Os Contos indd 1 08/11/18 10: 17


Lygia Fagundes Telles



Baixar 152 Kb.
Pdf preview
Página9/17
Encontro01.04.2021
Tamanho152 Kb.
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   17
26

Lygia Fagundes Telles

de amarelo com uma borda esverdinhada, suor de bicho venenoso, 

traiçoeiro, malsão. Enxugava depressa a testa, o pescoço, tentava 

num último esforço salvar ao menos a camisa. Mas a camisa já era 

uma pele enrugada aderindo à minha com meu cheiro, com a mi-

nha cor. Era menino ainda mas houve um dia em que quis morrer 

para não transpirar mais.

— Na noite passada sonhei com nossa antiga casa — disse ele 

aproximando-se do fogareiro. Destapou a chaleira, espiou dentro. 

— Não me lembro bem mas parece que a casa estava abandonada, 

foi um sonho estranho…

— Também sonhei com a casa mas já faz tempo — eu disse.

Ele aproximou-se. Esquivei-me em direção ao armário. Tirei 

as xícaras.

— Mamãe apareceu no seu sonho? — perguntou ele.

— Apareceu. O pai tocava piano e mamãe… 

Rodopiávamos vertiginosos numa valsa e eu era magro, tão 

magro que meus pés mal roçavam o chão, senti mesmo que levan-

tavam voo e eu ria enlaçando-a em volta do lustre quando de repen-

te o suor começou a escorrer, escorrer.

— Ela estava viva?

Seu vestido branco se empapava do meu suor amarelo-verde 

mas ela continuava dançando, desligada, remota.

— Estava viva, Rodolfo?

— Não, era uma valsa póstuma — eu disse colocando na fren-

te dele a xícara perfeita. Reservei para mim a que estava racha-

da. — Está reconhecendo essa xícara?

Ele tomou-a pela asa. Examinou-a. Sua fisionomia se ilumi-

nou com a graça de um vitral varado pelo sol.

— Ah!… as xicrinhas japonesas. Sobraram muitas ainda?

O aparelho de chá, o faqueiro, os cristais e os tapetes tinham fi-

cado com ele. Também os lençóis bordados, obriguei-o a aceitar tudo. 

Ele recusava, chegou a se exaltar, “Não quero, não é justo, não quero! 

Ou você fica com a metade ou então não aceito nada! Amanhã você 

pode se casar também…”. Nunca, respondi. Moro só, gosto de tudo 

sem nenhum enfeite, quanto mais simples melhor. Ele parecia não 

ouvir uma só palavra enquanto ia amontoando os objetos em duas 

porções, “Olha, isto você leva que estava no seu quarto…”. Tive que 

recorrer à violência. Se você teimar em me deixar essas coisas, assim 

que você virar as costas jogo tudo na rua! Cheguei a agarrar uma 

jarra, No meio da rua! Ele empalideceu, os lábios trêmulos. “Você ja-

mais faria isso, Rodolfo. Cale-se, por favor, que você não sabe o que 

está dizendo.” Passei as mãos na cara ardente. E a voz da minha mãe 

14555 - Os Contos.indd   26

08/11/18   10:17


1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   17


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal