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O Brasil no quadro do capitalismo ocidental do século XX



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O Brasil no quadro do capitalismo ocidental do século XX
Vertigem e aceleração do tempo. Essa seria, sem dúvida, a sensação mais forte experimentada pelos 
homens e mulheres que viviam ou circulavam pelas ruas do Rio de Janeiro na virada do século XIX para 
o século XX. Ainda que de forma menos contundente, o mesmo sentimento estaria presente nas prin-
cipais cidades brasileiras, que, tal como a cidade-capital, cresciam como nunca, tornavam complexas 
suas funções e recebiam levas de imigrantes europeus, que atravessavam o Atlântico em busca do so-
nho de fazer a América. Tudo parecia mudar em ritmo alucinante: a política e a vida cotidiana; as ideias 
e as práticas sociais; a vida dentro das casas e o que se via nas ruas.... [...]
Marasmo. E um tempo que parecia transcorrer tão lentamente que sua marcha inexorável mal era per-
cebida. Assim, nas fazendas, nas vilas do interior e nos sertões do país, essa mesma virada do século 
seria percebida. Ali, nada parecia romper uma rotina secular, firmemente alicerçada no privilégio, no 
arbítrio, na lógica do favor, na inviolabilidade da vontade senhorial dos coronéis e nas rígidas hierar-
quias assentadas sobre a propriedade, a violência e o medo. [...]
FERREIRA, Jorge. O tempo do liberalismo excludente: da Proclamação da República à Revolução de 
1930. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
A transição do modelo de produção escravocrata para o formato de trabalho assalariado, revelou um 
cenário marcado por uma série de opressões em relação aos operários, formas de controle e obstácu-
los à sua organização. Ao lado das antigas relações paternalistas, da visão negativa do trabalho braçal 
e das rivalidades étnicas e de nacionalidade, novas ondas migratórias aumentavam a competição pelo 
emprego e a demanda por moradia num Rio de Janeiro que se modernizava. Podemos acrescentar ain-
da a imposição de normas de conduta e valores burgueses, interferindo no espaço de lazer, nas rela-
ções familiares e até mesmo amorosas do trabalhador.
As contradições existentes nos espaços urbano e rural demonstram como foi complexo o universo bra-
sileiro nos primeiros anos do século XX. A perpetuação de uma elite rural no controle da máquina públi-
ca convivia com uma classe média urbana emergente e desejosa de mudanças políticas e sociais, fruto 
da sensibilidade em relação às transformações do mundo ao redor. Assim, a República Oligárquica, 
maior porção de período da história política brasileira, se inicia com a hegemonia dos coronéis e seus 
latifúndios, mas se encerra com uma perspectiva urbana construída por uma nova elite seduzida pelas 
novidades das cidades.
A implantação de uma dinâmica capitalista, desde o final do século XIX, materializada nas atividades 
associadas à exportação de café, como casas bancárias, estradas de ferro, bolsa de valores, etc., vão se 
consolidando como a base produtiva. Isso faz com que parte da oligarquia agrária se transforme numa 
florescente burguesia, estabelecendo novas relações sociais e mudando desde as características do 
mercado de trabalho até o funcionamento do Estado.
O negro cativo e posteriormente liberto, de acordo com a essa nova perspectiva econômica, se tornava 
uma peça obsoleta. No contexto da Primeira República, os ex-escravizados além de serem discrimi-
nados pela cor, somaram- se à população pobre e formaram os indesejados dos novos tempos, os de-
serdados da República. O aumento do número de desocupados, trabalhadores temporários, mendigos 
e crianças abandonadas nas ruas redunda também em aumento da violência, que pode ser verificada 
pelo maior espaço dedicado ao tema nas páginas dos jornais. 
Como salienta Florestam Fernandes: a preocupação pelo destino do escravizado se mantivera em foco 
enquanto se ligou a ele o futuro da lavoura. Ela aparece nos vários projetos que visaram regular, legal-
mente, a transição do trabalho escravo para o trabalho livre, desde 1823 até a assinatura da Lei Áurea. 
(...) Com a abolição pura e simples, porém, a atenção dos senhores se volta especialmente para seus 


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próprios interesses. (...) A posição do negro no sistema de trabalho e sua integração à ordem social 
deixam de ser matéria política. Era fatal que isso sucedesse.
FERNANDES Florestan. A integração do Negro na sociedade de classes. Dominus Editora. São Paulo, 2 
vols., 1965. 19 Vol. “O legado da raça branca”. 29 Vol. “No limiar de uma nova era”.
A nova situação levou os libertos a procurarem melhores alternativas para a sobrevivência. As migra-
ções foram uma delas. Muitos ex-escravizados acabaram abandonando as fazendas e mudaram-se para 
outras ou então foram para cidades. Essas migrações aconteceram por múltiplos fatores, para dis-
tanciar-se dos locais em que foram escravizados, para encontrar parentes ou para procurar melhores 
oportunidade de salários.
Para além dos efeitos da Lei Áurea, trabalhadores rurais do Brasil ainda vivem atualmente sob a ameaça 
do cativeiro. Mudaram-se os rótulos, ficaram as garrafas. Marx afirmava que o “morto se apodera do 
vivo”. Com base na permanência da escravidão sob outras formas, constata-se que não são apenas as 
velhas formas que se inserem nas novas, mas as novas recorrem às velhas sempre que possível.
É importante destacar que os movimentos sociais foram importantes instrumentos de resistência a 
essa exclusão social. Reflexos de uma estrutura social caracterizada pela concentração de renda e pela 
injustiça, esses movimentos desafiaram as autoridades, deixando claro que os grupos sociais brasi-
leiros não poderiam ser reconhecidos pela passividade e pelo conformismo. Muito pelo contrário, o 
dinamismo dos movimentos, vazios nos seus projetos ideológicos, mas dispostos a se oporem à ordem 
estabelecida, foi um indício claro da dinâmica social do período.
Movimentos operários e sindicais, no teatro, na educação (fundação de escolas para negros), em asso-
ciações carnavalescas, na música e no futebol é perceptível a ideia da resistência. Todos esses setores 
lutaram contra a discriminação e o preconceito, como, por exemplo, na proibição governamental da 
inclusão de jogadores negros na seleção nacional em 1920 e na tentativa de impedir a viagem à Paris 
do grupo musical Oito Batutas, liderado por Pixinguinha, em 1922. A Frente Negra Brasileira (FNB), as-
sociação que existiu de 1931 a 1937 mobilizou milhares de negros e negras a lutarem por seus direitos
especialmente quanto ao acesso à educação. 


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