Os Contos indd 1 08/11/18 10: 17



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Antes do Baile Verde

— Ah, não fale isso! Se você soubesse como gostei daquela 

bandeja, acho que nunca mais vou gostar de uma coisa assim… 

Se pudesse, tomava já um avião, voltava lá no antiquário do grego 

barbudo e saía com ela debaixo do braço. As alças eram cobrinhas 

se enroscando em folhas e cipós, umas cobrinhas com orelhas, fi-

quei apaixonada pelas cobrinhas.

— Mas por que você não comprou?

— Era caríssima, amor. Nossos dólares estavam no fim, o 

pouco que restou só deu para essas bugigangas.

— Fale baixo, Lorena, fale baixo! — suplicou ele num tom que 

a fez levantar a cabeça num sobressalto. Tranquilizou-se quando o 

viu sacudindo as mãos, afetando pânico. — Chamar a adaga e o anjo 

de bugigangas, que é isso! O anjo vai correndo contar para Deus.

— Não é um anjo intrigante — advertiu, encarando-o. — E an-

tes que me esqueça, você diz que se ninguém nos ama, viramos 

coisa fora de uso, sem nenhuma significação, certo? Pois saiba o 

senhor que muito mais importante do que sermos amados é amar, 

ouviu bem? É o que nos distingue desse peso de papel que você vai 

fazer o favor de deixar em cima da mesa antes que quebre, sim?

— O vidro já está ficando quente — disse e fechou o globo nas 

mãos. Levou-o ao ouvido, inclinou a cabeça e falou brandamente 

como se ouvisse o que foi dizendo: — Quando eu era criança, gosta-

va de comer pasta de dente.

— Que marca?

— Qualquer marca. Tinha uma com sabor de hortelã, era ar-

dido demais e eu chorava de sofrimento e gozo. Minha irmãzinha 

que tinha dois anos comia terra.

Ela riu.

— Que família!

Ele riu também, mas logo ficou sério. Sentou-se diante dela, 

juntou as pernas e colocou o globo nos joelhos. Cercou-o com as 

mãos em concha, num gesto de proteção. Inclinou-se, bafejando 

sobre o globo.

— Lorena, Lorena, é uma bola mágica!

Voltada para a luz, ela enfiava uma agulha. Umedeceu a ponta 

da linha, ergueu a agulha na altura dos olhos estrábicos na concen-

tração e fez a primeira tentativa. Falhou. Mordiscou de novo a linha 

e com um gesto incisivo foi aproximando a linha da agulha. A ponta 

endurecida do fio varou a agulha sem obstáculo.

— A cópula.

— Que foi? — perguntou ela, relaxando os músculos. Voltou-se 

satisfeita para a caixa de contas. — Que foi, amor?

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