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ESPECIFICIDADES DA CRIANÇA E CULTURAS INFANTIS



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Documento Curricular do Estado do RN Educacao Infantil ebook final 2018(1)
CAÇA PREDATORIA
ESPECIFICIDADES DA CRIANÇA E CULTURAS INFANTIS
Assume-se neste documento a criança como ser humano em fase ini-
cial da vida – condição humana de inacabamento que confere abertura 
de possibilidades e potencial de desenvolvimento intenso, com seme-
lhanças e especificidades em relação à indivíduos de outros ciclos de 
vida: vulnerabilidade-dependência do meio social; capacidade para 
aprender e se desenvolver, de produzir cultura e participar da vida so-
cial; integralidade de suas múltiplas dimensões humanas (afetividade, 
cognição e motricidade).
Com efeito, a infância deve sua diferença não à ausência de 
características (presumidamente) próprias do ser humano adulto, mas 
à presença de outras características distintivas que permitem que, para 
além de todas as distinções operadas pelo facto de pertencerem a 
diferentes classes sociais, ao género masculino e feminino, a seja qual 
for o espaço geográfico onde residem, à cultura de origem e etnia, todas 
as crianças do mundo tenham algo em comum (SARMENTO, 2007, p. 35).
Sobre a vulnerabilidade/dependência da criança em relação aos adultos 
(ou mais experientes), para sua subsistência e desenvolvimento, Wallon 
(2005) destaca que a criança pequena necessita de cuidados físicos e 


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Especificidades da Criança
psicológicos constantes. Depende do outro para satisfação de suas ne-
cessidades durante um largo período de tempo, tanto nos aspectos fí-
sicos (equilíbrio, locomoção, movimentos, alimentação, higiene e saú-
de, etc.), como nos aspectos cognitivos (construção de sua identidade 
e modos de exploração e significação do mundo/ da cultura) e afetivos 
(medo, raiva, choro, afeição, alegria, tristeza, etc.).
Vigotski (2007) explica que a vulnerabilidade não se refere à incapacida-
de ou fraqueza da criança, mas à sua condição como pessoa que, estan-
do ainda no início da vida, necessita da interação e cuidado de outros 
para que se desenvolva integralmente em todas as áreas. 
[...] a imaturidade relativa da criança, em contraste com outras 
espécies, torna necessário um apoio prolongado por parte dos 
adultos [...] por um lado ela depende totalmente de organismos 
imensamente mais experientes do que ela; por outro lado, ela colhe 
os benefícios de um contexto ótimo e socialmente desenvolvido para 
o aprendizado (VIGOTSKI, 2007, p. 166).
Nessa perspectiva, no cotidiano da Educação Infantil, compreender que 
ela é vulnerável, significa que, por exemplo, embora cuidando e protegen-
do-a para que não se machuque nas brincadeiras, para que não se queime 
nas horas de alimentar-se, para que não caia ao correr no pátio ou mesmo 
ao tentar subir numa árvore, ao mesmo tempo devemos possibilitar-lhe 
realizar tentativas e descobrir como se faz. Devemos ainda contribuir para 
que aprenda e consiga, progressivamente, superar os desafios, sabendo os 
riscos que a rodeiam em cada ação que experimenta e encontrando, com 
ajuda do outro, as alternativas que a ajudarão na superação dos proble-
mas. Para tudo isso é necessário que a criança sinta-se segura, sabendo 
que haverá alguém que poderá ajudá-la quando precisar.
Uma característica que diferencia/especifica a criança em relação aos adul-
tos é a globalidade, que reflete a forma holística pela qual ela aprende e se 
desenvolve. Para Zabalza (1998; 2008) a criança é um sujeito não setorizável. 
É inteira, se desenvolve como um todo integrado no qual o afetivo, o social 
e o cognitivo se constituem numa dinâmica intensa, não sendo possível, 
portanto, tratar isoladamente, no processo educativo, apenas uma dessas 
“partes”, priorizando um aspecto em detrimento dos demais. 
Por fim, Oliveira-Formosinho (2005) destaca que a Psicologia tem cha-
mado a atenção, nas últimas duas décadas, para o fato de que a compe-
tência da criança, desde muito pequena, tem uma latitude mais acentu-
ada do que a sua vulnerabilidade social aparenta. Ou seja, reconhece na 


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Especificidades da Criança
criança humana, suas competências sociopsicológicas que se manifes-
tam desde a mais tenra idade, por exemplo, nas suas formas precoces de 
comunicação – em cem linguagens.
Neste sentido, compreende-se que ao mesmo tempo em que a criança 
é vulnerável/dependente do adulto, ela é capaz de aprender e se de-
senvolver, desde que lhe sejam dadas as condições propícias. Todas as 
crianças têm capacidade/competência para aprender, salvo aquelas com 
alguma deficiência ou transtorno fora da normalidade. No entanto, o quê 
e como elas aprendem varia conforme as práticas culturais que viven-
ciam. Desta forma, é relevante o papel das interações com os objetos, 
o meio social e os signos, e a mediação do outro nas práticas culturais.
Sendo assim, tanto no âmbito da Psicologia como da Sociologia, destaca-
-se que outra importante especificidade infantil é a capacidade de produ-
zir cultura. Nas suas interações sociais, entre pares, as crianças produzem 
culturas infantis relativas à fantasia, à imaginação e à brincadeira. Segun-
do Kramer (2006, p. 16) “a cultura infantil é, pois, produção e criação. As 
crianças produzem cultura e são produzidas na cultura em que se inserem 
(em seu espaço) e que lhes é contemporânea (de seu tempo)”.
Sarmento (2007) afirma que: “todas as crianças, desde bebês, têm múl-
tiplas linguagens (gestuais, corporais, plásticas e verbais) por que se ex-
pressam”; têm “outras racionalidades”, construídas “nas interacções de 
crianças, com a incorporação de afetos, da fantasia e da vinculação ao 
real”; [...] “todas as crianças trabalham, nas múltiplas tarefas que preen-
chem seus cotidianos, na escola, no espaço doméstico e, para muitas, 
também nos campos, nas oficinas ou na rua” (SARMENTO, 2007, p. 36). 
Finalmente, segundo o autor, “[...] as crianças são “sujeitos activos, que 
interpretam e agem no mundo. Nessa acção, estruturam e estabelecem 
padrões culturais. As culturas infantis constituem, com efeito, o mais im-
portante aspecto na diferenciação da infância” (Ibid, p. 36).
Para que se compreenda o que significa cultura da infância, é necessário 
entender o que se assume como cultura. No campo da Antropologia, a 
terminologia “cultura” corresponde aos diversos modos de vida, valores 
e significados compartilhados por diferentes grupos e períodos histó-
ricos. Apresenta-se também, em práticas culturais, atividades coletivas 
que variam de grupo social para grupo social. É uma prática social en-
tendida não como um fazer (artes) ou estado de ser (civilização), mas 
como conjunto de práticas por meio das quais significados são produzi-
dos e compartilhados em um grupo (MOREIRA; CANDAU, 2007).


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A PRIMEIRA INFÂNCIA
Especificidades da Criança
Quando um grupo compartilha uma cultura, socializa um conjunto de 
significados construídos, ensinados e aprendidos por meio de suas lin-
guagens. É assim que também acontece na infância. A cultura é firmada 
a partir do que é produzido por e para as crianças através das produções 
simbólicas que estão associadas às interações, às brincadeiras, à fan-
tasia, etc. Assim, a capacidade que a criança tem de significar o mundo 
e constituir seus modos próprios de ser e de agir, contribuindo com a 
transformação dos espaços que ocupa, configura-se em cultura infantil. 
Nesse sentido, as crianças produzem cultura, pois são capazes de in-
ventar, ampliar os modos de se relacionar com o mundo e compreender 
como este funciona.
A Cultura da Infância é marcada pela ludicidade, produzida nas intera-
ções entre pares e intergeracionais, nas brincadeiras e linguagens in-
fantis. Caracteriza-se por seu caráter coletivo – é no interior do grupo 
de crianças que estas coletivamente produzem uma cultura singular. Os 
produtos da cultura infantil expressam esse caráter coletivo de participa-
ção. A materialidade do produto – fruto das interações coletivas – é tão 
importante quanto o processo de produção.



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