiador moderno quanto o pós-moderno são chamados a responder ao problema da relação entre história, linguagem, mundo.

Agora tentarei situar a historiografia brasileira diante do debate colocado pela pós-modernidade. Fazer um balanço acerca das reações entusiásticas ou criticas dos historiadores brasileiros diante das questões colocadas pela sensibilidade pós-moderna. Elegerei momentos icônicos nos quais dizeres acerca da pós-modernidade vêm à tona na escrita dos teóricos da historia no Brasil.


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