Oficina de história: volume 1



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Sobre história oral

BOM MEIHY, J. C. S. Manual de história oral. São Paulo: Loyola, 2002. p. 13-19.

É difícil definir história oral em poucas palavras, pois essa prática, além de nova, é bastante dinâmica e criativa, o que torna provisória qualquer conceituação. Pode-se, no nível material, considerar que história oral consiste em gravações premeditadas de narrativas pessoais, feita diretamente de pessoa a pessoa, em fitas de vídeo. Tudo prescrito pela existência de um projeto.

História oral é um recurso moderno usado para a elaboração de documentos, arquivamento e estudos referentes à experiência social de pessoas e de grupos. Ela é sempre uma história do tempo presente e também reconhecida como história viva. A História oral é uma prática de apreensão de narrativas feita por meio de meios eletrônicos e destinada a recolher testemunhos, promover análises


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de processos sociais do presente e facilitar o conhecimento do meio imediato. A formulação de documentos mediante registros eletrônicos é um dos objetivos da história oral que, contudo, podem também ser analisados a fim de favorecer estudos de identidade e memória cultural.

A História oral é um conjunto de procedimentos que se iniciam com a elaboração de um projeto e continuam com a definição de um grupo de pessoas (ou colônias) a serem entrevistadas. O projeto prevê: planejamento da condução das gravações; transcrição, conferência da fita com o texto; autorização para o uso; arquivamento e, sempre que possível, publicação dos resultados, que devem, em primeiro lugar, voltar ao grupo que gerou as entrevistas. [...]

[...] A História oral mantém um compromisso de registro permanente que se projeta para o futuro sugerindo que outros possam vir a usá-la de diferentes maneiras; por isso, é importante separar as etapas: gravações de entrevistas, estabelecimento de textos e, finalmente, suas análises. A primeira etapa é obrigatória por ser germinal, a segunda e a terceira dependem das determinações estabelecidas no projeto. Pode-se dizer que três elementos constituem a relação mínima da história oral, e um não faz sentido sem os outros: 1) o entrevistador; 2) o entrevistado; 3) a aparelhagem de gravação. Todo projeto de história oral precisa ter no mínimo um diretor ou coordenador, que pode ser também o executante do processo. É comum existir projetos de grande alcance, que demandam mais de um entrevistador, além de transcritor e revisor. Boa parte dos projetos é feita por uma só pessoa, que assume a responsabilidade de todas as tarefas. Os entrevistados são as pessoas ouvidas em um projeto e devem ser reconhecidos como colaboradores. As escolhas e todos os procedimentos de contato e condução das entrevistas devem ser feitos de acordo com o projeto. Comumente se fazem entrevistas individuais, realizadas com gravadores ou câmaras portáteis, de preferência com microfones embutidos a fim de tornar menos ostensivo o ato da gravação. [...]

[...] A presença do passado no presente imediato das pessoas é a razão de ser da história oral. Nessa medida, ela não só oferece uma mudança do conceito de história, mas, mais do que isso, garante sentido à vida dos depoentes e leitores, que passam a entender a sequência histórica e se sentem parte do contexto em que vivem.

[...] Oralidade é o conjunto amplo de expressões verbais e compreende a mais larga gama de manifestações sonoras humanas. Pode-se dizer que, desde que se organize em códigos comunicantes, a oralidade é o repertório dos sons humanos articulados e caracterizados pela existência em sentido puro e precário. Deve-se notar a distinção entre oralidade e fontes orais. Apesar de ser comum a confusão entre as duas manifestações, elas são diferentes: a primeira não é gravada; a segunda só é “fonte” porque foi registrada mecanicamente. Fontes orais são as diversas manifestações sonoras, gravadas, decorrentes da voz humana e que se destinam a algum tipo de registro passível de arquivamento ou de estudos. As fontes orais são sempre decorrentes de projetos de gravação, como bancos de entrevistas ou pesquisas dirigidas. [...].

[...] Documentação oral é mais que fonte oral ou que história oral; é todo e qualquer recurso que guarda vestígios de manifestações de oralidade. Entrevistas esporádicas, gravações de músicas, registros sonoros de ruídos, absolutamente tudo que é gravado e preservado se constitui em documento ou fonte oral. Portanto, no âmbito dessas manifestações, história oral é um procedimento mais específico e, sobretudo, programado; é o resultado de entrevistas indicadas em projetos previamente existentes. Por outro lado, muito do que é verbalizado ou integrado à oralidade, como o gesto, a lágrima, o riso ou as expressões faciais – na maioria das vezes sem registros verbais garantidos em gravações – pode integrar os discursos que devem ser trabalhados para dar sentido ao que foi expresso numa entrevista oral. Muitos autores usam fontes orais integradas às histórias orais. Isso, aliás, é bastante comum nos casos de projetos que envolvam músicos e folcloristas, que sempre se valem de exemplos consagrados na transmissão oral. Nessas alternativas, pessoas narram suas vidas e contam como algumas tradições musicais integraram suas histórias pessoais. [...]

[...] A literatura oral é outra manifestação eloquente das fontes orais, compreendendo-se por literatura oral todas as narrativas transmitidas oralmente e com estrutura de conto, poesia, “causos” não escritos e mantidos na tradição popular; esse manancial constitui a base da organização cultural de um grupo que, sem isso, não teria garantida sua identidade. No caso da literatura oral propriamente dita, convém destacar no Brasil o significado do cordel – os poemas chamados de “histórias” ou “romances” conforme seu conteúdo político ou de caso de amor – como manifestação da poesia popular [...]

[...] Ainda que alguns bons trabalhos de história oral tenham derivado de experiências clínicas, as entrevistas de consultórios de psicólogos ou de psiquiatras em si só valem como motivos para a história oral quando se enquadram em projetos [...] ◼




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