Os Contos indd 1 08/11/18 10: 17



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Antes do Baile Verde

vindo das cinzas: “Rodolfo, por que você há de entristecer seu irmão? 

Não vê que ele está sofrendo? Por que você faz assim?!”. Abracei-o. 

Ouça, Eduardo, sou um tipo mesmo esquisito, você está farto de sa-

ber que sou meio louco. Não quero, não sei explicar mas não quero, 

está me entendendo? Leve tudo à Ofélia, presente meu. Não posso 

dar a vocês um presente de casamento? Para não dizer que não fico 

com nada, olha… está aqui, pronto, fico com essas xícaras!

— Finas como casca de ovo — disse ele batendo com a unha 

na porcelana. — Ficavam na prateleira do armário rosado, lembra? 

Esse armário está na nossa saleta.

Despejei água fervente na caneca. O pó de café foi se diluin-

do resistente, difícil. Minha mãe. Depois, Ofélia. Por que não have-

ria de ficar também com os lençóis?

— E Ofélia? Para quando o filho?

Ele apanhou a pilha de jornais velhos que estavam no chão, 

ajeitou-a cuidadosamente e esboçou um gesto de procura, devia es-

tar sentindo falta de um lugar certo para serem guardados os jor-

nais já lidos. Teve uma expressão de resignado bom humor, mas 

então a desordem do apartamento comportava um móvel assim 

supérfluo? Enfiou a pilha na prateleira da estante e voltou-se para 

mim. Ficou me seguindo com o olhar enquanto eu procurava no 

armário debaixo da pia a lata onde devia estar o açúcar. Uma bara-

ta fugiu atarantada, escondendo-se debaixo de uma tampa de pa-

nela e logo uma outra maior se despencou não sei de onde e tentou 

também o mesmo esconderijo. Mas a fresta era estreita e ela mal 

conseguiu esconder a cabeça, ah, o mesmo humano desespero na 

procura de um abrigo. Abri a lata de açúcar e esperei que ele disses-

se que havia um novo sistema de acabar com as baratas, era facíli-

mo, bastava chamar pelo telefone e já aparecia o homem de farda 

cáqui e bomba em punho e num segundo pulverizava tudo. Tinha 

em casa o número do telefone, nem baratas nem formigas.

— No próximo mês, parece. Está tão lépida que nem acredito 

que esteja nas vésperas — disse ele me contornando pelas costas. 

Não perdia um só dos meus movimentos. — E adivinha agora quem 

vai ser o padrinho.

— Que padrinho?

— Do meu filho, ora!

— Não tenho a menor ideia.

— Você.


Minha mão tremia como se ao invés de açúcar eu estivesse 

mergulhando a colher em arsênico. Senti-me infinitamente mais 

gordo. Mais vil. Tive vontade de vomitar.

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