Olhares sobre o monstruoso na cartografia do século xvi: o Frontispício de Abraham Ortelius



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Olhares sobre o monstruoso na cartografia do século XVI: o Frontispício de Abraham Ortelius

Mesa temática: N.12. Otras trayectorias geográficas. Historias y aportes conceptuales de las geografías silenciadas

Tipo de trabalho: Apresentação (Ponencia)
Me. Deyse Cristina Brito Fabrício1

Prof. Dr. Antonio Carlos Vitte2


Resumo: O frontispício de Abraham Ortelius, presente no Theatrum Orbis Terrarum (1570) lança luz sobre questões de alteridade no século XVI e sua relação com o conhecimento geográfico a partir das alegorias que estabelece. Nele encontramos cinco figuras femininas que representam e incorporam os continentes tradicionalmente conhecidos do esquema tripartite (Europa, Ásia e África), além de englobar o Novo Mundo: América e Terra do Fogo – Terra Australis. Apesar desse Frontispício ser conhecido e difundido na História da Cartografia, pretendemos fazer revisão bibliográfica sobre o que foi dito a respeito da obra que se relaciona a enfoques pós-coloniais sobre o olhar do europeu cristão como soberano do mundo. Esse assunto tece ligações entre a teratologia e a própria imagem do feminino, inserindo questões de gênero e misoginia que emergem com base na alteridade e no papel dos mapas para designar o eu – observador, bem como o olhar sobre o Outro – observado. Para o entendimento da personificação da América no Frontispício é necessário nos determos nas concepções medievais das raças monstruosas de Plínio (século I d.C.) nos confins da Terra (bordas do ecúmeno) que irão exercer papel explicativo em mapas renascentistas. Essas raças serão transferidas para o Novo Mundo, favorecidas pelas dúvidas sobre sua ligação com a Ásia, pairando questões sobre uma massa de terra separada ou não. Essas heranças da Antiguidade e do Medievo foram mobilizadas para que houvesse um entendimento dos habitantes do Novo Mundo que minimamente se encaixasse em descrições e explicações da humanidade tão convincentes para o cristianismo. Pretende-se articular o tema do monstruoso associado majoritariamente ao feminino no Novo Mundo a partir da revisão bibliográfica da teratologia com enfoque pós-colonial, entendendo que foi exercido controle do corpo das mulheres não somente pela cartografia e a associação ao monstruoso pela vagina dentata e pelo canibalismo, mas também pelo próprio olhar que se dava aos novos estudos em anatomia do corpo feminino no século XVI. Para isso, articula-se a ideia da mulher supostamente como sedutora e símbolo do pecado que leva à destruição do homem, como na narrativa da Queda e a culpa de Eva no pecado original. Também procuramos articular como a própria cosmografia e seu olhar dominador sobre a esfera terrestre projetou os ideais europeus ao mundo. Nesse sentido, atribuir a monstruosidade ao feminino e às criaturas marinhas, como as sereias, que figuravam também em mapas renascentistas, é promover o silêncio através do ideal colonizador. Temos, então, dois tipos de monstruosidades que se complementam em mapas renascentista e que tendem a sugerir a sedução do feminino: as sereias como monstros marinhos e os canibais como resquícios das raças plinianas. A partir da revisão bibliográfica e da exemplificação com o Frontispício de Ortelius abrem-se discussões sobre a historiografia e a cartografia renascentistas, questionando uma suposta ruptura abrupta com concepções medievais à medida que os mapas incorporaram maior acurácia e conhecimentos sobre o mundo. A partir disso, podemos identificar visões profundamente religiosas e alegóricas nos mapas, apesar da sua filiação à geografia de Cláudio Ptolomeu (século II d.C.), expoente de projeções matemáticas na representação da Terra. Defendemos, então, que não houve ruptura abrupta com concepções medievais e que o humanismo nos Países Baixos concedeu bastante relevo aos estudos bíblicos, adotando a cartografia como chave para o entendimento da História narrada nas Escrituras. Estudar línguas e o hebraico, em particular, fez parte dos programas humanistas tendo como pano de fundo o estudo de localidades que viessem a contribuir para o melhor conhecimento da narrativa bíblica. Assim, é possível traçar explicações e fontes de influência em relação aos conhecimentos humanistas, uma vez que Ortelius citou claramente suas fontes textuais e os mapas em que se baseou. O Theatrum Orbis Terrarum constitui obra cartográfica monumental e a revisão bibliográfica é necessária para lançarmos vieses pós-coloniais para um tema aceito com “naturalidade” à época: tornar monstruoso o que não se conhece a partir do desejo de domínio. Trata-se de temática que dialoga com enfoques pós-coloniais, trazendo formas outras de pensar a História da Cartografia, a historiografia do Renascimento, a teratologia e a dominação colonial dentro da História do Pensamento Geográfico. Para isso, ainda articulamos a iconografia, pois o Frontispício de Ortelius é um prenúncio alegórico do próprio conteúdo cartográfico e da concepção do Theatrum Orbis Terrarum.

Palavras-chave: Abraham Ortelius; Teatro do Mundo; História do pensamento geográfico; Monstros; História da Cartografia.



1 Doutoranda do Programa de pós-graduação em Ensino e História de Ciências da Terra.

Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Geociências.

Bolsista de Pós-Graduação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)

E-mail de contato: deysecbf@gmail.com



2 Docente do departamento de Geografia. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Geociências

E-mail de contato: acarlosvitte@gmail.com.






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