Oficina de história: volume 1


II.4 - Dois autores, um desafio comum



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II.4 - Dois autores, um desafio comum

Além do marco comemorativo dos 500 anos, o ano de 1992, distingue-se pela publicação de duas obras individuais de enorme relevância nessa vaga de reflexões epistemológicas sobre a HC: os livros L’empire des cartes, (JACOB, 1992) e The power of maps (WOOD, 1992). Em seu erudito e desafiador ensaio, o pesquisador francês Christian Jacob considerou que o novo programa da HC somava aos seus objetos tradicionais – descobertas progressivas das partes do globo, fontes de informação e dos modelos, datação e atribuição de documentos – um especial interesse pela dimensão técnica da carta e pelo contexto social – meio dos cartógrafos, dos gravadores, dos impressores, das livrarias, dos encomendantes e dos usuários. Jacob desenvolveu largo esforço teórico na conceituação do mapa, percebido como um artefato resultante de um conjunto de ope-


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rações e escolhas gráficas (geometria, traços, imagens figurativas, ornamentos, escrita), que acionam códigos de representação organizados em uma verdadeira linguagem. Esse artefato é um meio de comunicação que permite a transmissão visual de informações que se prestam também a manipulações retóricas (persuasão, engano, sedução, decisão). Tanto por sua complexidade semiótica como pelas instâncias sociais que o produzem, utilizam ou controlam, o mapa é um instrumento de duplo poder, no qual a eficácia não se reduz à representação objetiva de um fragmento da superfície. Como acontece com a linguagem escrita e falada, não se presta atenção à carta no seu uso cotidiano ou técnico. A condição de sua eficácia intelectual está precisamente nessa suposta transparência. Jacob discutiu também as possibilidades de um novo programa epistemológico para a HC. Será sempre preciso conduzir as pesquisas na dimensão diacrônica, mas repensando o estatuto da evolução, das mudanças e do chamado progresso. Jacob propôs uma história que privilegiasse o objeto por ele mesmo, e não pelos seus conteúdos geográficos. Uma história do mapa e não uma história da descoberta da Terra.

O livro The Power of Maps, do americano Denis Wood, não é propriamente um trabalho de ou sobre a HC, e sim um contundente ensaio sobre as bases epistemológicas da própria cartografia em fins do século XX. Mas a perspectiva crítica de Wood, que apontou diretamente para a relação entre mapa e poder, pode ser largamente aplicada às produções e práticas cartográficas mais antigas. Questionando a pretensa neutralidade dos cartógrafos, o autor mostrou como a naturalização dos mapas na cultura ocidental, ou seja, a aceitação de sua autoridade como perfeita representação do território e fonte de informação objetiva, foi uma construção social e histórica. Para Wood, o mapa não registra silenciosa e inocentemente uma paisagem, mas responde a atos deliberados de identificação, seleção e nomeação do que é observado, mostrando ou escondendo elementos de acordo com os interesses em jogo no projeto cartográfico.




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