Oficina de história: volume 1


A crítica dos documentos: em direção aos documentos/ monumentos



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3. A crítica dos documentos: em direção aos documentos/ monumentos

Não nos devemos contentar com esta verificação da revolução documentária e com uma reflexão crítica sobre a história quantitativa de que esta revolução é o aspecto mais espetacular. Recolhido pela memória coletiva e transformado em documento pela história tradicional (“na história, tudo começa com o gesto de pôr de parte, de reunir, de transformar em ‘documentos’ certos objectos catalogados de outro modo”, como escreve Certeau [1974]), ou transformado em dado nos novos sistemas de montagem da história serial, o documento deve ser submetido a uma crítica mais radical. [...]

Mas os fundadores dos “Annales” davam início a uma crítica em profundidade da noção de documento. “Os historiadores ficam passivos, demasiado frequentemente, perante os documentos, e o axioma de Fustel (a história faz-se com textos) acaba por se revestir para eles de um sentido deletério”, afirmava Lucien Febvre [1933], que lamentava não já a ausência de sentido crítico nos historiadores – que praticavam todos, mais ou menos, a crítica dos documentos preconizada pela École des Chartes e a história positiva do século XIX –, mas o fato de que se pusesse em discussão o documento enquanto tal. Por isso, Marc Bloch teria escrito: “Não obstante o que por vezes parecem acreditar os principiantes, os documentos não aparecem, aqui ou ali, pelo efeito de um qualquer imperscrutável desígnio dos deuses. A sua presença ou a sua ausência num fundo arquivístico, numa biblioteca, num terreno, dependem de causas humanas que não escapam de forma alguma à análise, e os problemas postos pela sua transmissão, longe de serem apenas exercícios de técnicos, tocam, eles próprios, no mais íntimo da vida do passado, pois o que assim se encontra posto em jogo é nada menos do que a passagem da recordação através das gerações” [1941/42].

Mas era necessário ir mais longe.

Já Paul Zumthor [1960] tinha aberto a via a novas relações entre documento e monumento. Tratando-se de um muito pequeno número de textos, os mais antigos em língua francesa (século VIII/IX), ele propôs uma distinção entre os monumentos linguísticos e os simples documentos. Os primeiros respondem a uma intenção de edificação, “no duplo significado de elevação moral e de construção de um edifício”, ao passo que os segundos respondem “apenas às necessidades da intercomunicação corrente”. Confrontando os textos latinos e os testemunhos em língua vulgar da época, Paul Zumthor quase identificou escrito e monumento: “O escrito, o texto é mais frequentemente monumento do que documento”. Mas, mais adiante, admite “que houve monumentos a nível de expressão vulgar e oral” e que existiram “tradições monumentais orais” [ibid.]. O que distingue a língua monumental da língua documental é “esta elevação, esta verticalidade” que a gramática confere a um documento, transformando-o em monumento. Por isso, a língua vulgar, que provisoriamente permaneceu no plano documental, só pouco a pouco se transformará em “francês monumental” [ibid.]. Por outro lado, duas observações de Zumthor conduzem-nos ao centro do problema. “O futuro ‘francês’ foi identificado como uma entidade linguística particular na medida em que passou... conforme as necessidades do verdadeiro direito do rei, ao estado monumental”. E ainda: “O testemunho dos monumentos mais numerosos, mais antigos e mais explícitos revela-nos quanto deve ter influído, na tomada de consciência linguística da Alta Idade Média, a revolução política que então se operava nos reinos mais orgânicos da România: Gália merovíngia, Espanha visigótica, Lombardia” [ibid.].

Assim, Paul Zumthor descobria o que transforma o documento em monumento: a sua utilização pelo poder. Mas hesitava em transpor o fosso que consistia em reconhecer em todo o documento um monumento. Não existe um documento objetivo, inócuo, primário. A ilusão positivista (que, bem entendido, era produzida por uma sociedade cujos governantes tinham interesse em que não houvesse mudanças), a qual via no documento uma prova de boa-fé, desde que fosse autêntico, pode muito bem encontrar-se ao nível dos dados mediante os quais a atual revolução documentária tende a substituir os documentos.

A concepção do documento/monumento é, pois, independente da revolução documentária e entre os seus objetivos está o de evitar que esta revolução necessária se transforme num derivativo e desvie o historiador do seu dever principal: a crítica do documento – qual-
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quer que ele seja – enquanto monumento. O documento não é uma mercadoria invendida do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de força que nela detinham o poder. Só a análise do documento enquanto documento permite à memória coletiva recuperá-lo e ao historiador usá-lo cientificamente, isto é, com pleno conhecimento de causa.

Michel Foucault [1969] colocou a questão em termos duros. Antes de mais, ele declara que os problemas da história se podem resumir numa só palavra: “o processo ao documento”. E logo recorda: “O documento não é o feliz instrumento de uma história que seja em si própria, e com pleno direito, memória: a história é um certo modo que uma sociedade tem de dar estatuto e elaboração a uma massa documentária da qual não se separa” [ibid.].

Segue-se-lhe a definição de revolução documentária em profundidade e da nova tarefa que se apresenta ao historiador: “A história, na sua forma tradicional, dedicava-se a ‘memorizar’ os monumentos do passado, a transformá-los em documentos e em fazer falar os traços que, por si próprios muitas vezes não são absolutamente verbais, ou dizem tacitamente coisas diferentes do que dizem explicitamente; hoje, pelo contrário, a história é que transforma os documentos em monumentos e que, onde dantes se decifravam traços deixados pelos homens e se descobria em negativo o que eles tinham sido, apresenta uma massa de elementos que é preciso separar, reagrupar, tornar pertinentes, relacionar, constituir em conjunto” [ibid.] [...]

A intervenção do historiador que escolhe o documento, extraindo-o do conjunto dos dados do passado, preferindo-o a outros, atribuindo-lhe um valor de testemunho que, pelo menos em parte, depende da própria posição na sociedade da sua época e da sua organização mental, insere-se numa situação inicial que é ainda menos “neutra” do que a sua intervenção. O documento não é inócuo. Antes de mais, é o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziu, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, também pelo silêncio. O documento é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento (para evocar a etimologia) que traz devem ser em primeiro lugar analisados desmistificando o seu significado aparente. O documento é monumento. É o resultado do esforço realizado pelas sociedades históricas para impor ao futuro – voluntária ou involuntariamente – determinada imagem de si próprias. No limite, não existe um documento-verdade. Todo o documento é mentira.

Cabe ao historiador não passar por ingênuo. Os medievalistas, que tanto trabalharam para construir uma crítica – sempre útil, de fato – do falso, devem superar esta problemática porque qualquer documento é, ao mesmo tempo, verdadeiro – incluindo, e talvez sobretudo, os falsos – e falso, porque um monumento é em primeiro lugar uma roupagem, uma aparência enganadora, uma montagem. É preciso começar por desmontar, demolir esta montagem, desestruturar esta construção e analisar as condições de produção dos documentos-monumentos.

Ora, esta desmontagem do documento-monumento não pode fazer-se com o auxílio de uma única crítica histórica. Numa perspectiva de descobrimento dos falsos, a diplomática, cada vez mais aperfeiçoada, cada vez mais inteligente, sempre útil, repetimo-lo, é suficiente. [...]

Mais ainda do que estes múltiplos modos de abordar um documento, para que ele possa contribuir para uma história total, é importante não isolar os documentos do conjunto de monumentos de que fazem parte. Sem subestimar o texto que exprime a superioridade, não do seu testemunho mas do ambiente que o produziu, monopolizando um instrumento cultural importante, o medievalista deve recorrer ao documento arqueológico, sobretudo àquele que utiliza o método estratigráfico, ao documento – iconográfico, às provas que fornecem métodos avançados como a história ecológica, que faz apelo à fenologia, à dendrologia, à palinologia: tudo o que permite a descoberta de fenómenos in loco (a semântica histórica, a cartografia, a fotografia aérea, a foto-interpretação) é particularmente útil.

O novo documento, mais completo do que os textos tradicionais, transformado – sempre que a história quantitativa é possível e pertinente – em dado, deve ser tratado como um documento/monumento. Daí a urgência de elaborar um novo saber capaz de transferir este documento/monumento do campo da memória para o da ciência histórica ◼




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