Oficina de história: volume 1


O entre-lugar do discurso africano



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O entre-lugar do discurso africano

REIS, E. L. L. Pós-colonialismo, identidade e mestiçagem cultural: a literatura de Wole Soyinka. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999. p. 85-105.



A fronteira é ao mesmo tempo uma abertura e um fechamento. É na fronteira que acontece a distinção do e a ligação com o meio ambiente. Todas as fronteiras, inclusive as membranas dos seres vivos, inclusive as
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fronteiras das nações, são, ao mesmo tempo, não só barreiras, mas também lugares de comunicação e de intercâmbio. Elas são o lugar de desassociação e associação, de separação e articulação.

Edgar Morin

Dizem os mitos iorubás que, a princípio os deuses viviam na Terra com os homens, porém uma falta humana fez com que voltassem a seu mundo. O longo isolamento entre deuses e homens deu origem a uma barreira intransponível entre eles, uma espécie de intrincada floresta feita de matéria e não matéria. Angustiados com a sensação de incompletude devido à separação, os deuses sentiram a necessidade de se ligarem novamente aos homens. O único que conseguiu a façanha de destruir a barreira entre os mundos foi Ogum, que, usando o primeiro instrumento, feito de ferro, abriu caminho para si e para os outros deuses, restabelecendo o contato entre deuses e homens. Devido a uma falta trágica, contada em outro mito, Ogum é obrigado a repetir essa viagem anualmente em favor dos homens, mantendo sempre aberto um canal de comunicação entre os mundos.

A noção de tempo cíclico presente na viagem periódica de Ogum reflete-se no seu emblema, a serpente que morde a própria cauda, representando a condenação eterna à repetição, os ciclos contínuos de criação e destruição e a recorrência dos padrões humanos de comportamento.

A imagem da serpente e a ideia de eterno retorno estão marcadas pela noção de fatalidade inerente à figura do círculo: a serpente engole a própria cauda e um novo ciclo recomeça. Embora Soyinka [escritor nigeriano vencedor do Prêmio Nobel de 1986] chame a atenção para o fato de que não se trata do eterno retorno do mesmo, mas do retorno com uma diferença, ele sente que, para expressar com maior precisão suas ideias, a serpente de Ogum precisa ser traduzida para uma metáfora semelhante, porém mais aberta e livre. Daí sua escolha de uma imagem ocidental equivalente à serpente de Ogum para representar o sistema de pensamento iorubá e sua própria cosmovisão: a Faixa de Möbius, uma interpretação pessoal do mito de Ogum e de uma visão holística do Universo.

Geralmente representada pelo sinal grego de infinito (∞), a Faixa de Möbius indica uma sequência sem princípio nem fim, portanto, sem um centro fixo, constituindo uma perfeita imagem de descentramento e de relações não hierarquizadas. Sendo uma imagem da unidade na diversidade, a Faixa de Möbius representa o que Soyinka chama de “consciência do entrelaçamento cósmico” presente na cosmovisão africana, isto é, a consciência da interdependência entre todas as coisas e a ideia do Universo como uma rede de relações. [...]

Nas sociedades tradicionais o tempo é um fenômeno bidimensional, composto de um longo passado, o presente e, virtualmente, nenhum futuro. O conceito ocidental de tempo, representado graficamente pela flecha e caracterizado por um passado indefinido, o presente e um futuro infinito, opõe-se ao sistema de pensamento tradicional que praticamente ignora o futuro: como os acontecimentos futuros ainda não se tornaram realidade, não constituem tempo propriamente. Os eventos que certamente ocorrerão e aqueles que integram o inevitável ritmo da natureza são considerados como tempo potencial, e não real; na verdade, apenas o presente tem valor intrínseco. [...]

Também ao contrário da concepção ocidental, nas sociedades tradicionais africanas o tempo não se mostra como mudança e sucessão, mas como o contínuo fluir de um presente permanente que abrange todos os tempos. Segundo Soyinka, a cosmologia iorubá distingue três realidades simultâneas: o mundo dos vivos, o dos mortos/das divindades e o dos que ainda vão nascer. Esses três mundos não constituem entidades separadas, já que o sistema de pensamento iorubá baseia-se na simultaneidade dos tempos, o que faz com que os mortos, os vivos e os não nascidos habitem um tempo em que a periodicidade é ignorada. [...]

Como os três mundos são igualmente antigos e importantes – na verdade eles coexistem – os vários níveis de existência são percebidos como interligados, o que acaba por afetar os princípios sociais, fazendo com que um homem idoso possa se referir a uma criança como Baba (“pai” ou “ancião”) se as circunstâncias da vida dessa criança parecerem retrospectivas ou o sinal de uma reencarnação. Segundo Soyinka, esse princípio contribui para uma harmonização social, já que atenua as geralmente inflexíveis hierarquias etárias características das sociedades tradicionais.

A coexistência e a interdependência desses três mundos impedem a emergência de qualquer noção de centro. Na verdade, o fato de os mundos não serem considerados entidades distintas, está associado à visão holística do Universo, que se baseia na ideia de totalidade cósmica: o homem recebe sua essência do Grande Ancestral e com ela participa da totalidade de uma consciência universal que inclui todos os seres. A vida e a morte são partes integrantes de um continuum: o homem tem em si a essência divina que lhe confere não só a espiritualidade e o poder criativo, mas também a possibilidade de, ao findar a vida, passar para o mundo dos espíritos e então agir como uma força positiva sobre os vivos. Os mortos, os vivos e os ainda por nascer compõem a ordem cíclica eterna. O sangue, a principal força entre os vivos, une-os aos mortos, de modo que nenhuma família diminui: os ancestrais, transformados em divindades menores, ligam-se pelo sangue a seus descendentes e funcionam como seus guias e protetores. Em suma, uma comunhão, uma linha ativa de comunicação mantém os três mundos interligados: a cerimônia de libação ou invocação junta os mortos, os vivos


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e os não nascidos e, através do ritual, renova os laços que unem todos os seres.

Os rituais servem, assim, para transformar o que poderia ser um espaço intransponível entre os mundos – chamado por Soyinka de gulf ou abyss – em “canais de força”, que estabelecem uma ligação contínua entre eles. Essa concepção cosmológica depende da existência do tempo ritual, que cria um intervalo em que o passado é momentaneamente negado, suspenso ou anulado e em que o futuro ainda não começou. É essa suspensão do tempo que torna possível juntar o passado e o futuro num longo presente. [...]

Partindo da função principal de Ogum, a de mediador entre os vários níveis da existência, a relação com Soyinka é clara: sujeito cultural híbrido, Soyinka transita entre as tradições, incorporando-as e organizando-as em novas combinações. O resultado só pode ser também híbrido, como o ferro de que Ogum faz seu machado: “uma fusão de energias elementares”, “uma força que junta corpos e propriedades díspares”, como o projeto de unir as tradições africanas à tradição ocidental e, eventualmente, a outras.

Como Ogum, Soyinka se faz e trabalha na passagem, na transição, no “espaço cultural intersticial”, nas palavras de Abdul Jan Mohamed; na “liminaridade” ou “inscrição dupla”, na “dimensão internacional” da cultura, nos termos de Homi Bhabha. Afinal, na dimensão transnacional do mundo contemporâneo, diz H. Bhabha, não se pode mais opor dentro/fora. As fronteiras foram substituídas pelos espaços intersticiais “através dos quais se negociam os sentidos da autoridade cultural e política”. Assim, a função do artista e do intelectual acaba sendo funcionar como o que Gayatri Spivak e Trinh Minh-Ha chamam de shuttle, termo que pode ser tornado em seu sentido duplo, tanto como naveta ou lançadeira de máquina de tecelagem (a peça que leva o fio de um lado para o outro) quanto como veículo que faz um trajeto de ida e volta numa rota curta (shuttle bus e space shuttle, por exemplo). [...]

A descolonização faz-se, assim, não pela recusa da cultura colonial, mas pela sua “assimilação inquieta e insubordinada, antropófaga” e pela escolha de um lugar enunciativo “terceiro”: um entre-lugar. É essa posição liminar que vai caracterizar o discurso de Wole Soyinka, sujeito cultural em trânsito permanente como o orixá Ogum, num mundo construído como a cosmovisão iorubá, imagem tanto de descentramento quanto de relação. ◼






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