Os 150 anos do início da Guerra de Secessão dos Estados Unidos da América: resistências, memória e esquecimento



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“no class of people... have better reason for lamenting the death of Abraham Lincoln, and for 

desiring to... perpetuate his memory, than have the colored people. (…) as compared to the long line of 

his  predecessors,  many  of  whom  were  merely  the…  servile  instruments  of  the  Slave  Power,  Abraham 

Lincoln,  while  unsurpassed  in  his  devoution  to  the  welfare  of  the  white  race,  was  in  a  sense  hitherto 

without example, emphatically, the black man’s President: the first to show any respect to their rights as 

men.

8

” (BLIGHT, 2002: 83) 

 

 



No  discurso  de  Douglass  em  1876  no  Freedmen’s  Memorial  Monument  em 

Washington,  a  disputa  pelos  direitos  civis  dos  emancipados  estava  em  jogo.  O  Sul 

estava  se  reerguendo  da  devastação  da  guerra  e  da  Reconstrução.  Os  sulistas 

conseguiam  ocupar  cargos  políticos  centrais  e  segregar  os  negros.  Douglass  percebeu 

que  o  momento  do  discurso  seria  oportuno  para  perpetuar  as  conquistas  da 

emancipação.  Ele  admitiu  que  Lincoln  não  pretendeu  emancipar  os  escravos  no 

                                                            

8

  “nenhuma  classe...  tem  maiores  razões  para  lamentar  a  morte  de  Abraham  Lincoln,  e  por  desejar... 



perpetuar sua memória, do que tem as pessoas de cor (...) comparado com a longa linhagem de seus 

predecessores,  muitos  dos  quais  eram  meros  ...  instrumentos  servis  do  Poder  dos  Escravocratas, 

Abraham Lincoln, insuperável em sua devoção ao bem estar da raça branca, foi em certo sentido até 

agora  sem  exemplo,  enfaticamente,  o  presidente  do  homem  negro:  o  primeiro  a  demonstrar  algum 

respeito a seus direitos como homens.” 



 

Anais do XXVI Simpósio Nacional de História 

– ANPUH • São Paulo, julho 2011 

primeiro  ano  da  guerra  e  invocou  os  negros  a  lutar  pelos  seus  direitos.  Se  dirigiu  aos 



brancos como “you are the children of Abraham Lincoln” e aos negros como “we are at 

best  only  his  step-children;  children  by  adoption,  children  by  forces  of  circumstances 

and necessity” (BLIGHT,2002: 85) 

 

 



As  comemorações  dos  50  anos  da  batalha  de  Gettysburg  em  1913  giraram  em 

torno das reminiscências da Guerra como uma tragédia que levou a uma maior união e 

coesão  nacional  e  em  honra  aos  soldados  que  se  sacrificaram  para  salvar  uma 

problemática, mas essencialmente boa nação. As crises de uma nação dividida em torno 

da  escravidão,  definições  trabalhistas,  liberdade,  economia  política  e  o  futuro  dos 

territórios do Oeste foram deixados de lado.  

 

Depois  de  50  anos,  o  país  tinha  seu  primeiro  presidente  sulista,  Woodrow 



Wilson. Sua administração implantou um programa agressivo de segregação racial nos 

departamentos  públicos.  Um  dia  após  seu  discurso  em  Gettysburg  em  1913,  a 

segregação oficial nos correios começou e depois seguiu a todos os espaços públicos. 

 

A Causa Perdida do Sul na Guerra de Secessão tornou-se um mito. Seu apelo foi 



sentido  nacionalmente.  A  defesa  dos  sulistas  era  de  que  lutaram  pela  soberania  dos 

estados e pela diferença intrínseca entre brancos e negros. Os nortistas logo após o fim 

da  Guerra  consideraram  que  esse  direito  era  inato  a  todos  os  americanos.  A 

individualidade,  o  ímpeto  pessoal  e  a  defesa  pelas  diversas  formas  de  independência 

reconciliaram os antigos adversários. Encontraram nessa identidade comum seu esteio. 

No entanto, as leis segregacionistas foram a vitória do Sul. O Norte comprovou depois 

da  Guerra  que  a  luta,  mesmo  que  por  alguns  momentos  e  para  alguns  congressistas 

radicais,  não  era  a  favor  dos  emancipados  e  sim,  a  favor  da  União  dos  estados.  Uma 

memória  coletiva  dos  sulistas  como  vítimas  e  sobreviventes  em  seu  estilo  de  vida 

forjou, em grande parte, uma identidade em comum para que os americanos pudessem 

cicatrizar  as  feridas  abertas  da  guerra  em  torno  do  ideal  WASP.  A  América  seguiria 

unida  com  os  mesmos  ideais,  uma  nação  formada  e  dirigida  por  White  anglo-saxon 

protestants.  Em  grande  parte,  a  tendência  americana  foi  dissolver  as  raízes  do  conflito 

que levou a Guerra e constantemente relembrar essa experiência como unificadora. 

 



 

Anais do XXVI Simpósio Nacional de História 

– ANPUH • São Paulo, julho 2011 

 



A marcha de Washington em 1963 que comemorava o aniversário de 100 anos 

da Proclamação de Emancipação não poderia ser mais emblemática e poderosa. O mito 

se criou no local e tempo exatos. Martin Luther King proferiu seu famoso discurso “I 

have a dream” em que demandava num tom nostálgico o sonho de uma América sem 

preconceitos  e  que  proporcionasse  os  direitos  civis  a  todos  os  seus  cidadãos.  E  mais 

significativo,  que  proporcionasse  o  sonho  americano,  ou  seja,  a  identidade  americana 

em  torno  de  termos  como  individualidade,  democracia,  liberdade  e  progresso,  a  todos 

que lutassem por ela. 

 

No centésimo aniversário do início da Guerra de Secessão, o presidente católico 



John  Kennedy  superava  expectativas  num  país  que  elegeu  até  o  momento  somente 

brancos  protestantes.    O  país  estava  em  convulsão  na  década  de  60  do  século  XX.  O 

movimento  pela  defesa  dos  direitos  civis  dos  negros  era  apoiado  por  estudantes 

universitários  e  simpatizantes  brancos  do  Norte  que  enfrentavam  ameaças  e  violência 

crescente.  Os  Freedom  Riders  apoiados  pelo  Procurador  Geral  Robert  Kennedy 

conseguiram  o  fim  da  segregação  nos  meios  de  transporte.  Em  1962,  tropas  federais 

entraram  em  Oxford,  Mississippi,  onde  a  violência  da  multidão  e  a  resistência  do 

governador  ameaçavam  impedir  que  um  aluno  negro,  James  Meredith,  estudasse  na 

universidade estadual. Uma ameaça semelhante no Alabama também foi superada pela 

administração  dos  Kennedy  e  o  fim  da  segregação  universitária  começou  em  todos  os 

estados. 

 

Durante esses anos críticos, a memória da Guerra de Secessão entrou em colapso 



quando  os  negros  finalmente  conseguiam  seus  direitos  civis  e  os  simpatizantes  dos 

confederados viam sua “vitória” ameaçada. A segregação era a bandeira daqueles que 

insistiam em uma vitória moral dos confederados e o governo de Kennedy favorável a 

encorajar  os  movimentos  sociais  em  prol  dos  direitos  civis  era  sua  maior  ameaça.  Os 

Estados  Unidos  não  encontravam  uma  identidade  comum.  Alguns  queriam  o  país  dos 

brancos  e  empreendedores  individuais,  unidos  pelo  apreço  a  coragem  beligerante,  o 

individualismo  e  a  independência  política;  outros  comungavam  do  “americanismo” 

idealista de Luther King, um país democrático, livre e uno. As resistências violentas as 

conquistas  do  movimento  dos  direitos  civis  explodiam.  Em  Birmingham,  Alabama, 

foram  usados  cães  policiais  contra  manifestantes,  e  quatro  moças  negras  morreram 

quando  uma  igreja  sofreu  um  atentado  a  bomba,  em  Jackson,  Mississippi,  Medgar 



 

Anais do XXVI Simpósio Nacional de História 

– ANPUH • São Paulo, julho 2011 

Evers,  secretário  da  NAACP,  foi  assassinado  em  sua  casa.  Por  todo  o  baixo  Sul 



aumentavam  rapidamente  os  atos  de  violência  branca  impune  contra  negros  e  suas 

propriedades. Em 1964 o projeto de lei dos direitos civis de Kennedy foi aprovado no 

Congresso. 

 

 



No  aniversário  de  50  anos  da  Guerra  de  Secessão,  o  presidente  era  sulista  e 

consolidou a segregação racial; já no centenário, o católico Kennedy aprovou a lei dos 

direitos  civis.  E  nas  duas  maiores  conquistas  institucionais  dos  negros  nos  Estados 

Unidos, com Lincoln e Kennedy, o assassinatos de ambos serviram para dramatizar sua 

luta. Já no aniversário de 150 anos, o presidente é um negro. Poderíamos terminar esse 

artigo com um sentido de progresso, mas não é simples assim. Barack Obama conseguiu 

o posto mais alto no escalão americano e a consolidação dos direitos civis parece estar 

finalmente concretizada. Já o movimento tea bagger e outros republicanos não querem 

dar o braço a torcer. Constantemente Obama é acusado de ser unamerican, ou seja, não 

americano. Preconceito politicamente correto, alguns republicanos usualmente o acusam 

de não ser americano por não ter morado a vida inteira no país ou por ser socialista ao 

invés de simplesmente usar o velho preconceito contra os negros. A memória da Guerra 

de  Secessão,  pelas  notícias  apresentadas  acima,  parece  continuar  girando  em  torno  do 

vazio.  


 

 


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