Os filhos de Eva



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Encontro20.03.2020
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Quando Adão e Eva foram expulsos do paraiso terrestre, foram obrigados a construir para si uma casa num terreno inculto e comer o pão ganho com o suor de seu rosto.

Adão cultivava a terra e Eva fiava a lã. Todos os anos, Eva punha um filho no mundo, mas os filhos eram diferentes um do outro; uns eram bonitos e outros feios.

Decorrido bastante tempo, Deus enviou um Anjo para anunciar-lhes que iria visitá-los e ver como se arranjavam.

Eva, muito contente com a magnanimidade de Deus, tratou de limpar escrupulosamente a casa, depois enfeitou-a com lindas flores e espalhou juncos pelo chão. Em seguida, chamou os filhos, deu-lhes um bom banho, penteou-lhes o cabelo, vestiu-lhes camisas bem lavadinhas e recomendou que se comportassem direitinho e com boas maneiras na presença do Senhor, explicando que deviam curvar-se graciosamente diante dele, dar-lhe a mão e responder com modéstia às suas perguntas.

Os filhos feios, porém, não deveriam aparecer. Por conseguinte, escondeu um sob a pilha de feno, outro no sótão da casa, o terceiro no meio da palha, o quarto dentro do forno, o quinto na adega, o sexto debaixo da tina, o sétimo dentro de um barril vazio, o oitavo dentro de sua velha peliça, o nono e o décimo no meio do pano de fazer camisas, o undécimo e o duodécimo debaixo do couro de fazer sapatos.

Mas apenas acabara essa tarefa, quando bateram à porta. Adão espiou por uma fresta e viu que era o Senhor. Com a máxima reverência abriu a porta e o Pai celestial entrou.

Os filhos bonitos estavam todos enfileirados; inclinaram-se graciosamente, deram-lhe a mão e ajoelharam ao seu lado. Então o Senhor pôs-se a distribuir as suas bênçãos e graças. Pousou a mão sobre a cabeça do primeiro e disse.


  • Tu serás um grande rei. E ao segundo:

  • Tu, um grande príncipe. E ao terceiro:

  • Tu, um conde. E ao quarto:

  • Tu, um cavalheiro.

E ao quinto:

  • Tu, um fidalgo. Ao sexto:

  • Tu, um burguês. Ao sétimo:

  • Tu, um comerciante. Ao oitavo:

  • Tu, um sábio.

E com isso deu a todos a sua santa bênção. Eva, vendo que o Senhor era tão magnânimo e misericordioso, pensou logo: "Acho melhor ir buscar os meus filhos feios; talvez a eles também dê a bênção."

Apressou-se a tirá-los de sob o feno, da palha, do forno e dos demais esconderijos. E ei-los todos em tropel, toscos, sujos, sarnentos e fuliginosos. O Senhor, ao ver aquele bando, sorriu e observando-os um por um, disse:



  • Abençoarei estes também.

Colocou a mão sobre o primeiro e disse:

  • Tu serás um camponês. E disse ao segundo:

  • Tu, um pescador. Ao terceiro:

  • Tu, um ferreiro. Ao quarto:

  • Tu, um curtidor. Ao quinto:

  • Tu um tecelão. Ao sexto:

  • Tu, um sapateiro. Ao sétimo:

  • Tu, um alfaiate. Ao oitavo:

  • Tu, um oleiro. Ao nono:

  • Tu, um carroceiro. Ao décimo:

  • Tu, um marinheiro. Ao undécimo:

  • Tu, um entregador de recados. Ao duodécimo:

  • Tu, um criado para toda a vida.

Eva, depois de ouvir atentamente o que ele dizia, exclamou:

  • Senhor, quanta desigualdade nas tuas bênçãos! Estes,

também, são filhos meus, nascidos de mim como os outros; a tua graça deveria ser igual para todos!

Deus fitou-a, bondosamente, e respondeu:



  • Eva, tu não podes compreender. Cumpre-me povoar o mundo com teus filhos e prover as suas necessidades. Se fossem todos príncipes e fidalgos, quem cultivaria a terra? Quem debulharia as espigas? Quem moeria o trigo para produzir a farinha de fazer pão? Quem malharia o ferro? Quem teceria o pano para se vestirem? Quem racharia a lenha para fazer fogo? Quem construiria as casas e quem costuraria a roupa? Cada um tem que exercer o seu mister, de maneira que se possam manter e ajudar mutuamente, assim como os membros mantêm o corpo.

Eva então respondeu:

  • Perdoa-me, Senhor! Reconheço que fui insensata em contradizer as tuas disposições. Meu Deus. que se cumpra a tua vontade em todos os meus filhos!

* * *








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