Os 150 anos do início da Guerra de Secessão dos Estados Unidos da América: resistências, memória e esquecimento



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Anais do XXVI Simpósio Nacional de História 

– ANPUH • São Paulo, julho 2011 



Os 150 anos do início da Guerra de Secessão dos Estados Unidos da América: 



resistências, memória e esquecimento 

 

Aline Campos Paiva Moço



 

 



 

As  vésperas  da  comemoração  do  150º  aniversário  do  início  da  Guerra  de 

Secessão  presenciamos  uma  batalha  nos  diversos  meios  de  comunicação  e 

principalmente  nos  jornais  dos  Estados  Unidos  pela  memória  do  que  esta  guerra 

significa atualmente. Notícias e editorias expõem algumas das comemorações, desfiles, 

bailes e opiniões acerca do que os americanos querem recordar/comemorar e esquecer. 

No dia 20 de dezembro de 2010, por exemplo, homens e mulheres de Charleston 

organizaram  um  baile  solene,  digno  da  aristocracia  sulista  dos  Estados  Unidos,  o 

“Secetion  Ball”,  ou  Baile  da  Secessão.  Vestidos  a  caráter,  com  longos  vestidos  e 

imitações  de  uniformes  confederados,  eles  comemoraram  os  150  anos  do  início  da 

Guerra de Secessão dos Estados Unidos. Mas comemoraram o início da guerra e não o 

fim.  Estes  eventos  que  servem  para  relembrar  os  bailes  de  despedida  dos  soldados 

confederados remontam a decisão de uma parte do país em se separar da outra, o ímpeto 

corajoso  e  individualista  dos  sulistas  americanos  de  150  anos  atrás.  Mas  como  os 

perdedores  podem  comemorar  o  início  de  uma  guerra  que  matou  mais  americanos  do 

que todas as guerras que os Estados Unidos participaram desde então? 

 

As  comemorações  da  Guerra  de  Secessão  continuaram  em  Montgomery, 



Alabama  em  17  de  fevereiro  de  2011.  O  desfile  pretendia  comemorar  a  posse  de 

Jefferson Davis como o presidente da Confederação em 1861. O desfile começou perto 

do local onde Rosa Parks se recusou a ceder seu assento no ônibus a um homem branco 

em 1955, o que iniciou o boicote ao transporte público. Continuou pela avenida Dexter 

onde a Igreja Batista de Martin Luther King vivenciou momentos de lutas e resistência 

as violações dos direitos dos negros e que foi incendiada em 1956. O desfile seguiu pela 

Greyhound  Station  onde  os  Freedom  Riders  que  protestavam  contra  a  segregação  nos 

ônibus interestaduais foram espancados por uma multidão de homens brancos em 1961 

enquanto a polícia assistiu a tudo indiferente.

1

 



                                                            

 pesquisador do POLITHICULT, Mestre em História pela PUC-SP. 



1

 HAMPSON, Rick. Across the South, the civil war in an enduring conflict. USA Today, 17/02/2011 




 

Anais do XXVI Simpósio Nacional de História 

– ANPUH • São Paulo, julho 2011 

 



Além  das  comemorações,  outra  disputa  significativa  está  ocorrendo  nos 

tribunais.  O  megacenter  do  consumismo,  o  Walmart,  quer  expandir  sua  rede  no  local 

onde  foram  realizadas  as  batalhas  de  Wilderness  da  Guerra  de  Secessão.  Os 

historiadores apontam esse campo como um ponto crítico para a definição da guerra. A 

estimativa é de que 185 mil unionistas e confederados lutaram ali por três dias em 1864. 

Destes,  30  mil  morreram,  foram  feridos  ou  desapareceram.  A  guerra  terminou  onze 

meses depois. O Wilderness está perto da cidade de Bentoville, estado do Arkansas. A 

disputa  judicial  rola  desde  2009  entre  o  National  Trust  for  historic  Preservation  e  o 

Walmart.  Mas  até  aí,  nada  demais.  Os  historiadores  querem  preservar  um  patrimônio, 

um  local  de  memória,  e  o  Walmart,  um  empresa,  quer  expandir  seus  negócios.  O 

interessante nesse caso são as opiniões dos moradores. Um grupo não quer o Walmart e 

defende  a  manutenção  do  Wilderness  e  outro  quer  a  expansão  da  rede  Walmart  que 

promete  oferecer  300  empregos.  O  consumismo  americano  atenuado  pela  crise 

econômica  que  se  desenrola  desde  2008  aceitam  empreendimentos  como  este  e  o 

admiram,  mas  estes  mesmos  americanos  têm  uma  verdadeira  paixão  pela  história 

nacional, pelo patrimônio e pela memória.

2

 

 



 

A  singularidade  da  memória  da  Guerra  de  Secessão  dos  Estados  Unidos  será 

abordada neste artigo de acordo com David Blight, que ao estudar os 50 anos da Guerra 

de Secessão explora os conceitos de memória de Pierre Nora e Michael Kammen. Desse 

modo,  a  memória  é  tratada  como  um  local  sagrado  de  potências  absolutas  de  sentidos 

enquanto a história seria uma possessão da herança da identidade de uma comunidade. 

A memória seria propriedade e a história, interpretação. Enquanto a memória é passada 

através das gerações e depositada em objetos, locais sagrados e monumentos, a história 

é revisada e busca entender contextos e a complexidade de causas e efeitos.  

 

A  história  e  a  memória  devem  ser  tratadas,  ainda  a  partir  de  Blight,  como 



companheiras  conflitantes  na  nossa  busca  por  entender  a  consciência  do  passado.  Na 

confluência  da  memória  e  história,  encontraremos  o  que  é  excitante  e  problemático 

sobre  como  nações  e  comunidades  usam  o  passado.  Além  da  memória  individual 

construímos memórias coletivas sentidas através de mitos, tradições, histórias, rituais e 

interpretações  formais  da  história.  O  processo  das  sociedades  e  nações  se  lembrarem 

                                                            

2

 SZKOTAK,Steve. Walmart X Civil War site battle in court. The Associated Press, 23/01/2011 




 

Anais do XXVI Simpósio Nacional de História 

– ANPUH • São Paulo, julho 2011 

coletivamente  tem  uma  história  e  seus  processos  enriquecem  nosso  entendimento  da 



idéia de passado e nosso relacionamento com ele.  

Especialmente nos Estados Unidos, “memory is usually invoked in the name of 

nation, ethinicity, race, religion, or someone’s felt need of peoplehood. It often thrives 

on  grievance  and  on  the  elaborate  invention  of  traditions;  its  lifeblood  is  mythos”

3

 

(BLIGHT, 2002:4). 



 

 

 



A  disputa  pela  memória  da  Guerra  de  Secessão  começou  logo  após  o  fim  do 

conflito.  A  maioria  dos  homens  da  geração  de  1860  estavam  entranhados  com  os 

valores  vitorianos  de  coragem  e  beligerância.  Eles  aspiravam  ao  individualismo  e  os 

exemplos de bravura. Em suas relações internas e com os outros, as acusações, ameaças 

e desafios foram uma parte da conduta geral dos sulistas, enquanto que duelos, lutas e 

outras formas de violência se tornaram corriqueiras atividades da vida diária. 

 

As  motivações  para  a  beligerância  dos  sulistas  para  o  historiador  John  H. 



Franklin  podem  der  inferidas  a  partir  “das  condições  da  vida  de  fronteira,  o  perigo 

indígena,  o  forte  apego  do  povo  as  organizações  militares  e  o  vasto  movimento  de 

preparação nas duas décadas que precederam a guerra civil”. (FRANKLIN, 1999:11)7

4

 



Com relação ao estilo de vida dos sulistas em vista da instituição peculiar, como 

foi chamada a escravidão institucional, podemos apontar um dos mais profundos efeitos 

na modelagem da tradição beligerante sulista. Para todos os efeitos práticos, o senhor de 

escravos  era  a  fonte  da  lei  em  sua  fazenda;  e,  nas  pouco  freqüentes  instâncias  em  que 

ele  recorria  à  lei  do  estado  para  invocar  seu  direito  sobre  a  propriedade  humana,  a 

interpretação e execução deste estavam em suas mãos. Assim, o fazendeiro era obrigado 

a reputar as armas como complemento necessário a máquina de controle. 

 


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