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Antes do Baile Verde

do que da primeira vez, você precisa ver com que interesse anali-

sou as personagens, discutiu os detalhes…

— Domingo já tenho um compromisso — eu disse enchendo a 

chaleira de água.

— E sábado? Não me diga que sábado você também não pode.

Aproximei-me da janela. O sopro do vento era ardente como 

se a casa estivesse no meio de um braseiro. Respirei de boca aberta 

agora que ele não me via, agora que eu podia amarfanhar a cara 

como ele amarfanhara o papel. Esfreguei nela o lenço, até quando, 

até quando?!… E me trazia a infância, será que ele não vê que para 

mim foi só sofrimento? Por que não me deixa em paz, por quê? Por 

que tem que vir aqui e ficar me espetando, não quero lembrar nada, 

não quero saber de nada! Fecho os olhos. Está amanhecendo e o sol 

está longe, tem brisa na campina, cascata, orvalho gelado deslizan-

do na corola, chuva fina no meu cabelo, a montanha e o vento, todos 

os ventos soprando. Os ventos! Vazio. Imobilidade e vazio. Se eu fi-

car assim imóvel, respirando leve, sem ódio, sem amor, se eu ficar 

assim um instante, sem pensamento, sem corpo…

— E sábado? Ela quer fazer aquela torta de nozes que você 

adora.

— Cortei o açúcar, Eduardo.



— Mas saia um pouco do regime, você emagreceu, não ema-

greceu?


— Ao contrário, engordei. Não está vendo? Estou enorme.

— Não é possível! Assim de costas você me pareceu tão mais 

magro, palavra que eu já ia perguntar quantos quilos você perdeu.

Agora a camisa se colava ao meu corpo. Limpei as mãos vis-

cosas no peitoril da janela e abri os olhos que ardiam, o sal do suor 

é mais violento do que o sal das lágrimas. “Esse menino transpi-

ra tanto, meus céus! Acaba de vestir roupa limpa e já começa a 

transpirar, nem parece que tomou banho. Tão desagradável!…” 

Minha mãe não usava a palavra suor que era forte demais para seu 

vocabulário, ela gostava das belas palavras. Das belas imagens. 

Delicadamente falava em transpiração com aquela elegância em 

vestir as palavras como nos vestia. Com a diferença que Eduardo 

se conservava limpo como se estivesse numa redoma, as mãos sem 

poeira, a pele fresca. Podia rolar na terra e não se conspurcava, 

nada chegava a sujá-lo realmente porque mesmo através da sujei-

ra podia se ver que estava intacto. Eu não. Com a maior facilida-

de me corrompia lustroso e gordo, o suor a escorrer pelo pescoço, 

pelos sovacos, pelo meio das pernas. Não queria suar, não queria 

mas o suor medonho não parava de escorrer manchando a camisa 

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