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Antes do Baile Verde

crável, “Luisiana? Mas por que Luisiana? De onde você tirou esse 

nome?”. Controlou-se para não me chacoalhar por tê-lo acordado 

àquela hora, vestiu-se e muito polidamente me trouxe para casa, 

“Como queira, minha querida, você manda!”. E deu sua risadinha, 

Enfim, uma puta bêbada mas rica tem o direito de botar no túmulo 

o nome que bem entender, foi o que provavelmente pensou. Mas já 

não me importo com o que pensa, ele e mais a cambada toda que 

me cerca, opinião alheia é este tapete, este lustre, aquele retrato. 

Opinião alheia é esta casa com os santos varados por mil cargas.

Mas antes eu me importava e como. Por causa dessa opinião 

tenho hoje um piano de cauda, tenho um gato siamês com uma 

argola na orelha, tenho uma chácara com piscina e nos banhei-

ros, papel higiênico com florinhas douradas que o velho trouxe de 

Nova York junto com o estojo plásti co que toca uma musiquinha 

enquanto a gente vai desenrolando o papel, “Oh! My Last Rose of 



Summer!…”. Quando me deu os rolos, deu também os potes de ca-

viar, “É preciso dourar a pílula”, disse rindo com sua grossura ha-

bitual, é um grosso sem remédio, se não cuspisse dólar eu já o teria 

mandado para aquela parte com seus tacos de golfe e cuecas per-

fumadas com lavanda. Tenho sapato com fivela de diamante e um 

aquário com uma floresta de coral no fundo, quando o velho me 

deu a pérola, achou originalíssimo escondê-la no fundo do aquário 

e me mandar procurar: “Está ficando quente, mais quente. Não, 

agora esfriou!…”. E eu me fazia menininha e ria quando minha 

vontade mesmo era dizer-lhe que enfiasse a pérola no rabo e me 

deixasse em paz, Me deixa em paz! ele, o jovem ardente com to-

dos os seus ardores, Xenofonte com seu hálito de hortelã — enxotar 

todos como fiz com a criadagem, todos uns sacanas que mijam no 

meu leite e se torcem de rir quando fico para cair de bêbada.

Onde, meu Deus? Onde agora? Tenho também um diamante 

do tamanho de um ovo de pomba. Trocaria o diamante, o sapato 

de fivela, o iate — trocaria tudo, anéis e dedos, para poder ouvir um 

pouco que fosse a música do saxofone. Nem seria preciso vê-lo, juro 

que nem pediria tanto, eu me contentaria em saber que ele está 

vivo, vivo em algum lugar, tocando seu saxofone.

Quero deixar bem claro que a única coisa que existe para mim 

é a juventude, tudo o mais é besteira, lantejoulas, vidrilho. Posso 

fazer duas mil plásticas e não resolve, no fundo é a mesma bosta, só 

existe a juventude. Ele era a minha juventude mas naquele tempo 

eu não sabia, na hora a gente nunca sabe nem pode mesmo saber

fica tudo natural como o dia que sucede à noite, como o sol, a lua, 

eu era jovem e não pensava nisso como não pensava em respirar. 

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