Oficina de história: volume 1



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Sobre leitura e leitores

DARNTON, R. “História da leitura”. In: BURKE, P. (Org.). A escrita da História. São Paulo: Editora da Unesp, 1991. p. 203-211.

[...] Em suma, seria possível desenvolver uma história e também uma teoria da reação do leitor. Possível, mas não fácil; pois os documentos raramente mostram os lei-
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tores em atividade, moldando o significado a partir dos textos, e os documentos são, eles próprios, textos, o que também requer interpretação. Poucos deles são ricos o bastante para propiciar um acesso, ainda que indireto, aos elementos cognitivos e afetivos da leitura, e alguns poucos casos excepcionais podem não ser suficientes para se reconstruírem as dimensões interiores dessa experiência. Mas os historiadores do livro sempre exibiram uma grande quantidade de informação sobre a história externa da leitura. Tendo estudado a leitura como um fenômeno social, podem responder a muitas das perguntas de “quem”, “o quê”, “onde” e “quando”, o que pode ser de grande ajuda na abordagem dos mais difíceis “por quês” e “comos”.

O estudo de quem lê o quê em diferentes épocas recai em dois tipos principais: o macro e o microanalítico. A macroanálise floresceu acima de tudo na França, onde se nutre de uma poderosa tradição de história social quantitativa. Henri-Jean Martin, François Furet, Robert Estivals e Frédéric Barbier traçaram a evolução dos hábitos de leitura desde o século dezesseis até os dias de hoje, utilizando séries de longo prazo, construídas a partir do dépôt legal, dos registros de direitos do livro e da publicação anual da Bibliographie de la France. [...]

[...] Toda essa compilação e computação proporcionaram algumas orientações para os hábitos de leitura, mas as generalizações parecem às vezes amplas demais para serem satisfatórias. A novela, como a burguesia, parece sempre estar em ascensão; e os gráficos caem nos pontos esperados – mais especialmente durante a Guerra dos Sete Anos na feira de Leipzig, e durante a Primeira Guerra Mundial na França. A maior parte dos quantificadores classifica suas estatísticas em categorias vagas como “arte e ciências” e belles-lettres, que são inadequadas para se identificarem fenômenos particulares como a Controvérsia da Sucessão, o Jansenismo, o Iluminismo ou o Renascimento Gótico – exatamente os temas que atraíram mais atenção entre os estudiosos de literatura e os historiadores culturais. A história quantitativa dos livros precisará refinar suas categorias e aguçar seu foco, antes de provocar um impacto importante nas correntes tradicionais da erudição. [...]

[...] Apesar de toda a sua variedade e ocasionais contradições, os estudos microanalíticos sugerem algumas conclusões gerais, algo semelhante à “desmistificação do mundo” de Max Weber. Mas isso pode parecer por demais cósmico para servir de consolo. Aqueles que preferem a precisão podem recorrer à microanálise, embora essa em geral se dirija ao extremo oposto – o excesso de detalhes. Podemos apresentar centenas de listas de livros nas bibliotecas, desde a Idade Média até nossos dias, mais do que qualquer um poderia conseguir ler. Mas a maioria de nós concorda que um catálogo de uma biblioteca particular pode servir como um perfil do leitor, ainda que não tenhamos lido todos os livros que nos pertencem e tenhamos lido muitos livros que nunca adquirimos. Esquadrinhar o catálogo da biblioteca de Monticello é inspecionar as provisões da mente de Jefferson. E o estudo das bibliotecas particulares tem a vantagem de unir o “o quê” com o “quem” da leitura. [...]

[...] Ele deve, por isso, buscar outras fontes. As listas de subscrição têm sido as preferidas, embora em geral cubram apenas os leitores abastados. [...] Mas mesmo durante sua Blütezeit [período de florescimento], as listas de subscrição não proporcionam uma visão acurada do leitor. Deixavam de lado os nomes de muitos subscritores, incluíam outros que atuavam como patronos e não como leitores, e normalmente representavam mais a venda de alguns empresários do que os hábitos de leitura do público educado, segundo uma crítica um tanto devastadora que Reinhard Wittmann dirigiu contra a pesquisa das listas de subscrição.[...]

[...] Os registros das bibliotecas de empréstimo oferecem uma oportunidade melhor para se fazerem conexões entre os gêneros literários e as classes sociais, mas poucos deles sobrevivem. [...] Os microanalistas fizeram muitas outras descobertas – tantas, de fato, que se defrontam com o mesmo problema dos macroquantificadores: como reuni-las? A disparidade da documentação – catálogos de leilão, registros notariais, listas de subscrição, registros de bibliotecas – não tornam a tarefa mais fácil. As diferenças nas conclusões podem ser atribuídas mais às peculiaridades das fontes que ao comportamento dos leitores [...]

[...] Assim, já sabemos bastante sobre as bases institucionais da leitura. Temos algumas respostas para as perguntas de “quem”, “o quê”, “onde” e “quando”. Mas os “por quês” e os “comos” nos escapam. Ainda não descobrimos uma estratégia para o entendimento do processo interno, através do qual os leitores compreendem as palavras. Nem mesmo entendemos a maneira como nós mesmos lemos, apesar dos esforços dos psicólogos e neurologistas para traçarem os movimentos dos olhos e mapearem os hemisférios do cérebro. [...] Em primeiro lugar, creio que seria possível aprender mais sobre os ideais e as suposições subjacentes à leitura no passado. Poderíamos estudar as descrições contemporâneas da leitura na ficção, em autobiografias, escritos polêmicos, cartas, pinturas e gravuras para descobrir algumas noções básicas daquilo que as pessoas imaginavam ocorrer quando liam [...] ◼






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