Oficina de história: volume 1



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Professor(a): A arte italiana sofreu muita influência da arte bizantina. A religião era a principal inspiração dos artistas (tanto em Bizâncio quanto na Europa) e predominava, na pintura, a écnica dos afrescos (um tipo de pintura mural em que a tinta é aplicada sobre a argamassa úmida). Muitos artistas
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eram mestres nessa técnica. A arte italiana do fim do século XIII e do século XIV difere fundamentalmente de toda produção do restante da Europa na mesma época. Enquanto em outros países as obras eram predominantemente anônimas, na Itália havia numerosos pintores e escultores conhecidos, que deixaram um conjunto de obras documentadas ou de atribuição indiscutível.

O pintor florentino Giotto di Bondone é considerado o precursor no uso da perspectiva, o jogo de luz e sombra, harmonia cromática, volume e curvas nas formas humanas. Apesar da peste negra que devastou Florença e grande parte da Europa no século XIV, a arte italiana e as inovações de Giotto influenciaram muitos artistas e se espalharam pela Europa.

A lamentação de Cristo, da Igreja de São Pantaleão de mestre-artesão de Gorno Nerezi (Macedônia), nos apresenta uma espécie de fusão entre vida e morte, na imagem da Virgem Maria que comovida lamenta a morte do filho embalando-o entre as pernas. A composição, como um todo, surpreende pela emoção, qualidade que dificilmente se esperava encontrar em trabalhos desse período. Ou seja, um dinamismo desconhecido na tradição bizantina antiga. Já não se encontra a severidade, mas o esboço de uma expressão de tristeza contida que evocam as figuras, junto com uma sutileza de movimento, gestualidade e de cor. Porém a composição ainda atende a uma série de regras da arte cristã medieval e, em especial, da arte bizantina, como: a bidimensionalidade (perspectiva e volume são ignorados); o recurso de fundo pouco definido; recurso ao dourado; uso de cores cheias; falta de rigor anatômico. Encontramos os mesmos cânones (regras) pictóricos: espaços idealizados em fundos dourados, figuras estilizadas ornadas com coroas para representar Cristo, Maria, os santos e os mártires e paisagens mais inclinadas para o abstrato, em que uma árvore simbolizava um bosque, uma pedra, uma montanha, uma onda, um rio. O Cristo morto apresenta os cânones do Pantocrator (auréola crucífera, rosto alongado, sobrancelhas arqueadas, nariz longo, olhos grandes, barba, cabelos longos e recolhidos, seu corpo se destaca no fundo dourado).

Em A lamentação de Cristo, Giotto utiliza a composição para transmitir a angústia da cena em que a mãe e seus seguidores lamentam sua morte. A escarpa que desce da direita para a esquerda, assim como os braços de João Batista jogados para trás, contribui para dirigir o olhar para a figura de Cristo. A árvore solitária é um símbolo medieval da morte e pode também representar a Árvore do Conhecimento do Jardim do Éden. Enquanto as figuras terrenas estão imobilizadas pela angústia, os anjos se movimentam livres no céu. Mas seus rostos repetem a dor que se vê na terra. Os anjos têm expressões e poses diferentes e dirigem o olhar para Maria e Jesus. O foco emocional da cena está fora do centro, na expressão de dor da Virgem Maria. A tensão de seu rosto contrasta com a placidez da morte no rosto de Cristo, especialmente porque ela está numa postura desajeitada, inclinada num gesto de carinho.

O afresco do mestre-artesão de Gorno Nerezi de 1164, precede em quase 150 anos o afresco de Giotto em Pádua. Porém, os artistas bizantinos do leste desempenharam um papel formativo no desenvolvimento da arte renascentista.

2. O “ar da cidade” pode ser entendido como o convívio nos espaços urbanos, o estímulo à fuga de servos que tornava o homem livre como uma libertação das estruturas rurais do mundo medieval. Os centros urbanos, em luta por seus direitos, libertaram-se, em parte, da tutela feudal. As taxas cobradas em dinheiro, as atividades bancárias, a força política dos comerciantes (burguesia), o crescimento das corporações de ofícios, a retomada com mais vigor das rotas de comércio transcontinental impulsionaram um modo de viver associado ao convívio urbano.

3. Esse quadro permite um envolvente exercício. É recomendado que os alunos tentem decifrar e apontar seus elementos. Trata-se de um exercício aberto, onde as conclusões dependem muito da capacidade de observação e interpretação dos estudantes. Segue-se uma interpretação sumária da obra:

O painel central do tríptico O jardim das delícias terrenas apresenta-se dividido em quatro planos. Três desses planos podem ser associados às três ordens sociais do feudalismo. No plano inferior, o grupo mais numeroso representa os trabalhadores. No centro, a nobreza. Mais ao alto, o clero. Por fim, mais distante, a imensidão celeste remetendo ao Reino de Deus.

No plano clerical, há uma grande quantidade de imagens verticalizadas, que criam espaços interiores, que simbolizam igrejas e catedrais. O lago, no centro desse plano, é formado pela confluência dos quatro rios do Paraíso. Em suas águas banham-se seres imaginários, inclusive sereias.

No centro, vemos animais montados e mulheres nuas num tanque que se assemelha à Fonte da Juventude, como que cortejadas pelo desfile da aristocracia, que se processa ao seu redor.

No plano dos trabalhadores há pequenos espaços fechados, de diminutas habitações e um número maior de pessoas. A imagem é de confusão entre homens, mulheres, frutos e animais. Alguns carregam peixes mortos, símbolo do pecado. O ambiente é de luxúria e lascívia. À esquerda aparece uma coruja, símbolo de heresia e mau agouro.

Nesses três planos homens e mulheres entregam-se aos prazeres da carne: sexo e comilança. Todos estão nus e os alimentos são enormes, indicando o desejo do homem medieval de viver numa terra de abundância e fertilidade.


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No entanto, o quadro apresenta uma visão negativa desses desejos, que são representados numa verdadeira orgia, onde as três ordens são envolvidas e, assim, corrompidas pelo pecado. Trata-se de uma crítica às práticas sociais e à corrupção dos costumes no final do século XV, poucos anos antes do desencadeamento da Reforma Protestante no centro e norte da Europa.






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